Nos 37 anos de sua angustiada vida, Vincent van Gogh expressou seu
desequilíbrio mental em extraordinárias pinturas em cores vivas e
pinceladas geniais.
Nascido na Holanda, era o filho mais velho de um pastor evangélico,
Vincent teve uma existência de rejeições. Trabalhou por pouco tempo
numa galeria de arte, como professor assistente, e também foi
pastor protestante. Após um longo período de intensas pesquisas,
Vincent resolveu tornar-se um artista (Quatro Estações:
O Semeador). Como escrevera mais tarde, ele desejava deixar para a
posteridade "alguma lembrança em forma de desenhos
ou pinturas — não para agradar alguém em particular, mas para
expressar um sentimento verdadeiro."
Amparado emocional e financeiramente por seu irmão mais novo,
Theo, Vincent passou sete anos trabalhando como artista
eventual em Paris, no entanto, foi no sul da França que ele
desenvolveu um estilo mais amadurecido nos últimos dois anos de
sua vida. Influenciado pelos Impressionistas e depois pelos
Fauvistas e Expressionistas, o estilo de Vincent é considerado
pós-Impressionista, mas um estilo próprio.
Em 1888, começou a sofrer de um tipo de epilepsia que o
deixava um tanto violento e propenso a ataques psicóticos. Durante uma
internação e depois de ter uma discussão com seu amigo Paul Gauguin,
Vincent cortou parte da orelha (Auto-Retrato com uma Bandagem
na Orelha). Ele passou a maior parte de seus últimos anos em clínicas
para tratamento mental e finalmente, após um surto de criatividade
quando pintou 70 quadros em algumas semanas, deu um tiro no próprio
estomago vindo a falecer dois dias depois.

~ Sobre o auto-retrato de van Gogh ~
Como Rembrandt e Goya, Vincent van Gogh tomou por modelo, com
freqüência ele mesmo; contam-se mais de 43 auto-retratos, pintados ou
desenhados, durante cerca de dez anos de trabalho. Igual a estes mestres
do passado, observa-se sem complacência, diante do espelho. Pintar a si
mesmo não é um ato insignificante: trata-se de uma interrogação que,
muitas vezes, desencadeia os distúrbios de identidade.
Assim mesmo, escreve a sua irmã: "Busco uma semelhança mais
profunda que a obtida pelo fotógrafo". E mais tarde a seu irmão:
"Dizem e acredito piamente, que não é fácil conhecer-se a si mesmo.
Mas tampouco resulta óbvio pintar-se a si mesmo. Os retratos pintados por
Rembrandt são mais que naturais, raspam de leve a revelação".
Enfocado da cintura para cima, o artista se apresenta de colete, e não
com o habitual jaleco de trabalho. Tudo contribui em concentrar a atenção
no rosto. Seus traços são duros e demarcados, seu olhar de olheiras verdes
parece intransigente e ansioso. A tonalidade dominante, verde absinto e
turquesa claro, encontram uma oposição em sua cor complementar, o alaranjado
fogo da barba e do cabelo.
Com a imobilidade do modelo, contrastam as curvas ondulantes do cabelo e
da barba, que encontram um eco amplificado nos arabescos alucinatórios do
fundo.
Pintura ao lado:
Auto-retrato, Saint-Rémy, setembro de 1889
Óleo sobre tela
65.0 x 54.0 cm
Musée d'Orsay, Paris, França