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~ Sonetos de William Shakespeare ~
1609-2009 — Sonetos de Shakespeare completam 400 anos

Os Sonetos de Shakespeare (The Sonnets) constituem uma coleção de 154 poemas
sob a forma estrófica
do soneto inglês que abordam uma galeria de temas tais como o amor, a beleza, a política e a
morte.
Foram escritos, provavelmente, ao longo de vários anos, para no final, serem
publicados, exceto os dois primeiros, em uma coleção de 1609; os número 138 ("When
my love swears that she is made of truth") e 144 ("Two loves have I, of comfort
and despair") haviam sido previamente publicados em uma coletânea de 1599
intitulada The Passionate Pilgrim.
Os Sonetos foram publicados em condições que, todavia hoje seguem sendo
incertas. Por exemplo, existe uma misteriosa dedicatória no começo do texto onde
um certo "Mr. W.H." é descrito pelo editor Thomas Thorpe como "the only begetter"
(o único inspirador) dos poemas; se desconhece quem era essa pessoa. A
dedicatória se refere também ao poeta com a igualmente misteriosa frase "ever-living",
literalmente imortal, mas normalmente aplicado a uma pessoa já morta. Mesmo que
os poemas tenham sido escritos por William Shakespeare, não se sabe se o editor
usou um manuscrito autorizado por ele ou uma cópia não autorizada.
Estranhamente, o nome do autor está dividido por um hífen na capa e no começo de
cada página da edição. Estas controvérsias têm incentivado o debate sobre a
autoria das obras atribuídas a Shakespeare.
Os primeiros 17 sonetos se dirigem a um jovem, incentivando-o a casar-se e a
ter filhos, de forma que sua beleza possa ser transmitida às gerações seguintes.
Este grupo de poemas é conhecido com o nome de procreation sonnets
(sonetos da procriação).
Os sonetos que vão do 18 ao 126 também são dirigidos a um jovem, porém agora
ressaltando o amor que é descrito com muito lirismo.
Os compreendidos entre o127 e o152 abordam temas como a infidelidade, a
resolução para controlar a luxúria, etc.
Os últimos dois sonetos, o 153 e o 154, são alegóricos.
~ Estrutura ~
Cada soneto é formado por quatro estrofes, três quartetos e um terceto final,
compostos em pentâmeros iâmbicos (o verso também usado nas obras dramáticas de
Shakespeare) com um esquema de rima abab cdcd efef gg (forma que hoje em dia é
conhecida como soneto shakespereano). Há três exceções: os sonetos 99, 126 e
145. O número 99 tem quinze versos. O 126 consiste em seis tercetos e dois
versos brancos (sem rimas) escritos em letras itálicas. Por outro lado, o 145
está em tetrâmetros iâmbicos, e não em pentâmeros. Com freqüência, o começo do
terceiro quarteto assinala a volta do verso no que o tom do poema muda, e o
poeta expressa uma revelação ou aparição.
~ Personagens ~
Três são os personagens aos que se dirigem a maioria dos sonetos: um formoso
jovem, um poeta rival e a dama morena; convencionalmente, cada um destes
destinatários é conhecido pelo sobrenome de, respectivamente, o Fair Youth, o
Rival Poet e a Dark Lady. A linguagem lírica expressa admiração pela beleza do
jovem, e que mais tarde mantém uma relação com a Dark Lady. Desconhece-se se os
poemas e seus personagens são fictícios ou autobiográficos. Se fossem
autobiográficos, as identidades dos personagens estariam abertas ao debate.
Diversos especialistas, especialmente A. L. Rowse, têm sugerido identificar os
personagens com figuras históricas.
~ Fair Youth ~
O “Fair Youth” é um jovem sem nome a quem se dirigem os sonetos que vão do 1
ao 126. O poeta descreve o jovem com uma linguagem romântica e carinhosa, um
fato que tem levado vários comentaristas a sugerir uma relação homossexual entre
os dois, considerando que outros interpretam como um amor platônico.
Os primeiro poemas da coleção não sugerem uma relação pessoal estreita; pelo
contrário, neles se recomendam os benefícios do matrimônio e de ter filhos. Com
o famoso soneto 18 ("Shall I compare thee to a summer's day": Deveria
comparar-te a um dia de verão), o tom muda dramaticamente para uma intimidade
romântica. O soneto 20 se lamenta explicitamente de que o jovem não seja uma
mulher. A maioria dos seguintes sonetos descreve os altos e baixos de um
relacionamento, culminando com um caso, digamos assim, entre o poeta e a Dark
Lady. O relacionamento parece terminar quando o Fair Youth sucumbe aos encantos
da dama.
Tem havido numerosas tentativas de se identificar o amigo misterioso. O
protetor de Shakespeare durante algum tempo, Henry Wriothesley, terceiro conde
de Southampton, é o candidato que mais vezes tem sido sugerido para essa
identificação, ainda que o último protetor de Shakespeare, William Herbert,
terceiro conde de Pembroke, foi recentemente cogitado como outra possibilidade.
Ambas as teorias estão relacionadas com a dedicatória dos sonetos a 'Mr. W.H.',
"the only begetter of these ensuing sonnets" (o único inspirador dos
seguintes sonetos): as iniciais podiam ser aplicadas a qualquer dos condes. Sem
dúvida, já que a linguagem de Shakespeare parece em certas ocasiões indicar que o
amigo seja alguém de um status social mais elevado que o deles, poderia não ser
assim. As aparentes referências à inferioridade do poeta podem ser simplesmente
partes da retórica da submissão romântica. Uma teoria alternativa, exposta no
relato de Oscar Wilde "The Portrait of Mr. W. H." aponta a uma série de
jogos de palavras que poderiam sugerir que os sonetos foram escritos para um jovem
ator chamado William Hughes (Mr. W. H.); sem dúvida, o conto de Wilde reconhece que
não há evidências da existência de tal pessoa. Samuel Butler, por sua vez,
acreditava que o amigo fosse um marinheiro, e recentemente Joseph Pequigney
('Such Is My love') sugeriu ser um desconhecido plebeu.
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| – Henry Wriothesley,
terceiro conde de Southampton: O protetor de William Shakespeare que mais vezes tem
sido sugerido para essa identificação |
~ The Dark Lady ~
Os sonetos do 127 ao 152 se dirigem a uma mulher geralmente conhecida como a
“Dark Lady”, pois de seus cabelos dizem que são pretos e de sua pele que é
morena. Estes sonetos têm um caráter explicitamente sexual, diferentemente dos
escritos ao "Fair Youth". Da leitura se percebe que o jovem dos sonetos
e a dama mantiveram uma relação apaixonada, mas que ela lhe foi infiel, possivelmente
com o "Fair Youth".
Humildemente, o poeta se descreve como calvo e de meia idade no momento da
relação.
Muito se tem imaginado em numerosas ocasiões identificar a "Dark Lady" com
personalidades históricas, tais como Mary Fitton ou a poeta Emilia Lanier, que é
a favorita de Rowse. Alguns leitores têm sugerido que a referência a sua pele
escura poderia sugerir uma origem espanhola ou mesmo africana (por exemplo, na
novela de Anthony Burgess sobre Shakespeare, Nothing Like the Sun). Outras
pessoas, pelo contrário, insistem em afirmar que a Dark Lady não é mais do que
um personagem de ficção e que nunca existiu na vida real; sugerem, afinal, que a
tonalidade da pele da dama não deve ser entendida literalmente senão como
representação do desejo pecaminoso da luxúria como oposta ao amor platônico
ideal associado com o "Fair Youth".
~ The Rival Poet ~
O poeta rival é, às vezes, identificado com Christopher Marlowe ou com George
Chapman. Sem dúvida, não há evidências contundentes de que o personagem tenha
uma correspondência com alguma pessoa real.
~ Temas ~
Os sonetos de Shakespeare são, freqüentemente, mais sexuais e prosaicos que
as coleções de sonetos contemporâneas de outros poetas. Uma interpretação disto
é que os sonetos de Shakespeare são, em parte, uma imitação ou uma paródia da
tradição de sonetos amorosos petrarquistas que dominou parte da poesia européia
durante três séculos. O que Shakespeare faz é converter a "madonna
angelicata" em um jovem ou a formosa dama em uma dama morena. Shakespeare
viola também algumas regras sonetísticas que haviam sido estritamente seguidas por
outros poetas: fala de males humanos que não tem nada a ver com o amor
(soneto 66), comenta assuntos políticos (soneto 124), faz gracejos sobre o amor
(soneto 128), parodia a beleza (soneto 130), joga com os papéis sexuais (soneto 20),
fala abertamente sobre sexo (soneto 129) e inclusive introduz engenhosos matizes
pornográficos (soneto 151).
~ Legado ~
Além de situar-se ao final da tradição sonetística petrarquista, os sonetos
de Shakespeare podem também ser vistos como um protótipo, ou inclusive como o
começo, de um novo tipo de moderna poesia amorosa. Após Shakespeare ser
descoberto durante o século XVIII — e não só na Inglaterra — os sonetos
cresceram em importância durante o século XIX.
A importância e influência dos sonetos se demonstram na inumerável série de
traduções que se tem feito deles. Até hoje, só nos países de língua germânica,
já foram feitas centenas de traduções completas desde 1784. Não há nenhuma
língua importante que não tenham sido traduzidos, incluindo o Latim, Turco,
Japonês, Esperanto, etc.; e até em alguns dialetos.


Capa da edição de 1609 dos
"Sonetos de Shakespeare"
Para ler sonetos, clique em algum tópico
listado abaixo:
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Nota: Quanto à estrutura dos sonetos, preferi mudar as regras
de composição, apresentando os poemas com dois quartetos e dois
tercetos finais. Preferi também mostrá-los aleatoriamente.
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~ Soneto 15 ~
Quando penso que tudo o quanto cresce
Só prende a perfeição por um momento,
Que neste palco é sombra o que aparece
Velado pelo olhar do firmamento;
Que os homens, como as plantas que germinam,
Do céu têm o que os freie e o que os ajude;
Crescem pujantes e, depois, declinam,
Lembrando apenas sua plenitude.
Então a idéia dessa instável sina
Mais rica ainda te faz ao meu olhar;
Vendo o tempo, em debate com a ruína,
Teu jovem dia em noite transmutar.
Por teu amor com o tempo, então, guerreio,
E o que ele toma, a ti eu presenteio.
~ Soneto 17 ~
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
~ Soneto 23 ~
Como no palco o ator que é imperfeito
Faz mal o seu papel só por temor,
Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
Vê o coração quebrar-se num tremor,
Em mim, por timidez, fica omitido
O rito mais solene da paixão;
E o meu amor eu vejo enfraquecido,
Vergado pela própria dimensão.
Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito,
Que implora amor e busca recompensa
Mais que a língua que mais o tenha feito.
Saiba ler o que escreve o amor calado:
Ouvir com os olhos é do amor o fado.
~ Soneto 53 ~
De que substância foste modelado,
Se com mil vultos o teu vulto medes?
Tantas sombras difundes, enfeixado
Num ser que as prende, e a todas sobre excedes;
Adônis mesmo segue o teu modelo
Em vã, esmaecida imitação;
A face helênica onde pousa o belo
Ganhou em ti maior coloração;
A primavera é cópia desta forma,
A plenitude és tu, em que consiste
O ver que toda graça se transforma
No teu reflexo em tudo quanto existe:
Qualquer beleza externa te revela
Que a alma fiel em ti acha mais bela.
~ Soneto 29 ~
Quando, malquisto da fortuna e do homem,
Comigo a sós lamento o meu estado,
E lanço aos céus os ais que me consomem,
E olhando para mim maldigo o fado;
Vendo outro ser mais rico de esperança,
Invejando seu porte e os seus amigos;
Se invejo de um a arte, outro a bonança,
Descontente dos sonhos mais antigos;
Se, desprezado e cheio de amargura,
Penso um momento em vós logo, feliz,
Como a ave que abre as asas para a altura,
Esqueço a lama que o meu ser maldiz:
Pois tão doce é lembrar o que valeis
Que está sorte eu não troco nem com reis.
~ Soneto 30 ~
Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado,
Afogo olhar em lágrima, tão rara,
Por amigos que a morte anoiteceu;
Pranteio dor que o amor já superara,
Deplorando o que desapareceu.
Posso então lastimar o erro esquecido,
E de tais penas recontar as sagas,
Chorando o já chorado e já sofrido,
Tornando a pagar contas todas pagas.
Mas, amigo, se em ti penso um momento,
Vão-se as perdas e acaba o sofrimento
~ Soneto 35 ~
Não chores mais o erro cometido;
Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
O sol no eclipse é sol obscurecido;
Na flor também o inseto faz seu ninho;
Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
Que te sobram razões de compensar
Com essas faltas minhas tudo quanto
Não terás tu somente a resgatar;
Os sentidos traíram-te, e meu senso
De parte adversa é mais teu defensor,
Se contra mim te excuso, e me convenço
Na batalha do ódio com o amor:
Vítima e cúmplice do criminoso,
Dou-me ao ladrão amado e amoroso.
~ Soneto 65 ~
Se bronze, pedra, terra, mar sem fim
Estão sob o jugo da mortalidade,
Como há de o belo enfrentar fúria assim
Se, como a flor, é só fragilidade?
Como há de o mel do estio respirar
Frente o cerco dos dias, que é implacável,
Se nem rochas o podem enfrentar
Nem porta de aço ao Tempo é impermeável?
Diga-me onde, horrível reflexão,
Pode o belo do Tempo se ocultar?
Seu passo é retardado por que mão?
Quem pode a ruína do belo evitar?
Só se eu este milagre aqui fizer
E a tinta ao meu amor um brilho der.
~ Soneto 91 ~
Alguns cantam seu berço, alguns talento,
Alguns riqueza, alguns seu corpo são,
Alguns as vestes, mesmo de um momento,
Alguns o seu falcão, cavalo ou cão;
Toda emoção traz seu próprio prazer,
Que uma grande alegria neste tem;
Mas não sei desse meu gáudio fazer,
Pois eu supero a todos com um só bem.
Mais que berço pra mim é o teu amor,
Mais rico que a riqueza, que tecido,
Maior do que animal é o teu valor;
Tendo a ti sou por tudo envaidecido:
Sou desgraçado só no tu poderes
Levando tudo, infeliz me fazeres.
~ Soneto 92 ~
Faz teu pior pra mim te afastares,
Enquanto eu viva tu és sempre meu,
Não há mais vida se tu não ficares,
Pois ela vive desse amor que é teu.
Por que hei de temer grande traição
Se tem fim minha vida com a menor;
De vida abençoada eu sou, então,
Por não estar preso ao teu cruel humor.
Tua mente inconstante não me afeta,
Minha vida é ligada à tua sorte;
Como é feliz o fato que decreta
Que sou feliz no amor, feliz na morte!
Porém que graça escapa de temer?
Podes ser falso e eu sequer saber.
~ Soneto 96 ~
De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.
~ Soneto 130 ~
Não tem olhos solares, meu amor;
Mais rubro que seus lábios é o coral;
Se neve é branca, é escura a sua cor;
E a cabeleira ao arame é igual.
Vermelha e branca é a rosa adamascada
Mas tal rosa sua face não iguala;
E há fragrância bem mais delicada
Do que a do ar que minha amante exala.
Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
Na música há melhor diapasão;
Nunca vi uma deusa deslizando,
Mas minha amada caminha no chão.
Mas juro que esse amor me é mais caro
Que qualquer outra à qual eu a comparo.
~ Soneto 137 ~
Que fazes a meus olhos, tolo Amor,
Que eles olham sem ver o que estão vendo?
Sabem o que é beleza, aonde for,
Mas que o melhor é mal ficam dizendo.
Se os olhos corrompidos pelo afeto
Prendem-se ao baio por todos montado,
Por que fizeste ganchos com mentiras
Aos quais meu pensamento fica atado?
Por que meu coração julga ser seu
O terreno que sabe ser de mil
Ou contesta o que viu o olho meu
Tentando tornar belo o rosto vil?
No certo olhar e coração erraram
E pro que é falso os dois se transportaram.
~ Soneto 148 ~
Ai, ai, que olhos pôs-me o amor no rosto,
Que não se ligam com a real visão!
Se ligam, onde foi o juízo posto
Que ao certo lança falsa acusação?
Se o que meu falso olhar ama é bonito
Que meios tem o mundo pra o negar?
E se o não for, pelo amor fica dito
Que o olhar do mundo vence o de se amar.
Como pode do Amor o olhar ser justo
Se entre vigília e pranto ele se verga?
E nem espanta o olhar errar de susto
Se sem céu claro nem o sol enxerga.
Esperto amor, com pranto a me cegar
Pra cobrir erros quando o amor olhar.
~ Soneto 28 ~
Como voltar alegre ao meu labor
Se não tenho a vantagem da dormida?
Se o dia tem na noite um opressor,
E a noite pelo dia é oprimida?
Mesmo inimigos ambos se mostrando,
Os dois se unem pra me torturar;
Por meu labor de ti só me afastar.
Que tu brilhas por ele eu digo ao dia,
E o alegras, se o céu fica nublado.
Mas bajulo da noite a tez sombria:
Sem astros, tu lhe dás teu tom dourado.
Mas os dias só trazem dissabores,
E as noites fortalecem minhas dores.
~ Soneto 59 ~
Se nada é novo, e o que hoje existe
Sempre foi, por falha a nossa mente
E, se esforçando por criar, insiste,
Parindo o mesmo filho novamente!
Que do passado houvesse uma mensagem,
Já com mais de quinhentas translações,
Mostrando em livro antigo a sua imagem
Quando a escrita mal tinha convenções!
Para eu ver o que então diria o mundo
Da maravilha dessa sua forma;
Se nós ou eles vamos mais ao fundo,
Ou se a revolução nada reforma.
Estou certo que os sábios do passado
A alvo pior tenham louvado.
~ Soneto 71 ~
Quando eu morrer não chores mais por mim
Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
Do mundo vil pra com os vermes morar.
E nem relembres, se estes versos leres,
A mão que os escreveu, pois te amo tanto
Que prefiro ver de mim te esqueceres
Do que o lembrar-me te levar ao pranto.
Se leres estas linhas, eu proclamo,
Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
Nem tentes relembrar como me chamo:
Que fique o amor, como a vida, acabado.
Para que o sábio, olhando a tua dor,
Do amor não ria, depois que eu me for.
~ Soneto 73 ~
Em mim tu vês a época do estio
Na qual as folhas pendem, amarelas,
De ramos que se agitam contra o frio,
Coros onde cantaram aves belas.
Tu me vês no ocaso de um tal dia
Depois que o Sol no poente se enterra,
Quando depois que a noite o esvazia,
O outro eu da morte sela a terra.
Em mim tu vês só o brilho da pira
Que nas cinzas de sua juventude
Como em leito de morte agora expira
Comido pelo que lhe deu saúde.
Visto isso, tens mais força para amar
E amar muito o que em breve vais deixar.
~ Soneto 107 ~
Medos, nem alma capaz de prever
Os sonhos de porvir do mundo inteiro,
Podem o meu amor circunscrever,
Nem dar-lhe fado triste por certeiro.
A Lua seu eclipse superou,
Os agourentos de si podem rir,
A incerteza agora se firmou,
A paz proclama olivas no porvir.
Com o orvalho dos tempos refrescado
O meu amor a própria morte prende
E em meus versos vivo consagrado,
Enquanto as tribos mudas ela ofende.
Aqui encontrarás teu monumento,
E o bronze dos tiranos vai com o vento.
~ Soneto 105 ~
Não chame o meu amor de Idolatria
Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo.
É hoje e sempre o meu amor galante,
Inalterável, em grande excelência;
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença.
"Beleza, Bem, Verdade", eis o que exprimo;
"Beleza, Bem, Verdade", todo o sentimento;
E em tal mudança está tudo o que estimo,
Em um, três temas, de amplo movimento.
"Beleza, Bem, Verdade" apenas, outrora;
Num mesmo ser vivem juntos agora.
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Bibliografia: Sparknotes: No Fear Shakespeare: The Sonnets. New York,
NY: Spark Publishing, 2004. – Colin Burrow, ed. The Complete Sonnets and
Poems, Oxford UP, 2002. – Shakespeare A to Z: The Essential
Reference to His Plays, His Poems, His Life and Times, and More.
New York: Facts on File, 1990.

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