~ Arte Poética ~


~ Sonetos de William Shakespeare ~

1609-2009 — Sonetos de Shakespeare completam 400 anos


Os Sonetos de Shakespeare (The Sonnets) constituem uma coleção de 154 poemas sob a forma estrófica
do soneto inglês que abordam uma galeria de temas como o amor, a beleza, a política e a morte.

Foram escritos, provavelmente, ao longo de vários anos, para no final, serem publicados, exceto os dois primeiros, em uma coleção de 1609; os número 138 ("When my love swears that she is made of truth") e 144 ("Two loves have I, of comfort and despair") haviam sido previamente publicados em uma coletânea de 1599 intitulada The Passionate Pilgrim.

Os Sonetos foram publicados em condições que, todavia hoje seguem sendo incertas. Por exemplo, existe uma misteriosa dedicatória no começo do texto onde um certo "Mr. W.H." é descrito pelo editor Thomas Thorpe como "the only begetter" (o único inspirador) dos poemas; se desconhece quem era essa pessoa. A dedicatória se refere também ao poeta com a igualmente misteriosa frase "ever-living", literalmente imortal, mas normalmente aplicado a uma pessoa já morta. Mesmo que os poemas tenham sido escritos por William Shakespeare, não se sabe se o editor usou um manuscrito autorizado por ele ou uma cópia não autorizada. Estranhamente, o nome do autor está dividido por um hífen na capa e no começo de cada página da edição. Estas controvérsias têm incentivado o debate sobre a autoria das obras atribuídas a Shakespeare.

Os primeiros 17 sonetos se dirigem a um jovem, incentivando-o a casar-se e a ter filhos, de forma que sua beleza possa ser transmitida às gerações seguintes. Este grupo de poemas é conhecido com o nome de procreation sonnets (sonetos da procriação).

Os sonetos que vão do 18 ao 126 também são dirigidos a um jovem, porém agora ressaltando o amor que é descrito com muito lirismo.

Os compreendidos entre o127 e o152 abordam temas como a infidelidade, a resolução para controlar a luxúria, etc.

Os últimos dois sonetos, o 153 e o 154, são alegóricos.

~ Estrutura ~

Cada soneto é formado por quatro estrofes, três quartetos e um terceto final, compostos em pentâmeros iâmbicos (o verso também usado nas obras dramáticas de Shakespeare) com um esquema de rima abab cdcd efef gg (forma que hoje em dia é conhecida como soneto shakespereano). Há três exceções: os sonetos 99, 126 e 145. O número 99 tem quinze versos. O 126 consiste em seis tercetos e dois versos brancos (sem rimas) escritos em letras itálicas. Por outro lado, o 145 está em tetrâmetros iâmbicos, e não em pentâmeros. Com frequência, o começo do terceiro quarteto assinala a volta do verso no que o tom do poema muda, e o poeta expressa uma revelação ou aparição.

~ Personagens ~

Três são os personagens aos que se dirigem a maioria dos sonetos: um bonito jovem, um poeta rival e a dama morena; convencionalmente, cada um destes destinatários é conhecido pelo sobrenome de, respectivamente, o Fair Youth, o Rival Poet e a Dark Lady. A linguagem lírica expressa admiração pela beleza do jovem, e que mais tarde mantém uma relação com a Dark Lady. Desconhece-se se os poemas e seus personagens são fictícios ou autobiográficos. Se fossem autobiográficos, as identidades dos personagens estariam abertas ao debate. Diversos especialistas, especialmente A. L. Rowse, têm sugerido identificar os personagens com figuras históricas.

~ Fair Youth ~

O “Fair Youth” é um jovem sem nome a quem se dirigem os sonetos que vão do 1 ao 126. O poeta descreve o jovem com uma linguagem romântica e carinhosa, um fato que tem levado vários comentaristas a sugerir uma relação homossexual entre os dois, considerando que outros interpretam como um amor platônico.

Os primeiro poemas da coleção não sugerem uma relação pessoal estreita; pelo contrário, neles se recomendam os benefícios do matrimônio e de ter filhos. Com o famoso soneto 18 ("Shall I compare thee to a summer's day": Deveria comparar-te a um dia de verão), o tom muda dramaticamente para uma intimidade romântica. O soneto 20 se lamenta explicitamente de que o jovem não seja uma mulher. A maioria dos seguintes sonetos descreve os altos e baixos de um relacionamento, culminando com um caso, digamos assim, entre o poeta e a Dark Lady. O relacionamento parece terminar quando o Fair Youth sucumbe aos encantos da dama.

Tem havido numerosas tentativas de se identificar o amigo misterioso. O protetor de Shakespeare durante algum tempo, Henry Wriothesley, terceiro conde de Southampton, é o candidato que mais vezes tem sido sugerido para essa identificação, ainda que o último protetor de Shakespeare, William Herbert, terceiro conde de Pembroke, foi recentemente cogitado como outra possibilidade. Ambas as teorias estão relacionadas com a dedicatória dos sonetos a 'Mr. W.H.', "the only begetter of these ensuing sonnets" (o único inspirador dos seguintes sonetos): as iniciais podiam ser aplicadas a qualquer dos condes. Sem dúvida, já que a linguagem de Shakespeare parece em certas ocasiões indicar que o amigo seja alguém de um status social mais elevado que o deles, poderia não ser assim. As aparentes referências à inferioridade do poeta podem ser simplesmente partes da retórica da submissão romântica. Uma teoria alternativa, exposta no relato de Oscar Wilde "The Portrait of Mr. W. H." aponta a uma série de jogos de palavras que poderiam sugerir que os sonetos foram escritos para um jovem ator chamado William Hughes (Mr. W. H.); sem dúvida, o conto de Wilde reconhece que não há evidências da existência de tal pessoa. Samuel Butler, por sua vez, acreditava que o amigo fosse um marinheiro, e recentemente Joseph Pequigney ('Such Is My love') sugeriu ser um desconhecido plebeu.

Henry Wriothesley, 3rd Earl of Southampton:Shakespeare's patron at twenty one years of age, one candidate for the "Fair Lord" of the sonnets.
– Henry Wriothesley, terceiro conde de Southampton: O protetor de William Shakespeare que mais vezes tem sido sugerido para essa identificação

~ The Dark Lady ~

Os sonetos do 127 ao 152 se dirigem a uma mulher geralmente conhecida como a “Dark Lady”, pois de seus cabelos dizem que são pretos e de sua pele que é morena. Estes sonetos têm um caráter explicitamente sexual, diferentemente dos escritos ao "Fair Youth". Da leitura se percebe que o jovem dos sonetos e a dama mantiveram uma relação apaixonada, mas que ela lhe foi infiel, possivelmente com o "Fair Youth".

Humildemente, o poeta se descreve como calvo e de meia idade no momento da relação.

Muito se tem imaginado em numerosas ocasiões identificar a "Dark Lady" com personalidades históricas, tais como Mary Fitton ou a poeta Emilia Lanier, que é a favorita de Rowse. Alguns leitores têm sugerido que a referência a sua pele escura poderia sugerir uma origem espanhola ou mesmo africana (por exemplo, na novela de Anthony Burgess sobre Shakespeare, Nothing Like the Sun). Outras pessoas, pelo contrário, insistem em afirmar que a Dark Lady não é mais do que um personagem de ficção e que nunca existiu na vida real; sugerem, afinal, que a tonalidade da pele da dama não deve ser entendida literalmente senão como representação do desejo pecaminoso da luxúria como oposta ao amor platônico ideal associado com o "Fair Youth".

~ The Rival Poet ~

O poeta rival é, às vezes, identificado com Christopher Marlowe ou com George Chapman. Sem dúvida, não há evidências contundentes de que o personagem tenha uma correspondência com alguma pessoa real.

~ Temas ~

Os sonetos de Shakespeare são, frequentemente, mais sexuais e prosaicos que as coleções de sonetos contemporâneas de outros poetas. Uma interpretação disto é que os sonetos de Shakespeare são, em parte, uma imitação ou uma paródia da tradição de sonetos amorosos petrarquistas que dominou parte da poesia européia durante três séculos. O que Shakespeare faz é converter a "madonna angelicata" em um jovem ou a formosa dama em uma dama morena. Shakespeare viola também algumas regras sonetísticas que haviam sido estritamente seguidas por outros poetas: fala de males humanos que não tem nada a ver com o amor (soneto 66), comenta assuntos políticos (soneto 124), faz gracejos sobre o amor (soneto 128), parodia a beleza (soneto 130), joga com os papéis sexuais (soneto 20), fala abertamente sobre sexo (soneto 129) e inclusive introduz engenhosos matizes pornográficos (soneto 151).

~ Legado ~

Além de situar-se ao final da tradição sonetística petrarquista, os sonetos de Shakespeare podem também ser vistos como um protótipo, ou inclusive como o começo, de um novo tipo de moderna poesia amorosa. Após Shakespeare ser descoberto durante o século XVIII — e não só na Inglaterra — os sonetos cresceram em importância durante o século XIX.

A importância e influência dos sonetos se demonstram na inumerável série de traduções que se tem feito deles. Até hoje, só nos países de língua germânica, já foram feitas centenas de traduções completas desde 1784. Não há nenhuma língua importante que não tenham sido traduzidos, incluindo o Latim, Turco, Japonês, Esperanto, etc.; e até em alguns dialetos.



Capa da edição de 1609 dos
"Sonetos de Shakespeare"

Para ler sonetos, clique em algum tópico listado abaixo:

  • Soneto 15
  • Soneto 30
  • Soneto 96
  • Soneto 59
  • Soneto 18
  • Soneto 35
  • Soneto 130
  • Soneto 71
  • Soneto 23
  • Soneto 65
  • Soneto 137
  • Soneto 73
  • Soneto 53
  • Soneto 91
  • Soneto 148
  • Soneto 107
  • Soneto 29
  • Soneto 92
  • Soneto 28
  • Soneto 105

  • Nota: Quanto à estrutura dos sonetos, preferi mudar as regras de composição, apresentando os poemas com dois quartetos e dois tercetos finais. Preferi também mostrá-los aleatoriamente.

    Nota 2: Os sonetos 55, 106 e 127 estão no final da página.


    ~ Soneto 15 ~

    Quando penso que tudo o quanto cresce
    Só prende a perfeição por um momento,
    Que neste palco é sombra o que aparece
    Velado pelo olhar do firmamento;

    Que os homens, como as plantas que germinam,
    Do céu têm o que os freie e o que os ajude;
    Crescem pujantes e, depois, declinam,
    Lembrando apenas sua plenitude.

    Então a idéia dessa instável sina
    Mais rica ainda te faz ao meu olhar;
    Vendo o tempo, em debate com a ruína,

    Teu jovem dia em noite transmutar.
    Por teu amor com o tempo, então, guerreio,
    E o que ele toma, a ti eu presenteio.

    ~ Soneto 18 ~

    Se te comparo a um dia de verão
    És por certo mais belo e mais ameno
    O vento espalha as folhas pelo chão
    E o tempo do verão é bem pequeno

    Às vezes brilha o Sol em demasia
    Outras vezes obscurece com frieza;
    O que é belo declina num só dia,
    Na eterna mutação da natureza.

    Mas em ti o verão será eterno,
    E a beleza que tens não perderás;
    Nem chegarás exausta ao triste inverno:

    Nestas linhas com o tempo crescerás.
    E enquanto nesta terra houver um ser,
    Meus versos ardentes te farão viver.

    ~ Soneto 23 ~

    Como no palco o ator que é imperfeito
    Faz mal o seu papel só por temor,
    Ou quem, por ter repleto de ódio o peito
    Vê o coração quebrar-se num tremor,

    Em mim, por timidez, fica omitido
    O rito mais solene da paixão;
    E o meu amor eu vejo enfraquecido,
    Vergado pela própria dimensão.

    Seja meu livro então minha eloquência,
    Arauto mudo do que diz meu peito,
    Que implora amor e busca recompensa

    Mais que a língua que mais o tenha feito.
    Saiba ler o que escreve o amor calado:
    Ouvir com os olhos é do amor o detinado.

    ~ Soneto 53 ~

    De que substância foste modelado,
    Se com mil vultos o teu vulto medes?
    Tantas sombras difundes, enfeixado
    Num ser que as prende, e a todas excedes;

    Adônis mesmo segue o teu modelo
    Em vã, esmaecida imitação;
    A face helênica onde pousa o belo
    Ganhou em ti maior coloração;

    A primavera é cópia desta forma,
    A plenitude és tu, em que consiste
    O ver que toda graça se transforma

    No teu reflexo em tudo quanto existe:
    Qualquer beleza externa te revela
    Que a alma fiel em ti acha mais bela.

    ~ Soneto 29 ~

    Quando, malquisto da fortuna e do homem,
    Comigo a sós lamento o meu estado,
    E lanço aos céus os ais que me consomem,
    E olhando para mim maldigo calado;

    Vendo outro ser mais rico de esperança,
    Invejando seu porte e os seus amigos;
    Se invejo de um a arte, outro a bonança,
    Descontente dos sonhos mais antigos;

    Se, desprezado e cheio de amargura,
    Penso um momento em vós logo, feliz,
    Como a ave que abre as asas para a altura,

    Esqueço a lama que o meu ser maldiz:
    Pois tão doce é lembrar o que valeis
    Que esta sorte eu não troco nem com reis.

    ~ Soneto 30 ~

    Quando à corte silente do pensar
    Eu convoco as lembranças do passado,
    Suspiro pelo que ontem fui buscar,
    Chorando o tempo já desperdiçado,

    Afogo olhar em lágrima, tão rara,
    Por amigos que a morte anoiteceu;
    Pranteio dor que o amor já superara,
    Deplorando o que desapareceu.

    Posso então lastimar o erro esquecido,
    E de tais penas recontar as sagas,
    Chorando o já chorado e já sofrido,

    Tornando a pagar contas todas pagas.
    Mas, amigo, se em ti penso um momento,
    Vão-se as perdas e acaba o sofrimento

    ~ Soneto 35 ~

    Não chores mais o erro cometido;
    Na fonte, há lodo; a rosa tem espinho;
    O sol no eclipse é sol obscurecido;
    Na flor também o inseto faz seu ninho;

    Erram todos, eu mesmo errei já tanto,
    Que te sobram razões de compensar
    Com essas faltas minhas tudo quanto
    Não terás tu somente a resgatar;

    Os sentidos traíram-te, e meu senso
    De parte adversa é mais teu defensor,
    Se contra mim te recuso, e me convenço

    Na batalha do ódio com o amor:
    Vítima e cúmplice do criminoso,
    Dou-me ao ladrão amado e amoroso.

    ~ Soneto 65 ~

    Se bronze, pedra, terra, mar sem fim
    Estão sob o jugo da mortalidade,
    Como há de o belo enfrentar fúria assim
    Se, como a flor, é só fragilidade?

    Como há de o mel do estio respirar
    Frente o cerco dos dias, que é implacável,
    Se nem rochas o podem enfrentar
    Nem porta de aço ao Tempo é impermeável?

    Diga-me onde, horrível reflexão,
    Pode o belo do Tempo se ocultar?
    Seu passo é retardado por que mão?

    Quem pode a ruína do belo evitar?
    Só se eu este milagre aqui fizer
    E a tinta ao meu amor um brilho der.

    ~ Soneto 91 ~

    Alguns cantam seu berço, alguns talento,
    Alguns riqueza, alguns seu corpo são,
    Alguns as vestes, mesmo de um momento,
    Alguns o seu falcão, cavalo ou cão;

    Toda emoção traz seu próprio prazer,
    Que uma grande alegria neste tem;
    Mas não sei desse meu gáudio fazer,
    Pois eu supero a todos com um só bem.

    Mais que berço pra mim é o teu amor,
    Mais rico que a riqueza, que tecido,
    Maior do que animal é o teu valor;

    Tendo a ti sou por tudo envaidecido:
    Sou desgraçado só no tu poderes
    Levando tudo, infeliz me fazeres.

    ~ Soneto 92 ~

    Faz teu pior pra mim te afastares,
    Enquanto eu viva tu és sempre meu,
    Não há mais vida se tu não ficares,
    Pois ela vive desse amor que é teu.

    Por que hei de temer grande traição
    Se tem fim minha vida com a menor;
    De vida abençoada eu sou, então,
    Por não estar preso ao teu cruel humor.

    Tua mente inconstante não me afeta,
    Minha vida é ligada à tua sorte;
    Como é feliz o fato que decreta

    Que sou feliz no amor, feliz na morte!
    Porém que graça escapa de temer?
    Podes ser falso e eu sequer saber.

    ~ Soneto 96 ~

    De almas sinceras a união sincera
    Nada há que impeça. Amor não é amor
    Se quando encontra obstáculos se altera
    Ou se vacila ao mínimo temor.

    Amor é um marco eterno, dominante,
    Que encara a tempestade com bravura;
    È astro que norteia a vela errante
    Cujo valor se ignora, lá na altura.

    Amor não teme o tempo, muito embora
    Seu alfanje não poupe nenhuma idade;
    Amor não se transforma de hora em hora,

    Antes se afirma, para a eternidade.
    Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
    Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

    ~ Soneto 130 ~

    Não tem olhos solares, meu amor;
    Mais rubro que seus lábios é o coral;
    Se neve é branca, é escura a sua cor;
    E a cabeleira ao arame é igual.

    Vermelha e branca é a rosa adamascada
    Mas tal rosa sua face não iguala;
    E há fragrância bem mais delicada
    Do que a do ar que minha amante exala.

    Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando
    Na música há melhor diapasão;
    Nunca vi uma deusa deslizando,

    Mas minha amada caminha no chão.
    Mas juro que esse amor me é mais caro
    Que qualquer outra à qual eu a comparo.

    ~ Soneto 137 ~

    Que fazes a meus olhos, tolo Amor,
    Que eles olham sem ver o que estão vendo?
    Sabem o que é beleza, aonde for,
    Mas que o melhor é mal ficam dizendo.

    Se os olhos corrompidos pelo afeto
    Prendem-se ao baio por todos montado,
    Por que fizeste ganchos com mentiras
    Aos quais meu pensamento fica atado?

    Por que meu coração julga ser seu
    O terreno que sabe ser de mil
    Ou contesta o que viu o olho meu

    Tentando tornar belo o rosto vil?
    No certo olhar e coração erraram
    E pro que é falso os dois se transportaram.

    ~ Soneto 148 ~

    Ai, ai, que olhos pôs-me o amor no rosto,
    Que não se ligam com a real visão!
    Se ligam, onde foi o juízo posto
    Que ao certo lança falsa acusação?

    Se o que meu falso olhar ama é bonito
    Que meios tem o mundo para o negar?
    E se o não for, pelo amor fica dito
    Que o olhar do mundo vence o de se amar.

    Como pode do Amor o olhar ser justo
    Se entre vigília e pranto ele se verga?
    E nem espanta o olhar errar de susto

    Se sem céu claro nem o sol enxerga.
    Esperto amor, com pranto a me cegar
    Para cobrir erros quando o amor olhar.

    ~ Soneto 28 ~

    Como voltar alegre ao meu labor
    Se não tenho a vantagem da dormida?
    Se o dia tem na noite um opressor,
    E a noite pelo dia é oprimida?

    Mesmo inimigos ambos se mostrando,
    Os dois se unem pra me torturar;
    Por meu labor de ti só me afastar.

    Que tu brilhas por ele eu digo ao dia,
    E o alegras, se o céu fica nublado.
    Mas bajulo da noite a tez sombria:

    Sem astros, tu lhe dás teu tom dourado.
    Mas os dias só trazem dissabores,
    E as noites fortalecem minhas dores.

    ~ Soneto 59 ~

    Se nada é novo, e o que hoje existe
    Sempre foi, por falha a nossa mente
    E, se esforçando por criar, insiste,
    Parindo o mesmo filho novamente!

    Que do passado houvesse uma mensagem,
    Já com mais de quinhentas translações,
    Mostrando em livro antigo a sua imagem
    Quando a escrita mal tinha convenções!

    Para eu ver o que então diria o mundo
    Da maravilha dessa sua forma;
    Se nós ou eles vamos mais ao fundo,

    Ou se a revolução nada reforma.
    Estou certo que os sábios do passado
    A alvo pior tenham louvado.

    ~ Soneto 71 ~

    Quando eu morrer não chores mais por mim
    Do que hás de ouvir triste sino a dobrar
    Dizendo ao mundo que eu fugi enfim
    Do mundo vil pra com os vermes morar.

    E nem relembres, se estes versos leres,
    A mão que os escreveu, pois te amo tanto
    Que prefiro ver de mim te esqueceres
    Do que o lembrar-me te levar ao pranto.

    Se leres estas linhas, eu proclamo,
    Quando eu, talvez, ao pó tenha voltado,
    Nem tentes relembrar como me chamo:

    Que fique o amor, como a vida, acabado.
    Para que o sábio, olhando a tua dor,
    Do amor não ria, depois que eu me for.

    ~ Soneto 73 ~

    Em mim tu vês a época do estio
    Na qual as folhas pendem, amarelas,
    De ramos que se agitam contra o frio,
    Coros onde cantaram aves belas.

    Tu me vês no ocaso de um tal dia
    Depois que o Sol no poente se enterra,
    Quando depois que a noite o esvazia,
    O outro eu da morte sela a terra.

    Em mim tu vês só o brilho da pira
    Que nas cinzas de sua juventude
    Como em leito de morte agora expira

    Comido pelo que lhe deu saúde.
    Visto isso, tens mais força para amar
    E amar muito o que em breve vais deixar.

    ~ Soneto 107 ~

    Medos, nem alma capaz de prever
    Os sonhos de porvir do mundo inteiro,
    Podem o meu amor circunscrever,
    Nem dar-lhe destino triste por certeiro.

    A Lua seu eclipse superou,
    Os agourentos de si podem rir,
    A incerteza agora se firmou,
    A paz proclama olivas no porvir.

    Com o orvalho dos tempos refrescado
    O meu amor a própria morte prende
    E em meus versos vivo consagrado,

    Enquanto as tribos mudas ela ofende.
    Aqui encontrarás teu monumento,
    E o bronze dos tiranos vai com o vento.

    ~ Soneto 105 ~

    Não chame o meu amor de Idolatria
    Nem de Ídolo realce a quem eu amo,
    Pois todo o meu cantar a um só se alia,
    E de uma só maneira eu o proclamo.

    É hoje e sempre o meu amor galante,
    Inalterável, em grande excelência;
    Por isso a minha rima é tão constante
    A uma só coisa e exclui a diferença.

    "Beleza, Bem, Verdade", eis o que exprimo;
    "Beleza, Bem, Verdade", todo o sentimento;
    E em tal mudança está tudo o que estimo,

    Em um, três temas, de amplo movimento.
    "Beleza, Bem, Verdade" apenas, outrora;
    Num mesmo ser vivem juntos agora.


    ~ Soneto 55 ~

    De mármores não sei, nem de áureos monumentos
    Que sobrevivam ao meu canto poderoso:
    O tempo mancha a pedra, enquanto em meus poemas
    Tu sempre ostentarás um brilho vigoroso.

    Quando estátuas a guerra infrene consumir
    E as próprias construções das bases arrancar,
    Não poderão espada ou fogo destruir
    Este arquivo imortal que te há de relembrar.

    Indiferente a morte e a esquecimento hás de viver,
    E encontrarás guarida o teu louvor supremo
    No olhar das gerações que se hão de suceder

    Até que o mundo atinja o seu momento extremo.
    Assim, até o Juízo em que despertarás,
    Em meus versos e no olhar dos que amam viverás.

    ~ Soneto 106 ~

    Quando na crônica do tempo que passou
    Eu leio as descrições dos seres mais formosos
    E as antigas rimas que a beleza embelezou
    Para louvar ou damas ou homens garbosos,

    Vejo que no melhor da doce formosura,
    Em mão ou pé, em lábio ou fronte, ou num olhar,
    Uma beleza tal como a que em ti fulgura
    Foi o que a pena antiga ambicionou mostrar.

    Assim, todo o louvor é apenas predição
    Do nosso tempo, pois tão-só te prefigura,
    E como o antigo olhar foi só divinação,

    Não pode levantar seu verso à tua altura.
    Mas nós, os vivos, que podemos te admirar,
    Não temos palavras que te possam celebrar.

    ~ Soneto 127 ~

    Não era a cor morena outrora achada bela,
    Ou então de beleza o nome não possuía;
    Mas da beleza a justa herdeira agora é ela,
    Pois degrada a beleza infame ousadia.

    Porque se a mão usurpa os dons da natureza
    E embeleza o feio ao dar-lhe aspecto enganador,
    Perdeu-se o nome e o templo amável da beleza,
    Que vive profanada ou mesmo em desfavor.

    Mas cabelos negros têm a amada
    E olhos muito tristes e como que a chorar
    As falsas belas que de belas não têm nada,

    Pois suprem a criação com mentiroso ar;
    E eles, chorando, tanto enfeitam sua amargura,
    Que deveria ser assim a formosura.

    __________
    Bibliografia: Sparknotes: No Fear Shakespeare: The Sonnets. New York, NY: Spark Publishing, 2004. – Colin Burrow, ed. The Complete Sonnets and Poems, Oxford UP, 2002. – Shakespeare A to Z: The Essential Reference to His Plays, His Poems, His Life and Times, and More. New York: Facts on File, 1990.

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