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Ato V Cena III
No mausoléu, entram Capuleto, Lady Capuleto e outros
CAPULETO — O que está havendo, que tanto gritam e alardeiam por toda parte?
LADY CAPULETO — O povo nas ruas grita “Romeu”, outros, “Julieta” e ainda
alguns, “Páris”; e todos correm, com altos protestos, em direção ao nosso jazigo.
PRÍNCIPE — Que pavor é esse que nos fere os ouvidos?
1.° GUARDA — Meu soberano, aqui jaz, assassinado, o conde Páris, Romeu está
morto. E Julieta, antes, falecida, tem o corpo quente e está recém-morta.
PRÍNCIPE — Procurem, investiguem e esclareçam como aconteceram essas mortes infames.
1.° GUARDA — Aqui temos um frei e o criado do defunto Romeu, com ferramentas
próprias para abrir as tumbas desses mortos.
CAPULETO — Ó céus! — Esposa, olha como nossa filha sangra! Esse punhal
enganou-se... pois, olhe sua verdadeira morada está vazia nas costas de
Montéquio... e encontrou bainha errada no peito de minha filha.
LADY CAPULETO — Ó não! Esta visão da morte é como um sino que me vem advertir
de minha velhice, seduzindo-me para uma sepultura.
PRÍNCIPE — Chega perto, Montéquio, pois foste assim tão cedo acordado para
ver teu filho e herdeiro assim tão cedo deitado.
MONTÉQUIO — Senhor! Meu soberano, minha esposa morreu esta noite passada. A
dor pelo exílio de meu filho tirou-lhe o sopro da vida. Que outro pesar conspira
contra a minha idade?
PRÍNCIPE — Olha e verás.
MONTÉQUIO — Ah, filho indisciplinado! Que modos são esses, baixando a uma
sepultura antes de teu pai?
PRÍNCIPE — Calem vossos sentimentos ultrajados por uns instantes, até que
possamos esclarecer essas ambigüidades e delas saber as fontes, a nascente, seu
verdadeiro curso, e então serei o comandante de vossas aflições e os liderarei,
nem que seja até a morte. Neste meio tempo, contenham-se e deixem que o
infortúnio seja escravo da paciência, — tragam-me os suspeitos.
FREI LOURENÇO — Deles sou o maior, embora o mais fraco. No entanto, sou o
principal suspeito, posto que a hora e o local conspiram contra mim, no caso
dessas terríveis mortes. E aqui me coloco perante vós para me censurar e para me
justificar, eu próprio por mim condenado e absolvido.
PRÍNCIPE — Então diga de uma vez o que sabe sobre esse caso.
FREI LOURENÇO — Serei breve, pois o pouco tempo que me sobra de vida é mais
curto que uma história longa demais. Romeu, ali morto, era o marido daquela,
Julieta; e ela, ali morta, a esposa fiel desse Romeu. Eu os casei, e o dia
secreto das núpcias foi o dia da morte de Teobaldo, cujo precoce fim baniu desta
cidade o noivo recém-casado. Por ele, e não por Teobaldo. Julieta definhava. O
senhor, no intuito de dar fim ao estado de dor de sua filha, arranjou-lhe um
contrato de casamento, e a queria casada à força com o conde Páris... Então ela
recorre a mim e, com olhar desvairado, suplica-me que invente algum meio de
livrá-la desse segundo matrimônio. Caso contrário, suicida-se ali mesmo, em
minha cela. Assim foi que lhe dei, instruído por minha arte, uma poção
soporífera, que teve o exato efeito por mim desejado, pois forjou nela a
aparência da morte. Nesse meio tempo, escrevi a Romeu para que ele viesse a
Verona na data desta noite de horrores para ajudar-me a tirar Julieta de sua
falsa sepultura, pois então seria chegada a hora em que o efeito da poção
cederia. Porém, o portador de minha correspondência, Frei João, ficou detido em
Verona por acidente; e, ontem à noite, devolveu-me a carta. Aconteceu então que
eu, sozinho, à hora prevista para o despertar de Julieta, vim até aqui para
tirá-la da cripta de sua família, com o intuito de mantê-la em segredo em minha
cela até que eu pudesse oportunamente mandar chamar Romeu. Mas quando aqui
cheguei... alguns minutos antes da hora de seu despertar... já estavam mortos o
nobre Páris e o fiel Romeu. Ela desperta. E eu lhe peço encarecidamente que vá
embora, e que suporte com paciência essa obra do destino. Mas então um barulho
afugentou-me da tumba; e ela, desesperada ao extremo, não me acompanhou. Ao que
parece, usou de violência contra si mesma. Isso é tudo o que sei. Quanto ao
casamento secreto, a ama de Julieta estava a par. Se alguma coisa deu errado por
minha culpa, que se sacrifique esta minha vida provecta a qualquer hora antes de
seu tempo. Sob o rigor da mais severa lei.
PRÍNCIPE — O senhor sempre foi reconhecidamente um homem santo. Onde está o
criado de Romeu? O que pode ele nos dizer sobre isso?
BALTASAR — Levei ao meu amo a notícia da morte de Julieta, e ele, na maior
pressa, veio de Mântua até aqui, este lugar, este jazigo. Esta carta ele me
pediu que a entregasse a seu pai. E, ao entrar na cripta, ameaçou-me de morte
caso eu não fosse embora e o deixasse só.
PRÍNCIPE — Dá-me a carta. Quero ver o que diz. Onde está o pajem do conde,
que chamou a Guarda? — O que fazia teu amo neste lugar?
PAJEM — Ele trouxe flores para com elas enfeitar o túmulo de sua noiva e
ordenou-me que ficasse ao longe, o que eu fiz. Logo chegou alguém, munido de
luz, para abrir a tumba. Dali a pouco meu amo sacou da espada contra ele. Então
saí correndo para chamar a Guarda.
PRÍNCIPE — Esta carta confirma as palavras do Frei: o andamento do amor dos
dois, a notícia da morte de Julieta, e aqui ele escreve que comprou veneno de um
pobre boticário, depois do que veio até à cripta, para morrer e deitar-se com
Julieta. — Onde estão os inimigos? — Capuleto! — Montéquio! — Vejam que maldição
recaiu sobre o ódio de vocês, que até mesmo os céus encontraram meios de matar,
com amor, as vossas alegrias! E eu, por fechar meus olhos às vossas discórdias,
Também perdi dois de minha família. Fomos todos punidos.
CAPULETO — Ah, irmão Montéquio, dê-me sua mão. Este é o legado de minha
filha, e nada mais tenho a oferecer.
MONTÉQUIO — Mas eu posso oferecer-lhe mais: mandarei construir uma estátua de
Julieta em ouro maciço. Enquanto Verona for o nome de nossa cidade, nenhuma
imagem terá tanto valor quanto a de Julieta, digna e fiel.
CAPULETO — Pois a estátua de Romeu, também em ouro, estará ao lado da de sua
esposa. Infelizes vítimas de nossa inimizade!
PRÍNCIPE — Melancólica paz nos traz esta manhã. O sol, de luto, não se
mostrará. Embora daqui, vão, e conversem mais sobre esses tristes fatos. Alguns
serão perdoados, e outros, punidos, pois jamais houve história mais dolorosa que
esta de Julieta e seu querido Romeu.
(Saem)

~ William Shakespeare ~
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