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William Shakespeare nasceu em
Stratford-upon-Avon, a cinqüenta quilômetros de Londres, em abril de 1564. Não
há registro de seu nascimento, mas existe na igreja local o registro de seu
batismo, em 26 de abril. Na época, por ser alto o índice de mortalidade de
recém-nascidos, as crianças normalmente eram batizadas com dois ou três dias de
vida. Dessa forma foi estabelecido, então, o dia 23 de abril como a data de seu
nascimento. Seus pais chamavam-se John Shakespeare e Mary Arden.
William era neto de fazendeiros, e seu pai era um próspero comerciante de
couros que chegou a ser vereador na cidade de Stratford-upon-Avon (o nome indica
que a cidade se localizou às margens do rio Avon). William foi o terceiro filho
de John e Mary, porém o primeiro que chegou à idade adulta. Londres e as regiões
próximas, à época, eram constantemente assoladas por epidemias de peste, e as
duas irmãs mais velhas de William morreram ainda crianças.
Tudo que se sabe da juventude de Shakespeare é que ele provavelmente estudou
na Stratford Grammar School, onde teria aprendido gramática e literatura latina.
Grande parte de sua obra demonstra conhecimento do teatro romano, da história
antiga e da mitologia clássica.
Não há registro de que Shakespeare tenha ido para a universidade. Sabe-se que
William casou-se com Anne Hathaway, oito anos mais velha que ele. Anne estava
grávida de três meses, e William, que estava com dezoito anos de idade, precisou
de uma autorização especial para se casar, provavelmente na Temple Gafton Church.
Antes de completar 21 anos William já era pai de três crianças, sendo que duas
eram um casal de gêmeos. Houve especulação de que fora um casamento sem amor e
de que o relacionamento de William com a esposa estava longe de ser um mar de rosas.
No entanto, William sempre permaneceu leal — se não fiel — a Anne durante
toda a vida, não tendo deixado nunca de visitá-la regularmente, depois que se
mudou para Londres.
Nada se sabe sobre o período compreendido entre o nascimento dos gêmeos e a
ascensão de William Shakespeare como ator, poeta e dramaturgo, em 1592. No
entanto cogita-se que ele teria fugido de Stratford para Londres para escapar de
um processo por ter caçado um animal em propriedade particular, e também que teria feito parte de um grupo de atores itinerantes e trabalhado como professor
numa escola rural.
Em 1594 Shakespeare ingressou na companhia teatral de Lord Chamberlain, que
mais tarde, no reinado de James I, receberia o nome de King’s Men (Homens do Rei).
Shakespeare permaneceu nessa companhia teatral até o final de sua carreira em
Londres. Presume-se que como ator, ele tenha representado o papel de personagens
idosos, como o fantasma em Hamlet e o velho Adam em As You Like It (comédia de 1599).
Em 1596 a família de Shakespeare recebeu um brasão de armas, e em 1597 a
condição financeira de William lhe permitiu adquirir uma imponente residência em
Stratford, onde ele viveria até o fim da vida.
Em 1599 tornou-se um dos sócios-proprietários do Globe Theatre, e em 1608
também foi sócio do Blackfriars Theatre. Em 1613 Shakespeare se aposentou e
retornou a Stratford, depois que ocorreu um incêndio no Globe durante uma
apresentação.
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Lady Macbeth, enlouquecida pela culpa |
É graças à petulante declaração de um dramaturgo rival, Robert Greene, que hoje se sabe que em 1592 Shakespeare já adquirira reputação como ator e
escritor. Numa publicação que circulava à época, Greene referiu-se a ele como
“uma gralha emergente”.
O trabalho inicial de Shakespeare para o teatro foi interrompido por uma
epidemia de peste em Londres que levou as autoridades a fechar os teatros.
Nesse período, apoiado por Henry Wriothesley, prestigiado conde de
Southampton, ele escreveu dois poemas narrativos eróticos: Vênus e Adônis, em
1593, e O Rapto de Lucrécia, em 1594, além de 154 sonetos — publicados em 1609,
embora já circulassem anteriormente em forma de manuscrito —, que expressavam
agitação, frustração, homossexualismo e masoquismo. Essas obras estabeleceram a
reputação de Shakespeare como um talentoso e popular poeta da Renascença.
Houve mais sessões especiais para apresentação das peças de Shakespeare nas
cortes da rainha Elizabeth I e do rei James I do que para qualquer outro
dramaturgo. Certa vez, porém arriscou-se a perder as boas graças da corte
quando, em 1559, sua companhia teatral apresentou “a peça de destruição e
assassinato do rei Ricardo II”, a pedido de um grupo de conspiradores contra a
rainha Elizabeth. No inquérito que se abriu, a companhia foi absolvida de
cumplicidade na conspiração.
Por volta de 1608 a produção dramática de Shakespeare diminuiu, e ele começou
a passar mais tempo na residência da família em Stratford, onde desfrutava uma
vida confortável, embora nunca tenha sido um homem rico.
Shakespeare foi pai de duas filhas. De Judith, a mais nova, não aprovava o
namoro com Thomas Quiney, quatro anos mais jovem que ela e dono de uma taberna
em Stratford. E não era sem motivo, pois, já comprometido com Judith, Thomas
tinha um caso com uma mulher que morreu ao dar à luz a seu filho, na época do
casamento com Judith. Shakespeare chegou a alterar seu testamento para que
Thomas não pudesse se beneficiar da herança, cuja maior parte ficou para filha
Suzanna, que foi quem deu a Shakespeare sua única neta Elizabeth,
As histórias sobre a morte de Shakespeare não são comprovadas. A mais
conhecida delas é a de que ele teria contraído uma febre fatal após um banquete
com seus amigos escritores Michael Drayton e Ben Jonson. O registro de seu
sepultamento data de 25 de abril de 1616, quando acabara de completar 52 anos.
A obra de Shakespeare é dividida em quatro períodos: o primeiro, até 1594; o
segundo, de 1594 a 1600; o terceiro, de 1600 a 1608; e o quarto, após 1608. Ao
longo desse tempo o estilo de Shakespeare evoluiu da retórica barroca ao lirismo
despojado.
O primeiro período foi caracterizado, até certo ponto, pela construção formal
e versos estilizados. Estava em voga na época o gênero de peça histórica, e
Shakespeare escreveu os afrescos Henrique VI entre 1589 e 1592 e Ricardo III
entre 1592 e 1593. Também se destacam nesse período as comédias ligeiras. A
comédia de Erros, de 1592, A Megera Domada, escrita entre 1593 e 1594, e Os Dois
Cavalheiros de Veneza, de 1594, além da tragédia Tito Andrônico, de 1593/1594.
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Alegoria de "Sonhos de uma noite de verão"
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No segundo período o estilo e a abordagem de Shakespeare se tornaram
altamente individualizados. Foi quando escreveu as peças históricas Ricardo II,
Henrique IV e Henrique V, as comédias Sonhos de Uma Noite de Verão, em 1595, O
Mercador de Veneza, em 1596, Muito Barulho por Nada, em 1598, e As Alegres
Comadres de Windsor, em 1600. Desse período são também as tragédias Romeu e
Julieta, de 1594/1595, e Júlio César, de 1599.
As tragédias escritas no terceiro período são consideradas obras de maior
profundidade de Shakespeare. Nelas ele usa a linguagem poética como um
instrumento extremamente dramático, capaz de registrar o pensamento e as várias
dimensões de determinadas situações dramáticas entre 1601 e 1606 escreveu
Hamlet, Otelo, Macbeth e Rei Lear. São também desse período as comédias Tróilo e
Créssida, Tudo Está Bem Quando Acaba Bem e Medida por Medida.
O quarto período é o do equilíbrio. Nele destacam-se as principais
tragicomédias românticas do escritor: Tímon de Atenas, Cimbelina, Conto de
Inverno e A Tempestade.
Nesse período Shakespeare escreveu também as peças históricas Antônio e
Cleópatra e Coriolano.
Na opinião de muitos pesquisadores, as tragicomédias significam o auge do
amadurecimento de William Shakespeare, embora uma outra linha considere que essa
evolução reflete simplesmente as mudanças de estilo no drama daquele período.
A obra dramática de Shakespeare junta uma visão poética e refinada com um
forte caráter popular, no qual os assassinatos, as violações, os incestos e as
traições são os ingredientes mais leves para o divertimento do público. Além
disso, na época de Shakespeare os palcos consistiam em uma plataforma elevada ao
redor da qual o público se sentava como em uma arena. E a utilização dos temas
antigos também contribuía para que os personagens de Shakespeare falassem ao
coração da platéia.
Já houve cerca de trezentas adaptações das peças de Shakespeare para o
cinema, entre elas diferentes versões de Hamlet, Otelo, Romeu e Julieta, Macbeth, Júlio César, Rei Lear e Sonho de Uma Noite de Verão.
Até hoje suas peças são representadas nos teatros do mundo inteiro, sempre
com muito sucesso.
Shakespeare é sempre atual. Sua mensagem atinge todas as classes sociais,
religiões, ideologias políticas e estados da alma. Ele festeja o amor, os
manjares, a bebida, a música, a amizade, a conversação e a beleza variável e
constante da Natureza. O homem que Shakespeare apresenta reflete sua
experiência, senso comum e invulgar sabedoria.
Shakespeare sabia manejar a língua com inigualável mestria. A forma como
falava de uma coisa fazia com que ela se materializasse. Condensava o Universo
em monossílabos: “Ser ou não ser” é a questão mais complexa e profunda que se
põe ao ser humano, traduzida pelas palavras mais curtas e simples. Sabia como
tocar a nossa alma.
Assim como nos conduz aos limites da eternidade. Shakespeare remete-nos para
o comum da Humanidade. Ante o cadáver de Cordélia, o Rei Lear, atormentado pela
dor, exclama: “Como é possível que um cão, um cavalo e um rato tenham vida,
enquanto tu jazes inerte?”. No auge do seu desespero, diz: “Não voltarás mais”.
E acrescenta: “Nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais, nunca mais!”. Em
seguida, o dique que represava sua angústia cede com este pedido prosaico: “Por
favor, desaperta-me este botão”.
Só mesmo William Shakespeare poderia ter ousado empregar conceitos tão
díspares em um momento tão dramático. Shakespeare sobrevive porque a seu
respeito só se consegue dizer a penúltima palavra — nunca a última.
Todas as épocas e todos os homens encontram sua imagem refletida no espelho
universal de Shakespeare. Os ecos da sua paixão e da sua poesia ressoam no nosso
espírito — e assim será, certamente, ainda por muito tempo.
~ Arnaldo Poesia ~
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Bibliografia: Complete Works of William Shakespeare, Wordsworth Edition Limited, Hertfordshire,
England, 1996. – Charles Boyce. Shakespeare A to Z: The Essential Reference to His Plays,
His Poems, His Life and Times, and More. New York: Facts on File, 1990.

~ Galeria Shakespeare ~
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Arte Dramática:
Um Estudo Sobre Hamlet
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Montagues
e Capuletos, diante de Romeu e Julieta
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Julieta esperando
por Romeu |

Romeu e Julieta. Cena do balcão |
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Nota: A pintura de Shakespeare, no começo da página,
é atribuída a John Taylor, c. 1610. O quadro é chamado de “Chandos
Shakespeare” porque uma vez ele pertenceu ao duque de Chandos.

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