Heu! sputa,
alapoe, verbera,
vulnera,
Clavi, fel,
aloe, spongia,
lancea,
Sitis, spina,
cruor, quam
varia pium
Cor pressere
tyrannide!
(Hino de Matinas
do Ofício das
Sete Dores de
Nossa Senhora.)

ANTÍFONA
Volvo o
rosto para o teu
afago,
Vendo o consolo
dos teus olhares...
Sê propícia para
mim que trago
Os olhos mortos
de chorar
pesares.
A minha Alma,
pobre ave que se
assusta,
Veio Encontrar o
derradeiro asilo
No teu olhar de
Imperatriz
augusta,
Cheio de mar e
de céu tranqüilo.
Olhos piedosos,
palmas de
exílios,
Vasos de goivos,
macerados vasos!
Venho pousar à
sombra dos teus
cílios,
Que se fecham
sobre dois
ocasos.
Volto o peito
para as tuas
Dores
E o coração para
as Sete Espadas...
Dá-me, Senhora,
para os teus
louvores,
A paz das Almas
bem-aventuradas.
Dá-me, Senhora,
a unção que
nunca morre
Nos pobres
lábios de quem
espera:
Sê propícia para
mim, socorre
Quem te adorara,
se adorar pudera!
Mas eu, a poeira
que o vento
espalha,
O homem de carne
vil, cheio de
assombros,
O esqueleto que
busca uma
mortalha,
Pedir o manto
que te envolve
os ombros!
Adorar-te,
Senhora, se eu
pudesse
Subir tão alto
na hora da
agonia!
Sê propícia para
a minha prece.
Mãe dos aflitos...
Ave, Maria.


PRIMEIRA DOR
Et tuam ipsius
animam
pertransit
gladius...
São Luc., II, 35
I
Nossa Senhora
vai... Céu de
esperança
Coroando-lhe o
perfil judaico e
fino...
E um raio de
ouro que lhe
beija a trança
É como um grande
esplendor
divino.
O seu olhar,
tão cheio de
ondas, lança
Clarões
longínquos de
astro vespertino.
Sob a túnica
azul uma alva
Criança
Chora: é o
vagido de Jesus
Menino.
Entram no
Templo. Um hino
do Céu tomba.
Sobre eles paira
o Espírito
celeste
Na forma etérea
de invisível
Pomba.
Diz-lhe o
velho Simeão:
"Por uma Espada,
Já que Ele te
foi dado e que O
quiseste,
A Alma terás,
Senhora,
traspassada...
II
Sofrer por
Ele! E pálida,
ofegante,
Nossa Senhora
aperta-O contra
o seio.
E nas linhas
tranqüilas do
semblante
Descem-lhe
nuvens de
magoado anseio.
Sofrer por
Quem! Ventura
semelhante,
Só a um peito
como o seu de
estrelas
cheio...
Sofrer por Esse
que do Céu
distante
Na voz do
Arcanjo do
Senhor lhe veio...
Que lhe
importavam
lágrimas sem
brilho,
Nessas horas de
paz erma e
saudosa,
Se ela chorava
por seu próprio
Filho...
Sofrer pela
amargura dessa
Boca,
E aos Pés
depor-lhe a vida
desditosa,
Vida que eterna
ainda seria
pouca!
III
Que lhe
importavam
lágrimas?
Chorasse
Desde o nascer
do sol até o sol
posto;
Tivesse prantos
quando a lua
nasce,
Quando, entre
nuvens, ela
esconde o rosto.
Junto ao seu
Berço, a
contemplar-lhe a
Face,
De Mãe Divina no
sublime posto,
Temendo que uma
estrela O
despertasse,
Gozo teria no
maior desgosto.
Por Ele toda
a mágoa sofreria...
Ah! corresse-lhe
em fonte ardente
o pranto
Na paz da noite
e nos clarões do
dia.
Sofrer por
Ele... Sim. Tudo
por Esse
A quem beijava
os Olhos, mas
contanto
Que Ele, o seu
Filho amado, não
sofresse!
V
Pudesse ela
poupar-lhe o
sofrimento,
Adivinhar-lhe as
dores e os
pesares,
Ter poeiras de
astros para o
mal sedento,
Ter bons olhares
para os maus
olhares...
De repente,
num rútilo
momento,
Na Alma surgiu-lhe
uma visão de
altares:
Era a grandeza
do seu
Nascimento
No Lar eleito em
meio de outros
lares...
Mas que
fizera para
tanta glória,
Sentir a Deus
chamá-la Mãe
querida,
Ela, mulher,
como as demais
corpórea?
E a aparição
daquele Arcanjo
etéreo,
Que lhe
anunciara a nova
prometida,
Engrinaldou-lhe
a fronte de
mistério...
VII
Em teu louvor,
Senhora, estes
meus versos,
E a minha Alma
aos teus pés
para cantar-te,
E os meus olhos
mortais, em dor
imersos,
Para seguir-lhe
o vulto em toda
a parte.
Tu que
habitas os
brancos
universos,
Envolve-me de
luz para
adorar-te,
Pois evitando os
corações
perversos
Todo o meu ser
para o teu seio
parte.
Que é
necessário para
que eu resuma
As Sete Dores
dos teus olhos
calmos?
Fé, Esperança,
Caridade, em
suma.
Que me chegue
em breve o passo
derradeiro:
Oh! dá-me para o
corpo os Sete
Palmos,
Para a Alma, que
não morre, o Céu
inteiro!


SEGUNDA DOR
... Angelus Domini apparuit in somnis Joseph...
Qui consurgens accepit puerum et matrem
ejus nocte, et secessit in Aegyptum.
S. Matth., II, 13-14
I
Eram pastores rudes e pastoras
Que o sol do Oriente em beijos enrubesce,
E transforma em visões encantadoras
Na suavidade da alva que amanhece:
Eram bandos de velhos, e de louras
Crianças gentis, as mãos postas em prece,
Frontes humildes, Almas sonhadoras,
Por onde a benção do Senhor floresce:
Era a sublime adoração do povo,
À luz daquele celestial Presepe,
Diante do leito de um menino novo:
Diante do leito em que Ele adormecia,
Hoje de flores, amanhã de crepe,
Berço de Deus, Santo-Sepulcro um dia...
VI
Mãos que os lírios invejam, mãos eleitas
Para aliviar de Cristo os sofrimentos,
Cujas veias azuis parecem feitas
Da mesma essência astral dos olhos bentos:
Mãos de sonho e de crença, mãos afeitas
A guiar do moribundo os passos lentos,
E em séculos de fé, rosas desfeitas
Em hinos sobre as torres dos conventos:
Mãos a bordar o santo Escapulário,
Que revelaste para quem padece
O inefável consolo do Rosário:
Mãos ungidas no sangue da Coroa,
Deixai tombar sobre a minha Alma em prece
A benção que redime e que perdoa!
VII
Doce consolação dos infelizes,
Primeiro e último amparo de quem chora,
Oh! dá-me alívio, dá-me cicatrizes
Para estas chagas que te mostro agora.
Dá-me dias de luz, horas felizes,
Toda a inocência das manhãs de outrora:
As colunas de nuvens em que pises
Transformam-se em clarões de fim de aurora.
Tu que és Rosa branca entre os espinhos,
Estrela no alto mar e torre forte,
Vem mostrar-me, Senhora, os bons caminhos.
Que ao meditar as tuas Sete Dores,
Eu sinto na minha alma a dor de morte
Dos meus pecados e dos meus terrores...


TERCEIRA DOR
Fili, quid fecisti nobis sic? ecce pater tinus
et ego dolentes quaerebamus te.
S. Luc., II, 48
V
Mendigo mas do teu Amor sublime,
Que ao pungente fulgor das Sete Espadas
Vem relembrar o inolvidável crime,
Através das esferas consteladas...
Fé, Esperança, Caridade, ungi-me,
Ó bênçãos da maior das Bem-Amadas!
Que eu me eleve a esse Amor que nos redime,
Ao clarão das virtudes consagradas...
Como a estrela de Efrata na sombria
Degolação dos Santos Inocentes,
Olhos, chorai as Dores de Maria.
E se dado vos for chorá-las, tanto
Que em lágrimas cegueis, mudas e crentes,
Bendita seja a noite desse pranto!


QUARTA DOR
Et bajulans sibi crucem, exivit in eum
qui dicitur Calvarie locum...
S. Joan., XIX, 17
IV
Nossa Senhora encontra-O... Se não fora
O eterno sopro que do Céu lhe vinha,
Diante dessa visão contristadora,
Certo caíra a pálida Rainha.
É Ele, o seu Filho amado: a luz que doura
O seu cabelo, é sangue: linha a linha,
É sangue o rosto: e a barba, que entre loura
E negra está, clarões de sangue tinha.
Verga-lhe as Pernas o Madeiro: os braços
A sua Mãe estende-lhe, chorando,
Ante a incerteza dos seus pobres Passos.
Sob irrisórios aparatos régios,
Tudo se apronta para o mais nefando,
Para o mais infernal dos sacrilégios...
V
Se puderas, Senhora, nesse instante
Tomar-lhe a Cruz que os Ombros lhe crucia,
E levando-a, seguir agonizante
Pela santa montanha da agonia...
Com que sorriso excelso no semblante,
Por entre sombras de melancolia,
Das nuvens sob o pálio suavizante,
A tua Alma de mãe não seguiria!
Oh Porta celestial do Paraíso,
Ante a esperança dos teus olhos venho
Mover-te à compaixão de que preciso.
Possa eu, Poeta da morte, Alma de assombros,
Um dia carregar o santo Lenho
Sobre o esqueleto dos meus frágeis ombros!
VI
Magnificat anima mea Dominum...
"Bendita sois entre as mulheres!" Puras
Irradiações de salmos encantados
De glória a ti, Senhora, nas alturas,
Por séculos de séculos sagrados.
Vejo, no entanto, as tuas Amarguras...
Senhora, que há de ser dos desgraçados,
Se tu, a mais feliz das criaturas,
Tens os olhos em lágrimas banhados?
Feliz, bem sei, pois és quem Deus mais ama...
"Donde me vem que a Mãe do Verbo eterno
Me venha a mim?" Santa Isabel exclama.
Passa-te na Alma a inspiração sublime:
E dos teus lábios desce o brando e terno
Hino que a glória da tua Alma exprime...


QUINTA DOR
Ubi crucifixerunt eum, et cum eo alios duos
hinc et hinc, medium autem Iesum.
S. Joan., XIX, 18
II
E tu, Senhora, cujo olhar tranqüilo
De nuvens brancas a minha Alma veste,
Olhar sublime que foi tudo aquilo
Que no Céu encontrei de mais celeste:
Tu, ermida sagrada onde me exilo,
Longe da fome, e sede, e guerra, e peste,
A mostrar-me no Céu, para segui-lo,
Todo o luar da esperança que me deste:
Mãe dolorosa! num momento incerto
Virás abrir-me os rútilos sacrários
De tua Alma que está de Deus tão perto...
Virás, talvez, e então, por certo, as minhas
Mãos de sombra debulharão rosários
Para a maior de todas as Rainhas...
III
De mim piedade vós tereis. Bem ledes
Que espero o que jamais me será dado...
Mas a minha Alma é um templo sem paredes
Em que penetra o sol de cada lado.
Com os vossos olhos sinto que vós vedes
A desgraça em que vivo encastelado...
Oh as sedes siderais! Eternas sedes
Suavizadas no mundo constelado.
Mas com que amor cheio de unção e glória
Convosco chorarei as vossas Dores
Na outra vida e na vida transitória...
E possa eu ver-vos, na hora das Trindades,
Tendo aos pés, em etéreos resplendores,
Tronos, Dominações e Potestades...
IV
Pois sede teve o vosso FIlho na hora
Em que Vós, e Elas, a seus Pés vos vistes,
Certo coroadas por suprema aurora,
Mas todas três tão pálidas, tão tristes...
O seu Olhar, cheio de dor, não chora,
Resignado ante as Dores que sentistes,
Vós, torre de marfim, santa Senhora,
Alma que em pranto astral vos diluístes!
E então secos os Lábios, a Garganta
Em fogo, é o instante do cruel martírio:
"Sede"! geme-lhe a Voz que se quebranta.
Na ponta de uma lança ergue-se a Esponja:
Mais se enlanguesce a vossa cor de lírio,
E esse perfil que predizia a monja...


SEXTA DOR
Joseph autem mercatus sindonem
et deponens eum envolvit sindone...
S. Marc., XV, 46
II
O teu nome, Senhora, é a estrela da alva
Que entre alfombras de nuvens irradia:
Salmo de amor, canto de alívio, e salva
De palmas a saudar a luz do dia...
Pela primeira vez, quando a veste alva
A mão do Sacerdote me vestia,
Ouvi-o: e na hora batismal, oh! salva
A alma que o santo nome repetia...
Foram-se os anos... e sonho que me segue
A doçura infinita dos teus olhos
Que me dão luzes para que eu não cegue:
Doce clarão de estrela em fins da tarde,
Que há de encontrar-me trêmulo, de giolhos,
Com remorsos de te adorar tão tarde...
IV
E recebeste-O nos teus braços. Vinha
Do alto do Lenho onde estivera exposto
Ao ímpio olhar, tão ímpio! da mesquinha
Multidão que insultava o santo Rosto...
Sangue o Peito suavíssimo continha,
Num resplendor de raios de sol posto...
Oh! Vinha do Senhor, excelsa Vinha
Em cachos siderais de etéreo mosto!
Sangue que se derrama em ondas, sangue
Que para a salvação dos homens, corre
Purpureamente brando, e O deixa exangue...
E que correndo como então corria,
Por toda a eternidade nos socorre
No mistério eternal da Eucaristia...


SÉTIMA DOR
... et posuit eum in monumento quod
erat excisum de petra.
S. Marc., XV, 46
I
Só! e ao redor de ti, Senhora, olhaste:
Gemia a solidão de extremo a extremo.
E o infinito silêncio interrogaste
Com a clemência do teu olhar supremo.
Goivos tristes penderam, suaves, da haste,
Orvalhados na dor do pranto extremo,
Os mesmos olhos com que tu choraste
Quando ouviste rugir o ódio blasfemo.
Asas de cisne, além, pairava, incerto,
O ermo clarão do luar sobre o deserto,
Indefinido e irial, dos olhos teus...
Virgem da Soledade, ancila triste,
Ah! quem dissera a mágoa que sentiste:
Ser do Céu e viver longe de Deus!
V
Havias, pois, de vê-Lo, muito em breve,
Na suprema hierarquia do infinito,
No trono de ouro nacarado em neve,
Sublime e santo, como estava escrito.
Mas, agora, choravas. E que leve
Véu te enublava o olhar nos astros fito:
A lembrança cruel da Parasceve
Vinha magoar-te o coração bendito.
Ei-Lo embaixo da Cruz pesada e amara,
Que envilecera a tantos, mas que santa,
Por Lhe haver dado a morte, se tornara.
Sobe, gemendo, as infernais escarpas:
Na eternidade um coro se alevanta
De violinos, de cítaras e de harpas...



|

Nossa Senhora das Dores: obra de Aleijadinho
|


Nota: Em uma das homilias de pe. João Luiz, na igreja do Ingá, ele falou sobre
Nossa Senhora das Dores, e citou um dos poemas do Setenário das Dores de Nossa Senhora, do
poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens. Alguns dias depois, tive a
inspiração de fazer esta página, que ficou muito bonita.
Bibliografia: Cantos de Amor, Salmos de Prece. Estudo Crítico de Henriqueta Lisboa.
Rio de Janeiro, Cia. José Aguilar Editora, Brasília, Instituto Nacional do Livro, 1972.
© Arnaldo Poesia, Le Monde de Paris, Quinzaine Littéraire, Paris, 1996/2008.
Tous droits de traduction, de reproduction et d'adaptation
réservés pour tous pays.


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