Ajude a preservar Ouro Preto: Patrimônio da Humanidade ~ Capelas do Santuário ~
Em 1794 os responsáveis pelo santuário, fundado em Congonhas em 1757, por
Feliciano Mendes para render culto à uma imagem do Bom Jesus de Matosinhos
(venerado em sua província, perto de Porto, em Portugal), pedem ao bispo de
Mariana autorização para construir duas séries de capelas, representando as
estações ("passos") da Paixão (diante da Igreja), e da Ressurreição (atrás
dela). Sem dúvida por razões econômicas, somente foi realizada a primeira série,
para a qual foram contratados Aleijadinho e seus assistentes ("oficiais"), que
entregaram de 1796 a 1799, 66 estátuas em madeira representando sete episódios,
distribuídos em seis capelas consagradas respectivamente à Ceia, ao Monte das
Oliveiras, à prisão, à flagelação e à coroação de espinhos, à Cristo carregando
a cruz e à crucificação.
Ao receber esta encomenda, Aleijadinho foi instituído herdeiro
de uma das tradições mais impressionantes (ele estaria consciente?) da arte
cristã: a do "sacro monte", como se diz na Itália, país onde foi inventada esta
iconografia. Tratava-se de dispor em uma "montanha" (na verdade uma subida
elevada) um percurso que permitisse visualizar as diferentes etapas da Paixão de
Cristo, oferecendo aos fiéis a possibilidade de fazer, pelo preço do cansaço de
uma subida mais ou menos dura uma peregrinação de substituição às peregrinações
na Terra Santa, muito longas e difíceis, onerosas e mesmo, perigosas.
Quaisquer que fossem os precedentes (assinalados por Germain Bazin) que se
pudessem encontrar a partir da Idade Média, destas reconstituições paralelas dos
lugares sagrados de Jerusalém (é suficiente pensar nos numerosos santuários que
se identificam com o Santo Sepulcro), a verdadeira origem desta prática está no
começo da construção do "sacro monte" de Varallo (nos Alpes do Piemonte, a
cinqüenta quilômetros ao norte de Novara) devido à iniciativa do franciscano
Bernardino Caimi que, após várias viagens à Terra Santa, obteve em 1486,
autorização do papa Inocêncio VIII para construir a igreja destinada a resultar
em modelo das capelas do caminho da cruz. Iniciada no começo do século XVI, a
construção recebe um novo impulso após o Concílio de Trento, sob a influência de
São Carlos Borromée. No século XVII, o "sacro monte" se tornou um percurso de
cerca de quarenta capelas, evocando com cerca de 500 estátuas, a história da
humanidade, focalizada na queda, encarnação e sobretudo, na redenção, pela
paixão, morte e ressurreição de Cristo. Tratava-se de afirmar, face à pressão da Reforma protestante, a devoção dos
fiéis pelo espetáculo extraordinariamente realista e vivo, dos mistérios da fé,
encarnados por toda uma população de estátuas "ao natural" e feitas para tocar
diretamente a sensibilidade dos peregrinos. O "sacro monte" é um pouco o
equivalente plástico das paixões musicais da cultura alemã.
O exemplo de Varallo ficou como o único desse porte. Mas foi imitado em um
grau mais modesto na Itália, na França (o Monte Valérien foi estruturado como
Monte Sagrado no século XVII) e em Portugal. Certamente Feliciano Mendes
conhecia Braga, com o "sacro monte" do Santuário do Bom Jesus, que aliás, é só
parcialmente consagrado à Paixão, e ao qual é associado um programa humanitário,
inspirado pelos jesuítas e centrado no tema dos cinco sentidos, representado em
sua origem por personagens da Bíblia e da mitologia. Estes são os principais precedentes. Mas Aleijadinho encontra sua inspiração especialmente
no evangelho de São João que ele segue fielmente, exceto na cena do jardim, que ele traduz
diretamente do texto de São Lucas (22,39-46).
A caminhada-subida começa em baixo do declive, com a capela da Ceia, situada
em um eixo mediano que levará ao portão de entrada do Santuário. A partir desse
ponto de partida os fiéis sobem alternativamente, em diagonal, primeiro à
esquerda, depois à direita, até a sexta capela, que termina o percurso no alto à
esquerda. A execução do programa teve um atraso considerável visto que as três
últimas capelas só foram construídas entre 1864 a 1872, baseadas no modelo das
três primeiras, construídas nos primeiros anos do século XIX. Durante esta lenta execução, as estátuas de Aleijadinho foram sem dúvida
provisoriamente guardadas na igreja. Entretanto, decidiu-se pintá-las. Foi em
1798 que um contrato foi assinado com os pintores Manuel da Costa Ataíde, para a
policromia dos grupos da Ceia, da flagelação e da crucificação, e Francisco
Xavier Carneiro, para a dos grupos do Monte das Oliveiras, da prisão, da
coroação de espinhos e de Cristo carregando a cruz. Na verdade, a ordem destes
trabalhos foi modificada, pois as pinturas só foram efetivamente realizadas à
medida que se terminavam as capelas, o que dá a algumas delas uma datação bem
tardia.
Aleijadinho realizou com seus "Passos", uma das maiores obras-primas de toda
a história da escultura. Em suas representações do Cristo, em particular as do
Monte das Oliveiras, da coroação de espinhos, do transporte da cruz e da
crucificação, Aleijadinho nos conduz além do realismo e do teatral, ao mundo de
João, do Filho de Deus, do Verbo encarnado que traz a Luz ao mundo. Ele soube
dar aos rostos - e também às mãos dos personagens do drama sagrado - uma força
que ainda está bem acima das diferentes formas dos estilos expressionistas da
história e que ele não podia conhecer. É preciso sustentar o olhar do Cristo da Ceia e do Cristo sofrendo sob o peso
da cruz, ou do Cristo pregado na cruz para começar a compreender o mistério da
encarnação. É preciso olhar demoradamente os rostos dos apóstolos da Ceia ou do
Monte das Oliveiras para amar a humanidade. É preciso ousar fixar os soldados e
os carrascos para compreender a imensidade do pecado e do perdão. Pouco importa
que os traços, os gestos, as dobras dos tecidos, tenham um ar às vezes chinês,
às vezes gótico. Esta arte é contemporânea de toda nossa história da arte.
Talvez, somente as visões de Dante estivessem à altura das imagens de
Aleijadinho, o qual certamente jamais as leu. Índice das imagens: 1- Cristo e São João Bibliografia: BAZIN, Germain. Aleijadinho et la sculpture baroque au Brésil. Paris, Le
temps, 1963. Copyright ©
Starnews 2001 |