Nestes nossos tempos ecumênicos em que católicos,
protestantes e judeus ensaiam passos no sentido de alcançarem uma compreensão maior,
é com renovada devoção que nos voltamos para os grandes hinos de adoração, confissão
e súplica que há 3000 anos dão forma às orações públicas e às meditações íntimas da
humanidade. Estão contidos no Livro dos Salmos, os mais apreciados poemas do mundo.
Milhões de pessoas encontram no Saltério a mensagem que dá sentido à sua vida.
Os Salmos podem ser encontrados em qualquer Bíblia católica, protestante, grega
ortodoxa ou judaica. São citados nas cerimônias marcantes da vida, desde o batismo, a
confirmação e o bar mitzvah ao casamento e aos ritos fúnebres. Rara é a
pessoa que não sabe de cor um ou mais salmos.
O crítico Mark Van Doren, analisando a atração universal dos Salmos, afirmou que,
"como os outros grandes poemas, referem-se mais ao leitor do que ao autor. O seu canto
ressoa em qualquer alma inteiramente séria, esteja ou não presente a religião". São
para Van Doren os "supremos poemas líricos do nosso mundo. Tal é o julgamento da
civilização".
Os Salmos foram feitos originariamente para serem cantados. A palavra salmo vem de
um verbo grego que significa tocar num instrumento de cordas. Embora fossem utilizados
outros instrumentos, o que acompanhava antigamente os Salmos era provavelmente parecido
com uma harpa.
Nos primeiros tempos do Cristianismo, os fiéis se reuniam em comunidades a fim de
cantar os Salmos, de acordo com a regra neles contida: "Sete vezes no dia eu Te
louvo." Seguindo o exemplo de Jesus, que citou os Salmos através da sua pregação,
os cristão fizeram dos Salmos a sua forma de expressar alegria pelas boas notícias.
"Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração", aconselha a Epístola de S.
Tiago. "Está alguém alegre? Cante louvores."
Foram os Salmos cantados pelos cristãos que alertaram o mundo romano para a força
nova e revolucionária que surgira no seu meio. O espanto se transformou em respeitoso
temor quando os mártires marcharam ao encontro dos leões, cantando alegremente os Salmos.
Mais tarde, quando a civilização romana se desmoronou e os bárbaros apareceram, a arte,
a cultura e o conhecimento sobreviveram nos claustros anexos a abadias construídas como
santuários para o Saltério.
Na época da Reforma, os reformadores, de Martinho Lutero a John Knox, Oliver Cromwell
e John Wesley, hauriram força nos Salmos. João Calvino disse deles: "Não há
movimento do espírito que não se reflita aqui como em um espelho. Todas as tristezas,
dificuldades, receios, dúvidas, esperanças, sofrimentos, perplexidades e tempestuosas
explosões que agitam o coração dos homens foram aqui fielmente retratados."
A Bíblia atribui a autoria de 73 dos seus 150 salmos a Davi, jovem pastor, guerreiro,
poeta e rei, que fundou a dinastia da Judéia em Jerusalém por volta do ano 1000 A.C. Mas
a existência de outras passagens semelhantes aos Salmos nas primeiras crônicas do Antigo
Testamento tem levado à conclusão de que a tradição de compor salmos precede Davi.
Isso foi agora confirmado em Ras Shamra, na Síria, onde os arqueólogos desenterraram
as ruínas da cidade perdida de Ugarit, centro do comércio da Idade do Bronze na rota das
caravanas entre o Egito e a Mesopotâmia. Numa peça de um templo de uma divindade local,
havia placas de barro cobertas de caracteres cuneiformes. Quando os símbolos foram
decifrados, viu-se que eram fragmentos de poesia semelhantes em estilo e linguagem a alguns
salmos, sendo a primeira poesia não bíblica anterior aos Salmos já descoberta. O mais
notável é que foram encontrados 80 paralelismos diretos, que vão do "cálice que transborda"
à corça que suspira "pelas correntes das águas". A linguagem desses escritos de Ugarit está
estreitamente relacionada com o hebraico.
Religiosa e eticamente, os textos de Ugarit não podem ser comparados aos Salmos. Estão
repletos dos quase sempre cruéis semideuses da Antiguidade. Mas o fato de os Salmos terem
marcadas semelhanças com esses antigos poemas indica que nos Salmos encontramos nossos
ancestrais no início da sua ascensão para Deus.
Parte do poder de emocionar dos Salmos vem da sua simplicidade. Empregam palavras simples
e concretas; imagens habituais e cotidianas — ovelhas e pastores, os animais do campo, as
aves do ar, a noite e o dia, as montanhas, os vales, o trovão e a chuva, os orgulhosos e os
oprimidos. Quando o salmista diz que tem sede de Deus como a terra seca tem sede de água, o
sentido do que diz é claro para todos.
Mas a grande atração dos Salmos reside nos seus temas — vida e morte, bem e mal, justiça
e misericórdia — tudo contido num tema dominante, as maravilhosas maneiras de Deus com as
pessoas. O Deus dos Salmos combina as profundas especulações da Filosofia e da Teologia com
aquilo que a pessoa mais simples sente ser a verdade. É o Deus pessoal de cada um. O seu amor
supera o amor humano, até o mais puro: "Se meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor
me acolherá." É a fonte e autor da esperança: "O Senhor é a minha luz e a minha
salvação; de quem terei medo?"
O biólogo Julian Huxley disse que os Salmos contêm a afirmação teológica de uma espantosa
verdade científica: a singularidade biológica do homem. Olhando o céu estrelado, um espetáculo
particularmente imponente sobre o deserto do Oriente Médio, o salmista exclama:
"Quando contemplo os Teus céus,
obra dos Teus dedos,
e a lua e as estrelas que estabeleceste,
Que é o homem que dele Te lembres?"
E logo vem a resposta:
"Fizeste-o, no entanto, pouco menor
do que anjos,
e de glória e honra o coroaste.
Deste-lhe domínio sobre as obras da
Tua mão,
e sob seus pés tudo lhe puseste."
Os Salmos revelam um código positivo de moralidade. O homem bom ama a verdade da lei de Deus
"e na Sua lei medita". Amando a lei, trata os outros com justiça, mantém a sua palavra
mesmo quando isso é inconveniente, é amigo do pobre e refreia a língua. A morte não contém
terrores para ele: "Bondade e misericórdia me seguirão certamente todos os dias da minha
vida; e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre."
Todos nós conhecemos as ocasiões em que "o meu cálice transborda". Mas também nos
reconhecemos no salmista que contempla as suas tristezas, males e pecados, e "todas as noites
faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago". Quando a agonia se torna insuportável,
faz um apelo de ajuda e perdão: "Das profundezas clamo a Ti, Senhor. Escuta, Senhor, a minha
voz. Se observares iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?"
Ainda que os Salmos nunca tenham cessado de derramar a sua magia sobre as pessoas ou sobre as
liturgias da religião, há atualmente vivo interesse por eles. Diversos modos de usar os Salmos
estão aparecendo. Nos novos hinários e livros de orações, os Salmos estão sendo restaurados para
serem cantados pelos fiéis.
Não está longe o dia em que os Salmos, que levam sua mensagem universal a toda a humanidade,
serão recitados em comum pelos fiéis de muitas religiões diferentes e não separadamente ou de
maneira diferente como no passado.
Disse o Cardeal Richard Cushing, de Boston: "Talvez possamos visualizar um tempo em que todos os
cristãos e judeus aceitarão um Saltério comum. Como seria excelente que os Salmos pudessem unir-nos
a todos ainda mais em alguma forma de reconhecimento público da tradição
judaica-cristã."
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Bibliografia: Christianity Today.


~ Páginas de antigos livros de salmos, com iluminuras ~
Antigamente, a recitação dos Salmos era acompanhada por um
instrumento, também chamado saltério, com cordas esticadas como as da lira
(cítara), e que era tocado com os dedos ou com o plectro (varinha de marfim
com que os antigos faziam vibrar as cordas da lira). Hoje em dia, esse
instrumento de forma triangular, é tocado com palheta.

~ Salmo 24 ~
Para vós, Senhor, elevo a minha alma. Meu Deus, em
vós confio: não seja eu decepcionado! Não escarneçam de mim meus inimigos!
Não, nenhum daqueles que esperam em vós será confundido, mas os pérfidos
serão cobertos de vergonha. Senhor, mostrai-me os vossos caminhos, e
ensinai-me as vossas veredas. Dirigi-me na vossa verdade e ensinai-me,
porque sois o Deus de minha salvação e em vós eu espero sempre.
Lembrai-vos, Senhor, de vossas misericórdias e de vossas bondades, que são
eternas. Não vos lembreis dos pecados de minha juventude e dos meus
delitos; em nome de vossa misericórdia, lembrai-vos de mim, por causa de
vossa bondade, Senhor. O Senhor é bom e reto, por isso reconduz os
extraviados ao caminho reto. Dirige os humildes na justiça, e lhes ensina
a sua via. Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade, para
aqueles que guardam sua aliança e seus preceitos. Por amor de vosso nome,
Senhor, perdoai meu pecado, por maior que seja. Que advém ao homem que
teme o Senhor? Deus lhe ensina o caminho que deve escolher. Viverá na
felicidade, e sua posteridade possuirá a terra. O Senhor se torna íntimo
dos que o temem, e lhes manifesta a sua aliança. Meus olhos estão sempre
fixos no Senhor, porque ele livrará do laço os meus pés. Olhai-me e tende
piedade de mim, porque estou só e na miséria. Aliviai as angústias do meu
coração, e livrai-me das aflições. Vede minha miséria e meu sofrimento, e
perdoai-me todas as faltas. Vede meus inimigos, são muitos, e com ódio
implacável me perseguem. Defendei minha alma e livrai-me; não seja
confundido eu que em vós me acolhi. Protejam-me a inocência e a
integridade, porque espero em vós, Senhor. Ó Deus, livrai Israel de todas
as suas angústias. |
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Saltério do século XIV/XV
~ Salmo 1 ~
Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não
trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores.
Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e
noite. Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá
fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que
empreende, prospera. Os ímpios não são assim! Mas são como a palha que o
vento leva. Por isso não suportarão o juízo, nem permanecerão os pecadores
na assembléia dos justos. Porque o Senhor vela pelo caminho dos justos, ao
passo que o dos ímpios leva à perdição.
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Saltério por volta do ano 1200
~ Salmo 53 ~
Quando os zifeus vieram dizer a Saul: Davi encontra-se escondido
entre nós. Pela honra de vosso nome, salvai-me, meu Deus! Por vosso
poder, fazei-me justiça. Ó meu Deus, escutai minha oração, atendei
as minhas palavras, pois homens maus insurgiram-se contra mim;
homens violentos odeiam a minha vida: não têm Deus em sua presença.
Mas eis que Deus vem em meu auxílio, o Senhor sustenta a minha vida.
Fazei recair o mal em meus adversários e, segundo vossa fidelidade,
destruiu-os. De bom grado oferecer-vos-ei um sacrifício, cantarei a
glória de vosso nome, Senhor, porque é bom, pois me livrou de todas
as tribulações, e pude ver meus inimigos derrotados.
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Nota 1: A iluminura do Salmo 24 (acima) faz
parte de "Les très riches heures du duc de Berry" (As muitas ricas horas
do duque de Berry), que é um livro de horas ricamente ilustrado. Contém,
como todo livro de horas, orações a serem ditas a cada hora canônica do
dia. Foi encomendado por Jean, duque de Berry aproximadamente em 1410.
Provavelmente é o mais importante livro de horas do século XV, conhecido
como "Le roi des manuscrits enluminés" (O rei dos manuscritos
iluminados).
Nota 2: Iluminura ou miniatura é um tipo de pintura decorativa,
frequentemente aplicado às letras iniciais no começo dos capítulos dos
códices de pergaminho medievais. O termo se aplica igualmente ao conjunto
de elementos decorativos e representações imagéticas executadas nos
manuscritos, produzidos principalmente nos conventos e abadias da Idade
Média. A sua elaboração era um ofício refinado e bastante importante no
contexto da arte medieval.
No século XIII, "iluminura" referia-se ao uso de douração. Portanto, um
manuscrito iluminado seria, no sentido estrito, aquele decorado com ouro ou
prata.
Saltério com versos e orações
Página de Salmos (em
PDF)


~ Bíblia Sagrada ~
Bíblia Sagrada é a revelação de Deus à humanidade. É a
definição canônica mais curta da Bíblia. Tudo o que Deus tem preparado para o
homem, bem como o que Ele requer do homem, e tudo o que o homem precisa saber
espiritualmente da parte dEle quanto a sua redenção e felicidade eterna, está
revelado na Bíblia. Tudo o que o homem tem a fazer é tomar a Palavra de Deus e
apropriar-se dela pela fé.
O autor da Bíblia é Deus; seu real intérprete é o Espírito Santo, e seu
assunto central é o Senhor Jesus Cristo. O homem deve ler a Bíblia para ser
sábio, crer na Bíblia para ser salvo e praticar a Bíblia para ser santo ou
santificado. A coleção completa dos livros divinamente inspirados constituindo
a Bíblia é chamada de cânon.
A Bíblia Sagrada é considera por muitos como um livro de leitura difícil.
Difícil porque é antigo, foi escrito por orientais, que têm uma mentalidade bem
diferente da greco-romana, da qual nós descendemos. Diversos foram os seus
escritores, que viveram entre os anos 1200 a.C. a 100 d.C. Isso, sem levar em
conta que foi escrita em línguas hoje inexistentes ou totalmente modificadas,
como o hebraico, o grego, o aramaico, fato este que dificulta enormemente uma
tradução, pois muitas vezes não se encontram palavras adequadas, mas vale a
pena fazer um esforço e lê-la.
ANTIGO TESTAMENTO
O Antigo Testamento conta a história do povo de Israel. Essa
história retrata a fé do povo e descreve a vida religiosa dos israelitas. Os
autores destes livros escreveram o que Deus fez por eles como povo e como eles
deveriam adorá-lo em resposta a seu amor. Os livros do Antigo Testamento formam
cinco grupos que abrangem conteúdos semelhantes, e seguem a mesma ordem
cronológica que se acham na Bíblia.
Veja os Livros:
NOVO TESTAMENTO
Os livros do Novo Testamento foram escritos pelos discípulos
de Jesus Cristo. Eles queriam que outros ouvissem a respeito da nova vida que
é possível através da morte e ressurreição de Jesus. Da mesma forma que o
Antigo Testamento, o Novo Testamento também está dividido em grupos de conteúdo
semelhantes, quer pelos assuntos tratados, quer pelos autores ou pelos
objetivos.
Veja os livros:
Fonte:
Virtual Books