Há diversas (pelo menos seis) adaptações cinematográficas da peça,
além de muitos outros filmes com enredo derivado dela. Sendo o mais
importante, o clássico “Romeu e Julieta”, de Franco Zefirelli.
Mas não só no cinema a história de Romeu e Julieta continuou
vivendo depois de Shakespeare. Ela foi recontada de outras formas, em
outras artes: na música (a “sinfonia dramática” de Berlioz, a ópera de
Gounod, a “fantasia” orquestral de Tchaikovsky, o ballet de Prokofiev,
todos intitulados Romeu e Julieta).
Também a peça de teatro musical West Side Story, de Leonard
Bernstein (adaptada ao cinema por Elia Kazan).
PERSONAGENS
Escalo, príncipe de Verona.
Mercúcio, parente do príncipe e amigo de Romeu.
Páris, jovem nobre, parente do príncipe e de Mercúcio, e
pretendente de Julieta.
Montéquio e Capuleto, chefes de famílias rivais.
Um velho, tio de Capuleto.
Romeu, filho de Montéquio.
Benvólio, sobrinho dos Montéquio e amigo de Romeu.
Tebaldo, primo de Julieta, e sobrinho da senhora Capuleto.
Frei Lourenço, um franciscano.
Frei João, um franciscano, que iria entregar a carta de Frei
Lourenço para Romeu.
Baltasar, ajudante de Romeu.
Sansão e Gregório, criados de Capuleto.
Abraão, criado de Montéquio.
Pedro, criado de Capuleto a serviço da Ama.
Senhora Montéquio, esposa de Montéquio.
Senhora Capuleto, esposa de Capuleto.
Julieta, filha dos Capuleto.
Ama de Julieta.
Um boticário, que vende a poção fatal para Romeu
Três músicos.
Criados; um garoto; um pajem de Páris.
Cidadãos de Verona; parentes das duas famílias;
mascarados;
guardas; sentinelas; integrantes de comitivas.
Coro.
— A ação ocorre em Verona, na maior parte, e em Mântua, num
trecho do 5.º ato.
PRÓLOGO
(Entra o coro)
CORO — Na bela cidade de Verona vai transcorrer o nosso drama:
duas famílias, igualmente distintas, reativam uma antiga inimizade,
manchando de sangue as ruas do lugar. É que nesses dois berços rivais
nasceu um par de amantes desditosos, que só na sepultura vão pôr fim
ao ódio mútuo de seus pais. A terrível história desse amor condenado é
o que vocês verão neste palco: se prestarem bastante atenção, com
nosso esforço procuraremos suprir o que parecer insuficiente.
(Sai o coro)
PRIMEIRO ATO
Cena 1
VERONA. UMA PRAÇA PÚBLICA
(Entram Sansão e Gregório, armados de espadas e
escudos)
SANSÃO — Não devemos levar desaforo para casa, Gregório.
GREGÓRIO — É claro que não devemos.
SANSÃO — Quando fico zangado, saco logo a espada.
GREGÓRIO — Se quiser continuar vivo, é melhor tomar
cuidado e não se zangar com qualquer coisa.
SANSÃO — Quando alguém me irrita, revido na hora.
GREGÓRIO — É melhor não se irritar com qualquer coisa.
SANSÃO — É só darem motivo... É fácil, até um cachorro
da casa dos Montéquio me deixa irritado.
GREGÓRIO — Quem fácil se irrita rápido se põe em
movimento. Mas ser corajoso é aguentar firme! Se você se irrita, é
sinal de que vai fugir...
SANSÃO — Pois saiba que, diante de um cão daquela casa,
não arredo o pé. Vou me encostar firme na parede se passar por mim
qualquer moço ou moça dos Montéquio.
GREGÓRIO — Isso mostra que você não passa de um escravo
fraco: os fracos é que se encostam na parede!
SANSÃO — É mesmo... Talvez seja por isso que as mulheres
sempre caminham encostadas na parede. Sendo as mulheres a parte mais
fraca, vou tirar da frente os homens e prensá-las contra a parede.
GREGÓRIO — Escute Sansão, a luta é entre nossos patrões e nós,
seus homens.
SANSÃO — Tanto faz. Vão ver como eu também posso ser
cruel, depois de me bater com os homens, vou pegar as moças.
GREGÓRIO — Pegar todas as virgens?
SANSÃO — Sim. Entenda como você preferir.
GREGÓRIO — Pois vá sacando o seu ferro, que aí vem dois
da casa de Montéquio.
(Entram Abraão e outro criado dos Montéquio)
SANSÃO — Aqui está minha arma em pé. Pode brigar que eu
dou cobertura.
GREGÓRIO — O quê? Você vira as costas?
SANSÃO — Não precisa ter medo.
GREGÓRIO — Eu, ter medo de você?
SANSÃO — Vamos ficar ao lado da lei. Eles que comecem a
briga.
GREGÓRIO — Quando passar por eles vou fazer cara feia. O
resto é com eles.
SANSÃO — Vou torcer o nariz. Quero ver se vão contestar.
ABRAÃO — Você está torcendo o nariz para nós?
SANSÃO — Estou torcendo o nariz.
ABRAÃO — É para nós que está torcendo o nariz?
SANSÃO — (À parte, para Gregório) É contra a lei,
se eu disser “sim”?
GREGÓRIO — É.
SANSÃO — Não, não estou torcendo o nariz para vocês. Mas
estou torcendo o nariz.
GREGÓRIO — Você está querendo briga?
ABRAÃO — Briga?! Eu, não!
SANSÃO — Se você quiser, estou às ordens. O meu patrão é
tão bom quanto o seu.
ABRAÃO — Mas não é melhor que o meu.
SANSÃO — Tudo bem.
(Surge Benvólio, ao longe)
GREGÓRIO — (à parte, para Sansão) Diga que é
“melhor”. Vem vindo aí um parente do patrão.
SANSÃO — O meu patrão é melhor que o seu!
ABRAÃO — Mentiroso!
SANSÃO — Pois então, saque a espada, se for homem!
(Duelam)
BENVÓLIO — Parem com isso, seus palhaços! Vocês não
sabem o que estão fazendo! (Intercepta as espadas com sua espada)
(Entra Tebaldo)
TEBALDO — Como? Você saca a espada, Benvólio, e vem
falar de paz? Detesto esta palavra como detesto os Montéquio,
incluindo você! Defenda-se, seu covarde! (Duelam)
(Entram partidários de ambas as casas, aumentando o
tumulto; entram cidadãos armados de porretes)
CIDADÃO — Pau neles! Acabem com eles! Abaixo os
Montéquio; abaixo os Capuleto!
(Entram Capuleto, em roupão de dormir, e senhora)
CAPULETO — Que barulho é este? Minha espada de combate,
tragam-na!
SENHORA CAPULETO — Que espada, nada! Muletas, isto, sim!
CAPULETO — Minha espada! O velho Montéquio está
brandindo a dele para mim!
(Entram Montéquio e senhora)
MONTÉQUIO — Capuleto velhaco! Larguem-me!
SENHORA MONTÉQUIO — Você não vai dar um passo para
enfrentar o inimigo.
(Entra o príncipe Escalo, com seus guardas)
PRÍNCIPE — Rebeldes inimigos da paz! Parem com isso,
seus animais! Parem de manchar espadas com sangue civil! Sob pena de
tortura, deponham as armas e ouçam a sentença de seu príncipe, pela
terceira vez, Montéquio e Capuleto, por causa de vocês gerou-se
tumulto em nossas ruas. Velhos cidadãos de Verona deixam de lado a
compostura para empunhar suas lanças enferrujadas e aplacar um ódio
corrosivo! Se perturbarem outra vez a paz, pagarão com suas vidas. E
agora, todos para casa! Mas você, Capuleto, vem comigo. E você,
Montéquio, compareça à tarde à Corte de Justiça, para tratarmos desta
séria decisão. Tratem de dispersar!
(Saem todos, com exceção de Montéquio, da senhora
Montéquio e de Benvólio)
MONTÉQUIO — Quem atiçou de novo esta rixa? Conte
sobrinho, o que presenciou.
BENVÓLIO — Quando cheguei seus homens já duelavam com os
dele. Tentei separá-los, mas Tebaldo impediu, atacando-me. Foi
juntando gente...
SENHORA MONTÉQUIO — E onde está meu Romeu? Você o viu?
Ainda bem que não se meteu na briga.
BENVÓLIO — Uma hora antes de o sol nascer, minha tia, eu
o vi passeando no bosque, quando fazia minha caminhada matinal. Assim
que notou minha presença, ele escondeu-se entre as figueiras.
MONTÉQUIO — Ele tem sido visto lá, todas as manhãs,
aumentando o orvalho com suas lágrimas, acrescentando às nuvens seus
suspiros fundos. Quando raia o dia, tranca-se no quarto, de janelas
fechadas. É preciso afastar a causa dessas maneiras estranhas.
BENVÓLIO — Conhece a causa, meu tio?
MONTÉQUIO — Não, nem ele diz nada.
BENVÓLIO — O senhor tentou todos os meios?
MONTÉQUIO — Não só eu, como outros amigos nossos. Mas
ele não revela seus segredos a ninguém, tão fechado que está em seus
mistérios. Se soubéssemos a origem do mal, a cura estaria a um passo.
BENVÓLIO — Aí vem ele. Afastem-se, peço. Ele há de se
abrir comigo.
MONTÉQUIO — Boa sorte em sua missão. Vamos, senhora?
(Saem Montéquio e senhora. Entra Romeu)
BENVÓLIO — Bom dia, primo.
ROMEU — Como assim? Já é dia?
BENVÓLIO — Nove horas!
ROMEU — Como são longas as horas tristes... Era meu pai?
BENVÓLIO — Era. Mas que longas horas tristes são essas?
ROMEU — Aquelas que, com ela, seriam breves.
BENVÓLIO — Você está apaixonado?
ROMEU — Nada.
BENVÓLIO — Nada de amor?
ROMEU — Nada da parte dela.
BENVÓLIO — É pena que o amor, na aparência tão doce,
seja no fundo tão tirano e duro!
ROMEU — Pena das penas! Mesmo cego, o amor sabe alcançar
o alvo do seu desejo! Onde vamos almoçar? Houve briga aqui? Nem
precisa dizer, já sei de tudo. O ódio anda muito ocupado; mas o amor
mais ainda! Leveza pesada, pena de chumbo, fogo gelado, saúde doente,
sono acordado, o amor é o que não é. Não quer rir de mim?
BENVÓLIO — Não, primo, quero chorar.
ROMEU — Por quê?
BENVÓLIO — Porque seu coração está oprimido.
ROMEU — O amor é assim mesmo: as dores pesam no peito,
mas isso só aumenta os efeitos da paixão. O amor é uma fumaça de
suspiros, é fogo que ameaça o olhar, é um rio de lágrimas quando
contrariado... Que mais? É uma loucura sensata, é um fel que sufoca, é
uma doçura que anima... Adeus, primo.
(Faz menção de retirar-se)
BENVÓLIO — Calma! Eu vou também.
ROMEU — Estou perdido... Não conte a ninguém. Não sou
mais Romeu, nem sei quem sou.
BENVÓLIO — Quem é ela?
ROMEU — Pedir um testamento a um doente é como matá-lo
antes da morte! Mas confesso: estou apaixonado.
BENVÓLIO — Não errei tanto assim...
ROMEU — Acertou no alvo! E ela é tão linda!... Mas é
inatingível. Ao deus Cupido, ela preferiu Diana; resiste às palavras
doces, escapa aos assédios do olhar, não cede o pescoço ao ouro, que
seduz até as santas. Mas como é rica em beleza! Porém, toda a beleza
irá morrer com ela... Prometeu jamais amar.
BENVÓLIO — Jurou que vai ser casta para sempre?
ROMEU — Jurou. Que desperdício! É bela demais, é sábia
demais para ficar contente com a minha dor. Prometeu jamais amar, e
eu, com esse voto, vivo como um morto.
BENVÓLIO — Escute o que digo: não pense mais nela.
ROMEU — Então me ensine como não pensar.
BENVÓLIO — Abra os olhos; há muitas belezas para se
olhar.
ROMEU — Essa é a melhor maneira de comprovar a beleza
dela. Mostre-me, pois, uma beldade rara; servirá, ao menos, como
sugestão para que eu lembre quem a excedeu em formosura. Adeus. Você
nunca me ensinará o esquecimento.
BENVÓLIO — Juro que vou lhe ensinar... Nem que seja em
meu testamento.

Cena 2
UMA RUA
(Entram Capuleto, Páris e um criado)
CAPULETO — Essa pena pesa tanto sobre mim quanto sobre
Montéquio. Como já somos velhos, acho que não é tão difícil manter a
paz.
PÁRIS — Ambos gozam de alto conceito, e é pena que essa
desavença dure tanto. Mas, mudando de assunto, e quanto a mim?
CAPULETO — Repito o que já disse: minha filha Julieta
pouco entende dessas coisas; não tem nem quatorze anos. Dois verões
ainda acontecerão antes que ela possa se casar.
PÁRIS — Mas muitas moças, mais novas que ela, já são
mães.
CAPULETO — As que começam antes do tempo, também morrem
cedo. Todas as minhas esperanças foram tragadas pela terra, menos ela,
única herdeira do que tenho. Mas fale com ela, Páris! Você tem de
conquistar seu coração. Se for do gosto dela, estou disposto a dar o
meu consentimento. Esta noite darei uma festa, para a qual convidei
muita gente amiga. Você será especialmente bem-vindo! Em meu humilde
teto, hoje à noite, estrelas da terra vão iluminar todo o céu: é um
prazer para os jovens estarem entre botões femininos. Observe todas e
eleja a mais dotada. A minha estará entre elas; em beleza não perde
para nenhuma. Vamos indo.
(Entrega um papel a um criado)
Percorra Verona, rapaz, e encontre as pessoas que estão na lista,
anunciando que terei prazer em recebê-las em minha casa esta noite.
(Saem Capuleto e Páris)
CRIADO — Encontrar as pessoas desta lista? Eu, que não
sei ler, tenho de sair em busca das pessoas escritas nesta lista, sem
saber que nomes são. Tenho de procurar alguém instruído. Em boa hora!
(Entram Benvólio e Romeu)
BENVÓLIO — Ora, rapaz, apague o fogo com fogo; uma dor
recente faz minguar a dor que veio antes; deixe os olhos curtirem nova
paixão, para sarar a antiga...
ROMEU — Essa receita mágica dever ser boa.
BENVÓLIO — Para quê?
ROMEU — Para sua cara quebrada!
BENVÓLIO — Calma amigo! Você está louco?
ROMEU — Ainda não; porém mais atado
que um louco furioso, faminto, torturado... O que você quer
rapaz?
CRIADO — Bom dia, senhor. O senhor sabe ler?
ROMEU — Eu sei, sim.
CRIADO — Sabe ler tudo o que se escreve?
ROMEU — Eu sei se conhecer a língua e puder ver a
letra. (Lê) “Senhor e senhora Margino e filha; conde Anselmo e
suas famosas irmãs; viúva Vitrúvio; senhor Placêncio e suas
encantadoras sobrinhas; Mercúcio e seu irmão Valentino; meu tio
Capuleto, esposa e filhas; minha graciosa sobrinha Rosalina; Lívia;
senhor Valêncio e seu primo Tebaldo; Lúcio e a amável Helena.” Uma
bela turma. (Devolvendo o papel) Onde será isso?
CRIADO — Lá em cima, em nossa casa.
ROMEU — Na casa de quem?
CRIADO — Do meu patrão.
ROMEU — É o que eu devia ter perguntado logo.
CRIADO — Pois vou dizer-lhe, mesmo que não tenha
perguntado. Meu patrão é o grande e rico Capuleto. Se o senhor não for
da casa dos Montéquio, venha também tomar uma taça de vinho esta
noite. Passar bem!
(Sai)
BENVÓLIO — Banquete na casa de Capuleto! A sua bela
Rosalina vai estar lá, com todas as demais beldades de Verona. Por que
você não vai? E, se compará-la com algumas que eu mostrar por lá, vai
ver o cisne transformado em corvo...
ROMEU — Que meu pranto vire fogo se tais mentiras meus
olhos suportarem. Mais linda que ela? Nem o sol jamais viu outra tão
bela.
BENVÓLIO — Ela só é bonita sem ninguém por perto. Se os
seus olhos, como pratos de cristal de uma balança, pesarem-na com
outras jóias da festa, você vai ver que decepção.
ROMEU — Eu irei. Mas não para seguir o seu conselho e,
sim, para ofuscar-me com meu amor.
(Saem)

Cena 3
UM QUARTO NA CASA DOS CAPULETO
(Entram a senhora Capuleto e a ama)
SENHORA CAPULETO — Ama, onde está minha filha? Vá
chamá-la.
AMA — Por minha virgindade, perdida aos doze anos,
pedi-lhe que viesse para cá. Minha ovelhinha! Que Deus me perdoe, mas
onde está essa menina? Julieta!
JULIETA — O que é? Quem está me chamando?
AMA — Sua mãe.
JULIETA — A senhora me chamou mãe?
SENHORA CAPULETO — É o seguinte... Ama, deixe-nos a sós
por um instante. Não, ama, volte. É melhor que você ouça nossa
conversa. Afinal, você conhece minha filha há tanto tempo...
AMA — Posso dizer até o mês, dia e a hora em que ela
nasceu.
SENHORA CAPULETO — Ainda não completou quatorze anos.
AMA — Falta pouco. Quando vai ser o dia primeiro de
agosto?
SENHORA CAPULETO — Daqui a uns quinze dias.
AMA — Pois nesse dia ela vai fazer quatorze anos. Minha
Susana, que Deus chamou para si, era da mesma idade... Lembro-me tão
bem, e lá se vão onze anos, de quando ela desmamou. A senhora e o
patrão estavam em Mântua, não esqueço. Eu tinha passado losna no bico
do seio, e ela, quando sentiu o gosto amargo, fez uma careta e largou
o peito. Na véspera, ela tinha caído e machucado a testa. Meu marido
socorreu a menina no chão, dizendo: “Oh, menininha, você caiu de cara
no chão? Quando crescer e conhecer mais o mundo, vai querer é cair de
costas, não é mesmo, Juju?” Acredite senhora, a diabinha parou de
chorar e disse: “É!” Quanta risada naquele dia!
JULIETA — Pare, ama, peço.
AMA — Já parei. Deus a abençoe. Foi o bebê mais lindo
que criei; vê-la casada é meu maior desejo.
SENHORA CAPULETO — Pois é de casamento mesmo que eu
quero falar. Diga Julieta, o que acha de se casar?
JULIETA — Uma honra com que nunca sonhei.
AMA — Se eu não fosse ama, diria que ela, junto com o
leite, mamou juízo.
SENHORA CAPULETO — Bem, está na hora de pensar em
casamento. Moças de respeito, mais jovens que você, já são mães de
família. Nos meus cálculos, eu tive você com essa idade. Para ser
breve, Julieta, o nobre Páris pediu sua mão em casamento.
AMA — Que homem, menina! Melhor, nem de encomenda!...
Que partido!
SENHORA CAPULETO — Você acha que pode gostar dele? Hoje
à noite, poderá vê-lo em nossa festa. Leia no livro de seu rosto os
encantos traçados com a pluma da beleza. É um exemplar de amor, é um
mapa de um tesouro, para ler e ter, você pode ter parte nessa
história, unindo-se a ele, e sem ser com isso diminuída em nada.
AMA — Ao contrário, aumenta a mulher também!
SENHORA CAPULETO — O amor de Páris lhe agrada?
JULIETA — Vou procurar olhá-lo, se isto lhe agrada. Mas
não irei além do que me consentir sua vontade.
(Entra um criado)
CRIADO — Senhora, os convidados estão chegando, o jantar
está sendo servido. Chamam pela senhora; reclamam a presença da
senhorita; na copa amaldiçoam a ama. Por favor, venham!
SENHORA CAPULETO — Já vou! Julieta, o conde a espera.
AMA — Enfrente belas noites para arranjar dias melhores
ainda!
(Saem)
Nota: losna é uma espécie de planta, da qual se fazem chás para
diversos usos. Era muito usada antigamente.

Cena 4
UMA RUA
(Entram Romeu, Mercúcio, Benvólio, cinco ou seis
mascarados e tocheiros)
ROMEU — É melhor disfarçar com um discurso, ou entramos
sem nenhuma explicação?
BENVÓLIO — Discurso não vai bem hoje em dia. Cupidos com
seu arco e seus olhos vendados e discurso na entrada são como
espantalho para as mulheres. Entramos de uma vez. Eles que nos julguem
como quiserem. Basta fazermos uma mesura e começarmos a dançar.
ROMEU — Não vou dançar, não estou disposto a
brincadeiras. Dá-me uma tocha, quero iluminar meu caminho.
MERCÚCIO — Nada disso, meu caro Romeu, você vai dançar.
ROMEU — Dance você, que está de sapatilhas. Estou com a
alma pesada, grudada no chão.
MERCÚCIO — Está apaixonado... Empreste as asas de
Cupido, para poder voar.
ROMEU — As suas setas me feriram fundo, e nem suas asas
conseguem levantar-me da dor, do fardo do amor que me pesa.
MERCÚCIO — Mas o amor é coisa leve...
ROMEU — Leve nada, é chumbo. Duro, brutal, espinhoso...
e sem futuro!
MERCÚCIO — Se o amor é duro com você, seja também duro,
revide as pancadas que ele der. Deem-me algo para cobrir o rosto!
(Pondo uma máscara)
Uma máscara em cima de outra! Que importa saber quem é quem? A
feiura é toda minha, mas o rubor da vergonha é de ninguém.
BENVÓLIO — Vamos batendo e entrando... Lá dentro, façam
bom uso das pernas.
ROMEU — A tocha é para mim; arrastem vocês seus leves
pés pelo salão. A dança é boa, mas estou triste. Vou segurar a vela e,
com a luz, poderei observar tudo.
MERCÚCIO — Deixe de fazer-se de coitado! E vamos indo,
porque isto é como acender luz de dia.
ROMEU — Isso não faz sentido.
MERCÚCIO — Eu quis dizer que gastamos nossa luz
inutilmente. E guarde este ditado. Vale mais que nossos cinco
sentidos.
ROMEU — Irmos a esta festa é o que não faz sentido...
MERCÚCIO — Ah, é? Pode-se saber por quê?
ROMEU — Tive um sonho esta noite.
MERCÚCIO — E eu também.
ROMEU — O que você sonhou?
MERCÚCIO — Que os sonhos são de mentira.
ROMEU — Os sonhos são verdades no sono.
MERCÚCIO — Pelo jeito, você sonhou com a rainha Mab.
BENVÓLIO — Quem?
MERCÚCIO — A parteira das fadas, que não chega a ter o
tamanho de uma pedra preciosa no dedo de uma pessoa importante. Viaja
sempre puxada por pequeninos átomos, passando pelo nariz dos
dorminhocos. Pernas de aranha servem de raios para as rodas; asas de
gafanhoto formam a capota; as rédeas são teias finíssimas; no cabo do
chicote, osso de grilo; no lugar de açoite, uma membrana; seu cocheiro
é um mosquitinho de casaco cinzento; a carruagem é uma casca de avelã
cavada pelo esquilo marceneiro ou por um verme, há muito tempo
fabricante oficial de carros para as fadas. Nessa equipagem, toda
noite ela galopa pelo cérebro dos amantes, que sonham com amor; pelos
dedos dos advogados, que sonham com honorários; pelos lábios das
donzelas, que sonham com beijos. Com o rabicó torcido de um leitão,
ela faz coceiras no nariz de um vigário, que sonha com nova doação. Se
ela passeia pela nuca de um soldado, ele sonha com cabeças cortadas de
inimigos, ataques, emboscadas. É Mab, ela mesma, que embaraça as
crinas dos cavalos pela noite, que pesa na barriga das garotas para
que sejam mulheres de bom parto; é ela que...
ROMEU — Chega Mercúcio, fique em paz! Você está falando
bobagem.
MERCÚCIO — Estou falando de sonhos, que nascem de
cabeças ociosas e são inúteis fantasias, tão tênues quanto o ar, tão
inconstantes quanto o vento, que ora sopra gelado no norte, ora se
desfaz em brisas amenas no sul...
BENVÓLIO — Pois esse vento de que fala nos levou para
longe. O jantar já deve ter acabado, chegamos muito tarde.
ROMEU — Ou muito cedo. Alguma coisa me diz que um triste
acontecimento vai marcar esta noite, iniciando o fim da pobre vida que
carrego condenada por um delito vil à morte prematura. Mas deixo que
guie o barco aquele que detém o leme do destino. Avante, amigos!
BENVÓLIO — Soem tambores!
(Saem)

Cena 5
UM SALÃO NA CASA DOS CAPULETO
(Músicos esperam; entram criados)
PRIMEIRO CRIADO — Onde está a Caçarola, que não vem
tirar a mesa? Ele só quer saber de lamber pratos.
SEGUNDO CRIADO — Quando as boas maneiras estão nas mãos
de um ou dois, e as mãos estão sujas, a coisa fede.
PRIMEIRO CRIADO — Tire daqui estas banquetas! Afaste o
aparador! Cuidado com a bandeja! Se você é meu amigo, guarde para mim
um pedaço de marzipã, e peça ao porteiro para deixar entrar a Susana e
a Néli! Antônio! Caçarola!
TERCEIRO CRIADO — Aqui estou companheiro!
PRIMEIRO CRIADO — Estão atrás de você, na sala grande.
QUARTO CRIADO — Não podemos estar em toda parte ao mesmo
tempo. Coragem, rapazes! Quem tiver mais saco, leva tudo!
(Saem pelos fundos. Entram os Capuleto, com
convidados e mascarados)
CAPULETO — Cavalheiros bem-vindos! As damas, que não
sofrerem de calos, vão dançar com vocês. Quem recusar aposto é porque
tem calos! Bem-vindos todos! Noutros tempos, eu vestia a máscara e
murmurava palavrinhas nos ouvidos das moçoilas; mas isso já passou.
Agora, música! Abram espaço! Dancem meninas!
(Começa a música e a dança)
Acendam mais luz, rapazes, e arrastem as mesas! Abaixem o fogo, que
está quente demais aqui dentro! (dirige-se a seu primo Capuleto)
Essas brincadeiras me fazem bem! Sente-se, primo, já passamos da
idade de dançar. Há quanto tempo não saímos de máscara?
SEGUNDO CAPULETO — Ah, uns trinta anos!
CAPULETO — Não pode ser... Foi no casamento de Lucênio,
não faz mais de vinte e cinco anos... Por aí.
SEGUNDO CAPULETO — Muito mais! O filho dele já fez
trinta anos!
CAPULETO — Não diga!? Não faz mais que dois anos que o
encontrei, e era ainda um menino!
ROMEU — (A um criado) Quem é a garota que
enriquece o braço daquele cavalheiro?
CRIADO — Não sei senhor.
ROMEU — Ela ensina a tocha a brilhar! Parece suspensa no
rosto da noite como uma joia na orelha de uma etíope, bela demais para
usar, cara demais para a vida terrena. É como uma pomba branca em meio
aos corvos, quando está entre as outras donzelas. Depois da dança, vou
procurá-la e purificar minha mão, tocando a dela. Meus olhos desmentem
se amei outra um dia, não tinha visto a verdadeira beleza.
TEBALDO — Pela voz, deve ser algum Montéquio! Minha espada,
depressa! Como se atreve, mascarado, a zombar de nossa festa? Pela
honra da família, não seria pecado matá-lo!
CAPULETO — O que está acontecendo, sobrinho?
TEBALDO — Aquele é um maldito Montéquio, da estirpe inimiga,
que veio aqui para acabar com nossa alegria.
CAPULETO — Não é o Romeu?
TEBALDO — Ele mesmo, esse atrevido.
CAPULETO — Calma, sobrinho, fique quieto. Deixe-o em
paz, ele está se comportando bem. Dizem até que não há em Verona quem
não o aprecie, por suas virtudes e compostura. Por toda a riqueza
desta cidade, não quero briga aqui em casa. Acalme-se, mude essa cara
feia e encerre a questão.
TEBALDO — É o que faltava! Um atrevido como esse, nosso
convidado! Não o suporto!
CAPULETO — Pois vai suportar, sim! Ora essa, rapaz!
Estou dizendo: ele vai ficar. Quem manda aqui, afinal? Você? Ora, ora,
não vai suportar!... O que você quer? Dar um escândalo entre os
convidados, arranjar confusão, acabar com nossa festa?
TEBALDO — Mas, tio, é vergonhoso...
CAPULETO — Saia daqui. Você é petulante mesmo! Ousando
contrariar-me? Chega, fique quieto! Que vexame!... Luz, mais luz!
Alegria!
TEBALDO — Equilibrar meu ódio com paciência é algo que
não engulo. Eu vou sair, Romeu, mas este doce banquete um dia há de
ser-lhe amargo como fel.
(Sai)
ROMEU — (A Julieta) Se com minha mão pecadora eu
tocar e profanar sua mão sagrada, aceito a penitência, então meus
lábios, dois humildes peregrinos, hão de apagar com um terno beijo o
pecado de minha mão.
JULIETA — Não calunie a sua mão, romeiro, ela demonstra
respeito e devoção, eu vejo... As santas também têm mão, que os
peregrinos podem tocar. Unindo as palmas é que as mãos se beijam.
ROMEU — As santas não têm boca?
JULIETA — Sim, romeiro, mas só para orações.
ROMEU — Se é assim, minha cara santa, deixa os lábios
fazerem o que fazem as mãos! Eles rogam, conceda-lhes esta graça, para
a sua devoção não fraquejar.
JULIETA — Santas não se movem, embora concedam suas
graças aos devotos.
ROMEU — Pois então não se mexa e atenda ao meu pedido.
(Beija-a) Seus lábios absolveram os meus do pecado.
JULIETA — Mas agora o pecado passou dos seus lábios aos
meus.
ROMEU — Dos meus lábios aos seus? Para doce pecado,
amável penitência, devolva-o aos meus.
(Beija-a de novo)
JULIETA — Você entende de beijos.
AMA — Senhorita, sua mãe quer lhe falar.
ROMEU — Quem é a mãe dela?
AMA — Ora, rapaz, é a dona da casa. Uma senhora sábia e
virtuosa. Criei a filha dela, a senhorita com quem você falava, e uma
coisa digo: quem a desposar, terá uma fortuna.
ROMEU — Ela é Capuleto? Que conta cara! De hoje em
diante devo a vida ao inimigo...
BENVÓLIO — Vamos embora, a festa está no fim.
ROMEU — Para mim começou agora.
CAPULETO — (Aos convidados que se retiram) É
cedo, rapazes, fiquem. Ainda temos uma boa ceia. Vão mesmo? Bem,
agradeço a todos. Obrigado, rapazes, e boa noite. Tragam mais tochas
aqui! Vou deitar-me.
(Saem todos, menos Julieta e a ama)
JULIETA — Ama, quem é aquele moço?
AMA — É filho e herdeiro de Tibério.
JULIETA — E aquele outro, que está saindo?
AMA — Se não me engano, é o filho de Petrucho.
JULIETA — E aquele lá, que não quis dançar?
AMA — Não conheço.
JULIETA — Então vá perguntar-lhe. Se for casado, um
túmulo será meu destino.
(A ama se retira, voltando em seguida)
AMA — Romeu é o nome dele, é um Montéquio, filho único
de seu grande inimigo.
JULIETA — Meu único amor, nascido de meu único ódio!
Conhecido por acaso e tarde demais! Como esse monstro, o amor, brinca
comigo, apaixonar-me pelo inimigo!
AMA — O quê? Como assim?
JULIETA — São versos que aprendi agora a pouco, com meu
par na dança.
(Chamam Julieta, de dentro)
AMA — Agora chega, vamos dormir; os convidados já se
foram.
(Saem)

SEGUNDO ATO
(Entra o Coro)
CORO — Agora, o amor antigo já agoniza, e novo afeto
toma o seu lugar. Aquela, por quem o amante tanto sofria e suspirava,
diante de Julieta já não é mais bela. Romeu está amando e é
correspondido. Nos olhos de cada um ficou mútuo feitiço. Cativos do
doce amor, ambos já sofrem, porque, sendo inimigos, ele não têm acesso
a ela, para dizer suas juras; muito menos ela tem meios de
encontrá-lo, para ouvir e dizer palavras puras. Mas a paixão os faz
fortes, e o momento é propício ao enlace, compensando o extremo perigo
com extremas delícias.
(Sai)
Cena 1
PRAÇA AO LADO DO JARDIM DOS CAPULETO
(Entra Romeu)
ROMEU — Como posso ir em frente, se meu coração está
aqui? Desvire sua rotação, Terra, e procure o seu centro!
(Escala o muro e salta para o jardim; entram Benvólio
e Mercúcio)
BENVÓLIO — Meu primo Romeu!
MERCÚCIO — Ele é prudente... Não é que soube achar o
caminho de casa e da cama?
BENVÓLIO — Ele correu para cá e escalou este muro.
Chame-o, Mercúcio.
MERCÚCIO — Mais que isso, vou conjurá-lo, Romeu!
Caprichos! Louco! Paixão! Namorado! Apareça sob a forma de um suspiro,
diga um verso bonito, que isso me basta. É só gemer “Ai!” ou rimar
“amor” e “dor”, dizer uma boa palavra à alcoviteira Vênus ou um novo
nome para seu filho cego, Cupido. Ele não ouve, ele não se mexe!... O
macaco está morto. Vou tentar um conjuro mais forte, pelo brilho dos
olhos de Rosalina, por seu lindo rosto, seus lábios escarlates, seus
pés delicados, suas belas pernas, suas coxas rebolantes e demais
adjacências, conjuro você! Apareça já!
BENVÓLIO — Se ele estiver ouvindo, vai ficar bravo.
MERCÚCIO — Não vai, não. Estou apenas invocando o nome
de sua amada, de maneira justa e bela; ele não vai ficar zangado. Pelo
amor de Rosalina, levante-se, Romeu!
BENVÓLIO — Vamos embora. Escondeu-se entre as árvores,
para ficar em companhia da noite. Se o amor é cego, o escuro lhe vai
bem.
MERCÚCIO — Se é assim tão cego, nunca acerta o alvo.
Agora ele deve estar sob um pessegueiro, sonhando que o amor é aquele
fruto que as jovens chamam pêssego, quando riem sozinhas. Romeu, boa
noite, estou indo para meu leito, pois esta cama de campanha é muito
fria. Vamos?
BENVÓLIO — Vamos, sim. Não adianta procurar quem não
quer ser encontrado.
(Saem)

Cena 2
JARDIM DOS CAPULETO
(Entra Romeu)
ROMEU — Só ri das cicatrizes quem nunca foi ferido...
(Julieta aparece na sacada de uma janela)

Silêncio! Que luz é aquela na janela? É o sol nascente, é Julieta
que surge! Desperte sol, e mate a lua ciumenta, que está pálida e
doente de tristeza, pois vê que você é mais perfeita que ela! Deixe de
servi-la, já que ela é tão invejosa! Seu manto é esverdeado e triste
como a túnica dos dementes, jogue-o fora! É minha dama, é o meu amor.
Se ela ao menos soubesse!... Está falando ou não? Seus olhos falam...
Respondo ou não? Sou muito ousado... Não é a mim que ela fala. Duas
estrelas devem ter emprestado o brilho a seu olhar. E se fosse o
contrário? Seus olhos no céu, e os astros seriam apagados, como o dia
faz com a luz das velas. E tanta claridade se espalharia no céu, que
os pássaros cantariam, pensando que era dia com luar. Como ela apóia
seu rosto na mão! Como eu queria ser uma luva em sua mão, para poder
tocar aquela face!
JULIETA — Ai de mim!
ROMEU — Ela está falando!... Fale de novo, anjo
brilhante, anjo glorioso no alto desta noite, que faz os mortais
arregalarem os olhos e torcerem o pescoço para vê-lo, quando cavalga
as nuvens preguiçosas e veleja pelo ar sereno.
JULIETA — Romeu! Romeu! Por que você é Romeu? Negue seu
pai, renuncie a seu nome. Ou, se não quiser, basta me jurar amor, e
deixarei de ser uma Capuleto.
ROMEU — (À parte) Devo ouvir mais ou devo
responder?
JULIETA — Não você, mas apenas seu nome é meu inimigo. Você
continuaria sendo o que é, se acaso não fosse Montéquio. O que é um
Montéquio? Não é mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma do
corpo de um homem, seja outro nome! O que há num simples nome? O que
chamamos rosa não cheiraria igualmente doce em outro nome? Assim
Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservaria a querida perfeição
que é dele, sem o título. Romeu jogue fora o seu Montéquio, que não é
parte de você mesmo, e fique comigo, inteira!
ROMEU — Peguei você pela palavra! Dá-me o nome de Amor,
que ficarei de novo batizado, e nunca mais serei Romeu.
JULIETA — Quem é você que, escondido na noite, penetra
assim em meu segredo?
ROMEU — Por um nome não sei como apresentar-me. Meu
nome, minha cara santa, é odioso, por ser seu inimigo. Se o trouxesse
escrito, eu rasgaria.
JULIETA — Ainda não ouvi sequer cem palavras de sua
boca, mas estou reconhecendo o som de sua voz. Será você, Romeu? Você,
Montéquio?
ROMEU — Nem um nem outro, se lhe desagradam.
JULIETA — Como chegou aqui, diga-me, por onde veio? Os
muros não são fáceis de escalar, e o lugar é mortal para você, se
algum de meus parentes o encontrarem.
ROMEU — Com as asas do amor, voei sobre eles; não há
muros de pedra para o amor, nem seus parentes podem me deter.
JULIETA — Eles matam você, se o virem.
ROMEU — Ai de mim! Há mais risco em seu olhar do que em
vinte espadas de seus parentes. Sua doçura é a única barreira ao ódio
deles.
JULIETA — Por nada deste mundo quero que o vejam.
ROMEU — Tenho o manto da noite para ocultar-me; e, se
tiver o seu amor, não importa que me vejam. Prefiro a morte rápida
pelo ódio deles do que a morte lenta, sem o seu amor.
JULIETA — Quem foi que lhe ensinou este caminho?
ROMEU — Foi o amor quem me encorajou, deu-me conselhos,
e eu lhe emprestei meus olhos. Mas eu a encontraria mesmo na mais
longínqua praia de um oceano, arriscaria tudo por isso.
JULIETA — Ainda bem que a máscara da noite cobre meu
rosto, senão, eu estaria rubra agora. Seria em vão tentar manter as
aparências, seria em vão desmentir, mas... Chega! Chega de cerimônia!
Você me ama? Sei que vai dizer sim, e vou acreditar em sua palavra.
Jurar seria falso, dizem que até Júpiter ri das juras de amor. Gentil
Romeu, você me ama? Diga sinceramente!... Se fui fácil demais de
conquistar, vou dizer não e franzir as sobrancelhas, para você correr
atrás. Senão, por nada deste mundo. Na verdade, belo Montéquio, estou
apaixonada. Talvez você me ache leviana, mas, pode acreditar
cavalheiro, sou mais sincera do que aquelas que possuem astúcia
bastante para serem “difíceis”. Eu poderia ser mais prudente, mas você
roubou o meu segredo. Eu lhe peço perdão, não pense mal, julgando ser
leviandade esse meu abandono, que a noite escura revelou.
ROMEU — Senhora, eu juro pela lua que prateia o
arvoredo...
JULIETA — Não jure pela lua, que é inconstante e muda
todo mês o seu percurso, para que seu amor não pareça, também, tão
instável.
ROMEU — Por que, então, devo jurar?
JULIETA — Não jure por nada, ou jure simplesmente por
você mesmo, que é o deus da minha devoção. Assim, eu creio.
ROMEU — Se o meu amor sincero...
JULIETA — Não, não jure! Embora eu esteja tão alegre,
não me alegra um pacto assim, noturno, irrefletido, súbito, como um
relâmpago que se apaga antes mesmo que possamos dizer: um raio! Boa
noite, meu querido, que a brisa do verão amadureça este botão de amor,
quando nos virmos outra vez, e faça dele uma flor. Repouse seu coração
na doce calma, igual à que agora o amor me faz sentir.
ROMEU — Vai me deixar assim, insatisfeito?
JULIETA — Que outra satisfação queria para esta noite?
ROMEU — Trocar nossos votos de amor.
JULIETA — Mas, antes que você pedisse, os meus já foram
dados. Com muito gosto, eu os daria de novo.
ROMEU — Mas você os retiraria, meu amor? Por quê?
JULIETA — Ora, para dar de novo. Mas nada quero, além do
que já tenho. Minha generosidade é grande como um mar, meu amor é sem
fim; quanto mais eu der, mais me sobra, porque ambos são infinitos!
(A ama chama Julieta, de dentro)
JULIETA — Ouço barulho, alguém me chama! Adeus! Já vou,
ama! Seja sincero, doce Montéquio... Espere um pouco, volto já.
(Sai)
ROMEU — Que noite abençoada! Tenho medo que seja só um
sonho, esperançoso demais para ser real.
(Julieta retorna ao balcão)
JULIETA — Três palavrinhas, querido Romeu. Depois...
“Boa noite” de verdade. Se suas intenções são mesmo sérias, me mande
um recado amanhã, pelo mensageiro que eu lhe enviar, marcando lugar,
dia e hora para a cerimônia, e meu destino seguirá seus passos até o
fim do mundo.
AMA — (De dentro) Senhorita!
JULIETA — Já vou, já vou! Porém, se sua idéia é outra,
suplico...
AMA — (De dentro) Senhorita!
JULIETA — Já vou indo!... Que não me procure mais, e me
deixe entregue à minha dor. Mandarei alguém amanhã ao teu encontro.
ROMEU — Que minha alma sobreviva...
JULIETA — Mil vezes boa noite!
(Sai)
ROMEU — Pela milésima vez, isto é pior que tudo: ficar
sem tua luz! O amor busca o amor, tanto quanto os estudantes fogem da
lição; os meninos vão à escola contrariados, tanto quanto os namorados
separam-se com aflição.
(Retira-se lentamente. Julieta volta a aparecer no
balcão)
JULIETA — Psiu! Romeu! Se eu tivesse a voz de um
falcoeiro, para atrair de volta o falcãozinho... O cativeiro tem voz
rouca, não pode falar alto; senão, eu destruiria a gruta de Eco a
chamar por seu amado, deixando sua voz mais rouca que a minha ao
repetir o nome de Romeu.
ROMEU — Quem pronuncia meu nome? Minha alma. Tem doce
som de prata a língua dos amantes, para os que à noite vagueiam...
JULIETA — Romeu?
ROMEU — Minha querida!
JULIETA — A que horas devo mandar alguém encontrá-lo,
amanhã?
ROMEU — Às nove.
JULIETA — Um século até lá... Mas esqueci o que tinha a
dizer.
ROMEU — Eu espero aqui até você lembrar.
JULIETA — Vou esquecer para você ficar aí, só me
recordando de como é boa sua companhia.
ROMEU — E eu vou ficando para que você se esqueça,
enquanto esqueço todos os outros lugares além daqui.
JULIETA — É quase dia. Você deve ir, porém não mais
longe do que um passarinho de brinquedo de uma menina, que ela finge
soltar, mas logo traz de volta ao ninho da mão, puxando-o por um fio
de seda, tão ciumenta ela é de sua liberdade...
ROMEU — Se eu fosse esse passarinho...
JULIETA — Mas eu o mataria de tantos carinhos! Boa
noite. A despedida é uma dor tão doce...
ROMEU — Que o sono venha aos seus olhos, e a paz ao seu
peito! Queria ser esses dois!... Agora, vou procurar meu conselheiro
espiritual, pois meu destino precisa de um bom guia.
(Sai)

Cena 3
CELA DE FREI LOURENÇO
(Entra Frei Lourenço com um cesto)
FREI LOURENÇO — A manhã cinza sorri; a noite já boceja.
Como um bêbado, a escuridão cambaleia, fugindo da trilha do sol, que
ela abomina. Mas, antes que o sol venha alegrar a manhã com seu olhar
de fogo, eu preciso abastecer este cesto com sementes e ervas boas e
venenosas. A terra é mãe e túmulo da natureza, produz a morte, mas
também a cura. É admirável o poder que há nas plantas e nas pedras,
mesmo a mais insignificante delas tem suas virtudes, que, por sua vez,
devolve à terra que lhe dá vida. Mas nada é só bom, pois, se o uso é
impróprio, ou se há abuso, a própria virtude se transforma em vício.
Nesta florzinha inocente pode morar um remédio ou um veneno; seu
cheiro faz bem aos sentidos, mas, se ingerida, pode causar morte
súbita. Dois reis inimigos opõem como as plantas, a graça e a atroz
cobiça, quando predomina a força negativa, logo a doença mortal devora
esta plantinha viva.
(Entra Romeu)
ROMEU — Bom dia, padre!
FREI LOURENÇO — Deus o abençoe! Que voz tão macia e
matinal me saúda? Que foi? Alguma preocupação ou medo tirou você tão
cedo da cama, meu filho? Para os velhos, a preocupação é sentinela,
que tira o lugar do sono; mas, para a mocidade, que tem a cabeça
despreocupada e muita energia, é só esticar o corpo que o sono logo
chega. Vendo você com ar de quem madruga, pergunto se foi febre, se
está escondendo algo ou... Será que Romeu não se deitou esta noite...
ROMEU — Acertou em parte, mas a melhor parte é só minha.
FREI LOURENÇO — Oh, meu Deus! Não diga que passou a
noite com Rosalina?
ROMEU — Com Rosalina, padre? Que pergunta! Já me esqueci
do nome e também da dor.
FREI LOURENÇO — Ainda bem, meu filho. Mas, então, onde
você esteve?
ROMEU — Vou contar, se me permite. Estive numa festa, em
casa do inimigo, onde alguém me atingiu com uma seta, sendo também
atingido. Ambos queremos um remédio, que somente o senhor pode nos
trazer. Não guardo nenhum ódio, santo padre, e este pedido é para mim
tanto quanto para a inimiga.
FREI LOURENÇO — Seja mais claro, filho. Se a confissão é
um enigma, não pode haver absolvição.
ROMEU — Pois saiba que me apaixonei pela filha do rico
Capuleto. Meu coração é dela, o dela é meu. Já combinamos tudo para o
casamento, só faltando marcar local e hora para a sagrada cerimônia.
Mais tarde contarei os detalhes; só lhe peço que nos case hoje mesmo.
FREI LOURENÇO — Por São Francisco! Mas que mudança!
Rosalina, tão adorada, já caiu no esquecimento? Jesus Maria! O amor
dos jovens não reside no coração, mas nos olhos. Você chorou tanto por
Rosalina! Quanta água salgada em vão jogada fora, por um amor que já
não vale mais nada! Meus ouvidos ainda escutam suas queixas; ainda
vejo em seu rosto uma lágrima, não lavada, de desgosto. Seu amor era
sincero. Como mudou tanto? Ouça esta sentença: a mulher pode
fraquejar, se um homem não a sustenta.
ROMEU — Você censurava meu amor por Rosalina.
FREI LOURENÇO — Censurava o exagero, não o amor, meu
filho.
ROMEU — Aconselhou-me a sepultar esse amor.
FREI LOURENÇO — Não numa cova onde enterrasse uma e
achasse outra.
ROMEU — Não me censure mais, a que eu amo agora retribui
com amor o meu amor; a outra não retribuía.
FREI LOURENÇO — Oh! Ela devia desconfiar que seu amor
recitasse de cor a lição, sem saber soletrar. Mas vamos deixar disso.
Vem comigo, que talvez eu possa ajudá-lo. Quem sabe esta aliança acabe
transformando o rancor que separa suas famílias numa pura afeição?
ROMEU — Vamos, meu padre, estou com pressa.
FREI LOURENÇO — Calma e prudência, quem mais corre, mais
tropeça.
(Saem)

Cena 4
UMA RUA
(Entram Benvólio e Mercúcio)
MERCÚCIO — Onde diabo foi parar Romeu? Será que ele não
foi para casa, esta noite?
BENVÓLIO — Para a casa do pai, não. Falei com um criado.
MERCÚCIO — É aquela Rosalina pálida, de coração de
pedra, que o atormenta, a ponto de deixá-lo quase louco.
BENVÓLIO — Tebaldo, aquele parente do velho Capuleto,
mandou uma carta ao pai de Romeu.
MERCÚCIO — É um desafio, aposto.
BENVÓLIO — Romeu vai responder.
MERCÚCIO — Qualquer um que saiba escrever pode responder
a uma carta.
BENVÓLIO — Não é isso, ele vai responder ao autor da
carta, provocação por provocação.
MERCÚCIO — Pobre Romeu! Ele já está morto! Apunhalado
pelos olhos negros de uma donzela branca, com os ouvidos embalados por
uma canção de amor, com o coração trespassado pela flecha sem ponta de
um arqueiro cego. É esse o homem que vai enfrentar Tebaldo?
BENVÓLIO — Ora, quem é afinal esse Tebaldo?
MERCÚCIO — Muito mais que o príncipe dos gatos, garanto.
É um corajoso campeão dos salamaleques. Ele esgrima com as mesmas
minúcias com que você canta uma ária, mantendo o compasso, os
intervalos e o andamento. Observe suas pausas, uma, duas... E a
terceira é a espada no seu peito. É um verdadeiro duelista, um
cavalheiro de primeira linha em todas as causas! Ah, o seu passado!...
O seu punto reverso!... O seu “tome esta”!...
BENVÓLIO — Aí vem Romeu! Aí vem Romeu!
(Entra Romeu)
MERCÚCIO — Mais parece um bacalhau seco. Oh, carne,
carne, como você está peixificada! Agora ele só lê versos de Petrarca,
em comparação com sua amada Rosalina, Laura não passava de uma
cozinheira (ainda bem que teve um bom amante para imortalizá-la com
seus versos!...); Dido, uma lambisgóia; Cleópatra, uma cigana;
Helena e Hero, bruxas e vadias; Tisbe, uma sujeitinha sem
importância... Bom dia, signor Romeu! Esta noite você nos aprontou uma
boa.
ROMEU — Bom dia aos dois. O que foi que eu aprontei?
MERCÚCIO — Você foi saindo de mansinho, deu no pé, não
lembra?
ROMEU — Perdão, caro Mercúcio, mas eu tinha um assunto
sério a resolver. Num caso assim, parece justo forçar um pouco a
cortesia...
MERCÚCIO — Você quer dizer que num caso assim somos
obrigados a fugir.
ROMEU — Sim, por cortesia.
MERCÚCIO — Muito bem explicado!
ROMEU — É porque se trata de uma explicação muito
cortês.
MERCÚCIO — Fique sabendo que eu sou a fina flor da
cortesia!
ROMEU — A fina flor das flores é o que você é!
MERCÚCIO — Exato.
ROMEU — Até os sapatos coloridos...
MERCÚCIO — Muito espirituoso. Continue com suas
pilhérias até gastar os sapatos, porque quando estiver gasta sua
última sola, ficará sozinha também sua pilhéria singular.
ROMEU — Isso é o que se chama piada de sola fina, muito
espirituosa para um solteirão de meia-sola.
MERCÚCIO — Acuda Benvólio, que meu fôlego está no fim.
ROMEU — Duro nele, duro nele; senão, cantarei vitória.
MERCÚCIO — É natural cantar vitória. Agora, sim, você se
revela sociável. Agora, sim, você é o nosso verdadeiro Romeu, você é o
que é por arte e natureza. Porque esse seu amor disparatado é como o
de um grande idiota que sai por aí correndo, cambaleando, para no fim
esconder a cabeça num buraco qualquer.
BENVÓLIO — Chega, chega!
MERCÚCIO — Ora, você quer que eu corte minha história e
a deixe pela metade?
BENVÓLIO — Sim. Do contrário ficaria de rabo muito
comprido.
MERCÚCIO — Mas eu já estava chegando ao fundo da
história, não ia prosseguir mais.
ROMEU — Aí está um argumento apreciável e de bom
tamanho!
(Entram a ama e Pedro)
MERCÚCIO — Barco à vista! Uma vela enfunada!
BENVÓLIO — A bem da verdade, duas: uma camisa e um
casaco!
AMA — Pedro!
PEDRO — Pois não?
AMA — Meu leque, Pedro.
MERCÚCIO — Sim, pobre Pedro, para esconder a cara dela,
porque, dos dois, o leque é mais passável!
AMA — Deus lhes dê bom dia, cavalheiros!
MERCÚCIO — E para a senhora boa tarde, bela senhora!
AMA — Já é de tarde?
MERCÚCIO — Não será menos, garanto, porque a mão obscena
do mostrador está, neste momento, segurando o ponteiro do meio-dia.
AMA — Fique longe de mim! Que espécie de homem é você?
ROMEU — Minha senhora, um homem que Deus fez para
arruinar a si próprio.
AMA — Por Deus, você fala bem. “Para arruinar a si
próprio”... Cavalheiros, alguém pode dizer-me onde encontrar o jovem
Romeu?
ROMEU — Eu posso. Mas, quando encontrar o jovem Romeu,
ele estará um pouco mais velho do que neste momento. Por falta de
outro pior, sou eu o mais jovem desse nome.
AMA — Muito bem.
MERCÚCIO — Para ela, o pior está bem.
AMA — Se o senhor for ele, preciso ter uma palavrinha em
particular com o senhor.
BENVÓLIO — Deve ser convite para alguma ceia.
MERCÚCIO — Uma alcoviteira, uma alcoviteira!
ROMEU — Você farejou alguma coisa?
MERCÚCIO — Não será uma lebre, a menos que seja uma
lebre de pastel de quaresma, já meio passada e embolorada antes mesmo
de ser comida. A propósito, vamos almoçar na casa de seu pai?
ROMEU — Vou logo depois de vocês.
MERCÚCIO — Adeus, minha senhora, adeus.
(Saem Mercúcio e Benvólio)
AMA — Adeus, arre! Por favor, cavalheiro, pode me dizer
quem é este descarado que só tem velhacarias na cabeça?
ROMEU — Um cavalheiro, minha senhora, que adora ouvir
sua própria voz, e que fala mais em um minuto do que poderia escutar
em um mês.
AMA — Se ele disser alguma coisa contra mim, vai ver o
que é bom... Mesmo que seja mais forte do que parece, acabaria com ele
em três tempos... Se eu não conseguisse, encontraria que me ajudasse.
Insolente! Não sou nenhuma de suas rameiras, nenhuma de suas vadias...
(Para Pedro) E você?! Fica aí parado, consentindo que qualquer
um abuse de mim como bem entender?
PEDRO — Eu não vi ninguém abusando da senhora como bem
entendesse, porque, se tivesse visto, teria logo sacado minha espada.
Posso ser tão rápido nisso como qualquer outro, desde que... A lei
esteja a meu lado.
AMA — Por Deus, estou com tanta raiva que meu corpo está
tremendo todo! Sujeitinho insolente! Mas, desculpe senhor, só uma
palavrinha: minha jovem senhora mandou que eu o procurasse. O que ela
ordenou que eu dissesse é segredo que guardarei comigo. Mas primeiro
permita que eu lhe diga que, se o senhor pretende levá-la para o
paraíso dos loucos, como se diz, seria uma ação das mais condenáveis,
como se diz. Porque minha senhora é jovem e, se o senhor tentar fazer
com ela um jogo duplo, será uma coisa muito ruim, um jeito muito baixo
de proceder com uma nobre senhorita.
ROMEU — Ama, recomende-me à sua senhora. Eu juro que...
AMA — Ai, que bom! Pois vou dizer a ela isso mesmo! Como
ela vai ficar contente!
ROMEU — Mas o que é que você vai dizer, se eu ainda não
falei nada?
AMA — Vou dizer que o senhor jurou o que me parece ser
uma promessa de cavalheiro.
ROMEU — Diga a ela que encontre um jeito de ir hoje à
tarde confessar-se, na cela de Frei Lourenço, para confessar e...
Casar. Agora, aceite isto pelo seu trabalho.
AMA — Não, senhor, nem uma moedinha.
ROMEU — Vamos, faço questão.
AMA — Esta tarde, senhor, ela estará lá.
ROMEU — Espere um pouco. Dentro de uma hora, atrás do
muro da abadia, um criado vai entregar-lhe uma escada de cordas, para
que eu chegue, na calada da noite, até o topo de meu amor. Adeus.
Continue fiel, e saberei recompensá-la. E dê recomendações à
senhorita.
AMA — Deus o abençoe! Mas, escute senhor...
ROMEU — O que é querida ama?
AMA — Seu criado é de confiança?
ROMEU — Posso assegurar que ele é mais firme que o aço.
AMA — Muito bem. Minha senhora é uma moça muito
gentil... Oh, meu Deus! Quando ela ainda era uma criança tagarela, um
cavalheiro da cidade, chamado Páris, já estava disposto a lançar o seu
arpão para abordá-la. Porém, ela prefere ver um sapo pela frente a
olhar para ele! Às vezes, fico zangada e digo que Páris é um bom
partido. Mas posso garantir que quando digo isso ela fica mais pálida
que cera. Por acaso rosmaninho e Romeu não começam com a mesma letra?
ROMEU — Sim, ama, ambos começam por R. Mas por quê?
AMA — R parece rosnado de cão... Não é esta letra, não.
Sei muito bem que a palavra que estou pensando começa por outra letra.
Minha senhora compôs para o senhor e o rosmaninho as mais lindas
rimas, que o senhor terá grande prazer em ouvir.
ROMEU — Recomende-me à sua senhora.
AMA — Recomendarei mil vezes. Pedro!
PEDRO — Pois não?
AMA — Pedro segure o meu leque e vá à frente!
(Saem)

Cena 5
JARDIM DOS CAPULETO
(Entra Julieta)
JULIETA — Eram nove horas quando mandei a ama procurar Romeu.
Ela disse que voltava em meia hora! Será que não o encontrou? Oh! Ela
é aleijada!... Os mensageiros do amor deveriam ser como o pensamento,
mais rápido que os raios de sol quando expulsam as sombras de uma
colina. Por isso é que o amor é sempre levado por ligeiras pombas, e
Cupido possui asas velozes como o vento! Agora o sol já está no cume,
das nove ao meio-dia, três horas demoradas... E ela não chega! Se
estivesse apaixonada e fosse jovem, correria como uma bala; minhas
palavras a lançariam para o meu amor, e as dele a projetariam de volta
a mim. Mas gente velha parece morta, são lerdos e pesados como o
chumbo!
(Entram a ama e Pedro)
JULIETA — Até que enfim, meu Deus!... Que novidades me trouxe,
querida ama? Falou com ele? Mande embora o criado.
AMA — Pedro espere no portão.
JULIETA — E então, mãezinha? Oh, meu Deus, por que você
está triste? Se forem más as novidades, conte-as com cara alegre; se
forem boas, não estrague a música contando-as com esta cara tão azeda.
AMA — Deixe-me descansar um pouco, estou exausta! Os
ossos me doem. Corri tanto!
JULIETA — Eu lhe daria meus ossos para saber as
novidades. Por favor, mãezinha, conte!
AMA — Jesus, quanta pressa! Não pode esperar um pouco?
Não está vendo que estou sem fôlego?
JULIETA — Como está sem fôlego para contar, se tem
fôlego para me dizer que está sem fôlego? Este pretexto é mais
comprido do que a própria história a que serve de desculpa. As
notícias são boas ou ruins? Vamos, responda logo, que os detalhes eu
ouvirei mais tarde, com paciência. Mas diga, são boas ou ruins?
AMA — Bem... Você fez uma escolha muito simples, porque você
simplesmente não sabe escolher um homem. Romeu? Ah, ele não! Apesar de
ter o rosto mais bonito que o outro, e pernas que superam todos os
homens, e as mãos, os pés, o corpo... Bem, estão acima de qualquer
comparação. Ele não é nenhuma flor de cortesia, mas, posso assegurar,
é manso como um cordeiro. Continue nesse caminho, menina, servindo a
Deus. Como, já jantaram por aqui?!
JULIETA — Não, não! Mas tudo isto eu já sabia. E sobre o
casamento, o que ele disse?
AMA — Ai, que dor de cabeça! Minha cabeça está
latejando, parece que vai arrebentar em vinte pedacinhos! E também
minhas costas. Ai, que dor nas costas! Você vai se arrepender de
ter-me feito quase morrer correndo por aí!
JULIETA — Eu juro, eu sinto muito que você não esteja se
sentindo bem. Mas, ama querida, o que disse meu amado?
AMA — Bem, seu amado disse, como um cavalheiro honesto,
cortês, gentil, bonito e, posso jurar, virtuoso... Onde está sua mãe?
JULIETA — Minha mãe? Está lá dentro. Onde mais poderia estar?
Que resposta ridícula! “Seu amado disse, como um cavalheiro honesto...
Onde está sua mãe?”
AMA — Meu Deus do céu! Que fúria! É esse o remédio que
você oferece para meus ossos? De agora em diante, trate de dar você
mesma seus recados.
JULIETA — Quantos melindres! E Romeu, o que ele disse?
AMA — Você tem permissão para ir se confessar?
JULIETA — Tenho.
AMA — Então, vá correndo à cela de Frei Lourenço, onde
encontrará seu futuro marido. Estou vendo que o sangue quente já subiu
ao seu rosto, as novidades deixam você vermelha. Corra à capela, que
irei depois, pois vou buscar uma escada, para que seu amado possa
chegar, à noite, ao ninho do pássaro. Eu sou mesmo a besta de carga da
sua festa, não sou? Agora vou jantar; você vai para a cela do frei.
JULIETA — Vou para o céu! Até mais, querida ama!
(Saem)

Cena 6
CELA DE FREI LOURENÇO
(Entram Frei Lourenço e Romeu)
FREI LOURENÇO — Que o céu abençoe este sagrado ato. Que
o amanhã jamais venha nos perturbar!
ROMEU — Amém, amém! Mas nem todas as tristezas do mundo
podem apagar a alegria de ver Julieta por um breve minuto. Enlace
nossas mãos com palavras sagradas, e basta; depois, a morte, que até o
amor devora, pode fazer o que quiser. Para mim é suficiente poder
dizer que ela é minha!
FREI LOURENÇO — Alegrias violentas também têm um fim
violento, triunfam como a pólvora e fogo, que se unem por um instante
e se consomem. Até o mel mais doce, por sua própria delícia, acaba
tornando-se enjoativo e estragando o paladar mais ávido... Tenha
moderação no amor, o apressado no final atrasa-se tanto quanto o
lerdo.
(Entra Julieta)
Eis a noiva que chega! Com passos tão leves, jamais desgastaria a
pedra mais duradoura. Um apaixonado pode equilibrar-se, sem cair,
sobre a mais tênue teia de aranha que o vento do verão balança, tão
leve é a presunção.
JULIETA — Bom dia para o meu santo confessor!
FREI LOURENÇO — Romeu agradecerá por nós dois, filha.
JULIETA — Ele também está incluído nesse bom dia, senão
o agradecimento seria imerecido...
ROMEU — Julieta, se a sua felicidade for tão grande
quanto a minha, e se você possuir a arte de aumentá-la com suas
palavras, que são música para os meus ouvidos, fale sobre a alegria
que compartilhamos hoje, neste encontro tão doce.
JULIETA — Meu sentimento é mais rico que as palavras,
contenta-se com a essência, não com ornamentos... Somente os pobres
contam seu dinheiro; meu amor sincero chegou a tanto, que não posso
avaliar nem sequer a metade da riqueza que possuo!
FREI LOURENÇO — Vamos, vamos, simplifiquemos o ofício.
Não pretendo deixá-los sozinhos até que a santa Igreja celebre o
casamento.
(Saem)

TERCEIRO ATO
Cena 1
UMA PRAÇA PÚBLICA
(Entram Mercúcio, Benvólio, Pajem e Criados)
BENVÓLIO — Meu caro Mercúcio vamos embora. Faz calor, e
os Capuleto estão por aí. Se os encontrarmos, vai haver briga. O
sangue ferve fácil nesses dias quentes...
MERCÚCIO — Você parece um desses tipos que, quando
entram numa taberna, batem com a espada na mesa e gritam: “Queira Deus
que eu não venha a precisar de você!” e, depois do segundo copo, já
estão sacando a espada até mesmo contra o taberneiro e sem nenhum
motivo.
BENVÓLIO — Você acha que eu sou como esses?
MERCÚCIO — Ora, você é dos mais esquentados de toda a
Itália, tão inclinado ao mau humor quanto mal-humorado nas
inclinações.
BENVÓLIO — E o que mais?
MERCÚCIO — Se houvesse dois como você, em pouco tempo
não haveria mais ninguém, porque se matariam mutuamente. Você é capaz
de brigar com alguém só porque tem um fio a mais ou a menos na barba
do que você; ou então porque um sujeito esteja comendo castanhas, e
você tem os olhos dessa cor. Que outros olhos, senão os seus,
encontrariam tantas razões para brigas? Sua cabeça está mais cheia de
brigas que um ovo... De galos. É por isso que sua cabeça tem sido mais
batida que clara de ovo. Eu já vi você brigar com um homem que tossiu
na rua e acordou seu cachorro, que estava dormindo ao sol. E você não
brigou com aquele alfaiate, só porque vestiu um terno novo antes da
Páscoa? E com aquele outro, só porque amarrou sapatos novos com
cordões velhos? Sendo como é você ainda vem me dar lições de
prudência?
BENVÓLIO — Se eu fosse tão briguento como você,
apostaria o dinheiro de toda minha vida ao primeiro que me assegurasse
cem minutos de existência!
MERCÚCIO — O dinheiro de toda sua vida? Ah, que simples
ele é!
BENVÓLIO — Ai, minha cabeça! Os Capuleto estão chegando.
MERCÚCIO — Ai, meu pé! Para mim tanto faz..
(Entram Tebaldo e outros)
TEBALDO — Fiquem por perto, vou falar com eles. Bom dia,
cavalheiros! Uma palavra com qualquer um de vocês.
MERCÚCIO — Só uma palavra com só um de nós? Por que não
acrescenta mais alguma coisa... Uma palavra e uma estocada, por
exemplo?
TEBALDO — Estarei disposto a isso, quando me oferecer
uma oportunidade.
MERCÚCIO — Quer dizer que você não achará oportunidade,
se não a oferecermos?
TEBALDO — Mercúcio, você está concertado com Romeu...
MERCÚCIO — Concertado? Você acha que somos menestréis?
Se acha, prepare-se para ouvir desarmonias. Aqui está o arco do meu
violino (bate na espada), que pode fazê-lo dançar! Concertado!
BENVÓLIO — Estamos em uma praça pública, há muita gente.
Ou vamos para um lugar mais discreto ou vão embora, porque está todo
mundo nos olhando.
MERCÚCIO — Que olhem! Daqui não dou um passo.
TEBALDO — Fiquem sossegados, senhores. Ali vem o meu
homem.
MERCÚCIO — Que me enforquem, se ele usa sua farda. Mas
vá para a arena e ele o seguirá então você vai ver quem é “o meu
homem”.
(Entra Romeu)
TEBALDO — O ódio que você me inspira, Romeu, só me
permite dizer-lhe isto: canalha.
ROMEU — Tenho minhas razões para estimá-lo, Tebaldo, o
que anula essa sua acusação. Não sou canalha. Adeus; bem vejo que você
não me conhece.
TEBALDO — Estas palavras não apagam as injúrias que você
me tem feito. Dê meia volta e saque a espada!
ROMEU — Declaro que jamais lhe fiz uma injúria. Gosto de
você mais do que imagina! Quando souber os motivos, você entenderá..
Fique tranquilo, meu caro Capuleto, meu nome é igual ao seu.
MERCÚCIO — Que submissão, que covardia vergonhosa! Só
uma estocada resolve este problema! (saca a espada) Tebaldo, caçador
de ratos, quer dar umas voltinhas?
TEBALDO — O que você quer de mim?
MERCÚCIO — Nada mais, meu bom rei dos gatos, do que uma
de suas sete vidas, que tomarei a liberdade de tirar, deixando as
outras seis para malhar depois, conforme o tratamento que você me der.
Ouviu? Vai sacar a espada da bainha ou vai esperar que eu acerte sua
orelha?
TEBALDO — (sacando a espada) Estou a seu dispor.
ROMEU — Mercúcio guarde essa espada!
MERCÚCIO — Vamos meu caro senhor!
(Duelam)
ROMEU — Benvólio saque a espada, vamos desarmá-los!
Cavalheiros, que vergonha! Mercúcio! Tebaldo! É uma ordem do príncipe:
são proibidos os duelos em Verona! Tebaldo!... Bom Mercúcio!...
Parem!...
(Tebaldo acerta Mercúcio entre os braços de Romeu;
saem Tebaldo e seus seguidores)
MERCÚCIO — Fui ferido. Que a peste caia em suas casas!
Estou morto! E ele foi embora, sem sofrer nada?
BENVÓLIO — Como assim, ferido?
MERCÚCIO — Foi só um arranhão, mas já chega. Onde está o
pajem? Corra chamar um cirurgião!
(Sai o pajem)
ROMEU — Coragem, não pode ser assim tão grave.
MERCÚCIO — De fato, não é tão fundo como um poço, nem
tão largo como uma porta de igreja; mas é o suficiente. Perguntem por
mim amanhã, e irão encontrar-me bem quieto... Já estou curtido e
temperado! Ah! Um cão, um rato, um camundongo, um gato acertar um
homem deste jeito! Um fanfarrão, um pilantra, um vilão, que esgrima
conforme as regras da aritmética! Por que diabo você se meteu entre
nós? Fui ferido sob seu braço.
ROMEU — Tive a melhor das intenções.
MERCÚCIO — Leve-me para alguma casa, Benvólio, ou vou
desmaiar. Que a peste caia em suas casas! Virei pasto de vermes. Já
recebi o meu quinhão. Malditos!
(Saem Mercúcio e Benvólio)
ROMEU — Por minha causa, foi ferido mortalmente este meu
caro e leal amigo, parente tão próximo do príncipe! Minha reputação
está manchada pelo insulto de Tebaldo, que é meu primo há uma hora.
Ah, doce Julieta, sua beleza tornou-me um efeminado, amoleceu a
têmpera de minha coragem de aço!
(Volta Benvólio)
BENVÓLIO — Romeu, Romeu, Mercúcio está morto! Aquele
bravo espírito desprezou a terra e foi precocemente para as nuvens...
ROMEU — Negro destino de um negro dia, este apenas
inicia a desgraça que outros completarão.
(Volta Tebaldo)
BENVÓLIO — Aí vem outra vez Tebaldo, furioso.
ROMEU — Ele vivo e triunfante, e Mercúcio morto! Para o
céu, prudente reverência! Que o olhar da fúria seja o meu guia!
Tebaldo retire agora o “canalha” que você há pouco me emprestou; a
alma de Mercúcio ainda paira sobre nossas cabeças, esperando que a sua
vá fazer-lhe companhia. Ou você ou eu, ou ambos, temos de ir com ele.
TEBALDO — Você, moleque desgraçado, que tocava com ele,
acompanhe-o de novo!
ROMEU — Vamos decidir isto!
(Duelam; Tebaldo cai)
BENVÓLIO — Fuja depressa, Romeu! Os cidadãos se
exaltaram! E Tebaldo está morto! Não fique aí parado, porque o
príncipe irá condená-lo à morte se o pegarem aqui! Fuja depressa!
ROMEU — Virei joguete do destino!
BENVÓLIO — Vá, o que está esperando?
(Sai Romeu; entram cidadãos)
CIDADÃO — Para onde ele foi o que matou Mercúcio? Para
onde foi Tebaldo, o assassino?
BENVÓLIO — Tebaldo? Aqui.
CIDADÃO — Em nome do príncipe, você está detido.
(Entram o príncipe e comitiva; Montéquio, Capuleto e
senhoras; e outras pessoas)
PRÍNCIPE — Como se iniciou esta briga?
BENVÓLIO — Eu posso contar príncipe, como começou esta
disputa fatal. Ali jaz Tebaldo, que matou o bravo Mercúcio, seu
parente, e foi morto pelo jovem Romeu.
SENHORA CAPULETO — Ai, Tebaldo, o filho de meu irmão!
Oh, príncipe! Ai, meu marido! Sangue de um parente correndo ali no
chão! Se houver justiça, senhor príncipe, o pagamento deve ser o
sangue de um Montéquio!
PRÍNCIPE — Então, Benvólio, quem começou esta briga
sangrenta?
BENVÓLIO — Tebaldo, que aí está morto pelas mãos de
Romeu. Romeu falou-lhe brandamente, pedindo que ele ponderasse como a
rixa era tola... Invocou até mesmo a autoridade de Sua Alteza. E tudo
isso calmo, com voz pausada e gesto cortês. Mas nem assim conseguiu
acalmar o furor de Tebaldo, que, surdo ao pedido de paz, dirige o aço
pontiagudo ao peito de Mercúcio, o qual rebate golpe a golpe e, com
solene desprezo, afasta a morte com a esquerda, enquanto a devolve a
Tebaldo com a direita. Romeu grita bem alto: “Parem, amigos,
apartem-se!” E, com um gesto mais rápido que a língua, interpõe-se
entre eles; no entanto, um golpe traiçoeiro de Tebaldo acerta Mercúcio
sob o braço de Romeu. Tebaldo foge, e Romeu jura vingança. Tebaldo
volta logo depois, e a luta entre eles se trava na velocidade de um
relâmpago. Antes que eu pudesse separá-los, Tebaldo cai sem vida... e
Romeu foge. Que eu morra, se isto não for verdade.
SENHORA CAPULETO — É um parente dos Montéquio, o
sentimento distorce a sua fala, ele não diz a verdade. Devem ter sido
uns vinte que lutaram nesta briga sinistra, contra uma só vida. Exijo
justiça, príncipe! Romeu matou Tebaldo, Romeu deve morrer!
PRÍNCIPE — Romeu matou Tebaldo... Que matou Mercúcio.
Quem pagará o preço desse caro sangue?
MONTÉQUIO — Romeu não, príncipe. Ele era amigo de
Mercúcio, e sua falta foi apenas antecipar-se à sentença da lei,
matando Tebaldo incontinenti.
PRÍNCIPE — Por esse crime, ele deve ser exilado de
Verona. O ódio de vocês também me atingiu de perto, fazendo derramar o
sangue dos meus. Mas eu hei de lhes impor uma pena tão dura, que irão
se arrepender da perda que estou sofrendo! Não ouvirei pedidos nem
desculpas; nem lágrimas nem súplicas poderão abalar-me. Façam Romeu
partir depressa; se ele for encontrado aqui, será sua última hora!
Levem este corpo. E que o decreto seja cumprido. A clemência seria
assassina, se perdoasse àqueles que matam.
(Saem)

Cena 2
UM QUARTO NA CASA DOS CAPULETO
(Entra Julieta)
JULIETA — Corram corcéis de fogo, para a morada de Febo!
Um bom condutor, como Faetonte, saberia levá-los a galope para o
poente, fazendo chegar rápido a noite escura! Espalhe a sua cortina, ó
noite, guardiã dos amores, para que olhos curiosos nada vejam e para
que Romeu possa vir até meus braços, silencioso e invisível! Os
amantes devem enxergar, no rito do amor, somente com a luz de sua
própria beleza. Se o amor de fato é cego, vai bem com a negra noite.
Venha, ó noite suave, vestida como uma senhora austera, e me ensine a
perder esta partida já ganha, jogada por duas virgindades sem mácula!
Esconda com seu manto escuro o rubor que sobe ao meu rosto, até que o
tímido amor, tornando-se corajoso, veja apenas inocência no ato do
amor verdadeiro! Venha, noite! Venha, Romeu, meu dia à noite! Voando
nas asas da noite, você ficará mais claro que a neve perto de um
corvo! Venha amorosa noite de escuras pestanas! Traga o meu Romeu... e
se acaso um dia ele morrer, transforme-o em pedacinhos de estrelas, e
ele deixará a face do céu tão bela, que todo o mundo vai amar a noite,
deixando de adorar o sol! Ai, eu comprei a casa de um amor, mas ainda
não tomei posse dela; e embora eu já me encontre vendida, ainda não
fui possuída!... Está tão tedioso este dia, como a véspera de uma
noite de festa para uma criança impaciente, que já ganhou roupa nova,
mas ainda não pode vesti-la! Oh! Aí vem a ama... Ela deve trazer
notícias, e, para mim, toda língua que pronuncia o nome de Romeu têm
uma eloquência especial.
(Entra a ama, com as cordas)
JULIETA — Então, ama, e as novidades? O que está trazendo aí?
São as cordas de Romeu?
AMA — Meu Deus, as cordas!
(Atira-as ao chão)
JULIETA — O que está acontecendo? Por que você torce as
mãos assim?
AMA — Ai, que desgraça! Ele está morto, morto! Estamos
perdidas, senhorita! Que desgraça! Mataram-no! Ele está morto!
JULIETA — Pode o céu ser tão invejoso?
AMA — Romeu pode, embora o céu não possa. Ai, Romeu,
Romeu! Quem poderia imaginar?
JULIETA — Por que diabos você me atormenta assim? Isso é
tortura para condenados no Inferno! Por acaso Romeu suicidou-se? Basta
que diga “sim”, e essa palavrinha me envenenará mais do que o fatal
olhar do basilisco! Deixarei de existir, se houver tal “sim”, e se já
estiverem sem vida os olhos que esse “sim” indica... Ele morreu? Diga
“sim” ou “não”, esse som será tudo para meu coração!
AMA — Eu vi o ferimento, com meus próprios olhos! Deus
nos acuda! Eu vi a marca, bem no meio do peito! Pobre cadáver!
Ensanguentado, pálido como cinza, coberto de sangue coagulado!
Desmaiei quando o vi.
JULIETA — Oh, meu coração, se despedace de uma vez! Vão
para a prisão, meus olhos, e nunca mais contemplarão a liberdade! Chão
vil, onde a morte nunca erra que sobre você e Romeu tenha a terra o
mesmo peso!
AMA — Oh, Tebaldo, Tebaldo! Grande amigo! Tebaldo, um
cavalheiro tão honesto! Como pude viver para vê-lo morto?
JULIETA — Que turbulenta tempestade é esta? Romeu assassinado,
e Tebaldo sem vida? Meu caro primo, meu querido esposo? Que soem então
as trombetas do Juízo Final! Se os dois morreram, quem mais pode estar
vivo?
AMA — Tebaldo morreu, e Romeu foi banido.
Romeu, o assassino, foi imediatamente banido!
JULIETA — Oh, Deus! Romeu derramou o sangue de meu primo
Tebaldo?
AMA — Derramou, sim, derramou. Oh, que dia!
JULIETA — Coração de serpente em rosto de flor! Já terá
existido um tal dragão em tão bela caverna? Formoso tirano! Monstro
angelical! Abutre! Cordeiro com fome de lobo! Substância desprezível
com aparência divinal! Justamente o oposto do que parecia ser!... Um
santo maldito, um honrado vilão! Oh, natureza, o que foi você fazer no
inferno, quando resolveu pôr o espírito de um monstro no paraíso
mortal de um corpo tão perfeito? Já houve livro de matéria tão vil,
tão bem encadernado? Como a mentira pode habitar um palácio assim?
AMA — Nos homens não há fé, nem confiança, nem
honestidade. São todos hipócritas, falsos e perjuros! São todos
desprezíveis! Onde está meu criado? Que me traga um pouco de
aguardente! Tantas mágoas e tristezas deixam-me velha. Que a vergonha
caia sobre Romeu!
JULIETA — E que uma praga queime sua língua por haver
desejado tal coisa! Romeu não nasceu para a vergonha. A vergonha se
envergonharia de pousar na fronte dele, que é um trono onde a honra
poderia ser coroada como o mais incontestável rei da terra! Que
monstro eu fui ao insultá-lo assim!
AMA — Mas como falar bem de quem matou seu primo?
JULIETA — E posso falar mal de quem é meu marido? Ah,
pobre amado, que língua irá limpar seu nome se eu, sua esposa há
apenas três horas, já quase o sujei? Mas por que, infeliz, matou meu
primo? É que meu desgraçado primo iria matá-lo... Voltem lágrimas
tolas, à sua fonte de origem; as gotas tributárias da tristeza correm,
por engano, de alegria. Meu esposo está vivo! Tebaldo quis matá-lo,
mas está morto. Isso consola! Então, por que chorar? Mas há uma
palavra pior do que a morte de Tebaldo, e que me mata. Queria
esquecê-la, mas... Ela não me sai da memória: “Tebaldo morreu, e Romeu
foi banido!” Banido! Esta única palavra mata dez mil Tebaldos! A morte
de Tebaldo já seria tristeza suficiente, se tivesse terminado por
aí... Ou, ainda que a tristeza amasse companhia e viesse sempre
seguida de outras desgraças, porque é que, ao dizer “Tebaldo morreu”,
não acrescentou: “seu pai, sua mãe também morreram”, o que seria razão
de sobra para lamentações?... Mas, após a morte de Tebaldo, anunciar
“Romeu foi banido” é o mesmo que matar pai, mãe, Tebaldo, Romeu e
Julieta ao mesmo tempo! Não tem fim, não tem limite, não tem medida,
não tem tamanho a tristeza contida no som dessas palavras! Onde estão
meus pais, ama?
AMA — Chorando e lamentando a morte de Tebaldo. Quer
vê-los? Eu a levo lá.
JULIETA — Eles lavam o corpo de Tebaldo com lágrimas de
dor. Quando secarem, eu derramarei as minhas pelo exílio de Romeu.
Pegue as cordas. Pobres cordas, enganadas como eu! Vocês seriam o
caminho para minha cama; mas vou morrer viúva e virgem. Vem, ama,
traga-me as cordas, até o meu leito nupcial, pois quem levará minha
virgindade não é Romeu, mas a morte.
AMA — Corra para seu quarto, que eu vou encontrar Romeu,
para consolar você. Acho que sei onde ele está. Esteja certa de que
Romeu virá esta noite. Ele está escondido na cela de Frei Lourenço.
JULIETA — Encontre-o! Lhe entregue este anel e peça-lhe
que venha trazer-me o último adeus!
(Saem)

Cena 3
CELA DE FREI LOURENÇO
(Entra Frei Lourenço)
FREI LOURENÇO — Entre, Romeu, malfadado! Parece que as
aflições se enamoraram de você e que você se casou com a desgraça!
(Entra Romeu)
ROMEU — Quais as notícias, padre? Qual foi a sentença do
príncipe? Que outra dor, que ainda não conheço, deseja tocar-me de
perto?
FREI LOURENÇO — Você tem se mostrado íntimo dessas
tristes companhias, filho. Vou contar-lhe a decisão do príncipe.
ROMEU — Será menos que uma sentença de morte?
FREI LOURENÇO — Ele pronunciou uma sentença mais branda;
não a morte para o seu corpo, mas o desterro...
ROMEU — O desterro?! Seja clemente e diga logo “morte”!
O desterro tem aparência mais horrível do que a própria morte! Por
favor, não repita mais essa palavra!
FREI LOURENÇO — Você está expulso de Verona. Tenha
paciência, porque o mundo é vasto.
ROMEU — Além dos muros de Verona não existe o mundo, só
torturas, purgatório e o próprio inferno! Ser banido daqui é ser
banido do mundo, e ser banido do mundo é a morte. O desterro é outro
nome para a morte, assim, dando à morte esse nome, cortam-me a cabeça
com machado de ouro, zombando do golpe que me tira a vida!
FREI LOURENÇO — Que pecado mortal! Que ingratidão mais
grosseira! Nossas leis pedem morte pela falta que você cometeu; porém
o príncipe generoso tomou seu partido, deixando a lei de lado e
transformando em exílio a horrível sentença de morte. Foi uma grande
graça, e você não quer ver.
ROMEU — É tortura, não graça. O céu só existe onde está
Julieta. Um simples gato, um cachorro, um ratinho, os seres mais
ínfimos aqui vivem no céu e podem vê-la. Mas Romeu não pode! As moscas
têm mais importância, dignidade e direitos que Romeu: elas podem
pousar nas brancas mãos de Julieta ou roubar uma bênção imortal de
seus lábios, que, de tão puros, ficam vermelhos por pensar que o
próprio beijo de um no outro é pecado! Mas Romeu não pode! E o senhor
ousa dizer que o desterro não é a morte? Não pode me arranjar algum
veneno, um punhal afiado, ou qualquer outro tipo de morte rápida que
acabe comigo, sem ser esse “banido”? Ora, banido, padre! Os condenados
no inferno urram ao pronunciar essa palavra, padre! Como é que o
senhor, um homem santo, um confessor espiritual, que pode perdoar
pecados e é meu amigo declarado, me esmaga com uma tal palavra,
“desterro”?
FREI LOURENÇO — Rapaz sem juízo! Escute-me um pouco...
ROMEU — Vai falar em desterro outra vez!?
FREI LOURENÇO — Vou lhe dar uma armadura para
defender-se dessa palavra: beba como consolo o doce leite da
adversidade, a filosofia, embora você esteja mesmo banido.
ROMEU — Banido, de novo!? Dane-se a filosofia! A menos
que ela consiga criar uma Julieta, mudar uma cidade, reverter a
sentença de um príncipe, de nada vale, não adianta. Não me fale mais!
FREI LOURENÇO — Percebo que os loucos não têm ouvidos.
ROMEU — Como poderiam ter, se os sábios não têm olhos?
FREI LOURENÇO — Deixe-me falar sobre a sua situação...
ROMEU — Como pode falar sobre aquilo que não sente? Se o
senhor fosse jovem como eu, se Julieta fosse sua esposa há poucas
horas, se tivesse assassinado Tebaldo, e apaixonado, e banido... Então
poderia falar alguma coisa, poderia arrancar os cabelos ou atirar-se
no chão como eu faço agora, para que tirassem a medida da sepultura
que ainda não foi aberta!
(Batem à porta)
FREI LOURENÇO — Levante-se, Romeu! Estão batendo,
esconda-se!
ROMEU — Não! A menos que os gemidos de meu coração como
um nevoeiro, me escondam!
(Batem)
FREI LOURENÇO — Escute, estão batendo de novo! Quem está
aí? Romeu levante-se, você pode ser preso! Esconda-se em meu quarto,
corra! Meu Deus! Já vou indo!
(Batem)
FREI LOURENÇO — Quem está batendo com tanta força? Quem é você?
O que quer?
AMA — (de fora) Deixem entrar porque tenho um
recado. É da senhora Julieta.
FREI LOURENÇO — Ah, bom! Então seja bem-vinda!
(Entra a ama)
AMA — Oh, santo padre, por favor, me diga, onde está o
senhor de minha ama? Onde está Romeu?
FREI LOURENÇO — Ali no chão, embriagado com suas
próprias lágrimas!
AMA — Oh, justamente o mesmo está acontecendo com minha
senhora!
FREI LOURENÇO — Que sintonia dolorosa! Que situação
lamentável!
AMA — Ela está justamente assim, deitada, chorando e
lastimando-se, lastimando-se e chorando! Levante-se, seja homem! Pelo
amor de Julieta, levante-se e erga a cabeça! Por que ficar mergulhado
em “ohs” tão profundos?
ROMEU — Ama!
AMA — Ah, meu senhor!... A morte é o fim de tudo.
ROMEU — Está falando de Julieta? E ela? Ela está
pensando que sou um assassino, que manchou a infância de nossa
felicidade derramando o sangue de alguém tão próximo? Onde ela está?
Como está? O que diz minha secreta esposa sobre nosso amor destruído?
AMA — Ela não diz nada, senhor, apenas chora e chora;
ora atira-se na cama; ora levanta-se, ora chama por Tebaldo, ora grita
“Romeu”, ora torna a deitar-se...
ROMEU — Como se este nome fosse um tiro de canhão que a
matasse, como minha maldita mão matou seu primo! Responda-me, padre,
em que parte vil de minha anatomia mora meu nome? Responda-me, e não
hesitarei em arrancar essa morada odiosa! (saca o punhal)
FREI LOURENÇO — Pare com isso! Você não é homem? Sua
postura diz que sim, mas suas lágrimas são de mulher e suas atitudes
furiosas e selvagens são de um animal! Mulher deformada sob aparência
de homem, ou animal monstruoso sob a forma de ambos!? Você me
surpreende! Por meu hábito, sempre fiz outro juízo de seu
temperamento. Não matou Tebaldo? Agora quer suicidar-se, quer matar a
mulher que vive de sua vida, cometendo contra você mesmo esse ato de
ódio? Por que insultar seu berço, o céu e a terra, se os todos, num
momento, se encontraram em você? Quer perdê-los? Ora, você envergonha
o próprio corpo, o amor, a inteligência, pois é rico nos três e, como
um usurário, não os usa de um modo digno, que honre o próprio corpo, o
amor e a inteligência. Faltando o caráter, seu nobre corpo não passa
de uma imagem de cera; seu caro amor não passa de um perjúrio, que
mata o amor de quem você jurou cuidar; sua inteligência, esse adorno
do amor e do corpo, é deturpada pela conduta de ambos, como a pólvora
nas mãos de um soldado inexperiente, que se queima pela própria
ignorância, pondo fogo justamente no que era a sua defesa. Levante-se,
rapaz! A sua Julieta, aquela por quem você há pouco morria, está viva!
Você tem sorte! Tebaldo queria matá-lo, porém você o matou antes! Não
é sorte? A lei, que sentencia morte nesses casos, mostrou-se amiga e
amenizou sua pena em exílio! A sorte não lhe sorriu? Você não vê que
carrega um fardo de venturas, que a felicidade, em suas mais belas
vestes, tenta atrair você? Mas, como uma criança malcriada, você fica
amuado e repele a sorte e o amor. Tome cuidado, quem age assim acaba
mal. Vamos, levante-se! Vá ao encontro de sua amada, como estava
combinado, sobe até seu quarto e leve a ela algum conforto. Mas tenha
cautela, e saia de lá antes de começar a ronda. Caso contrário, você
não poderá partir para Mântua, onde deve permanecer até que chegue a
hora oportuna para anunciar o casamento, reconciliar suas famílias,
obter o perdão do príncipe e trazê-lo de volta, duzentas mil vezes
mais feliz do que as vezes em que se julgou desgraçado... Vá à frente,
ama, dê minhas recomendações a Julieta, e peça-lhe que faça todos
deitarem-se mais cedo, o que será fácil com a tristeza que sentem.
Romeu irá em seguida.
AMA — Meu Deus, eu seria capaz de ficar aqui a noite
toda ouvindo seus conselhos! Quanto vale a instrução! Eu direi a
Julieta que o senhor irá.
ROMEU — Sim, sim, diga-lhe que se prepare para ralhar
comigo.
AMA — Aqui está um anel, senhor, que ela mandou lhe
entregar. Por favor, vá depressa, que já está ficando tarde.
(Sai)
ROMEU — Isto fortalece meu ânimo!
FREI LOURENÇO — Agora vá, e boa noite. Não se esqueça do
que vou dizer, pois sua felicidade depende disto, ou saia antes de
iniciarem a ronda, ou no alvorecer, disfarçado. Permaneça em Mântua.
Manterei contato com seu criado, e ele frequentemente o informará das
boas novas que se passarem por aqui. Dê-me um aperto de mão. É tarde,
adeus e boa noite.
ROMEU — Se não fosse a alegria que estivesse me levando
daqui, eu diria que sinto tristeza em separar-me do senhor. Adeus.
(Saem)

Cena 4
UMA SALA NA CASA DOS CAPULETO
(Entram o senhor e a senhora Capuleto e Páris)
CAPULETO — As coisas tomaram um rumo tão infeliz,
senhor, que nem tivemos tempo de falar com nossa filha. Veja, ela
gostava muito de Tebaldo, e nós também. Fazer o quê? Nascemos para
morrer. Como já é tarde, ela não vai descer. Posso assegurar-lhe que,
não fosse a sua companhia, nós já estaríamos na cama.
PÁRIS — Tempos de morte não são próprios para se fazer a
corte. Boa noite, minha senhora, e recomende-me à sua filha.
SENHORA CAPULETO — Sem falta. Amanhã cedo falarei com
ela. Hoje, ela está entregue à sua dor.
CAPULETO — Senhor Páris atrevo-me a garantir o amor de
minha filha. Creio que ela se deixará guiar por mim em tudo, estou
seguro. Vá ao quarto dela, mulher, antes de se recolher, e conte-lhe
sobre o amor de Páris. Avise-a de que na próxima quarta-feira...
Espere! Que dia é hoje?
PÁRIS — Segunda, meu senhor.
CAPULETO — Segunda?! Bem, quarta-feira parece-me cedo
demais... É melhor quinta-feira. Diga-lhe que quinta-feira ela se
casará com este nobre conde. Você estará preparado? Ou é cedo demais?
Não faremos muito alarde, apenas alguns amigos. Afinal, Tebaldo morreu
há tão pouco tempo... Que não pareça desrespeito a ele, que tão grande
estima merecia. Por isso convidaremos apenas uma meia dúzia de amigos
e nada mais. O que me diz da quinta-feira?
PÁRIS — Gostaria que a quinta-feira fosse amanhã,
senhor!
CAPULETO — Então pode ir. Que seja na quinta-feira. Fale com
Julieta, mulher, antes de ir para a cama. Prepare-a para esse
casamento. Adeus, senhor. Iluminem meu quarto! Já é tão tarde, que
quase se pode dizer que é cedo. Boa noite.
(Saem)

Cena 5
QUARTO DE JULIETA
(Entram Romeu e Julieta)
JULIETA — Já vai partir? O dia ainda demora. Não foi a
cotovia, mas o rouxinol que assustou seu ouvido temeroso. Todas as
noites ele canta pousado na romãzeira, acredite, meu amor, foi o
rouxinol.
ROMEU — Foi a cotovia. É ela a mensageira da manhã, não o
rouxinol. Olhe meu amor, aquelas listras invejosas que cortam as
nuvens do nascente, as tochas da noite se apagaram; o dia alegre já
espanta a bruma do alto das colinas. Preciso ir e viver, ou ficar e
morrer.
JULIETA — Aquela claridade não é a luz do dia, tenho
certeza! É algum meteoro que o sol exala, para ser seu guia e iluminar
seu caminho para Mântua. Fique um pouco mais! Não é preciso partir tão
cedo.
ROMEU — Pouco importa que me prendam, que me matem!
Ficarei feliz, se é este o seu desejo. Direi que aquela luz cinzenta
não é o olho da manhã, mas o pálido reflexo da face de Cíntia... e que
não são da cotovia as notas que feriram a abóbada celeste, tão alto
acima de nós! Mais quero ficar do que partir. Venha, morte, e seja
bem-vinda! Julieta quer assim! Então, meu amor? Podemos conversar, não
é dia ainda!
ROMEU — É dia, sim! Foge, depressa! Foi a cotovia que
cantou desafinada, forçando acordes desarmônicos e agudos estridentes.
Dizem que ela só produz harmonia, mas não, pois agora nos separa.
Dizem que a cotovia e o sapo trocaram os olhos. Queria que tivessem
trocado a voz, porque essa voz nos arranca dos braços um do outro,
levando você quando anuncia o dia! Agora vá que está cada vez mais
claro!
ROMEU — Cada vez mais claro?... Mais escuro o nosso
infortúnio!
(Entra a ama)
AMA — Senhora!
JULIETA — Ama?
AMA — Sua mãe está vindo para cá! O dia já nasceu,
cuidado!
(Sai)
JULIETA — Então, janela... deixe entrar o dia e sair
minha vida!
ROMEU — Adeus! Só mais um beijo e descerei!
(Romeu desce)
JULIETA — Já se foi? Meu marido, meu amor, meu amigo!
Quero saber de você a toda hora, porque um minuto encerra muitos dias.
Por estes cálculos, estarei mais velha quando tornar a ver o meu
Romeu!
ROMEU — Adeus. Não vou perder nenhuma oportunidade de
mandar-lhe minhas lembranças, meu amor!
JULIETA — Você acredita que nos veremos de novo?
ROMEU — Não tenho dúvidas. As dores de hoje serão tema
de doces conversas no futuro.
JULIETA — Oh, Deus! Minha alma está pressentindo o pior!
Vendo você aí embaixo, até parece que está morto, no fundo de um
túmulo! Ou meus olhos se enganam... Ou você está pálido...
ROMEU — Acredite meu amor, você também me parece pálida.
É a aflição sedenta que bebe o nosso sangue... Adeus!
(Sai Romeu)
JULIETA — Oh, sorte... Dizem que você é inconstante! Se
for mesmo assim, o que vai fazer com meu Romeu, que é um exemplo de
constância? Seja inconstante, sorte... e em vez de mantê-lo distante,
traga-o de volta para mim.
SENHORA CAPULETO — (de dentro) Você está
acordada, filha?
JULIETA — Quem está me chamando? É a senhora, mãe? Não
se deitou ainda ou já se levantou tão cedo? Que importante assunto a
traz aqui?
(Entra a senhora Capuleto)
SENHORA CAPULETO — Então, como está, Julieta?
JULIETA — Não estou bem, mãe.
SENHORA CAPULETO — Ainda chorando pela morte do primo?
Acha que suas lágrimas vão tirá-lo do túmulo? Mesmo que o tirassem,
não o fariam reviver. Agora, deixe disso. Um pouco de tristeza
demonstra muita afeição, mas tristeza sem fim indica pouco juízo.
JULIETA — Deixem chorar por esta grande perda.
SENHORA CAPULETO — Ora, você sente apenas a perda, e não
o amigo por quem chora.
JULIETA — Mas, sentindo tanto assim a perda, só me resta
chorar pelo amigo.
SENHORA CAPULETO — Sim, menina... Não chore mais a morte
de Tebaldo do que a vida do infame que o matou.
JULIETA — Que infame mãe?
SENHORA CAPULETO — O infame Romeu.
JULIETA — (à parte) Que a infâmia e ele estejam a
muitas milhas de distância. Que Deus o perdoe como eu já o perdoei!
Contudo, nenhum outro homem oprime meu coração como ele.
SENHORA CAPULETO — É porque o assassino traidor ainda
vive.
JULIETA — Sim, e longe do alcance das mãos. Se eu
pudesse, vingaria sozinha a morte de meu primo!
SENHORA CAPULETO — Haveremos de nos vingar, não se
preocupe. Não chore mais. Enviarei uma pessoa a Mântua, onde este
renegado está vivendo, para lhe dar um veneno tão forte que ele
depressa vá fazer companhia a Tebaldo. Espero que assim você fique
satisfeita.
JULIETA — Eu nunca ficarei satisfeita sem vê-lo à minha
frente, morto. É assim que meu coração lamenta a morte de um primo.
Oh, mãe, se a senhora pudesse encontrar alguém que levasse esse
veneno, eu mesma o prepararia, para que Romeu, logo ao tomar a
primeira gota, repousasse em paz. Meu coração sofre ao ouvir seu nome,
sem poder ir até ele e vingar o amor que eu sentia por Tebaldo no
corpo daquele que o matou!
SENHORA CAPULETO — Encontre os meios, que eu encontrarei
tal pessoa. Agora, filha, vamos conversar de coisas alegres.
JULIETA — A alegria é bem-vinda em tempo de tanta
tristeza. Quais são as novidades, mãe?
SENHORA CAPULETO — Você tem um pai zeloso, filhinha. Um
pai que, para afastá-la da tristeza, acaba de preparar um dia de
felicidade que você nunca poderia imaginar, nem eu poderia prever.
JULIETA — Que dia será esse mãe?
SENHORA CAPULETO — O dia do casamento, filha! Na próxima
quinta-feira, na igreja de São Pedro, o jovem conde Páris irá torná-la
a mais feliz das noivas!
JULIETA — Por São Pedro e sua igreja, ele não me fará
uma noiva feliz. Por que tanta pressa? Devo me casar antes mesmo que o
futuro marido me faça a corte? Eu lhe peço mãe, diga ao senhor meu pai
que eu não quero me casar ainda. E, quando chegar a hora, juro que
preferiria escolher Romeu, que tanto odeio, como a senhora sabe, do
que Páris. Eram essas as novidades.
SENHORA CAPULETO — Seu pai vem vindo. Diga você mesma, e
veremos qual será sua reação.
(Entram Capuleto e a ama)
CAPULETO — Ao pôr-do-sol, o céu chuvisca orvalho; no
ocaso do filho de meu irmão, chove torrencialmente. Então, menina,
você mais parece uma goteira... Que chuva de lágrimas é essa? Como
pode um corpo pequenino querer ser um barco, um mar, um vento? Pois
seus olhos são como o mar, com sua maré de prantos; seu corpo é o
barco nesse mar salgado; seus suspiros são o vento que, sempre em luta
com as lágrimas, tenta afundar seu frágil corpo tão maltratado pela
tempestade... Se não ocorrer a tempo calmaria. E então, mulher? Falou
com ela sobre nossa decisão?
SENHORA CAPULETO — Sim. Mas ela recusa e agradece-lhe.
Quisera que essa tola se casasse com seu túmulo!
CAPULETO — Devagar, mulher, para que eu acompanhe bem o seu
discurso. Ela recusa?! E ainda nos agradece? Não será orgulhosa? Não
se julga feliz o bastante com o noivo que lhe arranjamos, um
cavalheiro tão digno?
JULIETA — Não me sinto orgulhosa, mas agradecida. Não
posso orgulhar-me do que odeio, mas dizer “obrigada” a um ódio que
significa amor.
CAPULETO — O quê? Que história é essa, ó filósofa? Sente-se e
não se sente orgulhosa, agradece e não agradece?... Fique sabendo,
senhorita, agradecendo ou não, sentindo orgulho ou não, vá aprontando
suas perninhas para, na quinta-feira, entrar com Páris na igreja de
são Pedro. Caso contrário, eu a arrastarei até lá, nem que seja numa
carroça. Ora, carniça de urubu! Cara de pau! Cara de sebo!
SENHORA CAPULETO — Não fale assim! Ficou louco?
JULIETA — Meu querido pai, eu suplico de joelhos, tenha
paciência e ouça o que vou dizer.
CAPULETO — Ora, vá se enforcar, tipinho à toa!
Rebeldezinha! Eu lhe digo: vá quinta-feira à igreja ou nunca mais me
olhe de frente! Não fale, não conteste, não responda, eu sinto cócegas
nos dedos! E nós que pensávamos ter pouca sorte, mulher, por Deus nos
ter dado apenas esta filha... Mas agora vejo que foi até demais!...
Desapareça da minha frente, vagabunda!
AMA — Oh, que Deus do céu a abençoe! Não é justo, meu
senhor, tratá-la desse modo.
CAPULETO — Por que, senhora sabichona? Melhor é guardar sua
língua. Vá gastá-la com fofocas!
AMA — Eu não disse nada de mal.
CAPULETO — Vá para o inferno!
AMA — Não se pode falar mais?
CAPULETO — Chega resmungona. Guarde seus conselhos para
suas comadres, que não precisamos deles aqui!
SENHORA CAPULETO — O senhor está muito nervoso...
CAPULETO — Sacramento! É de enlouquecer! De dia, de
noite, o tempo todo, no trabalho, no lazer, sozinho ou acompanhado,
minha única preocupação era ver minha filha bem casada. Agora que
arranjei um cavalheiro de nobre estirpe, jovem, rico, de fina
educação, forrado, como se diz, de boas qualidades, um bom partido
para as mais exigentes... Tenho de ouvir essa resmungona choramingas,
essa boneca lamurienta que me diz, quando a sorte lhe sorri: “Não
quero casar”, “Sou muito nova”, “Não posso amar”, “Por favor,
desculpe”... Se não quer se casar, não desculpo coisa nenhuma! E trate
de procurar outro pasto, porque nesta casa não fica mais! Pense muito
bem, estou falando sério. Quinta-feira está perto, consulte seu
coração. Se for mesmo minha filha, será entregue a meu amigo; se não
for, que vá se enforcar, pedir esmola, morrer de fome na rua, pois eu
juro, por minha alma, que jamais vou querer saber de você e jamais lhe
darei nada do que é meu! Pense bem, porque não voltarei atrás em minha
palavra.
(Sai)
JULIETA — Não há piedade nas nuvens, para entender o
fundo de minha dor? Oh, minha querida mãe, não me deixe! Adie este
casamento por um mês, uma semana pelo menos! Se não for possível,
prepare meu leito nupcial sobre o monumento... Onde Tebaldo está
sepultado!
SENHORA CAPULETO — Não fale comigo, pois não direi uma
palavra. Faça o que bem quiser, porque para mim você não significa
mais nada.
(Sai)
JULIETA — Oh, Deus! Ama como impedir isso? Meu marido
está na terra, minha fé no céu. Como essa fé pode voltar à terra, a
menos que ele a envie do céu, deixando a terra? Diga algo,
aconselhe-me, ama! Como pode o céu usar tal estratagema para alguém
tão frágil quanto eu? O que você diz? Nenhuma palavra de consolo ama?
AMA — Eu digo isto: Romeu foi banido, não voltará nunca mais, a
não ser às escondidas. Estando as coisas nesse estado, parece-me mais
razoável casar-se com o conde. Um cavalheiro tão amável! Romeu, ao
lado dele, não passa de um trapo! Nem uma águia possui olhos tão
verdes, penetrantes e belos como os de Páris! Que eu morra se esse
segundo casamento não for melhor que o primeiro! Mesmo que assim não
fosse, seu primeiro marido está morto, ou é como se estivesse, por
viver aqui sem poder lhe servir em nada...
JULIETA — Você está falando de coração?
AMA — E também do fundo de minha alma. Que Deus me
castigue se não for.
JULIETA — Amém...
AMA — O quê?
JULIETA — Você me ajudou maravilhosamente. Agora vá e diga a
minha mãe que, por ter desagradado meu pai, fui à cela de Frei
Lourenço para confessar e buscar absolvição.
AMA — Vou já. Uma sábia decisão.
(Sai)
JULIETA — Mulher amaldiçoada! Demônio de ruindade! Que
pecado é maior: levar-me à traição ou insultar meu esposo com a mesma
língua que o exaltou milhares de vezes? Vá conselheira, entre nós, de
agora em diante, só há ruptura. Vou procurar o padre, que será capaz
de dar-me uma solução. Se tudo falhar, só terei o recurso da morte.
(Sai)

QUARTO ATO
Cena 1
CELA DE FREI LOURENÇO
(Entram Frei Lourenço e Páris)
FREI LOURENÇO — Quinta-feira, senhor? É muito cedo.
PÁRIS — Meu sogro Capuleto quer assim, e não sou eu quem
vai lhe dizer não.
FREI LOURENÇO — Mas você disse que não sabe a opinião da
noiva. Não acho justo encaminhar as coisas desse jeito! Não aprovo.
PÁRIS — Ela chora sem parar pela morte de Tebaldo. Por
isso é que não pude ainda lhe falar de amor. Vênus não sorri num
palácio de lágrimas! O pai dela acha perigoso, com razão, que ela se
entregue assim à tristeza, e apressa o casamento para estancar o
dilúvio de lágrimas. Afinal, na solidão o sofrimento só se agrava, mas
talvez possa abrandar-se em minha companhia. É esta a razão de tanta
pressa.
FREI LOURENÇO — (à parte) Quisera eu não saber os
motivos que obrigam retardar esse casamento... (alto) Olhe conde, aí
vem chegando a menina!
(Entra Julieta)
PÁRIS — Feliz encontro, querida esposa!
JULIETA — Esposa? Talvez, se eu puder me casar...
PÁRIS — Mas isso ocorrerá na próxima quinta-feira!
JULIETA — O que tiver de ser, será.
FREI LOURENÇO — Um dito muito certo.
PÁRIS — Você veio confessar-se com Frei Lourenço?
JULIETA — Dar-lhe uma resposta seria confessar-me com o
senhor.
PÁRIS — Então, não negue ao Frei que me ama.
JULIETA — Confesso a você que amo alguém...
PÁRIS — E vai dizer a ele que esse alguém sou eu, não é?
JULIETA — Se tal fosse verdade, teria mais valor se eu o
confessasse na sua ausência, e não na sua frente.
PÁRIS — Pobre rosto marcado pelas lágrimas!
JULIETA — Não foi grande a vitória das lágrimas, pois
meu rosto já era feio antes.
PÁRIS — Pois essa resposta o enfeia mais que as
lágrimas!
JULIETA — Não é calúnia alguma dizer a verdade, senhor.
PÁRIS — Mas o seu rosto me pertence! Ofendendo-o, você
me ofende.
JULIETA — Pertence a você? Poder até ser, porque não é mais
meu... Padre, o senhor pode me atender agora ou devo voltar mais
tarde, depois da missa?
FREI LOURENÇO — Estou às suas ordens, minha preocupada
menina. Peço ao senhor que nos deixe a sós agora.
PÁRIS — Deus me livre de perturbar a devoção! Julieta
irei acordá-la na quinta-feira bem cedinho. Aceite este beijo puro!
(Sai)
JULIETA — Feche a porta, padre, e venha chorar comigo!
Não há esperança, nem remédio, nem socorro algum.
FREI LOURENÇO — Eu já soube da desgraça, filha. E vai
além de minhas forças. Ninguém pode impedir que você se case
quinta-feira com esse conde.
JULIETA — Não me fale da desgraça, padre, sem dizer que sabe um
meio de evitar que tudo aconteça. Se, com toda a sua sabedoria, o
senhor não encontra uma saída, ao menos chame de sábia minha
resolução: este punhal poderá dar-me rapidamente o remédio de que
preciso! Deus uniu meu coração ao de Romeu, e o senhor uniu nossas
mãos. Antes que esta mão possa servir a outra aliança e que este
coração fiel seja entregue a outro, este punhal dará fim a ambos!
Dê-me imediatamente um conselho, ou então esta faca sanguinária será o
juiz, decidindo entre mim e minha dor. Se sua experiência tem algo a
dizer-me, padre, responda já! Se o que disser não apontar saída,
prefiro dar fim à vida!
FREI LOURENÇO — Pare filha! Vislumbro uma esperança.
Porém, ela exige uma execução desesperada, tão desesperada quanto esse
punhal que desejamos evitar. Se você é capaz até mesmo de querer
apunhalar-se para não se casar com o conde Páris, é provável também
que, para fugir à morte, seja capaz de um sacrifício semelhante à
própria morte. Se tiver essa ousadia, poderei salvá-la.
JULIETA — Peça que eu me atire da torre da igreja, mas
não me fale em casamento com o conde Páris! Ou então, mande-me andar
por estradas perigosas, rastejar numa cova de serpentes; tranque-me
numa jaula com ursos ou, de noite, num sepulcro cheio de ossos
humanos, onde estremeçam tíbias e crânios descarnados; ordene que eu
me deite num túmulo ainda fresco e que eu me cubra com a mesma
mortalha do defunto. Padre, eu faria qualquer uma dessas coisas, que
só de pensar me deixam trêmula da cabeça aos pés, para continuar sendo
a esposa imaculada de meu amado!
FREI LOURENÇO — Pois bem. Então vá para casa e mostre-se
alegre e disposta a casar-se com o conde. Amanhã, que é quarta-feira,
arranje um jeito de dormir sozinha, sem que a ama fique em seu quarto.
Leve este frasco e, ao deitar-se para dormir, beba tudo! Você vai
sentir um fluido frio e sonolento correr por suas veias... A
respiração diminuirá, o pulso deixará de bater. Nada poderá atestar
que você está viva; o rosto e os lábios ficarão pálidos como cinza; os
olhos se fecharão como janelas, quando a morte apaga a luz da vida; os
membros ficarão rígidos e frios como os de um morto. Quarenta e duas
horas vai durar essa tétrica aparência de morte. Depois, você
despertará como de um doce sonho. De manhã, quando o noivo chegar,
todos acreditarão que está morta. Então, como é costume em nossa
terra, você será vestida com belas roupas e levada, em cortejo aberto,
ao mausoléu onde descansam em paz os Capuleto. Nesse meio tempo,
escreverei uma carta a Romeu comunicando nosso plano, e ele chegará.
Aguardaremos você despertar e, na mesma noite, Romeu a levará para
Mântua. Isso livrará você da vergonha, a menos que algum medo feminino
ou capricho do destino tire a sua coragem na última hora.
JULIETA — Dê-me o frasco! E não me fale em medo!
FREI LOURENÇO — Tome e vá logo, seja calma e firme em
sua decisão. Vou mandar imediatamente um mensageiro a Mântua, com
minha carta a seu marido.
JULIETA — Que o amor me dê força, e tudo sairá bem.
Adeus, querido padre!
(Saem)

Cena 2
UMA SALA NA CASA DOS CAPULETO
(Entram Capuleto e senhora, ama e criados)
CAPULETO — Convide todas as pessoas desta lista!
(Sai o primeiro criado)
E você aí, vá contratar uns vinte cozinheiros, dos melhores!
SEGUNDO CRIADO — Não haverá nenhum cozinheiro ruim,
senhor, porque eu só contratarei os que saibam lamber as pontas dos
dedos!
CAPULETO — Que prova é essa?
SEGUNDO CRIADO — Ora, senhor. É mau cozinheiro aquele
que não lambe os dedos ao provar os pratos. Se não lamber, eu não
contrato.
CAPULETO — Está bem, vai logo.
(Sai o segundo criado)
Não seremos bem servidos desta vez... Afinal, minha filha foi à
cela de Frei Lourenço?
AMA — Foi sim.
CAPULETO — Talvez isso adiante alguma coisa. Ela é tão
teimosa e petulante!
AMA — Lá vem ela! Parece feliz com a confissão.
(Entra Julieta)
CAPULETO — Então, sua teimosinha, por onde andou saracoteando?
JULIETA — Por um lugar onde aprendi a arrepender-me do pecado
da desobediência ao senhor e às suas ordens. Frei Lourenço
aconselhou-me ajoelhar-me diante do senhor e pedir o seu perdão. É o
que lhe peço! De hoje em diante, vou deixar-me conduzir pelo senhor em
tudo.
CAPULETO — (à ama) Mande chamar o conde e
conte-lhe tudo. Quero ver esse enlace acontecer amanhã cedo!
JULIETA — Encontrei o conde lá na cela de Frei Lourenço
e manifestei, até onde permite a modéstia, a afeição que sinto por
ele.
CAPULETO — Isso me alegra muito! Bem; levante-se. É
assim que deve ser. Preciso ver o conde. Ei, criado! Vá procurá-lo!
Esse frade é mesmo louvável. Santo Deus, toda a cidade gosta muito
dele!
JULIETA — Ama, quer vir comigo ao meu quarto ajudar a
escolher os enfeites mais adequados para a festa de amanhã?
SENHORA CAPULETO — Mas até quinta-feira ainda tem tempo.
CAPULETO — Não, ama, vá com ela. Iremos à igreja amanhã
mesmo.
(Saem Julieta e a ama)
SENHORA CAPULETO — Esses preparativos demoram. Já é
quase noite!
CAPULETO — Cuidarei de tudo, mulher, não se preocupe. Vá ver
Julieta e ajudá-la a enfeitar-se. Não dormirei esta noite, serei dona
de casa em seu lugar! Ei, rapazes! Mas já saíram todos? Eu mesmo vou
procurar o conde Páris e dizer-lhe que se prepare para amanhã. Agora
que esta menina criou juízo, meu coração está leve e feliz!
(Saem)

Cena 3
QUARTO DE JULIETA
(Entram Julieta e a ama)
JULIETA — Sim, este vestido é o melhor... Mas, ama
querida, eu lhe peço, deixe-me sozinha esta noite. Preciso fazer
minhas orações, para conseguir boas graças do céu, pois minha alma,
como você sabe, está angustiada e cheia de pecados.
(Entra a senhora Capuleto)
SENHORA CAPULETO — Está bastante ocupada, não é, filha?
Precisa de minha ajuda?
JULIETA — Não, mãe, nós já escolhemos tudo para a cerimônia de
amanhã. Agora, peço, deixe-me sozinha, e leve a ama para seu quarto,
pois estou certa de que a senhora tem muito a fazer, com essa festa
tão inesperada!
SENHORA CAPULETO — Boa noite, então. Pode ir deitar-se,
ama, e descansar. Você merece.
(Saem senhora Capuleto e ama)
JULIETA — Adeus! Só Deus sabe quando nos veremos outra
vez! Sinto passar por minhas veias um frio arrepio de pavor, que quase
extingue em mim o calor da vida. Vou chamá-las de novo, para me
animar... Ama!... Mas o que ela poderia fazer? Tenho de representar
sozinha o terrível papel. Vamos, frasquinho. E se a bebida não fizer
efeito? Terei de me casar amanhã cedo? Nunca! Isto impedirá tal coisa.
Fique aqui perto.
(Põe um punhal a seu lado)
E se for um veneno que o frade astutamente preparou para matar-me,
temendo a desonra que lhe causaria se soubessem de meu outro
casamento, com Romeu? Será? Não pode ser. Está provado que ele é um
santo homem. Não posso ter um pensamento tão ruim... E se eu acordar
no túmulo, antes que Romeu venha me buscar? Que horror! E se eu ficar
asfixiada, naquele antro cuja boca não respira o ar puro, e morrer
sufocada antes que meu Romeu possa chegar? Ou, se eu sobreviver, não
será que a horrível imagem da noite e da morte, mais o próprio pavor
do lugar, aquele antigo sepulcro onde estão amontoados há séculos os
ossos de meus antepassados, onde Tebaldo, ainda ensanguentado, está
apodrecendo em sua mortalha, onde, segundo dizem, em certas horas da
noite os espíritos se encontram... Ai de mim! Não será que, acordando
antes da hora, em meio àquele cheiro fétido e aos gritos da mandrágora
arrancada da terra, que enlouquecem as pessoas que os ouvem... Não
ficarei também louca, vendo-me cercada de tantos horrores? E,
enlouquecida, não serei capaz de brincar com as ossadas de meus
antepassados, de arrancar da mortalha o corpo mutilado de Tebaldo, de
me servir do osso de algum avô para com ele esmagar meu próprio crânio
desesperado? Oh, já estou vendo a alma de Tebaldo a procurar Romeu,
que lhe varou o peito com uma espada! Pare Tebaldo, pare! Romeu,
Romeu, Romeu! Eis o frasco. Eu bebo por você!
(Bebe o líquido e atira-se na cama)

Cena 4
SALA DA CASA DOS CAPULETO
(Entram senhora Capuleto e a ama)
SENHORA CAPULETO — Pegue as chaves, ama, e traga mais
especiarias.
AMA — Estão pedindo mais marmelo e tâmaras na copa.
(Entra Capuleto)
CAPULETO — Vamos, depressa! O galo já cantou duas vezes,
e o toque da alvorada já soou três horas! Atenção com os assados, boa
Angélica, não adianta economizar!
AMA — Vá deitar-se, senhor dono de casa! Aposto que
ficará doente se passar a noite assim em claro.
CAPULETO — Que nada! Já passei muitas noites em claro
por motivos bem menos importantes, sem ficar indisposto!
SENHORA CAPULETO — É você aprontava as suas, nos bons
tempos; mas agora eu vigio suas vigílias.
(Saem a senhora Capuleto e a ama)
CAPULETO — A ciumenta!
(Entram criados com espetos, lenhas e cestos)
Ei, o que você traz aí?
PRIMEIRO CRIADO — Não sei senhor; são coisas para a
cozinha.
CAPULETO — Depressa! Depressa!
(Sai o primeiro criado)
E você, vá arranjar mais lenha seca! Pergunte ao Pedro, que sabe
onde é que tem.
SEGUNDO CRIADO — Eu tenho cabeça, senhor, para encontrar
eu mesmo a lenha. Não vou incomodar o Pedro para isso.
(Sai)
CAPULETO — Essa é boa! Ha, ha! Um belo cara de pau! Só
pode carregar lenha mesmo! Nossa já é dia! O conde deve estar chegando
com os músicos, que disse que traria. Estou ouvindo-os.
(Ouve-se música)
Mulher! Ama! Venham!
(Entra a ama)
Vá ajudar Julieta a vestir-se, enquanto eu fico aqui com o conde
Páris. Apresse-se, o noivo já chegou! Eu disse, apresse-se!
(Saem)

Cena 5
QUARTO DE JULIETA
(Entra a ama)
AMA — Menina! Senhorita Julieta! Aposto que ainda está
dormindo! Senhorita! Vamos acordar dorminhoca! Noivinha! Meu bem! Não
diz uma palavra? Está dormindo tudo adiantado, por uma semana! Pois
estou certa de que esta noite o conde Páris não vai deixar você dormir
quase nada! Que Deus me perdoe, amém! Mas como ela dorme pesado!
Preciso acordá-la. Senhora, senhora! Espere o conde vir tirá-la da
cama, que susto você vai tomar! Mas como? Já vestida? Arrumou-se e
deitou-se outra vez? Preciso acordá-la! Senhorita! Senhorita!
Vamos!... Oh, meus Deus! Socorro! Socorro! Ela está morta! Maldito o
dia em que nasci! Um gole de aguardente! Meu senhor! Minha senhora!
(Entra a senhora Capuleto)
SENHORA CAPULETO — Que gritaria é essa?
AMA — Oh, dia desgraçado!
SENHORA CAPULETO — O que aconteceu?
AMA — Veja, veja! Oh, dia funesto!
SENHORA CAPULETO — Oh! Minha filha! Minha única filha!
Acorde e olhe para mim, ou morrerei também! Socorro! Chame ajuda!
(Entra Capuleto)
CAPULETO — Que vergonha! E Julieta? O noivo já chegou.
AMA — Ela faleceu... Ela está morta. Oh, dia desgraçado!
CAPULETO — Mas como? Deixe-me vê-la! Oh, ela está fria!
O sangue já não corre, os membros estão rígidos. Há muito que a vida
fugiu destes lábios. A morte caiu sobre ela como a geada sobre a flor
mais sensível do campo.
AMA — Oh, dia deplorável!
SENHORA CAPULETO — Que momento cruel!
CAPULETO — A morte, que a levou para me fazer gemer, trava-me a
língua e não me deixa pronunciar palavra...
(Entram Frei Lourenço, Páris e músicos)
FREI LOURENÇO — Então, a noiva já está pronta para a
igreja?
CAPULETO — Pronta para ir, mas jamais para voltar. Oh, meu
filho, na véspera do seu dia de núpcias, o fantasma da morte deitou-se
com sua noiva, agora ali está ela, ainda flor, mas deflorada por ele.
O fantasma da morte é meu genro, é meu herdeiro, minha filha casou-se
com ele. Morrerei e deixarei tudo para ele: a vida, os bens, tudo para
a Morte.
PÁRIS — Eu, que esperei tanto por ver esta manhã, agora vejo
uma manhã assim?!
SENHORA CAPULETO — Maldito dia, infeliz, desgraçado,
odioso! A hora mais triste que o tempo, em sua longa e trabalhosa
peregrinação, já viu! Minha pobre filha, minha única e amada filha,
meu único consolo, minha alegria... E a morte cruel a leva de minha
vista!
AMA — Oh, dia triste! Meu Deus, que dia mais triste!...
Que dia lamentável! Triste e lamentável! Que dia! Nunca vi um dia tão
negro e sombrio em minha vida! Que dia infeliz!
PÁRIS — Enganado, divorciado, desprezado, destruído...
Oh, Morte detestável, fui enganado por você, arruinado por sua
crueldade! Oh, amor, oh, vida! Não, vida, não, amor e morte!
CAPULETO — Desamparado, desolado, odiado, martirizado,
morto! Oh, tempo atroz, por que você veio matar a nossa festa, matando
a razão dela? Oh, minha filha! Minha própria alma! Minha filha está
morta, e com ela será enterrada minha alegria!
FREI LOURENÇO — Calma, por favor! Não é com desespero
que se resolvem as coisas! Esta menina linda era em parte de vocês, e
em parte do céu. Agora é toda do céu, e assim é melhor para ela. A
parte que lhes cabia a morte levou; mas a parte do céu pode ser
conservada na eternidade. Vocês sempre quiseram a sua glória, era o
céu de vocês vê-la elevada. Agora que ela está além das nuvens,
elevada ao céu, vocês choram? É assim que amam sua filha,
desesperando-se ao ver que ela está bem? Uma mulher bem casada não é a
que vive por muito tempo casada, mas aquela que, casada, morre cedo.
Enxuguem seu pranto; cubram com rosmaninho seu lindo corpo e, como é
de costume, levem-na à igreja em suas vestes mais belas. Embora a
fraca natureza nos leve a chorar, a razão sorri das lágrimas da
tristeza.
CAPULETO — Tudo o que estava preparado para a festa será
usado para o negro funeral: os instrumentos soarão melodias tristes; o
banquete de casamento será um jantar fúnebre; os hinos solenes serão
cantos de dor; as flores nupciais enfeitarão o cadáver; tudo será
transformado em seu contrário.
FREI LOURENÇO — Convém sair, senhor! Acompanhe-o,
senhora! É melhor ir também, senhor Páris! Preparem-se para levar este
belo corpo ao túmulo. Talvez o céu esteja punindo vocês por algum
pecado. Não contrariem o céu, pois é essa sua suprema vontade.
(Saem Capuleto, senhora Capuleto, Páris e Frei
Lourenço)
PRIMEIRO MÚSICO — Acho que podemos enfiar a viola no
saco e tocar em frente.
SEGUNDO MÚSICO — É, podemos ir embora...
AMA — Acho que sim, meus bons rapazes, pois como vocês viram,
trata-se de um caso doloroso.
(Sai)
PRIMEIRO MÚSICO — Para falar a verdade, não é lá dos
melhores...
(Entra Pedro)
PEDRO — Músicos, ó seus músicos, “Alegria do
coração”!... Se me querem ver animado, toquem “alegria do coração”!
PRIMEIRO MÚSICO — Por que “Alegria do coração”?
PEDRO — Ah, seus músicos, porque meu coração está
tocando “Tristeza do coração”. Toquem alguma melodia suave para
confortar-me.
PRIMEIRO MÚSICO — Nada de melodias. Não é hora de tocar.
PEDRO — Não vão tocar?
PRIMEIRO MÚSICO — Não!
PEDRO — Então, vão ver a melodia que vou lhes dar...
PRIMEIRO MÚSICO — O que é que vai nos dar?
PEDRO — Não é dinheiro, garanto, mas outra moeda. Vou
mostrar a vocês o menestrel!
PRIMEIRO MÚSICO — E eu vou mostrar a você o lacaio!
PEDRO — Cuidado, então, se não eu enterro o facão do
lacaio na sua cabeça! E não vou lhes dar moleza, vou pôr vocês de ré e
não vou ter dó! Tomaram nota?
PRIMEIRO MÚSICO — De ré e sem dó? Devolveremos no mesmo
tom!
SEGUNDO MÚSICO — Quer fazer o favor de guardar o facão e
sacar o espírito?
PEDRO — Cuidado com meu espírito! Eu guardo o meu facão
afiado, mas vou malhar vocês com meu espírito agudo! Respondam se
forem homens: Quando a dor cortante o coração maltrata e tristes
gemidos ferem nossa alma, apenas a música e seus sons de prata... Por
que “sons de prata”? Por que “a música e seus sons de prata”? Por que,
Simão Violão?
PRIMEIRO MÚSICO — Ora, meu senhor, porque a prata tem um
som suave.
PEDRO — Bom! E o que você diz Crispino Violino?
SEGUNDO MÚSICO — Acho que o som é de prata porque os
músicos tocam por dinheiro!
PEDRO — Muito bom! E o que diz você, Jaiminho Quietinho?
TERCEIRO MÚSICO — Juro que não sei o que dizer.
PEDRO — Oh, desculpe! Esqueci que você é o cantor... Vou
responder por você. A música tem sons de prata porque os músicos
jamais ganham ouro com suas notas! Ha, ha, ha!... Apenas a música e
seus sons de prata rápido nos acalmam!
(Sai)
PRIMEIRO MÚSICO — Que peste de sujeito!
SEGUNDO MÚSICO — Ele que se dane! Venha, vamos lá para
dentro. Vamos esperar os chorões... E fica para jantar.
(Saem)

QUINTO ATO
Cena 1
MÂNTUA.UMA RUA
(Entra Romeu)
ROMEU — Se eu pudesse acreditar na visão lisonjeira do
sono, o meu sonho de hoje me diria que vou ter uma boa notícia. O
amor, senhor do meu peito, está sentado em seu trono, e durante todo o
dia um singular entusiasmo ergueu-me em pensamentos leves. Sonhei que
a minha amada chegou e encontrou-me morto. (Estranho sonho, que
deixa um homem morto pensar!) E com beijos tão vivos me beijou os
lábios, que eu ressuscitei e tornei-me um imperador. Ah, como deve ser
doce ter presente o próprio amor, se somente a sombra desse amor já é
tão venturosa!
(Entra Baltasar)
Notícias de Verona! Então, Baltasar!? Traz-me carta do padre? Como
está minha amada? E meu pai, está bem? Pergunto de novo: como está
Julieta? Porque nada pode estar mal se ela está bem.
BALTASAR — Então ela está bem, e nada mais pode estar mal. Seu
corpo jaz no mausoléu dos Capuleto, e sua parte imortal vive com os
anjos. Vi quando a depuseram no túmulo da família e vim correndo para
lhe contar. Perdoe-me por trazer tão más notícias; apenas quis cumprir
as ordens que me deixou senhor.
ROMEU — É assim? Pois eu as desafio, estrelas! Você sabe onde
eu moro, leve-me papel e tinta e alugue dois cavalos. Partirei esta
noite.
BALTASAR — Por favor, tenha calma. O senhor está pálido e tem
um ar desvairado; eu temo alguma desgraça.
ROMEU — Você está enganado. Agora me deixe, e faça o que
lhe pedi. Não tem mesmo nenhuma carta do padre para mim?
BALTASAR — Não, meu senhor.
ROMEU — Não faz mal. Pode ir, e alugue os cavalos. Eu
vou em seguida.
(Sai Baltasar)
Bem, Julieta, dormirei a seu lado esta noite. Procuraremos os
meios... Oh, destruição, como é ligeira em entrar no pensamento dos
desesperados! Lembro-me de um boticário, que trabalha aqui nos
arredores. Outro dia mesmo o vi, maltrapilho, de cara fechada, a
separar suas ervas. Tão magro, que a miséria parecia ter-lhe roído até
os ossos. Na sua pobre lojinha, tem dependurados uma tartaruga, um
jacaré empalhado e outras peles de peixes monstruosos; nas
prateleiras, pilhas de caixinhas vazias, potes de barro verde, bolas,
sementes podres, restos de barbante, velhos emplastos de rosa, tudo
espalhado para fazer vista. Ao ver tanta penúria, pensei comigo mesmo
que se alguém precisasse de um veneno, cuja venda aqui em Mântua é
proibida sob pena de morte, ali estava um pobre diabo que o venderia.
Este pensamento prenunciou minha necessidade, e agora este necessitado
vai vender-me a droga! Se bem me lembro, deve ser esta a casa. Como é
feriado, a loja do miserável está fechada... Olá! Ó boticário!
(Entra o boticário)
BOTICÁRIO — Quem está chamando tão alto?
ROMEU — Venha cá, amigo. Vejo que você é pobre. Tome
estes quarenta ducados e arranje-me uma dose bem
forte de veneno, algo que se espalhe tão rápido nas veias do infeliz
cansado de viver que ele caia morto imediatamente, e que o último
alento se aparte de seu corpo tão depressa quanto a pólvora acesa sai
das entranhas fatais de um canhão.
BOTICÁRIO — Eu tenho essa droga, mas a lei de Mântua
condena à morte quem a vende.
ROMEU — Tão pobre e cheio de miséria, e ainda tem medo
de morrer? A fome está em seu rosto; a necessidade e a opressão
leem-se em seu olhar; a indigência e a humilhação pesam nas suas
costas. O mundo não se mostra seu amigo, nem a lei do mundo; o mundo
não tem lei para fazê-lo rico! Deixe de ser pobre, afronte a lei, tome
isto!
BOTICÁRIO — É minha pobreza que aceita, não minha
vontade...
ROMEU — Eu compro a sua pobreza, e não a sua vontade.
BOTICÁRIO — Misture isto em um líquido qualquer e beba
de uma vez. Mesmo se você tivesse a resistência de vinte homens,
cairia morto na hora.
ROMEU — Aqui está seu ouro. É um veneno pior para a alma
dos homens, causando nesse mundo odioso mais mortes do que essas
pobres poções que você não pode vender. O que eu lhe deixo é veneno,
não o que levo. Adeus! Compre comida e trate de engordar. Remédio, e
não veneno venha comigo ao túmulo de Julieta! É lá que vou precisar de
você.
(Sai)

Cena 2
CELA DE FREI LOURENÇO
(Entra Frei João)
FREI JOÃO — Salve, irmão franciscano! Olá, irmão!
(Entra Frei Lourenço)
FREI LOURENÇO — Parece a voz de Frei João. Seja
bem-vindo! Como foi em Mântua? O que Romeu disse? Se ele preferiu
escrever-me, dê-me a carta.
FREI JOÃO — Fui procurar um irmão da nossa ordem de pés
descalços, que costuma visitar os doentes da cidade, para
acompanhar-me. Assim que o encontrei, fomos detidos pelos guardas da
cidade, pois suspeitaram que tivéssemos visitado uma casa infestada
pela peste. Fecharam as portas e não nos deixaram sair, de modo que
minha pressa de ir a Mântua ficou parada...
FREI LOURENÇO — Quem levou minha carta para Romeu,
então?
FREI JOÃO — Não pude remetê-la; aqui está ela. Também
não pude achar um mensageiro que a levasse, pois andam todos com pavor
da infecção.
FREI LOURENÇO — Que falta de sorte! Por nossa santa
ordem, essa carta não era insignificante! Continha informações muito
importantes, e seu atraso pode ter sérias consequências! Frei João, vá
depressa arranjar uma alavanca de ferro e traga aqui, à minha cela.
FREI JOÃO — Irmão vou e volto num minuto.
(Sai)
FREI LOURENÇO — Agora terei de ir sozinho ao mausoléu.
Daqui a três horas Julieta despertará e vai censurar-me muito porque
Romeu não foi avisado de tudo o que aconteceu. Mas vou escrever de
novo a Mântua, e escondê-la em minha cela até Romeu chegar. Pobre
enterrada viva, enclausurada numa sepultura sem morrer!
(Sai)

Cena 3
UM CEMITÉRIO. MAUSOLÉU DOS CAPULETO
(Entram Páris e pajem, com flores e uma tocha)
PÁRIS — Dê-me a tocha, rapaz; afaste-se e espere. Ou melhor,
apague-a, porque não quero ser visto. Fique deitado ali, debaixo dos
ciprestes, com seu ouvido encostado no chão oco, assim, ninguém andará
no cemitério sem que você ouça os passos, tão revolvido e fofo está o
terreno, escavado para as sepulturas. Assobie para mim, se ouvir
alguém se aproximando. Agora me dê essas flores e faça o que eu disse.
PAJEM — (à parte) Tenho um pouco de medo de ficar
sozinho no cemitério. Em todo caso, vou arriscar.
(Sai)
PÁRIS — Ó doce flor, venho espalhar flores em seu leito
nupcial! É de pó e pedra o seu dossel!? Toda noite virei regá-lo com
água doce, ou, se não tiver, com lágrimas destiladas de meu pranto.
Assim vou celebrar suas exéquias, vindo aqui todas as noites trazer
flores e chorar.
(O pajem assovia)
O criado está me avisando que alguém se aproxima. Que sacrílegos
pés vêm aqui de noite perturbar minhas homenagens e meu ritual de
amor? O quê? Uma tocha! Esconda-me, noite, por favor!
(Sai. Entram Romeu e Baltasar, com tocha, picareta e
alavanca)
ROMEU — Dê aqui a picareta e a barra de ferro. Tome,
fique com esta carta. Amanhã cedo, entregue-a ao senhor meu pai. Dê-me
a tocha. Agora eu lhe peço, por sua vida, não importa o que você veja
ou ouça aqui, mantenha-se afastado e não interrompa o meu trabalho. Se
eu desço a este leito de morte, em parte é para contemplar o rosto de
minha amada, mas, sobretudo para tirar de seu dedo um precioso anel,
que quero utilizar para um fim importante. Agora, vá. Se, por
curiosidade, você voltar para ver o que estou fazendo, eu juro que
cortarei você em pedaços e cobrirei o chão deste faminto cemitério com
seus membros. Minhas intenções são selvagens como este momento, mais
ferozes e mais inexoráveis do que um tigre faminto ou do que o mar
furioso.
BALTASAR — Já estou indo, senhor, e não vou perturbá-lo.
ROMEU — Assim você demonstrará sua amizade. Tome isto;
viva e seja feliz. Adeus, bom amigo.
BALTASAR — (à parte) Apesar de tudo, vou me
esconder aqui perto. Temo seu olhar e desconfio das suas intenções.
(Sai)
ROMEU — Oh antro detestável, ventre da morte que tragou o mais
precioso manjar da terra, eu o obrigo a escancarar suas mandíbulas
podres (arrombando a sepultura) e contra sua vontade o faço
engolir mais alimento!
PÁRIS — É o arrogante e desterrado Montéquio, que
assassinou o primo de Julieta! Foi por esse sofrimento, dizem, que a
linda criatura morreu. E decerto ele veio aqui para cometer alguma
vilania contra esses cadáveres. Mas vou impedi-lo.
(Adianta-se)
Pare com seu sacrílego trabalho, vil Montéquio! Quer levar a
vingança além da morte? Vilão desprezível esteja preso, obedeça e
venha comigo, porque você deve morrer!
ROMEU — De fato, eu devo morrer. Vim aqui para isso.
Gentil rapaz, não provoque um homem desesperado, fuja daqui, me deixe.
Pense nos que se foram, para que a lembrança deles o amedronte. Eu lhe
suplico rapaz, não me faça acumular mais um pecado nas costas,
atiçando-me a fúria, vá embora! Acredite que eu o estimo mais do que a
mim, pois vim aqui armado contra mim mesmo. Não demore, vá embora!
Viva, e depois diga a todos que a piedade de um louco o fez fugir.
PÁRIS — Recuso seus pedidos e o prendo como criminoso!
ROMEU — Vai me provocar? Então se defenda!
(Duelam)
PAJEM — Meu Deus, estão lutando! Vou chamar o guarda.
(Sai)
PÁRIS — Ai, estou morto!... (cai) Se você for
piedoso, abra o sepulcro e deite-me com Julieta.
(Morre)
ROMEU — Prometo que sim. Mas... Deixe-me ver este rosto,
o nobre conde Páris, o parente de Mercúcio! O que foi mesmo que disse
meu criado no caminho, quando minha alma atormentada não pôde lhe dar
atenção? Se não me engano, disse-me que Páris se casaria com
Julieta... Disse? Ou sonhei? Ou estou louco, imaginando tais coisas só
por ter ouvido falar de Julieta? Dê-me sua mão, pois, assim como eu,
você foi inscrito no livro dos infortúnios! Vou sepultá-lo num túmulo
glorioso. Túmulo? Não, pobre vítima, mas um farol! Porque aqui jaz
Julieta, e sua beleza faz desta cova um salão resplandecente de luz.
Deite-se aqui, ó morto, outro morto o enterra.
(Põe o corpo de Páris no túmulo)
Quantas vezes, na hora da morte, os homens ficam alegres? É o
clarão da morte, dizem. Mas como posso comparar isto a um clarão? Ó
meu amor! Minha esposa! A morte, que sugou o mel de seu hálito, ainda
não teve poder sobre a sua beleza. Você não foi derrotada, a flâmula
da beleza ainda tinge de carmim seus lábios e sua face, e o estandarte
pálido da morte não a cobriu. Tebaldo! Você está dormindo num lençol
de sangue? Que favor maior eu posso lhe fazer do que matar, com a mão
que tolheu sua juventude, este que foi seu inimigo? Perdoe-me, primo!
Ah, Julieta querida, como você pode estar tão bela ainda? Será que o
fantasma da morte, esse monstro horrível, se apaixonou por você e a
escondeu aqui na escuridão para fazer de você sua amante? Com medo
disso, eu vim protegê-la para sempre, nunca mais deixarei este palácio
sinistro e tenebroso! Aqui, aqui mesmo ficarei junto aos vermes que
são seus servidores; aqui estabelecerei minha morada eterna,
libertando do peso das estrelas funestas este corpo cansado do mundo.
Meus olhos olhem pela última vez! Meus braços abracem pela última vez!
E lábios, que são portas do alento, selem com um beijo legítimo este
pacto a prazo com a morte voraz! Venha, amargo condutor; venha
asqueroso guia! Venha piloto desesperado, agora atire de uma vez
contra os rochedos seu barco fatigado das travessias do mar! Um brinde
ao meu amor!
(Bebe o veneno)
Honesto boticário! Sua droga é eficaz! Agora, morro com um
beijo!...
(Morre. Do outro lado do cemitério, entra Frei
Lourenço com archote, alavanca e pá)
FREI LOURENÇO — São Francisco seja meu guia! Quantas
vezes meus velhos pés já não tropeçaram nos sepulcros? Quem está aí?
BALTASAR — Alguém que é seu amigo e que o conhece bem.
FREI LOURENÇO — Deus o abençoe. Mas me diga bom amigo,
que tocha é aquela lá, que em vão empresta seu lume aos vermes e às
caveiras sem olhos? Ao que me parece, está no mausoléu dos Capuleto.
BALTASAR — É verdade, santo padre. E lá está meu senhor,
que é tão seu amigo.
FREI LOURENÇO — Quem?
BALTASAR — Romeu.
FREI LOURENÇO — Há quanto tempo ele está lá?
BALTASAR — Há mais de meia hora.
FREI LOURENÇO — Venha comigo ao mausoléu.
BALTASAR — Não me atrevo, senhor. Romeu pensa que eu fui
embora; ele me ameaçou de morte se eu ficasse para espiá-lo.
FREI LOURENÇO — Então, fique; irei sozinho. Começo a
temer que aconteça alguma desgraça.
BALTASAR — Enquanto eu dormia debaixo deste cipreste,
sonhei que meu senhor estava duelando com outro, e que meu senhor o
matara...
FREI LOURENÇO — Romeu!
(Adianta-se)
Meu Deus, meu Deus! Que sangue é este que mancha a entrada do
sepulcro? O que significam estas espadas ensanguentadas e sem dono,
caídas neste lugar de paz?
(Entra no jazigo)
Romeu! Como está pálido!... Quem mais? Também Páris? E banhado em
sangue? Que hora implacável foi a culpada por tão cruel acontecimento?
Ela está se mexendo...
(Julieta desperta)
JULIETA — Ó, meu bom padre! Onde está meu senhor? Lembro-me bem
onde eu deveria estar; e aqui estou. Mas onde está Romeu?
(Ruídos, de dentro)
FREI LOURENÇO — Ouço um barulho. Senhora, saia deste
ninho de morte, de contágio e de sono eterno. Um poder mais forte que
nós contrariou nossos planos. Venha, vamos embora! Seu marido jaz em
seus braços, morto, assim como Páris. Venha, vou levar você a um
convento de irmãs religiosas. Não pergunte nada, porque aí vem a
guarda. Vamos, Julieta! (mais ruídos) Não ouso esperar mais.
JULIETA — Vá o senhor, porque eu não sairei daqui.
(Sai Frei Lourenço)
O que é isto? Um frasco, apertado na mão do meu fiel amor? Veneno,
estou vendo, foi seu fim antes do tempo. Egoísta, bebeu tudo sozinho,
sem deixar uma gota para meu alento! Beijarei seus lábios, quem sabe
ainda encontro um resto de veneno, para salvar-me e morrer com um
beijo...
(Beija-o)
Seus lábios ainda estão quentes!
PRIMEIRO GUARDA — (de dentro) Vá à frente, rapaz.
Qual é o caminho?
JULIETA — Ouço barulho. Preciso ser rápida. Abençoado
punhal!
(Apanha o punhal de Romeu)

Eis a sua bainha! (apunhala-se) Aí crie ferrugem e deixe-me
morrer!
(Cai sobre o corpo de Romeu e morre. Entra o guarda
com o pajem de Páris)
PAJEM — É ali, onde está acesa a tocha.
PRIMEIRO GUARDA — O chão está ensanguentado. Deem uma
busca pelo cemitério e prendam todo aquele que encontrarem!
(Saem alguns dos guardas)
Que triste espetáculo! Aqui está o conde, assassinado; Julieta,
coberta de sangue ainda quente, morta há pouco... Mas ela não tinha
sido enterrada há dois dias? Vão avisar o príncipe e corram à casa dos
Capuleto. Chamem também os Montéquio. Os outros devem continuar a
busca.
(Saem outros guardas)
Podemos ver o chão em que morreram, mas não saberemos a razão
destas mortes sem antes fazer uma séria perícia.
(Retornam alguns guardas, trazendo Baltasar)
SEGUNDO GUARDA — É o criado de Romeu; estava aqui no
cemitério.
PRIMEIRO GUARDA — Mantenham-no preso até que chegue o
príncipe.
(Retornam outros guardas, com Frei Lourenço)
TERCEIRO GUARDA — Encontrei este frade que não pára de
tremer, chorar e soluçar. Estava saindo do cemitério com esta pá e
esta alavanca.
PRIMEIRO GUARDA — Muito suspeito, prendam-no também.
(Entram o príncipe e sua comitiva)
PRÍNCIPE — Que desgraça foi esta que tão cedo
interrompeu nosso descanso matutino?
(Entram Capuleto com senhora e outros)
CAPULETO — O que aconteceu para gritarem tanto por toda
parte?
SENHORA CAPULETO — Estão gritando pelas ruas: “Romeu!”,
“Julieta!”, “Páris!” E todos correm aos gritos em direção ao nosso
mausoléu.
PRÍNCIPE — Que terror é este que atordoa nossos ouvidos?
PRIMEIRO GUARDA — Soberano senhor estão ali o conde
Páris, assassinado; Romeu, morto; e Julieta, que já estava morta,
outra vez assassinada e ainda quente.
PRÍNCIPE — Procurem, investiguem e descubram como se deu
tamanho massacre.
PRIMEIRO GUARDA — Aqui estão um frade e o criado de
Romeu, que foram achados com instrumentos precisos para abrir
sepulturas.
CAPULETO — Meu Deus! Veja minha esposa, como nossa filha
sangra! Este punhal certamente enganou-se, seu lugar está vazio na
cinta do Montéquio, e ele se encravou no peito de minha filha!
SENHORA CAPULETO — Esta visão da morte é um sinal me
chamando ao sepulcro.
(Entram Montéquio e outros)
PRÍNCIPE — Venha até aqui, Montéquio. Você levantou-se
cedo para ver seu filho e herdeiro, que ainda mais cedo acaba de
deitar-se.
MONTÉQUIO — Ah, senhor, minha esposa morreu esta noite.
O desterro de meu filho interrompeu-lhe a vida. Que outra desgraça
conspira contra meus dias?
PRÍNCIPE — Olhe e verá.
MONTÉQUIO — Oh, seu mal-educado! Como se atreve a ir
para o túmulo antes de seu pai?
PRÍNCIPE — Parem por um momento com suas imprecações,
até que possamos esclarecer esse mistério e descobrir as causas, os
responsáveis, a verdadeira ligação dos fatos. Só então partilharei de
sua dor e os acompanharei até a morte, se preciso for. Por enquanto,
contenham-se, e deixem a desgraça ser escrava da paciência. Tragam os
suspeitos.
FREI LOURENÇO — Embora eu seja a pessoa menos capaz de
cometer este horrível crime, sou o principal suspeito, pois a hora e o
lugar depõem contra mim. Aqui estou, portanto, pronto a acusar-me e
defender-me, pois sou culpado e inocente ao mesmo tempo.
PRÍNCIPE — Então conte de uma vez o que sabe sobre o
caso.
FREI LOURENÇO — Serei breve, porque o fôlego que me
resta é curto demais para histórias compridas. Romeu, que ali está
morto, era marido de Julieta; e ela, que ali está morta, era fiel
esposa de Romeu. Eu mesmo os casei, e o dia das secretas núpcias foi
também o dia fatal para Tebaldo, cuja morte imprevista baniu de Verona
o recém-casado. Por ele, e não por Tebaldo, é que Julieta chorava.
Vocês, para afastar dela essa tristeza, prometeram-na ao conde Páris e
resolveram casá-la a contragosto. Então ela me procurou, desvairada,
implorando-me que arranjasse um meio de evitar esse segundo casamento;
caso contrário, daria fim à vida em minha própria cela. Usando de
minha ciência, preparei-lhe um elixir do sono, que, de fato, produziu
o efeito esperado, pois lhe deu uma aparência de morte. Nesse meio
tempo, escrevi a Romeu, para que viesse até aqui, nesta noite fatal,
ajudar-me a tirá-la do sepulcro temporário no momento exato em que
cessasse o efeito da poção. Mas o portador de minha carta, Frei João,
foi detido acidentalmente e, ontem à noite, devolveu-me a carta.
Então, sozinho, vim aqui à hora prevista do seu despertar para
retirá-la do mausoléu da família, com o intuito de levá-la e
escondê-la em minha cela, até que pudesse avisar Romeu. Porém, quando
cheguei, alguns minutos antes dela despertar, aqui jaziam mortos o
nobre Páris e o fiel Romeu. Ela acordou. Pedi-lhe que saísse dali e
aceitasse com resignação esta fatalidade. Nisso, um barulho fez com
que eu me afastasse da tumba. Ela, desesperada, não quis vir comigo e,
ao que parece, preferiu pôr fim à vida. É tudo o que sei. Sobre o
casamento, a ama está a par. E se algo foi mal sucedido por minha
culpa, que eu, um pouco antes do tempo, seja sacrificado sob o rigor
da mais severa lei.
PRÍNCIPE — Todos sempre o consideramos um homem santo.
Onde está o criado de Romeu? O que ele tem a dizer?
BALTASAR — Levei a meu senhor a notícia da morte de
Julieta, e ele veio correndo de Mântua para cá, para este mausoléu.
Esta carta, ele pediu-me que entregasse amanhã cedo a seu pai. E
ameaçou-me de morte se eu não me afastasse e não o deixasse sozinho no
sepulcro.
PRÍNCIPE — Deixe-me ver a carta. Onde está o pajem do conde,
que chamou o guarda?
(O pajem avança)
O que seu patrão veio fazer neste lugar?
PAJEM — Veio depositar flores no túmulo de Julieta,
ordenando-me que ficasse afastado, como fiz. Daí, chegou um homem com
uma tocha, para arrombar o mausoléu. De pronto, meu patrão sacou a
espada contra ele, e eu fui correndo chamar os guardas.
PRÍNCIPE — Esta carta confirma as palavras do frei, o
desenrolar do amor, a notícia da morte de Julieta. Ele escreve ainda
que comprou veneno de um pobre boticário, para vir morrer ao lado de
Julieta, neste túmulo. Esses dois inimigos, onde estão? Capuleto!
Montéquio! Vejam a maldição que pesa sobre seu ódio! O céu conseguiu
matar suas alegrias com amor! E eu, por ter fechado os olhos para suas
discórdias, perdi dois parentes. Todos fomos punidos!
CAPULETO — Dê-me sua mão, irmão Montéquio. É a herança de minha
filha, não posso pedir mais nada.
MONTÉQUIO — Mas eu posso dar mais. Mandarei erguer uma
estátua dela em ouro puro, para que, enquanto Verona existir, nenhuma
imagem seja mais honrada que a da fiel e sincera Julieta.
CAPULETO — E mandarei fazer uma de Romeu, igualmente
rica, para ficar ao lado de sua esposa. Pobres vítimas de nossa
inimizade!
PRÍNCIPE — Sombria paz esta manhã nos trouxe. O sol, de
luto, não mostrará seu rosto. Vamos embora, temos muito que conversar
destes tristes eventos. Uns serão punidos; outros, desculpados. Jamais
houve história mais triste do que esta de Julieta e de Romeu.
(Saem)
FIM

Bibliografia: Complete Works of William Shakespeare, Wordsworth
Edition Limited, Hertfordshire, England, 1996. – Charles Boyce.
Shakespeare A to Z: The Essential Reference to His Plays, His Poems,
His Life and Times, and More. New York: Facts on File, 1990. – Título
original: The Tragedy of Romeo and Juliet.
