O que Mallarmé não parece ter adivinhado é que o "Viajante notável" voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda, o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta, rebelde.

~ Georges Duhamel ~

~ 150 anos do nascimento de Arthur Rimbaud ~

Je ne parlerai pas,
je ne penserai rien.
Mais un amour immense
entrera dans mon âme.

 
(Trecho de "Sensation" , 1870)

~ Prefácio ~

É uma honra para o nosso país que uma obra fechada como a de Arthur Rimbaud domine com a mesma intensidade que a obra semifechada de um Charles Baudelaire ou a obra tão clara de um Victor Hugo. Como os pintores que se destacam não pelo modelo que escolhem mas pela maneira como o pintam, o milagre de Arthur Rimbaud depende menos de suas revoltas e do que dele disse Claudel, "Um místico em estado selvagem", que do fato de ele ter feito a idéia nascer do verbo, enquanto antes dele o verbo se colocava a serviço da idéia.

Apollinaire falava sempre do poema-acontecimento, do verso-acontecimento. Acontece, por exemplo, que um poema um pouco convencional de Baudelaire pode se erguer do chão e levitar pela força de um único alexandrino.

Em Guillaume Apollinaire, uma gota de tinta que treme na extremidade de sua pena cai marchetando uma página que, sem essa mancha requintada, estaria ameaçada pela monotonia.

É isto que torna os poetas intraduzíveis. Não compreendemos nada de Puchkin, a não ser a certeza secreta de um ritmo de feitiçaria que ele tirava de uma gota de sangue negro.

Mas o rimbaldismo é universal. Sua fosforescência atravessa a barreira das línguas.

Poderíamos temer que as tempestades do casal Verlaine/Rimbaud fossem se chocar contra a glória, que é mulher. Uma vez mais a moral inclina-se diante do gênio, pois o gênio não é senão o fenômeno que consiste em santificar os erros escritos, pintados ou vividos.

É verdade que uma celebridade tão grande quanto a de Rimbaud não se faz sem controvérsias. As inumeráveis vítimas do séquito se empenham em perpetuar um certo comportamento, uma certa insolência rimbaldianos, sem imaginar que, se este aspecto foi considerável, foi por causa de um emprego novo da sintaxe que diviniza aos meus olhos "Bonne pensée du matin" e faz "Ma bohème", "La rivière de Cassis", "Bruxelles", "Mémoire" ocuparem um lugar em meu panteão íntimo com a neve que escorrega pela manga de seda preta do príncipe Gengi.

São nesses poemas que Rimbaud conserva a invisibilidade da elegância.

Eu sempre disse que uma criatura de algum planeta mais evoluído que o nosso poderia talvez zombar de Einstein, mas não poderia zombar nem de Van Gogh nem de Cézanne.

Nesse campo de uma força que escapa à análise e aos progressos da ciência, Arthur Rimbaud representa um terrível explosivo. Um raio de abril, uma arma, um heroísmo que se opõem à idéia toda feita do heroísmo e das armas.

É isso que me autoriza a terminar estas linhas copiando, à intenção da paz no mundo e de Rimbaud, um desejo que eu formulava em 1915 no Discours du Grand Sommeil:

Laurier inhumain que la foudre
D'avril te tue
.*

P.S. — Se não falo de Marselha em 1891 é porque esse período me é intolerável. Faz-me sofrer muito.

Sempre afirmei que não é verdadeiramente poeta quem não erra. Aqui a regra ultrapassa os limites. Mas é preciso ver na amputação uma prova do combate com o anjo e do amor feroz das Musas, semelhante ao da louva-a-deus que devora o macho.

"Eles detestam a beleza quando ela é feia. Eles adoram a feiúra quando ela é bela. Nisto está todo o drama!"

É da fabulosa herança de alguns artistas, mortos na miséria, que todos nós vivemos. Quis o destino que um jovem poeta desconhecido contradissesse os filhos-de-papai que somos e descobrisse o segredo de um novo mártir.

* Louro inumano que o raio/De abril te fulmine.

~ Jean Cocteau ~

~ Introdução ~

Esta página é um ensaio biográfico de uma das pessoas mais extraordinárias que já apareceram sobre a terra. Arthur Rimbaud foi um milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo.

Ficamos desconcertados ao saber da existência de um adolescente que compôs, entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento então inviolados.

Ficamos confusos face á idéia de que este personagem tenha inexoravelmente renunciado à literatura aos dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos.

Assim foi a vida trágica de Arthur Rimbaud, um dos únicos na história dos homens.

A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nossa sensibilidade um poder exaltante de sonho e de emoção.

Un coin de table (Um canto de mesa), Henri Fantin-Latour, 1872. Sentados, a partir da esquerda, os poetas simbolistas Paul Verlaine (1844–1896) e Arthur Rimbaud (1854–1891), Elzéar Boonier, Léon Valade, Émile Blémond; Jean Aicard, Ernest d'Hervilly e Camille Pelletan (em pé). – Musée d'Orsay, Paris – Larousse.fr

~ Estrela de Primeira Grandeza ~

Arthur Rimbaud foi um milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo.

O adolescente que compôs, entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento, até então inviolados.

Mas uma pergunta fica no ar... Por que este personagem renunciou à literatura aos dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos?

Quando partiu para o continente africano, tinha algumas economias de que se orgulhava: aproximadamente quatrocentos francos. Uma vida nova abria-se para ele, rica de possibilidades e de esperança. Os horizontes mágicos da Abissínia e de Zanzibar ofereciam-se a seus sonhos. Como aqueles lugares fabulosos eram bonitos no mapa!

Mas, perdendo-se na teia de aranha por ele mesmo tecida entre Aden e Djibuti, Zeilah e Harar, só iria abandonar aquele inferno ao ser alcançado pela morte.

Assim foi a vida trágica de Rimbaud, único na história dos homens.

A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nós um poder exultante de sonho e de emoção.

A vida terrestre de Arthur Rimbaud terminou exatamente no mesmo dia em que um editor parisiense publicava a primeira coletânea de suas poesias destinada ao grande público.

Seu destino foi, ser só, terrivelmente e sempre só. Por outro lado, era um ardenês, isto é, um temperamento inflexível e difícil. Ele deixou na África alguns amigos que o choraram com sinceridade, mas antes ele brigara com quase todos os que o conheceram (Izambard, Verlaine, Todos os parnasianos, Alfred Bardey, etc.) e abandonara os outros (Delahaye, Nouveau). Sua morte o conciliou com todos. As palavras desagradáveis, os acessos de raiva foram esquecidos, e cada um, sufocando o ressentimento, foi prestar à sua memória uma homenagem de fidelidade e amizade. Graças a eles, às lembranças de uns, aos fantasmas ou uma personagem mítica, mas como um ser de carne e sangue, bem perto de nós.

Devemos isto sobretudo a Verlaine: sem a fé que não parou de animar o autor de Romans sans Paroles, Rimbaud teria deixado apenas a lembrança de um boêmio de vanguarda que assustou o Quartier Latin durante uma ou duas estações.

Em 1881, o nome de Rimbaud era quase totalmente desconhecido do público letrado.

Foi quando Verlaine concebeu o projeto temerário de revelar que genial poeta fora o seu amigo desaparecido. Não possuía mais nada dele, nem manuscritos, nem cópias, nem documentos, tudo havia sumido no naufrágio de sua vida.

Uma de suas primeiras providências é significativa: em setembro de 1881, ele arrisca pedir a Léon Valade, com quem estava brigado há dez anos, para lhe enviar, se ele os tinha, "Vaisseau ivre" (sic) e os "Veilleurs", de Rimbaud (Este poema não foi encontrado). Aí está a prova de que sua memória era também falha.

Depois de dois anos de pacientes pesquisas, Verlaine estava pronto para publicar um pequeno estudo sobre o sr. Arthur Rimbaud, poeta maldito, num jornalzinho do Quartier Latin, Lutèce (outono de 1883). Dele citava, a partir de cópias mais ou menos corretas, "Voyelles", "Le bateau ivre", "Les assis", e alguns poemas ou fragmentos; o essencial estava salvo. Essa publicação valeu duas visitas a Verlaine, uma de um jovem poeta, Rodolphe Darzens, que prometeu ajudá-lo, e outra, de um certo sr. Georges Izambard, que declarou ter sido em Charleville professor e amigo "daquele Arthur", conforme as palavras de Verlaine. Pouco depois, Izambard trouxe para Verlaine, extasiado, todo o seu dossiê Rimbaud, que compreendia poemas, deveres, provas, cartas. Infelizmente, Verlaine teve a imprudência de confiar aqueles tesouros a seu editor Léon Vanier, que, durante muito tempo, não quis restituí-los de jeito nenhum — e vendeu até vários deles (especialmente a Darzens).

Três anos mais tarde, Mathilde Mauté, a ex-mulher de Verlaine, estando perto de se casar de novo, permitiu que seu irmão, Charles de Sivry, confiasse ao diretor de uma revista (La Vogue), para publicação, as Illuminations de Rimbaud que Verlaine havia emprestado a de Sivry para musicá-las, juntamente com outros poemas de 1872 (É o que se supõe. Não há outra razão plausível para que Verlaine as emprestasse. Nota). Até então, ela se opusera a essa publicação, temendo despertar incômodas lembranças. E só permitiu sob a condição de Verlaine não ter nisto nenhuma participação. No entanto, ele escreveu o prefácio da coletânea que apareceu no fim de 1886. O sucesso foi grande, mas limitado. Rimbaud era conhecido só por uma elite; falavam dele como de uma personagem lendária, como de "uma voz do além". aproveitando de sua ausência, alguns jovens inconseqüentes tiveram a ousadia de lhe atribuir alguns sonetos no mais puro estilo decadente, com que o Quartier Latin se divertiu nos anos 1889-1890. Verlaine se insurgiu, mas não tinha muita força sobre a nova geração; doente, arrastava-se de hospital em hospital. Teve que lutar durante muito tempo para que acabassem com aquela brincadeira de mau gosto. Como conseguira novos textos, autênticos, de seu amigo desaparecido, ele se preparava para fazer um volume de suas obras, aí compreendida Une Saison en Enfer, que Darzens havia reencontrado. Deveria ser uma edição de luxo, com desenhos de Forain e de Régamey. Mas Darzens não perdia tempo. Tendo solicitado a Paul Demény, diretor de uma revista literária, La Jeune France, os dois cadernos de Douai escritos por Rimbaud e reunindo seus poemas de 1870, a maioria desconhecidos, teve a audácia de preparar, de sua parte, uma grande edição. Verlaine estava derrotado: suas cópias, mais ou menos exatas, não tinham o mesmo valor dos magníficos autógrafos que possuía o seu rival. Mas o editor deste último quis andar depressa demais. Aproveitando da ausência de Darzens, que tinha ido a Marselha falar com Rimbaud moribundo (ele pôde vê-lo, mas não lhe falar), precipitou a publicação e de suas impressoras saiu um volume intitulado Reliquaire, precedido de um prefácio com notas esparsas, sem estilo e com palavras muito cruas. Naturalmente, Darzens abriu um processo, a Justiça apreendeu a obra, e o editor teve que fugir para o estrangeiro. Este escândalo era bem ao gosto de Verlaine. Darzens quisera lhe passar a perna, agora tinha o troco. De posse dos preciosos textos do Reliquaire, ele se apressou em publicar, no fim de 1891, o grande volume das Poésies Complètes de Rimbaud, com que sonhava há dez anos. Logo as provas estavam prontas, quando um acontecimento imprevisto pôs tudo a perder.

Isabelle Rimbaud, depois do enterro do irmão, retirara-se para Roche com a mãe. Ora, em dezembro de 1891, ela ficou surpresa ao saber, através de um artigo de Louis Pierquin, em Le Courrier des Ardennes, que seu irmão Arthur era o autor das mais belas poesias que já se escreveu. Pouco depois, ao conseguir o Reliquaire, ela pulou quando leu o prefácio onde seu irmão era descrito como um ser cruel e fingido, e ficou escandalizada quando viu publicados poemas de um tom revoltante como "Les premières communions".

Sua reação foi instantânea: mandou dizer a Louis Pierquin e, através deste, a Verlaine, que proibia formalmente toda publicação das obras de seu irmão. Então, lentamente, com paciência e delicadeza, Pierquin se empenhou em dobrá-la: podiam publicar apenas alguns poemas escolhidos com um prefácio que Pierquin escreveria... admitiu Isabelle. Ela lhe ditou um prefácio bem piedoso que foi levado ao editor Vanier, que o engavetou. (Isto se passou em 1893.) Verlaine, embora não estivesse de acordo, teve a sensatez de ficar à parte e a habilidade de seduzir Isabelle escrevendo um soneto: "Toi mort, mort, mort...", cujo último verso deve ter agradado a ela:

"Rimbaud, pax tecum sit, Dominus sit cum te".

Sempre ganhando terreno, Pierquin terminou por convencer Isabelle de que era preciso publicar tudo. Mas, no último momento, ele teve a elegância de não aparecer e deixou o prefácio a cargo de Verlaine, que ela aceitou de olhos fechados. "A justiça foi feita e bem-feita...", escreveu Verlaine quando apareceu o volume (fim de 1895). Sim, foi-lhe feita justiça, cabendo-lhe a honra de apresentar ao grande público o jovem desconhecido que, quinze anos antes, confiara nele e lhe pedira ajuda. Alguns meses mais tarde, Verlaine morreu; ele podia partir tranqüilo, sua missão estava cumprida.

Isabelle dedicou o resto de seus dias à lembrança e à glória de seu irmão. Um mês depois da morte de Verlaine, recebeu uma carta entusiasmada de um jovem poeta e artista, Pierre Dufour, que assinava Paterne Berrichon.

Rimbaud o tinha enfeitiçado. Juntos, comungaram na lembrança do poeta, e no ano seguinte ele pediu à sra. Rimbaud a mão de sua filha. Não sem apreensão, ela a concedeu. O casamento realizou-se em 1 de junho de 1897.

Com uma paixão inquebrantável, eles colocaram Rimbaud num pedestal que nos parece hoje discutível, mas sobretudo, empenharam seus esforços para difundir sua obra (edição de 1912, prefaciada por Paul Claudel) e recolher todos os depoimentos daqueles que o conheceram (Vie de Rimbaud, escrito por Berrichon, em 1912).

Eles também cumpriram sua missão. Depois, outros pesquisadores ocuparam seu lugar, animados de um igual fervor, descobrindo manuscritos, rascunhos, gravuras e documentos, melhorando incansavelmente os textos segundo os originais.

No céu da poesia, o nome de Arthur Rimbaud brilha para sempre como uma estrela de primeira grandeza.


Verlaine e Rimbaud em Londres. Desenho de Félix Régamey.

~ Depoimentos ~

André Gide

Rimbaud era para mim como um poeta demoníaco, um "poeta maldito" entre todos e gostava de o ser, com a ajuda do álcool, o "famoso gole de veneno" que ele nos convida a beber e que eu degustava com prazer, mais embriagante que qualquer outro vinho, que não podia convir senão aos fortes, eu pensava.

A que estranha danação ele não arrastaria todos os outros?

Rimbaud, com seu individualismo exacerbado, sua insubmissão. O selvagem Rimbaud. Ele assusta... mesmo preso!

... Há o que ele quis dizer, o que pensamos que ele quis dizer; mas o que ele disse sem o querer e contra si mesmo.

Rimbaud continua um mestre admirável na arte de escrever, um inventor de formas cuja originalidade não foi esgotada por nenhum de seus inúmeros imitadores.

Paul Valéry

Trechos de cartas a André Gide:

Estou embriagado com a beleza das coisas do mar e esforço-me para compreender a sua alma aventurosa e triunfal... Releia o admirável "Bateau ivre" para compreender. Essa poesia é admirável, verdadeira e um pouco louca como a bússola.

Você leu os textos em prosa de Rimbaud no fim da edição das Poesias? Esses inéditos são milagrosos (sejamos exatos). São iluminações das melhores e mais admiráveis. Queria passar duas horas com você e com elas. Você me daria a força para imaginá-las e para falar delas e, como antigamente, nelas nos embebedaríamos, você lembra, quando cada um de nós leu sozinho pela segunda vez, "Le bateau ivre". (Fevereiro de 1943.)

Georges Duhamel

Rimbaud sempre mexeu comigo, sempre me proporcionou a mesma embriaguez amarga.

O que Mallarmé não parece ter adivinhado é que o "Viajante notável" voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda, o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta, rebelde.

As páginas mais obscuras de Rimbaud, as finais, têm soberana virtude de encantamento. Exerceu sobre nossa alma seus sedutores prestígios, sua irritante magia.

Há textos obscuros de Rimbaud que nos pegam porque continuamos livres para neles encontrar o que trazemos de nós mesmos. Eles se parecem com a música pura.

A alquimia mallarmaica sempre me interessa, não me comove quase nunca. Rimbaud me comove sempre. Algumas vezes me desnorteia, outra, dilacera-me e me desespera.

O que importa é o "Fenômeno Rimbaud". O que forma para mim o objeto de muitas reflexões é "a aventura-Rimbaud", é a história daquele menino que nasceu numa família que chamamos classe média, fez seus estudos sérios sem chegar mesmo a se formar, como se tivesse compreendido que os estudos, sejam quais forem, não têm fim, e que se lança subitamente sobre a poesia como sobre uma presa, devorando-a e expelindo-a para ir concluir uma existência desesperadora, de onde todo pensamento de criação literária parece excluído, em climas terríveis, às voltas com ocupações absurdas. O que me interessa e deve interessar a todos é ver o "viajante notável" exercer-se durante alguns meses na prática de uma arte que conseguiu manter despertos ao longo de toda uma existência inúmeros espíritos, é vê-lo elaborar obras-primas surpreendentes e depois abandonar tudo isso com um dar de ombros. o que me perturba e a tantos observadores é, chegado o tempo das necessárias germinações, ver a sombra de Rimbaud voltar entre nós, ver sua obra que cabe inteira num volume, inquietar, atormentar, inspirar uma juventude ardente e, desde então, colocar inúmeros problemas aos estudiosos da literatura crítica e histórica...

Jacques Maritain

Ele procurou na Arte as palavras da vida eterna.

André Maurois

Une Saison en Enfer: o mais belo poema da língua francesa.

Henry Miller

Creio que há muitos Rimbaud neste mundo, e que seu número crescerá sempre. Creio que, no futuro, o tipo Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o tipo Fausto.

Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez. Ele tem a coragem de se aventurar lá onde nenhum branco jamais pôs os pés, mas ele não é capaz de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes.

Une Saison en Enfer: este livro é a última palavra do desespero, da revolta, da maldição.

Ele combateu até o extremo limite de suas forças. E é por isso que seu nome, como o de Lúcifer, continuará glorioso.

Nele havia luz, uma maravilhosa luz, mas ela não devia se espalhar antes que ele morresse.

Jean-Marie Carré

Rimbaud reuniu em um grau sobre-humano toda a grandeza e toda a miséria humanas de um poeta de gênio devorador, mas com a instabilidade fatal que se consumiu em sua chama implacável.

Nenhum poeta exerceu tais sortilégios. Os outros poetas envelheceram, Rimbaud continua inesgotável.


Charleville-Mézières, Maison des Ailleurs. Casa onde o poeta
nasceu em 1854, e passou sua adolescência.
© AFP.

~ Poemas de Rimbaud ~

~ MA BOHÈME (Fantasie) ~

E lá me ia, as mãos nos bolsos furados,
E meu casaco era também o ideal.
Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal;
Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados!

Minha única calça estava em frangalhos
— Pequeno Polegar sonhador, em minha fuga eu ia
Desfiando rimas e sob a Ursa Maior adormecia,
Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas.

Sentado à beira das estradas eu as ouvia,
Belas noites de setembro em que eu sentia
O orvalho em meu rosto como um vinho forte;

Quando compondo em meio a sombras fantásticas,
Como uma lira eu puxava os elásticos
De meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!

~ TERCEIRO SONETO DE "LES STUPRA" ~

                                           Franzida e obscura como um ilhós
                                           Violeta,
                                           Ela respira, humilde, entre a relva
                                           Rociada
                                           Ainda do amor que desce a branda
                                           Rampa das
                                           Brancas nádegas até o coração da
                                           Greta.

                                           Filamentos iguais a lágrimas de leite
                                           Choraram sob o vento atroz que os
                                           Arrecada
                                           E os impele através de marnas
                                           Arruivadas
                                           Até perderem-se na fenda dos
                                           Deleites.

~ NO CABARÉ-VERDE ~
às cinco horas da tarde

Oito dias a pé, as botas rasgadas
Nas pedras do caminho: em Charleroi arrio.
— No Cabaré-Verde: pedi umas torradas
Na manteiga e presunto, embora meio frio.

Reconfortado, estendo as pernas sob a mesa
Verde e me ponho a olhar os ingênuos motivos
De uma tapeçaria. — E, adorável surpresa,
Quando a moça de peito enorme e de olhos vivos

— Essa, não há de ser um beijo que a amedronte!
— Sorridente me trás as torradas e um monte
De presunto bem morno, em prato colorido;

Um presunto rosado e branco, a que perfuma
Um dente de alho, e um chope enorme, cuja espuma
Um raio vem dourar do sol amortecido.

(Outubro de 1870)

~ CANÇÃO DA TORRE MAIS ALTA ~

                                          Juventude presa
                                          A tudo oprimida
                                          Por delicadeza
                                          Eu perdi a vida.
                                          Ah! Que o tempo venha
                                          Em que a alma se empenha.

                                          Eu me disse: cessa,
                                          Que ninguém te veja:
                                          E sem a promessa
                                          De algum bem que seja.
                                          A ti só aspiro.
                                          Augusto retiro.

                                          Tamanha paciência
                                          Não irei esquecer.
                                          Temor e dolência,
                                          Aos céus fiz erguer.
                                          E esta sede estranha
                                          A ofuscar-me a entranha.

                                          Qual o Prado imenso
                                          Condenado a olvido,
                                          Que cresce florido
                                          De joio e de incenso
                                          Ao feroz zunzum das
                                          Moscas imundas.

~ SOBRE O POEMA “SENSATION” ~

Este poema de grande sensibilidade não tinha título quando foi enviado a Théodore de Banville. A versão definitiva traz o título “Sensation”.

Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiers
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien…
Mais un amour immense entrera dans mon âme,
Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémien
Par la Nature, — heureux comme avec une femme!

(1870)

oooo0000oooo

Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei,
Roçando os trigais, pisando a relva miúda:
Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei:
E o vento banhando-me a cabeça desnuda.

Nada falarei, não pensarei em nada:
Mas um amor imenso me irá envolver,
E irei longe, bem longe, a alma despreocupada,
Pela Natureza — feliz como com uma mulher.

~ A PROPÓSITO DE “O BARCO ÉBRIO” ~
(LE BATEAU IVRE)

Enquanto esperava uma carta de Verlaine, Rimbaud resolveu escrever um grande poema que seria a ilustração direta de sua nova ética, uma obra indiscutivelmente de fôlego. Delahaye o viu, deitado num barco, ao pé do Velho Moinho, o rosto contra a água, interrogando o fundo do rio, onde, entre as manchas de sol, a corrente fazia ondular a longa cabeleira das plantas aquáticas. Ele havia apenas conservado a idéia do tema de O Navio Fantasma — que Leon Dierx acabava de tratar há pouco no Parnasse Contemporain —, ou, mais exatamente, ele o incorporara, pois o barco sem rumo pelo espaço sideral, sob o céu implacável ou nas profundezas glaucas, é ele, sua alma, liberada enfim de suas amarras.

E desde então no Poema do Mar mergulhei,
Cheio de astros, latescentes, devorando
Os verdes céus, onde às vezes se vê,
Lívido e feliz, um sonhador boiando.

Onde tingindo de repente o infinito, delírios
E ritmos lentos sob o dia em esplendor
Mais fortes que o álcool, mais vastos que nossas liras,
Fermentam as sardas amargas do amor!

Sei dos céus rasgando-se em raios, e das trombas,
Das ressacas e da noite e das correntes,
Da Alba exaltada igual a um bando de pombas,
E o que o homem acreditou ver viram meus olhos videntes!

É impossível ouvir essa delirante sinfonia sem ser tomado de vertigem, arrastado para fora da órbita terrestre, para o absoluto, para fora do mundo. Ninguém havia feito coisa igual; ninguém o fará jamais. No fim, o Poeta, não conseguindo manter a intensidade da visão, consumido em seu próprio frenesi, explode literalmente em pleno céu:

Oh, que minha quilha estoure! Que eu ganhe o mar!

Tudo, então, está terminado: falta-lhe a coragem de continuar a viagem, as forças o abandonam, ele se deixa levar, não passa do casco negro do barco destruído.

E se anseio mares de Europa, é a poça
Escura e fria onde ao crepúsculo perfumado
Uma criança se abaixa triste e solta
Qual borboleta de maio um barco delicado.

Com uma clareza profética, Rimbaud, podemos dizer, previu seu próprio destino...

________
Nota: Preferi o título “O Barco Ébrio” do que “O Barco Bêbado”, como a maioria traduz esse poema de Rimbaud.
Nota 2: Citei apenas algumas estrofes, porque a poesia é muito longa.

__________
Bibliografia: Vie d'Arthur Rimbaud, Hachette, Paris, 1962.

~ Descoberta foto inédita de Rimbaud ~

Dois livreiros parisienses descobriram uma foto de Arthur Rimbaud em idade adulta, imagem esta que dá um novo rosto ao poeta francês, que parou de escrever aos 20 anos para viver aventuras em terras distantes.

A foto, que data do início dos anos 1880, é a única com boa qualidade de Rimbaud adulto.

Ela mostra o autor de "Bateau ivre" (O Barco Ébrio) e "Illuminations" (Iluminuras) sentado em meio a um grupo de sete pessoas no terraço do Hotel Universo de Áden, no Iêmen. Faz parte de uma coleção com trinta outras, feitas também em Áden, e que foram descobertas durante uma feira, há dois anos, pelos livreiros, Jacques Desse e Alban Caussé.

Para autenticar a fotografia, apresentada nesta quinta-feira, dia 15, no Salão de Livros Antigos em Paris, foi convocado o especialista em Rimbaud e autor do livro "Sur Arthur Rimbaud, Correspondance Posthume 1891-1900" (Sobre Arthur Rimbaud, Correspondência Póstuma 1891-1900, em tradução livre), Jean-Jacques Lefrère.

Rimbaud, nascido em 1854, foi um poeta genial e precoce em sua adolescência, tendo sido chamado de o transgressor mais adorado; mas parou de escrever com apenas 19 anos. Em seguida, levou uma vida de aventureiro na África e Arábia, morrendo em Marselha, sul da França.

O processo de autenticação incluiu inúmeras pesquisas sobre a paisagem da foto e a vida de Rimbaud no Iêmen e na Etiópia, onde ele chegou em 1880 e trabalhou como comerciante de marfim, café, peles e ouro.

Rimbaud morreu depois de ter o joelho amputado, por causa de um tumor.

______
Fonte: AFP, 15 de abril de 2010.

AFP
Foto do início dos anos 1880 mostra o poeta Arthur Rimbaud (segundo, da dir. para esq.) sentado em meio a um grupo de sete pessoas no terraço do Hotel Universo de Áden, no Iêmen.


Foto ampliada

Vídeo sobre a descoberta (Culturebox.fr)


Galeria Rimbaud

Outros trabalhos meus:


~ Arnaldo Poesia ~

Portal Starnews 2001

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