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O que Mallarmé não parece ter
adivinhado é que o "Viajante notável"
voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua
influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele
garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda,
o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta,
rebelde.
~ Georges Duhamel ~
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~ 150 anos do nascimento de Arthur Rimbaud ~


Je ne parlerai pas,
je ne penserai rien.
Mais un amour immense
entrera dans mon âme.
trecho de "Sensation" , 1870

~ Prefácio ~
É uma
honra para o nosso país que uma obra fechada como a de Arthur Rimbaud domine com a mesma intensidade que a obra semifechada de
um Charles Baudelaire ou a obra tão clara de um Victor Hugo. Como os pintores que se destacam não pelo modelo que escolhem mas pela
maneira como o pintam, o milagre de Arthur Rimbaud depende menos
de suas revoltas e do que dele disse Claudel, "Um místico
em estado selvagem", que do fato de ele ter feito a idéia
nascer do verbo, enquanto antes dele o verbo se colocava a
serviço da idéia.
Apollinaire
falava sempre do poema-acontecimento,
do verso-acontecimento. Acontece,
por exemplo, que um poema um pouco convencional de
Baudelaire pode se erguer do chão e levitar pela força de um
único alexandrino.
Em Guillaume
Apollinaire, uma gota de tinta que treme na extremidade de sua pena cai
marchetando uma página que, sem essa mancha requintada, estaria ameaçada pela
monotonia.
É isto que torna os poetas intraduzíveis. Não compreendemos nada de
Puchkin, a não ser a certeza secreta de um ritmo de feitiçaria
que ele tirava de uma gota de sangue negro.
Mas o rimbaldismo é universal. Sua fosforescência atravessa a
barreira das línguas.
Poderíamos temer que as tempestades do
casal Verlaine/Rimbaud fossem se
chocar contra a glória, que é mulher. Uma vez mais a moral
inclina-se diante do gênio, pois o gênio não é senão o
fenômeno que consiste em santificar os erros escritos, pintados
ou vividos.
É verdade que uma celebridade
tão grande quanto a de Rimbaud não se faz
sem controvérsias. As inumeráveis vítimas do séquito se
empenham em perpetuar um certo comportamento, uma certa
insolência rimbaldianos, sem imaginar que, se este
aspecto
foi considerável, foi por
causa de um emprego novo da sintaxe que diviniza aos meus
olhos "Bonne pensée du matin" e faz "Ma
bohème", "La rivière de Cassis",
"Bruxelles", "Mémoire" ocuparem um lugar em
meu panteão íntimo com a neve que escorrega pela manga de seda
preta do príncipe Gengi.
São nesses
poemas que Rimbaud conserva a invisibilidade da elegância.
Eu sempre disse que uma criatura de algum planeta mais evoluído que o
nosso poderia talvez zombar de Einstein, mas não poderia zombar
nem de Van Gogh nem de Cézanne.
Nesse campo de uma força que escapa
à análise e aos progressos da
ciência, Arthur Rimbaud representa um terrível explosivo. Um
raio de abril, uma arma, um heroísmo que se opõem à idéia
toda feita do heroísmo e das armas.
É isso que me autoriza a terminar estas linhas copiando, à intenção
da paz no mundo e de Rimbaud, um desejo que eu formulava em 1915
no Discours du Grand Sommeil:
Laurier inhumain que la foudre
D'avril te tue.*
P.S.
—
Se não falo de Marselha em 1891 é porque esse
período me é intolerável. Faz-me sofrer muito.
Sempre afirmei que não é
verdadeiramente poeta quem não erra. Aqui a regra ultrapassa os
limites. Mas é preciso ver na amputação uma prova do combate
com o anjo e do amor feroz das Musas, semelhante ao da
louva-a-deus que devora o macho.
"Eles detestam a beleza quando ela
é feia. Eles adoram a feiúra quando ela é bela. Nisto está
todo o drama!"
É da fabulosa herança de alguns
artistas, mortos na miséria, que todos nós vivemos. Quis o
destino que um jovem poeta desconhecido contradissesse os
filhos-de-papai que somos e descobrisse
o segredo de um novo mártir.
* Louro
inumano que o raio/De abril te fulmine.
~ Jean
Cocteau ~


~ Introdução ~
Esta página é um pequeno ensaio biográfico de uma das pessoas mais
extraordinárias que já apareceram sobre a terra. Arthur Rimbaud foi um
milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade assustadora e
pelo mistério de seu destino, que permanece impenetrável como seu gênio mesmo.
Ficamos desconcertados ao saber da existência de um adolescente que compôs,
entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários, de uma beleza
estranha; prosas inauditas; e que ele tenha atingido os cimos do pensamento
então inviolados.
Ficamos confusos face á idéia de que este personagem tenha inexoravelmente
renunciado à literatura aos dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve
existência, tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e
fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos, dando-se a mil e
uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo uma porção de línguas, para
malograr, finalmente, na África, onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal
em atrozes condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos.
Assim foi a vida trágica de Arthur Rimbaud, um dos únicos na história dos
homens.
A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer
sobre nossa sensibilidade um poder exaltante de sonho e de emoção.

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Un coin de table (Um canto de mesa), Henri Fantin-Latour,
1872. Sentados, a partir da esquerda, os poetas simbolistas Paul Verlaine (1844–1896)
e Arthur Rimbaud (1854–1891) – Musée d'Orsay, Paris.
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~ Estrela de Primeira
Grandeza ~
Arthur Rimbaud foi um
milagre, um fenômeno de ordem sobrenatural por sua precocidade
assustadora e pelo mistério de seu destino, que permanece
impenetrável como seu gênio mesmo.
O adolescente que compôs,
entre quinze e dezenove anos, poemas fulgurantes e visionários,
de uma beleza estranha; prosas inauditas; e que ele tenha
atingido os cimos do pensamento, até então inviolados.
Mas uma pergunta fica no ar... Por que este personagem
renunciou à literatura aos
dezenove anos e que, na segunda fase de sua breve existência,
tenha realizado prodígios dignos de um herói em longas e
fantásticas caminhadas, percorrendo a Europa e os oceanos,
dando-se a mil e uma ocupações para ganhar a vida, aprendendo
uma porção de línguas, para malograr, finalmente, na África,
onde cumprirá o resto de seu ciclo infernal em atrozes
condições e morrer como um mártir aos trinta e sete anos?
Quando partiu para o
continente africano, tinha algumas economias de que se orgulhava:
aproximadamente quatrocentos francos. Uma vida nova abria-se para
ele, rica de possibilidades e de esperança. Os horizontes
mágicos da Abissínia e de Zanzibar ofereciam-se a seus sonhos.
Como aqueles lugares fabulosos eram bonitos no mapa!
Mas, perdendo-se na teia
de aranha por ele mesmo tecida entre Aden e Djibuti, Zeilah e
Harar, só iria abandonar aquele inferno ao ser alcançado pela
morte.
Assim foi a vida trágica
de Rimbaud, único na história dos homens.
A magia de seu verbo e o mistério de seu destino continuarão a exercer sobre nós um
poder exultante de sonho e de emoção.
A vida terrestre de Arthur
Rimbaud terminou exatamente no mesmo dia em que um editor
parisiense publicava a primeira coletânea de suas poesias
destinada ao grande público.
Seu destino foi, ser só, terrivelmente e sempre
só. Por outro lado, era um ardenês, isto
é, um temperamento inflexível e difícil. Ele deixou na África
alguns amigos que o choraram com sinceridade, mas antes ele
brigara com quase todos os que o conheceram (Izambard, Verlaine,
Todos os parnasianos, Alfred Bardey, etc.) e abandonara os outros
(Delahaye, Nouveau). Sua morte o conciliou com todos. As palavras
desagradáveis, os acessos de raiva foram esquecidos, e cada um,
sufocando o ressentimento, foi prestar à sua memória uma
homenagem de fidelidade e amizade. Graças a eles, às
lembranças de uns, aos fantasmas ou uma personagem mítica, mas
como um ser de carne e sangue, bem perto de nós.
Devemos isto sobretudo a
Verlaine: sem a fé que não parou de animar o autor de
Romans
sans Paroles, Rimbaud teria deixado apenas
a lembrança de um boêmio de vanguarda que assustou o Quartier
Latin durante uma ou duas estações.
Em 1881, o nome de Rimbaud
era quase totalmente desconhecido do público letrado.
Foi quando Verlaine concebeu o projeto temerário de revelar que genial poeta fora o
seu amigo desaparecido. Não possuía mais nada dele, nem
manuscritos, nem cópias, nem documentos, tudo havia sumido no
naufrágio de sua vida.
Uma de suas primeiras
providências é significativa: em setembro de 1881, ele arrisca
pedir a Léon Valade, com quem estava brigado há dez anos, para
lhe enviar, se ele os tinha, "Vaisseau ivre"
(sic)
e os "Veilleurs", de Rimbaud (Este poema não foi encontrado). Aí está a prova de que sua memória era também falha.
Depois de dois anos de
pacientes pesquisas, Verlaine estava pronto para publicar um
pequeno estudo sobre o sr. Arthur Rimbaud, poeta maldito, num
jornalzinho do Quartier Latin, Lutèce (outono de 1883). Dele citava, a partir de cópias mais ou menos
corretas, "Voyelles", "Le bateau ivre",
"Les assis", e alguns poemas ou fragmentos; o essencial
estava salvo. Essa publicação valeu duas visitas a Verlaine,
uma de um jovem poeta, Rodolphe Darzens, que prometeu ajudá-lo,
e outra, de um certo sr. Georges Izambard, que declarou ter sido
em Charleville professor e amigo "daquele Arthur",
conforme as palavras de Verlaine. Pouco depois, Izambard trouxe
para Verlaine, extasiado, todo o seu dossiê Rimbaud, que
compreendia poemas, deveres, provas, cartas. Infelizmente,
Verlaine teve a imprudência de confiar aqueles tesouros a seu
editor Léon Vanier, que, durante muito tempo, não quis
restituí-los de jeito nenhum
—
e vendeu até vários
deles (especialmente a Darzens).
Três anos mais tarde,
Mathilde Mauté, a ex-mulher de Verlaine, estando perto de se
casar de novo, permitiu que seu irmão, Charles de Sivry,
confiasse ao diretor de uma revista
(La
Vogue), para
publicação, as Illuminations de Rimbaud que Verlaine havia emprestado a de Sivry para
musicá-las, juntamente com outros poemas de 1872 (É o que se supõe. Não há outra razão plausível para que Verlaine as
emprestasse. Nota).
Até então, ela se opusera a essa publicação, temendo
despertar incômodas lembranças. E só permitiu sob a condição de Verlaine não ter
nisto nenhuma participação. No entanto, ele escreveu o
prefácio da coletânea que apareceu no fim de 1886. O sucesso
foi grande, mas limitado. Rimbaud era conhecido só por uma
elite; falavam dele como de uma personagem lendária, como de
"uma voz do além". aproveitando de sua ausência,
alguns jovens
inconseqüentes tiveram a ousadia de lhe atribuir alguns sonetos no mais puro
estilo
decadente, com que o Quartier
Latin se divertiu nos anos 1889-1890. Verlaine se insurgiu, mas
não tinha muita força sobre a nova geração; doente,
arrastava-se de hospital em hospital. Teve que lutar durante
muito tempo para que acabassem com aquela brincadeira de mau
gosto. Como conseguira novos textos, autênticos, de seu amigo
desaparecido, ele se preparava para fazer um volume de suas
obras, aí compreendida Une Saison en Enfer, que Darzens havia reencontrado. Deveria ser uma edição de luxo,
com desenhos de Forain e de Régamey. Mas Darzens não perdia
tempo. Tendo solicitado a Paul Demény, diretor de uma revista
literária, La Jeune France,
os dois cadernos de Douai escritos por Rimbaud e reunindo seus poemas de 1870, a maioria desconhecidos, teve a audácia de
preparar, de sua parte, uma grande edição. Verlaine estava
derrotado: suas cópias, mais ou menos exatas, não tinham o
mesmo valor dos magníficos autógrafos que possuía o seu rival.
Mas o editor deste último quis andar depressa demais.
Aproveitando da ausência de Darzens, que tinha ido a Marselha
falar com Rimbaud moribundo (ele pôde vê-lo, mas não lhe
falar), precipitou a publicação e de suas impressoras saiu um
volume intitulado Reliquaire, precedido de um prefácio com notas esparsas, sem estilo e com
palavras muito cruas. Naturalmente, Darzens abriu um processo, a
Justiça apreendeu a obra, e o editor teve que fugir para o
estrangeiro. Este escândalo era bem ao gosto de Verlaine.
Darzens quisera lhe passar a perna, agora tinha o troco. De posse
dos preciosos textos do Reliquaire,
ele se apressou em publicar, no fim de 1891, o grande volume das
Poésies
Complètes de Rimbaud, com que sonhava há
dez anos. Logo as provas estavam prontas, quando um acontecimento
imprevisto pôs tudo a perder.
Isabelle Rimbaud, depois
do enterro do irmão, retirara-se para Roche com a mãe. Ora, em
dezembro de 1891, ela ficou surpresa ao saber, através de um
artigo de Louis Pierquin, em Le Courrier des
Ardennes, que seu irmão Arthur era o autor
das mais belas poesias que já se escreveu. Pouco depois, ao
conseguir o Reliquaire, ela pulou quando leu o prefácio onde seu irmão era descrito
como um ser cruel e fingido, e ficou escandalizada quando viu
publicados poemas de um tom revoltante como "Les premières
communions".
Sua reação foi instantânea: mandou
dizer a Louis Pierquin e, através deste, a
Verlaine, que proibia formalmente toda publicação das obras de
seu irmão. Então, lentamente, com paciência e delicadeza,
Pierquin se empenhou em dobrá-la: podiam publicar apenas alguns
poemas escolhidos com um prefácio que Pierquin escreveria...
admitiu Isabelle. Ela lhe ditou um prefácio bem piedoso que foi
levado ao editor Vanier, que o engavetou. (Isto se passou em
1893.) Verlaine, embora não estivesse de acordo, teve a sensatez
de ficar à parte e a habilidade de seduzir Isabelle escrevendo
um soneto: "Toi mort, mort, mort...", cujo último
verso deve ter agradado a ela:
"Rimbaud,
pax tecum sit, Dominus sit cum te".
Sempre ganhando terreno,
Pierquin terminou por convencer Isabelle de que era preciso
publicar tudo. Mas, no
último momento, ele teve a elegância de não aparecer e deixou
o prefácio a cargo de Verlaine, que ela aceitou de olhos
fechados. "A justiça foi feita e bem-feita...",
escreveu Verlaine quando apareceu o volume (fim de 1895). Sim,
foi-lhe feita justiça, cabendo-lhe a honra de apresentar ao
grande público o jovem desconhecido que, quinze anos antes,
confiara nele e lhe pedira ajuda. Alguns meses mais tarde,
Verlaine morreu; ele podia partir tranqüilo, sua missão estava
cumprida.
Isabelle dedicou o resto de seus dias à lembrança e à glória de seu irmão. Um mês
depois da morte de Verlaine, recebeu uma carta entusiasmada de um
jovem poeta e artista, Pierre Dufour, que assinava Paterne
Berrichon.
Rimbaud o tinha enfeitiçado. Juntos, comungaram na lembrança do poeta, e no ano
seguinte ele pediu à sra. Rimbaud a mão de sua filha. Não sem
apreensão, ela a concedeu. O casamento realizou-se em 1 de junho
de 1897.
Com uma paixão inquebrantável, eles colocaram Rimbaud num pedestal que nos
parece hoje discutível, mas sobretudo, empenharam seus esforços
para difundir sua obra (edição de 1912, prefaciada por Paul
Claudel) e recolher todos os depoimentos daqueles que o
conheceram (Vie de Rimbaud,
escrito por Berrichon, em 1912).
Eles também cumpriram sua
missão. Depois, outros pesquisadores ocuparam seu lugar,
animados de um igual fervor, descobrindo manuscritos, rascunhos,
gravuras e documentos, melhorando incansavelmente os textos
segundo os originais.
No céu da poesia, o nome
de Arthur Rimbaud brilha para sempre como uma estrela de primeira
grandeza.

Verlaine e Rimbaud em Londres. Desenho de Félix Régamey.


~ Depoimentos
~
André Gide
Rimbaud era para mim como
um poeta demoníaco, um "poeta maldito" entre todos e
gostava de o ser, com a ajuda do álcool, o "famoso gole de
veneno" que ele nos convida a beber e que eu degustava com
prazer, mais embriagante que qualquer outro vinho, que não podia
convir senão aos fortes,
eu pensava.
A que estranha danação
ele não arrastaria todos os outros?
Rimbaud, com seu
individualismo exacerbado, sua insubmissão. O selvagem Rimbaud.
Ele assusta... mesmo preso!
... Há o que ele quis
dizer, o que pensamos que ele quis dizer; mas o que ele disse sem
o querer e contra si mesmo.
Rimbaud continua um mestre
admirável na arte de escrever, um inventor de formas cuja
originalidade não foi esgotada por nenhum de seus inúmeros
imitadores.
Paul
Valéry
Trechos de cartas a
André Gide:
Estou embriagado com a beleza das coisas do mar e esforço-me para compreender a sua
alma aventurosa e triunfal... Releia o admirável "Bateau
ivre" para compreender. Essa poesia é admirável,
verdadeira e um pouco louca como a bússola.
Você leu os textos em
prosa de Rimbaud no fim da edição das
Poesias? Esses
inéditos são milagrosos (sejamos exatos). São
iluminações das melhores e mais admiráveis. Queria passar duas
horas com você e com elas. Você me daria a força para
imaginá-las e para falar delas e, como antigamente, nelas nos
embebedaríamos, você lembra, quando cada um de nós leu sozinho
pela segunda vez, "Le bateau ivre". (Fevereiro de
1943.)
Georges Duhamel
Rimbaud sempre mexeu
comigo, sempre me proporcionou a mesma embriaguez amarga.
O que Mallarmé não parece ter
adivinhado é que o "Viajante notável"
voltaria, que ia ficar, que não pararia de crescer, que sua
influência se estenderia sobre todas as gerações e que aquele
garoto seria no século novo não o mestre, e sim, melhor ainda,
o mensageiro, o profeta de toda uma juventude febril, entusiasta,
rebelde.
As páginas mais obscuras
de Rimbaud, as finais, têm soberana virtude de encantamento.
Exerceu sobre nossa alma seus sedutores prestígios, sua
irritante magia.
Há textos obscuros de
Rimbaud que nos pegam porque continuamos livres para neles
encontrar o que trazemos de nós mesmos. Eles se parecem com a
música pura.
A alquimia mallarmaica
sempre me interessa, não me comove quase nunca. Rimbaud me
comove sempre. Algumas vezes me desnorteia, outra, dilacera-me e
me desespera.
O que importa é o "Fenômeno
Rimbaud". O que forma para mim o objeto de muitas reflexões é
"a aventura-Rimbaud", é a história daquele menino que
nasceu numa família que chamamos
classe média, fez seus estudos sérios sem chegar mesmo a se
formar, como se tivesse compreendido que os estudos, sejam quais
forem, não têm fim, e que se lança subitamente sobre a poesia
como sobre uma presa, devorando-a e expelindo-a para ir concluir
uma existência desesperadora, de onde todo pensamento de
criação literária parece excluído, em climas terríveis, às
voltas com ocupações absurdas. O que me interessa e deve
interessar a todos é ver o "viajante notável"
exercer-se durante alguns meses na prática de uma arte que
conseguiu manter despertos ao longo de toda uma existência
inúmeros espíritos, é vê-lo elaborar obras-primas
surpreendentes e depois abandonar tudo isso com um dar de ombros.
o que me perturba e a tantos observadores é, chegado o tempo das
necessárias germinações, ver a sombra de Rimbaud voltar entre
nós, ver sua obra que cabe inteira num volume, inquietar,
atormentar, inspirar uma juventude ardente e, desde então,
colocar inúmeros problemas aos estudiosos da literatura crítica
e histórica...
Jacques Maritain
Ele procurou na Arte as
palavras da vida eterna.
André Maurois
Une Saison en Enfer: o mais belo poema da língua francesa.
Henry Miller
Creio que há muitos
Rimbaud neste mundo, e que seu número crescerá sempre. Creio
que, no futuro, o tipo Rimbaud substituirá o tipo Hamlet e o
tipo Fausto.
Rimbaud é uma curiosa mistura de audácia e timidez. Ele tem a coragem de se aventurar
lá onde nenhum branco jamais pôs os pés, mas ele não é capaz
de enfrentar a vida com pouco dinheiro. Não tem medo dos
canibais, e sim dos brancos, de seus semelhantes.
Une Saison en Enfer: este livro é a
última palavra do desespero, da revolta, da
maldição.
Ele combateu até o
extremo limite de suas forças. E é por isso que seu nome, como
o de Lúcifer, continuará glorioso.
Nele havia luz, uma
maravilhosa luz, mas ela não devia se espalhar antes que ele
morresse.
Jean-Marie Carré
Rimbaud reuniu em um grau
sobre-humano toda a grandeza e toda a miséria humanas de um
poeta de gênio devorador, mas com a instabilidade fatal que se
consumiu em sua chama implacável.
Nenhum poeta exerceu tais
sortilégios. Os outros poetas envelheceram, Rimbaud continua inesgotável.


Charleville-Mézières, Maison des Ailleurs. Casa onde
o poeta
nasceu em 1854, e passou sua adolescência.
© AFP/Archives Cyril Cadet.


~ Poemas de Rimbaud ~
~ MA BOHÈME (Fantasie) ~
E lá me ia, as mãos nos bolsos furados,
E meu casaco era também o ideal.
Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal;
Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados!
Minha única calça estava em frangalhos
— Pequeno Polegar sonhador, em minha fuga eu ia
Desfiando rimas e sob a Ursa Maior adormecia,
Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas.
Sentado à beira das estradas eu as ouvia,
Belas noites de setembro em que eu sentia
O orvalho em meu rosto como um vinho forte;
Quando compondo em meio a sombras fantásticas,
Como uma lira eu puxava os elásticos
De meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!

~ TERCEIRO SONETO DE
"LES STUPRA" ~
Franzida e obscura como um ilhós
Violeta,
Ela respira, humilde,entre a relva
Rociada
Ainda do amor que desce a branda
Rampa das
Brancas
nádegas até o coração da
Greta.
Filamentos iguais a lágrimas de leite
Choraram sob o vento atroz que os
Arrecada
E os impele através de marnas
Arruivadas
Até perderem-se na fenda dos
Deleites.
