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Soterradas em
lama vulcânica há quase 2.000 anos,
estas antigas
cidades de veraneio romanas à beira do
Golfo de Nápoles
emergiram como uma das mais
ricas
descobertas arqueológicas de todos os tempos.
Ao alvorecer do
dia 24 de agosto de 79 d.C. ninguém nas pequenas
cidades de Pompéia e Herculano poderia adivinhar que
a manhã cálida e luminosa nasceria morta. O Golfo de
Nápoles estava azul e liso como um espelho. No monte
chamado Vesúvio verdejavam vinhas e olivais. Não
havia uma nuvem no céu.
É bem verdade
que desde alguns dias se vinham sentindo ligeiros
tremores de terra nas vizinhanças. A cidade de
Pompéia, a 11 quilômetros de distância, em outro
flanco do Vesúvio, sentira os abalos; e a grande
cidade de Neapolis (Nápoles), mais longe da
montanha, provavelmente os sentira também. Tais
tremores não eram raros, e podiam tornar-se
violentos. Mas nunca, que alguém se lembrasse, saíra
uma sombra de fumaça sequer do cone arborizado da
montanha.
Naquela manhã
Herculano tinha um clima de feriado. Havia festejos
em homenagem ao Imperador Augusto — falecido havia
muito tempo — e realizavam-se jogos atléticos na
Palaestra. À tarde seria representado um ciclo
de peças no teatro. A Basílica estava vazia porque
os tribunais estavam fechados, devido ao feriado,
mas o Fórum estava cheio de gente — veranistas que
visitavam a cidade.
Passavam
senhoras em liteiras carregadas por escravos ou a
pé, protegidas do sol por sombrinhas que suas
criadas seguravam. Fora de todas as principais
portas da cidade havia filas de vendedores,
apregoando melões e uvas, amuletos de coral (que se
supunham darem potência), enfeites de vidro baratos,
pavios de enxofre, imagens votivas, chapéus de palha
e dezenas de outros artigos. Havia ainda habituais
malabaristas, acrobatas, cartomantes e músicos de
rua.
Pelo fim da
manhã o calor aumentou. Embora agosto fosse um mês
de paisagens ressequidas, estradas poeirentas e
nenhuma chuva, nos jardins e pátios de Pompéia e
Herculano as fontes de bronze e de mármore
murmuravam entre as palmeiras e loendros em flor.
Havia bastante água, trazida das montanhas por
aqueduto. Nas esquinas das ruas, as fontes públicas
jorravam sem cessar, e as mulheres pobres carregavam
água em cântaros ao ombro ou à cabeça.
Na padaria de
Sextus Patulcus Felix, o padeiro e seus ajudantes
preparavam-se para tirar do forno as formas de
bronze com bolos e tortas. Não longe dali, em outra
padaria, cuja especialidade era exclusivamente pão,
dois burrinhos andavam em círculo,
interminavelmente, girando uma mó de pedra para moer
farinha. Abanavam o rabo e as orelhas para espantar
as moscas, e de vez em quando zurravam num protesto
paciente contra os arreios.
Acabara de abrir
a seção masculina das Termas Públicas, perto do
centro da cidade. Empregados ajudavam os primeiros
fregueses a se despirem. Alguns homens revolviam as
brasas com um grande atiçador de ferro enquanto
aqueciam a caldeira. Nas Termas Suburbanas, perto da
marinha, um grupo de jovens aristocratas nus, muito
animados, ria-se dos mais recentes desenhos eróticos
numa parede pintada de branco. E, por toda a cidade,
garotos chamados Marcus, Rufus, Sabius, Manius e
Florius rabiscavam em outros muros.
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- Oficina do latoeiro |
Na oficina do
latoeiro, junto do Fórum, um candelabro de bronze e
uma pequena estátua de Dionísio, deus do vinho,
aguardavam conserto. O latoeiro colocou-os,
provisoriamente, perto de uns lingotes de metal
junto da forja. No local de reunião do Collegium —
grupo de pessoas dedicadas ao culto do deificado
Imperador Augusto e seus sucessores — numa pequena
cela trancada, com uma janela de grades, um homem
desesperado atirou-se sobre uma cama.
Nas ruas todas
as tabernas acabavam de abrir e vendiam pão,
queijos, vinho, nozes, figos e pratos quentes. Lojas
de cereais e verduras, fazenda e artigos de pesca,
estavam abertas havia horas. Na oficina do
lapidador, um menino doente estava deitado numa cama
elegantemente trabalhada. Um frango fora preparado
para o almoço, na esperança de desperta-lhe o
apetite. Perto dali, uma mulher trabalhava num tear.
Em todas as
pequenas oficinas, os mosaicistas, tintureiros,
marceneiros, marmoristas e pintores trabalhavam em
seus ofícios. A atividade matinal chegara ao máximo.
Um agrimensor estava ocupado com seu compasso e
triangulações. Na marinha pescadores consertavam
suas redes. Uma mulher que costurava largou o dedal
na sua cesta. Um bebê num berço de madeira arrulhava
satisfeito.
As provas
atléticas matutinas na Palaestra estavam
terminando. Os meninos que tinham vencido o
arremesso de pedras, despidos e queimados pelo sol,
preparavam-se para receber suas coroas de oliveira.
Autoridades, convidados e admiradores sentavam-se
numa galeria coberta, no lado norte, protegidos do
sol abrasador, e aplaudiam os vencedores.
Nas residências
patrícias que dominavam a beira do mar, as criadas
preparavam as suas patroas. Nas salas de refeições
de verão, ensombradas e aninhadas entre jardins
suspensos ou pátios cheios de fontes, as mesas
estavam sendo postas para o almoço ligeiro preferido
pelos romanos. Numa das casas, o almoço tinha sido
apressado — um dos participantes já tinha na boca o
primeiro bocado.
Perto do Fórum,
acabava de chegar um carregamento de cristais
lindamente desenhados, que certamente seriam objeto
de admiração no próximo jantar. Os proprietários
estavam tão ansiosos por ver seu novo tesouro, que
esqueceram o almoço temporariamente, e um empregado
recebeu ordens de abrir imediatamente o caixote
cuidadosamente embalado. Foi tirada a primeira
camada de palha.
De repente, um
som violento e estrepitoso fendeu os ares. O solo
rompeu-se e estremeceu, e terríveis mugidos, como de
touros, pareciam sair diretamente de dentro da
terra. A luz do Sol, de amarela, transformou-se num
súbito nevoeiro cor de bronze. Acres emanações
sulfurosas sufocavam as narinas. Da montanha, uma
nuvem gigantesca, com forma de cogumelo, elevou-se
no céu.
As pessoas
começaram a gritar que o Vesúvio tinha explodido.
Todos os que puderam largaram tudo e correram para a
rua como loucos. Era a sétima hora, hora de Roma.
Começara o sepultamento de uma cidade.
~ Uma Terrível
Nuvem Negra ~
Para aproveitar
a paisagem, Herculano fora construída num
promontório entre dois rios que desciam o Vesúvio.
Quando toda a parte superior da montanha explodiu, o
vapor liberado misturou-se com cinzas, lava e terra,
formando uma substância viscosa que seguiu o caminho
de menor resistência pelos leitos desgastados dos
rios — até que a própria Herculano se tornou uma
ilha num mar de lama ardente. Rapidamente a lama
subiu, engolfando a cidade até uma profundidade de
12 a 18 metros. Ao mesmo tempo, Pompéia, mais ao
sul, tinha destino igualmente dramático e horrível —
embora a chuva de lava e cinzas que recebeu a
soterrasse apenas a uma profundidade de sete metros,
deixando um vago contorno.
Levando em conta
a natureza extraordinária da catástrofe, é estranho
que tão poucos relatos escritos tenham chegado até
nós. A única descrição de uma testemunha ocular de
que dispomos é a de Plínio, o Jovem, cujo tio,
Plínio, o Antigo, era comandante da frota romana em
Miseno, base estratégica no Golfo de Nápoles. “No
nono dia antes das Calendas de setembro, por volta
da sétima hora”, escreve o jovem Plínio, “minha mãe
informou meu tio de que uma nuvem de dimensões e
aparência extraordinárias fora vista... era como uma
árvore — o pinheiro umbelado daria uma boa idéia
dela. Como um imenso tronco de árvore, foi projetada
no ar, abrindo-se em galhos. Creio que foi levada
para o alto por uma rajada violenta, e depois
largada quando a rajada fraquejou; ou, vergada sob o
próprio peso, espalhou-se aos quatro ventos — ora
branca, ora negra e matizada, dependendo se
carregava cinzas ou brasas.”
Plínio, o Jovem,
passa então a narrar a extraordinária viagem de
socorro de seu tio pelo litoral de Miseno, numa
tentativa vã de resgatar sobreviventes. “As cinzas
caíam, quentes e espessas, sobre os navios. Enquanto
isso, do Monte Vesúvio, grandes lençóis de chamas e
enormes incêndios surgiam cada vez em mais lugares,
e seu brilho e clarão contrastavam com a escuridão
da noite.” A missão foi um fracasso, e o próprio
Plínio, o Antigo, sucumbiu ao calor intenso.
“Acredito que foi sufocado pelos vapores densos”,
diz seu sobrinho. “Quando o dia amanheceu, seu corpo
foi encontrado intacto, sem um ferimento e vestido
como em vida.”
Descrevendo sua
própria fuga — com sua mãe — pela estrada de
Nápoles, apinhada de gente que fugia, o jovem Plínio
escreve: “Embora nossos carros estivessem em terreno
liso, eram jogados para todos os lados e, mesmo
depois que os lastreamos com pedras, não
conseguíamos firmá-los. O mar parecia ter encolhido,
como que sugado pelos tremores da terra. Atrás de
nós pairava uma terrível nuvem negra, rasgada por
clarões repentinos de fogo, contorcendo-se como uma
serpente e revelando lampejos maiores do que
relâmpagos. Não tardou que fôssemos envolvidos por
uma escuridão semelhante à de um quarto trancado. Só
se ouviam os gritos estridentes das mulheres, o
choro das crianças e os gritos dos homens. A
escuridão acabou cedendo, e finalmente surgiram a
verdadeira luz do dia e um sol pálido. Diante de
nossos olhos aterrorizados, tudo parecia mudado —
tudo coberto por uma espessa camada de cinzas como
uma grande nevada.”
~ Cidade
Condenada ~
O jovem Plínio
teve sorte de estar tão longe do centro da erupção,
pois as cinzas e as pedras que caíram sobre Pompéia
estavam quase incandescentes, queimando e sepultando
tudo o que tocavam. (Os escavadores em Pompéia
conseguiram fazer moldes de gente surpreendida no
momento de sua morte: um homem sentado num canto,
com as mãos tapando o nariz e a boca; um pai
tentando arrastar-se até seus filhos.) Os habitantes
de Herculano tiveram melhores oportunidades de fuga.
Poucos foram apanhados, e a lama escaldante
destruiu-lhes a carne, deixando apenas os
esqueletos. Como prédios não foram demolidos, os
corpos não foram esmagados. A população
provavelmente fugiu como estava — os que estavam nas
termas, sem roupas; os atores no Teatro nas roupas
que usavam no ensaio. Não houve tempo para salvar
nem mesmo os objetos mais preciosos: jóias, moedas,
pratas, documentos legais — tudo foi abandonado.
Aqueles que ainda se demoraram depois que a lama
alcançou o nível das pontes sobre as correntes,
ficaram.
Aparentemente,
variava muito a força da lava lamacenta em ascensão.
Em alguns pontos, sua pressão derrubou paredes e
colunas, destruiu móveis e carregou estátuas; em
outros, subiu tão suavemente que se espalhou sobre
ovos sem quebrá-los e encheu os aposentos sem mexer
na posição das panelas num fogão ou de um berço num
quarto de criança.
A terrível
notícia da catástrofe foi enviada a Roma pelas
torres de sinalização. Na mais eficiente maneira
romana, a região de Nápoles foi declarada zona de
calamidade — pois Pompéia e Herculano não foram as
únicas cidades destruídas. O Imperador Tito prestou
auxílio de emergência, despendendo não só fundos do
Estado, mas também seus recursos particulares. A
magnitude da catástrofe pode ser avaliada por um
decreto do Senado pelo qual os bens das famílias
extintas seriam distribuídos entre os sobreviventes.
Mas não havia auxílio algum que pudesse compensar
perda tão total. Algumas pessoas voltaram, escavaram
mutuamente, depois desistiram, indo para outros
lugares.


Possível rota de Plínio

~ O Longo Sono ~
Com o passar dos
anos. As cidades mortas foram aos poucos apagadas da
memória das pessoas. As encostas do Vesúvio
tornaram-se verdes e foram novamente cultivadas,
como se Herculano e Pompéia nunca tivessem existido.
Mas o Vesúvio
não permitiu que sua natureza selvagem e
imprevisível fosse esquecida. No ano 203, o vulcão
entrou em erupção durante uma semana, e em 305
durante vários dias. No ano 472, teve início uma
série de erupções que se prolongaram por três anos
sem interrupção — erupções tão graves que as cinzas
chegaram até Constantinopla. Em 512 foram
registrados rios de lava, e em 536 outros sinais de
atividade, enquanto a civilização romana estava
sendo destruída pelas invasões bárbaras através da
Itália indefesa. O vulcão entrou novamente em
erupção em 1270 e 1347. Em 1631, a lava — a
verdadeira lava de fogo, não a lava lamacenta —
alcançou o local onde antes fora Herculano, e
soterrou ainda mais profundamente várias partes da
cidade já sepultada.
Somente no
Renascimento, quando os italianos redescobriram sua
herança greco-romana, é que foram lidos novamente
antigos manuscritos e se tornou conhecida a
existência das cidades soterradas. Embora sua
localização precisa fosse um mistério, havia rumores
insistentes sobre tesouros ocultos na base do
Vesúvio.
O longo sono de
Pompéia e Herculano só foi perturbado em 1709 — e,
assim mesmo, por inteiro acaso. Na cidade de Resina,
que se desenvolvera em uma confusão desordenada
sobre o local do soterramento, havia um mosteiro. Ao
cavar um poço para os monges, um operário encontrou
uma fileira de cadeiras da galeria do Teatro de
Herculano. Encontrou pedaços de mármore belíssimo e
raro. Um príncipe austríaco, oficial do Exército
Austríaco, que naquela época ocupava a Itália, deu
ordem para serem perfurados túneis de exploração.
Seu interesse, porém, não era arqueológico: o que
desejava era saquear o local e retirar de lá o
mármore, que pretendia usar numa vila que estava
construindo. O príncipe nunca compreendeu a natureza
de sua descoberta, nunca percebeu que ali estava
algo único na história do mundo: uma cidade antiga
absolutamente intacta.
Somente em 1738
o Teatro foi identificado como tal, e, pouco depois,
revelava-se a própria cidade. Durante as
explorações, reiniciadas por ordem do rei de Nápoles
e da Sicília, o futuro Carlos III de Espanha (Nessa
altura os austríacos já tinham sido expulsos de
Nápoles e da Sicília), foi encontrada uma inscrição
que estabelecia, sem sombra de dúvidas, que se
tratava de Herculano.
Os túneis
existentes foram aumentados, e iniciaram-se outros
em todas as direções. Daquele ativo formigueiro
surgiram novas descobertas de aparência dramática e
de grande valor. Mas o engenheiro militar espanhol
encarregado da exploração, ansioso por descobertas
espetaculares, cometeu erros como, por exemplo, a de
remover letras de bronze sem primeiro copiar as
inscrições. Faziam relatórios diários e mantinham
uma ata em espanhol, mas não havia um registro dos
detalhes de cada descoberta — posição, relação com
outros objetos, etc. Os planos feitos eram os mais
vagos possíveis, e a escavação por esses métodos
toscos fazia-se por toda a cidade — nas ruas, sobre
os telhados, através dos afrescos, mosaicos, portas
de madeira, criptas — solapando, quebrando,
arrancando, deixando ruínas quase totais. Por fim, o
engenheiro persuadiu o filho de Carlos, Fernando,
que assumira a coroa de Nápoles, a transferir as
escavações para um lugar mais promissor — que foi
Pompéia, onde foram feitas descobertas que tiveram
profunda influência sobre a cultura ocidental.
Durante o século
seguinte, foram realizadas outras explorações em
Herculano e Pompéia por vários regimes políticos — e
abandonadas. Em 1869, durante o reinado de Vítor
Emanuel da Itália, as escavações foram reiniciadas,
mas quando as buscas se aproximaram do emaranhado de
casas da moderna cidade de Resina, surgiu uma nova
dificuldade: a enérgica oposição dos senhorios.
Estes não estavam interessados no desenvolvimento da
cultura por meio da Arqueologia. Preferiam as
favelas abarrotadas do presente às vilas vazias do
passado. Em 1875 provocaram uma paralisação nos
trabalhos. Parecia que as duas cidades estavam
destinadas a ficar soterradas para sempre.
A despeito dos
esforços no sentido de revitalizar o projeto das
cidades num plano internacional, no fim do século,
os trabalhos só recomeçaram em 1927. O Governo
Italiano decidiu programar as escavações num ritmo
constante, e começou finalmente o processo lento e
laborioso de devolver intactas à luz do dia as ruas
e casas de Pompéia e Herculano.
~ Ressurreição ~
Para enfrentar o
desafio da lama solidificada, foi necessário usar,
além das tradicionais pás e picaretas, perfuradores
de ar comprimido, serras elétricas, tratores, bem
como instrumentos complexos como o clinômetro, para
medir as inclinações e a bússola prismática, para
orientação. Foram usadas chapas de zinco e lápis de
hidróxido de sódio para a eletrólise das moedas, e
Amedeo Maiuri, novo diretor do programa, teve um
cuidado e com uma paciência infinitos, contratando
somente escavadores hábeis e conscienciosos.
Como a maioria
dos arqueólogos modernos, Maiuri achava que todos os
objetos deviam, se possível ser deixados em seus
lugares. Um cidadão de Herculano, se pudéssemos
imaginá-lo voltando depois de quase 2.000 anos,
devia poder entrar em sua casa e encontrá-la quase
como a deixara — com todos os objetos familiares em
seus lugares. E foi isso que se fez, em muitos
casos. Os afrescos foram deixados nas paredes, as
estátuas nos jardins, as mobílias onde estavam, os
cereais nos tonéis de depósito, os pães nas formas.
Quando houve alguma restauração, foi claramente
indicada.
Onde houve
sérios danos causados pelos escavadores que abriram
os túneis, não foi possível essa reconstituição, de
modo que as ruínas foram deixadas como ruínas. É uma
trágica ironia que a lama sufocante tenha causado
menos estragos a Herculano do que os seus primeiros
escavadores. Do ponto de vista da arqueologia
científica, foi uma sorte aquelas primeiras
tentativas terem tido tão pouco êxito.
Pouco se sabe
ainda a respeito da cidade como entidade, mas já se
delinearam algumas características. É evidente que a
planta da cidade, com uma série ordenada de
quarteirões retangulares, cujos lados mais curtos
dão para o litoral, é semelhante à planta da antiga
Nápoles. É, portanto, grega em concepção e execução,
diferente de Pompéia com seus muros sinuosos e uma
parte antiga de ruas emaranhadas. Tampouco
encontramos em Herculano as pedras que vemos nas
ruas de Pompéia, para os pedestres pisarem sem
molharem os pés, embora ambas as cidades tivessem um
excelente sistema de drenagem.
Embora o
abastecimento de água de Herculano se baseasse nos
aquedutos que desciam das montanhas, continuavam em
uso muitos poços e cisternas particulares. (Na
residência de um patrício foi encontrado um
engenhoso sistema hidráulico, usado para abastecer
de água a casa, as fontes e os lagos.) A pressão
para o sistema municipal era mantida por uma torre
de água, incluindo um sistema de filtragem.
A lama, embora
inundasse a cidade numa temperatura escaldante, teve
uma função útil: a madeira, ainda que carbonizada,
em muitos casos, não foi destruída. Portas de dois
batentes continuam oscilando em seus gonzos
originais; grades de dobrar ainda podem ser
dobradas. Até mesmo andaimes “temporários”, que
sustentavam um teto vergado, foram conservados.
Vigas, peitorais de janela, portas, venezianas e
escadas de madeira continuam em seus lugares
originais.
Graças às
matizes de lama, podemos até tocar a mesma mobília
usada pelos antigos habitantes de Herculano. Como a
Itália era, e ainda é, um país de mármore, e como há
muitos vestígios de mesas e bancos dessa pedra,
pode-se deduzir que os móveis de madeira eram
considerados objetos de luxo. A literatura romana
registra alguns dos preços extravagantes pagos por
elegantes e ornamentadas mesas de madeiras raras,
consideradas uma indicação de prestígio. (Cícero
pagou 500.000 sestércios por uma mesa.)
Foram
encontrados muitos pequenos objetos — alguns de
natureza muito frágil. Vemos, por exemplo, os
puxadores de uma cômoda, exatamente iguais aos que
usamos hoje. Também como os nossos são as tenazes,
as tigelas, conchas, jarros de vidro, fivelas de
cinto, botões, campainhas, as fechaduras e chaves,
as contas, o grão-de-bico e o alho. Os frascos de
perfume são um pouco diferentes. Agulhas de costura
eram de bronze, e não de aço. As fichas de gamão,
pretas e brancas, eram um pouco diferentes das
nossas, mas os dados são exatamente iguais. Havia
sandálias protetoras para os cascos dos cavalos (os
cavalos romanos não eram ferrados), tecidas de
corda, como as modernas sandálias de praia. No
balcão de uma taberna estão expostas as nozes
primitivas. Depois de quase 19 séculos, até o miolo
das nozes está conservado.
~ Um Modo de
Vida ~
Chegando por mar
a Herculano naquela manhã fatal de agosto, teríamos
visto sobre os paredões que davam para beira-mar uma
fila de magníficas residências patrícias, todas com
terraços, galerias, jardins suspensos, fontes e
pérgulas. Geralmente as colunas de seus pórticos
eram pintadas de vermelho, a cor viva hoje chamada
vermelho de Pompéia. Seus telhados eram de uma
terracota amarela e os mosaicos de um azul e ouro
brilhantes. Eram casas luxuosas e elegantes,
perfeitas, projetadas para a beira-mar e os cálidos
dias de verão.
Para termos uma
idéia do luxo dessas casas, basta visitar a sala de
estar do estabelecimento hoje conhecido como “Casa
de Telefo”. A sala tem cerca de sete metros de
largura por nove de comprimento, e as paredes são de
painéis horizontais e verticais de mármores raros
(africanos, roxo, cipolino, negro, verde rajado),
separados por esguias meias-colunas acaneladas em
espiral, com delicados capitéis coríntios. As cores
se fundem e harmonizavam, criando um ambiente digno
de um palácio de imperador. Outro prédio patrício, a
“Vila dos Papiros”, rodeada de jardins, repuxos,
ciprestes e palmeiras, estendia-se sobre a cerca de
250 metros num aterro sobre o Golfo de Nápoles. Foi
nessa casa que se encontrou a mais admirável coleção
de esculturas de bronze antigas da História — num
total de 63.
Mas nem todos os
patrícios romanos eram ricos. Na época da erupção do
Vesúvio, a estrutura da classe superior de Roma se
tornara rigidamente estratificada, com base na
fortuna. Para ser ou se tornar membro da Ordem
Senatorial — que era o máximo — a lei exigia a posse
de um mínimo 1.000.000 de sestércios. Para ser ou se
tornar membro da Ordem Eqüestre — a segunda em
importância para os patrícios — era exigida por lei
a posse de um mínimo de 400.000 sestércios. Essas
cifras são significativas quando consideramos que,
no tempo de Nero, uma capa de boa qualidade custava
98 sestércios.
A história da
decadência de alguns dos elementos da antiga
aristocracia e da ascensão da nova classe comercial
pode ser lida nas casas de Herculano. Só uns poucos
podiam dar-se ao luxo de ter uma casa dispendiosa,
construída ao longo do aterro sobre o mar. Os demais
patrícios moravam em casas menos pretensiosas,
embora muitas vezes de bom gosto — que ainda eram
projetadas para uma só família. À medida que as
pressões econômicas aumentavam, os que iam
empobrecendo tornavam-se pequenos senhorios,
dividindo suas casas em apartamentos e lojas e
vivendo dos aluguéis.
Enquanto isso, a
próspera classe média superior (comerciantes e
banqueiros) construía ou comprava suas próprias
casas, menos elegantes do que as dos patrícios, mas
com uma variedade de objetos de luxo, como retratos
de bronze e fontes de mosaicos. O problema do espaço
estava começando a tornar-se sério dentro dos
limites dos muros da cidade, e a única solução era
construir para cima, acrescentando um ou dois
andares.
A classe média
inferior e os artesãos — a plebe — moravam em casas
pequenas, ligadas a suas lojas ou perto delas. A
maior parte dos artesãos vivia em aposentos
acanhados, nos fundos, ou numa sobreloja em cima da
oficina. Quanto aos escravos, moravam em quaisquer
alojamentos que lhes fossem destinados, geralmente
nos quartos menores ou nos mais perto da cozinha.
Foram
descobertos dois prédios “plebeus” sui generis: um
verdadeiro edifício de apartamentos para famílias de
baixo rendimento, e uma casa de construção barata
para duas famílias. O prédio de apartamentos é
imponente: a fachada tem mais de 80 metros, e a
altura, no estado em que foi encontrada, é de quase
12 metros. A julgar pelos reforços nos alicerces,
pode-se acreditar que a altura era bem maior, mas os
andares superiores foram destruídos na erupção. Esse
prédio é o antepassado direto da casa de cômodos do
século XIX.
Numa cidade de
hábeis artesãos, mesmo as casas dos pobres muitas
vezes continham obras de arte. E isso não é de
surpreender. Embora possa ter sido o gosto dos
patrícios que inspirou a criação da arte, e fosse o
dinheiro patrício que a pagou, somente o longo
treinamento e habilidade dos artistas e artesãos
tornou possíveis essas obras-primas.
Muitos dos
costumes romanos ainda não foram revelados. Da
Basílica só se pode ver uma fileira de sólidas
colunas. As escavações do Fórum continuam mostrando
novas descobertas. O Teatro, embora parcialmente
saqueado, já foi totalmente desenterrado. Mas em
outros locais verdadeiros milagres foram realizados.
As casas das sucessivas escavações dominam a margem,
como no passado, com seus terraços, jardins e
pérgulas intactos. As plantas nativas de há 21
séculos foram replantadas. As alamedas por onde
outrora se exibiam os pavões estão cobertas de
cascalho, tal como antigamente. Repuxos de água
lançam-se para o alto em bacias de mármore. Pode-se
quase ter a impressão de que vai aparecer uma pessoa
em trajes romanos, que nos acenará com a mão e dirá
uma saudação amável.
~ A Marca de Uma
Cruz ~
Apesar da beleza
arquitetônica dos prédios revelados até agora, ainda
não foi descoberto um único templo em Herculano. E a
vida religiosa da cidade? Deve existir certamente um
templo a Hercules, seu protetor. Uma inscrição,
carregada pela lama, sugere a existência de um
templo à deusa oriental Cibele, cujo culto era
permitido em Roma. Na pequena casa do próspero
comerciante C. Messenius Eunomus, que aí abandonou
suas taças de prata e anéis de ouro, desencavou-se
uma estatueta de Hercules, assim como em outras
casas foram descobertas estatuetas de Júpiter,
Afrodite e Mercúrio. Ao longo da praia encontra-se a
“zona sagrada”, onde perduram algumas construções,
talvez capelas. Mas de que deuses? Não há indícios
claros.
Num apartamento
descoberto em 1939, foi encontrado um painel de
estuque numa parede. No centro havia a marca de uma
cruz de madeira aparentemente arrancada às pressas.
Encontrou-se um armário de madeira, como um pequeno
oratório, abaixo do painel. O armário tem uma
plataforma na frente, que poderia servir de
genuflexório. Muitas autoridades hoje aceitam a
autenticidade da marca como indicadora da presença
de um crucifixo cristão. O Apóstolo Paulo
desembarcou perto dali no ano 60 d.C., e tem-se
sugerido que essa célula cristã poderia estar ligada
à sua pregação. Nesse caso, seria a primeira prova
da cruz utilizada — já em 79 d.C. — como símbolo
cristão.
Ainda é cedo
para chegarmos a conclusões finais a respeito da
vida econômica da cidade. Parece que Herculano se
preocupava muito com a pesca, a julgar pelo número
de redes, anzóis e outros utensílios que foram
desenterrados. A principal atividade comercial na
cidade, fora as lojas, tabernas e mercearias (que
havia em grande número, idênticas, ou quase, dando a
impressão de uma “cadeia” de um único proprietário),
parece ter sido a dos artesanatos.
Uma coisa é
certa: nenhum povo na história da Europa era tão
asseado como os romanos, pois nenhum outro povo foi
a tais extremos em matéria de banhos coletivos. As
Termas Suburbanas de Herculano, parcialmente
descobertas, são as mais completas termas já
encontradas. Depois da queda de Roma, banhos eram
literalmente detestados no Ocidente, até aos tempos
modernos. O desprezo dos cristãos pelo corpo foi em
grande parte responsável por essa indiferença. Mas
para os romanos banhar-se era um acontecimento
social, e todo o mundo ia aos banhos diariamente.
A maioria das
termas era dotada de um ginásio, tendo um ou mais
pátios para jogos de bola. Um dos favoritos era a
pila, jogado com uma bexiga cheia de ar, muitas
vezes pintada de verde. Depois dos exercícios,
vinham o banho, massagem, o descanso no jardim e a
conversa com os amigos. Refeições ligeiras eram
servidas a quem desejasse. Podia-se ouvir a leitura
de poesias, ouvir música ou ler os últimos livros na
biblioteca das termas. Uma visita às termas era um
prazer tanto físico como estético.
A nudez era
aceita. As esculturas, as pinturas consideradas
chocantes pelos herdeiros da tradição judaico-cristã
pareciam apenas satíricas ou divertidas aos olhos
dos habitantes de Herculano. Seu ponto de vista era
o do bem-humorado naturalismo. Todas as loucuras e
fraquezas sexuais da humanidade eram refletidas nos
próprios deuses, e suas histórias narradas
graficamente em centenas de desenhos e estátuas.
(Hoje as peças mais eróticas encontradas em
Herculano, estão separadas numa “sala secreta” do
Museu Nacional de Nápoles, fora do alcance do
público, mas não dos especialistas e estudiosos.)
Os grafites
existem desde a mais remota antiguidade, e os muros
de Herculano, como todos os lugares públicos, tinham
seus escrevinhadores (grafiteiros, pichadores). Num
muro da cidade há uma anotação de entregas de
vinhos, com suas datas. Em outro há uma lista de
palavras a serem decoradas por algum aluno
atormentado. Em outra parte um artista amador tentou
desenhar um veado. Numa rampa que conduzia à Casa de
Telefo encontra-se a inscrição: “Portumno ama
Amphianda.” Outra, na parede diz: “Aqui ardeu o
amor.” E perto de um pequeno nicho, há 2.000 anos,
uma moça escreveu: “Jacinto esteve aqui. Sua
Virgínia o saúda.” E na sala de espera das mulheres
nas Termas Públicas encontrou-se o alfabeto latino
até a letra Q. Teria sido nessa letra que se
deu a erupção do Vesúvio?
~ O Tempo Parou
~
Quantas outras
atividades teriam sido interrompidas naquele
momento? Mais espantoso, depois de 19 séculos, é o
testemunho de um pedaço de pão sobre uma mesa numa
casa — um pedaço de pão partido por alguém que
apenas começava a almoçar quando se deu a erupção.
Fundido ao pão pela lava vulcânica, e carbonizado
(como o pão), está um pedaço da toalha da mesa. Por
toda a cidade, o almoço continua a esperar sobre as
mesas, o caixote de cristais finos perto do Fórum
continua parcialmente cheio, e o candelabro e o
Dionísio de bronze ainda esperam seus consertos no
latoeiro.
Na padaria de
Sextus Patulcus Felix foram encontradas 25 formas de
assar, de bronze, de vários tamanhos, penduradas nas
paredes ou nos fornos. Do lado de fora encontram-se
os ossos dos burros, ainda atrelados à mó. Na loja
de um comerciante de tecidos, restos de fazendas;
redes de pescar em outra loja. Uma corda,
ligeiramente chamuscada, continua amarrada na
carretilha de um poço. Por toda a parte há
tachinhas, que ainda podem ser usadas.
Na oficina do
lapidador o esqueleto do adolescente repousa sobre o
leito ricamente trabalhado. Perto dele estão os
restos do frango preparado para o seu almoço. Por
que o menino foi deixado para trás? Seria
paralítico? Estariam seus pais ausentes, e a mulher
que tecia junto dele seria velha demais para poder
carregá-lo? Enquanto a lama subia, ele deve ter
esperado, aflito, pelo socorro que não veio.
No local de
reuniões do Collegium, deitado no pequeno quarto com
a janela de grades, está o esqueleto do homem que se
havia atirado de bruços sobre a cama de madeira,
para se defender contra os gases vulcânicos, ou
talvez, em desespero, para aguardar a subida final
da lama.
Quem seria?
Parece evidente que ele não pôde escapar, e que
ninguém abriu a porta. Talvez um prisioneiro
político, importante demais para ocupar uma prisão
comum, mas vigiado por membros de sua própria
classe? Algum dia uma referência fortuita na
literatura poderá fornecer a chave desse estranho
pequeno quarto e seu ocupante desesperado.
Outra referência
poderia esclarecer o mistério do berço que contém os
ossos de um bebê. Parece incrível que um bebê fosse
abandonado no meio daquela lama!
~ Epílogo ~
Existem, sem
dúvida, outras padarias como a de Sextus Patulcus
Felix e outras tantas vilas como a Casa de Telefo e
a Vila dos Papiros. Futuras escavações revelarão
outros anfiteatros? Templos? Bibliotecas? Outros
mercados cobertos?
A revelação de
Pompéia e Herculano, uma das mais ricas de todas as
descobertas arqueológicas, ainda tem muito que
mostrar. Seu progresso interessa não só à Itália,
mas a todas as nações que compartilham a herança
comum da cultura greco-romana. Tanto quanto se sabe
hoje, em nenhum lugar do mundo existe cápsula de
tempo semelhante à espera de ser totalmente aberta.


O litoral, antes e depois da erupção

~ Arnaldo Poesia ~
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Bibliografia: Herculaneum, Italy's Buried
Treasure, Joseph Jay Deiss, USA, 1966 – The Letters of the Younger Pliny, Penguin
Classics, USA, 2003.
Não deixe de ver:
Pompéia, 79 d.C.
Grafites revelam como amavam os habitantes de Pompéia
Vulcões: A Fúria Adormecida
Ótima página sobre Pompéia e Herculano (em italiano)
Projeto europeu 'ressuscita' sítios arqueológicos

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