O Longo Sono de
Pompéia e Herculano

Soterradas em lama vulcânica há quase 2.000 anos,
estas antigas cidades de veraneio romanas à beira do
Golfo de Nápoles emergiram como uma das mais
ricas descobertas arqueológicas de todos os tempos.


Ao alvorecer do dia 24 de agosto de 79 d.C. ninguém nas pequenas cidades de Pompéia e Herculano poderia adivinhar que a manhã cálida e luminosa nasceria morta. O Golfo de Nápoles estava azul e liso como um espelho. No monte chamado Vesúvio verdejavam vinhas e olivais. Não havia uma nuvem no céu.

É bem verdade que desde alguns dias se vinham sentindo ligeiros tremores de terra nas vizinhanças. A cidade de Pompéia, a 11 quilômetros de distância, em outro flanco do Vesúvio, sentira os abalos; e a grande cidade de Neapolis (Nápoles), mais longe da montanha, provavelmente os sentira também. Tais tremores não eram raros, e podiam tornar-se violentos. Mas nunca, que alguém se lembrasse, saíra uma sombra de fumaça sequer do cone arborizado da montanha.

Naquela manhã Herculano tinha um clima de feriado. Havia festejos em homenagem ao Imperador Augusto — falecido havia muito tempo — e realizavam-se jogos atléticos na Palaestra. À tarde seria representado um ciclo de peças no teatro. A Basílica estava vazia porque os tribunais estavam fechados, devido ao feriado, mas o Fórum estava cheio de gente — veranistas que visitavam a cidade.

Passavam senhoras em liteiras carregadas por escravos ou a pé, protegidas do sol por sombrinhas que suas criadas seguravam. Fora de todas as principais portas da cidade havia filas de vendedores, apregoando melões e uvas, amuletos de coral (que se supunham darem potência), enfeites de vidro baratos, pavios de enxofre, imagens votivas, chapéus de palha e dezenas de outros artigos. Havia ainda habituais malabaristas, acrobatas, cartomantes e músicos de rua.

Pelo fim da manhã o calor aumentou. Embora agosto fosse um mês de paisagens ressequidas, estradas poeirentas e nenhuma chuva, nos jardins e pátios de Pompéia e Herculano as fontes de bronze e de mármore murmuravam entre as palmeiras e loendros em flor. Havia bastante água, trazida das montanhas por aqueduto. Nas esquinas das ruas, as fontes públicas jorravam sem cessar, e as mulheres pobres carregavam água em cântaros ao ombro ou à cabeça.

Na padaria de Sextus Patulcus Felix, o padeiro e seus ajudantes preparavam-se para tirar do forno as formas de bronze com bolos e tortas. Não longe dali, em outra padaria, cuja especialidade era exclusivamente pão, dois burrinhos andavam em círculo, interminavelmente, girando uma mó de pedra para moer farinha. Abanavam o rabo e as orelhas para espantar as moscas, e de vez em quando zurravam num protesto paciente contra os arreios.

Acabara de abrir a seção masculina das Termas Públicas, perto do centro da cidade. Empregados ajudavam os primeiros fregueses a se despirem. Alguns homens revolviam as brasas com um grande atiçador de ferro enquanto aqueciam a caldeira. Nas Termas Suburbanas, perto da marinha, um grupo de jovens aristocratas nus, muito animados, ria-se dos mais recentes desenhos eróticos numa parede pintada de branco. E, por toda a cidade, garotos chamados Marcus, Rufus, Sabius, Manius e Florius rabiscavam em outros muros.

- Oficina do latoeiro

Na oficina do latoeiro, junto do Fórum, um candelabro de bronze e uma pequena estátua de Dionísio, deus do vinho, aguardavam conserto. O latoeiro colocou-os, provisoriamente, perto de uns lingotes de metal junto da forja. No local de reunião do Collegium — grupo de pessoas dedicadas ao culto do deificado Imperador Augusto e seus sucessores — numa pequena cela trancada, com uma janela de grades, um homem desesperado atirou-se sobre uma cama.

Nas ruas todas as tabernas acabavam de abrir e vendiam pão, queijos, vinho, nozes, figos e pratos quentes. Lojas de cereais e verduras, fazenda e artigos de pesca, estavam abertas havia horas. Na oficina do lapidador, um menino doente estava deitado numa cama elegantemente trabalhada. Um frango fora preparado para o almoço, na esperança de desperta-lhe o apetite. Perto dali, uma mulher trabalhava num tear.

Em todas as pequenas oficinas, os mosaicistas, tintureiros, marceneiros, marmoristas e pintores trabalhavam em seus ofícios. A atividade matinal chegara ao máximo. Um agrimensor estava ocupado com seu compasso e triangulações. Na marinha pescadores consertavam suas redes. Uma mulher que costurava largou o dedal na sua cesta. Um bebê num berço de madeira arrulhava satisfeito.

As provas atléticas matutinas na Palaestra estavam terminando. Os meninos que tinham vencido o arremesso de pedras, despidos e queimados pelo sol, preparavam-se para receber suas coroas de oliveira. Autoridades, convidados e admiradores sentavam-se numa galeria coberta, no lado norte, protegidos do sol abrasador, e aplaudiam os vencedores.

Nas residências patrícias que dominavam a beira do mar, as criadas preparavam as suas patroas. Nas salas de refeições de verão, ensombradas e aninhadas entre jardins suspensos ou pátios cheios de fontes, as mesas estavam sendo postas para o almoço ligeiro preferido pelos romanos. Numa das casas, o almoço tinha sido apressado — um dos participantes já tinha na boca o primeiro bocado.

Perto do Fórum, acabava de chegar um carregamento de cristais lindamente desenhados, que certamente seriam objeto de admiração no próximo jantar. Os proprietários estavam tão ansiosos por ver seu novo tesouro, que esqueceram o almoço temporariamente, e um empregado recebeu ordens de abrir imediatamente o caixote cuidadosamente embalado. Foi tirada a primeira camada de palha.

De repente, um som violento e estrepitoso fendeu os ares. O solo rompeu-se e estremeceu, e terríveis mugidos, como de touros, pareciam sair diretamente de dentro da terra. A luz do Sol, de amarela, transformou-se num súbito nevoeiro cor de bronze. Acres emanações sulfurosas sufocavam as narinas. Da montanha, uma nuvem gigantesca, com forma de cogumelo, elevou-se no céu.

As pessoas começaram a gritar que o Vesúvio tinha explodido. Todos os que puderam largaram tudo e correram para a rua como loucos. Era a sétima hora, hora de Roma. Começara o sepultamento de uma cidade.

~ Uma Terrível Nuvem Negra ~

Para aproveitar a paisagem, Herculano fora construída num promontório entre dois rios que desciam o Vesúvio. Quando toda a parte superior da montanha explodiu, o vapor liberado misturou-se com cinzas, lava e terra, formando uma substância viscosa que seguiu o caminho de menor resistência pelos leitos desgastados dos rios — até que a própria Herculano se tornou uma ilha num mar de lama ardente. Rapidamente a lama subiu, engolfando a cidade até uma profundidade de 12 a 18 metros. Ao mesmo tempo, Pompéia, mais ao sul, tinha destino igualmente dramático e horrível — embora a chuva de lava e cinzas que recebeu a soterrasse apenas a uma profundidade de sete metros, deixando um vago contorno.

Levando em conta a natureza extraordinária da catástrofe, é estranho que tão poucos relatos escritos tenham chegado até nós. A única descrição de uma testemunha ocular de que dispomos é a de Plínio, o Jovem, cujo tio, Plínio, o Antigo, era comandante da frota romana em Miseno, base estratégica no Golfo de Nápoles. “No nono dia antes das Calendas de setembro, por volta da sétima hora”, escreve o jovem Plínio, “minha mãe informou meu tio de que uma nuvem de dimensões e aparência extraordinárias fora vista... era como uma árvore — o pinheiro umbelado daria uma boa idéia dela. Como um imenso tronco de árvore, foi projetada no ar, abrindo-se em galhos. Creio que foi levada para o alto por uma rajada violenta, e depois largada quando a rajada fraquejou; ou, vergada sob o próprio peso, espalhou-se aos quatro ventos — ora branca, ora negra e matizada, dependendo se carregava cinzas ou brasas.”

Plínio, o Jovem, passa então a narrar a extraordinária viagem de socorro de seu tio pelo litoral de Miseno, numa tentativa vã de resgatar sobreviventes. “As cinzas caíam, quentes e espessas, sobre os navios. Enquanto isso, do Monte Vesúvio, grandes lençóis de chamas e enormes incêndios surgiam cada vez em mais lugares, e seu brilho e clarão contrastavam com a escuridão da noite.” A missão foi um fracasso, e o próprio Plínio, o Antigo, sucumbiu ao calor intenso. “Acredito que foi sufocado pelos vapores densos”, diz seu sobrinho. “Quando o dia amanheceu, seu corpo foi encontrado intacto, sem um ferimento e vestido como em vida.”

Descrevendo sua própria fuga — com sua mãe — pela estrada de Nápoles, apinhada de gente que fugia, o jovem Plínio escreve: “Embora nossos carros estivessem em terreno liso, eram jogados para todos os lados e, mesmo depois que os lastreamos com pedras, não conseguíamos firmá-los. O mar parecia ter encolhido, como que sugado pelos tremores da terra. Atrás de nós pairava uma terrível nuvem negra, rasgada por clarões repentinos de fogo, contorcendo-se como uma serpente e revelando lampejos maiores do que relâmpagos. Não tardou que fôssemos envolvidos por uma escuridão semelhante à de um quarto trancado. Só se ouviam os gritos estridentes das mulheres, o choro das crianças e os gritos dos homens. A escuridão acabou cedendo, e finalmente surgiram a verdadeira luz do dia e um sol pálido. Diante de nossos olhos aterrorizados, tudo parecia mudado — tudo coberto por uma espessa camada de cinzas como uma grande nevada.”

~ Cidade Condenada ~

O jovem Plínio teve sorte de estar tão longe do centro da erupção, pois as cinzas e as pedras que caíram sobre Pompéia estavam quase incandescentes, queimando e sepultando tudo o que tocavam. (Os escavadores em Pompéia conseguiram fazer moldes de gente surpreendida no momento de sua morte: um homem sentado num canto, com as mãos tapando o nariz e a boca; um pai tentando arrastar-se até seus filhos.) Os habitantes de Herculano tiveram melhores oportunidades de fuga. Poucos foram apanhados, e a lama escaldante destruiu-lhes a carne, deixando apenas os esqueletos. Como prédios não foram demolidos, os corpos não foram esmagados. A população provavelmente fugiu como estava — os que estavam nas termas, sem roupas; os atores no Teatro nas roupas que usavam no ensaio. Não houve tempo para salvar nem mesmo os objetos mais preciosos: jóias, moedas, pratas, documentos legais — tudo foi abandonado. Aqueles que ainda se demoraram depois que a lama alcançou o nível das pontes sobre as correntes, ficaram.

Aparentemente, variava muito a força da lava lamacenta em ascensão. Em alguns pontos, sua pressão derrubou paredes e colunas, destruiu móveis e carregou estátuas; em outros, subiu tão suavemente que se espalhou sobre ovos sem quebrá-los e encheu os aposentos sem mexer na posição das panelas num fogão ou de um berço num quarto de criança.

A terrível notícia da catástrofe foi enviada a Roma pelas torres de sinalização. Na mais eficiente maneira romana, a região de Nápoles foi declarada zona de calamidade — pois Pompéia e Herculano não foram as únicas cidades destruídas. O Imperador Tito prestou auxílio de emergência, despendendo não só fundos do Estado, mas também seus recursos particulares. A magnitude da catástrofe pode ser avaliada por um decreto do Senado pelo qual os bens das famílias extintas seriam distribuídos entre os sobreviventes. Mas não havia auxílio algum que pudesse compensar perda tão total. Algumas pessoas voltaram, escavaram mutuamente, depois desistiram, indo para outros lugares.


Possível rota de Plínio

~ O Longo Sono ~

Com o passar dos anos. As cidades mortas foram aos poucos apagadas da memória das pessoas. As encostas do Vesúvio tornaram-se verdes e foram novamente cultivadas, como se Herculano e Pompéia nunca tivessem existido.

Mas o Vesúvio não permitiu que sua natureza selvagem e imprevisível fosse esquecida. No ano 203, o vulcão entrou em erupção durante uma semana, e em 305 durante vários dias. No ano 472, teve início uma série de erupções que se prolongaram por três anos sem interrupção — erupções tão graves que as cinzas chegaram até Constantinopla. Em 512 foram registrados rios de lava, e em 536 outros sinais de atividade, enquanto a civilização romana estava sendo destruída pelas invasões bárbaras através da Itália indefesa. O vulcão entrou novamente em erupção em 1270 e 1347. Em 1631, a lava — a verdadeira lava de fogo, não a lava lamacenta — alcançou o local onde antes fora Herculano, e soterrou ainda mais profundamente várias partes da cidade já sepultada.

Somente no Renascimento, quando os italianos redescobriram sua herança greco-romana, é que foram lidos novamente antigos manuscritos e se tornou conhecida a existência das cidades soterradas. Embora sua localização precisa fosse um mistério, havia rumores insistentes sobre tesouros ocultos na base do Vesúvio.

O longo sono de Pompéia e Herculano só foi perturbado em 1709 — e, assim mesmo, por inteiro acaso. Na cidade de Resina, que se desenvolvera em uma confusão desordenada sobre o local do soterramento, havia um mosteiro. Ao cavar um poço para os monges, um operário encontrou uma fileira de cadeiras da galeria do Teatro de Herculano. Encontrou pedaços de mármore belíssimo e raro. Um príncipe austríaco, oficial do Exército Austríaco, que naquela época ocupava a Itália, deu ordem para serem perfurados túneis de exploração. Seu interesse, porém, não era arqueológico: o que desejava era saquear o local e retirar de lá o mármore, que pretendia usar numa vila que estava construindo. O príncipe nunca compreendeu a natureza de sua descoberta, nunca percebeu que ali estava algo único na história do mundo: uma cidade antiga absolutamente intacta.

Somente em 1738 o Teatro foi identificado como tal, e, pouco depois, revelava-se a própria cidade. Durante as explorações, reiniciadas por ordem do rei de Nápoles e da Sicília, o futuro Carlos III de Espanha (Nessa altura os austríacos já tinham sido expulsos de Nápoles e da Sicília), foi encontrada uma inscrição que estabelecia, sem sombra de dúvidas, que se tratava de Herculano.

Os túneis existentes foram aumentados, e iniciaram-se outros em todas as direções. Daquele ativo formigueiro surgiram novas descobertas de aparência dramática e de grande valor. Mas o engenheiro militar espanhol encarregado da exploração, ansioso por descobertas espetaculares, cometeu erros como, por exemplo, a de remover letras de bronze sem primeiro copiar as inscrições. Faziam relatórios diários e mantinham uma ata em espanhol, mas não havia um registro dos detalhes de cada descoberta — posição, relação com outros objetos, etc. Os planos feitos eram os mais vagos possíveis, e a escavação por esses métodos toscos fazia-se por toda a cidade — nas ruas, sobre os telhados, através dos afrescos, mosaicos, portas de madeira, criptas — solapando, quebrando, arrancando, deixando ruínas quase totais. Por fim, o engenheiro persuadiu o filho de Carlos, Fernando, que assumira a coroa de Nápoles, a transferir as escavações para um lugar mais promissor — que foi Pompéia, onde foram feitas descobertas que tiveram profunda influência sobre a cultura ocidental.

Durante o século seguinte, foram realizadas outras explorações em Herculano e Pompéia por vários regimes políticos — e abandonadas. Em 1869, durante o reinado de Vítor Emanuel da Itália, as escavações foram reiniciadas, mas quando as buscas se aproximaram do emaranhado de casas da moderna cidade de Resina, surgiu uma nova dificuldade: a enérgica oposição dos senhorios. Estes não estavam interessados no desenvolvimento da cultura por meio da Arqueologia. Preferiam as favelas abarrotadas do presente às vilas vazias do passado. Em 1875 provocaram uma paralisação nos trabalhos. Parecia que as duas cidades estavam destinadas a ficar soterradas para sempre.

A despeito dos esforços no sentido de revitalizar o projeto das cidades num plano internacional, no fim do século, os trabalhos só recomeçaram em 1927. O Governo Italiano decidiu programar as escavações num ritmo constante, e começou finalmente o processo lento e laborioso de devolver intactas à luz do dia as ruas e casas de Pompéia e Herculano.

~ Ressurreição ~

Para enfrentar o desafio da lama solidificada, foi necessário usar, além das tradicionais pás e picaretas, perfuradores de ar comprimido, serras elétricas, tratores, bem como instrumentos complexos como o clinômetro, para medir as inclinações e a bússola prismática, para orientação. Foram usadas chapas de zinco e lápis de hidróxido de sódio para a eletrólise das moedas, e Amedeo Maiuri, novo diretor do programa, teve um cuidado e com uma paciência infinitos, contratando somente escavadores hábeis e conscienciosos.

Como a maioria dos arqueólogos modernos, Maiuri achava que todos os objetos deviam, se possível ser deixados em seus lugares. Um cidadão de Herculano, se pudéssemos imaginá-lo voltando depois de quase 2.000 anos, devia poder entrar em sua casa e encontrá-la quase como a deixara — com todos os objetos familiares em seus lugares. E foi isso que se fez, em muitos casos. Os afrescos foram deixados nas paredes, as estátuas nos jardins, as mobílias onde estavam, os cereais nos tonéis de depósito, os pães nas formas. Quando houve alguma restauração, foi claramente indicada.

Onde houve sérios danos causados pelos escavadores que abriram os túneis, não foi possível essa reconstituição, de modo que as ruínas foram deixadas como ruínas. É uma trágica ironia que a lama sufocante tenha causado menos estragos a Herculano do que os seus primeiros escavadores. Do ponto de vista da arqueologia científica, foi uma sorte aquelas primeiras tentativas terem tido tão pouco êxito.

Pouco se sabe ainda a respeito da cidade como entidade, mas já se delinearam algumas características. É evidente que a planta da cidade, com uma série ordenada de quarteirões retangulares, cujos lados mais curtos dão para o litoral, é semelhante à planta da antiga Nápoles. É, portanto, grega em concepção e execução, diferente de Pompéia com seus muros sinuosos e uma parte antiga de ruas emaranhadas. Tampouco encontramos em Herculano as pedras que vemos nas ruas de Pompéia, para os pedestres pisarem sem molharem os pés, embora ambas as cidades tivessem um excelente sistema de drenagem.

Embora o abastecimento de água de Herculano se baseasse nos aquedutos que desciam das montanhas, continuavam em uso muitos poços e cisternas particulares. (Na residência de um patrício foi encontrado um engenhoso sistema hidráulico, usado para abastecer de água a casa, as fontes e os lagos.) A pressão para o sistema municipal era mantida por uma torre de água, incluindo um sistema de filtragem.

A lama, embora inundasse a cidade numa temperatura escaldante, teve uma função útil: a madeira, ainda que carbonizada, em muitos casos, não foi destruída. Portas de dois batentes continuam oscilando em seus gonzos originais; grades de dobrar ainda podem ser dobradas. Até mesmo andaimes “temporários”, que sustentavam um teto vergado, foram conservados. Vigas, peitorais de janela, portas, venezianas e escadas de madeira continuam em seus lugares originais.

Graças às matizes de lama, podemos até tocar a mesma mobília usada pelos antigos habitantes de Herculano. Como a Itália era, e ainda é, um país de mármore, e como há muitos vestígios de mesas e bancos dessa pedra, pode-se deduzir que os móveis de madeira eram considerados objetos de luxo. A literatura romana registra alguns dos preços extravagantes pagos por elegantes e ornamentadas mesas de madeiras raras, consideradas uma indicação de prestígio. (Cícero pagou 500.000 sestércios por uma mesa.)

Foram encontrados muitos pequenos objetos — alguns de natureza muito frágil. Vemos, por exemplo, os puxadores de uma cômoda, exatamente iguais aos que usamos hoje. Também como os nossos são as tenazes, as tigelas, conchas, jarros de vidro, fivelas de cinto, botões, campainhas, as fechaduras e chaves, as contas, o grão-de-bico e o alho. Os frascos de perfume são um pouco diferentes. Agulhas de costura eram de bronze, e não de aço. As fichas de gamão, pretas e brancas, eram um pouco diferentes das nossas, mas os dados são exatamente iguais. Havia sandálias protetoras para os cascos dos cavalos (os cavalos romanos não eram ferrados), tecidas de corda, como as modernas sandálias de praia. No balcão de uma taberna estão expostas as nozes primitivas. Depois de quase 19 séculos, até o miolo das nozes está conservado.

~ Um Modo de Vida ~

Chegando por mar a Herculano naquela manhã fatal de agosto, teríamos visto sobre os paredões que davam para beira-mar uma fila de magníficas residências patrícias, todas com terraços, galerias, jardins suspensos, fontes e pérgulas. Geralmente as colunas de seus pórticos eram pintadas de vermelho, a cor viva hoje chamada vermelho de Pompéia. Seus telhados eram de uma terracota amarela e os mosaicos de um azul e ouro brilhantes. Eram casas luxuosas e elegantes, perfeitas, projetadas para a beira-mar e os cálidos dias de verão.

Para termos uma idéia do luxo dessas casas, basta visitar a sala de estar do estabelecimento hoje conhecido como “Casa de Telefo”. A sala tem cerca de sete metros de largura por nove de comprimento, e as paredes são de painéis horizontais e verticais de mármores raros (africanos, roxo, cipolino, negro, verde rajado), separados por esguias meias-colunas acaneladas em espiral, com delicados capitéis coríntios. As cores se fundem e harmonizavam, criando um ambiente digno de um palácio de imperador. Outro prédio patrício, a “Vila dos Papiros”, rodeada de jardins, repuxos, ciprestes e palmeiras, estendia-se sobre a cerca de 250 metros num aterro sobre o Golfo de Nápoles. Foi nessa casa que se encontrou a mais admirável coleção de esculturas de bronze antigas da História — num total de 63.

Mas nem todos os patrícios romanos eram ricos. Na época da erupção do Vesúvio, a estrutura da classe superior de Roma se tornara rigidamente estratificada, com base na fortuna. Para ser ou se tornar membro da Ordem Senatorial — que era o máximo — a lei exigia a posse de um mínimo 1.000.000 de sestércios. Para ser ou se tornar membro da Ordem Eqüestre — a segunda em importância para os patrícios — era exigida por lei a posse de um mínimo de 400.000 sestércios. Essas cifras são significativas quando consideramos que, no tempo de Nero, uma capa de boa qualidade custava 98 sestércios.

A história da decadência de alguns dos elementos da antiga aristocracia e da ascensão da nova classe comercial pode ser lida nas casas de Herculano. Só uns poucos podiam dar-se ao luxo de ter uma casa dispendiosa, construída ao longo do aterro sobre o mar. Os demais patrícios moravam em casas menos pretensiosas, embora muitas vezes de bom gosto — que ainda eram projetadas para uma só família. À medida que as pressões econômicas aumentavam, os que iam empobrecendo tornavam-se pequenos senhorios, dividindo suas casas em apartamentos e lojas e vivendo dos aluguéis.

Enquanto isso, a próspera classe média superior (comerciantes e banqueiros) construía ou comprava suas próprias casas, menos elegantes do que as dos patrícios, mas com uma variedade de objetos de luxo, como retratos de bronze e fontes de mosaicos. O problema do espaço estava começando a tornar-se sério dentro dos limites dos muros da cidade, e a única solução era construir para cima, acrescentando um ou dois andares.

A classe média inferior e os artesãos — a plebe — moravam em casas pequenas, ligadas a suas lojas ou perto delas. A maior parte dos artesãos vivia em aposentos acanhados, nos fundos, ou numa sobreloja em cima da oficina. Quanto aos escravos, moravam em quaisquer alojamentos que lhes fossem destinados, geralmente nos quartos menores ou nos mais perto da cozinha.

Foram descobertos dois prédios “plebeus” sui generis: um verdadeiro edifício de apartamentos para famílias de baixo rendimento, e uma casa de construção barata para duas famílias. O prédio de apartamentos é imponente: a fachada tem mais de 80 metros, e a altura, no estado em que foi encontrada, é de quase 12 metros. A julgar pelos reforços nos alicerces, pode-se acreditar que a altura era bem maior, mas os andares superiores foram destruídos na erupção. Esse prédio é o antepassado direto da casa de cômodos do século XIX.

Numa cidade de hábeis artesãos, mesmo as casas dos pobres muitas vezes continham obras de arte. E isso não é de surpreender. Embora possa ter sido o gosto dos patrícios que inspirou a criação da arte, e fosse o dinheiro patrício que a pagou, somente o longo treinamento e habilidade dos artistas e artesãos tornou possíveis essas obras-primas.

Muitos dos costumes romanos ainda não foram revelados. Da Basílica só se pode ver uma fileira de sólidas colunas. As escavações do Fórum continuam mostrando novas descobertas. O Teatro, embora parcialmente saqueado, já foi totalmente desenterrado. Mas em outros locais verdadeiros milagres foram realizados. As casas das sucessivas escavações dominam a margem, como no passado, com seus terraços, jardins e pérgulas intactos. As plantas nativas de há 21 séculos foram replantadas. As alamedas por onde outrora se exibiam os pavões estão cobertas de cascalho, tal como antigamente. Repuxos de água lançam-se para o alto em bacias de mármore. Pode-se quase ter a impressão de que vai aparecer uma pessoa em trajes romanos, que nos acenará com a mão e dirá uma saudação amável.

~ A Marca de Uma Cruz ~

Apesar da beleza arquitetônica dos prédios revelados até agora, ainda não foi descoberto um único templo em Herculano. E a vida religiosa da cidade? Deve existir certamente um templo a Hercules, seu protetor. Uma inscrição, carregada pela lama, sugere a existência de um templo à deusa oriental Cibele, cujo culto era permitido em Roma. Na pequena casa do próspero comerciante C. Messenius Eunomus, que aí abandonou suas taças de prata e anéis de ouro, desencavou-se uma estatueta de Hercules, assim como em outras casas foram descobertas estatuetas de Júpiter, Afrodite e Mercúrio. Ao longo da praia encontra-se a “zona sagrada”, onde perduram algumas construções, talvez capelas. Mas de que deuses? Não há indícios claros.

Num apartamento descoberto em 1939, foi encontrado um painel de estuque numa parede. No centro havia a marca de uma cruz de madeira aparentemente arrancada às pressas. Encontrou-se um armário de madeira, como um pequeno oratório, abaixo do painel. O armário tem uma plataforma na frente, que poderia servir de genuflexório. Muitas autoridades hoje aceitam a autenticidade da marca como indicadora da presença de um crucifixo cristão. O Apóstolo Paulo desembarcou perto dali no ano 60 d.C., e tem-se sugerido que essa célula cristã poderia estar ligada à sua pregação. Nesse caso, seria a primeira prova da cruz utilizada — já em 79 d.C. — como símbolo cristão.

Ainda é cedo para chegarmos a conclusões finais a respeito da vida econômica da cidade. Parece que Herculano se preocupava muito com a pesca, a julgar pelo número de redes, anzóis e outros utensílios que foram desenterrados. A principal atividade comercial na cidade, fora as lojas, tabernas e mercearias (que havia em grande número, idênticas, ou quase, dando a impressão de uma “cadeia” de um único proprietário), parece ter sido a dos artesanatos.

Uma coisa é certa: nenhum povo na história da Europa era tão asseado como os romanos, pois nenhum outro povo foi a tais extremos em matéria de banhos coletivos. As Termas Suburbanas de Herculano, parcialmente descobertas, são as mais completas termas já encontradas. Depois da queda de Roma, banhos eram literalmente detestados no Ocidente, até aos tempos modernos. O desprezo dos cristãos pelo corpo foi em grande parte responsável por essa indiferença. Mas para os romanos banhar-se era um acontecimento social, e todo o mundo ia aos banhos diariamente.

A maioria das termas era dotada de um ginásio, tendo um ou mais pátios para jogos de bola. Um dos favoritos era a pila, jogado com uma bexiga cheia de ar, muitas vezes pintada de verde. Depois dos exercícios, vinham o banho, massagem, o descanso no jardim e a conversa com os amigos. Refeições ligeiras eram servidas a quem desejasse. Podia-se ouvir a leitura de poesias, ouvir música ou ler os últimos livros na biblioteca das termas. Uma visita às termas era um prazer tanto físico como estético.

A nudez era aceita. As esculturas, as pinturas consideradas chocantes pelos herdeiros da tradição judaico-cristã pareciam apenas satíricas ou divertidas aos olhos dos habitantes de Herculano. Seu ponto de vista era o do bem-humorado naturalismo. Todas as loucuras e fraquezas sexuais da humanidade eram refletidas nos próprios deuses, e suas histórias narradas graficamente em centenas de desenhos e estátuas. (Hoje as peças mais eróticas encontradas em Herculano, estão separadas numa “sala secreta” do Museu Nacional de Nápoles, fora do alcance do público, mas não dos especialistas e estudiosos.)

Os grafites existem desde a mais remota antiguidade, e os muros de Herculano, como todos os lugares públicos, tinham seus escrevinhadores (grafiteiros, pichadores). Num muro da cidade há uma anotação de entregas de vinhos, com suas datas. Em outro há uma lista de palavras a serem decoradas por algum aluno atormentado. Em outra parte um artista amador tentou desenhar um veado. Numa rampa que conduzia à Casa de Telefo encontra-se a inscrição: “Portumno ama Amphianda.” Outra, na parede diz: “Aqui ardeu o amor.” E perto de um pequeno nicho, há 2.000 anos, uma moça escreveu: “Jacinto esteve aqui. Sua Virgínia o saúda.” E na sala de espera das mulheres nas Termas Públicas encontrou-se o alfabeto latino até a letra Q. Teria sido nessa letra que se deu a erupção do Vesúvio?

~ O Tempo Parou ~

Quantas outras atividades teriam sido interrompidas naquele momento? Mais espantoso, depois de 19 séculos, é o testemunho de um pedaço de pão sobre uma mesa numa casa — um pedaço de pão partido por alguém que apenas começava a almoçar quando se deu a erupção. Fundido ao pão pela lava vulcânica, e carbonizado (como o pão), está um pedaço da toalha da mesa. Por toda a cidade, o almoço continua a esperar sobre as mesas, o caixote de cristais finos perto do Fórum continua parcialmente cheio, e o candelabro e o Dionísio de bronze ainda esperam seus consertos no latoeiro.

Na padaria de Sextus Patulcus Felix foram encontradas 25 formas de assar, de bronze, de vários tamanhos, penduradas nas paredes ou nos fornos. Do lado de fora encontram-se os ossos dos burros, ainda atrelados à mó. Na loja de um comerciante de tecidos, restos de fazendas; redes de pescar em outra loja. Uma corda, ligeiramente chamuscada, continua amarrada na carretilha de um poço. Por toda a parte há tachinhas, que ainda podem ser usadas.

Na oficina do lapidador o esqueleto do adolescente repousa sobre o leito ricamente trabalhado. Perto dele estão os restos do frango preparado para o seu almoço. Por que o menino foi deixado para trás? Seria paralítico? Estariam seus pais ausentes, e a mulher que tecia junto dele seria velha demais para poder carregá-lo? Enquanto a lama subia, ele deve ter esperado, aflito, pelo socorro que não veio.

No local de reuniões do Collegium, deitado no pequeno quarto com a janela de grades, está o esqueleto do homem que se havia atirado de bruços sobre a cama de madeira, para se defender contra os gases vulcânicos, ou talvez, em desespero, para aguardar a subida final da lama.

Quem seria? Parece evidente que ele não pôde escapar, e que ninguém abriu a porta. Talvez um prisioneiro político, importante demais para ocupar uma prisão comum, mas vigiado por membros de sua própria classe? Algum dia uma referência fortuita na literatura poderá fornecer a chave desse estranho pequeno quarto e seu ocupante desesperado.

Outra referência poderia esclarecer o mistério do berço que contém os ossos de um bebê. Parece incrível que um bebê fosse abandonado no meio daquela lama!

~ Epílogo ~

Existem, sem dúvida, outras padarias como a de Sextus Patulcus Felix e outras tantas vilas como a Casa de Telefo e a Vila dos Papiros. Futuras escavações revelarão outros anfiteatros? Templos? Bibliotecas? Outros mercados cobertos?

A revelação de Pompéia e Herculano, uma das mais ricas de todas as descobertas arqueológicas, ainda tem muito que mostrar. Seu progresso interessa não só à Itália, mas a todas as nações que compartilham a herança comum da cultura greco-romana. Tanto quanto se sabe hoje, em nenhum lugar do mundo existe cápsula de tempo semelhante à espera de ser totalmente aberta.


O litoral, antes e depois da erupção

~ Arnaldo Poesia ~

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Bibliografia: Herculaneum, Italy's Buried Treasure, Joseph Jay Deiss, USA, 1966 – The Letters of the Younger Pliny, Penguin Classics, USA, 2003.


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