OMPÉIA: Aos XXIV dias do mês de
Augustus, Ano Primeiro do Império de Titus.
Torna-se evidente agora que o que vimos, e estamos vendo, é a maior
catástrofe na História de nosso mundo, e que os deuses fizeram cair sobre a
região de Campânia, em particular sobre a cidade de Pompéia, uma tragédia como
ninguém experimentou antes. Há três dias, o ventre da terra explodiu nas
vizinhanças, e reduziu este belo lugar a pó e cinzas, e ninguém conhecerá a
razão.
Todos sabiam, há várias gerações, que esse monte Vesúvio tinha extinguido
seus fogos, e que nenhum sinal de ira demonstrara essa terrível colina desde a
infância do mundo. As vinhas chegavam quase até o seu cume. Como se poderia
prever que apenas dois dias antes de ontem a fornalha explodiria de novo, e
destruiria Pompéia como se ela jamais houvesse existido?
De onde me encontro agora, na cordilheira acima do Sarno, nada se vê dessa
movimentada cidade mercantil de 20 mil almas, apenas um deserto cinzento, onde
o pó revoluteia. Pompéia foi sepultada pelos detritos da montanha. Em quase
todas as partes, pelo menos seis metros de entulho cobrem os tetos e os templos.
Não pode haver esperança de vermos Pompéia outra vez. Nem a História deverá
jamais lembrá-la, pois que tinha tão pouca grandeza ou majestade.
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- Corpos calcinados de pompeianos
que não conseguiram fugir do mar de fogo e lava |
Não foi fácil saber o que aconteceu. Acredita-se que pelo menos 2 mil
cidadãos pereceram em questão de uma ou duas horas. A população sobrevivente
parece ter entrado em pânico, pensando que era chegado o Dia do Juízo. E fugiu
em todas as direções, pelas margens da baía de Nápoles, isoladamente ou em
grupos de famílias. Aqueles a quem encontrei e que deram testemunho pouco
puderam dizer, salvo que há três dias seu vizinho Vesúvio explodiu e os sufocou
numa chuva mortal de pedras e gases. Os mortos estão enterrados onde caíram,
desaparecidos por toda a eternidade.
Pela maior das boas sortes, há uma testemunha ocular daquele dia, que estava
suficientemente próxima para observar o drama, mas não o bastante para ser
vulnerável, e pude extrair dela a única versão presumivelmente digna de crédito.
É Plinius Caecillius Secundus, mais conhecido como Plínio o Moço, já dono de
certa fama como repórter fiel. Ele é, evidentemente, sobrinho do famoso
naturalista e marinheiro Plínio o Velho, e nesse terrível dia estava em casa de
seu tio, em Misenum, a uns 24 quilômetros do outro lado da baía.
Segundo o jovem Plínio, parece que a explosão começou no amanhecer do 24.º
dia do mês. Houve um rumor, como um trovão distante, e o Vesúvio expeliu uma
imensa coluna de vapores negros, o cume envolto numa nuvem. Ele comparou sua
forma à de um pinheiro-sombrinha, ou mesmo à de um cogumelo, uma vez que o
tronco se esgalhava por muitos quilômetros. O sol de verão ficou tão
obscurecido, que imediatamente caiu a noite, e Plínio viu-se obrigado a escrever
suas notas à luz de lamparinas.
Ao meio-dia, já se podia compreender que aquela terrível nuvem não era
vaporosa e insubstancial, como são as nuvens, mas constituída de alguma matéria
sólida, projetada a grande altura pela força da explosão e despedaçada pelas
labaredas. Fora transportada pelo vento Noroeste até a atmosfera superior, por
um período que meu informante supôs ser de cerca de uma hora, e depois começou a
cair, e isto foi a destruição de Pompéia, e na verdade da planície do Sarno.
Primeiro despencou sobre os cidadãos uma catarata de pedra-pomes vulcânica,
cada pedaço do tamanho de uma noz de carvalho. Tão desapiedada foi essa
precipitação, que a cidade logo ficou sepultada, a uma profundidade de pelo
menos quatro metros, desaparecendo tudo, com exceção dos tetos que não cederam
imediatamente ao peso das pedras-pomes. O pior ainda estava para vir; o pó,
sendo mais leve, caiu mais lentamente, mas pouco a pouco foi descendo, e a
tremenda coberta de cinzas vulcânicas trazia consigo um denso vapor letal para a
respiração humana. Os que morreram em Pompéia foram esmagados pelas pedras ou
sufocados pelas cinzas. A escuridão reinou por dois dias. Só no terceiro dia
retornou uma espécie de granulado crepúsculo.
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- Rua de Pompéia. As casas
totalmente destruídas. |
A infelicidade se abateu sobre meu informante. Ele estava, como eu disse, em
casa de seu tio, Plínio o Velho, que entre muitas outras coisas era
Almirante-Comandante da frota romana na baía. Na tarde daquele terrível primeiro
dia do Vesúvio, Plínio I trouxe seus barcos para o porto de Pompéia, em missão
de socorro. Não pôde desembarcar, e por isso dirigiu os barcos para Stabiae,
onde havia sobreviventes. Mas não conseguiu retirar seus barcos, e como em toda
parte era cada vez maior o estrago causado pela incessante chuva de cinzas
quentes, ele e seu grupo decidiram que só estariam em segurança no descampado,
para onde fugiram, protegendo com travesseiros as cabeças. Na manhã seguinte o
tio, Plínio I, foi encontrado morto, asfixiado pela fumaça sulfurosa.
Este não era o primeiro infortúnio a se abater sobre Pompéia. Dezessete anos
antes, um terremoto abalara toda a região de Campânia, causando grande
destruição. Até na cidade de Nápoles prédios haviam sido destruídos. Pompéia
recebera o maior impacto da perturbação, e ficara seriamente arruinada. Foi no
reinado de nosso falecido Imperador Nero, que se interessou muito pelas regiões
vizinhas de seu reino e encorajou a restauração de Pompéia. Grande parte dessa
reconstrução já fora concluída, apenas para desaparecer de novo na calamidade
desta semana, e agora certamente para sempre. Escrevo isso com um peso no
coração e em lágrimas.
Tenho de explicar que era realmente ligado a esta agradável cidade, e
infelizmente não há agora como deixar de pôr o verbo no passado, tendo passado
muitos dias agradáveis na casa pompeiana de meu amigo Lucius Jucundus, perto do
Portão Stabiano. Vendo a cidade agora, da encosta sobre a planície e onde foi
outrora o porto, é realmente difícil acreditar que houvesse tal casa, onde agora
nada se pode ver, a não ser esse deserto cinzento e fumegante.
Durante dias e dias eles tinham celebrado o Banquete do Divino Augusto, em
cujo mês estamos. O dia antes do fim fora o dos festejos anuais de Vulcano.
Pompéia sem dúvida encontrou seu dia final num estado de espírito alegre. Mas,
também, era um lugar muito alegre, em geral. Hoje está mais silenciosa que sua
Rua dos Túmulos. E no entanto, há apenas alguns dias, que lugar que era .
estridente, agitado, polêmico, cheio de compras e vendas aos gritos. Quanto à
política, pareciam jamais parar. Era de pensar que havia sempre uma eleição
magisterial ou jurídica, todo o tempo, e como brigavam com palavras. Os
pompeianos eram os mais terríveis escritores de sinais que já houve; na verdade,
o artesanato da cidade era a produção de inscrições nas paredes. Há apenas dois
meses, eu estava lá — foi pouco antes da ascensão de nosso novo Imperador Tito —
mas qualquer um suporia que a única preocupação era a eleição local. Todas as
paredes estavam cobertas com propagandas e apelos: grandes cartazes
profissionais onde havia espaço, e entre eles minúsculos arranhões competitivos.
Todos terminavam com "OVF" — Oros Vos Faciatis. Seu voto!
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- Fórum de Pompéia |
Nós visitantes sempre nos perguntávamos o que tinha mais importância para os
pompeianos — as eleições ou o simples prazer físico. Proliferavam os símbolos
fálicos, esculpidos, pintados ou simplesmente erigidos aqui e ali como
monumentos, quase impossivelmente ambiciosos. Sempre se disse que esse povo
fazia um grande conceito do pênis, e longe estava de fazer segredo disso; a
grande piada era cavalheiros com órgãos tão prodigiosos, que tinham de ser
suspensos com roldanas. Não posso deixar de pensar que isso era gabolice;
contudo, a Cidade de Pompéia tinha grande fama de excessos, o que atraía muitos
cidadãos ricos de Nápoles e mesmo de Roma. Fazia-se pouco segredo sobre o fato
de que a divindade tutelar de Pompéia é, ou era, Vênus.
Eu tinha grande afeição pela cidade, mas agora que ela desapareceu para
sempre, como tem de ser, pois nenhuma mão humana poderá redimi-la desse
pavoroso sudário de pó e rocha, tenho de admitir que talvez ela tivesse pouca
memória a deixar. Era próspera e bem-intencionada, dizia-se que seus escravos
eram os mais satisfeitos e bem tratados, mas era uma cidade burguesa com um povo
burguês. Nenhum grande monumento a adornava, como é nosso costume romano, embora
seja verdade que o Anfiteatro de Pompéia pareça ser mais velho, e mesmo mais
suntuoso, que o nosso em Roma. Se isso quer dizer alguma coisa, é que Pompéia
tinha maior obsessão pelas artes e esportes dos gladiadores do que sua
importância justificava. Era uma cidade para se ganhar dinheiro, para acumular
sestércios a serem gastos com prazeres seculares, no leito ou na arena.
Tudo isso talvez explique a atração que a região exercia sobre os ricos
romanos, cujas casas de campo são inúmeras nos arredores. Em dias passados,
Marcus Cícero, o grande orador republicano romano, tinha sua vila perto daqui,
como tinham muitos de seus sucessores, todas construídas nas elevações que dão
para o mar. Poucas parecem ter escapado da coberta mortal de cinzas do Vesúvio.
A notável energia e prosperidade de Pompéia originava-se da fertilidade
realmente pródiga de seu solo, o que pode muito bem ser conseqüência da
presença do terrível vulcão, que em esquecidas gerações passadas depositou esse
rico solo sobre toda a região de Campânia. Pompéia refestelava-se em três
colheitas anuais de milho, tinha legumes em abundância, uma fábula de olivais, e
as vinhas produziam o famoso vinho a que chamavam de firmissima vina.
Havia uma vistosa indústria de tecidos, o mar
oferecia grande quantidade de peixes. Pompéia
era um local de mercados e artesãos; quase nada
lhe faltava. Tudo acabado, tudo acabado.
Deixem-me contar-lhes as origens de Pompéia, já que escrevo seu epitáfio.
Seus fundadores, dizem, foram os oscanos de Campania, um povo itálico, mas sem
dúvida bárbaro. Há mais de seis séculos, colonizadores gregos se apoderaram de
todo o golfo de Nápoles, governando-o de sua acrópole fortificada em Cumae e de
sua base naval em Misenum. Pompéia não escapou à hegemonia grega. Era aceitar o
domínio grego ou uma ocupação etrusca. Não era difícil de modo algum. Pompéia
adotou os costumes gregos, ergueu construções no estilo grego, adorou deuses
gregos, contribuiu para o comércio grego adquiriu grandes lucros com isso.
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- Casal de pompeianos |
Há quatro ou cinco séculos, toda a região foi tomada dos gregos pelos
samnitas, um povo das montanhas de Hirpania e Samnium. Pompéia foi em grande
parte reconstruída em estilo itálico, aparentemente sem muitos protestos de
alguém. Os pompeianos parecem ter aceito cada novo regime com moderação,
contanto que não interferissem com o comércio. Salve Lucrum era seu lema,
"bem-vindo o lucro", então como hoje.
Foi há menos de 160 anos que Pompéia e tudo em torno caíram sob as legiões
romanas comandadas pelo admirável ditador Lucius Sulla. Foi este o homem, como
todos sabem pelos escritos de nosso grande cronista Salústio, que ensinou os
soldados romanos "a beber, amar as mulheres, ter gosto pelas obras de arte,
saquear templos e não estabelecer distinções entre coisas sagradas e profanas".
Deve ter sido um homem como os pompeianos gostavam.
Desde então, Pompéia tornou-se colônia de Roma. Chamavam-na Colônia Cornelia
Veneria, como se dissessem: viva enquanto pode, pois estará morta durante muito
tempo.
Imaginem-na como a conheci, como não a conhecerei mais. Uma cidade compacta,
intensamente bairrista, cobrindo uns 150 acres, uma espécie de oval cercado por
três quilômetros de muros. (Desde que a conheci, as fortificações foram
desmoronando cada vez mais, pois não havia inimigos nem necessidade de defesa).
Ali, no canto Sudoeste, havia um amontoado de prédios e lojas, bairros e
escravos, tudo em torno do Fórum Triangular. Sempre nos disseram que fora ali
que Pompéia começara, mas evidentemente durante anos e anos a cidade se expandiu
muito, seguindo um curioso padrão retilíneo, ruas traçadas em ângulos retos,
estreitas alamedas cruzando as vias mais largas exatamente assim e assim, num
desenho de grande objetividade e conveniência jamais visto antes em nossa
península, segundo creio.
Que lugar, em matéria de estalagens e adegas! Que lugar, por seus barbeiros,
bordéis e as salas onde os muleiros jogavam dados interminavelmente. E, é claro,
pelas Salas Termais, que faziam Pompéia tão conhecida, com seus banhos a vapor e
piscinas, os sofás para massagens em muitas formas. Os pompeianos não eram
apenas negociantes; eram engenheiros hidráulicos fora do comum: seu sistema de
transportar a água por toda a cidade, em canos de chumbo, depois que ela chegava
pelo aqueduto do rio Abellinum, a 28 quilômetros de distância, era superior ao
de minha própria Nápoles.
Apesar do que dizem os romanos à socapa, os pompeianos longe estavam de ser
um povo pagão. Tem-se dito que eles tinham mais cultos do que deuses. Honravam o
Apolo dos gregos, compartilhando-o indiferentemente com Zeus Meilichios, Atena e
até a egípcia Ísis. Roma, evidentemente, insistia em trazer a Tríade Capitolina,
de Júpiter entre Minerva e Juno. Mas a principal, no entanto, era a deusa
tutelar, a própria Vênus. E naturalmente, uma vez que esse era um povo que
fazia vinho e vivia dele, esse velho e imortal saciador da carne, Dionísio.
Alguns o chamavam de Baco; e garanto que fazia pouca diferença.


Um rio de lava do Vesúvio

Não é adequado moralizar diante de um túmulo. Contudo, é preciso dizer que a
considerável popularidade da cidade se devia, em certo grau, a seu encorajamento
ao que só posso chamar de demandas menos espirituais dos seres humanos. Numa
palavra, julgava-se que em Pompéia se permitiam muito mais coisas que em
qualquer outra parte.
Já mencionei o grande número de tavernas, casa de vinho e locais de jogo; era
um número considerável, mas talvez não excessivo. Mas não descrevi, uma vez que
de mortuis nil nisi bonum, o que é suficientemente lisonjeiro para deixar
passar, o bairro de Pompéia atravessado pelo que viemos a conhecer como Vico
degli Schleteri, e que era dedicado aos prazeres da carne. Numa palavra, era um
bairro de bordéis, embora na verdade com alguma classe e quase, podia-se dizer,
delicadeza. Os pompeianos desfrutavam seus prazeres com elegância, para não
dizer seriamente. Eu me lembro de que, quando era um jovem rústico, fui levado
pelo pai de meu amigo Jucundus ao lupanar, o melhor bordel para cavalheiros, e
fiquei espantado com as pinturas ilustrativas nas paredes. Jamais me ocorrera
que haveria tantas variantes acrobáticas para o que eu até supunha fosse um ato
relativamente simples. Ninguém, eu garanto, poderia visitar aquele lugar
estimulante sem adquirir uma fortuna de idéias novas.
Acabado, tudo acabado!
Fui egoísta; dediquei toda a minha consideração a Pompéia, parte de minha
juventude. Talvez devesse ter mencionado a destruição de Jerusalém, por nós
mesmos, há 10 anos. Esta não foi causada pela ira dos deuses, como a de Pompéia.
E não só Pompéia; a uns 10 quilômetros de onde me encontro, fica, ou ficava, a
Cidade de Herculaneum, igualmente arrasada e morta no terrível desastre desta
semana. Mas o monstro Vesúvio agiu de modo diferente com Herculaneum. Este lugar
fica no lado ocidental do vulcão. A cidade não foi sepultada e sufocada pelas
chuvas de pedras, pó e gás; o que aconteceu foi que a massa de rochas expelida
pela terra se misturou com torrentes de chuva, e uma imensa corrente de lama
envolveu Herculaneum. Não houve saraivada de cinzas e pedra-pomes, apenas essa
terrível e lenta invasão de lama fumegante. Pompéia foi atingida por uma morte
súbita; os cidadãos de Herculaneum tiveram tempo de fugir. Gente que sabe me
disse que não mais de 50 pessoas morreram lá. Mas qualquer um pode ver que esse
terrível mar de lama que envolveu Herculaneum já está se solidificando — apenas
três dias depois, num lençol de rocha, do qual a cidade jamais será exumada.
Não tenho coragem de ir até lá; Pompéia já a esgotou.
Diz-se que nosso Imperador Titus está preocupado. O pobre homem acaba de
assumir o poder; faz um mês que ele sucedeu Vespasiano. Comenta-se que ele
mandará uma comissão de senadores até aqui, à Campania, para decidir sobre a
possibilidade de auxílio imperial. Mas nós sabemos o que resulta dessas
comissões do Governo; quando chegarem a uma decisão, Pompéia há muito estará
esquecida.
~ Arnaldo Poesia ~
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