Depois de 25 dias percorrendo a floresta
tropical da Nova Guiné, na Indonésia, um grupo de biólogos, cuja expedição
ocorreu em dezembro de 2006, anunciou uma descoberta sensacional. As montanhas
de Foja, no oeste da ilha, onde provavelmente o ser humano nunca havia pisado,
abrigam um viveiro de espécies até hoje desconhecidas pela ciência. A área é
o santuário de, no mínimo, vinte novas espécies de sapos, quatro de borboletas
e cinco de palmeiras. Os biólogos identificaram um novo tipo de beija-flor e
duas aves que se julgavam extintas, entre elas uma ave-do-paraíso com um penacho de
seis fios na cabeça. Entre os mamíferos, a surpresa foi a numerosa população
de cangurus das árvores, ameaçados de extinção em seus outros habitats
conhecidos. Os cientistas também ficaram admirados com a formidável
biodiversidade da região. "Ecossistemas como esse, cada vez mais raros,
precisam ser estudados porque são verdadeiros laboratórios da natureza", diz
o biólogo americano Bruce Beehler, o líder da equipe, que também contou com
pesquisadores australianos e indonésios.
Beehler se refere ao fato de que as
montanhas de Foja reproduzem um dos principais cenários descritos pelo
naturalista inglês Charles Darwin em sua teoria da evolução das espécies.
Com mais de 2.000 metros de altura, as encostas mais altas de Foja são
recobertas por 300.000 hectares de mata intocada pelo homem – é a maior
floresta tropical intacta da Ásia. A área funciona como uma ilha, separada
das regiões mais baixas por diferenças grandes de temperatura e umidade. As
espécies que povoam as alturas não descem a montanha e as que vivem na base
não sobem. Com isso, as que estão no topo se mantêm isoladas. Os habitantes
da área, por sua vez, limitam-se a ocupar as regiões mais baixas, próximas
ao litoral. Como ali encontram caça em abundância, jamais se aventuraram a
explorar as terras altas.
Darwin explicou que as barreiras
naturais – como cadeias montanhosas e oceanos – são fundamentais para o
surgimento de novas espécies. Intrigado com as diferenças nos cascos das
tartarugas gigantes que vivem nas diversas ilhas do Arquipélago de Galápagos,
o naturalista concluiu que todas elas eram originárias de uma única região
e, a certa altura, se espalharam pelas ilhas. Cada um desses grupos isolados
teria se adaptado gradualmente às condições locais. Muitas gerações mais
tarde, as diferenças entre os descendentes de cada grupo seriam tantas que
uma única espécie teria se subdividido em várias. Muitos biólogos acreditam
hoje que o surgimento de novas espécies não acontece apenas por meio da
adaptação contínua e gradual ao ambiente. Em alguns casos, as condições
ambientais de determinada região podem mudar abruptamente, impondo
transformações radicais às plantas e aos animais que lá vivem. "Não sabemos
exatamente que tipos de mudança afetaram as espécies das montanhas de Foja,
mas com certeza seu isolamento foi um fator determinante para que elas se
tornassem únicas na região", disse o americano Jeffrey Schwartz,
antropólogo e historiador da ciência da Universidade de Pittsburgh,
especialista em evolucionismo.
O arquipélago da Indonésia, com milhares
de ilhas, é pródigo no mecanismo de criação de novas espécies, processo que
a ciência chama de especiação. Em 2004, na Ilha de Flores, próxima à Nova
Guiné, descobriram-se os fósseis do Homo floresiensis, um hominídeo
anão, que viveu ali até 13 000 anos atrás, descendente direto do Homo
erectus. Acredita-se que o Homo erectus tenha chegado à ilha
800.000 anos antes e que, devido à limitação de alimentos e recursos do
lugar, foi diminuindo de tamanho. O mesmo teria acontecido com os elefantes
pigmeus, que também povoaram a Ilha de Flores no passado. A área das
montanhas de Foja onde os biólogos acharam um tesouro natural é tão isolada
e selvagem que só pode ser alcançada por helicóptero. A prova de que o ser
humano – o mais predador dos animais – não anda por lá é que os animais não
fugiam à aproximação dos pesquisadores. "Na maioria das florestas, todas as
espécies temem o homem porque aprenderam a fazê-lo", explica o chefe da
expedição, Bruce Beehler. "Em Foja, eles nem se importavam com a nossa
presença."
Veja outras fotos das espécies
Conservation International
Conservation International do Brasil
Fonte: Conservation International - Revista Veja - Edição 1943, 15 de fevereiro de 2006 - Jornal O Globo - Associated Press (AP) -
Agência France Press (AFP).
© Equipe Starnews 2001