Entardecer sobre o Morro do Morcego, visto do Parque da Cidade, em Niterói - Foto: © Ricardo Zerrenner


A arte da vida
Consiste em fazer da vida
Uma obra de arte.
               (Mahatma Gandhi)

~ Ramana Mohan Maharshi ~

No vale do monte sagrado de Arunachalan, no sul da Índia, Ramana Mohan Maharshi saía todas as tardes para dar um passeio pela região; momentos depois de ele transpor o portão de sua casa, o gado preso nos currais na aldeia próxima, que ficava a quase 1 quilômetro começava a ficar agitado para libertar-se. Soltos pelos donos, os animais disparavam pelo caminho para juntar-se ao Maharshi e acompanhá-lo em seu passeio, seguidos por todas as crianças e cachorros da aldeia.

Nem bem a caminhada ia longe e já animais selvagens se incorporavam a ela: havia inclusive várias espécies de cobra. Milhares de aves apareciam quase encobrindo o céu; pequeninas mejengras, milhafres e outras aves de rapina, abutres de asas majestosas, tudo isso voava em harmonia em torno do Maharshi em passeio. Quando ele voltava para casa, as aves, os animais e as crianças se dispersavam em silêncio...

Existe um Maharshi em cada um de nós. É só viver em sintonia com a natureza e com o mundo que nos cerca, e coisas maravilhosas nos acontecerão.

~ Arnaldo Poesia ~


~ A escolha é sua... ~

A verdade não conhece barreiras!

Tudo na vida, física ou não, é regido por leis universais únicas, e cada ser humano passa por experiências das quais necessita para evoluir, quer por livre-arbítrio, quer por desconhecimento. Todavia, seja por uma razão ou por outra, essas leis universais podem agir contra nós ou a nosso favor, dependendo da opção que fazemos. É possível ter uma vida próspera e feliz — basta fazer a escolha certa. Por meio de frases e pensamentos positivos.

Portanto, não existe destino imutável, mas a escolha entre viver levado pelos acontecimentos e criar um ambiente capaz de promover a felicidade e a realização. Trazemos dentro de nós as lições armazenadas por toda a Humanidade e por todos os seres que não vemos, mas que estão ao nosso redor para oferecer luz, força e solidariedade.

Todos nós conhecemos pessoas que irradiam saúde desde o nascimento e são aparentemente imunes a doenças. E sabemos de outras cuja vida é acometida por inúmeros males, que a privam, não só de prazeres, mas, também de simples bem-estar. Além disso, há homens e mulheres para os quais todo projeto se converte em realização bem sucedida. Todo empreendimento a que se lançam torna-se uma oportunidade de ouro (como se eles tivessem o toque do lendário Rei Midas). Ao seu redor, no entanto, vive e luta uma legião de seres infelizes.

O que é que torna um homem mais triunfante do que outro? Será o seu treinamento num campo especializado? Sabemos que isto não é verdade! Não podemos fazer um bom profissional de um indivíduo que só tenha aprendido a matéria estrita do seu currículo universitário.

Parece haver algum elemento desconhecido, que alguns dão a impressão de possuir ou ter descoberto.

Em sua infância, você temia coisas que mais tarde pôde considerar inofensivas e mesmo úteis.

No período em que se desenvolvia seu poder de observação, você se sentiu perplexo ante os elementos desconhecidos da vida. Pareceu-lhe mesmo que havia mais elementos desconhecidos do que conhecidos.

É sempre o desconhecido, em nossa vida diária, que nos causa preocupação, ansiedade, perplexidade, e até sofrimento. Com o passar dos anos, você se familiarizou com coisas antes desconhecidas. Hoje, você as conhece; pode percebê-las, senti-las, preparar-se para elas; este é um poder que ninguém lhe pode tirar. Mesmo agora, porém, será que você está perfeitamente preparado para enfrentar todos os obstáculos da vida, para afastá-los do seu caminho ou superá-los facilmente? Se não se sente assim, comece agora mesmo a pesquisar melhor os elementos desconhecidos da sua vida — os mistérios responsáveis pelas desigualdades entre as pessoas.

O verdadeiro conhecimento sobre alguém, por alguém, é hoje o maior poder que qualquer indivíduo pode possuir.

~ O Caminho da Vida ~

Comecemos com a nossa existência como a conhecemos. A vida é um caminho que estamos percorrendo como viajantes. Para trás ficou o nosso começo imediato: o nascimento. Uma imensurável eternidade. À nossa frente, outra eternidade, inevitável e imensurável: a morte. Um mistério que, ou infunde terror ou é aceito compreensivamente (dependendo das nossas experiências ao longo da vida). Não pedimos esta vida; mas não a poderíamos ter recusado. Como, então, reagiremos a ela? Que faremos com este período de consciência que os anos nos proporcionaram?

Muitos homens e mulheres se entregam às influências do seu ambiente. Deixam-se arrastar ou empurrar nesse caminho da vida. São como bolas de neve, rolando a uma velocidade espantosa pela encosta de uma montanha. Em dado momento, estão livres (como as aves soltas no espaço), encontrando poucos obstáculos ou nenhum, e ficam despreocupados. Depois, chocam-se com eventos ou acontecimentos imprevistos. Não conseguem evitar essas condições ou superá-las. Assim vão caminhando, anos a fio, às vezes pensando se as vicissitudes da vida, sua amargura, suas dores, valem o seu preço — os prazeres ocasionais e os momentos efêmeros de paz de espírito que lhes advêm.

~ Por que estamos aqui? ~

Certamente, você deve ter se perguntado, ao lembrar suas atividades passadas e, também, contemplar o seu futuro: “Será esta existência casual o meu destino? Por que estamos aqui?” Além disso, haverá mãe que nunca tenha contemplado o seu filho aninhado em seus braços e se perguntado: “Que será que esta vida lhe reserva?”

Não será tempo de a humanidade parar de se atirar ao desconhecido, nesta estrada da vida, esperando agarrar-se a oportunidades passageiras? Não seria a vida totalmente diferente para você, se pudesse controlar suas tendências? Se pudesse formar hábitos desejáveis e eliminar hábitos indesejáveis; se pudesse aprender a perceber nos eventos que estão ocorrendo ao seu redor as tendências do amanhã, não teria mais confiança no poder desse conhecimento? Se soubesse como desenvolver sua força de vontade o suficiente para enfrentar as exigências que lhe fossem feitas e tomar a decisão acertada, não desapareceriam muitos dos seus problemas, decorrentes de indecisão? Se você pudesse recorrer a uma fonte segura e produzir idéias úteis, construtivas e inteligentes, num momento em que um pensamento acertado, um plano exequível, representasse a diferença entre o desânimo e o sucesso, não se sentiria capaz de enfrentar qualquer circunstância? Sem dúvida, uma vida assim seria muito superior em seus benefícios.

~ Somos controlados pelo destino? ~

Não se deixe enganar por filosofias inúteis. Milhões de pessoas tentam desculpar sua vacilação ou incapacidade, durante sua vida terrena, dizendo a si mesmas e aos outros que dependem das ordens do destino. Estes fatalistas declaram que poderes infinitos predeterminaram todos os seus atos, de modo que é inútil eles tentarem interferir. Com esta crença, o fatalista nega seu próprio poder de raciocínio, sua vontade, sua possibilidade de escolher. Estas faculdades, porém, são evidências da verdadeira relação da pessoa com os poderes universais ao seu redor. O poder do pensamento e o atributo da decisão constituem um argumento contra a idéia de que somos meros joguetes, com todo ato desta vida antecipadamente decretado para nós.

É verdade que há forças universais sobre as quais não temos controle. Não podemos alterar a estrutura intrínseca do universo, nem as causas que põem suas forças em ação. Mas podemos controlar essas forças! Podemos nos harmonizar com elas e alterar ou controlar o efeito que afinal exerçam sobre nós. Podemos desfrutar de muito maior domínio sobre o nosso ambiente do que o fazemos atualmente. Podemos dispor os vários aspectos da nossa vida de maneira a usarmos as forças vitais como aliadas. Como o marinheiro que estende suas velas ao vento, como o gerador que dirige o fluxo da eletricidade, ou como a fissão nuclear é usada no aquecimento da água para obtenção de energia, podemos controlar outras forças de nossa existência. Isto não é uma questão religiosa, e sim filosófica; uma questão que diz respeito a você e à sua vida.

Sucesso na vida significa domínio, e domínio implica usarmos todos os poderes ou forças interiores do nosso ser, além das forças exteriores. A capacidade criadora da pessoa não está restrita à força muscular do seu corpo, nem à fertilidade da sua imaginação. A cada dia, a cada hora, deve ela dar expressão material à sua criação mental. Para isto, deve tornar-se capaz de usar outras faculdades, além da mera visualização. Além disso, deve usar esses poderes em conformidade com a finalidade a que eles se destinam.

~ Um esquema de vida ~

Uma vez que fazemos parte de um universo em que observamos ordem, com suas impressionantes e imutáveis leis, em cima e em baixo, então, existe também para a pessoa, como parte deste esquema cósmico, uma verdadeira finalidade da vida. Conhecendo esta finalidade, relacionando-a com a sua existência todos os dias, a pessoa descobre a si mesma. Torna-se o legítimo senhor dos seus domínios (este mundo) e coloca o sofrimento, a infelicidade e a ignorância em seus devidos lugares (longe dela própria).

Sem dúvida, você já sentiu, instintivamente, que a vida tem mais a oferecer do que já experimentou. Há um verdadeiro esquema de vida. Mesmo mas ocorrências que nos são dolorosas fazem parte de uma cadeia de causas que podem ser úteis se as compreendemos. As pessoas que estão sempre sofrendo infortúnios, e cuja vida não é tão bem sucedida ou inspiradora como elas desejariam, podem usufruir de acentuadas mudanças, ao seguirem esse esquema cósmico.

Você já parou para pensar por que faz o que faz? Não será, muitas vezes, porque não tem alternativa, porque parece que não há uma coisa melhor a fazer, de modo que você joga com a possibilidade de que tudo dê certo? Milhões de pessoas, em todo o mundo civilizado contemporâneo, vivem exatamente assim, aproveitando chances cegamente; e esses mesmos milhões de pessoas com frequência se perguntam se a vida que estão vivendo realmente vale a pena.

~ Forças criadoras em seu interior ~

No âmago da pessoa, forças construtivas e criadoras estão sempre em ação, e sempre harmonizadas com as forças criadoras do Universo. Essas forças têm de reparar os danos sofridos pelo corpo, superar as tensões e pressões que se exercem contra o sistema mental, e guiar a decisão da mente humana no sentido correto. Certas vibrações harmônicas, energias etéreas, e certos poderes vitalizantes, provenientes das forças naturais que operam por todo o universo, afetam o ser humano e alteram a natureza do seu corpo físico ou exercem efeito sobre sua eficácia mental. Assim, a pessoa é um ser complexo influenciado por forças e princípios poderosos, de natureza grave ou importante.

Devemos compreender estas coisas, para que tenhamos sucesso na vida e possamos usar sabiamente nossa libertação de agir. Devemos, ou viver completamente em harmonia com as forças existentes em nós mesmos e ao nosso redor, ou estar em dissonância com elas. Não há meio-termo.

A compreensão das leis naturais, cósmicas, é o único meio de se alcançar o domínio da vida.

Encaremos os fatos. Sua vida é influenciada por muitas coisas inexplicáveis; fenômenos e acontecimentos que você às vezes não consegue explicar ou superar. Você pode chamá-las de sobrenaturais. Talvez procure afastá-las para os bastidores da sua mente. Pode até gracejar sobre elas, com os outros. No entanto, elas são muitas vezes os fatores, diretos ou indiretos, que o impedem de concretizar algum ideal, algo que você está querendo adquirir ou realizar, ou que o impedem de se libertar de preocupações e penosos esforços. Veja, por exemplo, se já teve uma das seguintes estranhas experiências. Você encontrou, pela primeira vez, pessoas agradáveis em sua aparência e em seu modo de falar; mas, sentiu imediatamente uma onda de desconfiança e aversão por essas pessoas. Por que? Isto é um efeito da aura humana, uma radiação invisível, magnética, do corpo humano, que pode ser detectada. Ela repele ou atrai, e isto é cientificamente demonstrável. Essa emanação também tem um poder místico muito prático, há séculos conhecido dos sábios e adeptos da antiguidade.

Você já entrou num ambiente que o deprimiu? Esse ambiente, talvez numa residência, num hotel, num prédio de escritórios, podia estar limpo, arrumado, e mesmo agradavelmente decorado; no entanto, enquanto você permaneceu ali, foi incapaz de trabalhar bem ou não se sentiu à vontade. Sabe que fortes explosões emocionais, como de ódio ou ciúme, podem afetar e realmente afetam substâncias materiais, de modo que todo o ambiente em que elas ocorrem se torna deprimente? Estas coisas não são superstições (não são suposições), e sim efeitos de leis naturais menos conhecidas, que se manifestam ao nosso redor. Evidentemente, compreendê-las, como as compreendem aqueles que possuem esse conhecimento esotérico, leva ao domínio dessas circunstâncias.

~ Use a sua intuição ~

Várias vezes você deve ter tido a experiência de uma impressão intuitiva, um palpite ou uma idéia luminosa, cuja origem não pôde identificar. Sabe que a intuição pode responder a quase toda pergunta, resolver muitas situações difíceis em que você se encontre? Sabe que ela pode ajudá-lo a manter sua vida em ordem? E sabe ainda que esse conhecimento é manifestação de uma inteligência cósmica, universal, presente em todo o universo e em todas as células do seu organismo, e que você pode fazer com que ela esteja a seu serviço, que você pode recorrer a ela à vontade? Enquanto milhões de pessoas confiam exclusivamente em seu intelecto e no treinamento que recebem pela instrução escolar, aqueles que conhecem a sabedoria esotérica acreditam nos pressentimentos intuitivos; não dependem somente de sua consciência exterior, mas, são capazes de se valer de outros imensos recursos de que são dotados e que existem nas forças cósmicas ao seu redor.

Afirmam os psicólogos que as pessoas usam apenas uma fração do potencial de que é dotado como seres humanos. Centenas dos chamados mistérios são leis universais compreensíveis e aplicáveis, para aqueles que alcançam o domínio desse conhecimento interior.

Entre em comunhão com aqueles que são bem sucedidos e felizes. Coopere com as leis naturais e se deleite no gozo do poder que se manifesta em seu âmago ao amanhecer de cada dia e se faz presente como hóspede invisível em seu lar, em seu escritório, e em seus locais de meditação e prazer.

A vida é aquilo que você mesmo faz que ela seja. Um plano ou esquema inteligente e bem dirigido poderá lhe proporcionar poder pessoal e sucesso.

Todo viajante inteligente sabe de onde vem e para onde vai. Nosso período de vida pode ser mais livre de obstáculos e muito mais agradável, se todos os seus aspectos e objetivos são compreendidos e bem aplicados. Considerando que os seres humanos não são fantoches do destino. O papel que cada um de nós desempenha na vida pode ser dirigido inteligentemente por nós mesmos.

Mas como podemos conseguir tudo isso? Através da comunhão com a Mente Divina. Se soubermos entrar em sintonia com o Divino, conseguiremos tudo, ou quase tudo.

~ Pausa para meditação ~

Não busques com excessiva ansiedade a graça da devoção, da sensibilidade emotiva, e das lágrimas; que a tua principal preocupação seja a de permaneceres intimamente unido a Deus pela firme resolução, na parte intelectual da Alma.

– Alberto Magno

Convence-te primeiro de que deves concentrar tua consciência na Mente Eterna, rogando-Lhe que te conceda compreensão; depois, busca diligentemente conhecer, e nunca te arrependerás de teres tomado tão louvável decisão.

– Francis Barret

Quando as múltiplas atividades misteriosas da natureza são compreendidas, podemos superar as chamadas “más influências” que obstruem o nosso caminhar na vida.

– Rev. George Banning

Não há sorte, nem destino, que possa conseguir embaraçar ou controlar, a firme resolução de uma alma determinada.

– Ella Wheeler Wilcox

O Bem sempre flui pelos canais que ele próprio selecionou.

– Saint-Martin

A ignorância é o verdadeiro pecado original. As pessoas estão moralmente falidas porque não sabem da mina de ouro que existe nelas próprias.

– J. Brierley

As Verdades Eternas são reveladas pela meditação espiritual, e tornam todas as pessoas que as recebem os Magos de sua época.

– Sir Edward Kelly

A unidade persiste, a multiplicidade muda e passa; a Luz do Céu brilha eternamente, as sombras da terra se desvanecem.

– Shelley

A verdadeira felicidade consiste não no conhecimento de boas coisas, e sim numa vida feliz; não em compreender, mas em viver compreensivamente. Também não é uma grande erudição, mas a boa vontade, que une as pessoas a Deus.

– C. Agrippa

A vida é uma missão. Qualquer outra definição de vida é falsa e desorienta aqueles que a aceitam. Religião, ciência, filosofia, embora ainda discordem em muitos pontos, concordam em que toda existência tem um objetivo.

– Mazzini

~ Arnaldo Poesia ~

Nota bibliográfica: Para escrever esse texto, usei como bibliografia as leituras de vários autores, e também a partir do momento em que passei a divisar novos ambientes que, muitas vezes, passam despercebidos pela maioria das pessoas.

A partir do momento que você descobrir algumas portas que nunca foram abertas, quando você abri-las, verá novos horizontes diante dos seus olhos e saberá que a vida não é o que você pensava antes...

© Arnaldo Poesia, Quinzaine Litteraire, Paris – Le Monde, Paris, 1995/2010.


~ O Plano de Deus ~

Copiei e traduzi esse excelente texto do Dr. Harvey Spencer Lewis, Primeiro Imperator da Amorc (Ordem Rosacruz), que foi publicado na revista "The Rosicrucian Forum", de fevereiro de 1939, cujos temas abordados continuam muito atuais desde aquela época.

~ Arnaldo Poesia ~

Harvey Spencer Lewis abre um de seus artigos interessantes com a seguinte pergunta, de uma Sóror Rosacruz dos Estados Unidos: "Qual é o plano de Deus para seus Filhos?" E ele responde:

Esta pergunta não nos surpreende. Quando lemos o nosso jornal diário nos deparamos com notícias que estarrecem a nossa imaginação pelo comportamento desumano. Quando vemos a devastação feita pelo ser humano, não podemos deixar de perguntar: será essa a vida que Deus planejou para seus filhos? Será esse o ser criado à imagem de Deus? Será que estamos mais distantes que nunca da Terra Prometida? Será a Era de Ouro, a era de paz, amor e alegria um mito, uma ilusão, um sonho?

É verdade, caros amigos, que a luta é necessária ao desenvolvimento. É verdade que devemos encarar a vida como uma gloriosa aventura. É verdade que o mal tem sua função no divino esquema das coisas. É verdade que temos de ser capazes de compreender toda a situação, de todos os ângulos ou pontos de vista possíveis, para apreender o todo harmonioso.

A vida, hoje em dia, não é como Deus quis que ela fosse. Deus não quis que um terço de uma grande nação vivesse mal nutrido, mal abrigado e mal vestido. Deus não quis que enormes somas de dinheiro fossem gastas em armamentos e recursos de destruição. Não planejou um nacionalismo tão intenso e arrogante que uma fusão natural de culturas se tornasse impossível. Estamos no mais profundo da Idade de Ferro. Há uma corrupção desenfreada nos altos escalões. O egoísmo e a indiferença entre aqueles que deveriam estar atentos a isso deram uma posição firme às forças da intolerância. As democracias do mundo revelaram sua fraqueza inerente num momento de crise e perderam sua posição de influência e poder. Bem diante de nossos olhos, uma época está chegando ao seu final. Bem diante de nossos olhos, o equilíbrio do poder está mudando. Como quer que as nações ajam, os planos de Deus não falham. Aos olhos de Deus, um milênio é como uma noite de vigília. Uma existência é apenas um dia na vida da alma. No final os homens terão de aprender a viver uns com os outros em paz e harmonia. Terão de aprender que a verdadeira liberdade e felicidade só existem na harmonia com a vontade divina, que a verdadeira auto-expressão está em cada indivíduo perceber sua própria relação filial com o Ser Divino.

O ser humano aprende tão devagar essas poucas e simples lições que nos perguntamos onde está a dificuldade. Será que os obreiros na vinha do Senhor são demasiadamente escassos? Será que as lições de amor, serviço e fraternidade, são difíceis demais para se entender? Será o ódio mais deleitoso do que o amor? Será o egoísmo mais atraente do que o serviço e a fraternidade? Serão as recompensas da retidão inferiores aos ganhos ilícitos da iniquidade? Serão o primata, o tigre e a serpente mais atraentes do que a pomba da paz?

Ora, vamos raciocinar juntos, propõe o profeta. Que é que o Senhor te pede? Apenas que faças justiça, que ames a misericórdia e que sejas humilde perante o Senhor teu Deus. "Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos, porque o meu jugo é suave.", diz o Cristo. Como é a vida que Deus quer que vivamos? Como seria o mundo se as nações obedecessem às leis de Deus e os soberanos governassem com o espírito do divino Pai?

Em primeiro lugar, a Terra seria um paraíso de amor e beleza. Para onde quer que nos voltássemos veríamos jardins e pomares, belos parques e sinuosos caminhos. Por onde quer que andássemos ouviríamos o canto dos pássaros, o borbulhar das fontes e o murmurejar dos riachos. Quando estivéssemos cansados, poderíamos sentar sob árvores frondosas. Poderíamos passar facilmente de um lugar para outro. Haveria emprego para todo mundo. Cada ser humano faria o trabalho que seu grau de evolução permitisse e que seu desenvolvimento requeresse para o desabrochar de seus talentos. O empenho de explorar os recursos do mar, da terra e do céu absorveria a maior parte da energia do ser humano.

Quando esse tempo chegar, ninguém terá de trabalhar mais que algumas horas por dia. Ninguém terá de trabalhar mais que alguns dias por semana. Haverá tempo para cada interesse que um ser humano possa ter. Haverá tempo para marido e mulher cultivarem o verdadeiro companheirismo, para pais e filhos se entenderem. Haverá tempo para muitas amizades, para o cultivo das artes e das ciências, bem como de divertimentos, para a criação de beleza, para viagens prolongadas e, acima de tudo, para o cultivo do Eu interior, das faculdades e potencialidades divinas do ser humano.

A educação será trina: ajudar a pessoa a se descobrir; ajudar a pessoa a descobrir seu lugar no mundo e ajudar a pessoa a iniciar sua jornada no caminho da iluminação. Ver o mundo será parte da educação de todo ser humano. Os navios de guerra serão convertidos em escolas flutuantes. Quando um jovem se tornar adulto conhecerá o mundo por contato direto e não por ter lido livros de geografia e de viagens e ter visto fotos dos Alpes e das florestas da África. As nações do mundo serão como instrumentos de uma orquestra universal. Cada qual tocará sua nota distintiva em sua cultura, seus costumes e suas contribuições para a civilização. Nações competirão em hospitalidade e generosidade. As portas de todas as universidades estarão abertas aos habitantes do mundo. O único requisito será a capacidade de aprender e um motivo útil para isso.

Com toda a população do mundo sendo educada e tendo acesso a viagens, com todos os lugares ermos do mundo sendo transformados em jardins, com todos os doentes recebendo os devidos cuidados e atenções, haverá uma tarefa amorosa para todo ser humano. Na manhã da vida, todo indivíduo estará concentrado em desenvolver seus talentos. Na tarde da vida ele oferecerá seus talentos como uma dádiva ao mundo. Na noite da vida buscará a divina iluminação e o cultivo de seus poderes superiores. Não haverá cemitérios. Todo mundo saberá que não existe morte. Todas as formas de instrumentos de guerra se tornarão curiosidades de museus. As dificuldades terão natureza construtiva. As pessoas se concentrarão em conquistar a Natureza, em estabilizar o clima e a temperatura. A educação estará concentrada em extirpar os males da bebida e das drogas, das doenças contagiosas, ou incuráveis, em ajudar seres humanos a superarem as desvantagens de temperamento, caráter e ambiente, em ajudar seres humanos a se tornarem criativos.

Toda comunidade terá sua orquestra, seu coro, seu salão de exposições e seu fórum. Toda comunidade terá seu salão social, sua universidade para o povo e seu local de adoração. A religião será universal. Todos os Avatares de Deus serão igualmente reverenciados e seus ensinamentos apreciados. Os Upanishads, o Bhagavad-Gita, o Livro dos Salmos, os Profetas, as parábolas de Jesus, serão a herança de todos no mundo inteiro. A música será uma parte intrínseca da educação, da religião e da vida comunitária. O ser humano louvará Deus em canto, poesia, dança e obras de arte. Louvará a Deus em inúmeros atos de amor e bondade. A educação terá o objetivo de tornar todas as pessoas receptivas à divina inspiração. Nenhum talento será perdido. Todo gênio colocará mais uma estrela na resplandecente coroa da civilização. O objetivo da dança será ajudar o ser humano a alcançar o êxtase e a simetria. Na música ele tentará alcançar os planos superiores e se empenhará em registrar a música das esferas. Na poesia e na literatura ele há de expressar em memorável forma as grandes leis do universo. Na ciência, fará experimentos nos campos até hoje intocados.

O ser humano iluminado será honrado. Aquele que mais tiver se adiantado no caminho para a divindade será o cidadão mais eminente. O gênio versátil será o cidadão procurado pelos governantes. Nossos filhos terão por objetivo emular grandes personalidades, como Aristóteles, que deixou sua marca em todos os ramos da ciência; como Leonardo da Vinci, igualmente dotado em pintura, escultura e engenharia; como Francis Bacon, que se tornou célebre como poeta, dramaturgo, juiz, filósofo e cientista. Nossas filhas emularão Débora, de Israel, esposa e mãe, mas também juíza que morava debaixo de uma palmeira. Ou emularão Elizabeth Barret Browning, poetisa e esposa de um poeta numa união mais gloriosa do que a representada em contos de fadas; ou Madame Curie, ganhadora do prêmio Nobel, pela descoberta do elemento químico rádio, esposa de um cientista tão grande quanto ela e mãe de duas filhas, a mais velha uma cientista que também ganhou um prêmio Nobel.

Os problemas de casamento deixarão de existir. Será desnecessário casar por dinheiro, posição social ou segurança. As linhas divisórias de seitas, credos e nacionalidades não mais farão sentido. As pessoas se casarão somente por amor. E estarão unidas em seu amor recíproco, em seus filhos e no trabalho que farão juntos por sua comunidade. Toda a humanidade estará se esforçando para transcender o plano físico. Todos os seres humanos estarão preparados para trabalhar com a próxima onda da evolução humana. Que tarefa pode ser mais nobre do que ajudar a Deus na obra da Criação? Que tarefa pode ser mais gratificante do que ajudar seres humanos a evoluir?

Não é esta a visão da vida como Deus pretendeu que ela fosse como ela há de ser, uma vida inspiradora e capaz de satisfazer a alma? Vocês acham que isso é um devaneio? Acham que sua realização é impossível? Caros amigos, isso não é um devaneio. Não é uma coisa impossível de realizar. É o Plano Divino e, se os seres humanos o desejarem e estiverem dispostos a cooperar para concretizá-lo, a visão se tornará realidade. Como vamos pôr esse glorioso sonho em manifestação? Muito facilmente, irmãos e irmãs. Podemos resolutamente dar as costas ao holocausto da moderna civilização e começar hoje mesmo. Temos de acalentar esse sonho em nosso coração. Temos de fazer do lugar onde vivemos uma morada de amor e beleza. Temos de viver a vida ideal e incutir em nossos filhos os mais elevados e nobres ideais. Temos de trabalhar incessantemente para aperfeiçoar o nosso caráter e estimular os pintores, os músicos, os escritores e os cientistas de nosso próprio círculo e de nossa própria comunidade. Que seja nossa ambição pessoal fazer a vontade de Deus na Terra e entre todos.

Os pensamentos têm asas. Podem se propagar aos confins da Terra. O primeiro raio do Sol anuncia o brilhante alvorecer. Uma pequena nuvem, não maior que a mão de uma pessoa, pode crescer até cair como uma chuva refrescante. Uma pequena comunidade de luz e amor pode inspirar o mundo. Não estamos sozinhos. Há grupos no mundo inteiro que acalentam esse sonho, que buscam o caminho para Deus, que são filhos da luz e do amor. Se nos concentrarmos nos obstáculos e nas dificuldades vamos ficar desanimados. Recusamo-nos a prestar atenção às coisas maravilhosas que Deus criou para nós. Por isso, devemos manter nossos olhos firmemente voltados para a divina luz. Devemos cumprir a nossa tarefa mais imediata. Fortaleçamos o pensamento de amor. Irradiemos o nosso amor o mais longe possível. Raça, seita, credo e cor não existem para nós. Ensinemos por preceituação e pelo exemplo. Deixemos que a beleza ilumine a nossa vida de todas as maneiras possíveis. Aprendamos a lição de trabalhar pacientemente por um grande ideal, ainda que os resultados não sejam imediatamente aparentes. Onde são plantadas as sementes divinas os resultados são inevitáveis. Deus não pode falhar!

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© Arnaldo Poesia, Quinzaine Litteraire, Paris – Le Monde, Paris, 1987/2010.


~ Do livro "Conversas com Kafka" ~

Ao chegar à casa do Dr. Kafka, eu estava fora de mim. — O que lhe aconteceu? Tem o rosto lívido. — Vai passar — disse eu com voz estrangulada, tentado sorrir. — Tomaram-me pelo que não sou. — Isso não tem nada de excepcional — observou o Dr. Kafka franzindo ligeiramente os lábios. É um erro que se incorporou às relações humanas. A única coisa que se renova sem cessar na matéria é o sofrimento que delas resulta. — Pegou uma pasta em sua mesa e disse-me: — Fique um momento tranqüilamente sentado. Tenho o que fazer ao lado. Volto logo. Quer que eu feche a porta à chave para que não o incomodem?

— Não, obrigado. Isto vai melhorar.

Kafka deixou a sala sem fazer ruído. Eu me recostei na cadeira.

Sofria naquela época de graves dores de cabeça, que voltavam em intervalos muito irregulares e conseqüentemente imprevisíveis e que eram provocadas por uma hiperexcitabilidade do nervo facial chamado "trigêmeo". Foi um acesso desse tipo que me acometeu, menos de uma hora antes, justamente quando me dirigia ao Instituto de Seguros Operários, tive de me apoiar contra uma parede coberta de cartazes e deixar passar a crise. Ela havia culminado em um acesso de suores frios e vômitos espasmódicos. Isso significava que o pior tinha passado e que a crise chegava ao fim. De minuto em minuto, eu me sentia melhor, mas ainda permanecia imóvel contra a parede, pois minhas pernas tremiam.

As pessoas que passavam lançavam-me olhares irritados e — parecia-me — de desprezo. Uma velha senhora disse a uma jovem que a acompanhava: — Olhe aquele ali. Não passa de um fedelho e já está embriagado como um velho bêbado. Que porco! Prefiro nem pensar no futuro que o espera!

Eu gostaria de ter explicado àquela senhora em que estado estava, mas não pude pronunciar uma palavra. Tinha a garganta fechada. Antes que tivesse podido me refazer, as duas mulheres já haviam desaparecido na esquina próxima. Fui então lentamente para o Instituto de Seguros. Ainda sentia as pernas bambas ao subir a escada. Mas a voz de Kafka teve sobre mim o efeito de um tônico, e depois houve ali o silêncio, apagando toda impressão auditiva, e ao fim de alguns minutos os últimos traços da crise haviam desaparecido.

Quando o Dr. Kafka regressou, contei-lhe o episódio e concluí meu relatório com estas palavras: — Eu deveria ter pegado aquela mulher de jeito e sem moderar minhas palavras! Em vez disso, fiquei mudo. Sou um molenga!

Kafka sacudiu a cabeça e disse:

— Não fale assim. Você não sabe que energia reside no silêncio. A agressividade não passa de poeira nos olhos, é uma manobra que habitualmente se destina a camuflar, aos olhos do mundo e aos seus próprios olhos, a fraqueza daquele que a ela recorre. A verdadeira prova de energia e constância está em se submeter a ela. Só o fraco perde a paciência e torna-se grosseiro. Assim fazendo, perde geralmente toda dignidade humana.

Kafka abriu uma gaveta de sua mesa e ali pegou uma revista. Era o número 21 do quarto ano da revista Kmen ("O Tronco"), que colocou na minha frente, dizendo:

— Na primeira página, há quatro poemas. Um deles é particularmente emocionante. Intitula-se "Pokora" ("Humildade").*

Eu li:

Tornar-me-ei cada vez mais pequeno,
Até ser o menor sobre a terra.
Num amanhecer de primavera, no jardim,
Estenderei a mão para uma florzinha,
Contra ela esconderei meu rosto
E murmurarei: Tu, minha criancinha,
Tu que não tens vestido nem sapato, é sobre ti
Que o céu apóia sua mão, sobre tua gota
De orvalho irradiante, e és tu que preservas
Do desmoronamento
Seu edifício gigantesco.

Murmurei: — É poesia.

— Sim — respondeu então Kafka —, é poesia: a verdade envolta nas palavras da amizade e do amor. Cada um de nós, do mais hirsuto cardo a mais elegante palmeira, tudo sustenta o espaço celeste acima de nós, a fim de que o edifício gigantesco, o edifício gigantesco do nosso universo, não desabe. É preciso olhar para além das coisas, e então talvez as compreendamos. Não pense na cena que viveu hoje na rua. Aquela mulher se enganava. É aparentemente incapaz de distinguir entre a impressão e a realidade. Trata-se de uma enfermidade. É uma pobre mulher. Sua sensibilidade está perturbada. Quantas vezes aquela mulher já deve ter esbarrado nas menores coisas e se ferido! — Tocou delicadamente minha mão, que repousava como um peso sobre a revista, e concluiu sorrindo: — O caminho que leva da impressão ao conhecimento é quase sempre longo e difícil, e muitas pessoas não passam de mesquinhos viajantes. É preciso perdoar-lhes quando vêm titubeando chocar-se contra nós como em uma parede.

Recebi de um amigo, a quem tinha emprestado algumas pequeninas somas de dinheiro e a quem não podia a partir de então emprestar mais nada, uma carta grosseira e recheada de insultos. "Macaco pretensioso", "imbecil" e "vaca" eram os termos mais moderados.

Mostrei a carta ao Dr. Kafka, que a empurrou com a ponta dos dedos para a outra extremidade de sua mesa, como um objeto perigoso. E disse:

— Os insultos têm algo de aterrorizante. Esta carta me faz o mesmo efeito que um braseiro esfumaçado, que nos queima a garganta e os olhos. Todo insulto desmantela a maior invenção do homem: a língua. Aquele que profere um insulto... insulta a alma. É uma tentativa de assassinato, perpetrada contra a Graça. Torna-se disso igualmente culpado aquele que não pesar e delimitar. A palavra é uma escolha entre a morte e a vida.

— Que pensa o senhor disso? — perguntei-lhe. — Devo mandar a esse indivíduo uma intimação judicial?

Kafka sacudiu a cabeça com energia:

— Não! Para quê! Ele não daria a menor importância a uma advertência desse tipo. E mesmo se o fizesse... deixe-o. A "vaca" de sua carta cedo ou tarde vai chifrá-lo. Jamais escapamos aos fantasmas que deixamos sair. O mal sempre volta ao seu ponto de partida.

* Esse poema é do poeta tcheco Jirf Wolker.

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Bibliografia: Conversas com Kafka, Gustav Janouch, Editora Nova Fronteira, 1983.


~ Por que não falar com os estranhos? ~

Não Fuja às Complicações. Se existe um segredo para a vitalidade
e para a felicidade, ele consiste em obedecer a esta imposição

"Ora vejam só! Sentados há duas horas, lado a lado, e ainda ninguém falou um com o outro!" Assim costumava um amigo provocar alegremente as pessoas. E sob sua influência simpática, poucos deixavam de se virar e falar com o estranho sentado ao lado.

É a coisa, no entanto, mais simples do mundo; basta uma palavra, um sorriso, para se descobrir, no desconhecido ao nosso lado, um amigo muito interessante. Em vez disto, por excesso de precaução ou timidez, passamos pela vida sem o prazer estimulante de fazer novas amizades.

Por ocasião de uma tempestade de verão no Rio de Janeiro, que paralisou o tráfego, a rua de um amigo ficou completamente bloqueada. Não tinham transporte, pois o engarrafamento era grande, faltou luz, os elevadores pararam, e finalmente os telefones ficaram mudos. Alguns apartamentos do edifício onde ele morava, tiveram os vidros das janelas estilhaçados pela força do vento. Vizinhos que nunca se tinham falado, batiam na porta para oferecer ajuda ou simplesmente para conversar. Havia uma festa na casa de um morador; descobriram que o porteiro do edifício tocava piano, e dançaram animadamente. Os pares eram de todas as idades, dos quatorze aos oitenta anos!

Mas o que mais lhe chamou a atenção, foi o fato de ser preciso uma tempestade para vir à tona esse espírito de camaradagem e solidariedade que, em qualquer dia do ano, poderia tão bem ter contribuído para seu maior bem-estar naquele condomínio.

Quando, nas férias de fim de ano, o ônibus que ia para Cabo Frio bateu num caminhão em plena rodovia, os passageiros que tinham feito quase a metade da viagem impassíveis, sem dizer palavra, puseram-se imediatamente a falar. Muitos se achavam presos entre as poltronas; tiveram que esperar até que chegasse ajuda. Uma amiga minha que estava na parte da frente do ônibus, estava ferida, assim como o passageiro da poltrona ao lado, mas começaram os dois logo a conversar e a contar coisas engraçadas, e, com este exemplo de coragem, reanimaram os outros passageiros.

Por que esperar então pela desgraça comum, para deixar transparecer esse espírito de solidariedade? Quem quiser atravessar a vida trancado na sua torre dourada, pode-se isolar com uma couraça de fria reserva: mas acabará por perder todo contato com seus semelhantes; e não terá realmente vivido neste mundo aquele que não olhar dentro do coração das pessoas que a habitam. Nossa tendência é sempre para cair na rotina, frequentar as mesmas pessoas, falar sobre assuntos idênticos; todavia, conversar com estranhos, de meio e ocupação diferentes dos nossos, são caminhos abertos para novas experiências. Bater um papo com o vizinho do outro lado da rua, fazer perguntas a alguém sobre algum acontecimento, ou a um "pai" orgulhoso de seu cachorro, são acontecimentos que me têm aberto novos horizontes e aumentado em mim a convicção de que este mundo está cheio de gente interessante.

São encontros rápidos, não há dúvida, mas que nos levam a fazer descobertas preciosas sobre a natureza humana.

Se nos pusermos a lembrar as convenções que pedem que só se fale quando se é apresentado, então nunca teremos jeito nem palavras para nos dirigirmos aos estranhos; mas se formos espontâneos, deixando falar nossos corações, não haverá perigo de sermos indiscretos.

Dia desses, estava eu na livraria de um shopping center, quando notei uma menina muito bonita que lia com visível prazer um trecho de um livro; quando acabou, olhou-me e, dirigindo-se a mim, disse: "Isto é muito lindo. Posso lhe dar para ler?" Aceitei, agradecendo, e li o trecho com muito interesse. Quando lhe devolvi o livro era como se tivéssemos sido apresentados, graças ao prazer compartilhado naquela obra literária. E só então me disse seu nome. Ficamos algum tempo conversando e trocando idéias sobre vários autores. Esquecemos que éramos estranhos.

É muito fácil dirigir-se a palavra a uma pessoa que tem um sorriso simpático nos lábios; mas porque não serei o primeiro a sorrir? Veja o sorriso contagioso que corre de rosto em rosto quando passa uma pessoa que deixa transparecer alegria e felicidade! São poucos os que mostram o que sentem; quase sempre usamos disfarces, que o tempo e a "idade" só tendem a aumentar.

Se porventura achamos que não temos o que oferecer, nada impede que sejamos pelo menos receptivos. Se em vez de fixarmos as pessoas com olhar distante, procurássemos ver-lhes a expressão do olhar, reconheceríamos muitas vezes expressões de dúvida e ansiedade. Às vezes falo com desconhecidos, porque imagino que precisem de mim. Não me perdoaria passar pela menina que chora num banco de praça, sem lhe dizer uma palavra, ou sem fazer um carinho a alguém de olhos tão infelizes e perdido de si mesmo.

Pense bem, e veja quantos de seus amigos lhe foram formalmente apresentados. Se bem me lembro encontrei-me com Rodrigo na rua, ele saía e eu entrava num cinema. Conheci Camille numa livraria, em Niterói; estava ela lendo um livro, cujo assunto a interessava. Encontrei Carolina na praia de São Francisco, contemplando pela primeira vez aquele magnífico pôr do sol, e precisando muito de falar com alguém.

Vivemos isolados, sem nos interessarmos por ninguém, até que num momento feliz, ou súbita catástrofe da vida, deixamos transparecer o desejo que temos de conforto e amizade.

Somos todos estranhos uns aos outros, até o dia em que um de nós oferece a mão num gesto de simpatia, e faz por esse modo um novo amigo.

~ Arnaldo Poesia ~


~ A Arte de Curar ~

Cada vez mais pessoas estão questionando a validade da ciência médica e tentando encontrar outro tipo de ajuda para os males que as assolam. Durante séculos, os curadores não-ortodoxos foram perseguidos pelos médicos alopatas. Hoje, entretanto, a profissão médica parece estar sendo invadida por um tipo diferente de médico: aquele que escolhe o caminho da Medicina Holística. Este último acredita na cura total do homem — física, mental e espiritual — e para ele a responsabilidade por uma vida saudável está no próprio indivíduo. Pessoas do mundo inteiro estão atualmente questionando os conselhos de seus médicos, exigindo serem totalmente informadas sobre os prós e contras de suas circunstâncias particulares, expressando as conclusões a que chegaram e, em geral, tomando a responsabilidade por sua própria saúde.

Por muitos séculos, a cura tem sido a prerrogativa dos médicos formados que, com seus tubos de ensaio e métodos sofisticados de cirurgia, têm feito verdadeiros milagres. Mas o que dizer dos incontáveis casos em que não conseguiram curar o corpo físico? Seus métodos de cura falharam ou existe a situação em que o médico, por mais preparado que seja, só pode trabalhar com o corpo físico e precisa da cooperação da mente do paciente para obter uma recuperação total e completa?

A mente pode causar um número de doenças pelo estresse e pela maneira pela qual este o leva a encarar a vida. A mente, portanto, também pode curar o corpo de qualquer doença que lhe tenha infligido. Por que, então, a maioria das pessoas é incapaz de usar esse poderoso instrumento que está à sua disposição para a obtenção da perfeita saúde, por meio da vontade?

Nossa atitude mental perante a vida é, como sabemos, cinzelada pelas muitas experiências que encontramos no presente, assim como por aquelas com que tivemos de lidar no passado. Nossas reações de raiva, depressão e ódio colocam em movimento certas vibrações negativas que em algum momento atuam em nosso sensível corpo psíquico e provocam a degradação gradual de nossas células físicas. Os médicos estão agora verificando que o câncer, embora tenha rápido crescimento uma vez que se manifeste, pode levar até quarenta anos para se formar. Atitudes mentais, infelizmente, não podem ser modificadas do dia para a noite. Foram necessários anos, provavelmente séculos, para moldar nossos padrões de pensamento, e só através de uma estrita disciplina é que podemos superá-los e estabelecer novas tendências.

Fisicamente, o corpo também requer cuidado especial. É importante mantê-lo asseado, confortável e nutrido com os tipos certos de alimentos, fornecendo-lhe assim todos os nutrientes necessários para o funcionamento normal de nossas células. O estudo da nutrição, portanto, também é um atributo muito importante da arte de curar. Outro passo é a necessidade de exames médicos regulares para que seja verificado se nosso corpo físico está funcionando perfeitamente e para detectar problemas menores de saúde logo de início, quando podem ser facilmente tratados.

O aspecto mais vital da cura, entretanto, é nossa comunhão diária com o Divino. Muitas pessoas costumam sentir que, pelo fato de que não conseguem alcançar resultados extraordinários durante seus períodos de meditação, nada têm a ganhar com a sua prática regular. Devemos compreender que Deus é, e que só pode manifestar-se através de nós se lhe dermos condições para que isso aconteça.

Se julgarmos que não estamos colhendo qualquer benefício de nossos períodos diários de harmonização, não podemos simplesmente dispensá-los como rituais desnecessários. Suponhamos que as luzes não acendam quando ligamos o interruptor à noite. seria esta uma razão para negarmos a existência da eletricidade? Não, você sabe que ela existe, e obviamente vai testar o interruptor, a fiação, ou as lâmpadas para descobrir por que a luz não acende. Da mesma forma, você deve saber que Deus é. Tenha essa convicção interior, e analise seu próprio Eu para saber a razão de não conseguir se harmonizar com ele e receber sua divina orientação. Examine-se — você está sintonizado? Está meramente realizando o ritual enquanto não tem certeza de que há algo além? Estará a dúvida escravizando sua mente? Ouse acreditar!

Quando você tiver conseguido alcançar esse estado de certeza íntima, em cada momento de sua vida, de que o Bem está com você, verá que nenhuma petição pela saúde ficará sem resposta. Deus não decretou que você deve sofrer. São nossos pensamentos que criam nosso sofrimento físico. Talvez uma das maneiras mais fáceis de vivenciar a presença de Deus é usar o divino princípio do Amor. A qualquer hora do dia, dirija pensamentos de amor às pessoas que você conhece, não só as que você ama, mas especialmente as que não aprecia. O amor nunca se perde; ele retorna para você e purifica sua alma de todos os pensamentos maus ou negativos. Se alguém disse ou fez alguma coisa para magoá-lo, pense nessa pessoa e envie-lhe vibrações de amor. Se achar que isso é pedir demais, visualize para que o semblante da pessoa que você não quer bem seja amado. Use as palavras "Eu amo o bem em você". São palavras verdadeiramente poderosas.

A atitude mental é, portanto, a principal razão pela qual os médicos nem sempre têm êxito na eliminação total das doenças de certas pessoas. Enquanto a mente não conseguir aquele controle sobre seus pensamentos e emoções e não aprender a lição do amor, não poderá haver cura verdadeira.

Os médicos são apenas mediadores através dos quais o poder curador de Deus pode operar. Eles, mais que o médico ortodoxo, precisam da total cooperação do paciente para ter sucesso em seus esforços em prol de uma cura. Contudo, a crença em um ser todo-poderoso, é o melhor, deve estar firmemente implantada no subconsciente da pessoa através de anos de aplicação prática, antes que a lição possa ser aprendida e a cura alcançada.

O caminho da cura não é fácil, pois representa, realmente, uma reeducação de toda a nossa personalidade. Podemos levar uma vida inteira para alcançar aquele sublime estado de harmonização mística pela qual nosso corpo pode envelhecer e fenecer sem o sofrimento de uma doença terminal. Curar não é uma arte que nos permita imortalizar o corpo terreno, antes é uma ajuda que nos propicia conquistar uma vida livre de tensões e doenças, de modo a podermos ser mais capazes de auxiliar nosso próximo no caminho da saúde e da felicidade.

Ao considerarmos a questão da cura, devemos nos lembrar sempre que nosso primeiro cuidado é o da prevenção — pensar e viver uma vida correta. Isso não apenas previne a incidência daquilo que nos faz adoecer, mas serve para eliminar qualquer moléstia de que estejamos padecendo agora. Com toda certeza, jamais seremos curados se não começarmos a praticar o modo de vida que teria evitado que ficássemos doentes, se o tivéssemos aplicado desde sempre.

Não pense de modo obsessivo em sua presente moléstia, nem em seu fracasso passado no que diz respeito à sua prevenção. Ao invés disso, ponha-se o quanto antes a praticar esses simples, mas eficazes passos para a saúde:

  • Dieta simples, sem extremismos
  • Beber água ou outros líquidos
  • Exercícios físicos diários
  • Pensamentos positivos e amorosos
  • Repouso

Além dessas atitudes objetivas existe mais uma prática a ser feita duas vezes por dia em sua própria casa: Primeiro sente-se em atitude relaxada, faça duas ou três respirações profundas, deixando todas as tensões desaparecerem enquanto exala o ar. Sinta o corpo ficando completamente relaxado, como se estivesse sendo banhado por mornas e profundas ondas de relaxação. Segundo aceite o pensamento de que há em seu interior uma força toda-abrangente que podemos chamar Deus do seu coração. Acredite nisso e saiba que é verdade. Deixe que essa força infunda o seu ser e o banhe em conforto e amor. Use esses momentos para dirigir seus pensamentos para a saúde, a paz, e o amor das partes do corpo que precisam ser curadas. Terceiro expresse um pensamento sincero de gratidão pelo trabalho da força Divina em seu interior e tenha a certeza de que a cura está ocorrendo. Termine essa breve meditação com as palavras: "Se é da vontade de Deus, está feito".

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Bibliografia: O Rosacruz, Amorc, 2.º Trimestre de 2000, Autor Desconhecido.


~ Cura Para a Solidão ~

Esta história foi inspirada no relato de um amigo
que esteve na escuridão, mas que encontrou a luz

A solidão é um dos mais opressivos testes que o Ser humano pode enfrentar, e uma das mais torturantes experiências. Podemos ter de passar por inúmeros outros sofrimentos: aflição e perdas, choque e dificuldades que sobre nós se abatem de uma ou de outra maneira. Não obstante, parece-nos que não temos uma fonte secreta de proteção contra a pungente desolação que chamamos de solidão.

Solidão é aquela influência maléfica que passa sobre nós, deixando-nos desolados como se um vento árido nos tivesse ressequido. É aquela perda de contato com tudo que normalmente dá sentido à vida. É aquela cegueira da alma em que bradamos para as trevas exteriores, mas não recebemos nenhuma mensagem.

Realmente, ela sobre nós se abate, mais cedo ou mais tarde. Ricos ou pobres, jovens ou velhos, alegres, brilhantes, ou tristonhos com o desapontamento, todos nós teremos de sentir essas sombras; todos nós teremos de sentir o abandono que delas advém. Não obstante, não estamos abandonados, e se tivermos sido preparados de modo adequado seremos suficientemente fortes para esses embates com a solidão.

Que significa estarmos suficientemente preparados?

Significa que devemos estar preparados para saber que a solidão não é um estado mórbido ou doentio, mas uma condição que todos nós temos de enfrentar e podemos superar, um aspecto necessário da vida. A solidão e pessoas solitárias não são comuns. Conheci moradores de campo de mineração, de planícies e de deserto que só viam estranhos uma vez por mês; no entanto, eles se mostravam tão fortes e revigorados como o vento. Davam mostra de uma espécie particular de recuperação de forças. Haviam aprendido a viver sozinhos e isolados, a ser autênticos e a se valer dos recursos em seu interior.

Somos, na verdade, "excepcional e maravilhosamente formados". Para toda doença que nos ataque, temos um meio secreto de cura, se apenas nos dispusermos a usá-lo.

Mas, qual a cura para a solidão?

Reduz-se ela a sentar-nos para cogitar, para pensar sobre a esterilidade do remorso e do desapontamento? É isto proteção contra a erosão lenta da solidão? E se não o é, então, qual a cura?

A cura está em toda parte. Ela está na maneira de viver. Está em lutarmos contra influências negativas, lançando-nos à vida; está em todos os olhos que fitamos; no abanar do rabo dos cães; na música sublime das árvores; no canto alegre das aves; na flor que brota nos jardins; no sorriso espontâneo de alguém quando olha para nós; na esperança. E, principalmente, na fé em Deus.

Quando uma pessoa está perturbada, acamada, ou arruinada de maneira espiritual ou material, a cura da solidão está na maneira de viver, de se tornar parte da vida, parte de toda a vida que vibra ao seu redor. Nada deve tornar a alma aniquilada.

Como tenho conhecimento dessas duras verdades?

Delas tomei ciência por ter estado tão isolado que eu, também, tive de abrir caminho para retornar à luz. Momentos de oração, visualização, meditação e contemplação me foram tão importantes para vencer a inércia instalada que sugiro a todos que desenvolvam estas práticas.

~ Arnaldo Poesia ~


~ O Verdadeiro Sentido da Vida ~

Wellington (AFP - 13/03/2008) — Duas cachalotes, que corriam risco de vida porque não conseguiam se afastar do litoral da Nova Zelândia, foram salvas por um golfinho, que as escoltou até alto-mar, informou nesta quarta-feira um funcionário do serviço de proteção animal.

"Foi a primeira vez que vi algo assim, foi incrível", comentou Malcom Smith.

O golfinho, uma fêmea chamada Moko, conseguiu guiar os mamíferos até a altura da praia de Mahia, no litoral oriental da ilha do Norte.

Avisado por um habitante sobre a presença das cachalotes, desorientadas por um banco de areia que as impedia de se afastar do litoral, Malcom Smith tentou guiá-los, mas em vão.

"Elas estavam muito cansadas e eu estava a ponto de desistir, achando que tinha feito tudo que podia", contou, explicando que, na maioria dos casos, os mamíferos, esgotados, se matam para não sofrer mais.

Mas foi aí que entrou em ação a golfinho Moko.

"As cachalotes estabeleceram contato com o golfinho e ele os guiou em paralelo à praia, ao longo de 200 metros até a ponta do banco de areia. Depois, passou por um canal estreito e os escoltou até o mar", continuou Smith.

Pouco depois, Moko voltou para a praia de Mahia, onde vive há um ano e é conhecida por suas brincadeiras aquáticas como se deixar acariciar e empurrar os caiaques.

Existem muitas coisas que dão sentido à vida. Esse belo exemplo é uma delas.


© Arnaldo Poesia, Quinzaine Littéraire, Paris, Le Monde de Paris, Paris, 2002/2010.
Tous droits de traduction, de reproduction et d'adaptation réservés pour tous pays.

Outros trabalhos meus:

Carta a Luma ... e outras palavras de amor
Conto & Verso
Contos de Primavera
Amar é...
A História de Cupido e Psique
Contos do Amor Passado
Kahlil Gibran - O Poeta do Amor
Galeria Flor de Lótus
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William Shakespeare

– A linda imagem do início da página é do fotógrafo Ricardo Zerrenner, um dos maiores
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