“Abracem-se milhões! Irmãos, além do céu estrelado mora
um Pai Amado."
– Schiller, Ode à Alegria (An die Freude), 1786
Retirado para um lugarejo próximo a
Viena chamado Heiligenstadt, onde morava já há alguns
anos (foi lá que Beethoven, num momento de depressão,
redigiu seu testamento em 1802), Beethoven concluiu a
sua obra-prima em fevereiro de 1824. A Nona Sinfonia revelou-se extraordinária. Dotara-a de uma
grandiosidade heróica que só ele até então conseguira
dar à música alemã. O público, desde a primeira
audiência, ocorrida no Teatro Kärntnertor de Viena em
7 de maio de 1824, maravilhou-se. O passado, o tumulto
revolucionário, aflora em vários momentos ao longo da
execução, mas sua beleza deve-se ao seu carisma. É uma
apologia aos tempos futuros, à morada do
Elíseo, ao
porvir, quando então seremos um mundo só.
A Liberdade
conduzindo o povo
Quadro de Delacroix
Apesar da obra ter sido dedicada ao rei Frederico
Guilherme III da Prússia, que como todos os monarcas
da sua época era hostil aos ideais de liberdade, a
obra-prima de Beethoven apresenta o paradoxo de ser
entendida como um hino da emancipação do mundo europeu
dos tempos feudais, liberto da tirania e das cargas da
servidão. A alegria, pois, que a Nona Sinfonia exalta
não se perdera num tempo remoto, numa Arcádia sem
volta. Ao contrário, a alegria, a felicidade, estão ao
nosso alcance logo ali em frente, bastando que
superemos as nossas estreitezas culturais e a
mediocridade política que nos cerca. Entende-se porque
a atual União Européia (hoje majoritariamente
republicana e democrática), escolheu a Nona Sinfonia
como o seu hino oficial. Mesmo com os percalços que
iremos sofrer aqui e ali para chegarmos ao governo
universal no século XXI, a Nona Sinfonia continuará
sendo o maravilhoso fundo musical para que as Filhas
do Elíseo sintam-se estimuladas a estender seus braços
fraternos enlaçando a humanidade inteira.
Teatro
Kärntnertor, onde apresentou-se
a Nona Sinfonia (maio de 1824)
~ Ode à Alegria, de Schiller ~
Letra da Nona Sinfonia
"Consegui! Consegui! Enfim encontrei a Alegria!"
Assim jubiloso, Beethoven acolheu em seus aposentos o
seu secretário, um fa tutto chamado Schindler.
Imediatamente sentou-se ao piano e dedilhou-lhe a
façanha. Encontrara afinal a solução, busca há anos,
que lhe permitira musicar os difíceis versos da An die
Freude (Ode à Alegria) de Schiller. Depois de 32 anos
de hesitações, de idas e vindas, de prostrações, deu
então por acabada a Nona Sinfonia. Quando jovem ainda
em Bonn, Ludwig van Beethoven comoveu-se com o
conteúdo do poema ao lê-lo em 1792, impressionando-se
para sempre com a maravilhosa exaltação à fraternidade
humana dos versos de Schiller.
O poeta compôs a Ode para que um amigo seu, um
franco-maçom, a cantasse com seus companheiros nas
lojas da irmandade. Schiller, em apenas 18 belíssimas
estrofes, celebrava os valores do iluminismo (o
cosmopolitismo, a superação das desavenças nacionais,
a pregação da tolerância, e a consciência de pertencer-se
a um mundo só). Beethoven, na época um entusiasta
republicano, embebido pelos ideais da Revolução
Francesa de 1789, sentiu-se tentado em transformar o
que lera em algo imorredouro.
~ Arnaldo Poesia ~
~ Ode à Alegria ~
Ode à Alegria de Friedrich
Von Schiller, tradução do original, tal como se
canta na Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven.
(Barítono)
Oh amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!
(Barítonos, quarteto e coro)
Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce voo se detém. Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo, Quem já conquistou uma mulher amável Rejubile-se conosco! Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho! Alegrias bebem todos os seres
No seio da Natureza: Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas. Ela nos deu beijos e vinho e Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!
(Tenor solo e coro)
Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.
(Coro)
Alegre, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste! Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo! Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões se deprimem diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora.
Schiller, 1759-1805
Autor da letra da Nona Sinfonia
Cenas do filme "Minha Amada Imortal", com
apresentação da Nona Sinfonia, de Beethoven
Nona Sinfonia de Beethoven, em quatro partes,
regida pelo maestro Leonard Bernstein
Quinta Sinfonia de Beethoven, Primeiro movimento (Allegro con
brio), regida pelo maestro Leonard Bernstein. Orquestra
Sinfônica da Baviera, Alemanha. Apresento aqui o primeiro
movimento, por ser o mais conhecido, e o que identifica
melhor essa linda e inesquecível sinfonia.