Anjos do Senhor
Nossos Guardiões Celestiais

Salmo 90, 11-12
Porque aos seus anjos Ele mandou que te guardem
em todos os teus caminhos, eles te sustentarão
em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.

~ Natureza dos Anjos ~

Saudações amados irmãos no amor

Um sintoma deste renascer dos valores espirituais é precisamente o interesse pelos anjos, o aumento da devoção aos espíritos puros, assim como os pedidos invocando sua intercessão. No entanto tal ressurgimento, infelizmente, se manifesta em alguns casos mesclado de superstições e até de manifestações de ocultismo. Para atender este saudável movimento de alma, nos propomos hoje apresentar a nossos leitores a atraente e atualíssima temática dos Anjos.

Durante a consagração do Papa Gregório XV (1621), uma terrível peste estava devastando Roma. São Gregório organizou seu povo em torno de uma grande procissão que estava encabeçada por uma pintura da "Virgem Gloriosa" (obra atribuída a São Lucas Apóstolo). Estando a procissão em marcha, uma densa nuvem de ar fétido se deteve ante a pintura. Os presentes escutaram, então, um coro angélico cantar com alegria. "Regina Coeli, laetare, alleluja". O Papa São Gregório relatou logo a visão que teve de um grande anjo parado sobre o castelo, perto dali. Desde esse dia os romanos se referem a ele como Sant'Angelo em comemoração do desaparecimento da peste em Roma. São Gregório morreu em 8 de julho de 1623. O relato de sua vida se encontra na "Vida dos Santos", de Edward Kinesman.

Dotados de uma natureza mais perfeita que a humana, esses espíritos puros foram criados para dar glória a Deus, reger o mundo material e ser potentes auxiliares dos homens pela sua salvação eterna. Em um êxtase, Santa Maria Madalena de Pazzi viu uma religiosa de sua Ordem (carmelita) ser tirada do Purgatório e levada para o Céu por seu anjo da Guarda. E Santa Francisca Romana viu seu anjo da guarda conduzir ao Purgatório, para ser purificada, uma alma a ela confiada. O espírito celeste ficou do lado de fora daquele lugar de purgação, para apresentar ao Senhor os sufrágios oferecidos por aquela alma. E, ao ser recebida por Deus, essa alma foi aliviada em suas penas.

Após o nascimento, uma pessoa recebe de Deus um desses angélicos guardiões, que a acompanhará durante a vida, protegendo-a e transmitindo-lhe boas inspirações. Se a pessoa tiver vivido segundo a Lei de Deus, ao ponto de santificar-se e ir diretamente para o Céu, o Anjo da Guarda a conduzirá a esse lugar bendito. Se, em outro caso, e o que é mais provável, ela precisar purificar-se no fogo do Purgatório, o Anjo da Guarda a conduzirá depois ao Paraíso Celestial.

Nos dias de hoje, em que o materialismo e o ateísmo estão reinantes em tantas almas e em incontáveis ambientes, percebe-se uma saudável reação — cada vez mais intensa e generalizada — a essas chagas da civilização contemporânea. O sentimento religioso, a crença em Deus e no destino eterno ganham sempre mais terreno, especialmente no meio da juventude atual.

O Anjo só passa a custodiar um novo ser após este ter saído das entranhas maternas. Isto porque, desde o momento da concepção até o nascimento do novo ser, o Anjo da Guarda da mãe cuida também da nova criatura, assim como quem guarda uma árvore carregada de frutos. Junto com a árvore cuida também dos frutos.

Temos necessidade da celestial proteção angelical. Nossa alma imortal está destinada a ser, no futuro, companheira dos Anjos e de ocupar a seu lado, no Céu, um dos tronos que ficaram vazios pela queda daqueles anjos puros que se rebelaram contra Deus, transformando-se em demônios. Tal necessidade sobretudo provém da própria fraqueza humana para alcançar este objetivo. Que empenho não terá o demônio para que um recém nascido não receba as águas regeneradoras do Santo Batismo? Muitas vezes também procurará causar-nos males físicos. "A função principal do Anjo da Guarda é iluminar-nos em relação a verdade e a boa doutrina. Mas sua proteção acarreta também muitos outros efeitos, tais como reprimir os demônios e impedir que nos sejam causados danos espirituais ou corporais". Eles "rezam por nós e oferecem nossas orações a Deus, tornando-as mais eficazes por sua intercessão (Apoc. 8, 3; Tob. 12, 12), sugerindo-nos bons pensamentos, incitando-nos a fazer o bem (At. 8, 26; 10, 3ss). Do mesmo modo, quando nos infligem algum tipo de pena para corrigir-nos (2 Sam. 24, 16): e — o mais importante de tudo — quando nos assistem na hora da morte, fortalecendo-nos contra os supremos assaltos do demônio".

Algumas almas mui seletas, que conservaram intactas sua inocência e pureza batismal ao longo da vida, por especial privilégio de Deus tiveram a felicidade de ver seu Anjo da Guarda. Assim aconteceu com São Geraldo Magela, Santa Francisca Romana, Santa Gema Galgani e outros Santos.

Vejamos dois exemplos:

• Santa Francisca Romana: dama romana da mais ilustre família, queria ser religiosa mas foi obrigada por seus pais a se casar, tendo procurado santificar-se no estado matrimonial. Desse casamento nasceram vários filhos. Um deles, João Evangelista, de extrema piedade, dotado com o dom da profecia, faleceu santamente aos nove anos. Um ano depois de sua morte, apareceu a Francisca, resplandecente de luz, acompanhado por um jovem ainda mais brilhante. Fez conhecer a mãe a glória que gozava no Céu; e lhe comunicou que viria buscar sua irmã Inês, de cinco anos, para colocá-la entre os Anjos. E que, por ordem de Deus, deixaria aquele anjo para — junto com seu próprio Anjo da Guarda — assisti-la no que lhe restava de vida terrena. Era um anjo de categoria superior, um Arcanjo. A partir de então, Santa Francisca via constantemente esse arcanjo que, segundo ela, brilhava mais que o sol, de maneira que não conseguia olhar para ele. Se Francisca deixava escapar alguma palavra desnecessária, ou acaso se preocupava demasiadamente com os problemas domésticos, o anjo desaparecia, ficando invisível até que ela se acalmasse de novo. Ele, com suas luzes, a auxiliava muitas vezes, defendendo-a contra os ataques do demônio, que constantemente a assaltava.

• Santa Mariana de Jesus, conhecida como a Açucena de Quito, ainda criança, depois do falecimento do pai, a mãe foi para uma casa de campo levando-a abraçada, montada num cavalo. Ao passar perto de um rio de forte correnteza, o cavalo tropeçou e a criança caiu dos braços da mãe... No mesmo instante, a menina predestinada foi erguida no ar por seu anjo da guarda, até que a mãe a pegasse de novo.

Valiosos conselheiros celestiais

Os Anjos da Guarda são nossos conselheiros, inspirando-nos santos desejos e bons propósitos. Evidentemente, o fazem no interior de nossas almas, se bem que, como vimos, tenham existido almas santas que mereceram deles receber visivelmente celestiais conselhos.

O desvelo de nosso Anjo da Guarda para conosco está bem expressado pelo Profeta Davi no Salmo 90: "O mal não virá sobre ti, e o flagelo não se aproximará de tua casa. Porque enviou [Deus] seus Anjos em teu auxílio, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te elevarão em suas mãos, para que teu pé não tropece em alguma pedra" (Sl. 90, 10-12).

Intrépidos guerreiros do Exército Celestial

Em várias partes dos Livros Sagrados os Anjos são mencionados como sendo a Milícia Celestial. Assim, narra o Profeta Isaías ter visto que "Os Serafins ... clamavam uns aos outros e diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos". (Is. 6, 2-3). Y, no Apocalipse, comandados pelo Arcanjo São Miguel, travaram no Céu uma grande batalha derrotando Satanás e seus anjos rebeldes (Ap. 12, 7). Em outras passagens aparecem eles exercendo inclusive funções bélicas. Lemos, por exemplo, no II Livro das Crônicas que, havendo Senaquerib invadido a Judéia, mandou uma delegação a Jerusalém para dissuadir seus habitantes da fidelidade a seu rei Ezequias, blasfemando contra o Deus verdadeiro. O Rei de Judá e o Profeta Isaías se puseram em oração implorando a proteção divina contra as tropas inimigas. "E o Senhor enviou um anjo que exterminou todo o exército do rei da Assíria em seu próprio acampamento, com os chefes e os generais, e o rei voltou a sua terra completamente confuso" (II Cron. 32, 1 a 21).

Guerreiros angelicais — tanto no Antigo como no Novo Testamento — às vezes se unem também aos homens contra os inimigos do Senhor. Assim, por exemplo, ajudaram Judas Macabeu numa batalha decisiva. Outras vezes auxiliaram os soldados da Cruz contra os muçulmanos, como havia sido narrado nas crônicas das Cruzadas.

Na Sagrada Escritura, o próprio autor dos Atos dos Apóstolos afirma: "O Senhor Deus dos exércitos frequentemente envia também seus guerreiros para livrar seus amigos das mãos dos ímpios" (Atos 5, 18-20; 12, 1-11).

Protetores das pessoas, mensageiros de Deus

No Livro de Daniel (10, 13-21), o Arcanjo São Miguel defendeu os interesses dos israelitas contra o Anjo protetor da Pérsia. No Apocalipse, São João se refere a vitória desse Arcanjo contra o demônio e seus sequazes. Mais recentemente, lemos na autobiografia de Santo Antônio Maria Claret, que certo dia, estando ele só no coro do Monastério do Escorial, viu Satanás que lamentava com grande raiva e despeito, por ter visto frustrado alguns de seus planos em relação aos estudantes. Ouviu então a voz do Arcanjo Miguel que lhe disse: "Antônio, não tenha medo. Eu te defenderei". São Gabriel foi o grande mensageiro e embaixador de Deus não só na Anunciação a Nossa Senhora, senão, segundo o parecer de muitos teólogos, também apareceu junto a Zacarias, para anunciar-lhe o nascimento de João Batista. E junto a São José, a quem apareceu três vezes em sonho: para anunciar a concepção divina de Maria, recomendar a fuga para o Egito e o retorno daquele, depois da morte de Herodes.

A missão de São Rafael junto ao jovem Tobias é detalhadamente descrita na Bíblia. Já em tempos posteriores, se assinalam também muitas de suas intervenções, como a salvação do tesoureiro de um rei da Polônia, pois o protegido lhe tinha grande devoção; e ele ter livrado das mãos de assaltantes um burguês de Orleans, em uma peregrinação a Santiago de Compostela. Conta-se na vida da Beata Madre Humildade de Florença (+1310) que, havendo sido eleita abadessa de seu monastério, compôs para suas religiosas uma singela oração, pedindo a guarda dos sentidos, oração em que se nota muito a influência do espírito da cavalaria da época:

"Bons anjos, meus constantes protetores: guardai todos os meus caminhos e vigiai cuidadosamente a porta de meu coração, de maneira que eu não seja surpreendida pelos meus inimigos. Empunhai diante mim vossa espada protetora! Guardai também a porta de minha boca para que nenhuma palavra inútil escape de meus lábios! Que minha língua seja como uma espada, quando for o caso de combater os vícios ou de ensinar a virtude! Fechai meus olhos com um duplo selo quando eles quiserem ver com complacência outra coisa que não seja Jesus. Mas mantê-los abertos e despertos quando for para rezar e cantar as maravilhas do Senhor. Vigiai também a porta de meus ouvidos, a fim de que eles rejeitem sempre com rigor tudo o que vem da vaidade ou do espírito do mal. Colocai amarras em meus pés quando eles quiserem ir pecar. Todavia, acelerai meus passos quando se trate de trabalhar para a glória de Deus ou da santa Virgem Maria, ou da salvação das almas! Fazei que minhas mãos sejam sempre, como as vossas, prontas a executar as ordens de Deus. Apagai em mim o olfato do corpo, a fim de que minha alma não aspire mais que o suave perfume das flores celestiais. Em uma palavra, guardai todos os meus sentidos, de maneira que minha alma se deleite constantemente em Deus e com as coisas celestiais. Meus anjos bem amados: fui colocada sob vossa guarda pelo doce Jesus; eu vos suplico que me guardeis sempre com cuidado, pelo amor dEle. Oh meus anjos bem-amados, eu vos peço que me conduzam um dia perante a Rainha do Céu, e de suplicar-lhes que eu seja colocada nos braços do divino Menino Jesus, seu Filho Amado!".

Qual é a natureza desses espíritos puros? Os anjos são seres puramente espirituais, dotados de inteligência, vontade e livre arbítrio, elevados por Deus a ordem sobrenatural, isto é, chamados pela graça a participar na vida de Deus através da visão beatífica. Muitíssimo mais perfeitos que os homens, sua inteligência é inesgotável e sua vontade imensamente poderosa. Como não têm dependência alguma da matéria, seu conhecimento é consideravelmente mais perfeito que o do homem; para eles, ver é já conhecer. E conhecer significa compreender as coisas com toda profundidade de que são capazes, em sua substancia, e sem possibilidade de erro. Por isso, a prova, para eles, teve conseqüência imediata e irremediável. Pois seu querer é absoluto, sem volta atrás. Aquilo que querem, o desejam para todo e para sempre.

Daí o ato de que, depois da prova, tenham passado imediatamente a eternidade do Inferno (os demônios), como a do Céu (os anjos bons).

Deus criou os anjos para conhecê-lo, amá-lo, servi-lo e proclamar suas grandezas, executar suas ordens, governar este universo e cuidar da conservação das espécies e dos indivíduos que nele vivem.

"Como príncipes e governadores da grande Cidade do Bem, a que se refere todo o sistema da criação, os anjos presidem, na ordem material, o movimento dos astros, a conservação dos elementos, e a realização de todos os fenômenos naturais que nos enchem de alegria ou de terror. Entre eles está compartida e repartida a administração deste vasto império. Uns cuidam dos corpos celestes, outros da terra e de seus elementos, outros de suas produções, árvores, plantas, flores e frutos. A estes, está confiado o governo dos ventos e mares, dos rios e fontes; a aqueles, a conservação dos animais. Não há uma criatura visível, nem grande nem pequena, que não tenha uma potência angélica encarregada de velar por ela".

Algumas vezes os anjos, quando são enviados por Deus aos homens para alguma missão, utilizam a forma humana, a fim de acomodar-se a nossa natureza. Sem obstáculo, nesses corpos etéreos e rápidos com os quais em geral aparecem, não estão como a alma humana está no corpo, dando-lhe vida e tornando-o capaz de executar as tarefas. Pelo contrário, ali estão como um operador está em sua máquina, da qual se serve para executar as obras de sua arte. Fora do horário de trabalho, não tem com ela nenhuma ligação.

"Segundo os estudiosos, as aparições acidentais dos anjos no mundo não são mais que o prelúdio de sua aparição habitual no Céu. Assim, é provável que no Céu os anjos assumiram magníficos corpos aéreos para regozijar a vista dos eleitos e conversar com eles cara a cara".

Conclusão: devoção e fidelidade aos anjos

Evidentemente, todas essas maravilhas do mundo angelical deveriam levar-nos a um profundo amor, reverência e gratidão especialmente para com nosso Anjo da Guarda, evitando tudo aquilo que possa penalizá-lo, como são nossos pecados.

"Como te atreverias a fazer na presença dos anjos aquilo que não farias estando eu diante de ti?", nos interpela São Bernardo. A reverência a seu Anjo da Guarda levava São Estanislau Kostka, que o via constantemente, a esta estranha delicadeza: quando ambos deviam entrar por uma porta, ele pedia ao anjo que passasse antes. E como este, às vezes, o recusasse, insistia com ele até que cedesse.

Talvez tantos e tão bons exemplos nos sirvam para corrigir nossa idéia e visão dos seres puros como para reverenciar e aumentar nossa devoção a esses bem-aventurados espíritos angelicais que Deus, em sua misericórdia, nos concedeu como guardiões, conselheiros, protetores e mensageiros — especialmente valiosos no mundo neo-pagão em que vivemos —, com vistas a obtenção da vida eterna!

Os anjos, além de levar a Deus nossas notícias, trazem os auxílios de Deus a nossas almas e nos acalmam como bons pastores, com comunicações doces e inspirações divinas. Deus se vale deles para comunicar-se conosco. Os anjos nos defendem de todos os males e nos amparam.

(São João da Cruz, Cânticos Espirituais, 2,3)

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