A cada dia que passa a Natureza vem sofrendo um processo de destruição em
ritmo acelerado. Paradoxalmente, o progresso é o principal causador desse
desastre em escala mundial. Gibran, com percepção e sensibilidade já previra
essa catástrofe há muitos anos atrás ao escrever um texto primoroso: "O Homem
e a Natureza", no qual ele imagina comoventes diálogos com os pássaros, com
as flores... E termina com uma pergunta, que deverá ser de agora em diante, o
nosso grito de protesto: “Por que o homem deve destruir o que a
Natureza construiu?”
~ Arnaldo Poesia ~
~ O Homem e a Natureza ~
~ Gibran Kahlil Gibran ~
Ao romper do dia, sentei-me na campina, travando conversa com a Natureza,
enquanto o Homem ainda descansava sossegadamente nas dobras da sonolência.
Deitei-me na relva verde e comecei a meditar sobre estas perguntas:
Será a Beleza Verdade? Será Verdade a Beleza?
E em meus pensamentos vi-me levado para longe da humanidade. Minha imaginação
descerrou o véu de matéria que escondia meu íntimo. Minha alma expandiu-se e
senti-me ligado à Natureza e a seus segredos. Meus ouvidos puseram-se atentos à
linguagem de suas maravilhas.
Assim que me sentei e me entreguei profundamente à meditação, senti uma brisa
perpassando através dos galhos das árvores e percebi um suspiro como o de um
órfão perdido.
“Por que te lamentas, brisa amorosa?” perguntei.
E a brisa respondeu: “Porque vim da cidade que se escalda sob o calor do sol,
e os germes das pragas e contaminações agregaram-se às minhas vestes puras.
Podes culpar-me por lamentar-me?”
Mirei depois as faces de lágrimas coloridas das flores e ouvi seu terno
lamento... E indaguei: “Por que chorais, minhas flores maravilhosas?”
Uma delas ergueu a cabeça graciosa e murmurou: “Choramos porque o Homem virá
e nos arrancará, e nos porá à venda nos mercados da cidade.”
E outra flor acrescentou: “À noite, quando estivermos murchas, ele nos
atirará no monte de lixo. Choramos porque a mão cruel do Homem nos arranca de
nossas moradas nativas.”
Ouvi também um riacho lamentando-se como uma viúva que chorasse o filho
morto, e o interroguei: “Por que choras meu límpido riacho?”
E o riacho retrucou: “Porque sou compelido a ir à cidade, onde o Homem me
despreza e me rejeita pelas bebidas fortes, e faz de mim carregador de seu lixo,
polui minha pureza e transforma minha serventia em imundície.”
Escutei, ainda, os pássaros soluçando e os interpelei: “Por que chorais meus
belos pássaros?”
E um deles voou para perto, pousou na ponta de um ramo e justificou: “Daqui a
pouco, os filhos de Adão virão a este campo com suas armas destruidoras e
desencadearão uma guerra contra nós, como se fôssemos seus inimigos mortais.
Agora estamos nos despedindo uns dos outros, pois não sabemos quais de nós
escaparão à fúria do Homem. A morte nos segue, aonde quer que vamos.”
Então o sol já se levantava por trás dos picos da montanha e coloria os topos
das árvores com auréolas douradas. Contemplei tão grande beleza e me perguntei:
“Por que o homem deve destruir o que a Natureza construiu?”
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Fonte: A Voz do Mestre, Gibran Kahlil Gibran – Tradução do original, em inglês:
Arnaldo Poesia.
Links relacionados:
— Gibran Kahlil Gibran: O Poeta do Amor

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