Cruz de Jerusalém - Dieu-Le-Veut

Cerco de Jerusalém

Cruz de Jerusalém - Dieu-Le-Veut


"Pelas muralhas e portas, derrubando, destruindo, ou incendiando no que se lhe opunha, o exército vencedor penetra então na cidade. O ferro semeia por todas as partes a desolação e a morte, o luto e o horror. O sangue forma lagos ou corre em arroios que arrastam no seu curso cadáveres e moribundos."

                    – Torquato Tasso, Jerusalém Libertada, Canto XVIII, 1575.


Ao entardecer do dia 7 de junho de 1099 os cruzados acamparam perto das muralhas de Jerusalém, que estava sob controle egípcio. Em 15 de julho, aqueles a tomaram de assalto e massacraram quase todos seus habitantes.

O cerco de Jerusalém foi um acontecimento que teve lugar entre o dia 7 de junho e 15 de julho de 1099 durante a Primeira Cruzada. Os cruzados conseguiram entrar e conquistar a cidade santa de Jerusalém das mãos do califado fatímida do Egito.

– Antecedentes

A Primeira Cruzada foi criada após o pedido do Papa Urbano II para conquistar a Terra Santa das mãos dos muçulmanos durante o Concílio de Clermont.

Os cruzados, até esse momento, haviam tido muito êxito, e haviam conquistado a cidade de Antioquia depois de um bem sucedido cerco em junho de 1098. Os cruzados, por diversas razões, permaneceram nessa área durante o resto do ano. O emissário papal Ademar de Le Puy tinha morrido, e Bohemundo de Tarento havia reclamado o controle de Antioquia para si mesmo. Balduíno de Bolonha continuava na cidade de Edesa, que tinha sido tomada em começos desse ano. Existia certo desacordo entre os príncipes sobre qual deveria ser o seguinte passo a seguir porque Raimundo de Toulouse, frustrado, deixou Antioquia para tomar a fortaleza de Ma'arrat al-Numan. No final do ano os cavaleiros menores e a infantaria estavam ameaçando seus líderes em marchar para Jerusalém por sua própria conta.

– O cerco de Arqa

No final de dezembro ou começo de janeiro, Roberto II da Normandia e Tancredo da Galileia aceitaram converter-se em vassalos de Raimundo, cuja riqueza era suficiente como compensação de seus serviços. Godofredo de Bouillon, por outro lado, como desfrutava dos benefícios que obtinha seu irmão Balduíno do território de Edesa, recusou fazer o mesmo.

Em 5 de janeiro Raimundo destruiu as muralhas de Ma'arrat, e em 13 de janeiro começou a marchar para o sul, descalço e vestido como un peregrino, seguido por Roberto e por Tancredo. Seguiram a orla da costa do mar Mediterrâneo e encontraram pouca resistência, se bem que os governantes muçulmanos locais preferissem firmar a paz e entregar provisões em lugar de lutar. Contudo, é provável que os habitantes locais sunitas chegassem a preferir o controle dos cruzados ao dos fatímidas, de rito xiita.

Raimundo planejava tomar Trípoli e governá-la ele mesmo, estabelecendo um estado cruzado equivalente ao que Bohemundo havia estabelecido em Antioquia. Em primeiro lugar, sem dúvida, cercou a cidade de Arqa. Enquanto Godofredo, junto com Roberto II de Flandres (que também se havia negado a se converter em vassalo de Raimundo), se reuniu com os cruzados que estavam em Latakia e marchou até o sul em fevereiro. Bohemundo partiu também com eles, mas voltou rapidamente para Antioquia. Tancredo também entregou o serviço a Raimundo e se uniu com Godofredo, por culpa de alguma disputa de conteúdo desconhecido. Outra força separada, ainda que vinculada a Godofredo, era comandada por Gastão IV de Béarn.

Godofredo, Roberto, Tancredo e Gastão chegaram a Arqa em março, mas o cerco continuou. A situação era tensa não só entre os líderes militares, senão também entre o clero. Como não existia um líder espiritual verdadeiro na Cruzada, e desde o descobrimento em Antioquia da Lança Sagrada por Pedro Bartolomeu havia acusações de fraude entre as distintas facções religiosas. Finalmente, em abril, Arnulfo de Chocques desafiou Pedro Bartolomeu a submeter-se a prova (sentença) do fogo divino. Pedro aceitou e se submeteu a prova, mas finalmente morreria em consequência das queimaduras.

O cerco de Arqa duraria até 13 de maio, data em que os cruzados abandonaram o cerco sem haver chegado a tomar a cidade.

– O cerco de Jerusalém (Chegada à Cidade Santa)

Os fatímidas tentaram chegar a um acordo de paz com a condição de que os cruzados não continuassem até Jerusalém, mas foram ignorados. Iftikhar ad-Daula, o governador fatímida de Jerusalém, aparentemente não compreendia o motivo que havia levado os cruzados até ali. No dia 13 de maio os cruzados chegaram a Trípoli, e seu governante lhes deu dinheiro e cavalos. Segundo a crônica anônima Gesta Francorum, também jurou converter-se ao cristianismo se os cruzados tivessem êxito na tomada de Jerusalém das mãos de seus inimigos fatímidas.

Daí, os cruzados seguiram em direção ao sul, ao longo da costa, e passaram por Beirute em 19 de maio e por Tiro em 23 de maio, embrenhando-se então terra a dentro até Jaffa para chegar a Ramala em 3 de junho. Esta última cidade já havia sido abandonada por seus habitantes quando chegaram os cruzados. Os cruzados se detiveram para estabelecer aí a igreja de São Jorge (um santo muito popular para eles) para logo dirigir-se a Jerusalém. Em 6 de junho Godofredo enviou Tancredo e Gastão para tomar a cidade de Belém, lugar em que Tancredo fez tremular sua bandeira na Igreja da Natividade. Em 7 de junho os cruzados chegaram a Jerusalém, momento no qual muitos chegaram inclusive a chorar ao contemplar a cidade tão desejada.

Algo parecido ocorreu em Antioquia, quando os cruzados sitiaram a cidade. Possivelmente o cerco foi mais difícil para os próprios cruzados que para os habitantes de Jerusalém, considerando que os primeiros tinham grande escassez de água e comida por não haver lugares apropriados para serem mantidos. Jerusalém, sem dúvida, estava bem preparada para aguentar o cerco, e o governador fatímida havia expulsado previamente a maioria dos cristãos.

Do total estimado de 7.000 cavaleiros que haviam tomado parte na Primeira Cruzada, só restaram 1.500, junto com outros 12.000 soldados em bom estado físico (de un total que pode haver sido de uns 20.000). Godofredo, Roberto de Flandres e Roberto da Normandia (que também havia abandonado Raimundo para unir-se a Godofredo) assediaram o norte da cidade até a altura da Torre de David, enquanto que Raimundo estabelecia seu acampamento no muro oeste, desde a Torre de David até o Monte Sião.

Um primeiro assalto direto sobre as muralhas em 13 de junho resultou um fracasso. Por outro lado, sem água nem comida tanto os cavaleiros como os animais morriam de sede e de inanição, porque os cruzados estavam conscientes de que o tempo não corria a seu favor. Certamente, pouco depois do primeiro assalto chegou certo número de navios cristãos ao porto de Jaffa, e os cruzados voltaram a se reabastecer durante algum tempo. Também começaram a juntar madeira trazida da Samaria para poderem construir armas de ataque. Sem dúvida, seguiam com falta de água e de comida, e no final de junho começaram a chegar noticias de que um exército fatímida estava marchando desde o norte de Egito.

– A procissão descalça

Enfrentadas ao que parecia uma tarefa impossível, a moral do exército subiu quando um padre chamado Pedro Desidério assegurou haver tido uma visão divina na qual o fantasma de Ademar lhe disse que deviam jejuar durante três dias e logo marchar descalços na procissão em volta das muralhas da cidade. Depois disto, a cidade cairia num prazo de nove dias, seguindo o exemplo bíblico de Josué na conquista de Jericó. Apesar de estarem famintos, comeram e marcharam em procissão no dia 8 de julho, com os padres tocando as trombetas e cantando salmos enquanto que os defensores da cidade debochavam deles. A procissão terminou no Monte das Oliveiras, onde Pedro o Ermitão, Arnulfo de Chocques e Raimundo de Aguilers pronunciaram vários sermões.

– O assalto final e o massacre

Ao longo do cerco, os cruzados levaram a cabo diversos ataques contra as muralhas da cidade, mas todos foram repelidos. As tropas genovesas comandadas por Guillermo Embriaco haviam desmontados os navios em que haviam chegado a Terra Santa e, utilizando a madeira desses barcos, construíram algumas torres de assalto. Estas torres foram enviadas até as muralhas da cidade na noite de 14 de julho entre a surpresa e a preocupação da guarda defensora. Na manhã do dia 15, a torre de Godofredo chegou a sua parte das muralhas próximo do flanco noroeste da cidade e, segundo a Gesta, dos cavaleiros procedentes de Tournai chamados Letoldo e Gilberto foram os primeiros a entrarem na cidade, seguidos por Godofredo, seu irmão Eustácio, Tancredo e seus comandados. A torre de Raimundo de Saint-Gilles estava cercada por uma vala, mas os cruzados entraram por outro caminho, e os guardas se renderam ao conde de Toulouse.

Tão logo os cruzados conseguiram entrar na cidade começaram a realizar um massacre no qual morreram quase todos os habitantes de Jerusalém. O massacre se prolongou durante a tarde, noite e na manhã do dia seguinte. Foram massacrados muçulmanos, judeus, e inclusive alguns cristãos num cenário de violência indiscriminada. Muitos muçulmanos buscaram refúgio na mesquita de Al-Aqsa onde, segundo um famoso relato da Gesta Francorum¹, "... a carnificina foi tão grande que nossos homens andavam com sangue na altura dos joelhos..." Um dos homens que participou daquele massacre deixou um relato para a posteridade que fala por si só:

"Maravilhosos espetáculos alegravam nossos olhos. Alguns de nós, os mais piedosos, cortaram as cabeças dos muçulmanos; outros foram alvos de suas flechas; outros foram mais longe e os arrastaram para as fogueiras. Nas ruas e praças de Jerusalém não se viam mais que montes de cabeças, mãos e pés. Foi derramado tanto sangue na mesquita edificada sobre o templo de Salomão, que os cadáveres flutuavam nela e em muitos lugares o sangue nos chegava até os joelhos. Quando não havia mais muçulmanos para matar, os chefes do exército se dirigiram em procissão até a Igreja do Santo Sepulcro para a cerimônia de ação de graças."

A crônica de Ibn al-Qalanisi conta que os defensores judeus buscaram refúgio em sua sinagoga, mas que os Francos (os cruzados) incendiaram o templo com eles dentro, matando a todos em seu interior. Também diz que os cruzados davam voltas no prédio em chamas enquanto cantavam "Cristo, Te Adoramos!"

Tancredo, por sua parte, reivindicou o controle do Templo de Jerusalém, e ofereceu proteção a alguns dos muçulmanos que se haviam refugiado ali. Certamente, foi incapaz de evitar suas mortes em mãos de seus companheiros cruzados. O governador fatímida Iftikhar ad-Daula seguiu para a Torre de David, e acabou se entregando a Raimundo em troca de um salvo-conduto para ele e sua guarda até Ascalon.

Por outro lado, a Gesta Francorum afirma que algumas pessoas conseguiram escapar a tomada de Jerusalém vivas. Seu autor escreveu: "Quando os pagãos foram vencidos, nossos homens prenderam muitos, tanto mulheres como homens, ou bem os matavam ou os mantinham presos. Nossos líderes também ordenaram que todos os sarracenos mortos fossem mandados para fora da cidade devido o mau cheiro, embora toda a cidade estivesse cheia de corpos; e por isso os sarracenos vivos arrastaram os mortos até as saídas das muralhas e os amontoaram como se fossem lixo. Nunca pude ver nada ou ouvir sobre um massacre como esse de pagãos, ao mesmo tempo em que as piras funerárias se elevavam como pirâmides, e nada se sabe ao certo sobre o número exato de mortos. Só Deus."

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Nota¹: A Gesta Francorum (Gesta dos Francos) é uma crônica da Primeira Cruzada escrita em latim em 1100–1101 por um autor anônimo que participou da campanha. Seu nome completo é De Gesta Francorum et aliorum Hierosolimitanorum (Da gesta dos Francos e os outros peregrinos em Jerusalém).

A crônica narra as atividades da Primeira Cruzada desde sua criação em novembro de 1095 até a batalha de Ascalon em agosto de 1099. Não se conhece o nome do autor (citado apenas como “o Anônimo”, mas sabemos que formava parte do exército cruzado recrutado por Bohemundo de Tarento em 1096 no ducado de Apulia. Quase certo que era normando ou italiano, devia tratar-se de um simples cavaleiro, não de um grande líder nem de un clérigo. O relato foi composto e escrito durante a Cruzada, com ajuda de um escritor que introduziu ocasionalmente comentários próprios. Ao se tratar do testemunho pessoal dos acontecimentos na época, a Gesta tem um grande valor como fonte de informação, em particular sobre o desempenho diário da expedição (itinerário, operações táticas, logística) e sobre o que passava pela mente dos cruzados, por exemplo, o estado emocional da tropa.

Para seus contemporâneos instruídos, o Anônimo era “primitivo”. Gilberto de Nogent escreveu sua Dei gesta per Francos (1108) inspirando-se na Gesta, mas afirmando que o original “frequentemente deixava o leitor confuso com sua monotonia”. O monge Roberto de Reims recebeu a tarefa de reescrever a Gesta completa para embelezá-la literária e historicamente e Baudri de Dol também escreveu uma versão modificada “desta pequena e rústica obra”. Sem dúvida, o original foi conservado e chegou até os nossos dias, sendo uma das mais valiosas fontes informativas sobre a Primeira Cruzada.

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Nota²: Em sua visita à Terra Santa em celebração pela passagem do segundo Milênio do Cristianismo, o papa João Paulo II pediu perdão aos judeus e muçulmanos pela Igreja Católica ter instigado a Cruzada que terminou por produzir um terrível massacre da população civil judaica e árabe de Jerusalém, por parte dos cavaleiros cristãos.


Bibliografia: Estudos sobre a Idade Média, Arnaldo Poesia, Ed. do autor, Niterói, 1987. – The Crusades, Hans Eberhard Mayer, Oxford, 1988. – The First Crusade and the Idea of Crusading, Jonathan Riley-Smith, University of Pennsylvania Press, 1986. – Parallel source problems in medieval history, Frederic Duncalf, New York, London, Harper & Brothers, 1912, cap III. – Essays, Political, Historical, and Miscellaneous – vol. II, Sir Archibald Alison, London, – Climax of the First Crusade, J. Arthur McFall, Military History.

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