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... E o momento presente é
eternidade. Johann Wolfgang von Goethe foi um gênio universal. Sua vasta obra compreende, além das inúmeras peças dramáticas, como o célebre Fausto, romances, contos, poesia lírica, cartas e descrições de viagens, assim como estudos de ciências humanas e naturais, em que se destacam a Teoria das cores e a Metamorfose das plantas. Com seu pensamento e arte, influenciou a cultura de toda uma época. Todos os grandes nomes deste período estiveram envolvidos nesse processo. Goethe e Weimar, cidade em que passou os anos mais produtivos de sua vida, podem ser citados, de um só fôlego, como sinônimos do classicismo alemão. Uma contribuição de peso para a história da cultura ocidental.
~ Vida e Obra de Johann Wolfgang von Goethe ~ "Quando
alguém olha para o meu livro, O criado sobe as escadas e abre a porta do quarto. São 6 horas da manhã. A pálida luz da vela obriga-o a tatear pelo aposento, com passos incertos. De repente, pára. Vê a pistola caída no chão. Pouco além, encontra-se o amo. O sangue empoçado ao redor da cabeça. Na escrivaninha, algumas folhas de papel: uma confissão desesperada de amor, uma paixão impossível por Charlotte. O jovem Werther está morto. Não sofre mais.
Alemanha, 1774. Johann Wolfgang Goethe pensa na repercussão do
trágico fim de Werther, que havia provocado uma comoção geral, entre os jovens.
Logo se multiplicaram suicídios idênticos. O gesto havia-se tornado, em pouco tempo,
sedutor, e a moda, alarmante, a ponto de ficar conhecida como o mal do século.
Goethe observa o que está acontecendo e sente-se profundamente amargurado, Afinal,
Werther não tinha existido verdadeiramente: era apenas uma criatura da sua
fantasia, uma personagem de ficção. VERSOS E MULHERES Goethe nasceu no dia 28 de agosto de 1749, na cidade de Frankfurt-sobre-o-Meno. O pai, conselheiro da corte de Frederico II (1712-1786), era homem austero e culto, entusiasmado pela ciência e amante das artes. A mãe, vinte anos mais jovem que o marido, era pessoa alegre e disposta e tinha especial talento para contar histórias. Wolfgang dirá anos mais tarde que herdou do pai "a conduta séria da vida" e, da mãe, "a natureza alegre e o gosto de narrar". Quando tinha dez anos, Frankfurt foi ocupada pelos franceses. O menino ouvia
falar a língua e entusiasmava-se com as referências e os elogios feitos aos
escritores franceses: Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Voltaire
(1694-1778). O próprio chefe das tropas invasoras hospedou-se na casa de seus
pais. A cultura francesa, e não a alemã, portanto, é que incentivou a vocação
literária de Goethe, que já ensaiava os primeiros versos. "TEMPESTADE E ÍMPETO" Os jovens intelectuais perceberam que Herder não era o expositor de um
rígido sistema filosófico, e sim o fermento de novas idéias para a cultura
alemã e universal. Reuniram-se, então, em torno dele. O grupo, conhecido
como a "geração de 1750” — Goethe, Schiller (1759-1805), Klinger (1752-1831),
Lenz (1750-1792), entre outros — iniciou um movimento sem precedentes, o Sturm und
Drang (denominação tirada
OS MALOGROS AMOROSOS Durante o período em que viveu nesta cidade, Goethe costumava fazer
excursões para coletar documentos sobre a poesia popular. Numa dessas buscas,
conhecera Friederike Brion, a filha do vigário de uma aldeia das proximidades.
Friederike reunia a graça da mulher citadina e a vitalidade ingênua da
camponesa. Mas as tarefas que o haviam levado fortuitamente ao encontro com a
jovem acabam por obrigá-lo a abandonar Friederike. Deve continuar o trabalho em
outros lugares. Mais tarde se sentirá culpado desse abandono: "Tinham-me
tomado Gretchem, Anette me havia abandonado, agora eu era culpado pela primeira
vez. Eu partira o melhor dos corações até o fundo e aquela época de sombrio
remorso foi extremamente penosa, intolerável mesmo, na ausência do amor
apaziguador a que eu estava habituado". A imagem de Friederike continuará
em sua memória e ele a imortalizará na personagem feminina do Fausto,
Margarida. O DUCADO DE WEIMAR Goethe fracassara em todas as suas tentativas amorosas. Sua celebridade,
porém, não parara de crescer. Em 1775, o Duque Carlos Augusto (1757-1828) convida-o
para administrar o ducado de Weimar, onde Johann Sebastian Bach (1685-1750), um século
antes, tinha realizado sua aprendizagem musical. Goethe aceita, sabendo que essa
decisão mudará o rumo de sua vida. Em Weimar, o jovem duque arrasta-o a
festas, corridas a cavalo, caçadas e bailes campestres. O duque é pessoa
extremamente extrovertida, e Goethe o julga "uma natureza demoníaca, cheia
de atividade e inquietude". Só depois de alguns meses é que o poeta
realmente se dedicará a questões administrativas, militares
e financeiras, e cuidará de estradas, minas e florestas. O contato com a
realidade impõe-lhe estudos de geologia, botânica, mineralogia e anatomia. A
impetuosidade que havia caracterizado os anos da juventude diminui com o
desempenho do trabalho rotineiro, que o absorve inteiramente. ÚLTIMA PAIXÃO Há quatro semanas regressara a Weimar, quando, numa manhã cheia de sol,
uma jovem bate à porta de sua casa: vem pedir um favor para o irmão. Chama-se
Christiane Vulpius, tem 23 anos e é operária numa fábrica de flores artificiais.
Goethe contempla as linhas delicadas do seu rosto e os longos cabelos ondulados.
Sente o coração tocado pela beleza e pela simplicidade da moça. Surge mais uma
paixão amorosa: esta real e duradoura. Christiane torna-se a companheira de Goethe,
dando-lhe um filho no dia do Natal de 1789. Têm mais quatro filhos, todos
falecidos logo após o nascimento. Mas somente dezoito anos depois Goethe
resolveria casar-se com ela. MAIS LUZ Ainda em Weimar, reunindo o conhecimento adquirido durante muitos anos
de estudos científicos, conclui a Teoria das Cores. Escreve também o romance
As Afinidades Eletivas e Viagem à Itália. O primeiro estuda a desagregação
dos sentimentos humanos sob a ação de determinados elementos, assim como
acontece quimicamente na natureza. O segundo relata os benefícios que o autor
auferiu para o seu espírito inquieto e para a sua arte, ao visitar a península
itálica, onde se defrontou com um patrimônio imenso de civilização. Em 1823,
resolve passar uma temporada na estação de águas de Marienbad, em busca de
descanso. Freqüentando a casa de Madame Levetzow, conhecerá uma de suas
filhas, Ulrike. A beleza e o encanto da jovem lhe despertam sentimentos já
adormecidos. Goethe desejará mesmo casar-se com a moça. Pela última vez,
brilhava e extinguia-se a paixão de uma juventude que ele não conseguira
esquecer. 22 de março de 1832. Goethe está sentado na
poltrona, ao lado da cama. Seu estado de saúde havia piorado nos últimos dias,
por causa de um resfriado. Começa a amanhecer, mas o quarto ainda está escuro.
Goethe respira com dificuldade. Faz um sinal ao criado, como se estivesse
pedindo algo. O criado aproxima-se e ouve as últimas palavras pronunciadas por
entre espasmo: "Abram a janela do quarto, para que entre mais luz".
CRONOLOGIA 1749
– Aos 28 de agosto, em
Frankfurt-sobre-o-Meno, nasce Johann Wolfgang Goethe, filho de Johann Kaspar e
Katharina Elizabeth Goethe.1759 – Em janeiro, Frankfurt é invadida pelos franceses. 1765 – Em outubro, Goethe começa a cursar a universidade, em Leipzig. 1766 – Conhece Anette Schömkopf, inspiradora de seus primeiros poemas. 1768 – Gravemente enfermo, volta a Frankfurt. 1770 – Em Strasburgo, estuda direito, medicina, história e ciências políticas. Conhece Herder. 1771 – Licencia-se em direito. Em novembro, escreve a primeira versão do drama "Götz von Berlichingen". 1772 – Apaixona-se por Charlotte Buff. 1773 – Publica a segunda versão de "Götz von Berlinchingen". Inicia "Fausto; uma Tragédia". 1774 – Publica "Os Sofrimentos do Jovem Werther". 1775 – Na Páscoa, fica noivo de Lili Schönemann. Em outubro, rompe o noivado. Em novembro, parte para Weimar, a convite do Duque Carlos Augusto. 1776 – Estabelece-se em Weimar. 1779 – Encena o drama "Ifigênia em Táurida". 1786 – Em setembro, viaja para a Itália. Conclui a última versão de "Ifigênia". 1787 – Viaja pelo sul da Itália. Dedica-se a pesquisas científicas. Em junho, volta a Weimar. 1788 – Conhece Christiane Vulpius, mais tarde sua esposa. Conclui "Torquato Tasso". Conhece Schiller. 1794 – Estada em Iena, junto a Schiller. 1797 – Termina o poema "Hermann e Dorotéia". 1805 – Morte de Schilier. 1808 – Goethe publica "Fausto; uma Tragédia", e em outubro é recebido por Napoleão Bonaparte. 1819 – Termina "Divã Oriental". 1832 – Aos 2 de fevereiro termina o "Segundo Fausto", e, aos 22 de março, morre.
~ Leitura de "Fausto" (1806, "Prólogo no Céu") ~ Goethe trata aqui, mais uma vez, do grande tema do teatro barroco: Primeira parte Em seu gabinete, Fausto medita sobre sua existência e o sentido da vida. Através da magia, tenta desvendar o mistério do mundo, que não consegue. Depois de conversar com seu criado Wagner, pensa em suicídio como forma de salvação mas desiste ao ouvir o repicar dos sinos da Páscoa. Passeando com Wagner ele se comove com a natureza e descobre duas almas dentro de seu peito que desejam separar-se. Um cão, que o segue até seu gabinete se apresenta como Mefisto. Fausto propõe-lhe um pacto: Mefisto deve acompanhá-lo em sua vida terrena e em troca poderá dispor de sua alma, no além. Um dia, Fausto é levado ao laboratório das bruxas e a partir daí se apaixona por uma jovem angelical de nome Margarida. O amor puro de Margarida e sua suspeita de que Mefisto é diabólico despertaram em Fausto seu lado melhor. Um sonífero dado à mãe, para possibilitar que Fausto passe a noite com Margarida tem conseqüências fatais. Ao tomar conhecimento dos fatos, Valentim, irmão de Margarida, briga com Fausto que acaba por matá-lo. Desesperada Margarida reza diante da imagem de N. S. das Dores e escuta a voz incriminadora de sua consciência. Enquanto isso, Mefisto conduz Fausto para a noite de Walpurgis. Uma terrível desilusão está por acontecer. Fausto encontra Margarida, que matara o filho, já numa prisão, louca. Ela se dá conta de que Mefisto é o diabo e se entrega à justiça divina. ~ Mater Dolorosa ~
(No nicho da muralha a imagem da Senhora MARGARIDA, pondo flores nas jarras: Oh! inclina, Com a espada no peito, Ergues a Deus o olhar, Quem sente Para onde quer que eu for, Os vasos da janela E logo que ao nascer Socorro! livra-me da vergonha e da morte! ~ Mater Gloriosa ~ UMA DAS PENITENTES, que outrora se chamou Margarida, Inclina, inclina, O Amado de outrora Segunda parte Adormecido numa paisagem Fausto tenta esquecer a tragédia com Margarida. Ariel, o espírito do vento, liberta-o do arrependimento. Mefisto leva Fausto à corte imperial e, como conseguem resolver os problemas financeiros do imperador, são homenageados. O imperador exige uma prova das artes mágicas de Fausto e exige que este faça aparecer Helena e Paris, figuras da mitologia grega. Ele consegue as figuras em sua forma corporal, mas quando tenta abraçar Helena, dá-se uma explosão e Fausto desmaia. Mefisto transporta-o ao seu gabinete, onde seu ex-criado trabalha na produção de um homem artificial. Homúnculos, o homem artificial, aconselha Mefisto a levar Fausto à noite de Walpurgis na Grécia. Fausto procura por Helena e encontra a vidente Manto que lhe proporciona o acesso ao mundo subterrâneo, onde Helena poderá ser encontrada. No mundo dos seres antigos Mefisto só consegue se ambientar a duras penas. Deus Sismo provoca um terremoto e Mefisto fica desnorteado. Na horrível máscara de Forcis, Mefisto recupera sua autoconfiança. Na Grécia consuma-se o destino de Homúnculos, que deseja se livrar da sua figura de anão. Para tanto, visita o filósofo Tales, Nereu, o rei do mar e Proteus, que pode transformar tudo. Proteus aconselha a iniciar sua metamorfose na água mas Homúnculos se despedaça, transformando-se em fosforescência do mar. Nesse meio-tempo, Fausto consegue tirar Homúnculos do mundo subterrâneo. O tempo retrocedeu: Helena teme a vingança de seu marido e Forcis aconselha a fuga. Num castelo medieval ela se casa com Fausto e tem um filho. Helena volta ao reino das sombras. Forcis se transforma novamente em Mefisto. Fausto toma partido do imperador que se encontra diante de uma rebelião e vence a batalha com a ajuda de Mefisto. Como recompensa Fausto recebe do imperador terras e começa a cultivá-las. Em um determinado momento desta nova vida de Fausto, se aproximam quatro figuras de mulher: a culpa, a carência, a preocupação e a necessidade. Lutando por impedir a entrada de todas, não consegue a da preocupação que o cega. Mesmo cego, ele se mantém em atividade e sonha com sua obra terminada. Ele morre e Mefisto pensa que venceu a aposta. Entretanto, como Fausto morreu desejando o futuro e a continuidade da jornada espiritual, os anjos salvam sua alma e Mefisto perde o jogo.
~ Leitura de "Stella" (1775, "espetáculo para amantes") ~ Fernando, marido de Cecília, abandona-a para viver com Stella. Tomado pelo remorso, volta para a esposa e a filha. O acaso faz com que ele as encontre no castelo de Stella. Terminada a inevitável tempestade de explicações e revelações, tudo se resolve: as duas mulheres se reconciliam e arranjam uma maneira de viverem num pacífico "ménage à trois". (A peça provocou escândalo e levantou protestos. Mas só em 1806, Goethe resolve alterar o final: Stella envenena-se e Fernando suicida-se com uma arma de fogo).
~ Leitura de "Egmont" (1787, tragédia em 5 atos) ~ A ação se passa em 1566 e 1567 em Bruxelas, sob a regência de Margarida de Parma, que governa aconselhada por Egmont e Guilherme de Orange. A força do caráter de Egmont se reflete nas esperanças do povo e no amor de Clarinha. Enquanto Egmont, fiel ao rei, tenciona dirigir o movimento de emancipação sem sair da legalidade, Guilherme é partidário de uma revolução. Em vão Guilherme de Orange tenta convencer o amigo a recusar o convite que o duque de Alba lhe faz. Egmont aceita o convite mas é atraiçoado e condenado à morte. Clarinha percebe o destino de seu amado e se envenena. A revolta de Egmont contra o destino se transforma quando o filho de seu inimigo se declara a seu lado. Esta vitória pessoal permite a Egmont aguardar serenamente a hora derradeira.
~ Poemas de Goethe ~
Aos Leitores Amigos Poetas não
podem calar-se, Quanto errei,
quanto vivi,
Livro de Leitura O mais singular livro dos
livros
Que assim te afague... Que assim te afague, ó meu
Amor, e te ouça
Epigrama (Veneza, 1790) "Maus, para a esquerda!
" mandará um dia o Juiz,
Elegias Romanas Falai-me, ó
pedras! oh falai, vós altos palácios!
O Divino
Nobre seja o homem,
Pensamentos
Todos
os dias deveríamos ler um Pensar
é mais interessante
Aquele que
tem ciência e arte tem Tudo é combate, luta.
Só merece
~ Afinidades Eletivas ~
"E assim descansam os dois amantes um ao lado do
outro. De todos os livros de Goethe "Afinidades Eletivas" é o mais rico em matizes e meios-tons. O esquema de construção do romance está centrado na distribuição dos personagens aos pares. Não são casais no sentido matrimonial do termo, mas sim pares ligados por atrações inevitáveis. O interesse romanesco nasce do jogo de polaridades, encantamentos e repulsas que se estabelece entre os casais. Mas o relacionamento Homem-Mulher é considerado aqui não apenas em sua complementação sexual, ele é também e principalmente objeto de análise moral e psicológica.
Houve na vida de Goethe, um nome predominante de mulher. Coincidência, acaso ou adoração? Que influência teria exercido sobre o grande gênio o nome "Charlotte"? Na vida real, ele amou quase sempre uma Charlotte. Influência da própria mulher ou do nome? Charlotte Kestner e Charlotte von Stein passaram por sua vida, como amantes adoradas e musas inspiradoras. Na primeira, temos a Charlotte do apaixonado "Werther"; na última, a sublime Charlotte, heroína de "Afinidades Eletivas". Em sua imensa bagagem literária, vamos encontrar sempre "Charlotte", sublimada, exaltada, dignificada na beleza de sua prosa, no lirismo apaixonado de suas rimas. Mas qual a que lhe inspirou o amor, que transbordava de seu pensamento, que fluía de sua pena mágica? Todas, ou cada uma por sua vez? Teria havido aquela, que nenhuma outra igualava, a insubstituível? Em Charlotte von Stein, muito mais velha que ele, com muitos filhos, teria sido a mulher ou o nome, que o atraiu? "O belo talismã de minha vida", como ele próprio a chamava. Entre todas as beldades da corte, para ele, foi ela, sem dúvida, a mais sedutora. A primeira vez em que a viu contava, apenas, 26 anos e os 33 anos deliciosos dessa bela mulher, espirituosa, culta, delicada e ambiciosa, acenderam, na alma do jovem, o fogo da paixão. Hermann Grimm tenta mostrar essa inclinação como pura, inocente, não ultrapassando os limites de grande dedicação e efusiva amizade; mas, se lêssemos a volumosa correspondência dos dois enamorados, ora cartas longas, ora ternos bilhetinhos, não estaríamos de acordo, com o biógrafo, embora ela não justifique, totalmente, as graves acusações de outros. A verdade é que, em Weimar, Charlotte sentiu-se profundamente ferida e decepcionada, ao descobrir a ligação de seu amigo com Cristiana Wulpius, moça de origem modesta, mas que adorava o poeta; furiosa, deixou a cidade, indo para uma estação balneária, não sem deixar-lhe uma carta, cheia de recriminações, a qual só foi respondida algumas semanas depois, quando o amigo lhe deu algumas explicações ponderadas, fazendo-a ver que ele não podia abandonar Cristiana. Charlotte e Goethe ficaram estremecidos por muito tempo, e só alguns anos mais tarde reataram suas relações de amizade, tendo Schiller e sua mulher muito concorrido para isso. Goethe temia afrontar a ira de sua amiga e a sociedade de Weimar; assim é que, vários anos, apresentou a "doce Cristiana" como governanta de sua casa. Só se resolveu a levá-la ao altar, quando, em 1806, achando-se gravemente doente, deveu a vida quase que exclusivamente aos cuidados incansáveis da dedicada jovem. Como todos os círculos sociais, o de Weimar sentia também o mórbido prazer de dar curso à maledicência humana, e essa própria elite, que atacara a ligação ilícita dos dois, não aceitou, do mesmo modo, com agrado, aquele casamento "desigual". Poucos meses antes de sua morte, Charlotte escreve a Goethe, no dia de seu aniversário, como um adeus velado: "Mil venturas e bênçãos pelo dia de hoje. Possam os bons espíritos influir para que tudo, de belo e bom, lhe seja conservado, meu caro amigo. Aceite meus votos de um futuro livre de cuidados; para mim, porém, só desejo, caro, mui caro amigo, sua afeição à minha vida, que se extingue". Charlotte von Stein (nascida von Schardt) Agosto, 1826.
Momentos antes de morrer, expressou a vontade de que não desejava que seu corpo passasse pela casa de Goethe: queria poupar-lhe esse sofrimento.
Goethe começou a escrever "Afinidades Eletivas" no início do ano 1808. Nesse ano, Napoleão, ao invadir a Alemanha, quis ver o escritor, em cujo nome só se falava, e o condecorou com a grande cruz da Legião de Honra. No movimento patriótico contra a França, ele não tomou parte ativa, preferindo escrever tranqüilamente o seu romance "Afinidades Eletivas", enquanto a luta esquentava. A princípio julgou-se ver, como eixo principal do livro, sua tardia inclinação por Minna Herzlieb, mas é ainda Grimm quem nos diz que ele só quis reproduzir os prazeres de seu amor com Charlotte von Stein. As críticas lhe foram adversas, tachando o romance de imoral, propagador do adultério; Goethe, porém, limitou-se a responder com a parábola de Jesus: "Todo aquele, que olhar para uma mulher, com cobiça, já cometeu o pecado em seu coração". Todavia Goethe foi demasiadamente benévolo ao chamar, no final do livro, a Otília de "santa" e a Eduardo, de "bem-aventurado". Em Charlotte iremos encontrar Charlotte von Stein, e em Eduardo, Goethe. É ele próprio quem explica a Eckermann: "Não há nenhuma linha, em "Afinidades Eletivas", que eu não a tenha vivido". Quanto ao título é ainda Goethe quem, ao anunciar o aparecimento do romance no "Morgenblatt" (4 de setembro de 1809), esclarece: "Parece que o constante estudo da física induziu o autor a esse título singular. Ele deve ter observado que, na física, muitas vezes, nos servimos de exemplos práticos para aproximar do alcance da ciência humana algo que esteja distante; dessa maneira pretendeu também aplicar, num caso moral, uma fórmula química, sublimando-a à sua origem espiritual, tanto mais que a natureza é uma só. Através dos serenos domínios do livre arbítrio, arrastam-se, incessantemente, os vestígios da sombria e impulsiva necessidade, que somente com auxílio de uma força superior e, decerto, não nesta vida, serão completamente apagados". O título, talvez, fosse diretamente inspirado na cena culminante do romance, onde marido e mulher se abraçam com ardor e, "de modo prodigioso, mesclam, deliciosa, voluptuosamente, o ausente com o presente". Essas afinidades foram tão imperativas, tão prementes, que elegeram o tipo da criança, concebida naquele momento de alucinante embriaguez amorosa. Goethe, o grande gênio, morreu no dia 22 de março de 1832. Seu espírito cativo, com certeza, num invólucro por demais estreito, num mundo tão mesquinho, exigiu mais amplidão, mais espaço, pediu mais luz e sublimou-se. Morte serena foi o prêmio de uma existência, prodigiosamente dotada dos mais excelsos dons.
Quarto de Charlotte von Stein,
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