Johann Wofgang von Goethe foi um
gênio universal. Sua vasta obra compreende, além das inúmeras peças dramáticas,
como o célebre Fausto, romances, contos, poesia lírica, cartas e
descrições de viagens, assim como estudos de ciências humanas e naturais, em que
se destacam a Teoria das cores e a Metamorfose das plantas. Com
seu pensamento e arte, influenciou a cultura de toda uma época. Todos os grandes
nomes deste período estiveram envolvidos nesse processo. Goethe e Weimar, cidade
em que passou os anos mais produtivos de sua vida, podem ser citados, de um só
fôlego, como sinônimos do classicismo alemão. Uma contribuição de
peso para a história da cultura ocidental.


~ Vida e Obra de Johann Wofgang von Goethe ~
~ 1749-1832 ~
"Quando
alguém olha para o meu livro,
tenho sempre a impressão de que me cortam em
dois.”
(Goethe)
O criado sobe as escadas e abre a porta do quarto. São 6 horas da manhã. A pálida
luz da vela obriga-o a tatear pelo aposento, com passos incertos. De repente, pára.
Vê a pistola caída no chão. Pouco além, encontra-se o amo. O sangue empoçado
ao redor da cabeça. Na escrivaninha, algumas folhas de papel: uma confissão
desesperada de amor, uma paixão impossível por Charlotte. O jovem Werther está
morto. Não sofre mais.
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Alemanha, 1774. Johann Wolfgang Goethe pensa na repercussão do
trágico fim de Werther, que havia provocado uma comoção geral, entre os jovens.
Logo se multiplicaram suicídios idênticos. O gesto havia-se tornado, em pouco tempo,
sedutor, e a moda, alarmante, a ponto de ficar conhecida como o mal do século.
Goethe observa o que está acontecendo e sente-se profundamente amargurado, Afinal,
Werther não tinha existido verdadeiramente: era apenas uma criatura da sua
fantasia, uma personagem de ficção.
Subitamente, aos 25 anos, Goethe fica conhecido na Europa inteira, nos meios
cultos do Novo Mundo e até no Oriente, graças ao "caso Werther".
Mas, apesar da fama, restou-lhe uma lembrança amarga do livro, condenado por
todos aqueles que entendiam a vida como luta e conquista e não como renúncia e
fuga, e pela Igreja, que o colocou no Índice dos Livros Proibidos. "Onde
eu me sentia liberto e aliviado, porque havia transformado a
realidade em poesia, meus amigos se enganaram, acreditando que se devia
transformar a poesia em realidade."
Dois anos antes da publicação do livro, Goethe encontrara Charlotte Buff.
"Era uma dessas mulheres que, sem inspirar paixão violenta, exercia invencível
encanto sobre cada um dos que a rodeavam." Goethe não escapou à atração
dessa mulher, que, sendo casada, não correspondia aos seus sentimentos.
Enquanto escrevia o Werther, foi Charlotte que lhe serviu de modelo para a
personagem feminina do romance. Mas a obra se radica também em outro fato: a
surpresa e o espanto causados pela morte de um colega da Universidade de
Leipzig, que se suicidou para escapar a uma paixão sem esperança. O Werther,
é, portanto, o fruto de uma experiência real e dolorosa, transfigurada através
da imaginação. Essa é a razão por que o autor se refere ao romance que lhe
trouxe popularidade como a uma "confissão geral". Afirmação
verdadeira para toda a sua obra, tão interligadas estão, nela, vida e ficção.
A experiência amorosa que lhe inspirou o Werther não foi a primeira nem a última.
Dos quinze aos 74 anos, Goethe apaixonou-se por diversas mulheres.
VERSOS E MULHERES
Goethe nasceu no dia 28 de agosto de 1749, na cidade de Frankfurt-sobre-o-Meno.
O pai, conselheiro da corte de Frederico II (1712-1786), era homem austero e culto,
entusiasmado pela ciência e amante das artes. A mãe, vinte anos mais jovem que
o marido, era pessoa alegre e disposta e tinha especial talento para contar histórias.
Wolfgang dirá anos mais tarde que herdou do pai "a conduta séria da
vida" e, da mãe, "a natureza alegre e o gosto de narrar".
Quando tinha dez anos, Frankfurt foi ocupada pelos franceses. O menino ouvia
falar a língua e entusiasmava-se com as referências e os elogios feitos aos
escritores franceses: Molière (1622-1673), Racine (1639-1699), Voltaire
(1694-1778). O próprio chefe das tropas invasoras hospedou-se na casa de seus
pais. A cultura francesa, e não a alemã, portanto, é que incentivou a vocação
literária de Goethe, que já ensaiava os primeiros versos.
Precocidade intelectual, sim, mas também precocidade sentimental. Aos doze
anos, o garoto tenta o namoro com a filha de uma atriz.
Apesar da insistência, a menina não quer saber dele. Três anos depois, volta
a se apaixonar: Gretchem. Goethe passa as noites insone e agitado pela paixão,
mas ainda não terá êxito. Envolvido num caso de falsificação com um grupo
de amigos da moça, viu-se obrigado a se afastar dela e da cidade. Viaja para
Leipzig (1765), onde inicia os estudos de direito e conhece Anette Schönkopf. E
desta vez tudo parece ir bem, pois existe correspondência entre os dois. Mas,
com o passar do tempo, a vida em Leipzig vai aborrecendo Goethe. Não está
satisfeito nem com o que escreve, nem com o ambiente tradicionalista e acanhado,
que não reconhece o seu talento. Afasta-se de tudo e prende-se desesperadamente
a Anette. Torna-se impaciente, violento, faz cenas de ciúmes que deixam a amada
cada vez mais desgostosa. Enfim, ela o abandona. Leipzig perde todo e qualquer
atrativo para o jovem romancista. Volta a Frankfurt, doente e abatido. Durante a
convalescença, sente-se invadido por uma religiosidade mística que fundamentará
suas posições artísticas e literárias posteriores, particularmente o Fausto; uma
Tragédia, As Afinidades Eletivas e o Segundo Fausto. Reanima-o definitivamente a
perspectiva de uma nova viagem.
Strasburgo, 1770. O olhar segue as linhas da catedral e colhe silenciosamente as
íntimas conexões daquela obra-prima da arquitetura gótica. Gostaria de ficar
ali, deslumbrado, para sempre, observando o jogo de formas e luz, revelação plástica
de uma poderosa genialidade.
Com a intenção de prosseguir os estudos iniciados em Leipzig, veio a
Strasburgo, onde encontrará os elementos decisivos de sua formação cultural.
A catedral, cuja visão o impressionara tanto, despertaria o gosto e o interesse
pelas obras alemãs medievais. E um acontecimento ainda mais decisivo o
aguardava: o relacionamento com um professor da universidade, Herder
(1744-1803). Através da influência desse filósofo, Goethe libertou-se dos rígidos
padrões clássicos franceses, interessando-se pela cultura grega, pelo Oriente,
pela Idade Média e por Shakespeare. Herder também lhe abriu os horizontes para
a valorização da poesia popular, ensinando que "a poesia era um dom
universal, um dom dos povos", e não o patrimônio privado de alguns homens
de gosto e cultura. Nascia das forças da alma humana, matriz de todos os
sentimentos. Essa teoria era a transposição para o campo artístico, do
Pietismo — movimento religioso surgido na Alemanha no fim do século XVII —, que
centralizava a vida na livre e piedosa manifestação dos afetos individuais,
considerados como normas de relacionamento com Deus e também como origem das
possibilidades criadoras de cada pessoa.
"TEMPESTADE E ÍMPETO"
Os jovens intelectuais perceberam que Herder não era o expositor de um
rígido sistema filosófico, e sim o fermento de novas idéias para a cultura
alemã e universal. Reuniram-se, então, em torno dele. O grupo, conhecido
como a "geração de 1750” — Goethe, Schiller (1759-1805), Klinger (1752-1831),
Lenz (1750-1792), entre outros — iniciou um movimento sem precedentes, o Sturm und
Drang (denominação tirada
do título da peça de
Klinger, Tempestade e Ímpeto). O movimento se opunha ao Iluminismo, que
dominava a cultura européia da época. Este afirmava o predomínio da razão
sobre os demais valores do homem e do mundo. Aquele colocou a vida como valor
supremo e recusou todas as normas que, embora válidas racionalmente, pudessem
limitar o desenvolvimento individual. O Sturm und Drang rompeu violentamente com
conceitos e esquemas que regulavam as relações individuais e sociais, políticas
e morais. Repercutiu profundamente na arte, proclamando a liberdade absoluta do
artista, cuja produção haveria de ser expressão do seu poder criador e não fruto
da obediência a preceitos e técnicas formais preestabelecidos. A genialidade do
artista é que ditaria as normas para as suas obras. O ímpeto com que os iniciadores
do movimento defendiam essas idéias suscitou, na Alemanha, uma verdadeira revolução
em todos os campos da cultura e da vida. Na literatura a aceitação foi completa e
apaixonada. A produção literária na Alemanha não tinha, até então, uma nítida
fisionomia de originalidade, eis que se ressentia da influência francesa. A própria
língua não era prestigiada: "uma língua boa para os cavalos e para rezar",
costumava dizer o Rei Frederico II da Prússia, que, em julho de 1775, escrevia
a Voltaire: "É preciso esperar que a natureza propicie o nascimento
de verdadeiros gênios. O solo que produziu um Leibniz pode produzir outros. Eu
não verei esses belos dias de minha pátria, mas prevejo essa possibilidade".
Era falsa a profecia do rei. A possibilidade se concretizaria nesse mesmo ano,
quando foram publicados o Werther e os primeiros dramas de Goethe. Em seguida,
aparece Os Bandoleiros, de Schiller. De um momento para outro, "a geração
de 1750" projeta no exterior uma literatura que nunca fora significativa. E
agora os papéis se invertem: os escritores alemães passam a influir sobre a
produção de outros povos.
O Sturm und Drang é, pois, um movimento de caráter nacional que desencadeia o
Romantismo. Goethe é a figura mais destacada, por sua força vital e criadora,
ao mesmo tempo reflexiva e turbulenta. Torna-se a personalidade mais notável de
Strasburgo e sua fama ultrapassa as fronteiras da Alemanha. Homens célebres e
mais velhos solicitam sua amizade. Suas obras são discutidas e aplaudidas. É o
começo impetuoso de uma projeção literária que não haveria de declinar.
OS MALOGROS AMOROSOS
Durante o período em que viveu nesta cidade, Goethe costumava fazer
excursões para coletar documentos sobre a poesia popular. Numa dessas buscas,
conhecera Friederike Brion, a filha do vigário de uma aldeia das proximidades.
Friederike reunia a graça da mulher citadina e a vitalidade ingênua da
camponesa. Mas as tarefas que o haviam levado fortuitamente ao encontro com a
jovem acabam por obrigá-lo a abandonar Friederike. Deve continuar o trabalho em
outros lugares. Mais tarde se sentirá culpado desse abandono: "Tinham-me
tomado Gretchem, Anette me havia abandonado, agora eu era culpado pela primeira
vez. Eu partira o melhor dos corações até o fundo e aquela época de sombrio
remorso foi extremamente penosa, intolerável mesmo, na ausência do amor
apaziguador a que eu estava habituado". A imagem de Friederike continuará
em sua memória e ele a imortalizará na personagem feminina do Fausto,
Margarida.
Goethe viaja muito e freqüenta meios sociais cultos. Durante o inverno de 1774, está
de novo em Frankfurt. Certa noite é convidado a um concerto na casa de um rico
negociante. Não presta atenção à música e nem mesmo às conversas cultas
sobre literatura. Só tem olhos e ouvidos para Lili Schönemann, filha do
anfitrião, de
apenas dezesseis anos. Torna a vê-la alguns dias depois e percebe que Lili
corresponde aos seus sentimentos. O poeta fica de tal modo inflamado que quer
casar-se imediatamente. Mas a família de Goethe se opõe, porque a moça não
pertence à nobreza. Perturbado pela motivo e pela oposição, ficou num estado de
profundo abatimento, e preferiu não lutar por seu amor. Deixou Lili, embora
reconhecesse, no fim da vida: "Nunca estive tão perto da minha verdadeira
felicidade quanto na época daquele amor por Lili. Os obstáculos que nos separavam
não eram, no fundo, insuperáveis, e, no entanto, eu a perdi. Ela foi a primeira
por quem experimentei um amor profundo e verdadeiro. Posso dizer também que foi
a última, porque todas as paixões que tive no decorrer de minha vida, comparadas
a essa primeira, não passaram de atrações ligeiras e superficiais".
O DUCADO DE WEIMAR
Goethe fracassara em todas as suas tentativas amorosas. Sua celebridade,
porém, não parara de crescer. Em 1775, o Duque Carlos Augusto (1757-1828) convida-o
para administrar o ducado de Weimar, onde Johann Sebastian Bach (1685-1750), um século
antes, tinha realizado sua aprendizagem musical. Goethe aceita, sabendo que essa
decisão mudará o rumo de sua vida. Em Weimar, o jovem duque arrasta-o a
festas, corridas a cavalo, caçadas e bailes campestres. O duque é pessoa
extremamente extrovertida, e Goethe o julga "uma natureza demoníaca, cheia
de atividade e inquietude". Só depois de alguns meses é que o poeta
realmente se dedicará a questões administrativas, militares
e financeiras, e cuidará de estradas, minas e florestas. O contato com a
realidade impõe-lhe estudos de geologia, botânica, mineralogia e anatomia. A
impetuosidade que havia caracterizado os anos da juventude diminui com o
desempenho do trabalho rotineiro, que o absorve inteiramente.
Weimar representa uma transição na vida de Goethe. Não se afasta da sua produção
literária, agora inspirada por Charlotte de Stein, por quem se apaixonou.
Considera-a a imagem do equilíbrio, da nobreza, da harmonia; "uma mulher
de extraordinária profundidade de sentimento, de educação fora do comum e de
grande talento". Admira-a ainda por sua beleza e sedução. Mas Charlotte não
o ama. O trabalho deixa-o extenuado. Pensa em abandonar tudo e sonha com uma
viagem ao exterior. Sua atenção volta-se para a Itália, onde poderá
encontrar todas as belezas naturais e artísticas que a antigüidade grega e romana
cantou ou criou. Apenas um leve elo ainda o prende a Weimar, a esperança do amor
de Madame Stein: "Se eu não tivesse você, partiria por esse vasto mundo",
escreve. Em setembro de 1786, decide viajar, realizando o sonho cultivado desde a
infância, quando contemplava as vistas de Roma nos quadros da sala da casa paterna.
Durante os dois anos que viveu na península itálica, buscou o segredo de uma
vida simples, ardente, colorida, como a que descreveu nas Elegias Romanas,
publicadas alguns anos depois, poemas que indicam a conquista — ainda que momentânea
— de uma harmonia e de um equilíbrio clássico em Goethe.
Continuou também as pesquisas geológicas e botânicas, iniciadas em Weimar, mas
a sua vocação poética sobrepujou os demais interesses: "Cada dia compreendo
mais claramente que verdadeiramente nasci para a poesia, e que deverei cultivar
esse talento e fazer ainda alguma coisa de bom". Junto ao Mediterrâneo,
Goethe conhece o equilíbrio interior que havia idealizado na figura de Madame
de Stein. Lendo os clássicos, contemplando os museus e as obras de arte, aprende
a ser comedido, a temperar as paixões com serenidade, embora não supere plenamente
os impulsos de seu temperamento romântico.
ÚLTIMA PAIXÃO
Há quatro semanas regressara a Weimar, quando, numa manhã cheia de sol,
uma jovem bate à porta de sua casa: vem pedir um favor para o irmão. Chama-se
Christiane Vulpius, tem 23 anos e é operária numa fábrica de flores artificiais.
Goethe contempla as linhas delicadas do seu rosto e os longos cabelos ondulados.
Sente o coração tocado pela beleza e pela simplicidade da moça. Surge mais uma
paixão amorosa: esta real e duradoura. Christiane torna-se a companheira de Goethe,
dando-lhe um filho no dia do Natal de 1789. Têm mais quatro filhos, todos
falecidos logo após o nascimento. Mas somente dezoito anos depois Goethe
resolveria casar-se com ela.
Em Weimar, o duque lhe havia retirado a maior parte das funções administrativas.
Agora só se ocupa dos assuntos culturais, museus, escolas de arte e da
Universidade de Iena. Com uma pequena corte de sábios, aprofunda seus
conhecimentos de ciências e filosofia e discute as novas teorias artísticas,
trazidas pelo Sturm und Drang. Mas a sua grande preocupação é o teatro, que
dirige a partir de 1791. Leva à cena algumas de
suas peças. O público não as
aprova. Faltava a seus dramas vibração e emoção, ao contrário do que
ocorria com os de Schiller, ídolo das platéias pela vivacidade dos ideais
revolucionários que exaltava — fato que causava, em Goethe, certo despeito em
relação a Schiller, e, a princípio, as relações entre os dois poetas não foram
amistosas. Schiller, no entanto, admirava Goethe, e manifestou o desejo de poder
desfrutar da sua amizade. Foi com essa intenção que lhe escreveu uma carta em
junho de 1794, convidando-o a colaborar numa revista que fundara. Goethe aceitou
o convite “com alegria e de todo o coração". Trocam correspondência assídua
e as cartas mostram a influência benéfica que cada um exerce sobre o outro. Nesse
período, a produção literária de Goethe foi fértil e intensa. Escreveu Hermann e
Dorotéia, que tem como cenário os anos turbulentos da Revolução Francesa, e outros,
entre os quais Os Anos de Aprendizagem de Wilhem Meister, que narra as grandes
decepções do jovem Wilhem (com quem Goethe se identifica), ao querer tornar-se um
autor dramático numa companhia de comediantes.
Em 1805, os dois amigos adoecem simultaneamente. Goethe recupera-se aos poucos, mas
o estado precário de Schiller se agrava. Quando o primeiro recebe a notícia da
morte do amigo, confessa que perdeu a metade de sua existência. Para se
consolar, tenta concluir um drama que Schiller deixara inacabado, Demetrius.
Queria assim poder continuar o diálogo com o amigo. O povo alemão costuma
ligar inseparavelmente Goethe e Schiller, considerando-os seus dois maiores
representantes literários. A eles o país deve uma produção de incomparável
importância, que os críticos definiram como "época do Classicismo alemão",
consagrando a literatura alemã como das mais importantes da Europa.
Erfurt, 2 de outubro de 1808: Goethe é recebido por Napoleão: "O
imperador fez um sinal para que eu me aproximasse. Fiquei de pé diante dele, a
uma distância conveniente. Depois de me olhar atentamente, ele disse: 'Eis um
homem'. Eu me inclinei". Napoleão fez ainda perguntas sobre o Werther e
depois se referiu aos primeiros dramas de Goethe: "Eles pertencem a uma época
menos esclarecida. Que significa agora o destino? A política é que é o
destino (...)". A audiência com Napoleão foi para o poeta uma coroação.
Ele não escondia sua admiração pelo conquistador. Achava-o prodigioso, por ter aberto
um caminho para o cosmopolitismo, em que Goethe via o modelo universal da cultura.
MAIS LUZ
Ainda em Weimar, reunindo o conhecimento adquirido durante muitos anos
de estudos científicos, conclui a Teoria das Cores. Escreve também o romance
As Afinidades Eletivas e Viagem à Itália. O primeiro estuda a desagregação
dos sentimentos humanos sob a ação de determinados elementos, assim como
acontece quimicamente na natureza. O segundo relata os benefícios que o autor
auferiu para o seu espírito inquieto e para a sua arte, ao visitar a península
itálica, onde se defrontou com um patrimônio imenso de civilização. Em 1823,
resolve passar uma temporada na estação de águas de Marienbad, em busca de
descanso. Freqüentando a casa de Madame Levetzow, conhecerá uma de suas
filhas, Ulrike. A beleza e o encanto da jovem lhe despertam sentimentos já
adormecidos. Goethe desejará mesmo casar-se com a moça. Pela última vez,
brilhava e extinguia-se a paixão de uma juventude que ele não conseguira
esquecer.
Na Alemanha, a geração romântica está no apogeu e saúda Goethe como um dos
seus mestres, embora a simpatia dos jovens esteja mais com o Goethe dos tempos
do Sturm und Drang. Ele havia sido um revolucionário nos dias do Werther.
Agora, é o “sábio de Weimar" que os escritores europeus vêm visitar e
admirar. É considerado "Olímpico" e "Impassível". O que
alcançou no fim da vida foi realmente uma conciliação dos opostos. Os alemães
o têm por clássico, depois de sua viagem à Itália, mas, na verdade, jamais
deixou de ter algo da exaltação romântica do Werther.
No Fausto; uma Tragédia (1808), encontra-se o retrato mais significativo dessa
duplicidade e dessa síntese. A sensualidade e o ascetismo, a exaltação e o
equilíbrio emergem nas duas personagens principais, o mágico e Margarida. O
primeiro quer desvendar os segredos da natureza, tranqüilizando-se somente
quando descobre leis seguras que explicam os mistérios antes indecifráveis. A
segunda, enlouquecida pelo desespero, é a imagem da jovem que amou
apaixonadamente Goethe e por ele foi abandonada. Através das confissões de
Margarida expõe o seu remorso e pacifica-se. Situação idêntica se encontra
em sua última obra, o Segundo Fausto, que é substancialmente a continuação
da anterior. É uma reelaboração da História do Dr. Johannes Fausto, trabalho
de autor anônimo, publicado em Frankfurt, em 1587. Goethe dá nova dimensão à
lendária figura do Fausto, que vendeu a alma ao diabo. Reúne todas as audácias
de que é capaz não apenas o mal como o bem, demonstrando que o diabólico e o
celestial se insinuam nas relações humanas de forma terrível e perigosa. Por
isto "a terra não é muda para quem trabalha com força e vive".
Assim como o Fausto, a vida de Goethe também oscilou entre a sombra e a luz.
22 de março de 1832. Goethe está sentado na
poltrona, ao lado da cama. Seu estado de saúde havia piorado nos últimos dias,
por causa de um resfriado. Começa a amanhecer, mas o quarto ainda está escuro.
Goethe respira com dificuldade. Faz um sinal ao criado, como se estivesse
pedindo algo. O criado aproxima-se e ouve as últimas palavras pronunciadas por
entre espasmo: "Abram a janela do quarto, para que entre mais luz".

CRONOLOGIA
1749
– Aos 28 de agosto, em
Frankfurt-sobre-o-Meno, nasce Johann Wolfgang Goethe, filho de Johann Kaspar e
Katharina Elizabeth Goethe.
1759 – Em janeiro, Frankfurt é invadida pelos franceses.
1765 – Em outubro, Goethe começa a cursar a universidade, em Leipzig.
1766 – Conhece Anette Schömkopf, inspiradora de seus primeiros poemas.
1768 – Gravemente enfermo, volta a Frankfurt.
1770 – Em Strasburgo, estuda direito, medicina, história e ciências políticas.
Conhece Herder.
1771 – Licencia-se em direito. Em novembro, escreve a primeira versão do
drama "Götz von Berlichingen".
1772 – Apaixona-se por Charlotte Buff.
1773 – Publica a segunda versão de "Götz von Berlinchingen".
Inicia "Fausto; uma Tragédia".
1774 – Publica "Os Sofrimentos do Jovem Werther".
1775 – Na Páscoa, fica noivo de Lili Schönemann. Em outubro, rompe o
noivado. Em novembro, parte para Weimar, a convite do Duque Carlos Augusto.
1776 – Estabelece-se em Weimar.
1779 – Encena o drama "Ifigênia em Táurida".
1786 – Em setembro, viaja para a Itália. Conclui a última versão de
"Ifigênia".
1787 – Viaja pelo sul da Itália. Dedica-se a pesquisas científicas. Em
junho, volta a Weimar.
1788 – Conhece Christiane Vulpius, mais tarde sua esposa. Conclui
"Torquato Tasso". Conhece Schiller.
1794 – Estada em Iena, junto a Schiller.
1797 – Termina o poema "Hermann e Dorotéia".
1805 – Morte de Schilier.
1808 – Goethe publica "Fausto; uma Tragédia", e em outubro é
recebido por Napoleão Bonaparte.
1819 – Termina "Divã Oriental".
1832 – Aos 2 de fevereiro termina o "Segundo Fausto", e, aos 22
de março, morre.


~ Leitura de "Fausto" (1806, "Prólogo no Céu") ~
Goethe trata aqui, mais uma vez, do grande tema do teatro barroco:
a luta entre o céu e o inferno por uma alma humana.
Primeira parte
Em seu gabinete, Fausto medita sobre sua
existência e o sentido da vida. Através da magia, tenta desvendar o mistério
do mundo, que não consegue. Depois de conversar com seu criado Wagner, pensa
em suicídio como forma de salvação mas desiste ao ouvir o repicar dos sinos da
Páscoa. Passeando com Wagner ele se comove com a natureza e descobre duas
almas dentro de seu peito que desejam separar-se. Um cão, que o segue até seu
gabinete se apresenta como Mefisto. Fausto propõe-lhe um pacto: Mefisto deve
acompanhá-lo em sua vida terrena e em troca poderá dispor de sua alma, no
além. Um dia, Fausto é levado ao laboratório das bruxas e a partir daí se
apaixona por uma jovem angelical de nome Margarida. O amor puro de Margarida e
sua suspeita de que Mefisto é diabólico despertaram em Fausto seu lado melhor.
Um sonífero dado à mãe, para possibilitar que Fausto passe a noite com
Margarida tem conseqüências fatais. Ao tomar conhecimento dos fatos, Valentim,
irmão de Margarida, briga com Fausto que acaba por matá-lo. Desesperada
Margarida reza diante da imagem de N. S. das Dores e escuta a voz
incriminadora de sua consciência. Enquanto isso, Mefisto conduz Fausto para a
noite de Walpurgis. Uma terrível desilusão está por acontecer. Fausto encontra
Margarida, que matara o filho, já numa prisão, louca. Ela se dá conta de que
Mefisto é o diabo e se entrega à justiça divina.

~ Mater Dolorosa ~
(No nicho da muralha a imagem da Senhora
das Dores, com jarras de flores em frente.)
MARGARIDA, pondo flores
nas jarras:

Oh! inclina,
Senhora das Dores divina,
A graça desse olhar à minha triste
sorte!
Com a espada no peito,
O coração desfeito,
Contemplas, Lacrimosa, o teu Filho na morte.
Ergues a Deus o olhar,
E com teu suspirar
Pedes piedade para a sua e tua sorte.
Quem sente
O ardente
Fogo a roer-me as entranhas?
Como este pobre peito anseia,
Como treme e receia,
Só tu o sabes, ó Mãe de dores tamanhas!
Para onde quer que eu for,
Que dor, que dor, que dor
Aqui, dentro de mim!
E, mal estou sozinha,
Parte-se a minha alma,
Choro, choro sem fim.
Os vasos da janela
De lágrimas reguei
Quando hoje de madrugada
Estas flores te cortei.
E logo que ao nascer
O sol no quarto entrou,
Já sentada na cama
A chorar me encontrou.
Socorro! livra-me da vergonha e da morte!
Oh! inclina,
Senhora das Dores divina,
A graça desse olhar à minha triste sorte!

~ Mater Gloriosa ~
UMA DAS PENITENTES, que outrora se chamou Margarida,
aproximando-se docemente:

Inclina, inclina,
Ó Incomparável, Divina,
Ó Gloriosa, Ó Radiosa,
A graça desse olhar à minha feliz sorte!
O Amado de outrora
Ei-lo regressa agora
Não turbado e liberto já das leis da morte.

Segunda parte
Adormecido numa paisagem Fausto tenta
esquecer a tragédia com Margarida. Ariel, o espírito do vento, liberta-o do
arrependimento. Mefisto leva Fausto à corte imperial e, como conseguem
resolver os problemas financeiros do imperador, são homenageados. O imperador
exige uma prova das artes mágicas de Fausto e exige que este faça aparecer
Helena e Paris, figuras da mitologia grega. Ele consegue as figuras em sua
forma corporal, mas quando tenta abraçar Helena, dá-se uma explosão e Fausto
desmaia. Mefisto transporta-o ao seu gabinete, onde seu ex-criado trabalha na
produção de um homem artificial. Homúnculos, o homem artificial, aconselha
Mefisto a levar Fausto à noite de Walpurgis na Grécia. Fausto procura por
Helena e encontra a vidente Manto que lhe proporciona o acesso ao mundo
subterrâneo, onde Helena poderá ser encontrada. No mundo dos seres antigos
Mefisto só consegue se ambientar a duras penas. Deus Sismo provoca um
terremoto e Mefisto fica desnorteado. Na horrível máscara de Forcis, Mefisto
recupera sua autoconfiança. Na Grécia consuma-se o destino de Homúnculos, que
deseja se livrar da sua figura de anão. Para tanto, visita o filósofo Tales,
Nereu, o rei do mar e Proteus, que pode transformar tudo. Proteus aconselha a
iniciar sua metamorfose na água mas Homúnculos se despedaça, transformando-se
em fosforescência do mar. Nesse meio-tempo, Fausto consegue tirar Homúnculos
do mundo subterrâneo.
O tempo retrocedeu: Helena teme a vingança de seu marido
e Forcis aconselha a fuga. Num castelo medieval ela se casa com Fausto e tem
um filho. Helena volta ao reino das sombras. Forcis se transforma novamente em
Mefisto. Fausto toma partido do imperador que se encontra diante de uma
rebelião e vence a batalha com a ajuda de Mefisto. Como recompensa Fausto
recebe do imperador terras e começa a cultivá-las. Em um determinado momento
desta nova vida de Fausto, se aproximam quatro figuras de mulher: a culpa, a
carência, a preocupação e a necessidade. Lutando por impedir a entrada de
todas, não consegue a da preocupação que o cega. Mesmo cego, ele se mantém em
atividade e sonha com sua obra terminada. Ele morre e Mefisto pensa que venceu
a aposta. Entretanto, como Fausto morreu desejando o futuro e a continuidade
da jornada espiritual, os anjos salvam sua alma e Mefisto perde o jogo.


~ Leitura de "Stella" (1775,
"espetáculo para amantes") ~
Fernando, marido de Cecília,
abandona-a para viver com Stella. Tomado pelo remorso, volta para a esposa e a filha.
O acaso faz com que ele as encontre no castelo de Stella. Terminada a inevitável
tempestade de explicações e revelações, tudo se resolve: as duas
mulheres se reconciliam e arranjam uma maneira de viverem num pacífico
"ménage à trois".
(A peça
provocou escândalo e levantou protestos. Mas só em 1806, Goethe
resolve alterar o final: Stella envenena-se e Fernando suicida-se
com uma arma de fogo).


~ Leitura de "Egmont" (1787,
tragédia em 5 atos) ~
A ação se passa em 1566 e 1567
em Bruxelas, sob a regência de Margarida de Parma, que governa aconselhada por Egmont e
Guilherme de Orange. A força do caráter de Egmont se reflete nas
esperanças do povo e no amor de Clarinha. Enquanto Egmont, fiel ao rei,
tenciona dirigir o movimento de emancipação sem sair da
legalidade, Guilherme é partidário de uma revolução.
Em vão Guilherme de Orange tenta convencer o amigo a recusar o convite
que o duque de Alba lhe faz. Egmont aceita o convite mas é
atraiçoado e condenado à morte. Clarinha percebe o destino de seu
amado e se envenena. A revolta de Egmont contra o destino se transforma quando o
filho de seu inimigo se declara a seu lado. Esta vitória pessoal permite
a Egmont aguardar serenamente a hora derradeira.


~ Poemas de Goethe ~

Johann Wolfgang von Goethe
(1749 - 1832)
Aos Leitores Amigos
Poetas não
podem calar-se,
Querem às turbas mostrar-se.
Há de haver louvores, censuras!
Quem vai confessar-se em prosa?
Mas abrimo-nos sob rosa
No calmo bosque das musas.
Quanto errei,
quanto vivi,
Quanto aspirei e sofri,
Só
flores num ramo — aí estão;
E a velhice e a juventude,
E o erro e a virtude
Ficam bem numa
canção.


Livro de Leitura
O mais singular livro dos
livros
É o Livro do Amor;
Li-o com toda a atenção:
Poucas folhas de alegrias,
De dores cadernos inteiros.
Apartamento faz uma seção.
Reencontro! um breve capítulo,
Fragmentário. Volumes de mágoas
Alongados de comentários,
Infinitos, sem medida.
Ó Nisami! — mas no fim
Achaste o justo caminho;
O insolúvel, quem o resolve?
Os amantes que tornam a
encontrar-se.


Que assim te
afague...
Que assim te afague, ó meu
Amor, e te ouça
A voz divina — como é possível?!
Impossível parece sempre a rosa,
O rouxinol inconcebível.


Goethe e Schiller
— Denkmal em Weimar

Epigrama (Veneza, 1790)
"Maus, para a esquerda!
" mandará um dia o Juiz,
"E vós,
Cordeirinhos, ficareis aqui à direita!"
Muito bem! Mas há uma coisa a esperar ainda dele; então dirá:
"A
vós, Sensatos, quero-vos mesmo em frente!"


Elegias
Romanas
Falai-me, ó
pedras! oh falai, vós altos palácios!
Ruas, dizei uma palavra! Gênio, não te moves?
Sim, tudo tem alma nos teus santos muros,
Roma eterna; só para mim tudo se cala ainda.
Quem me diz segredos, em que fresta avisto
Um dia o ser belo que queimando me alivie?
Não pressinto ainda os caminhos, pelos quais sempre,
Pra ir dela e pra ela, sacrifique o tempo precioso?
Ainda contemplo igrejas, palácios, ruínas, colunas,
Homem composto, decoroso, que aproveita a viagem.
Mas em breve passa: então haverá um só templo,
O templo do Amor, que se abra e receba o iniciado!
És um mundo em verdade, ó Roma; mas sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.


Pensamentos
Todos
os dias deveríamos ler um
bom poema, ouvir uma linda canção,
contemplar um belo quadro
e dizer algumas bonitas palavras.
Pensar
é mais interessante
que saber, mas é menos
interessante que olhar.



Manuscrito de Goethe


~ Afinidades Eletivas ~
"E assim descansam os dois amantes um ao lado do
outro.
A quietude paira sobre sua morada; anjos serenos,
seus afins,
olham-nos do espaço. E que momento feliz
aquele
em que, um dia, despertarão juntos!"
(Epílogo
de "Afinidades Eletivas")
De todos os livros de Goethe "Afinidades Eletivas" é o mais rico em
matizes e meios-tons. O esquema de construção do romance está centrado na
distribuição dos personagens aos pares. Não são casais no sentido matrimonial do
termo, mas sim pares ligados por atrações inevitáveis. O interesse romanesco
nasce do jogo de polaridades, encantamentos e repulsas que se estabelece entre
os casais.
Mas o relacionamento Homem-Mulher é considerado aqui não apenas em sua
complementação sexual, ele é também e principalmente objeto de análise moral e
psicológica.


Houve na vida de Goethe, um nome predominante de mulher. Coincidência, acaso
ou adoração? Que influência teria exercido sobre o grande gênio o nome
"Charlotte"? Na vida real, ele amou quase
sempre uma Charlotte. Influência da própria mulher ou do nome?
Charlotte Kestner e Charlotte von Stein passaram por sua vida, como amantes
adoradas e musas inspiradoras. Na primeira, temos a Charlotte do apaixonado
"Werther"; na última, a sublime Charlotte, heroína de "Afinidades
Eletivas". Em sua imensa bagagem literária, vamos encontrar sempre
"Charlotte", sublimada, exaltada, dignificada na beleza de sua prosa, no
lirismo apaixonado de suas rimas. Mas qual a que lhe inspirou o amor, que
transbordava de seu pensamento, que fluía de sua pena mágica? Todas, ou cada uma
por sua vez? Teria havido aquela, que nenhuma outra igualava, a
insubstituível?
Em Charlotte von Stein, muito mais velha que ele, com muitos filhos, teria sido
a mulher ou o nome, que o atraiu? "O belo talismã de minha vida", como ele
próprio a chamava.
Entre todas as beldades da corte, para ele, foi ela, sem dúvida, a mais
sedutora. A primeira vez em que a viu contava, apenas, 26 anos e os 33 anos
deliciosos dessa bela mulher, espirituosa, culta, delicada e ambiciosa,
acenderam, na alma do jovem, o fogo da paixão.
Hermann Grimm tenta mostrar essa inclinação como pura, inocente, não
ultrapassando os limites de grande dedicação e efusiva amizade; mas, se lêssemos
a volumosa correspondência dos dois enamorados, ora cartas longas, ora ternos
bilhetinhos, não estaríamos de acordo, com o biógrafo, embora ela não
justifique, totalmente, as graves acusações de outros. A verdade é que, em
Weimar, Charlotte sentiu-se profundamente ferida e decepcionada, ao descobrir a
ligação de seu amigo com Cristiana Wulpius, moça de origem modesta, mas que
adorava o poeta; furiosa, deixou a cidade, indo para uma estação balneária, não
sem deixar-lhe uma carta, cheia de recriminações, a qual só foi respondida
algumas semanas depois, quando o amigo lhe deu algumas explicações ponderadas,
fazendo-a ver que ele não podia abandonar Cristiana.
Charlotte e Goethe ficaram estremecidos por muito tempo, e só alguns anos mais
tarde reataram suas relações de amizade, tendo Schiller e sua mulher muito
concorrido para isso.
Goethe temia afrontar a ira de sua amiga e a sociedade de Weimar; assim é
que, vários anos, apresentou a "doce Cristiana" como governanta de sua casa. Só
se resolveu a levá-la ao altar, quando, em 1806, achando-se gravemente doente,
deveu a vida quase que exclusivamente aos cuidados incansáveis da dedicada
jovem.
Como todos os círculos sociais, o de Weimar sentia também o mórbido prazer de
dar curso à maledicência humana, e essa própria elite, que atacara a ligação
ilícita dos dois, não aceitou, do mesmo modo, com agrado, aquele casamento
"desigual".
Poucos meses antes de sua morte, Charlotte escreve a Goethe, no dia de seu
aniversário, como um adeus velado:
"Mil venturas e bênçãos pelo dia de hoje. Possam os bons espíritos influir
para que tudo, de belo e bom, lhe seja conservado, meu caro amigo. Aceite meus
votos de um futuro livre de cuidados; para mim, porém, só desejo, caro, mui caro
amigo, sua afeição à minha vida, que se extingue".
Charlotte von Stein (nascida von Schardt)
Agosto, 1826.

Momentos antes de morrer, expressou a vontade de que não desejava que seu
corpo passasse pela casa de Goethe: queria poupar-lhe esse sofrimento.

Charlotte von Stein, um dos
grandes amores do poeta


Goethe começou a escrever "Afinidades Eletivas" no início do ano 1808.
Nesse ano, Napoleão, ao invadir a Alemanha, quis ver o escritor, em cujo nome só
se falava, e o condecorou com a grande cruz da Legião de Honra.
No movimento patriótico contra a França, ele não tomou parte ativa,
preferindo escrever tranqüilamente o seu romance "Afinidades Eletivas",
enquanto a luta esquentava.
A princípio julgou-se ver, como eixo principal do livro, sua tardia
inclinação por Minna Herzlieb, mas é ainda Grimm quem nos diz que ele só quis
reproduzir os prazeres de seu amor com Charlotte von Stein.
As críticas lhe foram adversas, tachando o romance de imoral, propagador do
adultério; Goethe, porém, limitou-se a responder com a parábola de Jesus: "Todo
aquele, que olhar para uma mulher, com cobiça, já cometeu o pecado em seu
coração". Todavia Goethe foi demasiadamente benévolo ao chamar, no final do
livro, a Otília de "santa" e a Eduardo, de "bem-aventurado".
Em Charlotte iremos encontrar Charlotte von Stein, e em Eduardo, Goethe. É ele
próprio quem explica a Eckermann:
"Não há nenhuma linha, em "Afinidades Eletivas", que eu não a tenha
vivido".
Quanto ao título é ainda Goethe quem, ao anunciar o aparecimento do romance
no "Morgenblatt" (4 de setembro de 1809), esclarece:
"Parece que o constante estudo da física induziu o autor a esse título
singular. Ele deve ter observado que, na física, muitas vezes, nos servimos de
exemplos práticos para aproximar do alcance da ciência humana algo que esteja
distante; dessa maneira pretendeu também aplicar, num caso moral, uma fórmula
química, sublimando-a à sua origem espiritual, tanto mais que a natureza é uma
só. Através dos serenos domínios do livre arbítrio, arrastam-se,
incessantemente, os vestígios da sombria e impulsiva necessidade, que somente
com auxílio de uma força superior e, decerto, não nesta vida, serão
completamente apagados".
O título, talvez, fosse diretamente inspirado na cena culminante do romance,
onde marido e mulher se abraçam com ardor e, "de modo prodigioso, mesclam,
deliciosa, voluptuosamente, o ausente com o presente".
Essas afinidades foram tão imperativas, tão prementes, que elegeram o tipo da
criança, concebida naquele momento de alucinante embriaguez amorosa.
Goethe, o grande gênio, morreu no dia 22 de março de 1832. Seu espírito
cativo, com certeza, num invólucro por demais estreito, num mundo tão mesquinho,
exigiu mais amplidão, mais espaço, pediu mais luz e sublimou-se.
Morte serena foi o prêmio de uma existência, prodigiosamente dotada dos mais
excelsos dons.


Quarto de Charlotte von Stein,
Schillerhaus, em Weimar

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__________
Bibliografia: Hegel, Georg Wilhelm Friedrich. Estética – A Idéia e o Ideal, Estética –
O Belo Artístico ou o Ideal. Hamburgo, Alemanha, 1999 – Tradução de
Arnaldo Poesia. – Bösch, Bruno. História da Literatura Alemã. São Paulo, Herder/EDUSP, 1967.
Centelha – Promoção do Livro, SARL, Coimbra, Portugal, 1986. – Instituto Cultural
Brasil-Alemanha (Goethe Institut).
Para saber mais sobre
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