A Alemanha pagou,
com 4,2 milhões de mortos, dos quais 500.000 civis, o exercício
de poder por Hitler, que culminou na Segunda Guerra Mundial, na
eliminação de judeus, assim como no assassínio de poloneses,
ciganos, russos e de outros povos. A guerra de Hitler custou aos
poloneses 4,5 milhões de mortos, dos quais 4,2 milhões eram civis.
A União Soviética avalia suas perdas em 20 milhões de mortos, dos
quais 7 milhões de civis. A Segunda Guerra Mundial causou um total
de 55 milhões de mortos.
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listado abaixo:
Especial: A Gestapo e as SS
O Reichsführer
A Igreja na Alemanha Nazista
Os Líderes do Nazismo
"Nós já os derrotamos!"
O Fim do Terceiro Reich
A Desintegração de um Povo
O Bombardeio de Berlim
"Vitória ou Bolchevismo"
A Morte de Hitler
Para que não esqueçamos
~ A Gestapo e as SS ~
A Gestapo, ou a polícia secreta, era a garantia do completo
domínio da população pelo Partido Nazista. Só ela,
contava 500.000 homens, pelo menos; e tinha preparado, até os
mínimos detalhes, todas as defesas contra uma possível
revolução interna. Ninhos de metralhadora disfarçados em
pavilhões de pedra, ou de abrigos contra bombardeio destinados ao
pessoal, foram instalados nas estações de estrada de ferro e nas
encruzilhadas de tráfego das grandes cidades. Soldados das Tropas de
Assalto (SS), armados com fuzis automáticos, ocupavam as casas de esquina
com importância estratégica.
A Gestapo, na sua incessante caça aos inimigos do partido, empregava processos que
deixavam a perder de vista os métodos inquisitoriais da Idade Média. Mantinham
uma atmosfera de terror. Só se faziam prisões a altas horas da madrugada; os
homens encarregados da captura, propositadamente taciturnos e carrancudos, não
ofereciam qualquer explicação aos presos nem às famílias, e a uns e outros se
procurava dar a impressão de que o destino imediato do sinistro
cortejo — era a forca.
Naqueles casos em que o terror só por si mostrava ser ineficaz, a Gestapo não
hesitava em incitar e provocar à rebelião.
Quando os chefes da polícia alemã ouviam dizer que andavam rumores de
rebelião em qualquer lugar do país, era frequente mandarem
logo um agitador para organizar uma conspiração. E, uma vez
descoberta convenientemente a revolta, lá vinha a Gestapo de surpresa
para prender os ingênuos que se deixaram levar no engodo dos
provocadores.
Se a execução em massa se tornava oportuna, a tarefa
recaía habitualmente nas SS, ou Guardas Negros , assim
chamados pela cor dos uniformes que usavam. As brigadas negras tinham servido
sobretudo na "limpeza" de judeus, tarefa na qual se conduziram sempre
com o máximo da brutalidade, muito embora esta pareça nada, quando
comparada com o que os mesmos soldados das SS tinham praticado no Leste europeu,
em matéria de repressão e terror. Talvez nunca venha a ser
possível apurar exatamente quantas vidas de judeus, poloneses e russos
pesavam (se é que pesavam!) sobre a consciência desses soldados
enfurecidos que formaram os exércitos do nazismo.
Os homens das SS eram escrupulosamente selecionados para a
formação das brigadas de execução no Leste europeu.
Recrutavam-se antes de tudo entre os elementos mais brutais da
população, e iam sendo gradualmente treinados para se tornarem
ainda mais duros e mais implacáveis. Eram em seguida designados para
constituir os pelotões de execução de indivíduos
isolados; e só depois desse treino progressivo eles estavam em
condições de começar a matar gente em massa, tal como tinha
sido feito nas frentes do leste.
Apesar de todo esse treino, muitos homens tinham recusado tomar parte nas
execuções em massa, sendo recambiados para a Alemanha, sob
sérias ameaças de represália na pessoa deles ou de suas
famílias, no caso de falarem alguma coisa. Outros sofreram de ataques de
loucura, e foram recolhidos a manicômios. Diversas vezes tinham sido
chamados médicos para tratar soldados que voltavam de licença
à Alemanha, sofrendo de ataques agudos de angústia ou de
insônia persistente. A história era sempre a mesma:
"Não posso mais aturar aquilo... Não vejo senão sangue
nos meus sonhos..."
~ O Reichsführer ~
Quem observava Hitler durante qualquer das cerimônias
públicas em que estava presente , ficava impressionado pela
inconsistência manifesta da sua natureza. O seu porte era rígido,
sem gravidade nem naturalidade. Quando descia da tribuna, parecia mais um
mercador de feira que decidira posar de grande homem, do que o chefe idolatrado
de um povo.
Começava sempre a falar em voz muito forte, repetindo de costume a
consabida história da sua ascensão de simples soldado a
líder do Reich Alemão. Ia depois aquecendo progressivamente, e de
repente víamos diante de nós um homem bastante mudado, verdadeiro
feixe de nervos num estado de agitação apaixonada. As palavras
soavam como marteladas, e, olhando em volta, o espectador notava que o
auditório inteiro lhe bebia religiosamente as expressões, de boca
aberta e olhos esbugalhados...
Era quase preciso beliscar-se ou picar-se com um alfinete, para se
não deixar levar por aquela hipnose coletiva. Depois, repentinamente, o
encanto desfazia-se, e o que se via era apenas aquele homenzinho de botas
lustrosas e melena caída, que estava lá em cima a ver se
convencia, e convencesse, da sua grandeza.
Quando considerada superficialmente, a sua política exterior
parecia impregnada de cínico realismo; mas a verdade é que as
paixões e a atitude pessoal do Führer tinha com frequência
desempenhado um papel dominante. Não era segredo para ninguém, em
Berlim, que qualquer assunto urgente podia chegar a esperar dias e semanas, sem
andamento, porque os conselheiros não ousavam levar um caso penoso ou
difícil ao conhecimento do Führer, até que este tivesse dado
sinais de uma disposição de espírito excepcionalmente
boa.
A política da Alemanha tinha sido muitas vezes inspirada pelo seu
rancor pessoal, e essa espécie de irracionalidade era sem dúvida a
característica mais aterradora do regime.
Na qualidade de comandante militar, ninguém podia negar que Hitler
possuía uma aptidão pouco comum para traçar planos
grandiosos. Cultivava, porém, a mania dos pormenores, e esta sua
feição mental tinha por vezes causado tremenda
irritação entre os militares. Chegava a chamar o chefe do
estado-maior trinta vezes durante a mesma manhã, para que ele lhe
explicasse a significação de operações que só
deviam interessar aos comandantes de campo. Hitler tinha também causado
demoras na aprovação de algum tipo novo de arma, pelo fato de
pretender verificar pessoalmente todas as minúcias.
Verem-se comandados por um chefe supremo ciente do seu poder, e apesar
disso tão falho de educação militar, devia ser das provas
mais duras para o estado-maior alemão. São inúmeros os
episódios da interferência de Hitler em assuntos militares. Era ele
de uma indiferença desmedida em questão de formalidades
regulamentares, e diz-se que tinha chegado a dar ordens a batalhões e a
companhias, passando por cima dos respectivos comandantes. Esta atitude
está bem caracterizada numa anedota que se atribui ao general von Bock.
Perguntava-lhe o famoso maestro Furtwängler por que razão ele, von
Bock, fora retirado do comando que exercera. Respondeu o general: "Meu caro
Furtwängler, se o Fuehrer soubesse tocar, ainda que fosse gaita, você
nunca mais poderia dirigir uma orquestra em público..."
A ambição de ser, ao mesmo tempo, grande homem de estado e
cabo-de-guerra — o maior de todos — estava porém, feliz ou
infelizmente, muito acima das qualidades pessoais e da preparação
do Führer. A sua intervenção pessoal na guerra tinha redundado
sempre em desastre, e a explicação do fato encontra-se talvez na
divisa que ele sempre se esforçou por seguir: "Tornar possível o impossível."
Nos domínios da política, esse princípio produziu, não resta dúvida,
resultados brilhantes. Contra o parecer expresso dos seus generais, Hitler
ordenou a remilitarização da Renânia, ocupou a Áustria, "resolveu" a seu
modo a questão tcheca; e esses triunfos políticos deram-lhe a ilusão de que
o seu senso estratégico seria também infalível.
Foi essa política de realização de impossíveis
que ele procurou seguir com a invasão da Rússia. Mas escaparam ao
seu raciocínio fatores militares tais como reservas, transportes, o
clima, e sobretudo as disposições combativas e patrióticas
do povo russo.
Tendo calculado erroneamente esses fatores, a sua autoridade
estratégica enterrou-se nas estepes da Rússia como nas areias do
deserto do Norte da África.
Nestes dois últimos anos, porém, Hitler tinha mudado. Em
primeiro lugar envelheceu. Nos seus olhos pairava uma expressão mais
tensa e desorientada. Dava a impressão de um homem que via a areia da
ampulheta se ir esvaindo , e se julgava impotente para detê-la.
Quanto à saúde do Führer, só os mais íntimos, conheciam a sua real
condição. Tinha sofrido várias crises nervosas, e não esteve sempre,
ininterruptamente, à frente do governo. Por vezes durante semanas e
meses, o controle político e militar
passou para outras mãos — o político, habitualmente, para as
de Himmler e Bormann; e o militar, para as do Alto Comando.
Ultimamente Hitler vivia no mais completo isolamento, e só via
raras e contadas pessoas. Ao que se imagina, os líderes militares
alemães conseguiram finalmente ter mão-forte na
direção política da guerra, e o Führer tinha sido mais e
mais relegado para as sombras do fundo.
À medida que as batalhas travadas forem passando à
história, poderá esta proceder ao juízo da carreira deste
homem estranho. Já hoje se torna claro que a guerra nos arrastou
às mais radicais transformações dos tempos modernos. Quando
esses acontecimentos pertencerem bem ao domínio do passado, talvez
tenhamos que considerar Hitler como um instrumento do destino, completamente
diferente desse outro destino que ele para si sonhara, nas alturas do seu ninho
de águia de Berchtesgaden... Devido ao seu regime de tirania e
agressão, o amor da liberdade, ideal estremecido, voltou a inflamar o
mundo de leste a leste. Cidadãos de países onde a liberdade era
considerada como coisa banal e assegurada, por ser tão familiar, passaram
a compreender com a sua carne e o seu sangue a realidade da ameaça que
pesava sobre essa liberdade.
Talvez a história venha a reconhecer um dia que esse renascimento
do amor da liberdade foi a verdadeira e única missão de Hitler
sobre a terra...
~ A Igreja na Alemanha
Nazista ~
Os sacerdotes, tanto católicos como protestantes, tinham dado
provas de grande coragem e tenacidade na sua luta pela liberdade de
consciência. Cooperavam entre si na resistência à opressão nazista, e desse
modo ajudando a derrubar muitas das barreiras que antes separavam as diversas
correntes religiosas. Os padres iam pregar nas igrejas luteranas, e os
pastores protestantes que foram expulsos das suas comunidades tinham
encontrado apoio e acolhida nos fundos da Igreja Católica.
Era sem dúvida alguma a firme organização da Igreja
Católica que, até aquele momento, tinha salvo o que restara da
cultura alemã e da liberdade espiritual dos alemães. E era
também o catolicismo que vinha respingando a maior vantagem do
renascimento religioso em toda a Alemanha. Deve-se isso principalmente à
corajosa atitude de muitos dos chefes da Igreja. Assim, por exemplo, por toda a
Alemanha tinha circulado de mão em mão cópias dos
sermões anti-nazistas do conde von Galen, bispo de Munster, e a catedral
desta diocese ficava a transbordar de assistentes sempre que o bispo pregava. A
Gestapo não ousou intrometer-se.
Durante o período em que a prisão de von Galen pareceu
iminente, os camponeses vinham todas as manhãs à cidade, nas suas
carroças, e batiam à porta da residência episcopal, pedindo
que o bispo se mostrasse ao povo, para desse modo se certificarem de que ele
não tinha ido para um campo de concentração.
Inúmeras são as lendas que correm a respeito deste homem. A
mais conhecida é talvez a seguinte: um chefe nazista entrou certo domingo
na igreja, e pôs-se a bradar que aqueles que não estavam
contribuindo para a luta de vida ou de morte da Alemanha, com a sua
própria carne e o seu sangue, ou a carne e o sangue de seus filhos,
não tinham o direito de falar. Ao que o bispo retorquiu sem
hesitação: "Proíbo seja a quem for de nesta igreja
criticar o Fuehrer!" Histórias como esta e outras se contam
não só de von Galen, mas de muitos outros sacerdotes.
~ Os Líderes do
Nazismo ~
O fato de o Partido Nacional-Socialista, apesar de toda a sua
corrupção e impopularidade, ter mantido a nação sob
o seu jugo inflexível, deveu-se à solidariedade do corpo de
líderes nazistas, que se conservavam unidos apesar de todos os conflitos
que internamente os dividiam. Esta frente comum contra toda e qualquer
oposição, foi ditada por uma comunidade de interesses e por uma
fé de fanáticos na ideia Nacional-Socialista, suprema e
primordialmente encarnada em Adolf Hitler.
Mas, para além dessa fachada de unidade, ocultava-se um ninho de
interesses pessoais em conflito, que o próprio Hitler parece ter
estimulado para se manter no seu lugar de juiz supremo.
As inconstâncias da fortuna nunca se fazem esperar muito para os
marechais da política nazista. Por exemplo, no começo de 1943,
Goebbels se tornou o homem-da-hora, só para recair passados poucos meses
na relativa obscuridade da sua posição anterior. Depois foi
Goering que desapareceu do seu alto trono: dizia-se que ele estava numa
espécie de semi-exílio em Gratz. Entretanto, qualquer coisa de
misterioso sucedeu, que de novo o trouxe para o primeiro plano. A
explicação do caso deve ser, muito simplesmente, que havia alguma
coisa que era preciso fazer, e Goering era o homem indicado para
executá-la.
Por estranho que pareça, foi este homem, cuja brutalidade excedia a
de qualquer outro dos líderes nazistas, quem acabou por simbolizar o lado
"humano" do regime. O seu interesse em medalhas e uniformes, na
ostentação infantil e na boa comida, são coisas em que os
alemães reconheceram características nacionais, e por isso fizeram
dele uma figura popular e favorita. Nestes últimos tempos, contudo, a
popularidade do ventripotente Goering se foi desvanecendo, pois, em face das
duras necessidades da hora, já ninguém podia olhar com
tolerância para o fraco do luxo que o dominava. As anedotas e rumores
sobre a sua concepção muito elástica do que é
"teu" e do que é "meu", vinha correndo em volume
crescente. Conta-se por exemplo que, durante uma recepção, um
convidado contemplava com admiração um formoso candelabro; um
general que passava junto dele murmurou: "Tenha cuidado, não
vá Goering dar por isso..."
Heinrich Himmler, que foi ministro do Interior, líder
nacional das SS e chefe da Polícia Alemã, era talvez, de todos os chefes do
Nazismo, aquele que o grande público conhecia menos. Não obstante, a ideia que
em geral se tinha dele estava bem simbolizada no apelido der Himmler — na Idade
Média o homem que "içava" gente, quer dizer, o carrasco... Há provas
irrefutáveis de que Himmler possuía uma sede demoníaca de poder. Com energia e
determinação, foi edificando uma organização tão completa, que lhe era possível
por meio dela trazer sob controle toda e qualquer pessoa, por muito alto que
estivesse colocada. Nos seus arquivos secretos, encontrava-se tudo quanto
fosse necessário saber sobre as "escorregadelas" de Goering ou de Goebbels.
Até as ações do próprio Führer estavam sob a alçada das suas investigações!
Quase inteiramente desconhecido fora da Alemanha, e a despeito disso um dos
magnatas mais influentes do regime, foi Martin Bormann. Todos em Berlim sabiam
de há muito que ele seria o sucessor de Rudolf Hess no cargo de "delegado do
Führer": assim figurava nos jornais do mundo. E era, como Hess, o diretor da
Chancelaria do Partido. Numa palavra, era ele o braço direito de Hitler em tudo
que dizia respeito aos negócios internos.
Joachim von Ribbentrop, ministro das Relações Exteriores do Reich, era mais
um exemplo dos muitos indivíduos, dotados de grande energia mas completamente
desprovidos de escrúpulos morais, que o regime nazista trouxe à tona da história.
Tendo começado por ser um modesto vendedor de champanha — daí o seu apelido:
Joachim "Extra-Seco" — Ribbentrop foi adotado por um parente, e dessa maneira
pôde adicionar ao nome o cobiçado "von" aristocrático.
Muitos alemães o consideravam ainda mais responsável do que o próprio Adolf
Hitler pela política de agressão da Alemanha, e o modo de ver, tantas vezes
expresso, devia ter sólidas razões; com efeito, repetia-se frequentemente que, se
Ribbentrop não houvesse insistido em que a Inglaterra acabaria por ceder, e não
tivesse aconselhado Hitler a forçar a solução do conflito germano-polonês, talvez
não tivesse começado em 1939 a segunda guerra mundial.
Mas de todos os líderes o mais impopular era sem dúvida o Dr. Robert Ley, chefe
da Frente do Trabalho. Este homem, que era um dos raros amigos pessoais de Hitler,
possuía uma barriga respeitável e uma dupla papeira no pescoço; falava com uma
voz áspera e asmática, e a típica fanfarrada nazista. Constituía-se um
espetáculo digno de ver-se, nas cerimônias oficiais, especialmente nas sessões
do Reichstag, o modo como ele se precipitava, aos tropeções e com uma expressão
de ansiedade, ao encontro das personalidades de categoria superior à sua, para
as saudar, lançando de revés uma mirada inquieta aos fotógrafos dos jornais. Nem
mesmo o marechal-de-campo Keitel, a quem chamavam "La Keitel" — tão disposto ele
estava sempre a se prostituir diante de quem quer que estivesse em cima — nem
mesmo esse homem corrupto sabia ocultar o seu nojo, ao ver aproximar-se o pequeno
e roliço ditador do Trabalho.
A sua moralidade pessoal era tão baixa, que muitos nazistas moderados se
tinham esforçado por excluí-lo da vida pública, por saberem que ele seria sempre
um centro de corrupção no meio do partido. Mas, embora as suas bebedeiras e sua
indignidade fossem conhecidas até dos garotos das ruas de Berlim, não havia
qualquer esperança de o ver pelas costas, enquanto durou a proteção que lhe
dispensava Adolf Hitler em pessoa.
~ "Nós já os
derrotamos!" ~
A consideração votada pelo povo alemão aos seus inimigos, no decurso da segunda
guerra, tinha sido muito mais respeitosa do que a sua simpatia por aqueles
mesmos que eram seus aliados.
Os nazistas consideravam a Inglaterra como inimigo primacial; nos seus
sentimentos em relação ao Império estava implícito certo elemento pessoal de
violência, espécie de sentimento de inferioridade, e a convicção, aliás impotente,
de que a Inglaterra haveria de ganhar sempre a "derradeira batalha". A esse obscuro
sentimento veio misturar-se uma admiração curiosa pela maneira como os ingleses
mantiveram elevado o seu moral, durante os dias tenebrosos do blitz aéreo. "No
fim de contas (era a desculpa que davam os alemães) os ingleses são um povo
germânico, são nossos primos!"
Os dirigentes da Alemanha tinham feito sistematicamente quanto podiam para
contrabalançar tais sentimentos. Na verdade, nem as próprias campanhas
anti-semitas igualavam em violência a propaganda contra os ingleses. Nunca se
perdia a mais insignificante oportunidade de acentuar os três "atributos"
britânicos: baixeza, debilidade e covardia...
Numa entrevista dada a correspondentes estrangeiros, na presença do próprio
Goebbels, Rommel, o famoso marechal-de-campo, afirmou com germânico entusiasmo que
os ingleses eram uns covardes, e combatiam sem galhardia. "Nós já os derrotamos!"
acrescentou Rommel, e afirmou que os alemães iam conquistar com certeza o Egito.
A cerimônia realizou-se poucas semanas antes do fulminante contra-ataque de
Montgomery em El-Alamein, e todo o respeito que os jornalistas estrangeiros
podiam ter consagrado ao marechal-de-campo foi anulado por essa absurda
entrevista.
Uma Semana depois, o capitão von der Heydte, portador da cruz-de-ferro
(a mais alta condecoração nazista) e combatente da campanha de Creta, fazia uma
conferência sobre as experiências das tropas paraquedistas. Chegado diretamente
do avião que acabava de aterrar, não podia ele ter recebido quaisquer instruções
superiores. E, na presença de um funcionário do Ministério das Relações
Exteriores e do corpo de jornalistas estrangeiros deleitados — aquele guerreiro
mal informado rendeu caloroso preito de admiração ao adversário! "Os Tommies,
disse, são o inimigo mais bravo e o mais resistente que nós, alemães, até agora
achamos pela frente. "Durante semanas não se falou noutra coisa que não fosse
aquela gafe magnífica.
A respeito dos Estados Unidos os alemães davam mostras de excessiva
sensibilidade. Manifestavam na maioria dos casos uma espécie de cordialidade
instintiva para com a América, talvez sobretudo porque milhões de alemães
emigraram no passado para o Novo Mundo; mas, ao mesmo tempo, recordando o papel
dos Estados Unidos na primeira guerra mundial, e o seu poderio material, não
podiam evitar um misto de despeito e admiração.
Também neste capítulo a propaganda nazista tinha sistematicamente procurado
"corrigir" a opinião pública alemã. Começou por tentar expor ao ridículo a força
dos Estados Unidos; os altos funcionários referiam-se com ironia à "mania dos
algarismos" do americano, e declaravam que o "sistema da liberdade" dera em
completo fiasco, e que a produção da indústria americana de armamentos estava
muito abaixo dos níveis de produção proclamados pelo presidente
Roosevelt.
Um dia, porém, o Ministério das Relações Exteriores recebeu um grande choque:
nada menos que o ex-encarregado de negócios em Washington, o então Ministro do
Reich em Estocolmo, Herr Thomsen, fez uma palestra para os representantes da
imprensa estrangeira. Com grande espanto de todos os presentes, as ideias por
Thomsen expressas sobre os Estados Unidos refutaram ponto por ponto as opiniões
diariamente emitidas pela Wilhelmstrasse!
O diretor da Repartição de Imprensa perguntou a Thomsen se o povo americano se
estaria apercebendo da "má-fé" do presidente Roosevelt... Ao que o diplomata
redarguiu, com esmagadora franqueza, que o presidente dos Estados Unidos tinha a
nação inteira atrás de si. "O povo americano, acentuou, vai lutar até o
extremo!" Vendo todos os desesperados esforços que fazia para socorrer a sua
linha de propaganda inutilizados pela sinceridade de Thomsen, Schmidt até tinha
as veias da testa intumescidas. Mas o limite só foi atingido quando Thomsen, em
sóbrias palavras, pôs os nazistas de sobreaviso contra a subestimação geral do
armamento americano. Aqui o Dr. Schmidt ficou fora de si.
A atitude do Reich em relação ao seu terceiro grande inimigo, a União Soviética,
era infinitamente mais complexa. Assim, afirmava-se que, do ponto de vista da
política interna, não havia qualquer diferença entre a orientação nazista e a
soviética: a concentração total do poder era tão característica de Berlim como
de Moscou...
Mas o que levava a raiva dos alemães ao furor, eram "os métodos vis de que os
russos lançavam mão" para fazer a guerra. Na opinião dos soldados alemães, o
sistema russo construía formidáveis edifícios públicos, fabricava enormes quantidades
do mais moderno material de guerra, mas ao mesmo tempo deixava que a maior parte da
população vivesse num estado de miséria indescritível (o que era verdade). A
fria e severa persistência dessa política soviética horrorizava o soldado
alemão, e fazia-lhe realmente sentir e crer que andava lutando a favor de um
mundo melhor, contra a "barbárie oriental". Tanto alemães quanto russos
cometeram grandes atrocidades na segunda guerra mundial. A partir do momento que
os arquivos russos, guardados a sete chaves em Moscou, forem abertos, o mundo
tomará conhecimento dos atos desumanos praticados nos campos de concentrações da
União Soviética.
A certa altura os serviços da propaganda nazista tentaram especular com esse
sentimento, aliás generalizado, organizando no Lustgarten uma exposição a que
puseram o nome de "Paraíso Soviético". Era uma coleção "absolutamente autêntica"
de casas de habitação — verdadeiras fossas, horrendas, cheias de trapo
velho! — trazidas, segundo se fazia constar, de Minsk, na Rússia Branca. Milhares
de pessoas visitavam diariamente a exposição. Mas o mau cheiro era de entontecer, e
muito visitante saiu tão depressa como entrou... Sem dúvida, algumas pessoas se
deixaram impressionar por essa espécie de propaganda direta, pelo "fato", mas
após o encerramento da exposição começou a correr em Berlim a seguinte
pilhéria:
"Então por que é que eles fecharam o Paraíso Soviético?" Resposta: "Ora, porque
havia de ser! O pessoal de Norte-Berlim reclamou a restituição de suas
posses!"
Estranhos, na verdade, eram os sentimentos que a Alemanha nutria por seus
aliados. Conquanto nenhum alemão ousava negar que a campanha japonesa na Ásia
aliviou consideravelmente na Europa a pressão sobre o Reich, os japoneses eram alvo
da antipatia geral, ao passo que os chineses, por estranho que isso pareça, gozavam
de muita popularidade. Isso se devia, em parte, ao fato de que os alemães ainda não
tinham esquecido que os japoneses se bateram contra eles na outra guerra. Pensava-se
também que o Kaiser Guilherme, depois de tudo, não andava muito enganado quando
preveniu a Europa contra o "perigo amarelo".
Os berlinenses ficaram surpresos com as vitórias japonesas na primavera de 1942.
De início, os alemães se entusiasmaram e aplaudiram com vigor. Mas, à medida que
prosseguiam as conquistas dos japoneses, e quando por fim caíram em mãos deles
as Índias Neerlandesas, foi grande a depressão que pesou nos círculos
políticos.
Houve até líderes preeminentes do Nazismo que deixaram escapar comentários deste
gênero: "São os povos germânicos que estão tendo que pagar pelo avanço das raças
amarelas!"
Este sentimento anti-japonês tinha persistido. Os meios dirigentes da Alemanha
sempre se mostraram contrariados pela recusa dos japoneses em aceitar fazer a
guerra de acordo com a estratégia alemã, e, particularmente, pela sua obstinação
em não declararem guerra à União Soviética. O Eixo Berlim-Tóquio foi pura e
simplesmente um "casamento de conveniência", no qual nenhuma das partes
interessadas alimentava o mais leve escrúpulo em sacrificar o parceiro, se tal
fosse necessário.
Piores ainda eram as relações da Alemanha com a sua antiga aliada, a Itália. A
capitulação da Itália, a 3 de setembro de 1943, acarretou consigo, pelo menos,
uma abençoada vantagem para a Alemanha: podiam finalmente expressar os
sentimentos que nutriam a respeito da sua ex-aliada! O "heroico" povo italiano,
que até pouco antes vinha sendo posto no mais alto pedestal, transformou-se de
súbito em nação de traidores, demasiado vis para merecerem o comando de um
"gigante" como Mussolini.
Mas a queda da Itália nem por isso deve ter deixado de produzir uma impressão
esmagadora nos alemães. Vindo em conjunção com a ofensiva da Rússia, a ação
aliada na Itália abriu perspectivas de extrema seriedade para o Terceiro Reich.
Já não era só o fato de que as zonas da Alemanha sul, razoavelmente
salvaguardadas, passaram a ficar diretamente expostas aos ataques aéreos dos
Aliados; era também o perigo de uma porta aberta à invasão pelas forças das
democracias. Desde a rendição da Itália que a data "1918" começou a exercer
sobre o povo alemão efeito hipnótico de dia para dia mais acentuado.
Conquanto, porém, a população da Alemanha estivesse, no seu conjunto, sofrendo
de excesso de trabalho e de esgotamento nervoso, não seria prudente subestimar as
suas energias. O Terceiro Reich ainda possuía reservas praticamente intactas,
incluindo por exemplo as "novas armas" de que tanto se falava. Seria erro
imperdoável supor que isso era simples propaganda, e a prudência aconselhava a
contar com a possibilidade de que os alemães dispunham de meios técnicos que ainda
viessem a resultar em triunfos para o Führer. Tinha-se feito referência, por
exemplo, a peças de artilharia de um alcance verdadeiramente sem precedentes.
Os alemães já estavam em condições de destruir várias cidades inimigas, e de
danificar seriamente a Inglaterra, pois haviam construído duas novas armas: a
V-1 e a V-2, bombas voadoras, que seriam lançadas contra Londres, e forçaria os
britânicos a fazerem a paz. Mesmo assim, não havia razão para crer que esta, ou
outra qualquer arma secreta de alta potência, não encontrasse por parte dos
Aliados resposta condigna, em novas armas da mesma espécie, ou que isso de
qualquer modo diminuísse a determinação com que os ingleses esperavam levar a
guerra a uma conclusão vitoriosa. Como de fato, aconteceu.
Imagem de um ataque aéreo alemão sobre Londres
~ O Fim do Terceiro
Reich ~
No começo de 1943 os alemães dotados de bom-senso começaram a compreender que,
como nação, estavam completamente abandonados. As esperanças de vitória se tinham
quase de todo dissipado; e o medo da derrota e das suas consequências não seria
por certo o motor mais apropriado para manter em marcha acelerada a máquina de
guerra. Até mesmo pessoas desprovidas das chamadas informações de "fonte segura"
começavam a pensar no que haviam de fazer no caso de um colapso final. Muitos
inquiriram das possibilidades de mandar as respectivas famílias para algum lugar
mais calmo do país, a viver com parentes.
Começavam já a notar-se os sinais exteriores da pura e simples exaustão física;
os resultados de uma alimentação empobrecida e ministrada por conta-gotas, iam-se
tornando patentes. Ouviam-se nos centros de negócios referências aos operários que
caíam sem sentidos, agarrados às suas máquinas; vinha o médico da fábrica
examiná-los, e a conclusão era invariavelmente a mesma: carência de alimentação
adequada e de repouso.
Pelos meados de janeiro de 1943, o Dr. Goebbels lançou nova campanha, destinada
a ofuscar os irrecusáveis efeitos da invasão do Norte da África, e as derrotas
sofridas na Rússia; mas a desconfiança na propaganda alemã em geral, e em
Goebbels em especial, havia-se intensificado progressivamente, sobretudo entre
os soldados. O Ministro da Propaganda apelava agora para a mobilização total dos
recursos nacionais da Alemanha. A despeito de quanto sucedera, argumentava, o
povo alemão ainda permanecia por assim dizer com um pé nos tempos de paz. "Toda
a gente que observava a caça às frivolidades e bugigangas nas lojas, pelo Natal,
e as longas filas em frente das bilheterias das casas de espetáculo, sabia que
aquilo era verdade. Ora, a guerra punha em jogo a própria vida. Não podiam
ganhá-la em frações, meia vitória, ou mesmo três quartos de vitória! A guerra
era total, e a vitória só podia ser total, ou não seria vitória."
Os civis alemães não poderiam continuar procedendo como se tivessem o privilégio
de consagrar o seu tempo livre aos esportes, ao rádio, à bebida, ao teatro e ao
cinema; a nova mobilização destinava-se a pôr termo a toda e qualquer atividade
suntuária. Fechados todos os estabelecimentos comerciais que não fossem de
importância capital, poupar-se-iam mão-de-obra, gás, luz e
matérias-primas.
Por trás desses objetivos anunciados, podia-se descortinar outro propósito: era
preciso manter o público alemão tão ocupado, que nem tempo tivesse para pensar
nas derrotas sofridas na frente russa e na África.
Não tardou muito que o fechamento das lojas se tornasse um fato. Alguns dos mais
conhecidos restaurantes de luxo de Berlim cerraram as portas — com a maioria das
lojas de antiguidades, joalherias, perfumarias e movelarias.
Nos bastidores, deram-se, é claro, violentas cenas de rivalidade entre donos de
restaurantes. (A proibição do luxo fora naturalmente concebida para o povo em
geral, mas não para os grandes... como sempre acontece.) Dizia-se à boca pequena
que Goebbels arranjara as coisas de modo que os "cidadãos indignados"
apedrejassem alguns restaurantes de luxo, de que eram proprietários certos
indivíduos de influência no Partido Nazista, servindo-lhe assim as demonstrações
públicas de pretexto para dar cabo do negócio aos mesmos camaradas.
Paralelamente correu o boato que Herr Goering, após uma luta encarniçada,
conseguira ainda salvar um desses restaurantes para serviço da sua clientela de
oficiais.
O fechamento de todos esses estabelecimentos causou maior indignação do que a
princípio se havia esperado. A medida, com efeito, prejudicava muito os
interesses da classe média. A convicção geral era que tudo aquilo se fizera, não
tanto para intensificar o esforço de guerra, mas para que os patrões do Partido
pudessem se apropriar de uma larga parte dos suprimentos ainda
disponíveis — com fins de uso exclusivo e pessoal.
~ A Desintegração de um
Povo ~
Em fins de fevereiro de 1943 os ingleses começaram a intensificar os seus
ataques aéreos. Várias cidades da Alemanha ocidental foram devastadas, entre elas
Essen. Depois, a 1 de março, a vez de Berlim. A força atacante não encontrou pela
frente a barragem de defesa antiaérea que se esperava, e despejou à vontade,
sobre a capital do Reich, enorme quantidade de bombas demolidoras e
incendiárias. O vento, que soprava forte nesse dia, espalhou as labaredas com
furiosa rapidez. Quando, passado o alarme, os berlinenses saíram dos seus
abrigos, foi para verificar que o horizonte estava abrasado dos incêndios que
ardiam praticamente em todos os bairros da grande cidade.
Esse bombardeio de 1 de março foi o mais duro dos golpes que a capital até
então recebera; a depressão dos ânimos foi profunda durante os dias seguintes,
muito embora Goebbels tivesse se esforçado por dominar o espírito derrotista que
alastrava. Grande número de berlinenses receberam prêmios pela sua exemplar
conduta durante o ataque, e os jornais transbordavam de hinos de louvor aos
"bravos cidadãos". Goebbels chegou mesmo a aparecer de capacete de aço, na
Breitenbach Platz, para distribuir barras de chocolate para a meninada!
Foi isso, bem entendido, logo depois do bombardeio: porque, naqueles dias que
se seguiram, nem o Dr. Goebbels nem qualquer outro líder nazista ousou aparecer em
público. É que tinham sido muitos os berlinenses a revelar de indisfarçável
maneira o seu descontentamento pelo sucedido. Os burocratas nazistas tinham sido
acolhidos pela multidão, em vários pontos de Berlim, aos gritos de "Obrigado ao
nosso líder!", e só num quarteirão haviam sido presas trinta pessoas por motivo
de "comentários subversivos".
Nesse ínterim, a situação de Rommel na África vinha causando a mais profunda
ansiedade. Quanto mais séria se punha a posição, maiores eram os esforços de
Goebbels para depreciar as vitórias dos Aliados. Mesmo depois de terminada em
desastre a campanha tunisiana, a imprensa alemã declarava que as potências do
Eixo haviam sofrido apenas um ligeiro "arranhão"; que a resistência na África
tinha retardado a invasão aliada por muitos meses "decisivos", o que,
inversamente, dera tempo ao Eixo para reorganizar e fortalecer a sua frente
sul.
A essa manobra tenaz de propaganda, porém, o povo alemão não reagiu segundo a
expectativa das altas esferas: os resultados da campanha da Tunísia foram
interpretados como uma autêntica derrota, e não um simples "revés". Nada
restava, praticamente, do que eram outrora os orgulhosos exércitos do Eixo na
Tunísia! As perdas no mar, durante a campanha, tinham sido igualmente
consideráveis. O número de aviões abatidos pelos Aliados - chegou a 99 em um só
dia - era nada menos que aterrador. E a derrota era tanto maior, quanto é certo
que as unidades aniquiladas ou capturadas contavam-se entre as melhores de que a
Alemanha dispunha. O lendário Afrika Korps de Rommel passara ao estado
de simples memória. A divisão Hermann Goering sofrera tremendas baixas.
Até os otimistas inveterados começaram a pôr em dúvida o êxito da guerra. E as
próprias anedotas que circulavam eram agora de um humor lúgubre, sinistro: "Vá
gozando a guerra, que a paz vai ser medonha" — e outras do mesmo estilo...
Contava-se a anedota daquele homem que a explosão de uma bomba expulsara de casa,
e que deu volta a todos os alfaiates de Berlim em busca de um terno novo. Não
conseguindo achá-lo em parte alguma, desabafou por fim neste brado: "E tudo isto
por causa de um único homem!" Conduzido incontinenti à presença do juiz, perguntou
este quem era o tal "único" homem. Resposta: "Churchill, claro está!" A quem
julgava Vossa Excelência que eu me referia?... "Outra anedota corrente era a do
otimista e do pessimista. Dizia aquele: "É uma coisa terrível — mas vamos
perder esta guerra."Réplica do pessimista: "Sim, sim, mas quando?!"
Não houve nada de que Goebbels não lançasse mão para deter esta maré de
derrotismo. É bem verdade que não teve êxito por aí afora, mas no curso dos seus
esforços descobriu nova técnica para levar o público a esquecer o que estava se
passando nos campos de batalha: consistia a técnica em dar uma má notícia... com
outra ainda pior!
Há muito tempo vinham dizendo que os gêneros alimentícios seriam mais uma vez
reduzidos na Alemanha; mas essa medida restritiva fora adiada o mais possível.
Tratava-se de uma decisão particularmente difícil de tomar, em vista de um
discurso feito por Goering em 1942, e de que todo o mundo se lembrava
perfeitamente no Reich. Nesse discurso, o líder prometera positivamente que os
gêneros, que acabavam de ser aumentados, permaneceriam no mesmo nível, e talvez
fosse até possível aumentá-los mais. Ora, a 10 de maio anunciou-se, sem mais nem
menos, que durante o período de racionamento seguinte a quantidade de carne
sofreria um corte superior a 85 gramas por semana. As discussões rebentaram,
veementes. A ira e o ressentimento gerais subiram de ponto... e a memória do
desastre da Tunísia se apagou!
À medida que se agravava o problema da alimentação, as pessoas eram forçadas
a ficar numa fila muitas horas, todos os dias, para comprar nem que fosse um pão.
Podia-se conseguir peixe uma vez por mês. Habitualmente, só encontravam três
variedades de vegetais nos mercados, e o abastecimento era por vezes tão
precário, que nem por eles valia a pena esperar.
O crime recrudesceu. Roubavam-se cartões de racionamento, e os autores do
furto eram com frequência operários meio esfaimados, que não teriam sequer
hesitado diante da violência, para obter alguns escassos cupons de pão. Nestas
condições, o mercado negro assumiu, como não podia deixar de ser, grandes
proporções, e a sua atividade era só mais um sinal do afrouxamento generalizado
do moral de um país em ruínas. Podia-se obter fosse o que fosse no mercado negro,
contanto que se tivesse com que pagar os preços exorbitantes que se pediam. O
café custava 300 marcos, o quilo, a manteiga 120 marcos, e os cigarros, qualquer
coisa entre 50 pfennigs e 1 marco cada um!
Durante o primeiro semestre de 1943, a desintegração do moral foi tão vasta,
que raros alemães se mantiveram no respeito da lei. Cada qual tinha a sua culpa
na consciência, quer porque houvesse feito um pequeno negócio escuso em alguma
loja, quer por ter comprado a preços de mercado negro. E o dinheiro pouco valor
tinha, uma vez que quase nada havia para comprar. Ninguém já não perguntava:
"Preciso disto ou daquilo?" mas antes, simplesmente: "O que há para
comprar?"
Um dos problemas que se tornavam mais difíceis em Berlim, era o da habitação.
Tornara-se praticamente impossível alugar um apartamento. Todavia, a partir da
primavera de 43, o problema se agravou muitíssimo, devido às devastações cada
vez maiores provocadas pelos ataques aéreos.
~ O Bombardeio de
Berlim ~
Muitos dos que visitaram Berlim em 1941 e 1942, esperavam ir encontrar a
cidade em ruínas. Na realidade, por essa altura, só procurando minuciosamente
poderiam ter descoberto vestígios dos ataques aéreos. A guerra devastara com
efeito Berlim, mas a capital do Reich era uma grande cidade, e os efeitos do
bombardeio eram quase insignificantes no centro. Além disso, as brigadas de
reparação trabalhavam com incrível rapidez. Dentro de poucas semanas estavam
desvanecidos todos os traços de escombros deixados por algum ataque
intenso.
Durante os primeiros anos da guerra, as autoridades berlinenses não pouparam
esforços para disfarçar os danos causados pelas bombas. Dinheiro, mão-de-obra e
materiais, eram prodigamente dispensados para esse efeito. Do ponto de vista da
propaganda, seria importante demonstrar que os ataques britânicos não passavam
de picadas de alfinete. Quando se verificava impossível proceder a reparos,
escondia-se a propriedade danificada sob imensos tapumes, todos forrados de
cartazes a anunciar que o edifício estava a cargo de um empreiteiro. Os
estrangeiros que passavam por Berlim não poucas vezes se maravilhavam de ver tão
ativa a construção civil.
Isso era então; porque depois, a aparência de Berlim sofreu radicais
alterações, tornando-se uma cidade que a guerra devastou.
Com o mês de maio, começaram as investidas noturnas quase diárias dos aviões
ingleses, que tinham como propósito principal esgotar os nervos da população de
Berlim. O que conseguiram plenamente. Houve ocasiões em que os ingleses, muito
embora despejando apenas algumas bombas, sobrevoavam a cidade por tanto tempo,
que todos se viam forçados a passar horas e horas nos abrigos, perdendo assim
outras tantas de sono. Nestas condições, mesmo quando as fábricas não eram
devidamente atingidas, a produção caía de nível, devido ao progressivo esgotamento
físico e mental dos operários. Muitos berlinenses criaram o hábito de não mudar
de roupa até cerca das duas da manhã, enquanto outros dormiam por volta das oito
da noite, na esperança de poderem aproveitar umas cinco horas de sono antes de
soar o sinistro alarme.
Em agosto de 1943, os danos do bombardeio de Berlim estavam distribuídos com
bastante uniformidade. Unter den Linden, a famosa avenida central, fora
severamente atingida; mas o bairro da Wilhelmstrasse quase não mostrava uma
arranhadura. O Ministério das Comunicações, na Wilhelmplatz, ficou com o andar
superior completamente destruído, e o Ministério do Ar, obra de Goering, foi
atingido por uma bomba, que arruinou 27 das suas repartições.
Todo o sul e o oeste de Berlim estavam reduzidos a montões de escombros,
sobretudo o bairro de Wilmersdorf. Estranha era a sensação de quem percorria
esses bairros de automóvel, à noite, vendo a lua brilhar através das janelas
vazias de casas sem telhado, enquanto nas ruas não se ouvia o mais leve rumor de
vida. As silhuetas de pesadelo dessas ruínas, erguidas para o céu, faziam pensar
num cenário irreal de teatro, e custava a acreditar que fosse aquilo Berlim — a
devastação e o deserto no coração de uma capital europeia.
O maior êxito de todos os bombardeios fora, por si só, a dinamitação das
represas do Mohne e Eder, em maio de 43. Não era exagero afirmar que esses
bombardeios se deviam contar entre os golpes mais duros que fizeram chorar a
Alemanha. Morreram afogadas inúmeras pessoas, e os serviços de impostos e de
censo de regiões inteiras ficaram desorganizados, porque a inundação resultante
da destruição dos diques arrastou consigo os registros paroquiais, os arquivos
da polícia, e outros documentos de igual importância administrativa. Quanto aos
resultados militares do ataque, deve incluir-se neles a interrupção do
abastecimento de energia elétrica, e o abaixamento do nível das águas em
numerosos canais essenciais às comunicações interiores. Em consequência disso,
as barcaças tiveram que passar a carregar menos carga, e tornou-se impossível
respeitar os horários de navegação. Dado que as represas fossem reparadas,
levariam muito tempo a encher de novo até o nível normal.
Ainda do ponto de vista militar, o bombardeio dessas represas e da região
industrial da Alemanha Ocidental, tinha sido de muito maior alcance e
repercussão do que os bombardeios a Berlim. Mas estes tiveram pelo seu lado
inegável efeito psicológico. É que, por meio deles, não era só atingida a
capital do Reich, mas também o símbolo do Nacional-Socialismo.
~ "Vitória ou
Bolchevismo" ~
Os nazistas tentaram remodelar todo o fundamento da vida nacional da Alemanha,
que antes da ascensão de Hitler ao poder, era, numa palavra, o Evangelho. É certo
que, pessoalmente, muitos alemães devotavam completa indiferença à religião; mas
esses mesmos estavam marcadamente influenciados pelos preceitos comuns a todas
as nações cultas do mundo cristão.
Hitler intentou dar aos alemães uma nova religião. Mantinha-se a juventude
alemã longe das igrejas, e oferecia-se-lhe novo objeto de crença. Em muitas partes
do país a fé em Hitler chegou mesmo a tomar as proporções de verdadeiro culto, mas
isso era ainda apenas um movimento de superfície. Aquilo com que a juventude alemã
vinha sendo inoculada era, antes, um decálogo de sangue, poder e germanismo.
Tudo o que dissesse respeito a outras nações, era vedado ao seu
conhecimento.
Ora, era precisamente nessa atitude da mocidade alemã que residia um dos maiores
perigos, não só para a Europa, mas para o mundo inteiro. Aquilo que Hitler
semeou outros virão a colher, e talvez seja necessário esperar a passagem de
algumas gerações, antes que as sementes do nazismo possam ser de todo
expurgadas.
Paralelamente à criação da nova "religião", corria o aniquilamento sistemático
do antigo sistema judiciário. Para quem chegava de fora, tornava-se realmente difícil
entender a significação do novo sistema de ilegalidade instituído pelo nazismo.
A Alemanha estava em condições quase comparáveis às do Interregnum de
1254-73, de triste lembrança na sua história. Cidadãos inocentes podiam ser, e eram
na verdade, encarcerados e imediatamente executados sem julgamento nem formalidade
de qualquer espécie. Nem sequer se observavam as regras mais elementares de respeito
pelo acusado, que podia ser liquidado em sua própria casa. Como compreender
semelhante estado de coisas, quando nos lembramos que este povo foi considerado um
dos mais cultos e civilizados do mundo?
Na vida oficial, como na existência particular, floresciam brutalidade, servilismo,
mentira e corrupção; a deslealdade e a denúncia tomaram o lugar das aspirações à
verdade e à honra.
Milhões de alemães tinham reagido intimamente contra estas manifestações da
política hitlerista, tal como outros povos europeus — mas poucos teriam ousado ir
até o protesto verbal. Falta de coragem moral? Talvez. Mas levantar a voz numa nação
dominada por um regime do tipo nazista, era uma coisa cujas consequências os que
estavam de fora só muito remotamente podiam conceber. Qualquer sinal de oposição
equivalia a arriscar não só a própria cabeça, mas as vidas até de parentes e
amigos.
Os alemães viviam numa situação que era de apavorar. Estavam acorrentados ao
regime nazista, sujeitos à sua sistemática ação adormentadora, e à segregação
relativamente ao mundo exterior. Os mais inteligentes dentre eles compreendiam
perfeitamente que a vitória da Alemanha hitlerista resultaria numa insuportável
camisa-de-força para os alemães, do mesmo modo que para outras nações. E isso
era qualquer coisa que eles não ousavam desejar de todo o coração. Mas a ideia
de quem não tivesse no Führer uma confiança de fanático, era um traidor da
pátria; além disso, aqueles que puderam assistir à crise de 1918, sabiam o que
era ver-se desarmado e entregue nas mãos do inimigo, e imaginavam que uma nova
derrota seria mil vezes pior.
O povo
alemão começava a sentir que, sob as cinzas e ruínas da Europa, ardia um fogo de
ódio, e que contra ele se voltava a ameaça de todos os povos europeus — aqueles
mesmos que o nazismo pretendia integrar na Alemanha, e que, afinal, só
conseguiu unificar contra ela. Sentiam também a pressão dos povos eslavos, que
se adensava, e a ameaça latente de milhões de trabalhadores estrangeiros, que
viviam na Alemanha sob o regime do trabalho forçado.
A miséria da guerra e da ocupação, a realidade macabra dos campos de
extermínio causaram indignação entre os povos. E o ódio acumulado nos países sob
ocupação estava só esperando o momento de explodir.
Apesar de tudo isso, muitos alemães pensavam dever levar a corrida até o fim.
E que outro caminho lhes restava aberto, senão o da luta? Os Aliados, de fato,
não deram ao povo alemão qualquer alternativa para a rendição incondicional. Era
difícil levar um povo a aceitar semelhante solução, antes de produzida a
catástrofe militar. Na realidade, os inimigos da Alemanha estavam forçando os
alemães a unirem-se sob o estandarte da suástica. "Vitória ou Bolchevismo" era o
estribilho do Dr. Goebbels. Era outra maneira de dizer que não havia mais
escolha para a nação alemã. Em todo caso, uma coisa os nazistas sabiam sem
sombra de dúvida: que a batalha, o Kampf , que Hitler
lhes prometeu e serviu, representava para eles, questão de vida ou de
morte!
~ A Morte de
Hitler ~
Conquanto Hitler fosse uma ruína, com um fim desastroso pela frente, ao
aproximarem-se os russos de Berlim e ao invadirem os aliados ocidentais o Reich,
ele e alguns de seus mais fanáticos auxiliares — Goebbels principalmente —
apegavam-se obstinadamente à esperança de serem salvos, no último momento, por
um exército (já liquidado) que viria em auxílio da capital. Mas, quando já não
existia uma única chance de vitória, Hitler ditou sua última mensagem e pediu
ao coronel Nicolaus von Below — um antigo ajudante na Luftwaffe — que a
entregasse a Keitel. Informava seu chefe do OKW que a defesa de Berlim estava
agora no fim, que se mataria ao invés de render-se, que Goering e Himmler o
haviam traído e que havia nomeado o almirante Doenitz seu sucessor.
Teve ainda uma última palavra acerca das forças armadas que, a despeito de
sua chefia, haviam levado a Alemanha à derrota. A Luftwaffe havia combatido com
bravura, e somente Goering era responsável por haver ela perdido a supremacia do
início da guerra. Quanto ao Exército — disse — os soldados haviam combatido bem e
valentemente, mas os generais os tinham traído, a eles e a ele.
Na tarde de 29 de abril de 1945 chegou a Chancelaria uma das últimas notícias
que ali foram recebidas.
Mussolini, o ditador fascista, amigo de Hitler e seu companheiro nas agressões,
havia encontrado seu fim, partilhado pela sua amante Clara Petacci.
Tinham sido capturados pelos partigiani (resistência italiana) em 26
de abril — quando tentavam fugir de Como para a Suíça — e executados dois dias
depois. Na noite de 28 de abril, um sábado, foram os corpos transportados para
Milão. No dia seguinte foram dependurados pelos pés, em postes de iluminação, na
praça principal da cidade, sendo retirados horas depois e largados na rua onde
permaneceram durante o resto da tarde do domingo e onde os italianos, em sua
vingança, os ultrajavam. Em 1 de maio, Mussolini foi enterrado ao lado de sua
amante em vala comum, no Cimitero Maggiore , de Milão. Foi nesse ritual
macabro de degradação que Il Duce e o Fascismo passaram para a história.
Não se sabe quanto dos detalhes do horrendo fim do Duce foi comunicado ao
Führer. Pode-se apenas imaginar que, se ouviu boa parte deles, se firmou em sua
resolução de não querer servir — tanto ele como sua mulher — de "espetáculo,
apresentado pelos judeus, para divertir massas histéricas" — conforme acabara de
escrever em seu Testamento — quer vivos quer mortos.
Logo após haver recebido a notícia da morte de Mussolini, Hitler começou os
preparativos finais para a sua. Mandou envenenar seu cão alsaciano favorito,
Blondi, e matar a tiros os dois outros da casa. Chamou depois as secretárias que
ali haviam permanecido, entregando-lhes cápsulas de veneno (cianeto) para
usarem, se quisessem, quando os bárbaros russos irrompessem na Chancelaria.
Sentia — disse — não lhes poder dar melhor presente de despedida, e manifestou seu
reconhecimento pelos longos e leais serviços.
Chegou a noite, a última da vida de Hitler. Deu instruções a Frau Junge — uma
das secretárias — para destruir os documentos existentes em seus arquivos e
ordenou que ninguém, na Chancelaria, fosse dormir até novo aviso. Todos
interpretaram isso como significando que ele julgara ter chegado a ocasião de
fazer as despedidas. Foi, porém, somente depois de meia-noite, mais ou menos às
2:30 da madrugada de 30 de abril, segundo várias testemunhas, que o Führer saiu
de seus aposentos e apareceu na sala de jantar onde cerca de vinte pessoas, na
maioria membros de seu círculo de amigos, se achavam reunidos. Apertou a mão de
cada um dos presentes, murmurando algumas palavras inaudíveis. Seus olhos
estavam úmidos e — segundo relatou Frau Junge — "pareciam olhar ao longe, para além
das paredes da Chancelaria".
Aconteceu um fato curioso depois que se retirou. A tensão reinante na Chancelaria,
que progressivamente atingia um ponto insustentável, rompeu-se e várias pessoas
foram para a cantina... a fim de dançar. A festa tornou-se tão barulhenta que, do
quarto de Hitler, veio um recado pedindo para ficarem mais sossegados. Os russos
poderiam chegar dentro de poucas horas e matá-los, a todos — se bem que a maioria
já estivesse pensando em como escapar. Entretanto, porém, e por breve intervalo,
agora que havia terminado o rigoroso domínio do Führer sobre suas vidas, queriam
divertir-se onde pudessem. Parecia que aquelas pessoas haviam sido tomadas de uma
enorme sensação de alívio. Continuaram a dançar durante toda a noite.
Menos Martin Bormann. Esse homem tenebroso tinha ainda um trabalho a fazer.
Afigurava-se-lhe que as perspectivas de sobreviver estavam diminuindo. Talvez
não houvesse um intervalo suficientemente longo entre a morte do Führer e a
chegada dos russos, durante o qual pudesse fugir e unir-se a Doenitz. Nesse
caso, enquanto o Führer ainda vivesse e apoiasse suas ordens, ele poderia pelo
menos exigir nova vingança contra os "traidores". Despachou, nessa última noite,
nova mensagem a Doenitz:
Doenitz!
Acentua-se diariamente nossa impressão de que as divisões, no teatro de
Berlim, Berlim, têm permanecido inativas durante vários dias. Todas as informações
que recebemos são controladas, suprimidas ou destorcidas por Keitel ... O
Führer ordena-vos para agirdes imediatamente e sem contemplação contra todos os
traidores.
Depois, embora sabedor de que a morte de Hitler era questão de poucas horas,
acrescentou um pós escrito: "O Führer está vivo e comanda a defesa de
Berlim."
Berlim, no entanto, já não era mais defensível. Os russos já haviam ocupado quase
toda a cidade. Tratava-se, agora, apenas da defesa da Chancelaria. Esta também
estava condenada, como souberam Hitler e Bormann por ocasião da conferência sobre
a situação ao meio-dia de 30 de abril, a última que se realizaria. Os russos
tinham atingido a extremidade leste do Tiergarten e irrompido na Potsdamerplatz.
Achavam-se a apenas um quarteirão. Chegara a hora, para Adolf Hitler, de levar a
efeito sua resolução.
Sua mulher, ao que parece, não sentiu vontade de almoçar naquele dia. Hitler fez
a refeição em companhia de suas duas secretárias e de sua cozinheira vegetariana,
que talvez ignorasse ter sido essa a última refeição que lhe preparava. Enquanto
a terminavam, por volta das 2:30 da tarde, Erich Kempka, motorista do Führer à
cuja direção se achava a garagem da Chancelaria, recebeu ordem de levar
imediatamente 200 litros de gasolina para o jardim. Kempka sentiu dificuldade em
conseguir tanto combustível, mas arranjou por fim 180 litros, aproximadamente,
e, auxiliado por três homens, levou-os para a saída de emergência da
Chancelaria.
Enquanto se arranjava a gasolina para fazer a fogueira, Hitler, tendo terminado
sua última refeição, foi buscar Eva Braun para outra despedida a seus mais íntimos
colaboradores: Dr. Goebbels, generais Krebes e Bugdorf, as secretárias e
Fräulein Manzialy, a cozinheira. Frau Goebbels não apareceu. Essa
bela e extraordinária loura, à semelhança de Eva Braun, achou fácil tomar a decisão
de morrer juntamente com o marido, mas a perspectiva de matar seus seis jovens
filhos, que haviam estado a brincar na Chancelaria durante aqueles últimos dias
sem terem ideia do futuro que os aguardava, afligia-a.
"Minha querida Hanna" — dissera a Fräulein Reitsch duas ou três noites
antes — "quando chegar o fim, você precisará auxiliar-me, se eu fraquejar, com
relação às crianças... Elas pertencem ao Terceiro Reich e ao Führer, e se ambos
deixarem de existir, não haverá mais lugar para elas. Meu maior medo é vir a
fraquejar no último momento."Só, no seu pequeno quarto, ela procurava agora dominar
seu maior medo (os filhos, com as respectivas idades, eram: Hela, 12; Hilda,
11; Helmut, 9; Holde, 7; Hedda, 5 e Heide, 3).
Hitler e Eva Braun não eram afligidos por esse problema, tinham somente suas
vidas para eliminar. Terminaram as despedidas e foram para o quarto. Fora, no
corredor, o Dr. Goebbels, Bormann e alguns outros ficaram na expectativa. Passados
uns minutos, ouviu-se um tiro de revólver. Esperaram pelo segundo mas nada ouviram.
Após regular intervalo, entraram silenciosamente no quarto do Führer.
Encontraram o corpo de Adolf Hitler estirado num sofá, esvaindo-se em sangue.
Eva Braun jazia a seu lado. Dois revólveres estavam caídos no chão; a mulher não
fizera uso do seu. Havia ingerido veneno.
Eram 3:30 da tarde de 30 de abril de 1945, segunda-feira, dez dias após o 55º
aniversário de Hitler e doze anos, três meses e um dia desde que ele se tornara
chanceler da Alemanha e instituíra o Terceiro Reich. Este cairia dali a uma
semana.
Começaram os preparativos para o estranho funeral. Não houve discursos; o único
ruído era o provocado pelas granadas russas que explodiam, ensurdecedoramente no
jardim no jardim da Chancelaria e nos muros destroçados, em torno. O camareiro de
Hitler, o Sturmbannführer Heinz Linge, das SS, e uma ordenança transportaram para
fora da Chancelaria o corpo do Führer, envolto num cobertor cinzento, de campanha
que lhe ocultava o rosto estraçalhado. Kempka identificou-o (?), em seu próprio
espírito, pelas calças e pelos sapatos pretos que apareciam fora do cobertor, e que
o Senhor Supremo da guerra sempre usara com o casaco curto cinzento, de campanha.
A morte de Eva Braun havia sido mais limpa: não havia sangue. Bormann carregou o
corpo como estava até o corredor, onde o entregou a Kempka.
Frau Hitler — contou mais tarde o motorista — usava um vestido preto...
Não vi ferimento algum em seu corpo.
Os cadáveres foram levados para o jardim e, durante uma pausa no bombardeio,
colocados num buraco aberto pela explosão de uma granada e queimados com
gasolina (?). Os acompanhantes do "enterro", tendo à frente Goebbels e Bormann,
retiraram-se e ergueram a mão direita numa saudação nazista de despedida. A
cerimônia foi rápida, pois as bombas russas começaram novamente a cair no
jardim. Os sobreviventes voltaram para a Chancelaria, deixando as chamas
consumirem completamente os restos mortais de Adolf Hitler e sua mulher (Os
ossos não foram encontrados, e isso ocasionou rumores, depois da guerra, da
sobrevivência de Hitler. Mas o interrogatório de várias testemunhas pelos
oficiais britânicos e americanos do Serviço Secreto, separadamente, não deixa
dúvida sobre a morte do Führer. Kempka deu uma explicação plausível a respeito
do fato de não terem sido encontrados os ossos carbonizados: "foram destruídos
pelo intenso fogo da artilharia russa", declarou ele aos que o interrogaram).
Quanto a Bormann e Goebbels, havia ainda para eles tarefas a serem executadas no
Terceiro Reich, agora que este ficara privado de seu fundador e ditador, se bem
que não fossem as mesmas.
Não havia ainda tempo de os mensageiros chegarem ao local onde se encontrava
Doenitz, com o Testamento do Führer nomeando-o seu sucessor. O almirante
deveria, agora, ser informado pelo rádio. Mesmo a essa altura, porém, com o
poder a fugir-lhe das mãos, Bormann hesitava. Achava difícil, para quem o
saboreava, renunciar tão bruscamente a ele. Mas acabou expedindo a
mensagem.
Grande Almirante Doenitz:
O Führer nomeia-vos seu sucessor em lugar do antigo Marechal do Reich Goering.
Autorização escrita acha-se a caminho. Deveis tomar imediatamente todas as
providências que a situação requer.
Nenhuma palavra informando que Hitler estava morto.
O almirante, que se encontrava no comando de todas as forças alemãs no norte e
havia transferido seu quartel-general para Ploen, em Schleswig, ficou perplexo
com a notícia. Diferentemente dos líderes do partido, não desejava ser o
sucessor de Hitler; nunca lhe passara pela cabeça de marinheiro esse pensamento.
Dois dias antes, acreditando que Himmler seria o sucessor, fora a esse chefe das
SS e oferecera-lhe seu apoio. Como, porém, nunca lhe ocorrera desobedecer a uma
ordem do Führer, enviou a seguinte resposta na crença de que ele ainda estava
vivo:
Meu Führer:
Minha lealdade para convosco será incondicional. Farei todo o possível para
socorrer-vos em Berlim. Se, entretanto, a sorte me obrigar a governar o Reich
como o sucessor nomeado por vós, continuarei esta guerra até um fim digno do
extraordinário heroísmo do povo alemão nesta luta.
Grande Almirante Doenitz
Nessa noite, Bormann e Goebbels tiveram uma nova ideia. Resolveram fazer uma
tentativa de negociações com os russos. O general Krebs, chefe do Estado-Maior
Geral, que havia permanecido na Chancelaria, fora, outrora, adido militar
assistente em Moscou, falava o russo e, numa ocasião muito célebre, havia até
sido abraçado por Stalin na estação ferroviária de Moscou. Talvez pudesse conseguir
alguma coisa dos bolcheviques. O que Goebbels e Bormann na verdade desejavam era,
porém, um salvo-conduto a fim de poderem assumir os postos para os quais haviam
sido nomeados no novo governo de Doenitz. Em troca, estavam dispostos a entregar
Berlim.
O general Krebs partiu logo depois da meia-noite de 30 de abril para falar com o
general Chuikov, comandante soviético das tropas que lutavam em Berlim (não o
marechal Zhukov, como consta de muitas versões). Um dos oficiais alemães que o
acompanharam registrou a abertura das conversações.
Krebs: Hoje é 1º de maio, um grande feriado para nossas
duas nações.
Chuikov: Realmente, é um grande feriado para nós. Quanto à situação com os
senhores, é difícil dizer como está.
O general russo exigiu a rendição incondicional de todos os que se encontravam na
Chancelaria do Führer, bem como das tropas alemãs remanescentes, de Berlim.
Levou algum tempo para Krebs levar a cabo sua missão. Como não voltara até às 11
horas da manhã, de 1º de maio, o impaciente Bormann expediu outra mensagem a
Doenitz, pelo rádio.
O Testamento está em vigor. Irei o mais breve possível. Até
lá, recomendo-vos manter em suspenso a publicação.
Isso ainda era ambíguo. Bormann, na verdade, não tinha dignidade bastante para
dizer que o Führer estava morto. Desejava sair para ser o primeiro a dar a Doenitz a
momentosa notícia, esperando que isso o ajudaria a assegurar as boas graças do
novo comandante-chefe. Goebbels, porém, que juntamente com a mulher e os filhos
estavam prestes a morrer, não tinha um motivo semelhante a esse para não contar
ao almirante a verdade. Às 3:15 da tarde enviou sua própria mensagem a Doenitz,
a última a sair da Chancelaria sitiada:
Grande Almirante Doenitz:
Secretíssimo
O Führer morreu ontem às 15:30 horas (3:30 da tarde). O Testamento, de 29 de abril,
vos nomeia Presidente do Reich... (Seguem-se os nomes dos principais componentes do
Gabinete).
Por ordem do Führer, o Testamento vos foi enviado de Berlim... Bormann tenciona
procurar-vos hoje para informar-vos da situação. A hora e a forma da declaração à
imprensa e às tropas ficam a vossos cuidados. Confirmai o recebimento.
Goebbels
Goebbels não julgou necessário informar o novo chefe quais eram suas próprias
intenções. Levou-as a cabo nas primeiras horas da noite de 1º de maio. O primeiro ato
consistiu em envenenar os seis filhos. Interrompeu-lhes as brincadeiras e mandou
aplicar-lhes injeções letais aparentemente pelo mesmo médico que, na véspera, tinha
envenenado o cão que pertencia ao Führer. Chamou depois seu ajudante, o Huptsturmführer
das SS Guenther Schwaegermann, ordenando-lhe que fosse buscar gasolina.
"Schwaegermann" — disse-lhe — "essa é a pior traição de todas. Os generais
traíram o Führer. Tudo está perdido. Vou morrer juntamente com minha mulher e a
família." — Não mencionou, mesmo ao ajudante, que acabara de matar os filhos.
— "Você queimará nossos corpos. Poderá encarregar-se disso?"
Schwaegermann assegurou-lhe que sim, e mandou duas ordenanças arranjar gasolina.
Minutos depois, por volta de 8:30 da noite, quando a escuridão invadia o jardim, o Dr.
e Frau Goebbels atravessaram o corredor da Chancelaria despediram-se de todos os que
ali se achavam e, depois, subiram a escada que dava para a saída. Ali, a seu pedido,
uma ordenança das SS matou-os com dois tiros na nuca. Derramaram sobre os corpos
quatro latas de gasolina e atearam fogo; mas a cremação não foi bem feita. Os
sobreviventes do abrigo estavam ansiosos por unir-se à fuga em massa que já se
processava, e não havia tempo a perder com a cremação dos que se achavam mortos.
Os russos encontraram os corpos carbonizados do Ministro da Propaganda e de sua
mulher no dia seguinte, identificando-os imediatamente.
Às 9 horas da noite de 1º de maio a Chancelaria foi incendiada. Quinhentos ou
seiscentos sobreviventes, a maioria integrantes das SS, corriam de um lado para
o outro — como frangos desesperados, como mais tarde contou um deles, alfaiate de
Hitler — preparando-se para a fuga. O plano era seguir a pé ao longo das linhas do
metrô, partindo da estação existente sob a Wilhelmplatz, defronte à Chancelaria, até
à Friedrichstrasse Bahnhof e, dali, atravessar o rio Spree e transpor as linhas russas
logo ao norte dele. Muitos conseguiram fazer a travessia; alguns não entre eles
Martin Bormann (?).
Quando o general Krebs voltou finalmente ao abrigo naquela tarde, com a exigência
do general Chuikov — rendição incondicional — o secretário do partido de
Hitler foi de opinião que a única oportunidade de sobreviver era juntar-se
àquele êxodo em massa. Seu grupo tentou seguir um tanque alemão, mas, segundo
Kempka que se achava com ele, o veículo foi diretamente atingido por uma granada
russa. Era mais que certo ter Bormann morrido nessa ocasião (?). Artur Axmann,
chefe da Juventude Hitlerista, que, para se salvar, havia desertado de seu grupo
de rapazes na ponte de Pichelsdorf e estava ali presente, declarou, ao prestar
mais tarde seu depoimento, ter visto o corpo de Bormann estendido sob a ponte
onde a Invalidenstrasse atravessa a linha férrea. Seu rosto estava iluminado
pelo luar; disse Axmann que não viu sinal algum de ferimento. Presume que
Bormann tivesse ingerido o conteúdo de sua cápsula de veneno, ao ver que eram
nulas as possibilidades de atravessar as linhas russas.
Os generais Krebs e Burgdorf não participaram da tentativa de fuga. Acredita-se que
se tenham suicidado na adega da Chancelaria.
O Terceiro Reich sobreviveu a seu fundador apenas sete dias.
Pouco depois das 10 horas da noite de 1º de maio, enquanto os corpos do Dr. e de
Frau Goebbels estavam sendo queimados no jardim da Chancelaria e os que viviam
lá reuniam-se para empreender a fuga através do túnel do metrô de Berlim, a rádio de
Hamburgo interrompeu a transmissão solene da Sétima Sinfonia de Bruckner, que estava
sendo executada. Ouviu-se o rufar de tambores militares, anunciando depois o
locutor:
Nosso Führer, Adolf Hitler, lutando até o último alento
contra o bolchevismo, tombou pela Alemanha, esta tarde, em seu quartel-general
de operações na Chancelaria do Reich. O Führer nomeou seu sucessor, em 30 de
abril, o Grande Almirante Doenitz. O Grande Almirante e sucessor do Führer vai
agora dirigir a palavra ao povo Alemão.
O Terceiro Reich, da mesma maneira que começara, extinguia-se com uma vil mentira
esfarrapada. Fora o caso de não ter Hitler morrido naquela tarde e sim no dia
anterior — o que aliás não tinha importância — não tombara lutando "até o
último alento"; mas a irradiação dessa mentira era necessária para os herdeiros
de seu manto perpetuarem uma lenda e, também, para serem controladas as tropas
que ainda resistiam e que, certamente, se sentiriam traídas se conhecessem a
verdade.
O próprio Doenitz repetiu a mentira quando, às 10:20 da noite, ocupou o microfone
e falou sobre a "morte heroica" do Führer. Na verdade, naquele momento ignorava
qual fora o fim de Hitler. Goebbels apenas o informara que o Führer tinha
"morrido" na tarde anterior. Isso, porém, não impediu o almirante — quer nesse ponto,
quer em outros — de esforçar-se por confundir ainda mais o espírito do povo alemão
naquela hora de desastre que tombara sobre ele.
Minha primeira tarefa — declarou — é salvar a Alemanha da destruição pelas
forças inimigas que estão avançando. É somente com esse objetivo que a luta continua.
Até e enquanto a realização desse objetivo for impedida pelos britânicos e americanos,
seremos forçados a prosseguir em nossa luta defensiva contra eles. Nessas condições,
portanto, os anglo-americanos estarão continuando a guerrear não para seus próprios
povos, mas, tão somente, para a propagação do bolchevismo na Europa.
Após essa distorção dos fatos, o almirante — de quem não se tem registro de haver
protestado contra a decisão de Hitler de aliar a Alemanha à nação bolchevique, em
1939, para combaterem a Inglaterra e depois os Estados Unidos — garantiu ao povo
alemão, ao concluir a irradiação: "Deus não nos abandonará após tantos sofrimentos e
sacrifícios."
Eram palavras vazias. Doenitz sabia que a resistência alemã chegara ao fim. Em 29
de abril, o dia anterior ao suicídio de Hitler, os exércitos alemães na Itália
haviam se rendido incondicionalmente, acontecimento cuja notícia, dada a
interrupção nas comunicações, fora poupada a Hitler, o que devia ter-lhe tornado
as últimas horas mais toleráveis que se dela tivesse tido conhecimento. Em 4 de
maio, o Alto Comando alemão rendeu-se a Montgomery com todas as forças do
noroeste da Alemanha, da Dinamarca e da Holanda. No dia seguinte, o Grupo G de
Exércitos, de Kesselring, abrangendo o 1º e o 19º Exércitos, capitulou no norte
dos Alpes.
Nesse dia — 5 de maio — o almirante Hans von Friedeburg, novo
comandante-chefe da Marinha Alemã, chegou ao quartel-general de Eisenhower, em Reims,
para negociar a rendição. O objetivo dos alemães, conforme demonstram os documentos
do OKW (Oberkommando der Wehrmacht, ou seja, Alto Comando das Forças Armadas), era
ganhar tempo a fim de afastar do caminho dos russos o maior número possível de tropas
e refugiados, permitindo-lhes entregarem-se aos Aliados Ocidentais. O general Jodl
chegou a Reims no dia seguinte para auxiliar seu colega da Marinha a elaborar os
planos. Foi, porém, inútil. Eisenhower percebeu o jogo.
Ordenei ao general Smith — contou ele mais tarde — que informasse Jodl
de que, a menos que naquele momento cercassem todas as simulações e adiamentos,
fecharia toda a frente aliada e, pela força, impediria que outros refugiados alemães
entrassem em nossas linhas. Não mais toleraria demoras.
Na madrugada de 7 de maio, à 1:30, Doenitz, depois de ser informado por Jodl a
respeito da exigência de Eisenhower, radiografou ao general alemão de seu novo
quartel-general em Flenburg, na fronteira dinamarquesa, dando-lhe amplos poderes
para assinar o documento da rendição incondicional. O jogo terminou
assim.
Numa pequena escola de tijolos vermelhos, em Reims, onde Eisenhower havia instalado
seu quartel-general, deu-se a rendição incondicional da Alemanha às 2:41 da madrugada
de 7 de maio de 1945. Foi assinada, em nome dos aliados, pelo general Walter Bedell
Smith, apondo suas assinaturas como testemunhas o general Ivan Susloparov, pela Rússia,
e o general François Sevez, pela França. O almirante Friedeburg e o general Jodl
assinaram pela Alemanha.
Jodl solicitou permissão para dizer algumas palavras, sendo-lhe concedida.
Com essa assinatura, o povo e as Forças Armadas da Alemanha são, para melhor ou
pior, entregues às mãos dos vencedores... Nesta hora, posso apenas exprimir a esperança
de que os vencedores os tratem com generosidade.
Não houve resposta por parte dos aliados. Jodl talvez, devia ter-se recordado de
outra ocasião, apenas cinco anos antes, quando os papéis estavam invertidos.
Naquele tempo, um general francês, ao assinar a rendição incondicional da França
em Compiègne, fizera um apelo semelhante. Fizera-o em vão, conforme se verificou
depois.
Os canhões cessaram fogo na Europa, e as bombas deixaram de cair, à meia-noite, de
8 para 9 de maio de 1945. Um estranho porém bem-vindo silêncio pairou sobre o
Continente pela primeira vez, desde 1º de setembro de 1939. Naqueles cinco anos,
oito meses e sete dias decorridos, milhões de mulheres e homens tinham sido
mortos em centenas de campos de batalha e em milhares de cidades bombardeadas;
milhões de outros tinham encontrado a morte nas câmaras de gás nazistas e nas
valas, vitimados pelos Einsatzgruppen das SS, na Rússia e na Polônia, em
consequência da sede de conquistas de Adolf Hitler para a Alemanha. Grande parte
de muitas das cidades antigas da Europa (Colônia, na Alemanha e Coventry, na
Inglaterra, por exemplo) jazia ruínas e, de seus escombros, ao esquentar o
tempo, subia o cheiro de incontáveis cadáveres insepultos.
Não mais ecoaria pelas ruas das cidades alemães o ruído das botas das tropas de
assalto em passo de ganso, tampouco os brados daquela massa de camisas pardas ou
os gritos do Führer ecoando dos alto-falantes.
Após doze anos, quatro meses e oito dias, uma Idade das Trevas para os alemães,
exceto para uma porção deles — e que agora terminava numa noite tenebrosa também para
eles — chegava ao fim com o Reich de Mil Anos. Conforme vimos, ele havia erguido essa
grande nação e esse povo tão engenhoso porém tão facilmente mal orientado ao auge do
poder e das conquistas, como jamais havia experimentado antes e agora se extinguia de
maneira brusca e total, quase sem paralelo, se é que houve, na história.
Em 1918, após a última derrota, o Kaiser havia fugido, a monarquia caído; mas as
instituições tradicionais que apoiavam o Estado haviam permanecido e um governo
eleito pelo povo continuou a funcionar como o fizera o núcleo de um Exército e
um Estado-Maior Geral alemães. Na primavera de 1945, porém, o Terceiro Reich
simplesmente deixou de existir. Não mais havia qualquer autoridade em qualquer
nível na Alemanha. Os milhões de soldados, aviadores e marinheiros tornaram-se
prisioneiros de guerra em sua própria terra. Os milhões de civis estavam sendo
governados, até nas aldeias, pelas tropas inimigas vencedoras, das quais
dependiam não só para manutenção das leis e da ordem mas, também — durante todo aquele
verão e amargo inverno de 1945 — para obtenção de mantimentos e combustíveis a fim de
se conservarem vivos. Tal foi a situação a que as loucuras de Adolf Hitler — e sua
própria loucura em segui-lo tão cegamente e com tanto entusiasmo.
O povo estava lá e também a terra: aquele, desnorteado, sangrando e faminto e,
quando chegou o inverno, tiritante de frio em trajes esfarrapados, em meio às ruínas em
que os bombardeios haviam transformado suas casas; esta, um vasto deserto de
destroços. O povo alemão não foi destruído como Hitler — que procurara destruir tantos
outros povos — perdida a guerra, no fim, desejara que fosse.
Mas, quanto ao Terceiro Reich, passou para a História.
~ Para que não esqueçamos ~
Majdanek — o campo de extermínio onde os alemães
sistematizaram a eliminação em massa.
Uma Fábrica Nazista de Cadáveres
William H. Lawrence*
fevereiro de 1945
(Transcrito do New York Times)
A cabo precisamente de ver o lugar mais terrível do mundo — o
campo de extermínio alemão em Majdanek, na Polônia, que foi, em verdade, uma fábrica
para a produção de morte. As autoridades soviéticas e polonesas calculam em 1 milhão
e 500 mil o número de pessoas, de quase todos os países da Europa, que os nazistas
ali mataram nestes últimos três anos.
Há que ver para acreditar! Já estive presente a
numerosas investigações acerca de atrocidades cometidas pelos alemães; nunca,
porém, vi tão clara a evidência dos seus crimes. Depois da inspeção de Majdanek,
estou propenso a dar como verídico tudo o que me contem em matéria de
barbaridades germânicas, por mais selvagens, cruéis e depravadas que sejam.
Percorri todo o campo; examinei as câmaras de gás,
fechadas hermeticamente, em que muitas das vítimas morreram asfixiadas, e os
fornos em que os seus restos foram cremados; vi grande número de esqueletos, e
mais de 20 cadáveres que os alemães não tiveram tempo de queimar, antes da
chegada do Exército Vermelho às imediações de Lublin; vi muita cinza de ossos,
amontoada nas proximidades dos fornos, afim de ser levada para os campos, e aí
espalhada como adubo para as plantações de couve. Em Krempitski, a uns quinze
quilômetros a leste, vi reabrirem-se túmulos onde se haviam feito sepultamentos
em massa, e contei 368 corpos, decompostos parcialmente, de homens, mulheres, e
crianças, executadas em Maidanek por vários meios e modos, cada qual mais
desumano. Só naquela floresta, ao que estimam as autoridades, o número de
sepultados é maior de 300 mil.
Fazendo parte de um grupo de correspondentes estrangeiros que foi à Polônia a
convite do Comitê Polonês de Libertação Nacional, sentei-me com a comissão
Russo-Polonesa de Investigação de Atrocidades, e interroguei testemunhas, entre
as quais três oficiais alemães que serviram no campo. Estes homens admitiram
francamente que Majdanek era um posto para eliminação altamente sistematizada —
embora negassem, como era de esperar, qualquer participação pessoal nos
homicídios, o que os não livrará, provavelmente, do devido processo pela parte
que tiveram no monstruoso episódio.
Segundo o depoimento das testemunhas, a produção de
morte culminou no dia 3 de novembro de 1943, quando o número de execuções subiu
a 18 e 20 mil, a tiro, gás, forca, e por outros meios.
Quem se aproxima de Majdanek tem a mesma impressão, mais
ou menos, que os filmes americanos nos transmitem, quando figuram na tela um
campo de concentração. O que primeiro se vê, é uma dupla cerca de arame farpado,
de 3 a 4 metros de altura, que estava carregada de eletricidade. Dentro, um após
outro, grupos de edifícios verdes, de aspecto austero — mais de 200 construções,
ao todo. Do lado de fora da cerca, 14 altas torres de metralhadoras, e, a uma
extremidade, canis, com capacidade para acolher uns 200 cães bravos,
especialmente treinados para perseguir prisioneiros que tentassem fugir.
– Um soldado soviético, no campo de extermínio
de Majdanek, tira a tampa da abertura no teto de uma câmara de
gás, onde pela qual o Zyklon B era jogado. London Press,
outubro de 1944.
Perto da entrada, encontra-se a casa de banho, onde os
presos, que tinham de ser mortos mediante inalação de gases venenosos, tiravam
as roupas, e tomavam um banho de "chuveiro". Era costume, em tais casos, aplicar
um banho às vítimas, antes da execução, porque a água quente abria os poros, e
assim se tornava mais rápido o efeito dos gases. Alguns passavam dali à sala
imediata, hermeticamente fechada, e de onde saiam para a cremação. Através de
aberturas no telhado, os alemães despejavam latas abertas de um gás venenoso
(Ziklon B) à base de ácido prússico, que mata rapidamente.
Vizinhas à casa de banho, há mais duas câmaras de morte,
apropriadas para este gás, ou óxido de carbono. Uma delas mede, em área, 17
metros quadrados, e lá, ao que nos disseram, 100 a 110 pessoas eram executadas
de uma vez. Ao redor do piso das salas, estende-se um tubo de aço, com aberturas
a intervalos de 25 centímetros, para dar escapamento ao óxido de carbono. Nestas
câmaras de morte, há também espaços abertos, com cobertura de vidro, pelos quais
os alemães podiam observar o efeito do gás nas vítimas, e determinar o momento
de remover os cadáveres.
A cerca de quilômetro e meio das câmaras de gás, vê-se
um enorme crematório de tijolo. Dir-se-ia um pequeno alto-forno para uma usina
de aço. O combustível (carvão) era atiçado por um fole, de funcionamento
elétrico. Havia de cada lado cinco aberturas; por um lado entravam os corpos, e
por outro saiam as cinzas, e acendia-se o fogo. A bateria de fornos tinha uma
capacidade, só que se calcula, para cremar 1.900 cadáveres por dia.
Não longe dos fornos, havia uma grande quantidade de
urnas de barro que, segundo disseram testemunhas, eram destinadas a receber as
cinzas de algumas das vítimas, que os alemães vendiam às respectivas famílias,
por preços que subiam até a soma de 2.500 marcos.
Vimos ainda uma mesa de concreto, onde se depositavam,
antes da cremação, os cadáveres, para o fim de tirar o ouro que acaso tivessem
nos dentes. Nenhum corpo era aceito no forno, se não trouxesse no peito a marca
indicadora de ter passado pelo exame dos dentes.
Estive num imenso armazém, onde se espalhavam pelo chão
dezenas de milhares de sapatos, inclusive de crianças, até de um ano, e todos em
mau estado. É que os alemães usavam o campo, não só para exterminar as suas
vítimas, senão também como um meio de obter vestuário, de modo que, se aqueles
sapatos ali ficaram, terá sido talvez pelo fato de os não julgarem, os nazistas,
suficientemente bons. Alguns aliás eram evidentemente dos mais caros.
Noutro armazém, em Lublin, vi outras dezenas de milhares
de peças de roupa, que haviam pertencido aos mortos. Interroguei um oficial
alemão, e ele me declarou que tinha dirigido a expedição, para a Alemanha,
durante um período de dois meses, de roupas das vítimas de Maidanek, em
proporções que deram para encher 18 vagões.
A identidade dos nazistas, responsáveis pelos crimes
aqui mencionados, é perfeitamente conhecida. Os poloneses, com quem conversamos,
são todos de opinião que eles devem ser executados no mesmo campo terrível onde
cometeram as atrocidades. O vice-presidente Andrey Vitos, do Comitê Polonês de
Libertação Nacional, lamenta que certos círculos americanos, favoráveis a uma
paz de suavidade com o Reich, não tenham uma oportunidade de examinar mais de
perto a brutalidade germânica. O comitê pretende conservar, tal como está, a
parte principal de Majdanek, para que perdure pelo tempo, através das gerações,
aquela prova incontestável da crueldade alemã.
Depoimento de alguns sobreviventes
dos campos de extermínio nazistas
— Motke Zaidl e Itzhak Dugin
"No momento em que se abriu a última vala, reconheci
toda a minha família. Mamãe e minhas irmãs. Três irmãs com seus filhos. Elas
estavam todas lá. (...) Quanto mais se cavava para o fundo, mais os corpos
estavam achatados, era praticamente uma posta achatada. Quando se tentava
segurar o corpo, ele esfarelava completamente, era impossível pegá-lo. Quando
nos forçaram a abrir as valas, proibiram-nos de utilizar instrumentos,
disseram-nos: 'É preciso que se habituem a isso'; trabalhem com as mãos (...) Os
alemães haviam até acrescentado que era proibido empregar a palavra 'morte' ou a
palavra 'vítima', porque aquilo era exatamente como um cepo de madeira, era
merda, aquilo não tinha absolutamente nenhuma importância, não era nada."
— Prisioneiro de Treblinka
"No interior do vagão, ficavam tão apertados que talvez
nem sentissem frio. E no verão sufocavam, porque fazia muito, muito calor. Então
os prisioneiros tinham muita sede, tentavam sair. (...) E algumas vezes faziam
de propósito, muito simplesmente saiam, sentavam-se no chão, e os guardas
chegavam e lhes davam um tiro na cabeça. (...) Uma vez os judeus pediram água,
um ucraniano que passava proibiu de dar água. Então a prisioneira que pedia água
jogou-lhe na cabeça a panela que segurava, então o ucraniano recuou um pouco,
dez metros talvez, e começou a atirar no vagão, a esmo. Então aqui ficou cheio
de sangue e de miolos."
— Franz Suchomel, SS Unterscharführer
"Treblinka nessa época funcionava a plena força. Estávamos
então começando a esvaziar o gueto de Varsóvia. Em dois dias, chegaram cerca de
três trens (...) Chegaram a Treblinka cinco mil judeus, e entre eles havia três
mil mortos (...) Eles haviam aberto as veias, ou estavam mortos, assim...
Descarregamos semimortos e semiloucos. (...) Nós os amontoamos aqui, aqui e aqui.
Era milhares de humanos empilhados uns sobre os outros. Empilhados como madeira.
Mas também outros judeus, vivos, esperavam ali há dois dias, pois as pequenas
câmaras de gás já não eram suficientes. Funcionavam dia e noite,
naquele tempo.
— Simon Srebnik
"Lembro-me de uma vez, eles ainda viviam, os fornos já estavam
cheios, e eles ficaram no chão. Todos se moviam, voltavam a si, aqueles vivos...
E quando eles os jogaram aqui nos fornos, todos estavam reanimados: foram
queimados vivos (...) Quando vi tudo aquilo, aquilo não me tocou. Só tinha treze
anos, e tudo o que havia visto até ali eram mortos, cadáveres. Jamais havia visto
nada de diferente. (...) Eu pensava: deve ser assim, é normal, é assim. (...) As
pessoas tinham fome. Iam e caiam, caiam... O filho tomava o pão do pai, o pai o
pão do filho, todos queriam permanecer vivos (...) Pensava também: 'Se sobreviver,
só desejo uma coisa: que me deem cinco pães. Para comer... Nada mais."
— Filip Müller — sobrevivente das cinco liquidações do "comando especial" de
Auschwitz.
"O gás, quando começava a agir, propagava-se de baixo para cima.
E no pavoroso combate que travava então pois era um combate — a luz era cortada
nas câmaras de gás, ficava escuro, não se via nada, e os mais fortes queriam sempre
subir mais alto. Sem dúvida sentiam que quanto mais subissem, menos o ar lhes
faltava. (...) E ao mesmo tempo quase todos precipitavam-se para a porta. Era
psicológico, a porta estava lá... E é por isso que as crianças e os mais fracos,
os velhos, encontravam-se embaixo, e os mais fortes por cima. Nesse combate da
morte, o pai já não sabia que seu filho estava lá, debaixo dele."
~ Câmaras de Gás nos campos de extermínio nazistas ~
A Câmara de gás é um dos métodos utilizados pela
justiça de algumas
cidades dos Estados Unidos para execução de condenados a morte.
Entrada do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau
Na Alemanha nazista, na Segunda Guerra Mundial, essas câmaras
eram muito solicitadas em campos de extermínio na eliminação sistemática de seus
prisioneiros.
Nestas câmaras, hermeticamente vedadas, um poderoso e mortal gás chamado
Zyklon B era injetado em quantidades no seu interior. O Zyklon B era o nome
comercial, mas na verdade, tratava-se do ácido cianídrico um gás muito utilizado
até hoje nas câmaras de gás norte americanas. O ácido cianídrico usado para esse
fim é uma pastilha em forma de cristais que uma vez exposto ao ar entra em
processo de sublimação e após algumas horas começa a liberar o gás mortífero e
altamente letal quando inalado. Para se ter uma ideia, mesmo em pequenas doses,
ao ser respirado o gás cianídrico entra pela corrente sanguínea, até chegar às
células, onde bloqueia a ação das mitocôndrias e desse modo, as células ficam
sem produzir energia ocorrendo a seguir a morte por asfixia. O gás também é
usado em grandes celeiros na eliminação do caruncho (pragas).
– Um punhado de Zyklon B
granulado, e uma cópia original de um documento com
instruções de que o gás seria usado como "material para
a reorganização dos judeus", afixado no mural de
avisos em Auschwitz I
Este gás foi inicialmente utilizado como pesticida, para matar piolhos,
pulgas e carrapatos transmissores de tifo, que era uma doença endêmica na época
da segunda guerra. A casa ou alojamento com pragas eram bem fechadas e os
cristais eram jogados em seu interior. Depois de seis horas, todos os insetos
estavam mortos. Macabra foi a descoberta de que o gás também era tóxico para
humanos e desse modo, os prisioneiros judeus eram confinados em câmaras (grandes
salas de concreto) muito bem lacradas e os cristais de ácido cianídrico eram
jogados em seu interior através de uma abertura no teto.
Ao contrário do que se imagina esse "processo de morte" não era rápido nem
indolor como na câmara de gás. A sublimação do gás cianídrico era lenta e sua
inalação altamente sufocante. Homens e mulheres, novos e velhos, eram levados
para estas câmaras, sob o pretexto de tomar banho e não voltavam mais.
Uma câmara de gás no campo de extermínio de Auschwitz,
onde os prisioneiros eram asfixiados com "Zyklon B"
Também era realizado um cuidadoso trabalho para que as vítimas realmente
pensassem que tomariam banho e sairiam de lá vivas... Os alemães ordenavam que
todos ficassem nus e depois recebiam um cabide numerado para que colocassem suas
roupas e após o "banho", pudessem vesti-las; também eram obrigadas a levantar os
braços ao entrar afim de que houvesse mais espaço para acomodar mais gente, e
antes de entrar no "chuveiro", tinham seus cabelos cortados por prisioneiros que
habitavam o campo havia mais tempo, e em um espetáculo de sadismo, algumas
vezes, os alemães convocavam uma banda para entreter os prisioneiros antes de
levá-los à câmara. Assim que as portas se fechavam, a luz era apagada e o gás
começava a invadir o ambiente. Muitas vezes as paredes tinham de ser lavadas
cuidadosamente após cada utilização, pois no desespero, várias pessoas se
jogavam contra as paredes. Erroneamente, a decisão de usar a câmara de gás foi
tomada na Conferência de Wansee, em 1942, e primeiramente usavam monóxido de
carbono (CO) do motor de um tanque. A última utilização das câmaras de gás
ocorreu em 1944, em Auschwitz-Birkenau, o mais tenebroso campo de extermínio...
_____
Nota: Cerca de setenta mil pessoas morreram em Bergen-Belsen, outro campo de
extermínio. Entre elas Anne Frank e a sua irmã Margot Frank, que morreram ali em
março de 1945. Veja a página:
www.starnews2001.com.br/anne-frank/bergen-belsen.htm
__________
Bibliografia: Hervé JOLY, L’implication de l’industrie chimique allemande
dans la Shoah: le cas du Zyklon B, Revue d’histoire moderne et contemporaine,
47-2, avril-juin 2000, p. 368-400.
~ A mão do terror ~
O outro lado da dominação nacional-socialista era o terror, que
as organizações nacional-socialistas SA, SS e, de modo especial, a polícia secreta
de estado — a Gestapo — exerciam contra pessoas que pensavam diferente. Também a
justiça foi posta a serviço do terror.
Enquanto os juízes, em um país de constituição democrática, são independentes
do poder executivo, eles se tornaram na Alemanha, depois de 1933, um instrumento
nas mãos do “Führer”.
O Ministério de Justiça do Reich declarou em 1937 que, no interesse de um
“interrogatório intensivo” de acusados eram permitidos até 25 pancadas. Hitler
mesmo decidiu que torturas poderiam ser aplicadas, e só era necessário
acrescentar no termo: “A confissão foi obtida sob pressão”.
Uma revista da SS escreveu, em 1942, que o juiz está vinculado em primeiro
lugar à “ideologia nacional-socialista” e que, só em segundo lugar, “à lei”.
~ Acervo nazista é aberto após seis décadas ~
Mais de seis
décadas depois do Holocausto, o mundo finalmente poderá conhecer todos os
detalhes do massacre dos judeus pelos nazistas. Em decisão anunciada na
terça-feira (16/5/2006), uma comissão internacional autorizou o acesso público aos
arquivos nazistas da cidade de Bad Arolson. O local tem cerca de 47 milhões
de documentos detalhando atrocidades dos nazistas durante a II Guerra.
– Arquivos contêm dados pessoais de milhões
de vítimas
O anúncio da comissão ocorreu depois de uma
reunião realizada em Luxemburgo. Onze países participavam da discussão em
torno dos papéis secretos, incluindo Alemanha, EUA, Israel e Polônia — esse
último, onde ficava o maior campo de extermínio nazista (Auschwitz-Birkenau).
As informações sobre os presos executados em Bad Arolson vinham sendo
protegidas desde o fim da guerra. A maioria acha que os arquivos devem ser
abertos para assegurar que os detalhes do holocausto não sejam esquecidos.
Até agora, só autoridades tinham acesso aos
papéis, e apenas podiam revelar informações que esclarecessem para as
famílias de vítimas o que ocorreu com seus parentes. A partir de agora,
contudo, qualquer pesquisador ou historiador poderá examinar esse arquivo —
que contém muitos detalhes sobre as vítimas do Holocausto, incluindo dados
precisos sobre as mortes de perseguidos.
Os nazistas tinham registros extremamente
ricos — que iam desde o número de piolhos nos cabelos dos prisioneiros até a
hora exata em que eles foram executados nas câmaras de gás. Os dados também
apontavam quem colaborava com a resistência ou com os aliados, além de
indicar quem era homossexual ou prostituta. Uma cerimônia em Berlim ainda
neste ano oficializará a abertura.
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Lista de Schindler é encontrada na Austrália
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França reconhece responsabilidade no Holocausto
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Berlim constrói monumento em memória
de ciganos assassinados por nazistas
~ Divulgadas imagens raras de ataque nazista na Inglaterra ~
Imagens raras divulgadas na Grã-Bretanha mostram os
momentos seguintes aos ataques a Londres durante a Segunda Guerra
Mundial.
A divulgação das imagens, feitas por um cinegrafista amador, ocorre no
momento em que os britânicos lembram os 70 anos do início da blitzkrieg (ou
guerra relâmpago), como foram descritos os bombardeios aéreos nazistas que
transformaram o país.
No dia sete de setembro de 1940, 300 bombardeiros alemães começaram o
ataque contra a Inglaterra. Nos oito meses seguintes, o país foi desfigurado
por toneladas de bombas despejadas pela força aérea do ditador nazista, Adolf
Hitler.
O filme ficou esquecido em um sótão inglês durante quase sete décadas.
Entre os locais que aparecem destruídos pelos bombardeios alemães estão a
tradicional loja de departamentos John Lewis, na Oxford Street, no centro de
Londres.
As imagens foram feitas pelo prefeito da capital britânica durante a
guerra, Alfred Coucher, e chegaram a ser usadas em um filme de propaganda
americano chamado Por que Estamos em Guerra.
Links sobre o assunto:
Anne Frank
Crematorium and execution chamber
United States Holocaust Memorial Museum
Bomba Atômica
Galeria de Fotos
O Brasil na Segunda Guerra Mundial
Fatos e imagens de Adolf Hitler
Ataque a Pearl Harbor
Julgamento em Nuremberg
Uma viagem à Segunda Guerra
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Vídeos da época da guerra:
Pronunciamentos de Hitler no início do governo
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Discurso de Hitler no Reichstag, abril de 1939
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Filme do desfile de conquistadores na Polônia
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Bombardeio de ferrovia polonesa pelos nazistas
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Tanque Panzer dos nazistas em Blitzkrieg
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Soldados alemães em movimento na guerra
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Filme sobre o assunto (em DVD ou VHS):
A Queda – As Últimas Horas de Hitler
Bibliografia:
Livros, jornais e revistas da época. – Shirer, W. L., The Rise and Fall of the
Third Reich, New York, 1960. – Arquivo Starnews 2001.
* William H. Lawrence era muito conhecido nos círculos jornalísticos, como um
repórter digno de toda confiança, que tinha por norma recolher os fatos, e
deixá-los falar por si mesmos. Em 1941, passou a trabalhar no New York
Times.
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