Paula encolhida no sofá da sala, enrolada num cobertor, leva
a maior parte do tempo a ler e assistir filmes no vídeo, aconchegando-se no
apartamento, friorenta, triste, entediada. Vez por outra vai até a janela e
olha desanimada através do vidro embaçado: a chuva não pára de cair...
Sente-se fraca, mas orgulha-se de sua fraqueza. Atormenta-a
um desejo de coisas desconhecidas, mas imperiosa, envolvente. E tem ímpetos de
comer de beijos as formas masculinas, estereotipadas no vídeo. Quer
abraçar-se, quer confundir-se com elas, quer dar forma às suas fantasias.

Tremores súbitos percorrem-lhe os membros; sua pele toda
torna-se sensível. É uma irritação mordente e lasciva, dolorosa e cheia de
gozo.
Imagina-se possuída por alguém. O contato não é um
contato vago, é quase real: é o contato quente e macio de um homem.
E a esse contato apodera-se de Paula um sentimento
indefinível: é receio e desejo, temor e volúpia ao mesmo tempo. Quer, mas tem
medo...
Paula ofega em estremeções de prazer, mas de prazer
incompleto, falho, torturante. Enlaça o personagem de sua imaginação, ela
revolve-se descontrolada. A tonicidade nervosa, o erotismo, o excitamento
manifesta-se em tudo, no tremor dos lábios túmidos, nos bicos dos seios
cupidamente retesados. É a carne exigindo o seu tributo de amor.
Dessa agitação orgânica escapam pequenos gemidos
sufocados, entremeados de respiração cansada, ofegante. Paula não resiste ao
ato final... Depois, um longo suspiro, seguido de um longo silêncio.
A chuva não pára de cair...
Por que não aceitar um amor que se impõe, que se dá, que se
oferece? Que mal há de que se possuam, de que sintam prazer um homem e uma
mulher que se amam? Não há como lutar contra o amor. À natureza não se resiste,
e o amor é natureza.
Amanda estava casada com William há 5 anos, mas essa união
tornara-se uma rotina de fins de semanas um tanto tediosa: eram sábados e domingos
sem nenhum acontecimento; tudo a mesma coisa. O amor deixara de existir entre os
dois. Aturavam-se apenas.
No entanto, com o passar do tempo, Amanda começou a mostrar sinais
de inconformismo. Não podia aceitar o que já estava se tornando uma coisa
insuportável. Tinha 25 anos, era jovem, bonita, gostava de festas, divertimentos.
Passaria a freqüentar bailes, sairia para noitadas com amigos, viveria a vida como
ela deve ser vivida.
Teria casos amorosos, porque não? "Isso não é normal hoje em
dia?" Que lhe importava a opinião alheia e as convenções de moral, "pois
que se danassem os outros".
"Muitos casamentos são apenas uma manifestação de egoísmo e
sentimento de posse, que reduz a capacidade da pessoa de estender seu amor a
outras?" "Por que apostar num futuro incerto, improvável, sabendo-se que
isso não tem valor?" — pensava ela
Certo dia, ao sair da faculdade, Amanda encontrou um rapaz que já
conhecia de vista, pois muitas vezes o observara com um certo interesse quando ia
correr no calçadão da praia de Icaraí.
O rapaz deteve-se diante dela.
— Já nos conhecemos de algum lugar, não? — perguntou ele
— Sim, eu costumo correr no calçadão da praia de Icaraí. — disse ela
— É isso mesmo! Eu também gosto de correr no calçadão.
Acho que já é tempo de nos conhecermos melhor. Alessandro. —
disse estendendo a mão
— Amanda.
Apertaram-se as mãos e a esse contato apoderou-se de Amanda um
sentimento indefinido:
era temor e prazer, receio e desejo ao mesmo tempo.
— Você está legal? — perguntou Alessandro
— Sim... por que?
— De repente você ficou pensativa, com um olhar distante.
— Não é nada... Foi impressão sua.
— Que tal lanchar comigo? Conheço um lugar onde servem uma pizza deliciosa.
— Hoje não dá... talvez um outro dia. — disse Amanda hesitante
— Você vai pra casa agora? Se você quiser, eu lhe dou uma carona.
— Não precisa se preocupar, o meu ônibus pára naquele ponto do outro
lado da rua.
— Então, vou indo nessa. Ah! Aqui está o número de meu telefone. Qualquer coisa,
é só ligar.
Os dois beijaram-se levemente no rosto e foram embora.
Já em casa, após o jantar, Amanda foi para o terraço, pois a
noite estava iluminada por um maravilhoso luar. Pensava no encontro que tivera
com Alessandro, na atração que sentira por ele.
Por fim, foi deitar-se. Tinha sono, mas não conseguia dormir.
Pegou um livro sobre a mesinha de cabeceira, folheou-o diversas vezes, leu um
parágrafo, deixou-o de lado. Atormentava-a um desejo incomum, mas superior,
exigente. Tremores súbitos percorriam-lhe o corpo; sua pele toda se arrepiava com
o simples contato das mãos. Inúmeras fantasias eróticas desfilavam em sua mente.
Via-se possuída por Alessandro, por colegas de faculdade. Rolava na cama, com o
travesseiro entre as pernas, em movimentos ritmados como se estivesse
fazendo “amor” com alguém.
Ela estava ficando cada vez mais excitada, até que perdeu
completamente a cabeça...
Amanda gemia, ofegava em estremeções de prazer. Acariciando-se
freneticamente, ela contorcia-se desvairada no ardor do desejo. A tonicidade
nervosa, a liberação da sexualidade, manifestava-se em tudo: nos bicos dos seios
endurecidos, no prazer intenso, enlouquecido. Trincou nos dentes a ponta da fronha,
arfando, ganindo em contrações espasmódicas.
E numa convulsão gozou profunda e demoradamente...
Naquele momento, Amanda aprendera mais sobre si própria. Conhecera
que ela, apesar de sua inteligência, com todo o seu estudo, não passava, na espécie,
de uma simples mulher, e o que sentia era o desejo, era a necessidade
orgânica do sexo.
Pela manhã, ao acordar, sentia-se mole, lânguida. Permaneceu deitada
por algum tempo, procurando analisar o que havia se passado com ela na noite
anterior: "Talvez estivesse doente, com algum problema psicológico".
Depois mudava de pensar: "Não, não estava doente, seu mal não era psicológico,
mas fisiológico". Era o apelo da sensualidade que impunha exigências que a
mente não era capaz de controlar.
Se era a necessidade orgânica, fisiológica de um homem que a
torturava, talvez Alessandro fosse capaz de saciá-la.
Então, por que não aceitar um novo relacionamento que estava para
acontecer? Alessandro e Amanda haviam se encontrado por acaso, e desse encontro
surgiu uma forte atração entre ambos.
E Amanda levantou-se confiante, forte, como quem acaba de tomar
uma resolução definitiva; foi para a faculdade, mas antes de sair, telefonou para
Alessandro marcando um encontro para depois da aula.
Como haviam combinado, os dois se encontraram. Abraçaram-se
demoradamente. Amanda entregava-se, abandonava-se molemente, sem resistência.
Queria Alessandro, desejava Alessandro.
Ele viu a chama do desejo que brilhava nos olhos dela, viu-lhe o
tremor dos lábios, entreabertos, implorando beijos. Ela estava começando a amar, mas
sem estar de todo vencida, lutava, defendia-se contra o que desejava.
— Não, não posso!
— Mas o que houve?
— Sou casada!
— Mas não é feliz!
— Como você sabe? Quem lhe falou? perguntou Amanda
— Uma amiga sua, a Paula. Ela disse que você não é feliz com seu marido.
Amanda afastou-se um pouco de Alessandro, dando-lhe as costas.
— Já que você sabe de tudo... É isso mesmo, eu não sou feliz com
William. Depois, virando-se para Alessandro. — Chegamos a um ponto em que não
podemos mais viver junto. Continuar, seria representar uma farsa, e eu não tenho
vocação para atriz. — Mas isso não é motivo para você se sentir tão apreensiva e
insegura. Você poderá recomeçar tudo de novo. Nunca devemos desistir de
procurar a felicidade. Olha, Amanda, o que acho mesmo é que você deve soltar suas
"feras", mostrar seu lado animal; sem essa de ficar tristonha, de ficar fazendo
drama. Isso não resolve nada. O negócio é ir à luta! disse Alessandro — Amanda,
esse papo está ficando meio careta.
— Será que não há nada melhor pra fazermos?
— O que você sugere? perguntou ela
— Sei lá, qualquer coisa. disse ele
— Já sei, Alessandro, você conhece um lugar onde servem uma pizza deliciosa!
— Você não esqueceu, hein!
Eis que o destino põe no caminho de Alessandro uma mulher casada,
jovem, bonita, inteligente. E essa mulher apaixona-se por ele, obriga-o também a
amá-la. Faz mais: passa a fazer parte de sua vida, tornando realidade o
impossível... Entrega-se de corpo e alma.
Chegaram as férias de verão. Como de costume, Alessandro alugara,
com alguns amigos, uma casa em Arraial do Cabo. Sabendo que Amanda estava passando
por momentos difíceis, convidou-a a ir com ele para a casa alugada. Amanda aceitou
o convite.
Um dia, após chegarem de um passeio a Búzios, Alessandro, os amigos
e Amanda resolveram jogar cartas. Não jogaram muito, pois estavam cansados.
Alessandro foi deitar-se.
Amanda ainda conversou por algum tempo com quem havia ficado
na sala.
Depois ela também foi para o seu quarto.
... onze horas, meia-noite, Alessandro mudava de posição,
revirava-se na cama, não conseguia adormecer.
Lá pelas tantas, Amanda levantou-se, descalça, atravessou a sala,
parou junto à porta do quarto de Alessandro, abriu-a devagarzinho, olhou por alguns
instantes.
Dentro, fora, dominava um silêncio profundo, quebrado apenas pelo
ruído do ventilador de teto.
Amanda, entrou: em ponta de pé, sem fazer barulho, deslizando
suavemente, como uma bailarina, chegou perto da cama de Alessandro. Curvou-se,
apoiou a mão na cabeceira, aproximou-se dele, escutou-lhe a respiração, sentiu-lhe
a maciez da pele. Ele fazia de conta que dormia profundamente. De súbito, o braço
com que se encostava escorregou; ela caiu pesadamente sobre a cama.
Alessandro deu um estremeção, fingindo que acordou
sobressaltado.
— Amanda!? O que houve?! perguntou admirado
Achava inacreditável, impossível a presença dela em seu quarto,
àquela hora da madrugada. E, contudo, era real, ela estava em seus braços:
sentia-lhe o corpo quente, sentia-lhe a pele arrepiada pelo desejo, escutava-lhe os
batimentos acelerados do coração.
Um volume de idéias desordenadas agitava-se em seu pensamento;
perdeu o raciocínio, foi vencido pelo desejo, cedeu aos apelos da libido.
Alessandro sentou-se à beira da cama, puxou-a para si, beijou-a na
boca, no pescoço, bebeu-lhe a respiração: beijos ardentes, famintos, que se
multiplicaram pelo corpo de Amanda, queimando-lhe a pele, torturando-lhe a carne.
Amanda tomou-se de um sentimento repentino de terror, quis fugir, fez
um esforço para soltar-se.
— Deixe-me! deixe-me! — implorava com voz trêmula, ofegante,
querendo escapar, mas ao mesmo tempo com vontade de se abandonar, de se entregar.
Tinha medo das conseqüências, esse terrível medo de estar transgredindo alguma lei
absurda e hipócrita da sociedade.
De repente ela deixou de resistir, e no furor do desejo que a
descontrolava, agarrou-se com Alessandro, enlaçou-o com os braços, com as pernas;
com a boca aberta, úmida, procurou-lhe a boca, mordeu-lhe os lábios, sugou-lhe
a língua...
O prazer que ela sentia revelava-o na respiração curta, cansada,
no hálito quente; era um prazer intenso, doido... Um delírio orgânico de onde
escapavam pequenos gritos sufocados, ganidos de gozo...
E nessa troca de carícias irresistíveis, em que corpos se amassavam; em
que a carne entrava pela carne... chegaram a um delicioso e quase interminável orgasmo...
Depois, extenuados, adormeceram num sono profundo, vencidos pelo
amor carnal, que purifica e enobrece a alma.
Uma luz tênue esboçou-se através da cortina. Estava amanhecendo.
Amanda levantou-se, vestiu-se rapidamente, saiu apressada, parou na
porta do quarto, olhou para Alessandro e sorriu.
Havia agora entre eles um novo laço, uma espécie
de cumplicidade.