
~ Prefácio ~
Vim para
dizer uma palavra e devo dizê-la agora. Mas se a morte me impedir, ela será dita
pelo amanhã, porque o amanhã nunca deixa segredos no livro da Eternidade. Vim
para viver na glória do Amor e na luz da Beleza, que são reflexos de Deus.
Estou aqui, vivendo, e não me
podem extrair o usufruto da vida porque, através da minha palavra atuante,
sobreviverei mesmo após a morte. Vim aqui para ser por todos e com todos, e o
que faço hoje na minha solidão ecoará amanhã entre todos os homens.
O que digo
hoje com apenas meu coração será dito amanhã por milhares de
corações.
~ Gibran Kahlil Gibran ~

~ Um Pensamento Revestido de Beleza ~
Esta página
é uma homenagem à devoção pelo belo e pela arte, que Gibran soube tão bem nos
transmitir. Sentimo-nos felizes por proporcionar aos milhões de admiradores do
autor de "O Profeta" mais estas flores do jardim espiritual de uma alma rica de
fé e generosidade. Em meio a estas flores, estão alguns dos mais envolventes e
incisivos escritos de Gibran, que datam do período do exílio de seu país, o
Líbano, e da excomunhão pela sua igreja.
Muitos anos
mais tarde, seria reconvocado do exílio e a Igreja lhe reabriria os
braços.
Ele
escreveu coisas maravilhosas, e sua literatura e arte ímpares espalharam-se,
traduzidas por mais de 30 países. Gibran manteve sempre seu sublime e
independente culto ao espírito e aos ditames da ética.
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– Gibran Kahlil Gibran, em
1896, com 13 anos.
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Para
aqueles que o lêem pela primeira vez, pode-se acentuar que ele combina as mais
elevadas e vívidas percepções da realidade espiritual com uma poesia adornada e
absolutamente individual.
Sua
originalidade e poder conquistaram a admiração e até mesmo o fervor de milhões
de leitores, em dezenas de línguas. Gibran também conquista quase igual
reputação como pintor. Seus desenhos e pinturas eram expostos periodicamente
pelas metrópoles mundiais. Quando o grande Rodin quis que lhe pintassem o
retrato, Gibran, que era comparado a ele e a William Blake, foi o artista
escolhido.
No mundo
ocidental, esse poeta, filósofo e artista chegou a ser chamado de "o Dante do
século XX". Para seus admiradores do Oriente Médio, ele é o Amado
Mestre.
Uma
testemunha dos funerais de Gibran, realizados em 1931, descreveu-os como tendo
sido "além da imaginação". Centenas de padres e líderes religiosos,
representando cada uma das grandes seitas do Oriente, ampliavam com suas
presenças a emoção da solenidade. Lá estavam sacerdotes e dignitários Maronitas,
Católicos, Xiitas, Protestantes, Muçulmanos, Gregos Ortodoxos, Judeus, Sunitas,
Druzos e outros.
E, para
completar a reintegração de Gibran no seio da Igreja, ele foi enterrado numa
gruta do Mosteiro de Mar Carkis, em Bsharri, no Líbano a diocese de sua
infância.
Seu túmulo
transformou-se num lugar de peregrinação. Ao lado, o Comitê Nacional de Gibran
edificou um museu onde são expostos algumas das suas belas telas e os seus
livros em todas as línguas. Em cima do túmulo, esta simples inscrição:
"Aqui, entre nós, dorme Gibran."
Mas lá, na
verdade, dorme somente seu corpo. Sua alma, difundida nos seus livros, serve de
guia a milhões de leitores na mais fascinante de todas as viagens: a que leva o
homem das trevas do egoísmo e da cegueira ao esplendor do dom de si e da
compreensão.

~ Uma Biografia ~
Seu nome
completo é Gibran Kahlil Gibran. Assim assinava em árabe. Em inglês, preferiu a
forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. É mais comumente
conhecido sob o simples nome de Gibran.
1883 -
Nasceu em 6 de dezembro, em Bsharri, nas montanhas do Líbano, a uma pequena
distância dos cedros milenares. Tinha oito anos quando, um dia, um temporal se
abate sobre sua cidade. Gibran olha, fascinado, para a natureza em fúria e,
estando sua mãe ocupada, abre a porta e sai a correr com os ventos. Quando a
mãe, apavorada, o alcança e repreende, ele lhe responde com todo o ardor de suas
paixões nascentes: "Mas, mamãe, eu gosto das
tempestades. Gosto delas. Gosto!" (Um de seus livros em árabe será
intitulado Temporais).
1894 -
Emigra para os Estados Unidos, com a mãe, o irmão Pedro e as duas irmãs Mariana
e Sultane. Vão morar em Boston. O pai permanece em Bsharri.
1898/1902 -
Vota ao Líbano para completar seus estudos árabes. Matricula-se no Colégio da
Sabedoria, em Beirute. Ao diretor, que procura acalmar sua ambição impaciente,
dizendo-lhe que uma escada deve ser galgada degrau por degrau, Gibran responde:
"Mas as águias não usam escadas!"
1902/1908 -
De novo em Boston. Sua mãe e seu irmão morrem em 1903. Gibran escreve poemas e
meditações para Al-Muhajer (O Emigrante), jornal
árabe publicado em Boston. Seu estilo novo, cheio de música, imagens e símbolos,
atrai-lhe a atenção do Mundo Árabe. Desenha e pinta numa arte mística que lhe é
própria. Uma exposição de seus primeiros quadros desperta o interesse de uma
diretora de escola americana, Mary Haskell, que lhe oferece custear seus estudos
artísticos em Paris.
1908/1910 -
Em Paris. Estuda na Académie Julien. Trabalha freneticamente. Freqüenta museus,
exposições, bibliotecas. Conhece Auguste Rodin. Uma de suas telas é escolhida
para a Exposição das Belas-Artes de 1910. Nesse ínterim, morrem seu pai e sua
irmã Sultane.
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 – Busto de Gibran no jardim do Museu Gibran,
em Bsharri, Líbano. |
1910 -
Volta a Boston e, no mesmo ano, muda-se para Nova York, onde permanecerá até o
fim da vida. Mora só, num apartamento sóbrio que ele e seus amigos chamam
As-Saumaa (O Eremitério). Mariana, sua irmã, permanece em
Boston. Em Nova York, Gibran reúne em volta de si uma plêiade de escritores
libaneses e sírios que, embora estabelecidos nos Estados Unidos, escrevem em
árabe com idênticos anseios de renovação. O grupo forma uma academia literária
que se intitula Ar-Rabita Al-Kalamia (A Liga Literária), e que
muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Seus porta-vozes foram,
sucessivamente, duas revistas árabes editadas em Nova York: Al-Funun
(As Artes) e As-Saieh (O Errante).
1905/1920 -
Gibran escreve quase que exclusivamente em árabe e publica sete livros nessa
língua: 1905, A Música; 1906, As Ninfas do
Vale; 1908, Espíritos Rebeldes; 1912,
Asas Partidas; 1914, Uma
Lágrima e um Sorriso; 1919, A Procissão; 1920,
Temporais. (Após sua morte, será publicado u m oitavo livro,
sob o título de Curiosidades e Belezas, composto de artigos
e histórias já aparecidas em outros livros e de algumas páginas inéditas).
1918/1931 -
Gibran deixa, pouco a pouco, de escrever em árabe e dedica-se ao inglês, no qual
produz também oito livros: 1918, O Louco; 1920, O
Precursor; 1923, O Profeta; 1927,
Areia e Espuma; 1928, Jesus, o Filho do
Homem; 1931, Os Deuses da Terra. (Após sua
morte serão publicados mais dois: 1932, O Errante; 1933,
O Jardim do Profeta.) Todos os livros em inglês de
Gibran foram lançados por Alfred A. Knopf, dinâmico editor norte-americano com
inclinação para descobrir e lançar novos talentos. Ao mesmo tempo em que
escreve, Gibran se dedica a desenhar e pintar. Sua arte, inspirada pelo mesmo
idealismo que lhe inspirou os livros, distingue-se pela beleza e a pureza das
formas. Todos os seus livros em inglês foram por ele ilustrados com desenhos
evocativos e místicos, de interpretação às vezes difícil, mas de profunda
inspiração. Seus quadros foram expostos várias vezes com êxito em Boston e Nova
York. Seus desenhos de personalidades históricas são também célebres.
1931 -
Gibran morre em 10 de abril, no Hospital São Vicente, em Nova York, no decorrer
de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

~ Do Livro "A Voz do Mestre" ~
Do
Primeiro Olhar
Do Primeiro Beijo
Do Casamento
~ Do Primeiro Olhar ~
É aquele
momento em que a Vida passa da sonolência para a alvorada. É a primeira chama
que ilumina o íntimo mais profundo do coração. É a primeira nota mágica
arrancada das cordas de prata do sentimento. É aquele momento instantâneo em que
se abrem diante da alma as crônicas do Tempo, e se revelam aos olhos as proezas
da noite, e as vozes da consciência. Ele é que abre os segredos da Eternidade
para o futuro. É a semente lançada por Ishtar, deusa do Amor, e espargida pelos
olhos do ser amado na paisagem do Amor, depois regada e cuidada pela afeição, e
finalmente colhida pela alma.
O primeiro
olhar vindo dos olhos do ser amado é como o espírito que se movia sobre a face
das águas e deu origem ao céu e à terra, quando o Senhor sentenciou: "E agora,
vivei!"
~ Do Primeiro Beijo ~
É o
primeiro gole de néctar da Vida, numa taça ofertada pela divindade. É a linha
divisória entre a dúvida que engana o espírito e entristece o coração, e a
certeza que inunda de alegria nosso íntimo. É o começo da canção da Vida e o
primeiro ato do drama do Homem Ideal. É o vínculo que une a obscuridade do
passado com a luminosidade do futuro; é a ponte entre o silêncio dos sentimentos
e a sua própria melodia. É uma palavra pronunciada por quatro lábios,
proclamando o coração um trono, o Amor um rei e a fidelidade uma coroa. É o
toque leviano dos dedos delicados da brisa nos lábios da rosa pronunciando
um longo suspiro de alívio e um suave gemido.
É o começo
daquela vibração mágica que transporta os amantes do mundo das coisas e dos seres
para o mundo dos sonhos e das revelações.
É a união
de duas flores perfumadas; e a mistura de suas fragrâncias, para a criação de
uma terceira alma.
Assim como
o primeiro olhar é uma semente lançada pela divindade no campo do coração
humano, assim o primeiro beijo é a primeira flor nascida na ponta dos ramos da
Árvore da Vida.
~ Do Casamento ~
Aqui o Amor
começa a traduzir a prosa da Vida em hinos e cânticos de louvor, com música que
é preparada à noite para ser cantada durante o dia. Aqui a força do amor
despe-se dos seus véus, e ilumina todos os recessos do coração, criando uma
felicidade que só é excedida pela da Alma quando se encontra com
Deus.
O casamento
é a união de duas divindades para dar nascimento a uma terceira na terra. É a
união de duas almas num amor tão forte que possa abolir qualquer separação. É
aquela superior unidade que junta as metades antes separadas, de dois espíritos.
É o elo de ouro de uma cadeia cujo começo é um olhar, e cujo fim é a eternidade.
É a chuva pura que cai de um céu perfeito para frutificar e abençoar os campos
da divina Natureza.
Assim como
o primeiro olhar entre os que se amarão é como uma semente lançada no coração
humano, e o primeiro beijo de seus lábios uma flor nos ramos da árvore da vida,
também a união de dois amantes pelo casamento é como o primeiro fruto da
primeira flor daquela semeadura.

~ Da Música ~
Sentei-me
ao pé daquela que meu coração ama, e ouvi suas palavras. Minha alma começou a
vaguear pelos espaços infinitos onde o universo aparecia como um sonho, e o
corpo como uma prisão acanhada.
A voz
encantadora de minha Amada penetrou em meu coração.
Isto é
música, amigos, pois eu a ouvi através dos suspiros daquela que amo, e pelas
palavras balbuciadas por seus lábios.
Com os
olhos de meus ouvidos, vi o coração de minha Amada.
Meus
amigos: a Música é a linguagem dos espíritos. Sua melodia é como uma brisa
saltitante que faz nossas cordas estremecerem de amor. Quando os dedos suaves da
música tocam à porta de nossos sentimentos, acordam lembranças que há muito
jaziam escondidas nas profundezas do Passado. Os acordes tristes da Música
trazem-nos dolorosas recordações; e seus acordes suaves nos trazem alegres
lembranças. A sonoridade de suas cordas faz-nos chorar à partida de um ente
querido ou nos faz sorrir diante da paz que Deus nos concedeu.
A alma da
Música nasce do espírito e sua mensagem brota do Coração.
Quando Deus
criou o Homem, deu-lhe a Música como uma linguagem diferente de todas as outras.
Mesmo em seu primarismo, o homem primitivo curvou-se à glória da música; ela
envolveu os corações dos reis e os elevou além de seus tronos.
Nossas
almas são como flores tenras à mercê dos ventos do Destino. Elas tremulam à
brisa da manhã e curvam as cabeças sob o orvalho cadente do céu.
A canção
dos pássaros desperta o Homem de sua insensibilidade, e o convida a participar
dos salmos de glória à Sabedoria Eterna, que criou a melodia de suas
notas.
Tal música
nos faz perguntar a nós mesmos o significado dos mistérios contidos nos velhos
livros.
Quando os
pássaros cantam, estarão chamando as flores nos campos, ou estão falando às
árvores, ou apenas fazem eco ao murmúrio dos riachos? Pois o Homem, mesmo com
seus conhecimentos, não consegue saber o que canta o pássaro, nem o que murmura
o riacho, nem o que sussurram as ondas quando tocam as praias vagarosa e
suavemente.
Mesmo com
sua percepção, o homem não pode entender o que diz a chuva quando cai sobre as
folhas das árvores, ou quando bate lentamente nos vidros das janelas. Ele não
pode saber o que a brisa segreda às flores nos campos.
Mas o
coração do homem pode pressentir e entender o significado dessas melodias que
tocam seus sentidos. A Sabedoria Eterna sempre lhe fala numa linguagem
misteriosa; a Alma e a Natureza conversam entre si, enquanto o Homem permanece
mudo e confuso.
Mas o Homem
já não chorou com esses sons ? E suas lágrimas não são, porventura, uma
eloqüente demonstração?
Divina Música!
Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
E do Amor.
Sonho do coração humano,
Fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
E desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
Confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
E dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
Das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
Que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
Fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
Depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
E a ouvir com os corações.