O Poeta do Amor

1883 - 1931

 

A borboleta continuará a pairar sobre o campo e as gotas de orvalho ainda brilharão sobre a relva quando as pirâmides do Egito estiverem destruídas e não mais existirem os arranha-céus de Nova York.

~ Asssilban ~

~ Peça teatral de Gibran Kahlil Gibran ~

Local: Casa de Youssif Mussirrah em Beirute.
Época: Uma tarde da primavera de 1901.

Personagens:

Paul Assilban, músico e escritor.
Youssif Mussirrah, escritor e estudioso.
Hellen Mussirrah, irmã de Youssif.
Salem Mowad, poeta e tocador de alaúde.
Kahlil Bey Tamer, membro do governo.

O pano sobe e mostra um salão da mansão de Youssif Mussirrah, um cômodo espaçoso e bonito, em cujas mesas estão espalhados livros, revistas e jornais. Kahlil Bey Tamer está fumando um cachimbo turco, Hellen borda, enquanto Youssif Mussirrah fuma um cigarro.

Kahlil
(dirigindo-se a Youssif)

Li seu artigo hoje no “Fine Arts” e gostei muito. Se não fosse por seu tom europeu, eu o aclamaria como a coisa melhor que já li. Mas pressinto o mal em toda influência da educação ocidental.

Youssif

Você deve estar certo, meu amigo, ainda que suas ações contradigam seus pontos de vista. Você veste roupas européias, usa utensílios ocidentais em sua cozinha e senta-se em cadeiras feitas na Europa. Acima de tudo, você passa mais tempo lendo a literatura do ocidente que os livros árabes.

Kahlil

Estas coisas são superficiais. Não têm conexão com a verdadeira cultura.

Youssif

Ao contrário. Elas têm uma ligação vital e essencial. Se você pensar mais profundamente no assunto, vai perceber que as artes refletem e influenciam os costumes, os hábitos, as tradições sociais e religiosas, todos os aspectos, enfim, de nossa vida.

Kahlil

Sou um oriental e devo lembrar o Oriente, a despeito de minha roupa européia. Meu desejo sincero é que a literatura árabe permaneça livre das influências européias.

Youssif

Então você condenará a literatura árabe à extinção?

Kahlil

Que tem uma coisa a ver com a outra?

Youssif

As antigas culturas que não conseguem se revitalizar pela produção de nova cultura estão condenadas à morte intelectual.

Kahlil

Como é possível provar isto?

Youssif

Tenho milhares de provas.
(Neste momento Paul Assilban e Salem Mowad entram na sala. Todos se levantam respeitosamente.)

Youssif

Bem-vindos à vossa casa, irmãos. (Dirige-se a Paul Assilban) Bem-vindo, ó rouxinol da Síria.
(Hellen olha para Paul, as faces dela se ruborizam e sinais de alegria aparecem em seu rosto.)

Salem

Por favor, Youssif, detenha sua louvação a Paul.

Youssif

Por quê?

Salem
(Com irônica seriedade)

Porque ele acaba de fazer algo que não merece honra nem respeito. Ele abriu caminho para um estranho costume; ele é um louco.

Paul
(Para Salem)

Por acaso eu o trouxe aqui para exagerar os meus defeitos?

Hellen

Que houve, Salem? Que novas faltas descobriste em Paul?

Salem

Nenhuma nova falta, mas uma antiga levada a um extremo que a faz parecer nova.

Youssif

Diga-nos o que aconteceu.

Salem
(Falando a Paul)

Você prefere que eu fale, Paul, ou quer confessá-la você mesmo?

Paul

Preferiria que se mantivesse calado como um túmulo ou como um coração de mulher idosa.

Salem

Então devo falar.

Paul

Pelo que vejo, você está decidido a estragar nossa tarde.

Salem

Não, mas eu gostaria de contar a nossos amigos o que aconteceu, para que vejam que tipo de homem você é.

Hellen
(Dirigindo-se a Salem)

Diga-nos o que aconteceu. (Para Paul)
Talvez o crime que Salem deseja expor somente demonstre suas virtudes, Paul.

Paul

Não cometi nenhum crime, nem alcancei qualquer virtude; mas o que nosso amigo está tão ansioso por discutir não é digno de menção. Além disso, não aprecio ser o tema de uma conversa inútil.

Hellen

Bom, deixe-nos ouvir a história.

Salem
(Enrolando um cigarro e sentando-se próximo a Youssif)

Senhores, certamente já tereis ouvido falar da festa de núpcias feita por Jalal Pasha, por ocasião do casamento de seu filho. Ele convidou todos os notáveis da cidade, inclusive este velhaco (apontando para Paul) e, também, a mim. A razão pela qual eu fui convidado é a idéia generalizada de que sou a sombra de Paul e, além disso, Paul, que Allah o abençoe, só se dispõe a cantar quando eu faço o acompanhamento.

Chegamos atrasados, dentro do costume principesco de Paul. Lá encontramos o governador e o bispo, as belas mulheres e os intelectuais, os poetas, os ricaços e os chefões.

Assim que nos sentamos, entre os turíbulos de incenso e as taças de vinho, os convidados olharam para Paul, como se ele fosse um anjo caído do céu. As belas damas ofereceram-lhe vinho e flores, como o faziam as mulheres de Atenas aos heróis que regressavam das batalhas.

Em resumo, o nosso Paul era objeto de honrarias e respeito... Peguei meu alaúde e toquei durante algum tempo; a seguir, Paul começou a cantar os versos do poema de Al-Farid. A audiência era toda ouvidos, como se El Moussoli tivesse voltado da eternidade para murmurar em seus ouvidos uma aragem mágica e divina. Repentinamente, Paul parou de cantar. Os presentes esperaram que ele continuasse, depois de molhar a garganta com um gole de vinho. Mas Paul permaneceu em silêncio.

Paul

Pare. Não continue com esta bobagem. Tenho certeza de que nossos amigos não estão interessados.

Youssif

Por favor, deixe-nos ouvir o resto.

Paul

Parece que preferis a tagarelice dele à minha presença. Até logo.

Hellen
(Olhando ternamente para Paul)

Sente-se Paul; não importa qual seja a história. Estamos todos com você.
(Paul senta-se resignadamente.)

Salem
(Retornando a conversa)

Eu dizia que o pobre Paul tinha cantado uns versos do poema de Al-Farid e depois emudecera. Isto era equivalente a servir a seus pobres e famintos ouvintes um pedaço do pão divino e depois virar a mesa e quebrar as locas e taças. E foi ele sentar-se a um canto, em silêncio, como a Esfinge nas areias do Nilo. As belas damas levantaram-se de suas cadeiras, uma após outra, e imploraram a Paul que cantasse, mas ele se recusou, dizendo que a garganta lhe doía. Depois, os próprios dignitários se aproximaram e rogaram-lhe a mesma coisa, mas ele permaneceu tão inflexível como se Deus tivesse convertido seu coração em pedra e seu canto em benção rara. Já passava de meia-noite, quando Jalal Pasha chamou-o a uma outra sala, colocou uma pilha de moedas de ouro em suas mãos e lhe disse: “Sem o teu canto, o ânimo desta festa desfalece. Suplico-te que aceites este presente não como uma remuneração, mas como um símbolo de minha afeição e admiração por ti. Não nos desapontes”. Paul atirou longe as moedas e exclamou num tom de um soberano conquistador: ”Tu me insultaste. Não vim aqui para vender-me; vim aqui como uma pessoa bem-vinda”.

Perdendo a calma, Jalal Pasha proferiu algumas palavras grosseiras e nosso sensível Paul deixou a casa, praguejando de forma funesta. Apanhei meu alaúde e o segui, deixando para trás as bonitas damas e o banquete de vinho e comidas. Sacrifiquei tudo por causa de meu teimoso amigo, que nem ao menos me agradeceu ou louvou pela minha devoção a ele.

Youssif
(Rindo)

Esta é realmente uma história interessante, digna de ser escrita com agulhas sobre as pupilas dos olhos.

Salem

Ainda não acabei. A parte mais interessante vem agora. Nenhum contador de histórias persa ou hindu jamais inventou um final tão diabólico.

Paul
(Dirigindo-se a Hellen)

Ficarei por tua causa, mas, por favor, dize a este sapo que pare de coaxar.

Hellen

Deixa que ele fale, Paul; eu te asseguro que estamos todos do teu lado.

Salem
(Acende outro cigarro e continua)

Deixamos a casa de Jalal Pasha com Paul amaldiçoando os ricos, e eu a Paul, em meu coração. Mas pensam que da mansão de Jalal Pasha fomos embora para casa? Ouçam e admirem-se! Todos sabem que a casa de Habib Saadi fica em frente à de Jalal Pasha. Apenas um pequeno jardim as separa. Habib gosta de beber, cantar e sonhar; e ele adora este ídolo (apontando para Paul). Após deixar a mansão de Pasha, Paul permaneceu de pé por alguns momentos, no meio da rua, esfregando a testa como um generalíssimo planejando uma campanha contra um reino rebelde. Então, repentinamente, dirigiu-se à casa de Habib e tocou a campainha. Habib apareceu de camisola, esfregando os olhos e bocejando. Ao ver Paul e eu com o alaúde debaixo do braço, seus olhos brilharam de alegria como se os céus tivessem aberto suas portas e nos enviado a ele.
“Que os traz aqui a esta hora abençoada?” Perguntou Habib. E Paul respondeu:

— “Viemos celebrar as festas de núpcias do filho de Jalal Pasha em tua casa.” E Habib replicou:
— “A casa de Pasha não é suficientemente grande para ti?”
Paul retorquiu:
— “A casa de Pasha não tem ouvidos verdadeiros para a nossa música. Por isso, viemos para a tua. Traze o arak* e os aperitivos e não faças mais perguntas.”
Sentamo-nos, confortavelmente. Quando Paul terminou o segundo copo, abriu todas as janelas que davam para a casa de Jalal Pasha, estendeu o alaúde para mim e disse:
— “Toma o teu cajado, Moisés. Transforma-o numa víbora e toca nele, bastante e bem.”
Peguei o alaúde e toquei, obedientemente. Paul virou-se para o lado da casa de Pasha e pôs-se a cantar o máximo de sua voz.

(Salem faz uma pausa e retoma num tom mais sério.)

Conheço Paul há quinze anos. Freqüentamos juntos a escola. Já o ouvi cantar quando estava alegre e, também, na tristeza. Eu o ouvi em lamentos como os de uma viúva que perdeu seu único filho; e o ouvi cantar também como um amante, entoando hinos de um conquistador vitorioso. Já o ouvi no silêncio da noite, sussurrando palavras que embalavam os que estavam adormecidos. Também o ouvi nos vales do Líbano, cantando em uníssono com os sinos das igrejas distantes, enchendo o espaço de magia e santidade. Já o ouvi cantar milhares de vezes e pensei que conhecia seus poderes. Mas na noite passada, quando ele cantou, com o rosto voltado para a casa de Pasha, eu disse para mim mesmo:

— “Como eu sei pouca coisa sobre a vida deste homem!” Agora começo a entendê-lo. No passado, eu apenas ouvia o canto de sua garganta, mas, ontem à noite, escutei seu coração e sua alma...

Paul cantou um verso após outro. Senti que as almas dos apaixonados pairavam sobre nossas cabeças, murmurando, evocando o passado distante, revelando os segredos que a noite cobrira, das esperanças e sonhos da humanidade. Sim, senhores, este homem (apontando para Paul) subiu os mais altos degraus da arte na noite passada e alcançou as estrelas e não voltou a descer antes da aurora. Naqueles momentos, ele subjugou seus inimigos e os transformou num suporte para seus pés. Ouvindo-lhe a voz, os convidados de Pasha apinharam-se nas janelas e alguns saíram e sentaram-se sob as árvores do jardim, perdoando o ídolo que os afrontara e insultara, enquanto seus corações absorviam sua música divina e excitante. Alguns o aplaudiam e elogiavam, enquanto outros o criticavam. Eu soube, por alguns convidados, que Jalal Pasha rugia como um leão e andava pelo salão, para um lado e outro, amaldiçoando Paul e queixando-se dos convidados que deixavam o banquete para ouvi-lo. Bem, agora que ouviram o fim da história, que acham deste gênio e louco?

Youssif

Não culpo Paul, pois não posso ter a pretensão de conhecer seus segredos e intenções. Sei que isto é um assunto pessoal que apenas interessa a ele. Entendo que o caráter de um artista, especialmente de um músico, difere do das pessoas comuns. Não é justo medir suas ações pela metragem comum. O artista, e por artista entendo o que cria novas imagens para seus pensamentos e afeições, é um estrangeiro entre seu povo e mesmo entre seus amigos. Ele se vira na direção leste, quando os outros estão voltados para o oeste. O que o afeta nem ele mesmo é capaz de entender. Ele é um deprimido entre os que se divertem e um homem feliz entre os tristonhos. É um fraco entre os capazes e um capaz entre os fracos. O artista está acima das convenções, quer os outros gostem ou não.

Kahlil

Tuas palavras, Youssif, não diferem em significado de teu artigo no “Fine Arts”. Deixa-me repetir: “O espírito europeu que advogas será um dia nossa ruína como povo e nação”.

Youssif

Tu atribuis o comportamento de Paul na noite passada à influência européia que combates?

Kahlil

Estou atônito com o que Paul fez, apesar de meu respeito por ele.

Youssif

Então ele não tem o direito e a liberdade de fazer o que mais lhe agradar com sua música e sua arte?

Kahlil

Sim, abstratamente, tem o direito de fazer o que quiser. Mas me parece que nosso sistema social não aprova este tipo de liberdade. Nossas inclinações, costumes e tradições não permitem ao indivíduo fazer o que Paul fez na noite passada, sem ficar sujeito à condenação dos outros.

Hellen

Já que o objeto deste interessante debate está aqui, por que não deixá-lo dar seu depoimento? Tenho certeza de que ele é capaz de defender-se sozinho.

Paul
(Depois de um silêncio geral)

Preferia que Salem não tivesse começado isto. O que aconteceu na noite passada está feito. Mas já que estou sendo condenado, como disse Kahlil, vou expor meu pensamento sobre o assunto.

Todos sabem que, durante muito tempo, fui mal visto. Fui acusado de ser inútil e vaidoso e desmerecedor de qualquer honra. Qual pode ser a razão de críticas tão ásperas? É um ataque a algo do meu caráter que não posso mudar, que não mudaria, mesmo que pudesse. É minha independência que se recusa a se deixar vender ou seduzir por bajulação. Há muitos cantores e músicos nesta cidade; Muitos poetas, críticos e intelectuais; muitos incensadores e muitos pedintes. Todos eles vendem suas vozes, seu pensamento e sua consciência por uma moeda, por uma refeição, por uma garrafa de vinho. Nossos ricaços e dignitários compram artistas e intelectuais a baixo preço e os exibem em suas mansões e o fazem da mesma forma que exibem seus cavalos e carruagens nas ruas e parques.

Sim, os cantores e poetas do Oriente são um pouco melhores que escravos e os incensadores. Eles são chamados a cantar em festas de núpcias, discursar em banquetes, a lamentar nos funerais e deitar falatórios sobre os túmulos. São uma espécie de vitrolas, de tristeza e de alegria. Se a ocasião não chama por elas, essas máquinas permanecerão imóveis como utensílios desgastados. Não culpo os ricos; culpo os cantores, poetas e os intelectuais que perdem o respeito por si próprios. Eu os culpo por não desdenhar as coisas mesquinhas e as ninharias. Eu os culpo por não preferir a morte à humilhação.

Kahlil
(Exaltado)

Mas e os convidados e hóspedes que pediram que cantassem na noite passada?! Como podes dizer que teu canto seria humilhação?

Paul

Se estivesse disposto a cantar na casa de Pasha, eu o teria feito com prazer. Mas, olhando em torno, pude apenas ver os ricos, em cujos ouvidos ressoam apenas os ecos do dinheiro onipotente, cuja sabedoria da vida é promoverem-se à custa dos outros. Tais pessoas não seriam capazes de fazer distinção entre o que é poesia e pantomima, entre a verdadeira música e o ruído de panelas de lata. Não componho imagens para mostrá-las aos cegos, nem exponho os sons de minha alma aos surdos.

A música é a linguagem do espírito. Sua corrente oculta vibra entre o coração do cantor e a alma do ouvinte. Para aqueles que não podem ouvir ou entender, o cantor não pode oferecer o conteúdo de seu coração. A música é um violino com cordas retesadas e sensíveis. Se as cordas desatam, elas não podem funcionar. As cordas da minha alma afrouxaram-se na noite passada quando olhei para os convidados da casa de Pasha.
Nada vi neles além do falso e do superficial, do estúpido e do estéril, do pretensioso e do arrogante. Eles me imploraram que cantasse porque lhes virei as costas. Se eu tivesse agido como qualquer sapo cantante remunerado, nenhum deles me teria ouvido.

Kahlil
(Brincando)

E depois de tudo, foste à casa de Habib para cantar por despeito, da meia-noite até o amanhecer.

Paul

Cantei porque queria derramar o conteúdo de meu coração e para maldizer a noite, a vida e o tempo. Senti uma terrível necessidade de apertar as cordas de minha alma, que se tinham afrouxado na casa de Pasha.
Mas, se pensas que tudo isso foi por despeito, tens a liberdade de criticar. A arte é um pássaro que voa livremente no céu ou vagueia alegremente pelo campo. Ninguém pode mudar seu comportamento. A arte é um bem espiritual que não pode ser comprado ou posto à venda. Nós, orientais, precisamos aprender esta verdade. Nossos artistas — que são tão raros entre nós quanto o enxofre vermelho — deveriam respeitar-se a si mesmos pois eles são frascos cheios de vinho divino.

Youssif

Concordo contigo, Paul. Isto me ensinou algo de novo. És um verdadeiro artista, enquanto sou apenas um pesquisador e admirador das artes. A diferença que há entre nós é a mesma entre um velho vinho e um punhado de uvas ácidas.

Kahlil

Ainda não me convenci e não me convencerei. Tua filosofia é uma doença oriunda de uma infecção estrangeira.

Youssif

Se tivesses ouvido Paul cantar na noite passada, não chamarias isto de doença.
(Neste momento a criada entra na sala e anuncia: “Os refrescos estão servidos.”)

Youssif
(Levantando-se de sua cadeira)

O refresco está pronto e é tão doce quanto a voz de Paul.
(Todos se levantam. Youssif, Kahlil e Salem deixam o salão. Paul e Hellen atrasam-se para trocar entre si doces sorrisos e ardentes olhares.)

Hellen
(Sussurrando)

Sabias que te ouvi cantar na noite passada?

Paul
(Surpreso)

Que estás dizendo, querida Hellen?

Hellen
(Tímida)

Eu estava na casa de minha irmã, Mary, quando te ouvi. Passei a noite lá, porque seu marido tinha deixado a cidade e ela estava com medo de ficar sozinha.

Paul

Tua irmã mora no Parque dos Pinheiros?

Hellen

Não, ela mora em frente à casa de Habib.

Paul

E realmente me ouviste cantar?

Hellen

Sim, ouvi o chamado de tua alma, da meia-noite ao amanhecer. Ouvi Deus falando através de tua voz.

Youssif
(Chamando da sala contígua)

Os refrescos estão amornando.
(Hellen e Paul deixam o salão.)

(Cortina)

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* arak: conhaque libanês.

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© Arnaldo Poesia, Quinzaine Littéraire, Paris – Le Monde de Paris, 1998/2006.
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