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Um estudo sobre a infidelidade
que vai além do critério da moral convencional __________________________
H oje, pela
primeira vez desde que a tradição judaico-cristã se estabeleceu como a força
moral dominante no mundo ocidental, está sendo seriamente posto em dúvida o
mandamento que proíbe o adultério. Há teólogos que alegam que, em
determinadas situações, o adultério pode ser justificável e até mesmo louvável.
Se, por exemplo, o ato refletir uma preocupação sincera e afetuosa pelas
necessidades da outra pessoa, então, dizem, a infidelidade se tornará a coisa
"certa e boa". Além desses advogados da "ética
situacional", muitos especialistas em relações de família ---
sociólogos, psicólogos, educadores e conselheiros matrimoniais --- acreditam
que na sociedade moderna a atitude tradicional e inflexível diante das
atividades sexuais extraconjugais é um erro. Estão convencidos, baseados em
pontos de vista práticos, mais do que morais, de que a infidelidade muitas
vezes serve como válvula de segurança que alivia tensões que, sem isso,
provocariam a desintegração do casamento. Consideremos, por
exemplo, uma mulher que tem relações sexuais com outro homem. A concepção
dela, partilhada por várias pessoas em circunstâncias semelhantes, é de que o
sexo e o amor são duas coisas diferentes, e ela tem o direito de aproveitar o
sexo assim como aproveitaria qualquer outro prazer físico da vida. Mas ela ama
e respeita seu marido; dá mais valor ao seu casamento; adora os filhos. Do
ponto de vista dela, sua responsabilidade consiste em proteger sua família
contra qualquer conhecimento de sua infidelidade. E depois, argumenta ela, seu
marido não perde nada com isso. Pode ser até que se beneficie, pois ela voltará
para ele mais amorosa e descontraída, E, portanto, em nome do amor, ela o trai. Pontos de vista semelhantes estão sendo
expressos por um número cada vez maior de pessoas responsáveis que esperam
estabelecer valores éticos "mais realistas" ---
uma atitude sexual liberal que constitui um forte atrativo para alguém disposto
a romper com a hipocrisia do passado. Essas pessoas querem saber quais as bases
que nos levam a considerar o sexo extraconjugal moralmente errado ou socialmente
prejudicial se for praticado de maneira discreta ---
se "ninguém for prejudicado". Mas são estes os únicos termos em que se
pode examinar a infidelidade? Ou haverá outros fatores que vão além da moral
tradicional e da conveniência social? Gostaríamos de sugerir que há pelo
menos três maneiras pelas quais a infidelidade pode ser desastrosa para o
futuro de qualquer casamento. Entendemos, por casamento, muito mais do
que o simples estado legal de ser casado. Um casamento existe quando um homem e
uma mulher são unidos, não pela lei, mas pelo amor, e se comprometerem
francamente a aceitar a responsabilidade um pelo outro, fortalecidos pelo
sentimento de compromisso total que se estende do presente ao futuro. Quase
todos esses casamentos começam com fé --- o
que significa que quando um homem e uma mulher se confiam um ao outro, fazem-no
acreditando que nenhum dos dois jamais tentará magoar o outro, que cada qual
contribuirá para a felicidade do outro e que, juntos, procurarão realizar-se. O primeiro rompimento dessa fé, a infidelidade
básica, precede qualquer ato de relações extraconjugais. Acontece
quando um dos cônjuges resolve afastar-se do seu companheiro em busca de
intimidade e satisfação... e faz disso um segredo. Essa é a verdadeira traição
da confiança. A fé atraiçoada pode-se revelar de várias
maneiras, sem incluir o sexo. Consideremos a mulher que não pode ou não quer conversar com o homem a respeito de assuntos que lhe tocam profundamente
---
e que depois discute esses assuntos com outro homem, cuja companhia ela aprecia.
Ela tem de manter essa relação secreta, porque seu marido ficaria magoado se
soubesse a verdade --- e
isso, por sua vez, acentua ainda mais a separação deles. Ela provavelmente alegará que
tudo o que ele não souber não o magoará. Mas isso não leva em conta a
natureza humana. Aquilo que a mulher conta à outro homem não conta ao marido;
ele experimenta o silêncio ou o mau humor nos momentos em que os pensamentos
dela o separam dele completamente. Quando a infidelidade toca as emoções mais
profundas, o cônjuge que de nada suspeita invariavelmente paga um tributo
maior. A mulher que é infiel sexualmente, por exemplo, tem de dedicar tempo,
bem como energia física e emocional, à outro homem. Tudo o que ela der a ele,
na verdade, terá de tirar do marido. Ela pode achar que arranja as coisas de
maneira tão perfeita que o marido nem percebe que está sendo enganado. Isso não
é nada provável. Um homem não precisa de extraordinária intuição para
suspeitar da existência de outro homem. E essa suspeita inevitavelmente o
tornará constrangido. Por mais que a infidelidade
temporariamente alivie os sintomas superficiais de descontentamento de um marido
ou mulher --- tais
como a impressão de não ser atraente ou apreciado ---
ela encobre o verdadeiro mal e permite que
ele aumente. Isso acontece muitas vezes com "casamentos perfeitos" que
de repente se rompem. A mulher ou o marido, ou ambos, não têm a coragem de
admitir que pode haver algo de errado em suas relações. Talvez receiem a reação
do cônjuge, sintam-se embaraçados para falar de sexo ou se envergonhem de
revelar uma necessidade de auxílio ou de amor. Qualquer que seja a razão,
nenhum dos dois quer arriscar-se e dizer: "Escute, sou infeliz. Sou
completamente frustrado. Tenho sentimentos de que você nem sequer
suspeita." Em vez de procurarem um diálogo franco,
com todos os seus riscos e promessas, ambos aceitam a desonestidade da
infidelidade --- na
maioria dos casos, um ativamente, o outro passivamente. Desesperados diante da
idéia de uma separação ou divórcio, fingem ser fiéis, e buscam satisfação
fora do casamento. Apegam-se ao que têm ---
um lar, dinheiro, filhos ---
até que um encontra o que quer e provoca o
rompimento. Tal comportamento é desastroso para todos os
interessados. Por vezes, pode ser trágico. Muitas vezes é o membro mais forte
e sadio (?) do casamento que encontra satisfação em outras partes, e depois
pede um divórcio. Isso deixa o outro cônjuge com uma sensação de represália
e numa situação muito pior do que se tivesse havido uma conversa franca. O cônjuge infiel que
finge que, mantendo seus casos secretos, está protegendo o marido e
salvaguardando seu casamento está praticando a forma mais profunda de engano:
Está iludindo a si mesmo. Como a prática da traição transforma a pessoa traída
em um adversário, uma pessoa que trai a si mesma é, evidentemente, a sua pior
inimiga. O mentiroso pode ter idéia do preço que paga
por mentir aos outros. Há o sentimento de culpa atormentando sua consciência,
além do receio de ser desmascarado e humilhado... Além disso, porém, há um
preço biológico exigido pela auto-sugestão. Como acontece com todas as criaturas vivas, nós
procuramos espontaneamente o prazer e fugimos da dor. Contar a verdade é uma
maneira de procurar o prazer da intimidade, como bem sabem os namorados. Contar
mentiras é uma tentativa de evitar o castigo ou a dor. Portanto, é natural
querer contar a verdade em situações de confiança e mentir em situações de
perigo. Quando sentimos que temos de mentir a alguém
que confia em nós e de quem gostamos, ficamos presos naquilo que os psicólogos
chamam dilema duplo. O que quer que façamos, perderemos. É isso que uma mulher
infiel tem de enfrentar quando volta para casa para um marido de quem realmente
gosta. Ela quer restabelecer sua intimidade com ele, mas sabe que não lhe pode
contar o que fez. Por isso mente. Mas a mentira tem um efeito de tiro pela
culatra. Em vez de aproximá-la do marido, deixa-a sentindo-se mais afastada
dele. A mentira que a poupou à raiva e rejeição dele trouxe consigo outro
sofrimento. Nessas situações, quanto mais forte é o desejo de estar unido à
pessoa que ela está enganando, maior é o sofrimento por causa da mentira que
os separa. O mentiroso é presa de uma perturbação
aguda, não só por se sentir separado da pessoa que ama, mas também por se
sentir separado de si mesmo. Tendo mentido, não pode mais falar do fundo de seu
coração. Em vez disso, tem de censurar todos os seus pensamentos antes de
exprimi-los, com receio de que um lapso de memória o desmascare. O resultado é
uma perturbação ainda maior --- pois
a tensão física apodera-se de nós quando mentimos, e não há nada que
possamos fazer para impedi-la. Mas enquanto sofremos quando mentimos, ainda
podemos confortar-nos com isso. É um sinal de que nossas emoções estão
vivas. Sofremos porque nos importamos. A pessoa que não se interessa
intensamente por nada ou por ninguém poderá, moldando sua idéia de amor para
satisfazer as suas necessidades, dizer tanto à seu marido quanto à seu amante
que os ama... e acreditar nisso. As mentiras são inconscientes e, portanto, não
são acompanhadas de dor. Isso
é o máximo da auto-sugestão. Em vez de resolver o conflito, perpetua-o; a
pessoa iludida vive a mentira. Está doente e não sente a febre. A única maneira sadia de uma pessoa se livrar desse
conflito íntimo é resolvê-lo dentro de si mesmo. A fim de recuperar sua
integridade emocional, primeiro tem de admitir que enganou a si mesmo e tentar
compreender o que significa. Precisa ainda livrar-se da racionalização de que
sua infidelidade protege seu marido e seu casamento. Isso não ocorre; pode
protegê-lo de qualquer aborrecimento que a verdade o forçaria a enfrentar. Se
ela quiser continuar com suas atividades sexuais extraconjugais, a despeito das
traições e do que elas acarretam, pelo menos a decisão tem de basear-se sobre
a honestidade pessoal. Na vida às vezes temos de fazer concessões mútuas. O
que importa é reconhecer o compromisso pelo que é: literalmente uma segunda
escolha. O verdadeiro objetivo, entretanto, é mais do que ser
sincero consigo mesmo. É ser fiel a si mesmo. A pessoa que é fiel a
si mesma não pode viver feliz a não ser que os fios gêmeos do sexo e do amor
sejam entretecidos juntos em sua vida. Como a pessoa não é dividida, procura
ser fiel a quem ama. Possui a fidelidade do amor, não do temor; da escolha, não
do acaso; do desejo satisfeito, não do sentimento extinto.
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