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~ Fragmentação da autoridade ~
Durante este período não existiu realmente uma
maquinaria de governo unitária nas distintas entidades políticas,
nem tampouco a sólida confederação de tribos permitiu a formação de
reinos. O desenvolvimento político e econômico era fundamentalmente
local e o comércio regular desapareceu quase por completo, já que a
economia monetária nunca deixou de existir de forma absoluta. Na
culminação de um processo iniciado durante o Império Romano, os
camponeses começaram a se ligar na terra e a depender dos
grandes proprietários para conquistar sua proteção e uma rudimentar
administração de justiça, no que constituiu a semente do regime
senhorial. Os principais vínculos entre a aristocracia
guerreira foram os laços de parentesco que também começaram a
surgir nas relações feudais. Considera-se que estes vínculos (que
relacionaram a terra com prestações militares e outros serviços) tem sua
origem na antiga relação romana entre patrão e cliente ou na
instituição germânica denominada comitatus (grupo de
companheiros guerreiros). Todos estes sistemas de relação impediram que se
produzisse uma consolidação política efetiva.
~ A Igreja ~
A única instituição européia com caráter
universal foi a Igreja, mas inclusive nela se havia produzido
uma fragmentação da autoridade. Todo o poder no centro da
hierarquia eclesiástica estava nas mãos dos bispos de cada
região. O papa tinha uma certa preeminência baseada no fato
de ser o sucessor de são Pedro, primeiro bispo de Roma, a quem Cristo
havia outorgado a máxima autoridade eclesiástica. Contudo, a elaborada maquinaria
do governo eclesiástico e a idéia de uma Igreja encabeçada pelo
papa não se desenvolveram até passados
500 anos. A Igreja via a si mesma como uma comunidade
espiritual de crentes cristãos exilados do reino de Deus,
que aguardava em um mundo hostil o dia da salvação. Os
membros mais destacados desta comunidade se achavam nos mosteiros,
disseminados por toda Europa e alijados da hierarquia eclesiástica.
No seio da Igreja houve tendências que
aspiravam a unificar os rituais, o calendário e as regras
monásticas, opostas a desintegração e ao desenvolvimento local.
Ao lado destas medidas administrativas se conservava a tradição cultural
do Império romano. No século IX, na chegada ao poder da dinastia
Carolíngia começou o início de uma nova unidade
européia baseada no legado romano, posto que o poder político
do imperador Carlos Magno dependeu de reformas administrativas que
utilizou materiais, métodos e objetivos do extinto mundo romano.
~ Vida cultural ~
A atividade cultural durante os
inícios da Idade Média consistiu principalmente na
conservação e sistematização do conhecimento do passado e
se copiaram e comentaram as obras de autores clássicos.
Foram escritas obras enciclopédicas, como as Etimologias
(623) de são Isidoro de Sevilha, nas que seu autor pretendia
compilar todo o conhecimento da humanidade. No centro
de qualquer atividade douta estava a Bíblia: todo
aprendizado secular chegou a ser considerado
como uma mera preparação para a compreensão do Livro Sagrado.
Esta primeira etapa da Idade Média se
encerra no século X com as segundas migrações germânicas e
invasões protagonizadas pelos Vikings procedentes do norte
e pelos magiares das estepes asiáticas, e a debilidade de todas
as forças integradoras e de expansão européias ao desintegrar-se o
Império Carolíngio. A violência e o deslocamento que
sofreu a Europa impediram que as terras fossem cultivadas, a
população diminuíra e os mosteiros se converteram nos
únicos baluartes da civilização.

~ A Alta Idade Média ~
Desde meados do século XI a Europa se encontrava num período de evolução
desconhecido até esse momento. A época das grandes
invasões havia chegado a seu fim e o continente
europeu experimentava o crescimento dinâmico de uma
população já assentada. Renasceram a vida urbana e o
comércio regular em grande escala e se desenvolveu uma
sociedade e cultura que foram complexas, dinâmicas e
inovadoras. Este período se converteu no centro das
atenções da moderna investigação e que passou a ser
chamado de "renascimento do século XII".
~ O poder papal ~
Durante a Alta Idade Média a
Igreja católica, organizada em torno de uma
estruturada hierarquia com o papa com indiscutida participação, constituiu a mais sofisticada
instituição de governo na Europa ocidental. O
Papado não só exerceu um controle direto
sobre o domínio das terras do centro e norte da
Itália, mas também o teve sobre toda
Europa graças a diplomacia e a administração de
justiça (neste caso mediante
o extenso sistema de tribunais eclesiásticos).
Além do mais as ordens monásticas cresceram e
prosperaram participando intensamente na vida
secular. Os antigos mosteiros beneditinos se
imiscuíram na rede de alianças feudais. Os
membros das novas ordens monásticas, como
os cistercienses, desobstruíram zonas pantanosas e
limparam bosques; outras, como os franciscanos,
entregados voluntariamente a pobreza, logo
começaram a participar da renascida vida urbana. A
Igreja já não seria vista
mais como uma cidade espiritual no exílio terreno,
senão como o centro da existência. A
espiritualidade alto medieval adotou um caráter
individual, centrada ritualmente no sacramento da
eucaristia e na identificação subjetiva e
emocional do crente com o sofrimento humano
de Cristo. A crescente importância do culto a
Virgem Maria, atitude desconhecida na Igreja até este momento,
teria o mesmo caráter emotivo.
~ Aspectos intelectuais ~
Dentro do âmbito cultural, houve um ressurgimento intelectual ao
prosperar novas instituições educativas como
as escolas catedralícias e monásticas.
Fundaram-se as primeiras universidades,
criaram-se graus superiores na medicina, direito e teologia;
foram recuperados e traduzidos escritos
médicos da Antigüidade, muitos dos quais
haviam sobrevivido graças aos eruditos árabes e se sistematizou, comentou e
investigou a evolução tanto do Direito
canônico como do civil, especialmente na
famosa Universidade de Bolonha. Este trabalho
teve grande influência no desenvolvimento de novas
metodologias que frutificariam em todos os
campos de estudo. O escolasticismo se
popularizou, se estudaram os escritos da
Igreja, se analisaram as doutrinas teológicas e as
práticas religiosas e se discutiram as
questões problemáticas da tradição cristã. O
século XII, portanto, deu partida a
uma época dourada da filosofia no Ocidente.
~ Inovações artísticas ~
Também se produziram inovações no campo das
artes criativas. A escrita deixou de ser
uma atividade exclusiva do clero e o
resultado foi o florescimento de uma nova literatura, tanto
em latim como, pela primeira vez, em
línguas vernáculas. Estes novos textos estavam destinados a um
público letrado que possuía educação e tempo livre para ler.
A lírica amorosa, o romance cortês e a nova modalidade
de textos históricos expressavam a nova
complexidade da vida e o compromisso com o mundo secular.
No campo da pintura se prestou uma atenção sem
precedentes a representação de
emoções extremas, à vida cotidiana e ao
mundo da natureza. Na arquitetura, o
românico alcançou sua perfeição com a
edificação de incontáveis catedrais no
caminho de peregrinação no sul
da França e na Espanha, especialmente o
Caminho de Santiago, inclusive quando já
começava a despontar o estilo gótico que
nos seguintes séculos se converteria no estilo artístico predominante.
~ A nova unidade européia ~
Durante o século XIII se sintetizaram os feitos do século anterior.
A Igreja se converteu na grande instituição européia, as relações comerciais
integraram a Europa graças especialmente ao desempenho dos banqueiros e comerciantes italianos, que
estenderam suas atividades pela França, Inglaterra, Países Baixos e o norte da África, assim
como pelas terras imperiais germânicas. As viagens, bem por razões de estudo ou
por motivo de uma peregrinação foram mais habituais e cômodas. Também foi o
século das Cruzadas; estas guerras, iniciadas em fins do século XI, foram
organizadas pelo Papado para libertar os Lugares Santos cristãos no Oriente
Médio que estavam em mãos de muçulmanos. Concebidas segundo o Direito canônico
como peregrinações militares, os chamados não estabeleciam distinções sociais
nem profissionais. Estas expedições internacionais foram um exemplo mais da
unidade européia centrada na Igreja, mas que também influiu no interesse de dominar
as rotas comerciais do Oriente. A Alta Idade Média culminou com os grandes
esplendores da arquitetura gótica, os escritos filosóficos de são Tomás de
Aquino e a visão imaginária da totalidade da vida
humana, narrada na Divina Comédia de Dante Alighieri.

~ A Baixa Idade Média ~
Se a Alta Idade Média esteve caracterizada pela
consecução da unidade institucional e uma síntese intelectual, a Baixa Idade
Média esteve marcada pelos conflitos e a dissolução da dita unidade. Foi
então quando começou a surgir o Estado moderno — já quando este não era mais que
um incipiente sentimento nacional — e a luta pela hegemonia entre a Igreja e
o Estado se converteu em um rasgo permanente da história da Europa durante
alguns séculos posteriores.
Povos e cidades continuaram crescendo em tamanho e prosperidade e começaram a luta pela autonomia política. Este conflito urbano se
converteu ademais numa luta interna em que os diversos grupos sociais
quiseram impor seus respectivos interesses.
~ Inícios da ciência política ~
Uma das conseqüências desta luta,
particularmente nas corporações senhoriais das cidades
italianas, foi a intensificação do pensamento político e social que
se centralizou no Estado secular como tal, independente da Igreja.
A independência da análise política é só um dos aspectos de uma grande
corrente do pensamento baixo medieval e surgiu como conseqüência do
fracasso do grande projeto da filosofia alto medieval que pretendia alcançar uma síntese de todo o conhecimento e experiência
tanto humano como divino.
~ A nova espiritualidade ~
Já que este desenvolvimento filosófico
foi importante, a espiritualidade da Baixa Idade Média foi o
autêntico indicador da turbulência social e cultural da
época. Esta espiritualidade esteve caracterizada por uma intensa
busca da experiência direta com Deus, através do êxtase pessoal da
iluminação mística, ou mediante o exame pessoal da palavra de Deus
na Bíblia. Em ambos os casos, a Igreja orgânica — tanto em sua tradicional função de
intérprete da doutrina como em seu papel institucional de
guardiã dos sacramentos — não esteve em disposição de combater nem de prescindir deste
fenômeno.
Toda a população, leigos ou clérigos, homens ou mulheres, letrados ou analfabetos, podiam
desfrutar potencialmente uma experiência mística. Concebida esta
como um dom divino de caráter pessoal, resultava totalmente
independente do nível social ou do nível de educação pois era
indescritível, irracional e privada. Por outro lado, a leitura
devocional da Bíblia produziu uma percepção da Igreja
como instituição marcadamente diferente das épocas anteriores
que a considerava como algo onipresente e
ligado aos assuntos terrenos. Cristo e os apóstolos
representavam uma imagem de radical sensibilidade e ao tomar a vida
de Cristo como modelo de imitação, houve pessoas que começaram
a organizar-se em comunidades apostólicas. Em determinado
momento se esforçaram por reformar a Igreja desde seu interior para
conduzi-la à pureza e sensibilidade apostólica, enquanto que em
outras ocasiões se desvencilharam simplesmente de todas as
instituições existentes.
Em muitos casos estes movimentos adotaram
uma postura apocalíptica ou messiânica, em particular entre os
setores mais desprotegidos das cidades baixo medievais, que
viviam em uma situação muito difícil. Quando da aparição
catastrófica da peste negra, na década de 1340, que acabou com a vida
de uma quarta parte da população européia, bandos de
penitentes, flagelantes e de seguidores de novos messias
percorreram toda Europa, preparando-se para a chegada da nova época apostólica.
Este momento de agitação e inovação
espiritual desembocaria na Reforma protestante; as novas identidades políticas
conduziriam ao triunfo do Estado nacional moderno e a
contínua expansão econômica e mercantil criou as bases para
a transformação revolucionária da economia européia. Deste modo
as raízes da idade moderna podem localizar-se no meio da dissolução do mundo medieval,
no meio de sua crise social e cultural.
~ Arnaldo Poesia ~
___________
Bibliografia: Histoire du Moyen Age, M. Abramsom, A. Gurevitch e
N. Kolesnitski, VAAP, Moscou, 1976. – Editorial Estampa Ltda.,
Lisboa, 1978.
– História do Mundo Feudal, Mário Curtis Giordani, Editora Vozes Ltda., Petrópolis, 1983.

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