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JVLIVS CAESAR
A Conspiração no Senado
“Leia apenas este,
César, e agora mesmo! Trata de assuntos da máxima importância!” César
apanhou o bilhete e por diversas vezes tentou lê-lo, mas a turba dos
solicitantes impedia-o. E foi com ele nas mãos — e apenas ele —
entrou no senado...

A ambição de César, bem
como seu amor dos grandes feitos, não lhe permitiam gozar em paz os
incontáveis êxitos que lhe advieram de seus trabalhos. Isso apenas o inflamava
e o encorajava para o futuro, inspirando-lhe projetos cada vez mais vastos e
desejos de novas glórias, pois não lhe bastavam as que já possuía. Semelhante
paixão não era mais que uma espécie de inveja de si mesmo, como se tivesse sido
outra pessoa, e de emulação entre o que realizara e ainda pretendia realizar.
Projetava e preparava uma expedição contra os partos; submetidos estes
cruzariam a Hircânia ao comprido do mar Cáspio e do Cáucaso, para contornar o
Ponto Euxino (mar Negro) e invadir a Cítia; a seguir, marcharia contra os países
vizinhos da Germânia e contra a própria Germânia, regressando enfim à Itália
através da Gália. Assim, fecharia o círculo do império, rodeado de todos os
lados pelo Oceano.
Enquanto aguardava o
momento propício para essa expedição, planejou rasgar o istmo de
Corinto, obra a ser realizada por Anieno, e escoar o Tibre para a saída da
cidade através de um canal profundo, lançando-o ao mar perto de Terracina, de
modo a obter uma via ao mesmo tempo fácil e segura para os mercadores que
freqüentavam Roma. Queria também drenar os pântanos de Pomécio e Sécia,
transformando-os em planícies a serem cultivadas por dezenas de milhares de
homens; finalmente, levantar diques para barrar a parte do mar mais próximo de
Roma e, após livrar a costa de Ostia dos obstáculos ocultos que lhe
dificultavam o acesso, construir portos e ancoradouros seguros para uma
atividade marítima crescente. Tais os projetos que elaborava.
A reforma do calendário
e a retificação das anomalias no cálculo do tempo, sabiamente meditadas e
levadas a bom termo por César, foram de imensa utilidade. É que, nos tempos
recuados, não apenas a relação entre o ano e os meses tornara-se tão confusa
entre os romanos que sacrifícios e festas, aos poucos deslocados, recaíam em
estações opostas às suas datas primitivas, como, ainda na época de César, a
maior parte das pessoas absolutamente nada compreendiam do assunto, uma vez
que os sacerdotes — os únicos a conhecer o tempo real — acrescentavam a torto
e a direito, sem que ninguém o esperasse, um mês intercalar chamado mercedônio.
Parece que foi introduzido pela primeira vez pelo rei Numa que com isso apenas
encontrou um remédio medíocre e pouco eficaz para os erros cometidos quanto ao
retorno periódico dos astros. César apresentou o problema aos mais doutos
filósofos e matemáticos da época, e, com base em métodos já aplicados, propôs
uma reforma pessoal e mais rigorosa do calendário. Dele ainda hoje se valem os
romanos, enganando-se menos que os outros povos no que tange à divergência entre
os meses e o ano. Todavia, os invejosos e todos quantos não podiam suportar a
dominação de César até nessa reforma foram encontrar motivos de censura.
O orador Cícero, ouvindo que a Lira erguer-se-ia no dia seguinte, teria
resmungado: “Sim, por decreto”, como se os romanos só
aceitassem a reforma sob coação.
Entretanto, o
que provocou contra César o ódio mais manifesto, mais mortal, foi seu desejo de
ser rei. Deu assim, ao povo, o primeiro ensejo de crítica contra ele, e aos
inimigos secretos, sempre à espreita, o pretexto mais atraente. De seu lado, os
que queriam conceder-lhe semelhante honra espalharam o boato de que, segundo os
livros sibilinos, os romanos dominariam o império dos partos se os atacassem
comandados por um rei, do contrário jamais o conseguiriam. Certa feita,
descendo César de Alba para Roma, ousaram até saúda-lo com o título real. O
povo emudeceu; e César, despeitado, declarou que não se chamava “rei”, mas
“César”, todavia, percebendo que essas palavras esbarravam no silêncio geral,
passou adiante com ar sombrio e carrancudo. Outro dia que o senado acabara de
votar-lhe honras extraordinárias e ele se achava na tribuna dos discursos, os
cônsules e os pretores aproximaram-se, seguidos de todo o corpo senatorial;
César não se levantou, como se ali estivesse a conceder audiência a meros
particulares, e disse que convinha diminuir, ao invés de aumentar suas honras.
Tal conduta não ofendeu apenas o senado, mas também o povo, que viu o Estado
desprezado na pessoa dos senadores. Todos os que, por suas funções, não eram
obrigados a permanecer, retiraram-se imediatamente, muito abatidos.
O próprio César percebeu
tudo, voltou logo para casa e gritou aos amigos, descobrindo o pescoço: “Estou
pronto a dar a garganta a quem quiser matar-me”. Mais tarde desculpou-se
pretextando sua doença (epilepsia), dizendo que os que dela padecem de forma
alguma podem permanecer firmes, falando de pé à multidão, mas perdem a noção
das coisas quando se sentem sacudidos, turbados, acossados de vertigens. O fato,
porém, não se deu assim: César tinha a firme intenção de levantar-se diante do
senado, mas um de seus amigos (ou bajuladores), Cornélio Balbo, tê-lo-ia retido
com estas palavras: “Acaso não te lembras de que és César e tens de aceitar as
homenagens que te são devidas como a um ser superior?”
A esses procedimentos ofensivos
juntou-se o ultraje feito aos tribunos da plebe. Era pela época das festas
Lupercais1, que, segundo alguns autores, fora outrora celebradas por
pastores e tem de fato alguma ligação com a festa do Liceu da Arcádia. Nesse dia,
muito jovem de boa família e muito magistrado corre nu pela cidade, fustigando os que
encontra pelo caminho com tiras de peles a que não se tiram os pêlos, numa espécie
de jogo ou brincadeira; mulheres em idade de conceber postam-se de propósito à sua
passagem, e, como escolares, estendem as mãos para receber os golpes, certas de
que isso lhes garantirá um parto sem problemas, caso estejam grávidas, ou a
fertilidade, se são estéreis. César assistia à festa do alto dos Rostros,
sentado numa cadeira de ouro e envergando sua roupa de triunfador. Antônio
participava da corrida sagrada, pois era cônsul; quando chegou ao Fórum e a
multidão lhe abriu caminho, viu-se que trazia um diadema entrelaçado de uma
coroa de louros, que estendeu a César. Ouviram-se palmas de encomenda, pouco
entusiasmadas e nada convincentes. César repeliu o diadema — e todos
aplaudiram. Antônio repetiu o gesto e novamente os aplausos foram minguados;
César reusou segunda vez, a aclamação voltou a ser unânime.
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Concluída a prova, César
ergueu-se e ordenou que a coroa fosse levada ao Capitólio. Notou-se então que
todas as suas estátuas haviam sido coroadas de diademas reais. Os tribunos
Flávio e Marulo apareceram e arrancaram-nos para em seguida, descobertos os
primeiros que tinham saudado César com o título real, mandá-los à prisão. O
povo seguia os tribunos chamando-os euforicamente de Brutos, pois Bruto é
quem pusera fim à sucessão dos reis e transferira o poder supremo da monarquia
ao senado e ao povo. César, profundamente ofendido, arrebatou o cargo a Marulo
e seu colega. Na acusação contra eles lavrada, insultou também o povo, chamando
diversas vezes aqueles tribunos de “estúpidos” (bruti) e “cimeus”.
Nessas circunstâncias, a
maior parte dos cidadãos voltou-se para Marco Bruto, que passava por pertencer,
ao lado paterno, à estirpe do antigo Bruto, e, do lado materno, descendia de
outra família ilustre, a dos Servílios. Era, ainda, genro e sobrinho de Catão.
Ele próprio, no entanto não cogitava de sacudir o jugo tirânico, pois que o
paralisavam as honras e benefícios recebidos de César. Não apenas tivera a vida
salva em Farsália depois da fuga de Pompeu, ocasião em que intercedera por
diversos amigos, como gozava de grande crédito junto a César. Recebera a pretura
que era então a mais honrosa e deveria ser cônsul três anos depois, tendo levado
a melhor sobre seu concorrente Cássio2. Com efeito, César declarara
que Cássio possuía as melhores credenciais, mas não passaria à frente de Bruto.
Assim, quando falaram mal dele em sua presença, num momento que a conjuração já
ia em meio, não fez caso e, apontando para si mesmo, disse aos denunciantes:
“Bruto saberá aguardar o fim deste corpo”, dando a entender que o acusado
merecia o poder por sua virtude, mas que essa mesma virtude o impedia de
tornar-se ingrato e criminoso.
Os partidários da revolução
só tinham olhos para Bruto, ou pelo menos queriam aliciá-lo em primeiro lugar. No
entanto, não ousavam falar-lhe, preferindo deixar à noite, no tribunal e na
cadeira onde se sentava para dar suas audiências de pretor, bilhetes concebidos
nestes termos: “Estás dormindo, Bruto”, ou: “Não és Bruto”. Cássio, apercebendo-se
de que essas recriminações lhe iam aos poucos despertando o zelo, pressionava-o
mais que nunca, uma vez que ele próprio nutria ódio pessoal contra César devido
aos motivos tão evidentes. César, de seu lado, suspeitava de Cássio e chegou a
dizer um dia aos amigos: “Que pensais esteja Cássio a maquinar? A mim ele não
agrada: é excessivamente pálido”. Também se conta que, quando Antônio e Dolabela
foram acusados de tramar, declarou: “Não receio os nédios e cabeludos, mas os
magros e pálidos” — aludindo a Cássio e Bruto.
Parece ser mais fácil prever
do que evitar o destino, pois que então muitos prodígios e aparições se teriam
manifestado. É claro que, a propósito de tão importante acontecimento, não vale
a pena mencionar os clarões no céu, os ruídos noturnos ouvidos em diversos lugares,
ou as aves de rapina que despencaram sobre o Fórum. Mas o filósofo Estrabão narra
que muita gente acreditou ver homens esbraseados e que o escudeiro de um soldado
deixou escapar da mão uma grande labareda, a qual se extinguiu deixando o homem
ileso, para espanto dos espectadores, que o supunham em chamas; e que, por ocasião
de um sacrifício oferecido pelo próprio César, não se achou o coração da vítima,
prodígio dos mais assombrosos uma vez que a natureza nunca poderia produzir um
animal desprovido desse órgão. Ainda hoje se ouve muita gente dizer que um
adivinho advertiu César para guardar-se de um grande perigo no dia de março que os
romanos chamam de “idos”, e que, chegado esse dia, César saudou o adivinho e
brincou com ele, quando saía de casa para o senado3:
“E então, os idos de março chegaram!”, ao que o outro respondeu tranqüilamente:
“Chegaram, mas ainda não passaram”.
Na véspera jantava na casa de
Marco Lépido e selava cartas sentado à mesa, conforme seu hábito, quando a
conversação recaiu sobre a questão da melhor das mortes; César, adiantando-se aos
demais convivas, acudiu: “A que não esperamos”. Após a refeição, foi deitar-se ao
lado da esposa, como sempre. De repente, todas as portas e janelas do quarto se
escancararam ao mesmo tempo; assustado com o barulho e o clarão da lua, que
iluminava o recinto, ouviu Calpúrnia balbuciar, embora adormecida, palavras
indistintas e gemidos desarticulados. Calpúrnia sonhava que tinha nos braços o
marido degolado, e pranteava-o. Outros afirmam que não foi ela, mas outra mulher
que teve o sonho: haviam erigido em cima da casa de César, para ornamento e
distinção, uma espécie de acrotério, votado segundo Tito Lívio pelo senado, e
foi esse pináculo que Calpúrnia viu em sonhos derrubado, o que lhe provocara
lamentações e pranto. Seja como for, quando o dia nasceu, suplicou ao marido
que não saísse e adiasse a sessão do senado, se possível: “Caso não dês
importância a meus sonhos”, acrescentou ela, “recorre a outras divinações e
sacrifícios para saber do futuro”. César, ao que parece, ficou um pouco
inquieto e suspeitoso, pois nunca antes reparara que Calpúrnia, como tantas
outras mulheres, fosse supersticiosa. Agora, porém, via-se agitada. E como,
além do mais, os adivinhos declararam que os sinais eram desfavoráveis, após
uma série de sacrifícios, decidiu enviar Antônio para
dispensar o senado.
Décimo Bruto, de sobrenome
Albino4, era de tal forma considerado por César que este o instituíra
seu segundo herdeiro. Todavia, participava da conjuração juntamente com o outro
Bruto e Cássio. Temendo que, César escapasse à sessão daquele dia, a empresa se
tornasse de conhecimento público, pôs-se a criticar os adivinhos e mostrou
vivamente a César que calúnias e acusações atrairia sobre si da parte do senado,
que se acreditaria escarnecido, pois se reunira por ordem sua estava pronto a
votar unanimemente a medida que o proclamaria rei das províncias exteriores à
Itália, onde teria o direito de usar o diadema, em terra e mar. “Se os senadores
forem convidados”, ponderava, “a retirar-se depois que se assentarem, para voltar
quando Calpúrnia tiver sonhos melhores, que dirão os invejosos? E quem dará
ouvidos a teus amigos, quando tentarem provar que não há aí nem servidão nem
tirania? Todavia, se estás mesmo resolvido a sacrificar este dia por escrúpulos
religiosos, é melhor que vás em pessoa notificar o senado do adiamento da sessão”.
Assim falando, Bruto tomou-o pela mão e levou-o consigo. César mal saíra de casa
quando um escravo de fora, que em vão tentara abrir caminho por entre a
multidão que o cercava, entrou depois de muito esforço na casa e se colocou nas
mãos de Calpúrnia, a quem pediu para ficar até a volta de César, pois tinha
importante comunicação a fazer-lhe.
Artemidoro, natural de Cnido,
ensinava as letras gregas e por isso penetrara suficientemente na intimidade de
alguns dos cúmplices de Bruto para saber muita coisa que se tramava. Apareceu
com um bilhete revelador, mas, notando que César entregava às pessoas da casa
todos os comunicados que recebia, aproximou-se bastante e disse-lhe: “Leia apenas
este, César, e agora mesmo! Trata de assuntos da máxima importância para ti”.
César apanhou o bilhete e por diversas vezes tentou lê-lo, mas a turba dos
solicitantes impedia-o. E foi com ele nas mãos — e apenas ele — entrou no senado.
Alguns autores sustentam que outra pessoa entregou o bilhete, não Artemidoro, o
qual não teria conseguido sequer chegar perto de César, mas fora sistematicamente
repelido ao longo do caminho pela multidão.
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O que vem sendo narrado pode
ser fruto do acaso. Mas a sala onde aconteceu o assassinato, na qual o senado se
reunia naquela ocasião, ostentava uma estátua de Pompeu, que dedicara o edifício
como um ornamento extra a seu teatro. Essa circunstância prova, manifestamente,
que a ação foi encaminhada por um deus o qual já assinalara o lugar para cenário
de tão relevante acontecimento. Diz-se que Cássio, antes do crime, volveu os olhos
para a estátua e invocou Pompeu em silêncio, se bem que cultivasse a doutrina de
Epicuro: é que a iminência do drama espalhava em sua alma, presumivelmente, uma
emoção e um entusiasmo capazes de varrer dali as antigas opiniões. Antônio, que
continuava fiel a César e era muito forte de físico, foi retido fora por Bruto
Albino, que travou com ele, de propósito, uma discussão interminável. Quando
César entrou os senadores, por deferência, levantaram-se. Imediatamente, enquanto
alguns cúmplices de bruto se postavam em círculo atrás da cadeira de César, outros
foram para diante dele, como a juntar suas instâncias às de Tílio Cimbro, que
intercedia por seu irmão exilado; e, em grupo, acompanharam-no até seu lugar.
Já sentado, continuou a repelir-lhe as solicitações, mas, como persistissem
cada vez mais teimosamente, fez notar seu desagrado a um por um. Então Tílio
agarrou sua toga com ambas as mãos e descobriu-lhe o pescoço, o que era o sinal
convencionado.
Casca5
foi o primeiro a feri-lo com a espada, na nuca, mas a ferida não era profunda,
nem mortal, porque decerto o homem se sentia nervoso ao começar algo tão grave
e tão ousado. César se volta e segura o gládio; gritam os dois quase ao mesmo
tempo, o ferido em latim: “Sanguinário Casca, que fazes?”, o agressor em grego,
a seu irmão: “Irmão, acode!” Foi assim que tudo começou. Os que não participavam
da conjuração tremeram de susto vendo o que se passava, não ousando nem fugir,
nem defender César, nem dizer palavra. Mas os que se haviam armado para o crime
sacaram das espadas. César, cercado de todos os lados, só vê à frente, para onde
quer que se volte, lâminas cruéis a feri-lo na face e nos olhos; empurrado por
todos, debate-se como um animal selvagem. Cada qual deveria tomar parte no
sacrifício e degustar o assassinato — de modo que Bruto também lhe vibrou um golpe
na virilha. Alguns dizem que César se defendia contra os demais, gritando
e atirando-se de um lado para outro, mas que, ao avistar Bruto de espada
desembainhada, cobriu a cabeça com a toga e foi cair, por acaso ou empurrado pelos
assassinos, junto ao pedestal onde se erguia a estátua de Pompeu. O pedestal ficou
coberto de sangue, parecendo que Pompeu presidia em pessoa à vingança que se tirava
do homem caído a seus pés, a estertorar sob o grande número de feridas
(teria recebido vinte e três). Muitos dos conjurados acabaram ferindo-se entre si,
no afã de golpear repetidamente um só homem.
Morto César, Bruto avançou para
o meio da assembléia como se tencionasse falar a respeito do que acabava de acontecer,
mas os senadores não quiseram ouvir nada e precipitaram-se para fora. Sua fuga
mergulhou o povo num estupor e receio intoleráveis: uns trancavam as portas, outros
abandonavam os balcões e as lojas; de todos os lados pessoas corriam na direção do
senado para ver o que acontecera e cruzavam com as que de lá voltavam. Antônio e
Lépido, os maiores amigos de César, esquivaram-se e procuraram refúgio em casas
alheias. Bruto e seus companheiros, ainda frementes do assassinato e brandindo as
espadas nuas, agruparam-se à saída do senado e rumaram para o Capitólio. Não iam
como pessoas que fogem, mas com o rosto radiante e cheio de segurança, conclamando
o povo à liberdade e saudando os homens eminentes que encontravam.
Alguns destes misturaram-se ao
grupo e subiram com ele, como se tivessem participado da ação e reivindicassem seu
quinhão de glória. Estavam entre eles Caio Otávio e Lêntulo Espínter, ao depois
severamente castigados pela fanfarronada: Antônio e o jovem
César6 mandaram executá-los, sem que houvessem sequer
usufruído da glória pela qual morriam, pois ninguém lhes deu o mínimo crédito: os
vingadores puniram neles não o ato, mas a intenção. No dia seguinte, Bruto e os
conjurados desceram ao Fórum e falaram ao povo, que ouviu seus discursos sem
manifestar nem censura nem aprovação pelo que fora feito — mas deixando entrever,
por seu silêncio profundo, que, se pranteava César, respeitava Bruto. O senado
votou anistias e tentou uma reconciliação geral: por um lado, decretou honras
divinas para César e absoluta intocabilidade para qualquer das medidas que tomara
quando no poder; por outro, atribuiu províncias a Bruto e seus cúmplices, além de
distinções especiais. De modo que todos supuseram restabelecida a situação da
maneira mais satisfatória possível.
Mas depois que, aberto o
testamento de César7, soube-se que deixara a cada romano um legado
considerável, a multidão, ante o espetáculo daquele corpo desfigurado pelos
ferimentos sendo conduzido pelo Fórum8, não mais se conteve: amontoou
em volta do cadáver bancos, tábuas e mesas tiradas do Fórum, ateou-lhes fogo e
incinerou o cadáver no próprio local. Em seguida, empunhando tições, correu para
as casas dos assassinos na intenção de incendiá-las, enquanto outros vasculhavam
as ruas à sua procura para fazê-los em pedaços. Não acharam nenhum, pois todos
estavam bem-entrincheirados.
Um tal Cina, amigo de César,
tivera ao que se diz um sonho estranho na noite anterior. Parecera-lhe que
César o convidava a cear e, ante sua recusa, tomava-o pela mão e levava-o a
despeito de muita resistência. Ao saber que o corpo de César estava sendo
queimado no Fórum, levantou-se e lá foi para prestar-lhe as derradeiras honras,
embora o sonho o inquietasse e a febre o dominasse. Vendo-o, um homem na
multidão disse seu nome a outro, que lhe perguntara; este o passou adiante,
espalhando-se então o boato de que ele era um dos assassinos. Na verdade, havia
entre os conjurados um indivíduo de mesmo nome, Cina. Tomaram-no por este,
atiraram-se sobre o infeliz e ali mesmo o despedaçaram. Essa violência inquietou
ao mais alto ponto Bruto e Cássio, os quais, pouco depois, abandonavam
a cidade.

Assassinato de Júlio César - Quadro de Jean-Léon Gérôme,
1867 - Clique na imagem para ver outra pintura sobre o assassinato -
César morreu aos cinqüenta
e seis anos, não tendo sobrevivido a Pompeu muito mais que quatro anos. Do poder
e do domínio que perseguira a vida toda, em meio a tantos perigos e após
tamanhas penas, só colheu o nome e uma glória que excitou a inveja dos
concidadãos. No entanto, o gênio poderoso que em vida o assistira ficou
com ele mesmo depois de morto, para vingá-lo; perseguiu e atormentou seus
assassinos por toda a extensão da terra e do mar, até não mais restar um só,
até punir um por um aqueles que, de alguma maneira, participaram do ato ao
menos em intenção. O mais extraordinário dos fatos humanos que o atestam foi o
destino de Cássio: vencido em Filipos9, matou-se com a mesma espada
que vibrara contra César. No que tange aos fatos divinos, há o grande cometa que,
após o assassinato, surgiu fulgurante por sete noites seguidas e depois desapareceu.
Houve ainda o obscurecimento da luz do sol: durante todo o ano o disco solar
levantou-se pálido e sem ardência; o calor que emanava dele era débil e fugidio,
deixando o ar sombrio e pesado devido à insubstancialidade dos raios que o
penetravam; os frutos, amadurecidos pela metade, murchavam e apodreciam naquela
atmosfera álgida.
Mas foi principalmente o
fantasma aparecido a Bruto que revelou não ter o crime sido agradável aos deuses.
Eis como se deu a aparição: Bruto, na iminência de levar seu exército de Abido
para o outro continente, repousava à noite, como sempre, em sua tenda; não dormia,
pensava no futuro, pois era segundo se diz, de todos os generais, o menos sujeito
ao sono, o mais propenso fisicamente às longas vigílias. Acreditou ouvir barulho
à porta e, olhando à luz de uma tocha que começava a esmorecer, teve uma visão
espantosa, a de um homem desmesuradamente alto, terrível de aspecto. De início
assustado, ao constatar que o espectro não fazia nem dizia nada, mas apenas
quedava silencioso à beira do leito, perguntou-lhe: “Quem és?” O fantasma
respondeu: “Sou teu gênio mau, Bruto. Ver-me-ás em Filipos”. Bruto, corajosamente,
replicou: “Lá te verei” — e o espectro desapareceu.
Chegado o momento, em
Filipos, Bruto entrou em linha contra Antônio e César; vencedor no primeiro
embate desafiou os inimigos que lhe faziam face, dispersou-os e saqueou o
acampamento de César. Mas, pouco antes de travar o segundo combate, o mesmo
fantasma veio visitá-lo novamente na calada da noite; não disse palavra, e
todavia Bruto, compreendendo o decreto do destino, atirou-se às cegas no meio
do perigo. Não morreu, porém, em combate; destroçadas suas tropas, refugiou-se
num sítio escarpado e apoiou o peito contra a espada nua, ajudado ao que
parece por um amigo, que reforçou o golpe. E assim morreu.

O fantasma de César aparece a Brutus

Flores no local onde César foi cremado no Fórum
~ Arnaldo Poesia ~

___________
Bibliografia: Plutarch, Parallel Lives,
Harvard University Press, USA, 1992.
Notas:
1 Cerimônia celebrada em 15 de fevereiro, em honra do deus
Pã. Considerada por alguns propiciadora da fertilidade feminina,
por outros vestígio da antiga festa pastoral voltada à defesa
dos rebanhos e por outros cerimônia para manter distante
as almas dos antepassados.
2 Caio Cássio Longino (85-42 a.C.), cunhado de Bruto.
Iniciou sua carreira política como qüestor de Crasso, na
campanha contra os partos. Em 49 a.C. foi eleito tribuno
da plebe e em 44 a.C. nomeado pretor peregrino.
3 Excepcionalmente naquele dia a reunião não se deu na
cúria, que se encontra no Fórum, mas em uma das dependências
da cúria de Pompeu, no Campo de Marte. Era uma grande
sala com bancadas em degraus, de cerca de
400 m² de área.
4 Décimo Júnio Bruto Albino, filho de Décimo Júnio
Bruto, cônsul em 77 a.C. Foi colaborador de César desde
o final da campanha da Gália. César tinha tal confiança
nele que o havia inscrito em seu testamento.
5 Públio Servílio Casca Longo foi tribuno da
plebe em 43 a.C.
6 Trata-se de Otaviano, assim chamado porque se
tornou filho de César por adoção testamentária.
7 Na casa de Antônio, sob insistentes pedidos de Lúcio
Calpúrnio Pisão, sogro de César.
8 O funeral ocorreu em 20 de março.
9 Cidade da Trácia, cerca de 15 km distante do mar Egeu.
A batalha foi travada no outono de 42 a.C.
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