Trechos do livro "Eu, Claudius, imperador, que em forma de autobiografia do
imperador Claudius, retrata um período da Roma Antiga, com seus usos,
costumes,superstições, fraudes e crueldades. Nele desfilam os primeiros
Césares e uma vasta galeria de personagens célebres da época.

Vamos tratar aqui da parte que fala do Imperador Calígula.

“Um verdadeiro historiador se coloca sempre muito
acima das perturbações políticas de seu tempo.”
                                                 ~ Claudius, Imperador ~


Após o exame dos recenseamentos oficiais, Calígula convocou em Lyon os homens mais ricos da França, de modo a auferir o máximo da venda do mobiliário imperial. Antes de iniciar o leilão, pronunciou um discurso para explicar que era um pobre falido: ele esperava que, por amor do império, seus caros amigos provinciais não avaliassem abaixo de seu real valor os móveis da família que, com grande pesar seu, era obrigado a pôr em venda.

Além de todas as espertezas dos pregoeiros comuns, ele inventava outras que ultrapassavam em muito o talento dos leiloeiros de praça pública, cujo calão empregava às maravilhas. Vendia o mesmo objeto várias vezes a compradores diferentes, descrevendo de cada vez de maneira diversa a sua natureza, uso e história. De resto, por “valor real” o comprador devia entender “valor sentimental”, isto é, mais ou menos cem vezes o valor intrínseco do objeto. Assim Calígula anunciava: “Eis a cadeira predileta de meu bisavô Antonius...” “O deus Augustus bebeu nesta taça no dia de suas núpcias...” “Este vestido foi usado por minha irmã, a deusa Panthea, na recepção dada pelo Rei Herodes Agrippa para celebrar sua saída da prisão...”, e a assim por diante. Vendia também o que chamava “surpresas” — pequenos objetos embrulhados em pano. Quando conseguia fazer pagar duas mil peças de ouro por uma velha sandália ou um pedaço de queijo, ficava satisfeitíssimo.

As ofertas começavam sempre muito elevadas. Calígula dirigia-se a algum rico francês: “Disseste quarenta mil por este cofre de marfim, não? Muito obrigado. Mas vejamos se não podemos fazer melhor. Quem quer lançar quarenta e cinco mil?” O medo, acredito, estimulava os lances. Ele tosquiou assim todo o rebanho e celebrou o negócio com uma festa esplêndida que durou dez dias.

Dirigiu-se então para as províncias do Reno. Jurava fazer aos alemães uma guerra que só terminaria pelo seu extermínio e assim piedosamente terminar a tarefa encetada por seu pai e seu avô. Dois regimentos foram encarregados de atravessar o rio para sitiar as posições do inimigo. Eles trouxeram uns mil prisioneiros. Calígula passou-os em revista e escolheu trezentos belos jovens destinados à sua guarda pessoal, depois alinhou os outros, colocando um calvo em cada extremidade da formatura. “Mata”, disse ele a Cassius, “de um calvo a outro, para vingar a morte de Varus.”

Logo que foram sabedores do massacre, retiraram-se os alemães para o fundo das suas mais espessas florestas. Calígula atravessou o rio com todo o exército e encontrou a campanha deserta. No primeiro dia, para justificar a expedição, mandou para um bosque vizinho alguns dos seus guardas alemães e providenciou para que lhe trouxessem durante a ceia a notícia de que o inimigo estava próximo. Depois, à frente de sua Guarda Avançada e de um destacamento de cavalaria, lançou-se ao assalto. Trouxe consigo os guardas prisioneiros, carregados de cadeias, mandou anunciar que conseguira uma esmagadora vitória contra um inimigo muito superior em número. Depois concedeu a seus companheiros de armas uma nova condecoração militar chamada a “Coroa da Guarda Avançada” — uma coroa de ouro guarnecida de pedras preciosas, representando o sol, a lua e as estrelas.

No terceiro dia de marcha tivemos de atravessar em estreito desfiladeiro. O exército teve de marchar em coluna. Cassius contava a Calígula: “Foi num lugar como este, César, que Varus caiu numa emboscada. Não o esquecerei jamais. Eu marchava à frente da minha companhia e acabava de chegar a uma volta do caminho — esta, por exemplo — quando ouvi de repente um formidável grito de guerra — na distância daquele grupo de pinheiros ali — e eis que trezentas ou quatrocentas azagaias chovem sobre nós, sibilando...”

— Depressa, a minha égua! — gritou Calígula, tomado de pânico. — Depressa, abri caminho! — Ele saltou da liteira, montou em Penélope (Incitatus ficara em Roma, onde ganhava corridas) e fugiu a galope. Em quatro horas tinha alcançado a ponte, que encontrou atopetada de carruagens, mas estava com tanta pressa que apeou e fez-se transportar de carruagem até a outra margem. Dali ordenou imediatamente o regresso do seu exército, sob o pretexto de que, sendo o inimigo muito covarde para afrontá-lo em batalha regular, queria ele fazer conquistas noutra parte. De Colônia, onde todas as forças estavam reunidas, desceu o Reno e marchou até Bolonha, o mais próximo dos portos de embarque para a Bretanha. Ora, o filho de Cimbelino, rei dos bretões, tinha brigado com seu pai; sabendo da chegada de Calígula, atravessou a Mancha com alguns partidários e veio colocar-se sob a proteção dos romanos. Calígula, que já anunciara ao Senado a submissão da Alemanha inteira, escreveu desta vez que o rei Cimbelino lhe enviara o próprio filho para reconhecer a suserania romana sobre todo o arquipélago bretão, das Sorlingas às Orçadas.

Acompanhei Calígula durante a expedição e tive as maiores dificuldades para não lhe desagradar. Ele se queixava de insônias: seu inimigo Netuno, dizia ele, não cessava de fazer-lhe o bramido do mar nos ouvidos e vinha de noite ameaçá-lo com o seu tridente. “Netuno?”, disse eu. “Se eu fosse você, não me deixaria intimidar por aquele insolente. Por que não o castiga como aos alemães? Pois já o ameaçaste, se bem me lembro.”

Ele me olhou com um ar infeliz, através de suas pálpebras semicerradas.

— Pensas que eu sou louco? — perguntou ele, ao cabo de um momento.

Tive um riso inquieto.

— Louco, César? Perguntas se eu te creio louco? Mas tu és, por todo o universo habitável, o próprio modelo da razão.
— É muito difícil, Claudius — continuou ele em tom confidencial — ser um deus,
disfarçado em homem. Muitas vezes supus que ia ficar louco. Dizem que o tratamento pelo heléboro de Anticyra é excelente. Que pensas?
— Um dos maiores filósofos gregos — esqueci-me qual — fez certa vez esse tratamento de heléboro com o simples desígnio de esclarecer ainda mais um cérebro já bastante lúcido. Mas se me pedes a minha opinião, eu te digo: não o faças. O teu cérebro é claro como a água da rocha.
— Sim — disse ele —, mas eu bem queria poder dormir mais de três horas por noite.
— Tu deves, essas três horas ao teu disfarce mortal! — repliquei. — Os deuses, no estado natural, não dormem nunca.

Ele acalmou-se. No dia seguinte, dispôs as tropas em ordem de batalha, à beira-mar: primeiro os arqueiros e fundibulários, depois os auxiliares alemães com suas azagaias, o grosso do Exército romano, e os franceses na retaguarda. A cavalaria formava as alas; as máquinas de guerra, manganelas e catapultas, estavam instaladas sobre as dunas. Ninguém sabia o que ia passar-se. Calígula, cavalgando Penélope, fê-la entrar no mar até os joelhos, depois gritou: “Netuno, meu velho inimigo, defende-te! Eu te desafio em combate até a morte. Ah, tu afundaste à traição a frota de meu pai! Experimenta agora o teu poder sobre mim, se a tanto te atreves.” Citou então o desafio de Ájax a Ulisses:

— Que um de nós dois, ó rei, ao outro vença.

Meçamos nossas forças...

Uma pequena onda passou-lhe por perto: com um riso escarninho, ele deu-lhe um espadaço. Depois se retirou tranqüilamente e ordenou o sinal de assalto. Os arqueiros lançaram suas flechas, os fundibulários suas pedras, os lanceiros suas azagaias; a infantaria regular entrou na água até as axilas e retalhou as vagas; a cavalaria carregou sobre os dois flancos e avançou a nado, distribuindo golpes de sabre à direita e à esquerda; as manganelas projetaram blocos de rocha, as catapultas enormes azagaias e caibros guarnecidos de ferro. Então Calígula subiu a bordo de um navio de guerra e foi lançar âncora fora do alcance dos projéteis. Lançava desafios absurdos a Netuno e cuspia na água com todas as suas forças.

À parte o fato de ter sido um homem beliscado por uma lagosta e outro picado por uma medusa, Netuno não tentou nem se defender nem responder.

Por fim Calígula mandou parar: os homens receberam ordem de enxugar o sangue de suas espadas e recolher a presa de guerra — isto é, as conchas da praia. Cada um teve de encher um capacete e esvaziá-lo no monte comum: mais tarde as conchas foram selecionadas, acondicionadas em caixas e remetidas para Roma como penhor daquela inaudita vitória. Os homens divertiam-se loucamente; quando lhes foi anunciada a recompensa de quatro peças de ouro por cabeça, explodiram em aclamações frenéticas. Como recordação da sua vitória erigiu Calígula no local um grande farol, segundo o modelo de Alexandria; é ainda hoje de grande utilidade para os marinheiros que navegam naquelas águas perigosas.

Calígula nos levou de novo para o Reno. Chegado a Bonn, chamou-me de parte e murmurou com ar sombrio:

— Os regimentos nunca foram castigados pelo insulto que me fizeram, amotinando-se contra o meu pai durante a minha ausência. Bem te lembras, eu fui obrigado a voltar para restabelecer a ordem.
— Lembro-me muito bem. Mas já faz muito tempo, não achas? Após vinte e seis anos, não devem restar nas fileiras muitos homens de então. Cassius Chaerea e tu sois, provavelmente, os dois únicos sobreviventes daqueles dias terríveis.
— Talvez nesse caso eu me contente com dizimá-los — disse ele. Os homens do 1º e do 20º. Regimentos foram convocados para uma assembléia extraordinária e autorizados a deixar suas armas no acampamento, devido ao calor. Também foi convocada a cavalaria da Guarda, mas ordenou-se-lhes que levassem não só os sabres como também as lanças. Encontrei um sargento tão velho e tão coberto de cicatrizes, que parecia haver combatido em Felipos.
— Sargento — perguntei-lhe —, sabes quem sou eu?
— Não, senhor. Não faço idéia, senhor. Tu tens o ar de um antigo cônsul, senhor. — Eu sou o irmão de Germanicus.
— Na verdade, eu sabia que havia um, senhor.
— Eu não sou ninguém importante. Mas tenho uma coisa de grande importância para dizer a teus camaradas. É preciso que vocês não deixem as espadas muito longe quando comparecerem à assembléia daqui a pouco.
— Mas por quê, senhor?
— Porque podem ter necessidade delas. Pode ser que sejam atacados pelos alemães. Ou por outros...

Ele me olhou com atenção e viu que eu falava seriamente.

— Muito obrigado, senhor, eu passarei isso adiante — respondeu ele.

A infantaria estava concentrada diante do estrado do tribunal. Calígula falava furiosamente, batendo com o pé e gesticulando. Ele evocava certa tarde do princípio de outono, muitos anos antes, sob um céu negro e cheio de sortilégios... Nisto, alguns homens começaram a esquivar-se para ir buscar suas espadas. Outros retiraram ousadamente as suas, que tinham dissimulado sob o manto. Sem dúvida, Calígula o percebeu, pois mudou o tom bruscamente, no meio da frase. Começou a descrever o contraste entre aqueles dias maus, felizmente esquecidos, e o reinado atual da glória e da riqueza. “O vosso pequeno mundo jamais conheceu. Nenhum inimigo, por mais feroz que seja, ousa desafiar as suas armas invencíveis...”

Meu velho sargento precipitou-se. “Tudo está perdido, César”, gritou ele. “O inimigo atravessou o rio em Colônia com trezentos mil homens. Eles vão pilhar Lyon. Depois atravessarão os Alpes e saquearão Roma!”

Ninguém acreditou nessa absurda história, exceto Calígula. Ficou amarelo de medo, jogou-se do alto do estrado, apoderou-se às pressas de um cavalo, montou-o e saiu do acampamento como um relâmpago. Um palafreneiro o seguiu a galope. “Felizmente”, gritou-lhe Calígula, “eu tenho ainda o Egito. Lá pelo menos estarei em segurança. Os alemães não são marinheiros.”

Imagine-se o riso da tropa. Mas um coronel seguiu Calígula num bom cavalo e não tardou em o alcançar. Assegurou-lhe que a notícia era exagerada. Só uma pequena tropa inimiga atravessara o rio: haviam-na rechaçado, e a margem romana estava livre. Calígula parou na cidade vizinha e escreveu um despacho ao Senado, para informar que, estando todas as suas guerras gloriosamente terminadas, se preparava para voltar a Roma com suas tropas coroadas de louros. Ele repreendia severamente aqueles poltrões da cidade por terem continuado a levar a sua vida habitual — teatros, banhos, ceias — enquanto ele próprio estava exposto a todos os rigores de campanha, comendo, bebendo e dormindo como um simples soldado.

Os senadores não sabiam como acalmá-lo, já que ele proibira terminantemente que lhe voltassem honras por iniciativa própria. Enviaram-lhe, contudo, uma embaixada para felicitá-lo por suas magníficas vitórias e pedir-lhe que apressasse o seu regresso a Roma, onde tão amargamente deploravam a sua ausência. Calígula ficou violentamente irritado por não lhe haverem, a despeito das suas ordens, votado um triunfo; de resto, a mensagem não o designava sob o nome de Júpiter, mas simplesmente de Imperador Caius César. Ele bateu com a mão no punho da sua espada. “Apressar o meu regresso?”, exclamou. “Por certo, e com isto na mão.”

Preparara-se para um tríplice triunfo: sobre os alemães, sobre os bretões e sobre Netuno. Em matéria de prisioneiros bretões, tinha ele o filho de Cimbelino e sua comitiva, sem contar com a equipagem de alguns navios de comércio, de que se apoderara em Bolonha. Quanto aos prisioneiros alemães, tinha trezentos verdadeiros; juntou-se a estes os homens mais altos que pôde encontrar na França, adornados de cabeleiras postiças amarelas e falando um jargão que devia passar por alemão. Mas, como disse, o Senado não ousara votar-lhe um triunfo oficial; teve de contentar-se, pois, com um triunfo privado. Ele atravessou a Cidade como atravessara a ponte de Baies: só a intercessão de Cesonia, que era uma mulher de bom senso, o impediu de passar o Senado inteiro a fio de espada. Ele recompensou a multidão com sua generosidade antiga, fazendo chover ouro e prata do alto do telhado do palácio. Mas para demonstrar que ainda não perdoara aos cidadãos a sua conduta no anfiteatro, misturou em meio à distribuição discos de ferro em brasa. Os soldados foram autorizados a fazer a balbúrdia que quisessem e a beber a vontade à custa do público. Eles se aproveitaram largamente da licença, pilharam ruas inteiras e puseram fogo ao quarteirão das prostitutas. A ordem só foi restabelecida ao fim de dez dias.

Era no mês de setembro. Durante a ausência de Calígula, os operários haviam trabalhado no seu templo do Palatino, que tinham estendido até a Praça do Mercado. Calígula transformou o templo de Castor e Pollux em vestíbulo para o novo templo e, mandou abrir uma passagem entre as duas estátuas dos deuses, “Os Celestes Gêmeos guardam a minha porta”, dizia ele com orgulho. Escreveu em seguida ao governador da Grécia, ordenando-lhe que retirasse dos templos as estátuas mais famosas e as remetesse para Roma: tinha intenção de tirar-lhes as cabeças e substituí-las pela sua. A que ele mais cobiçava era a estátua colossal de Júpiter Olímpico: mandou construir um barco especial a fim de transportá-la para Roma. Mas na véspera do dia em que o barco devia ser lançado às águas, foi atingido por um raio. Foi pelo menos o que nos disseram; quanto a mim, creio que a equipagem supersticiosa lhe ateara fogo de propósito. De qualquer modo, Calígula nos anunciou que Júpiter Capitolino, arrependido da sua briga, lhe havia pedido para morarem de novo juntos. Respondera-lhe que já havia, por assim dizer, terminado o próprio templo, mas já que Júpiter lhe apresentava tão humildes desculpas, era possível chegar a um acordo: mandaria construir uma ponte sobre o vale para reunir as duas colinas. Assim foi feito: a ponte passava acima do teto do templo de Augustus.

Agora Calígula era oficialmente Júpiter Olímpico, e também todos os outros deuses e deusas aos quais tirara e depois dera uma cabeça. Ora ele era Apolo, ora Mercúrio, ora Plutão, envergando-se de cada vez as vestes apropriadas e exigindo os sacrifícios rituais. Vi-o passear fantasiado de Vênus, de rosto pintado, seios postiços, peruca ruiva, com um longo vestido de gaze e sapatos de salto alto. Coisa particularmente escandalosa, ele assistiu em dezembro às festas da Boa Deusa. Marte era igualmente um de seus favoritos. Mas, a maior parte do tempo, ele era Júpiter: usava uma coroa de oliveira, uma barba de fios de ouro fino, um âmbar falquejado que representava o raio.

Um dia, vestido de Júpiter, ele falava à multidão, da tribuna da Praça do Mercado. “Tenciono”, anunciava ele, “construir uma cidade no cume dos Alpes. Nós, os deuses, preferimos as alturas aos vales. Do alto dos Alpes, eu abrangeria todo o meu império: França. Itália, Suíça, Tirol, Alemanha. Se vejo a traição preparar-se em alguma parte, trovejarei bem forte (ele lançou com um rugido). Se negligenciarem o aviso, fulminarei o traidor (ele lançou com toda a força o seu raio contra a multidão).” Um estrangeiro, sapateiro de Marselha, que visitava Roma como turista, soltou uma gargalhada. Calígula mandou-o prender e conduzir até a tribuna; depois, inclinando-se, perguntou-lhe com o cenho carregado:

— Quem pensas que eu seja?
— Um grande farsante — disse o sapateiro.

Calígula não podia acreditar nos seus ouvidos.

— Farsante! — repetiu ele. — Eu não passo de um pobre sapateiro francês, e é a primeira vez que venho a Roma. Mas se alguém na minha terra fizesse o que tu fazes seria um grande farsante.

Calígula pôs-se a rir por sua vez. “Pobre tolo”, disse ele, “naturalmente que seria um farsante. É justamente o que faz a diferença.”

Todos riam como loucos, mas não se sabia se era do sapateiro ou de Calígula. Algum tempo depois, mandou ele fazer uma máquina de raios. Quando ele acendia uma mecha, a máquina roncava, lançava chispas e projetava pedras como uma catapulta na direção desejada. Mas tenho de fonte segura que, quando havia uma verdadeira tempestade durante a noite, ele se escondia sob o leito. A propósito, conta-se uma boa história. Um dia, rebentou uma tempestade enquanto ele se pavoneava vestido de Vênus. Pôs-se então a gritar: “Pai! Pai! Poupa a tua linda filha!”

O dinheiro que trouxera da França logo se esgotou, e ele inventou novos meios de aumentar a receita. Seu método favorito consistia em examinar juridicamente o testamento das pessoas que acabavam de morrer sem nada lhe deixar. Relembrava os benefícios dele recebidos pelo testador e declarava que este, ao redigir o testamento, dera provas, ou de alienação mental, ou de ingratidão; entre ambas as coisas, preferia crer na alienação. Anulava então o testamento e instituía-se o principal legatário.

Chegava ao tribunal de manhã cedo e inscrevia num quadro-negro a soma que desejava naquele dia — era geralmente duzentas mil peças de ouro. Quando a atingia, fechava o tribunal. Certa manhã, redigiu um novo edital, regulamentando o horário do comércio. Mandou-o gravar em caracteres minúsculos num pequeno cartaz que afixou muito alto sobre um pilar da Praça do Mercado: ninguém suspeitou da importância daquilo, nem se deu ao trabalho de o ler. À tarde, seus oficiais tomaram o nome de diversas centenas de comerciantes que haviam infringido a ordem sem querer. No dia do julgamento, autorizou todos aqueles que o haviam contemplado nos seus testamentos a pedir a suavização da pena. Não eram muitos.

Os ricos costumavam prevenir o tesoureiro imperial de que haviam feito de Calígula o seu principal herdeiro. Mas não era sempre uma boa precaução, pois Calígula se servia da caixa de farmácia que herdara de minha avó Lívia. Um dia presenteou com um fino doce de frutas a vários recentes testadores: eles morreram todos em poucas horas. Mandou também chamar a Roma meu primo, o rei de Marrocos, e condenou-o a morrer, dizendo-lhe simplesmente: “Eu tenho necessidade da tua fortuna, Ptolomeu.”

Enquanto ele estivera na França, houvera relativamente poucas condenações em Roma e as prisões se achavam quase vazias: havia, pois, falta de vítimas para lançar às feras do circo. Calígula remediou tal penúria utilizando para esse fim os próprios membros da assistência: a estes cortavam primeiro a língua para impedi-los de gritar por socorro. Ele se tornava cada vez mais caprichoso. Um dia um sacerdote apresentava-se para dedicar a ele, sob o seu aspecto de Apolo, o sacrifício de um touro. Segundo o ritual, primeiro um diácono atordoava o touro com um machado de pedra, depois o sacerdote o degolava. Calígula entrou, vestido de diácono, e fez ao sacerdote a pergunta usual: ”Devo bater-lhe?” Quando este respondeu: “Sim”, ele abateu o machado sobre o crânio do sacerdote.

Eu vivia sempre na indigência, com Briseis e Calpurnia: não tinha dívidas, mas tampouco dinheiro, à parte a pequena renda que me dava a minha granja. Tinha o cuidado de que Calígula estivesse a par da minha pobreza: ele me autorizava graciosamente a continuar senador, embora eu não mais tivesse as capacidades financeiras requeridas. Mas eu sentia a minha posição cada vez menos segura. Até que certa vez, em princípios de outubro, fui despertado à meia noite por pancadas violentas à porta da rua. Pus-me à janela. “Quem é ?”, perguntei.

— Chamam-te ao palácio com urgência.
— És tu, Cassius Chaerea? Sabes se vão matar-me?
— Tenho simplesmente ordem de conduzir-te sem demora.

Calpurnia chorava. Briseis também. Ambas me beijaram com ternura. Enquanto elas me ajudavam a vestir-me, eu lhes dava às pressas as últimas instruções a respeito dos bens que me restavam, da pequena Antonia, dos meus funerais, e assim por diante. A cena era muito tocante, mas eu não ousei prolongá-la. Em breve estava eu mancando (Claudius puxava de uma das pernas) ao lado de Cassius, em direção ao palácio. Disse-me ele que dois outros ex-cônsules haviam sido convocados ao mesmo tempo que eu. Quando soube os seus nomes, mais ainda me assustei. Eram homens ricos — exatamente a espécie de gente que Calígula podia acusar de conspiração. Mas, eu — por quê?

Fui o primeiro a chegar; vieram os outros quase em seguida, arquejantes da caminhada e do pavor. Conduziram-nos para a sala de justiça e fizeram-nos assentar numa espécie de andaime que dominava o estrado do tribunal. Notei que as janelas estavam ornadas de panos negros, bordados de estrelas de prata. Meus companheiros e eu apertamo-nos as mãos em sinal de adeus. Eram homens de quem eu recebera mais de uma afronta mas, à sombra da morte, esquecem-se essas bagatelas.

Nós esperamos, sem saber o quê, até aproximação da aurora. De repente, ouvimos um choque de címbalos, depois uma música alegre de oboés e violinos. Escravos entraram em fila, por uma porta lateral, trazendo cada um duas lâmpadas, que pousaram sobre as mesas. Em seguida a voz de um eunuco entoou a conhecida canção: “Quando as longas horas de vigília...” Os escravos desapareceram. Ouviu-se um ruído de passos, e logo um vulto alto e desengonçado entrou dançando, vestido de mulher, com uma coroa de rosas artificiais na cabeça. Era Calígula.

Depois a deusa dos dedos de rosa,
Afastando o véu estrelado...

Aí, ele afastou os cortinados da janela e revelou os primeiros raios de aurora. Depois, quando o eunuco chegou à passagem em que a deusa dos dedos de rosa assopra as lâmpadas uma a uma, a dança figurou a canção. Pff... pff... pff...

Os furtivos amantes se entregam
Aos doces trabalhos do amor.

De um leito que não tínhamos notado porque se achava numa alcova, a deusa Aurora retirou um homem e uma moça, ambos inteiramente nus, e lhes fez ver por gestos que era tempo de se separarem. A moça era belíssima; quanto ao homem, era, o eunuco que cantava. Eles se afastaram em direções opostas com um ar de profundo desespero. Na última estrofe:

Aurora, ó rainha das deusas,
Que com teu passo lento e encantador
Vem acalmar-nos todas as tristezas...

Eu tive a presença de espírito de prosternar-me até o solo. Meus companheiros logo seguiram meu exemplo. Calígula saiu cabriolando, e alguns minutos mais tarde veio convidar-nos para comer com ele. “Deus dos deuses”, disse-lhe eu, “nunca dança nenhuma me deu um prazer intelectual tão profundo como essa a que acabo de assistir. Não encontro palavras para exprimir o meu encantamento.”

Meus companheiros fizeram coro e declararam que era uma pena haver ele dado aquele espetáculo incomparável ante uma assistência tão reduzida. Calígula respondeu com complacência que aquilo não passava de um ensaio. A representação se efetuaria em breve no anfiteatro, diante da cidade inteira. Eu não atinava como poderia ele obter o seu efeito de cortina num enorme anfiteatro ao ar livre, mas abstive-me de dizê-lo. Fizéramos uma excelente refeição: o mais velho dos cônsules estava assentado por terra, ocupado alternativamente em morder o seu pastel de tordo e em beijar o pé de Calígula. Eu estava imaginando a alegria de Calpurnia e Briseis ao ver-me regressar a casa, quando Calígula, que estava de bom humor, disse de repente:

— Linda moça, hem, Claudius, velho libertino?
— Muito linda, com efeito, meu Deus.
— E ainda virgem, pelo menos que eu saiba. Não desejarias casar com ela? Podes fazê-lo, se o quiseres. Eu me interessei por ela um momento, mas não gosto das mulheres ainda muito tenras... Nem das maduras, aliás, exceto Cesonia. Reconheceste a moça?
— Não, senhor. A falar a verdade, eu só olhava para ti.
— É a tua prima Messalina, a filha de Barbatus. O velho proxeneta não abriu a boca para protestar, quando lhe pedi que me enviasse a garota. Que covardes que são todos eles, Claudius!
— Sim, Senhor Deus.
— Bem! Está combinado, eu vos casarei amanhã. De momento penso que vou deitar-me.
— Mil agradecimentos e as minhas homenagens, senhor.

Ele me estendeu o outro pé para beijar. No dia seguinte manteve sua promessa e celebrou nosso casamento. Aceitou como honorários o décimo do dote de Messalina, mas à parte isso, portou-se com muita cortesia. Calpurnia ficou muito alegre por me ver regressar são e salvo e fez-se de indiferente no tocante à nova do meu casamento. “Muito bem, meu amigo”, disse ela num tom prático. “Eu vou voltar para a granja e ocupar-me dos teus negócios, como antes. Com essa linda mulher, não notarás a minha ausência. Aliás, agora que estás rico, deverás morar de novo no palácio.”

Garanti que aquele casamento me era imposto e que ela, pelo contrário, muita falta me faria. Calpurnia ergueu os ombros: Messalina tinha duas vezes a sua beleza, três vezes sua inteligência, tinha um bom nascimento e, ainda por cima, era rica... “Tu já estás enamorado dela”, concluiu Calpurnia .

Eu me sentia constrangidíssimo. Durante aqueles quatro anos de miséria, Calpurnia fora a minha única verdadeira amiga. O que ela não fez por mim! Mas tinha razão: eu estava enamorado de Messalina e essa ia tornar-se minha mulher. Não havia lugar para ambas.

Ao deixar-me, Calpurnia chorava. Eu também. Eu não a amava, mas era minha melhor amiga, e eu, sabia que, se algum dia me visse em má situação, ela estaria pronta a auxiliar-me. Inútil dizer que não a esqueci ao receber o dinheiro do dote.

~ A imperatriz Messalina ~

Messalina era extremamente linda, esbelta e vivaz, com uns olhos de jade e uma grande e crespa cabeleira negra. Falava muito pouco: seu misterioso sorriso enlouquecia-me. Na sua alegria de haver escapado a Calígula, ela logo compreendeu os privilégios que lhe traria o nosso casamento e, comportou-se de maneira a persuadir-me de que me amava. Era por assim dizer a primeira vez que eu estava enamorado, desde a adolescência e, quando um homem de cinqüenta anos, nem muito belo nem muito inteligente, se apaixona por uma moça de quinze, muito inteligente e muito bela, é geralmente mau sinal para ele. O casamento efetuou-se em outubro — em dezembro Messalina já estava grávida. Ela parecia estimar muito a minha pequena Antonia, eu estava contente por ter a criança alguém a quem chamasse de “mãe” — alguém bastante próximo dela pela idade para lhe servir de guia, o que Calpurnia não poderia fazer.

Fomos convidados a ir morar no palácio. Mas chegamos num mau momento. Um comerciante chamado Bassus havia interrogado um dos capitães da Guarda sobre os hábitos de Calígula. Era verdade que ele não podia dormir e passeava à noite pelos pátios do palácio? A que horas? Em que pátio? Com que escolta? O capitão contou o incidente a Cassius e Cassius a Calígula. Bassus foi preso e interrogado. Confessou que tinha querido matar o imperador, mas sustentou, até sob a tortura, que não tinha cúmplices. Mandaram então dizer a seu velho pai que viesse assistir à sua execução. O velho, que ignorava tanto os projetos como a prisão de seu filho, parou horrorizado ao encontrá-lo gemendo sobre as lajes do palácio, com o corpo quebrado pela tortura. Conteve-se, no entanto, e apresentou agradecimentos a Calígula por lhe permitir que fechasse os olhos de seu filho.

Calígula estourou numa gargalhada.

— Fechar-lhe os olhos! Ele não terá olhos para fechar, o assassino! Eu vou mandar arrancá-los. E os teus também.
— Poupa-nos, César. O meu filho e eu não somos mais do que instrumentos entre as mãos de poderosos personagens. Eu te darei o nome deles todos.

Calígula, impressionado, interrogou-o. O velho designou o comandante da Guarda, o dos alemães, o tesoureiro Callistus, Cesonia, Mnester e mais uns três ou quatro. Calígula escutava, pálido de terror.

— E quem — perguntou ele — querem pôr em meu lugar?
— O teu tio Claudius.
— Ele também está na conspiração?
— Não, queríamos apenas fazer dele uma espécie de figura de proa.

Calígula afastou-se às pressas e mandou chamar o comandante dos alemães, o da Guarda, o tesoureiro e a mim, reunindo-nos numa peça à parte. Apontando para mim, ele perguntou: “Esse indivíduo é capaz de dar um imperador?”

Eles responderam com surpresa: “Não, a menos que tu o digas, Júpiter.”

Então Calígula sorriu com um ar patético. “Eu estou só”, disse ele, “e vós aí sois três; dois dentre vós estão armados e eu me acho sem defesa. Se quiserdes matar-me, fazei-o sem demora e colocai esse pobre idiota no trono em meu lugar.”

Nós tombamos todos com a face no chão, e os dois militares, sem erguer-se, entregaram-lhe as suas espadas. “Longe de nós um pensamento tão pérfido, senhor! Se não acreditas em nós, mata-nos.”

Era exatamente o que le se dispunha a fazer. Mas, aproveitando-me da sua hesitação, eu lhe disse: “Deus Todo Poderoso, o coronel que aqui me trouxe falou-me da acusação levantada contra estas honradas pessoas pelo pai de Bassus. É soldo deles, que necessidade teria de interrogar esse capitão sobre as tuas idas e vindas? Não podia ele pedir aos próprios generais todos os informes de que tinha necessidade? Não, o pai de Bassus tentava simplesmente, com essa desajeitada mentira, salvar a vida de seu filho e a sua.”

Calígula pareceu convencido. Ele me deu a mão a beijar, fez com que todos nós o erguêssemos e devolveu as espadas. Bassus e seu pai foram esquartejados pelos alemães. Mas Calígula não podia desembaraçar-se do terror do assassinato, terror que uma infeliz série de presságios muito contribuiu para aumentar. Primeiro, um raio caiu no cubículo do porteiro do palácio. Depois Incitatus, uma noite, no jantar, quebrou com um coice uma taça de alabastro que pertencera a Julius César. E derramou o vinho sobre as lájeas. Mas o pior foi o que aconteceu em Olímpia, quando os operários do templo começaram, por ordem de Calígula, a cortar a estátua de Júpiter em pedaços, a fim de transportá-la para Roma. Deviam começar pela cabeça, pois esta serviria de medida para a cabeça de Calígula, que colocariam no seu lugar. Tinham fixado a roldana no teto do templo. Passado um laço em torno do pescoço, e aprestavam-se para puxar, quando de súbito, um trovão, semelhante a uma gargalhada, ecoou por todo o edifício. Os operários fugiram amedrontados. Não encontraram outros que se atrevessem a substituí-los.

Vendo que o rigor inquebrantável de Calígula fazia tremer o mundo inteiro à menção de seu nome, Cesonia aconselhou-lhe então que tentasse governar pela doçura, angariando assim a afeição do povo. Ela bem via o perigo da posição de ambos: Se algo acontecesse a Calígula, ela também perderia a vida, a menos que ficasse notório ter ele feito o possível para evitar suas crueldades.

Ele se conduzia agora com extrema imprudência. Ia falar reservadamente com o comandante da Guarda, o tesoureiro e o comandante dos alemães e fingia tomá-los como confidentes. “Eu me fio em ti”, dizia ele a cada um por sua vez, “mas os outros conspiram contra mim, e eu quero que tu o consideres como os mais mortais inimigos.” Os três comunicavam uns aos outros estas confidências e, naturalmente, quando foi tramada uma verdadeira conspiração, eles fecharam os olhos. Calígula agradeceu a Cesonia os seus conselhos e prometeu segui-los logo que tivesse feito as pazes com seus inimigos. Ele convocou o Senado e nos dirigiu a palavra nestes termos: “Em breve, ó meus inimigos, eu vos concederei uma anistia e reinarei mil anos no amor e na paz. Mas antes do advento dessa idade de ouro cumpre que rolem cabeças sobre estas lájeas e que o sangue jorre até o teto. Serão cinco minutos terríveis.” Nós preferiríamos ter primeiro os mil anos e os cinco minutos depois...

A conspiração partiu de Cassius Chaerea: Era um soldado à antiga, habituado a obedecer cegamente às ordens de seus superiores. Era preciso que as circunstâncias fossem particularmente horríveis para que um soldado dessa têmpera pensasse em conspirar contra a vida do chefe a que jurara fidelidade o mais solenemente possível. Calígula procedera muito mal com, Cassius. Tinha-lhe prometido o comando da Guarda e, depois, sem uma só palavra de explicação ou escusa, dera o título a um capitão de promoção recente, sem nenhuma distinção militar, por causa de uma proeza de beberrão. O homem prometera esvaziar um cântaro de vinho de treze litros, sem o tirar dos lábios: não somente o conseguira — eu estava presente —, mas conservava o vinho no estômago. Calígula nomeou-o também senador.

Cassius era sempre encarregado das missões mais ingratas — a percepção de impostos que não eram devidos, o seqüestro de bens por delitos imaginários, até mesmo a execução de inocentes. Fingindo tomá-lo por um velho invertido efeminado, Calígula fazia cessar os mais torpes gracejos à sua custa, diante dos outros oficiais, que eram obrigados a rir. Cassius vinha cotidianamente pedir-lhe a senha do dia. Até então era geralmente “Roma”, “Augustus”, “Júpiter”, “Vitória”, ou qualquer coisa análoga; mas agora, para aborrecer Cassius, Calígula lhe dava senhas ridículas, como “Laçarotes”, “Mil carinhos”, “Beija-me, sargento”: Cassius devia comunicá-las a seus camaradas e suportar suas zombarias. Ele decidiu matar Calígula.

Este estava mais louco do que nunca. Um belo dia entrou no meu quarto e me declarou à queima-roupa:

— Eu vou ter três cidades imperiais, mas Roma não estará no número. Terei primeiro a minha cidade dos Alpes — depois reconstruirei Roma em Antium, porque esta é a minha cidade natal e bem merece tal honra, e também Alexandria, para o caso em que os alemães tomem as duas outras. Alexandria é uma cidade muito culta.
— Sim, sim, meu Deus — respondi humildemente.

De repente ele se lembrou de que costumavam chamá-lo de “mulher careca” — confesso que seus cabelos eram agora muito raros no alto do crânio. “Como ousas”, exclamou ele, “ostentar diante de mim essas horríveis guedelhas? É uma blasfêmia.” Ele se voltou para os seus alemães: “Cortem-lhe a cabeça.”

Mais uma vez me senti perdido. Mas tive a presença de espírito de dizer vivamente ao guarda que avançava para mim de espada em punho: “Que fazes, imbecil? O deus não disse ΄cabeça΄, ele disse ΄cabelo΄. Anda! Vai procurar as tesouras!” Calígula, desconcertado, acreditou sem dúvida que dissera “cabelo”; ele deixou o alemão ir procurar as tesouras. Depois da tosa, fiquei liso que nem um ovo. Pedi permissão pra consagrar as mechas cortadas à sua Divindade, o que ele me concedeu graciosamente. Fez em seguida tosar todo o mundo no palácio, exceto os alemães. Quando foi a vez de Cassius, ele exclamou: “Oh! Que pena! Esses lindos cachinhos que o sargento ama tanto!”

Naquela noite Cassius encontrou num corredor Marcus Vinícius, marido de Lésbia, que fora o melhor amigo de Ganimedes, no qual não parecia destinado a sobreviver por muito tempo. “Boa noite, Cassius Chaerea, meu amigo”, disse ele, “qual é a senha de hoje?”

Nunca Marcus Vinícius chamara Cassius de “meu amigo”. Este o olhou com atenção.

Vinícius continuou: “Cassius, nós temos muita coisa em comum, e quando eu digo “meu amigo” é porque assim o penso.

Qual é a senha?”

— Esta noite — disse Cassius — é “Cachinhos”. Mas, Marcus Vinícius, meu amigo — se assim posso te chamar —, dá-me a senha “Liberdade”, e a minha espada estará a teu serviço.

Vinícius estreitou-o nos braços. “Nós não estamos os dois sozinhos. O Tigre está também comigo.” O “Tigre”, como chamavam a Cornelius Sabinus, era um outro coronel da Guarda, que substituía Cassius quando este não estava de serviço.

~ 41 d.C. ~

A grande festa do Palatino começava no dia seguinte. Esta solenidade, instituída por Lívia em honra de Augustus, no princípio do reinado de Tiberius, efetuava-se anualmente no pátio do palácio sul do velho palácio. Começava por sacrifícios a Augustus e uma procissão simbólica seguida de três dias consagrados a representações teatrais, danças, cantos e acrobacias. Esses três dias, Calígula, naquele ano, os alongaram para oito, acrescentando corridas de cavalos e combates náuticos. Ele queria distrair-se sem interrupção até o seu embarque para Alexandria, marcado para o dia 21 de janeiro. Ia ao Egito ver a terra, conseguir dinheiro pelos mesmos processos usados na França, preparar a reconstrução de Alexandria, e finalmente, gabava-se ele, para colocar uma cabeça nova na Esfinge.

A festa começou. Calígula sacrificou a Augustus, mas com um pouco de negligência e desdém, como um senhor que, em caso de emergência, tem de prestar algum serviço doméstico a um de seus escravos. Terminada a cerimônia, declarou que estava disposto a conceder ao povo qualquer favor, contanto que estivesse em seu poder. Ele se agastara recentemente com os cidadãos, que não tinham mostrado bastante entusiasmo no último combate de feras, e punira-os fechando os celeiros públicos durante dez dias; mas sem dúvida os perdoara depois, pois acabava de mandar lançar dinheiro do alto dos telhados do palácio. Um brado alegre se ergueu: “Mais pão e menos impostos, César! Mais pão e menos impostos!” Calígula estava furioso. Mandou um pelotão de alemães ao longo das arquibancadas, e cerca de cem cabeças rolaram por terra.

O incidente perturbou os conspiradores, relembrando-lhes a brutalidade dos alemães e seu extraordinário devotamento a Calígula. Por aquela época, não havia um cidadão romano que não desejasse a morte do imperador e não lhe bebesse de bom grado o sangue como se diz. Mas, para esses alemães, ele era o mais glorioso herói deste mundo. Que se vestisse de mulher, que abandonasse a galope o seu exército em marcha, que lhes apresentasse Cesonia nua, louvando-lhe a beleza, que queimasse a sua mais linda vila do Herculanum, sob o pretexto de que Agrippina ali estivera presa dois dias, a caminho da ilha onde morrera — todas essas ações incompreensíveis só serviram para torná-lo mais digno, a seus olhos, de ser adorado como um ente divino. Eles sacudiram a cabeça com um ar entendido: “Sim, os deuses são mesmo assim. A gente nunca sabe o que eles vão fazer. Tuisco e Mann, lá em nossa querida pátria, são justamente como ele.”

Cassius desprezava o perigo e, contanto que Calígula fosse assassinado, pouco se importava com o que pudesse acontecer a si próprio; mas os outros conjurados, menos ardentes, perguntavam inquietos como se vingariam os alemães da morte de seu herói. Começaram a esquivar-se; Cassius não conseguia pô-los de acordo sobre o plano de ação conveniente. Eles propunham tão-somente fiar-se no acaso. Cassius tratou-os de covardes e acusou-os de tentarem contemporizar. “No fundo”, disse ele, “o que quereis é que ele parta tranqüilamente para o Egito.” O último dia das festas era chegado, e Cassius a grande custo os obrigava a estatuir um plano aceitável, quando Calígula anunciou de inopino que prolongaria a festa por mais três dias. Queria representar e cantar uma peça alegórica que ele próprio compusera para regalar os alexandrinos, mas que achava justo mostrar primeiro a seus compatriotas.

Os mais timoratos dos conspiradores viram nisso um novo pretexto para adiar a coisa: “Cassius, isso vem mudar tudo. Tudo se torna mais fácil. Podemos matá-lo no último dia, quando ele deixar a cena. É muito melhor. Ou quando ele subir. Como quiseres.”

Cassius respondeu: — Nós organizamos um plano, jurando segui-lo à risca, e assim faremos. É um plano excelente. Não tem um defeito.

— Mas agora temos tempo de sobra. Por que não esperar ainda três dias?
— Bem — disse Cassius. — Se não quereis executar esse plano hoje, como o jurastes, eu o farei sozinho. Não terei muitas possibilidades contra os alemães, mas farei o melhor possível. Se eles forem muito fortes para mim, eu chamarei: “Vinicius, e Asprenas, Bubo, Áquila, Tigre! Por que não estais aqui como prometestes?”

Aí resolveram eles ater-se ao plano original. Vinicius e Asprenas deveriam convencer Calígula a deixar o teatro pelo meio-dia, para ir dar um mergulho na piscina e tomar uma refeição rápida. Alguns minutos antes, Cassius, o Tigre e os outros capitães conjurados sairiam furtivamente pela porta dos bastidores e se postariam à entrada da galeria que ligava o teatro ao palácio novo. Asprenas e Vinicius fariam Calígula passar por ali...

A peça anunciada naquele dia era Ulisses e Circe. Calígula prometera que no fim lançaria frutos, guloseimas e dinheiro à multidão. Ele os lançaria naturalmente do seu camarote; assim, apenas abertas as portas, a multidão se engolfou pelo teatro e precipitou-se para os lugares mais próximos. Em geral, as mulheres ficavam à parte, bem como os cavaleiros e os senadores. Mas naquele dia todos estavam misturados. Eu vi um escravo africano e uma mulher de cabelos tintos de açafrão, envergando o vestido escuro das prostitutas. “Muito bem”, disse Cassius ao Tigre, “quanto mais confusão houver, tanto melhor para nós.”

À parte os alemães e o próprio Calígula, o pobre Claudius era quase que o único no palácio que tudo ignorava da conspiração. Era que o pobre Claudius, como tio de Calígula, também devia ser assassinado. Queriam acabar com toda a família. Os conjurados temiam, penso eu, que eu me fizesse imperador e procurasse vingar Calígula. Eles estavam resolvidos a restabelecer a república. Se tivessem, os imbecis, falado comigo, teria esta história um fim bem diferente. Pois eu era melhor republicano do que qualquer um deles. Mas eles desconfiaram de mim e me condenaram à morte sem piedade.

O próprio Calígula, em certo sentido, sabia mais do que eu a respeito da conspiração, pois acabava de receber um oráculo do templo da Fortuna, em Antium: “Desconfia de Cassius.” Mas ele se enganou na interpretação e mandou chamar a Roma outro Cassius, Longinus, o primeiro marido de Drusilla e que era agora governador da Ásia Menor. Longinus poderia quere-lhe mal, por causa da morte de Drusilla, e descendia daquele Cassius que participara do assassinato de Julius César.

Cheguei ao teatro de manhã, às oito horas, e vi que me haviam reservado um lugar. Eu estava assentado entre o comandante da Guarda e o dos alemães. O comandante da Guarda perguntou a seu colega:

— Sabes da nova?
— Que nova? — perguntou o comandante dos alemães.
— Levam hoje um novo drama.
— Qual?
— A morte do tirano.

O comandante dos alemães lançou-lhe um rápido olhar e citou, franzindo o sobrolho:

— ... Cala-te, bom companheiro:
Alguns dos gregos poderão ouvir-te.
— Sim — disse eu —, há mudança de programa. Mnester vai representar A morte do tirano. Há anos que não o representam. É a história do Rei Cinyrus, que recusava participar da guerra contra Tróia e que é liquidado devido à sua própria covardia.

A peça começou. Mnester estava perfeitamente em forma. No momento em que é ele morto por Apolo, o sangue espadana sobre as suas vestes de uma pequena bexiga que trazia oculta na boca. Calígula mandou-o chamar e beijou-o nas duas faces. Cassius e o Tigre acompanharam Mnester até o camarote, como para protegê-lo de seus admiradores, depois saíram pela porta dos bastidores. Os capitães aproveitaram a azáfama das distribuições dos prêmios para esquivar-se por sua vez.

— Esteve maravilhoso — disse Asprenas a Calígula. — Que dirias agora de um mergulho na piscina e de uma refeição leve?
— Não — respondeu Calígula —, eu quero ver aquelas pequenas acrobatas. Dizem que são muito boas. Creio que vou ficar até o fim. É o último dia.

Ele estava de excelente humor.

Vinicius ergueu-se para prevenir Cassius, o Tigre e os outros que não esperassem mais. Calígula reteve-o pelo manto.

— Não te escapes, meu caro. É preciso que vejas aquelas mocinhas. Há uma dança que chamam a Dança do peixe e que te dá a impressão de que estás a dez braças abaixo da água.

Vinicius tornou a sentar-se e assistiu à Dança do peixe. Mas teve primeiro de suportar um curto interlúdio melodramático intitulado Laureolus, ou o chefe dos ladrões. Havia ali morte em abundância, e os atores, uma companhia de segunda ordem, tinham todos enchido a boca de bexigas de sangue, para fazer Mnester. Impossível imaginar com que sangueira de mau agouro inundaram eles tudo! Terminada a Dança do peixe, Vinicius ergueu-se de novo.

— Para falar com franqueza, senhor, eu desejaria ficar, mas Cloacina me chamou. Devo ter comido não sei o quê...

Que a oferenda seja suave e consistente, nem muito rápida nem tampouco muito lenta...

Calígula pôs-se a rir:

— Em todo caso, meu caro, não é por culpa minha. Tu és um dos meus melhores amigos. Por nada no mundo eu poria drogas no teu alimento.

Vinicius saiu pela porta dos bastidores e encontrou Cassius e o Tigre no pátio.

— Será melhor entrarem — disse —, Calígula quer permanecer até o fim.
— Muito bem — disse Cassius. — Entremos. Eu o matarei onde ele se encontre.
Espero que não me abandonem.

Nesse momento um guarda aproximou-se de Cassius e disse-lhe:

— Os jovens chegaram, senhor.

Calígula havia recentemente ordenado às cidades gregas da Ásia Menor que lhe enviassem cada uma dez jovens de sangue nobre, para dançar na festa a dança nacional das espadas e cantar um hino em sua honra. Não passava, aliás, de um pretexto para ter os jovens à mão e deles servir-se como reféns no dia em que voltasse seu furor contra a Ásia Menor. Deveriam ter chegado há vários dias, mas uma tempestade no Adriático os retivera em Corfu.

— Vai imediatamente prevenir o imperador — ordenou o Tigre. O guarda correu ao teatro.

Por essa altura, eu começava a sentir muita fome. Murmurei a Vitellius, que se encontrava atrás de mim: “Se ao menos o imperador nos desse o exemplo de sair daqui e ir comer qualquer coisa!” Nesse instante, o guarda trouxe a notícia da chegada dos jovens. “Perfeito!”, disse Calígula a Asprenas. “Eles poderão dançar esta tarde. É preciso que eu os veja imediatamente e os faça ensaiar o hino. Vamos, meus amigos! O ensaio primeiro, depois um banho, um almoço, e continuaremos o espetáculo.”

Saíamos todos. Calígula parou à porta, para dar ordens sobre o espetáculo da tarde. Eu caminhava adiante, com Vitellius e os dois generais. À entrada da galeria, notei Cassius e o Tigre; eles não me saudaram, o que me pareceu singular. Chegamos ao palácio.

— Estou com muita fome — disse eu — e sinto um cheiro de caça. Espero que este ensaio não seja muito longo.

Nós nos encontrávamos na antecâmara do salão de festas. “É singular”, pensei. “Nem um capitão — apenas sargentos.” Voltei-me para os meus companheiros; nova surpresa; eles todos haviam desaparecido silenciosamente. Nesse momento ouvi ao longe gritos agudos, depois grandes clamores. Eu perguntava a mim mesmo o que estaria acontecendo. Alguém passou correndo pela janela a gritar: “Ele morreu! Está tudo acabado!” Dois minutos mais tarde, explodiu no teatro uma terrível gritaria, como se estivessem massacrando a assistência inteira. Aquilo durou muito tempo, depois houve uma calmaria, seguida de tumultuosas aclamações. Subi precipitadamente para o meu gabinete de leitura e caí, a tremer, numa cadeira.

Diante de mim, sobre colunas, se encontravam bustos de Heródoto, de Políbio, de Tucídides, de Asinius Pollio. Seus traços impassíveis pareciam dizer: “Um verdadeiro historiador se coloca sempre muito acima das perturbações políticas de seu tempo.” Eu resolvi portar-me como um verdadeiro historiador.

~ A morte de Calígula ~

Eis o que se passou. Calígula saíra do teatro. Uma liteira o esperava para levá-lo ao palácio pelo caminho mais longo, entre duas alas de guardas. Mas Vinicius lhe disse:

— Vamos pela galeria, que leva menos tempo. Creio que os jovens gregos esperam lá, perto da entrada.
— Muito bem, vamos! — disse Calígula.

A multidão tentou segui-lo, mas Vinicius ficou para trás e rechaçou-a.

— O imperador não quer que o incomodem — gritou ele. — Para trás!

Ordenou aos guardas que fechassem as portas.

Calígula se aproximou da galeria. Cassius avançou e saudou-o:

— A senha, César?
— Hem? Ah! Sim, a senha! Eu vou dar-te uma linda hoje: “Velho de saias!”

Por trás dele o Tigre perguntou: “Sim?” Era o sinal convencionado.

— Sim! — disse Cassius, sacando da espada e golpeando Calígula com força.

Ele queria fender-lhe o crânio até o queixo, mas, na sua fúria, errou o golpe e atingiu-o entre o pescoço e a espádua. O alto do esterno recebeu toda a violência do espadaço. Calígula, cambaleando de dor e de surpresa, olhou em derredor com um ar alucinado, quis dar meia-volta para fugir. Mas Cassius, rápido antes que ele voltasse, assestou-lhe de novo a espada, fendendo-lhe a mandíbula. Depois o Tigre, perseguindo-o, abateu-o com um golpe ao lado da cabeça. Ele se ergueu lentamente sobre os joelhos.

— Bate outra vez! — gritou Cassius.

Calígula ergueu para o céu uma fisionomia de angústia:

— Ó Júpiter... — suplicou ele.
— Atendido! — gritou o Tigre, decepando-lhe uma das mãos.

Áquila deu o golpe de misericórdia — uma estocada profunda na virilha; — mais dez espadas mergulharam ainda, para mais segurança, no seu ventre e no peito. Um capitão chamado Bubo mergulhou a mão num ferimento aberto e lambeu os dedos, exclamando.

— Eu tinha jurado beber-lhe o sangue!

A multidão se adensava. De repente deram o alarma: “Os alemães!” Os assassinos não podiam enfrentar um batalhão inteiro de alemães. Eles se precipitaram no edifício mais próximo, que era precisamente a minha casa natal, utilizada por Calígula para alojar os embaixadores estrangeiros, que ele não quisera hospedar no palácio. Eles entraram pelo pórtico e saíram pela porta de serviço. Todos se escaparam a tempo, salvo o Tigre e Asprenas. O Tigre fingiu não estar com os assassinos e juntou-se aos alemães, para clamar por vingança. Quanto a Asprenas, fugiu pela galeria, onde os alemães o alcançaram, matando-o. Mataram da mesma forma dois outros senadores que encontraram por acaso.

Mas era tão somente uma pequena parte dos alemães. O resto do batalhão invadiu o teatro e fechou as portas, na intenção de vingar, por um morticínio em massa, a morte de seu herói. Daí os gritos que eu ouvira. Ninguém na assistência sabia que Calígula estava morto, nem tampouco que haviam tentado contra a sua vida. Mas a intenção dos alemães era bastante clara, pois eles davam palmadinhas nas suas espadas e acariciavam-nas, falando-lhes como a entes humanos, como costumam invariavelmente fazer quando se aprestam para derramar sangue. Não havia salvação possível. De repente, no palco, a trombeta deu o sinal de “atenção”, seguido das seis notas que significam “ordem do imperador”. Mnester apareceu e ergueu a mão. O tumulto acabou logo, para dar lugar a soluços e gemidos abafados, pois quando Mnester aparecia em cena era regra não proferir nenhum som, sob pena de morte imediata. Os próprios alemães pararam no meio de suas palmadinhas, carícias e encantações. A ordem do imperador transformava-os em estátuas.

Mnester gritou: “Ele não morreu, cidadãos. Não morreu! Os assassinos arremessaram-se sobre ele e fizeram-no cair de joelhos assim. Mas ele se ergueu — assim. As espadas nada podem contra o nosso divino César. Ferido e ensangüentado como estava, ele ergueu a cabeça augusta e afastou-se com seu passo divino — assim — entre as alas dos seus covardes assassinos desconcertados. Seus ferimentos se tornaram a fechar — milagre! Ele está agora na Praça do Mercado e dirige a palavra a seus súditos do alto da tribuna”.

Uma aclamação formidável atroou os ares. Os alemães embainharam as espadas e retiraram-se do teatro. A oportuna mentira de Mnester (sugerida por Herodes Agrippa, rei dos judeus, o único homem em Roma que conservou o sangue frio durante aquela tarde fatal) salvara umas sessenta mil vidas.

Mas a verdade era agora conhecida no palácio, onde provocava a mais completa confusão. Alguns velhos soldados acharam que a ocasião era esplêndida para uma pilhagem em regra. Cada porta tinha um trinco de ouro, fácil de arrancar com uma espada pontuda e que valia seis meses de soldo. Começavam, pois, a fingir que andavam procurando os assassinos. Ouvi os gritos de: “Morram! Morram! Vinguemos César!” e me ocultei atrás de um cortinado. Dois soldados entraram. Descobriram meus pés por baixo.

— Sai daí assassino! É inútil te ocultares de nós.

Eu saí e atirei-me de face contra o solo.

— Não me... me... matem, senhores — supliquei —, eu n... n... não t... t... tenho nada com a coisa! — Quem é esse velho senhor? — perguntou um dos soldados, novato no palácio. — Ele não parece perigoso.— Como não sabes? É o irmão aleijado de Germanicus. Um rico tipo. Nada mau. Levanta-te, Claudius, não te farão mal.

Fizeram-me descer com eles ao salão de festas, onde os sargentos e caporais estavam em conselho de guerra. Um jovem sargento, de pé sobre uma mesa, agitava os braços, gritando:

— Para o diabo a república! Nossa única esperança é encontrar um novo imperador. Não importa qual, contanto que possamos decidir os alemães a aceitá-lo.
— Incitatus — propôs alguém a rir.
— Antes ele que ninguém. É preciso descobrirmos alguém imediatamente, para acalmar os alemães, senão eles arrasarão tudo.

Os meus dois guardiães abriram caminho, arrastando-me consigo.

— Olá, sargento! Olha o que temos aqui! Isto é que é sorte. É o velho Claudius. Por que não o velho Claudius como imperador? É quem há de melhor em Roma para isso, embora manque um pouco!

Aclamações, risos, gritos de “Viva o Imperador Claudius!”

— Como, senhor! — disse o sargento. — Nós todos te supúnhamos morto. Erguei-o, camaradas, para que nós todos o vejamos.

Dois grandes caporais agarraram-me pelas pernas e escancharam-me em seus ombros.

— “Viva o Imperador Claudius!”
— Desçam-me! — gritei furioso. — Desçam-me! Eu não quero ser imperador! Recuso-me a ser imperador viva a república!

Mas eles se limitaram a rir.

— Essa é boa! Ele diz que não quer ser imperador. Modéstia, hem?
— Dêem-me uma espada! — gritei. — Prefiro a morte.

Messalina correu para nós.

— Por amor de mim, Claudius, faze o que te pedem. Por amor de nosso filho. Eles te matarão, se recusares. Já mataram Cesonia. Agarraram sua filhinha pelos pés e fizeram-lhe saltar os miolos contra um muro.
— Tudo irá bem, senhor, logo que te acostumes — disse um soldado, sorrindo. — Não é tão desagradável a vida de um imperador.

Eu não protestei. Para que lutar contra o Destino? Carregaram-me pelo pátio de honra, cantando o hino ridículo composto para o advento de Calígula: “Germanicus voltou, eis o fim de nossas misérias”. Pois eu também me chamo Germanicus. Forçaram-me a pôr a coroa de folhas de carvalho feita de ouro, que pertencia a Calígula e fora arrancada às mãos dos saqueadores. Para conservar o equilíbrio, eu devia agarrar-me com toda a força aos ombros dos caporais. A coroa me ficara de banda, escorada sobre uma orelha. Eu me sentia perfeitamente ridículo. Assemelhava-me a um criminoso que levavam para a execução. As trombetas soaram a saudação imperial.

Os alemães vinham voltando lentamente em nossa direção.

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Bibliografia: Eu, Claudius, imperador, Robert Graves, Tradução de Mário Quintana, Editora Globo, Rio de Janeiro, 1983.


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