Lembra-te, romano, de que esta será a tua missão:
governar as nações; manter a paz sob a lei;
poupar os vencidos; esmagar os soberbos! — Virgílio, 70-19 a. C.
SENATVS POPVLVSQVE ROMANVS
A fundação de Roma aconteceu no décimo
primeiro dia antes das calendas de
maio. Quanto a esse ponto todos
concordam, e os romanos comemoram a
data como aniversário de sua pátria. A
História romana começa por um período
mais ou menos lendário, durante o qual
a tradição clássica faz reinar sete
reis sucessivos de 753 a 510 a.C. Em
510, quando foi proclamada a
República, Roma, cuja população
resultava da fusão dos Ramnenses
(Latinos), dos Ticienses (Sabinos)
e dos Lúceres (Etruscos), já
possuía um certo número de
instituições: patriciado e clientela,
assembléia curial, senado...
O estabelecimento da
República deu lugar à criação de novas
funções. Tais como o consulado e a
ditadura. Os primeiros tempos da
República foram preenchidos quase
totalmente pela luta dos patrícios e
dos plebeus, que terminou no ano 300
pela admissão destes a todas as
magistraturas. Solidamente constituída
no interior, Roma pensou então em
dilatar o seu território: de 496 a
270, conquistou o resto da Itália; de
264 a 201 fez as duas primeiras
guerras púnicas; de 200 a 130,
interveio no Oriente, destruiu Cartago
(terceira guerra púnica, 146),
transformou a Grécia em província
romana, passando a experimentar a
influência benéfica dos Helenos
vencidos.
As lutas internas,
porém, perderam a República (rivalidade
de Mário e de Sila; triunvirato de
César, Pompeu e Crasso; rivalidade de
Pompeu e César depois da conquista da
Gália; ditadura e assassinato de
César; rivalidade de Otávio e
Antônio). Vencedor em Áccio em 31
a.C., Otávio ficou exclusivo senhor do
mundo antigo; foi proclamado imperador
(imperator) sob o nome de Augusto,
reunindo nas suas mãos todos os
poderes, todas as magistraturas.
O próprio Virgílio,
poeta da glória romana, havia apontado
a grandiosa missão de Roma, e foi com
força civilizadora que ela ascendeu e
dominou. Suas maiores conquistas foram
completadas nos dias da República. Em
sete séculos, uma aldeia de pastores
junto ao Tibre, que se pretende
fundada pelos gêmeos Rômulo e Remo em
753 a.C., tornou-se senhora do
Mediterrâneo e de grande parte da
Europa continental. Conseguiu-o apenas
pelo valor de seus lavradores-soldados,
por seu gênio organizador e sua
habilidade em fazer que as nações
subjugadas se sentissem à vontade sob
a águia romana. Um governo
admiravelmente equilibrado, concebido
para administrar uma cidade apenas,
regia todo o império. O Senado romano,
composto de romanos conceituados,
supervisionava toda a legislação,
controlava os gastos, tratava com
potências estrangeiras, decidia sobre
guerra e paz e, em conjunto,
representava Roma.
A maioria dos
patriotas que cravaram seus punhais em
Júlio César, nos Idos de Março de 44
a.C., eram senadores. Para eles, o ato
sanguinário era o único meio de salvar
a República. Contudo, matando o
possível monarca, eles não mataram a
ambição. O sobrinho-neto e filho
adotivo de César, Augusto, logrou
êxito onde falhara seu pai de criação.
E assim nasceu um império que duraria
cinco séculos, protótipo de todos os
impérios coloniais dos tempos modernos.
Entre seus setenta e tantos
imperadores houve homens bons, maus e
medíocres, sábios, cruéis, fracos e
fortes. Um deles, Marco Aurélio,
filósofo, deixou-nos suas
Meditações, livro inspirador.
Alguns, como Trajano, o Espanhol,
provinham de outras terras. Outros,
pretendentes rivais ao trono,
combateram-se mutuamente até à morte.
Teoricamente, o
Imperador era o melhor homem
disponível. Na prática, muitas vezes
não passava de um reles cavaleiro de
fortuna. Seu poder, constituído pela
soma total de todos os postos-chave
administrativos e eletivos da extinta
República, era absoluto. O Senado foi
reduzido à impotência. Enquanto
gozasse de popularidade junto às
forças armadas, o governante pairava
acima da lei. O assassinato, única
forma de reação a esse governo de um
só homem, era usado franca e
eficientemente.
Por volta do século
III da era cristã, já o Império se
estendia desde a Bretanha até à
fronteira da Pérsia; do Reno e do
Danúbio às areias do Saara. Cerca de
100 milhões de pessoas o habitavam. Um
exército de 300.000 legionários bem
pagos garantia a sua defesa. Uma rede
de estradas — algumas das quais
conservam até hoje seus bem
construídos pavimentos romanos
—
entrecruzava-se por todo o vasto
domínio. Naves de guerra patrulhavam
as águas. O correio deslocava-se a uma
espantosa velocidade de 65 quilômetros
por dia. Mercadorias dos extremos da
Terra chegavam continuamente a Roma. À
exceção de ocasionais incidentes de
fronteira, a famosa Pax Romana
permaneceu intacta durante 250 anos. O
Império era um lugar seguro para se
viver.
Uma civilização
uniforme mantinha solidamente unidas
as províncias. Em todas as cidades
importantes, os deuses romanos eram
cultuados nos mesmos grandes templos
colunados. Jogos espetaculares e
sangrentos
—
combates de gladiadores, corridas de
carros, lutas com animais ferozes
—
eram promovidos nos mesmos estádios
gigantescos. Funcionários civis
altamente preparados distribuíam
justiça. A propriedade era protegida.
O crime era punido, mas os cidadãos
romanos podiam invocar o direito de
serem julgados pelo próprio Imperador.
Como padrão da arte de governar e de
organização, o Império jamais foi
suplantado.
Roma era o centro
palpitante desse superestado. Com
cerca de 19 quilômetros de
circunferência, tinha-se tornado a
maravilha do mundo. Desde que o
primeiro imperador, Augusto, em suas
próprias palavras, a encontrou "feita
de tijolos e deixei-a feita de mármore",
uma série de governantes havia
esbanjado somas fabulosas no
embelezamento de Roma. Um estádio, o
Circus Maximus,
acomodava 250.000 espectadores. Onze
aquedutos traziam diariamente mais de
1,3 bilhões de litros de água fresca
das montanhas para a capital.
Balneários, cujos grandes átrios
abobadados eram milagres de engenharia,
enchiam-se, todos os dias, de romanos
que trocavam boatos e se distraíam.
Contemplada da Colina de Palatino,
suntuoso palácio dos césares, Roma era
uma vista tão magnificente que um
príncipe persa, visitando-a no ano 357
da nossa era, admirou-se: "As pessoas
serão mortais aqui?"
Hoje, porém, sabemos
que essa magnificência era, na
realidade, pouco mais que uma miragem.
A disseminação da riqueza era reduzida;
o que faltava a Roma era uma alta
classe média. As estatísticas mostram
que a mesma Roma que deslumbrava os
visitantes com sua grandeza imperial
possuía apenas 1.800 residências
particulares suntuosas
—
ao lado de 46.600 cortiços miseráveis.
Um minúsculo grupo de elite social
equilibrava-se precariamente sobre um
proletariado miserável e fervilhante,
que vivia de migalhas imperiais e do
proverbial "pão e circo". Nem a
opulência dos que estavam por cima era
tão extravagante ou "obscena" como a
imaginam ficcionistas. As aparências
eram mantidas quase que só com
custosos banquetes. "Muita tolice tem
sido dita sobre o luxo dos romanos
como uma das causas de seu declínio",
escreve J. C. Stobart emAGrandeza que foi
Roma.
E, se esquecermos a
depravação pessoal de certos
imperadores, a sociedade romana não
parece devassa ou perversa. Crime
organizado, drogas, marginais,
poluição urbana
—Roma não tinha
realmente qualquer desses problemas.
Muito embora,
a prostituição, masculina e feminina,
fosse um fato da vida, e o divórcio
fosse fácil, seria preciso torcer a
História para afirmar que Roma "declinou
e caiu" por causa da corrupção moral.
Então, que estava
errado? Em primeiro lugar, a busca da
felicidade era bloqueada a cada passo
por um sistema social inflexível.
Poucos conseguiam esgueirar-se através
das barreiras sociais. Uma poderosa
burocracia, cujos métodos incluíam a
tortura, oprimia a população, muitas
vezes destruindo-lhe as bases da
subsistência. Muitos pequenos
agricultores abandonavam as terras de
seus antepassados por causa dos
impostos esmagadores, indo engrossar
as fileiras de uma desesperada
população urbana. A escravidão,
baseada no trabalho forçado de
prisioneiros de guerra, atingiu
proporções quase inacreditáveis nos
tempos imperiais. Enquanto os
traficantes de escravos vasculhavam
continentes distantes na busca de
mercadoria humana, mercados como o da
Ilha de Delos movimentavam diariamente
dezenas de milhares de escravos
estrangeiros.
Os trabalhos pesados
eram feitos por eles. Eram os escravos
que faziam coisas, que consertavam
coisas. Tudo isso deixava pouca margem
para o progresso e o espírito
inventivo. A tecnologia não progrediu.
Não havia mercado, nem procura, para
produtos manufaturados. Em vez de uma
economia em expansão, o que havia era
estagnação.
A luxuriante Itália,
outrora rico país exportador de
agricultura, jazia abandonada. Nos
últimos tempos do Império, seus
agricultores independentes tinham
praticamente desaparecido. Para que
trabalhar a terra, se se podia
importar vinhos da Grécia, trigo do
Norte da África e azeite da Espanha?
Uma torrente incessante de ouro
deixava a Itália para pagar as
importações e para financiar obras
megalomaníacas em cidades nas
províncias. O dinheiro perdeu todo o
significado e o povo instituiu um
regime de trocas. Seguiu-se o caos.
Um édito do Imperador
Diocleciano, congelando preços e
salários, chegou até nós. Estabelece
penas severas para os especuladores.
Por exemplo, os padeiros que vendessem
seu pão acima do preço oficial
arriscavam-se a ser executados. Ao
mesmo tempo, o exército e a
administração eram rigorosamente
reformados. Os filhos eram obrigados a
seguir a profissão dos pais. "Disciplina"
era a palavra de ordem do dia. As
medidas de Diocleciano contiveram a
inflação, e quando, forçado por
problemas de saúde, renunciou, no ano
305, conquistara o título de "Refundador
do Império".
Contudo, faltava ainda
alguma coisa. O Império era um colosso
à procura de uma alma. Sentia-se uma
falta de finalidade em todas as fases
da vida. Era como se os antigos deuses
tivessem perdido seu poder; poucos
pensavam que
Júpiter
e Vênus fossem mais que estátuas
decorativas no Capitólio. Os anseios
espirituais das massas não eram
satisfeitos.
Nessas condições, foi
a corações aflitíssimos que Paulo,
Apóstolo das Gentes, trouxe pela
primeira vez a mensagem de salvação.
Os primeiros cristãos de Roma eram
escravos, proscritos, favelados
—
os pobres de espírito. Sem dúvida, a
desorientação espiritual do mundo
pagão favorecia-lhes a causa. Por
isso, pouco mais de três séculos após
a morte de Cristo, um imperador
romano, Constantino, o Grande, abraçou
o cristianismo. Fundando a "Nova Roma"
—
Constantinopla
—
às margens do Bósforo, ele dividiu o
Império em dois.
Roma morreu como havia
surgido
—
pela espada. Nas estepes da Ásia
acontecera algo que até hoje continua
obscuro. Povos punham-se em marcha.
Hordas incontáveis de povos semi-selvagens
—
godos, vândalos, hunos
—
entraram em rota de colisão com Roma.
Com um misto de repugnância e respeito,
os romanos chamavam-nos bárbaros. Essa
palavra assumiu um toque de Juízo
Final.
Roma foi três vezes
sitiada e saqueada. Numa frenética
dança da morte, nove imperadores
sucederam-se durante os últimos 20
anos do Império. E quando, em 476,
Odoacro, um chefe tribal das florestas
do Danúbio, invadiu a Itália e depôs o
último Imperador
—
um jovem chamado Romulus Augustulus
—
fez-se coroar o primeiro rei bárbaro
da Itália. E poucos contemporâneos se
detiveram para registrar que acabava
de expirar o maior império do mundo.
"A história da sua
ruína é simples e óbvia", concluiu
Gibbons (Declínio e Queda do
Império Romano). "E, em vez de
perguntar por que foi o Império
destruído, deveríamos antes
surpreender-nos
com o fato de ter subsistido por tanto
tempo."
Que força mágica, bem
podemos perguntar, o tinha mantido?
Uma resposta a essa pergunta pode ser
achada nas antigas virtudes que
inspiraram os grandes romanos do
passado. Através dos anos de
decadência, persistia uma saudade dos
"bons tempos de outrora". Nomes como
os de Cícero e Pompeu viviam na
memória dos romanos. Os antigos poetas
e filósofos continuavam a ser lidos.
As famosas histórias dos legendários
heróis de Roma eram sempre repetidas.
Foi esta força das antigas
instituições e idéias, presente, de
certa forma, no próprio sangue de cada
romano, o que conseguiu que se
mantivesse vivo o Império muito tempo
depois de ele ter perdido sua razão de
ser.
Roma simplesmente não
podia desaparecer. À medida que
antigas províncias
—
Portugal, França, Itália, Romênia
—
se transformavam em novas nações,
falavam as línguas românicas baseadas
no jargão das legiões. O próprio latim
permaneceu como a língua do saber. E o
Direito romano, apurado por gerações
de grandes juristas, nutriu com seus
princípios humanos e equilibrados os
sistemas jurídicos do mundo ocidental.
Mas, acima de tudo, é o conceito
romano da dedicação do homem ao bem
comum que até hoje governa a nossa
consciência cívica. O servidor público
moderno, que é investido na mais digna
carreira que a nação pode oferecer,
tem uma dívida de gratidão para com
Roma.
Manter vivos e
transmitir esses valores foi a função
histórica do Império Romano. Seu
próprio colapso, quando finalmente
sobreveio, já não tinha maior
importância. Na morte do Império
estava a sua vitória. Sua missão
civilizadora estava cumprida.
Falai-me, ó pedras! oh falai, vós
altos palácios!
Ruas, dizei uma palavra! Gênio, não te
moves?
Sim, tudo tem alma nos teus santos
muros,
Roma eterna; só para mim tudo se cala
ainda.
Quem me diz segredos, em que fresta
avisto
Um dia o ser belo que queimando me
alivie?
Não pressinto ainda os caminhos, pelos
quais sempre,
Pra ir dela e pra ela, sacrifique o
tempo precioso?
Ainda contemplo igrejas, palácios,
ruínas, colunas,
Homem composto, decoroso, que
aproveita a viagem.
Mas em breve passa: então haverá um só
templo,
O templo do Amor, que se abra e receba
o iniciado!
És um mundo em verdade, ó Roma; mas
sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era
Roma.
Eu,
Claudius, Imperador
(romance histórico), Robert Graves
A Cidade
Antiga (sobre o modo de
vida na antigüidade), Fustel de
Coulanges
Dicionário Oxford de Literatura
Clássica (um dos melhores)
Marco
comemorativo da chegada de César
em Rimini, Janeiro, 50 a.C.
~ Gastronomia Antiga ~
Um dos legados do Império Romano é o
ritual do banquete. A refeição, lauta e festiva, é citada nos textos clássicos,
e por desenhos em mosaicos da época se sabe que os convidados comiam reclinados
em divãs. Mas o que comiam os antigos romanos? O mergulho nas cozinhas do
passado é agora um próspero ramo da arqueologia, chamado de reconstrução
culinária. As épocas mais pesquisadas são Roma Antiga, Idade Média e
Renascimento.
~ Vídeos ou DVD ~
A Queda do Império Romano
Cleópatra
Ben-Hur
Demétrius, o Gladiador
Spartacus
Gladiador
~ Imagens do Filme Gladiador ~ Clique na foto para ampliá-la