Diante do grande e antigo Templo de
Dendera, no Alto Egito, aqueles quinze homens sentiram-se petrificados.
O luar brilhava através do pórtico, iluminando as centenas de
hieróglifos e figuras entalhadas nas superfícies de arenito duro do
templo. O chefe da expedição, Jean-François Champollion, mantinha um ar
de calma, mas estava intimamente admirado. Desde menino ele havia
sonhado com o Egito Antigo. Depois de ter estudado todos os livros sobre
o Egito que conseguira, ele passara a conhecer esse país tão bem que
vivia nele em seus sonhos e imaginações. Agora, em 1828, esse francês,
curador do museu e professor de História, com 38 anos de idade, pisava o
solo de uma terra que, embora antes distante, era como um lar para ele.
Para os outros homens da expedição, Champollion, com sua pele escura e
usando veste e turbante, parecia um habitante daquela antiga região.
Eles o chamavam de "o egípcio".
Quando Champollion contemplou os belos e solenes
hieróglifos inscritos nas colunas e paredes de Dendera, começou a fazer
uma leitura deles... a primeira pessoa a fazer isso num período de quase
dois mil anos. A misteriosa história daquela terra antiga começou a
jorrar diante de seus próprios olhos. As lendas de poderosos reis,
sacerdotes e deuses, foram contadas novamente. A terra dos mortos
tornava-se viva!
Mas esse conhecimento concedido a Champollion
não viera facilmente. Muitos outros haviam tentado adquirir os segredos
do Egito. E por vezes tinham quase desvendado os mistérios, mas
obstáculos imprevistos tinham-nos levado a desistir, desanimados. O que
tornava Champollion diferente era sua genialidade lingüística e sua
compulsiva e persistente paixão de conhecer o Egito. Ele conhecia mais
de doze línguas, muitas delas do Oriente Próximo. Era uma das poucas
pessoas, no começo do século dezenove, que conheciam o copta, língua que
sucedeu ao egípcio antigo. Mas o que Champollion tinha acima de tudo era
a disposição de seguir sua própria intuição, de abandonar a tradição
quando ela era restritiva ou errônea. Ele teve de rejeitar conceitos que
datavam de 2000 anos, à época de Heródoto, segundo os quais os
hieróglifos seriam uma escrita puramente simbólica e pictórica. A
revolução de Champollion consistiu em reconhecer a qualidade alfabética
daqueles sinais.
A chave dessa revolução encontra-se agora no Museu Britânico, em
Londres. Trata-se de uma pedra de basalto negro, muito desgastada e
quebrada, entalhada com três formas de escrita: hieroglífica egípcia,
demótica egípcia, e grega. Essa pedra foi descoberta perto da cidade de
Rosetta (ou Rashid) – daí seu nome – durante a
desastrada campanha de Napoleão no Egito, em 1799. Embora tenha sido um
fracasso militar, essa expedição foi um sucesso arqueológico, já que os
150 eruditos e artistas que acompanhavam o exército de Napoleão
catalogaram e desenharam os remanescentes do glorioso passado do Egito. E
tropeçaram num
mundo desconhecido; mas os eruditos perceberam que, assim que fossem
decifrados os hieróglifos da Pedra de Rosetta, eles poderiam então
conhecer alguma coisa daquela antiga civilização. Claramente, os dois
textos egípcios eram traduções do grego. Seguramente, eles pensaram,
seria simples decifrá-los. Mas não seria assim. Mais de vinte anos de
infrutíferas sondagens e conjecturas passariam antes que o erudito
francês, Jean-François Champollion pudesse anunciar ao mundo, em 1822,
que resolvera o enigma.
(Arnaldo Poesia, Paris, 1995)