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(Em síntese)


Anne Frank — Uma biografia
Autor: Melissa Müller

Prefácio

Seu diário — escrito entre 1942 e 1944 no esconderijo em Amsterdã — é o documento literário mais lido sobre os crimes nazistas e transformou-a numa das figuras mais conhecidas do século XX: a menina Anne Frank, 4 anos quando teve de abandonar sua pátria, a Alemanha; 13, quando foi obrigada a se esconder dos nazistas; e nem completara 16 quando morreu no campo de concentração — como mais um dos seis milhões de vítimas inocentes do obscuro delírio racial de Hitler.

Nos últimos cinqüenta anos, Anne Frank foi estilizada como embaixatriz dos discriminados num mundo de violência e falta de liberdade, um símbolo de humanidade, de tolerância, de direitos humanos e democracia, a síntese do otimismo e da vontade de viver. Para milhões de jovens em busca de identidade, ela tornou-se figura de identificação, até mesmo heroína. Ela foi usada e abusada como elo entre criminosos e vítimas, seu diário — leitura obrigatória em muitas escolas do mundo inteiro — foi interpretado como mensagem universal de coragem e esperança. Seus pensamentos, como é de praxe no caso de coisas muito citadas, tornaram-se palavras proverbiais, muitas vezes arrancadas do contexto e reformuladas segundo a necessidade. Se houvesse tal coisa no judaísmo, possivelmente já se teria advogado em favor de sua beatificação.

Aos 13 anos de idade, li pela primeira vez o diário de Anne Frank. Pude identificar-me de imediato com sua luta pela formação de sua personalidade, luta esta condicionada pela puberdade, porém já objetiva. Em muitas coisas que ela escreveu, falou tal como eu pensava. Os ressentimentos que nutria contra a mãe não me eram estranhos. O fato de ter escrito o diário na condição de perseguida por um regime de terror e de ter morrido cerca de oito meses após a última anotação, foi outro aspecto que me afetou e tocou fundo. Sem dúvida, um aspecto com alta necessidade de explicação.

Desde aquela época, nunca mais me deixou a pergunta do "por que" — provavelmente feita de maneira bastante ingênua devido à idade. Não conheci uma razão que respondesse minha pergunta mesmo que de modo apenas quase satisfatório. Não recebi dos professores. Nem de meus pais. Silêncio, pena, tristeza, mas nenhuma resposta esclarecedora.

Há muito tempo eu sei: não existe explicação alguma para o holocausto, nem saída da cabeça, nem saída da barriga. Existe, porém, a possibilidade de se aprofundar nos acontecimentos e de ampliar o catálogo de perguntas. A partir de que pano de fundo político, econômico, social e de psicologia de massas se pôde chegar a esse genocídio? Que circunstâncias entraram em combinação para seres humanos como eu e você se tornarem vítimas, criminosos, sequazes, espectadores e alienados que desviavam o olhar?

Há mais de três anos tornei a pegar o diário; com o dobro da idade que tinha quando da primeira leitura, li dessa vez a chamada edição definitiva; em comparação com a primeira, ampliada com inúmeras anotações que, em parte, são muito pessoais, confissões íntimas, desenfreados ataques de raiva e de sentimentalismos. Declarações espontâneas de uma menina com fome de viver, com extraordinário potencial literário e humano, que não podia se desenvolver porque nascera judia. Dessa vez, fui acossada por inúmeras perguntas. As mais urgentes, de novo, aquelas que indagavam sobre os pressupostos que capacitavam os homens a fazer desumanidades tão inconcebíveis. Como a família de Anne, tanto do lado paterno como do materno, viveram esse tempo? Em que ambiente familiar, com que amigos Anne começou a se desenvolver? Que vivências marcaram-na? Seu diário, porém, anota apenas um sétimo de sua vida.

Assim começou minha busca pela pessoa que está por trás do mito, por histórias e acontecimentos da vida da menina alemã-judia Anneliese Marie Frank que influenciaram a formação de sua personalidade. Sem dúvida nenhuma, uma personalidade forte, mas que só foi compreendida no desdobramento. Por isso, uma biografia não deve ser feita, de maneira alguma, como se se tratasse de sondar e consolidar um ser humano pronto — segundo as regras e sutilezas da psicologia; ao contrário, deve acompanhar Anne com atenção em seu desenvolvimento, que foi interrompido tão abruptamente. Assim sendo, meu objetivo foi reunir o maior número possível de pedrinhas do mosaico e montar o quadro mais autêntico possível da breve vida de Anne, para pesquisar as raízes familiares bem como o ambiente social sobre os quais sua vida foi construída.

Esta biografia não quer, de forma alguma, substituir o diário de Anne; pelo contrário, vai completar esse documento insubstituível em sua sinceridade e clareza. O olhar de Anne, naturalmente muitas vezes fragmentado, sobre seu ambiente e o mundo externo que se reflete no diário, deve ser ampliado por meio de um olhar geral de fora. Ele documenta seu caminho de vida e sua via-crúcis, bem como de seus parentes mais próximos e amigos mais íntimos, copiando a partir da "vítima mais conhecida" de Hitler, que todos imaginam conhecer e da qual se sabe tão pouco, a loucura do regime nazista: da propaganda de ódio, passando pela expatriação, degradação e privação dos direitos, até a deportação e massacre organizado dos judeus.

Este livro jamais poderia ter sido realizado sem o valioso encontro com a última geração que fala a partir da experiência pessoal e que ainda pode manter viva a lembrança do holocausto; nem sem a confiança — ganha passo a passo — daquelas pessoas que conheceram Anne Frank pessoalmente e que hoje vivem espalhadas pelo mundo inteiro, em Israel, nos Estados Unidos, na Argentina, na Holanda, na França e na Alemanha. Sem a disposição de confrontar com suas dolorosas recordações, de se abrir para mim e revelar particularidades de sua vida sobre as quais se mantiveram caladas durante mais de cinqüenta anos — em parte, porque antes ninguém lhes indagou sobre elas; em parte, porque antes ainda não estavam prontas para falar a respeito —, muitos dos detalhes que entraram no livro teriam continuado obscuros por muito tempo, talvez para sempre. Durante minhas pesquisas, segui a pista e conheci mais de vinte testemunhas da época que são parentes ou eram amigos de Anne Frank e muito mais pessoas que foram íntimas de seu pai Otto depois da guerra. No decorrer dos meses e das numerosas conversas, muitas delas se tornaram amigos que eu não gostaria mais de perder. O fato de eu ter ganhado também a confiança de Miep Gies, após meses de cautelosa aproximação, ampliou muito meu ângulo visual, enriquecendo o livro com muitas informações importantes. Fiquei muito honrada porque no final ela se declarou disposta a escrever um posfácio para meu livro.

Meus parceiros de conversa confiaram suas histórias e contaram sobre períodos da vida deles que tiveram ligação com Anne Frank e sua família, mostraram-me as lembranças que tinham dos Frank, fotografias, cartas, anotações manuscritas, documentos elucidativos — muitos dos quais inéditos até hoje — e, desse modo, ajudaram a desenhar um quadro de Anne e de sua vida rica em facetas — uma vida curta num tempo torturado e violento, uma vida em que as circunstâncias excepcionais se tornaram trivialidades, uma vida sem chance de sobrevivência. E eles me ajudaram a chegar próximo de respostas a perguntas-chave que absorveram não apenas a mim, mas também a milhões de outras pessoas que há décadas leram o diário: quem traiu a família Frank? O que Anne pretendia com seu diário? Que personalidade havia de fato por trás da mãe, sobre a qual Anne escreveu com tanta dureza e severidade?

Otto Frank, o pai de Anne, foi o único da família que pôde se posicionar em relação ao diário da filha depois da guerra; o homem sempre contido em público o fez com a escolha dos textos que liberou para publicação. No entanto, até hoje quase não sabíamos coisa alguma sobre a mãe de Anne, nem mesmo sobre a formação escolar que teve. Ela permaneceu sem contornos durante mais de cinqüenta anos — bem como toda sua família, os Holländer. Um dos objetivos que persegui com este livro foi dar enfim à mãe e às suas raízes a importância que, sem dúvida, tiveram para Anne em seu desenvolvimento. Sem a colaboração dos descendentes da família Holländer que vivem espalhados pelo mundo, e sem a liberalidade de diversas repartições da Alemanha cujo material de arquivo — apesar de toda a burocracia — foi colocado à minha disposição jamais teria alcançado esse objetivo. Também sou muito grata a Cor Suijk, o diretor internacional do Anne Frank Center de Nova York — um amigo íntimo de Otto Frank de muitos anos —, pelo fato de, após 18 anos de silêncio, ter tomado a decisão de me tornar acessíveis duas anotações do diário que até então eram mantidas em segredo — uma delas de 8 de fevereiro de 1944; a outra, a última "introdução" que Anne redigiu para o diário —, com toda certeza os últimos textos do diário ainda não publicados, escritos com a caligrafia de Anne. Como um dos textos dá esclarecimento sobre o destino pessoal de Edith Frank-Holländer, lançando uma nova luz sobre o quadro que Anne desenha de sua mãe no resto do diário, e como o outro texto insinua o que Anne pretendia ou até não pretendia com seu diário, eles completam a história da família de Anne como peça essencial do mosaico. Cerca de meio ano antes de sua morte, Otto Frank confiara estas páginas a seu amigo e conselheiro pessoal, Cor Suijk. Em virtude de seus acordos verbais com Otto Frank, Cor Suijk sentiu-se autorizado a me consentir um exame do material. O Anne Frank Fonds, colocado a par por Cor Suijk e solicitado a colaborar, negou-se, por razões que para mim não são compreensíveis, a consentir que o texto original das páginas fosse copiado neste livro.

Para me aproximar da menina Anne Frank, escolhi conscientemente uma abordagem prudente de narração. No entanto, nenhum detalhe, nenhuma anedota deste livro é inventada. Também abri mão de conjecturas sempre que foi possível e, quando foram inevitáveis, as identifiquei como tal. Quando testemunhas da época tinham recordações diferentes de certos acontecimentos — após mais de meio século, algumas imagens podem se desfigurar — tentei procurar esclarecimento, ou então, quando foi impossível, chamei a atenção para as divergências que, via de regra, não eram essenciais.

Um pesquisador em história é alguém que não apenas analisa a história, mas também conta histórias verdadeiras, disse o historiador Yehuda Bauer. Um número maior de pessoas ouve um contador de história comprometido com a história do que ouve um teórico que a analisa. Eu tentei contar a história de Anne Frank, de sua família e de seu círculo de amigos de tal maneira que o maior número possível de pessoas me ouvisse — com a esperança de que, se possível, muitas delas se inteirassem dos crimes inconcebíveis que o regime nazista praticou, se inteirassem dos fatos históricos e das causas sociais sobre cujo pano de fundo pôde ocorrer o massacre, tomando assim consciência de sua responsabilidade. "Enquanto toda a humanidade sem exceção não passar por uma grande metamorfose, a guerra vai grassar, tudo que é construído, criado e cultivado, será cortado e exterminado de novo, para em seguida começar outra vez!", Anne Frank escreveu em seu diário um mês antes de seu décimo quinto aniversário (3 de maio de 1944, vers. A). Desde o final da Segunda Guerra Mundial houve exatamente quatro dias no mundo inteiro nos quais não foi desencadeada uma guerra em algum lugar do planeta. A história não se repete, disse Voltaire, mas o homem faz isso. O homem, com toda inteligência, é fraco e destruidor, e se deixa levar até perder seus ideais de vista. Então, ele começa — como se não fosse capaz de aprender — de novo. Não devemos deixar de ter esperança na capacidade de aprender do homem. E por isso não devemos deixar de contar essas histórias. Histórias como a de Anne Frank. Histórias contra o esquecimento.

Munique, junho de 1998

Melissa Müller

Leia um capítulo:

1

A prisão

Silêncio! Nenhuma palavra mais em voz alta! Quem está no banheiro? A torneira ainda está aberta. Nada de dar a descarga agora. Baixo, baixo. Não sejam tão descuidados. Psiu! Após dois anos, claro que vocês podiam saber... Esvaziar penicos. Empurrar camas para trás. Tirar sapatos! Os sinos já estão tocando. Às oito e meia, quando os trabalhadores do armazém chegam, deve reinar o silêncio.

O cotidiano ritual das manhãs nos fundos da casa: às quinze para as sete toca o despertador no quarto de Hermann e Auguste van Pels. Seu estridente tilintar também arranca do sono a família Frank, e Fritz Pfeffer um andar abaixo. Os barulhos seguintes lhes são por demais conhecidos: uma batida certeira — agora a Sra. van Pels desligou o despertador. O rangido, primeiro hesitante, depois cada vez mais definido — o Sr. van Pels levanta, desce com cuidado a inclinada escada de madeira. Como sempre, ele é o primeiro no banheiro.

Anne espera na cama, até ouvir a porta do banheiro ranger outra vez. Seu companheiro de quarto, Fritz Pfeffer, é o próximo. Anne se sente aliviada. Desfruta dos poucos minutos em que está sozinha no espaço apertado no começo da manhã. De olhos fechados, ela escuta o trinado do passarinho no pátio dos fundos e se espreguiça em seu local de dormir. De fato, não se pode chamar de "cama" aquele sofá estreito que ela aumentou colocando uma cadeira na parte dos pés. No entanto, Anne acha realmente luxuoso seu local de dormir. Miep Gies, que abastece os Frank com víveres em seu esconderijo, contou para ela que outros clandestinos dormem em alcovas minúsculas, muitas vezes sem janelas, ou então no chão de porões úmidos. Disciplinada, Anne se levanta e puxa a lona para escurecer a janela. A disciplina determina sua vida no esconderijo. Um breve olhar lá fora. Nesta manhã de sexta-feira há muito pouca visibilidade. Com certeza, vai ser um esplêndido dia quente de alto verão. Se ela mais uma vez... apenas por alguns momentos... porém, paciência, logo se chega lá... o atentado contra Hitler há cerca de duas semanas deu enfim esperanças de novo a todos... provavelmente, no outono ela poderá ir de novo para a escola... seu pai e o Sr. van Pels têm certeza de que em outubro tudo terá passado... de que então estarão livres... de fato, hoje já é 4 de agosto de 1944.

Eles têm 45 minutos para se preparar para o novo dia. Quarenta e cinco minutos passam num abrir e fechar de olhos até que oito pessoas deixem para trás seu asseio matinal, arrumem a roupa de cama, empurrem a cama para o lado, ponham em ordem mesa e cadeiras. Quando começar a atividade no armazém abaixo deles, às oito e meia, nenhum barulho mais poderá chegar de cima. Com que facilidade eles mesmos poderiam se denunciar. Além disso, o gerente do armazém, van Maaren, já está muito desconfiado.

Antes do pequeno café da manhã, às nove, cada um cuida de si. Se possível, sem fazer barulho. Essa meia hora pela manhã é especialmente crítica. Eles lêem, estudam, ou costuram — e aguardam. Se um deles tiver de se levantar, andará devagar como um ladrão pelo quarto, usando meias ou chinelos macios. Falar só é permitido em tom de sussurro. Quem der uma risada alta ou gritar com uma dor repentina, merecerá os olhares repreensivos dos outros. Então, quando enfim chegam os funcionários do escritório, depois dos trabalhadores do armazém, e o matraquear de máquinas de escrever, o toque do telefone e as vozes de Miep Gies, Bep Voskuijl e Johannes Kleiman — todos eles amigos e colaboradores dos clandestinos — se tornam bastidores de barulho, então o perigo é abafado um pouco.

Por fim, Miep chega para pegar a lista de compras. Lista de compras? Em todo caso, Miep tem de aceitar o que receber. E recebe menos de dia para dia. Ela sabe, porém, com que ansiedade os habitantes dos fundos da casa esperam por ela. Anne importuna Miep com todo tipo de perguntas, como em todas as manhãs. Miep lhe dá esperanças para a tarde, como em todas as manhãs. Só depois de dar a palavra de honra de que terá tempo para uma hora de minuciosa conversa, é que Anne a despacha para o escritório. Otto Frank se retira com Peter van Pels para o minúsculo quarto do andar de cima. Hoje o inglês está em pauta, um ditado. Sozinho, Peter não progride com o enfadonho idioma estrangeiro. De modo que Otto lhe dedica a manhã. Assim, pelo menos ele não demora tanto. Enquanto isso, Margot e Anne se concentram em seus livros, um andar abaixo. Exercitar-se na paciência e na disciplina foi o que a levada Anne aprendeu nos últimos dois anos.

Bem lá embaixo no armazém está funcionando o moedor de condimentos. Seu matraquear monótono soa familiar. Willem Gerard van Maaren abriu por completo a porta do armazém, que dá para a Prinsengracht, para deixar entrar a luz e o calor do suave verão de Amsterdã.

Dez e meia. Até a pausa do meio-dia, os dois trabalhadores do armazém ainda têm muito que fazer. De repente, homens desconhecidos, cinco ou mais, estão parados no armazém — entre eles, um de uniforme. Serviço secreto alemão. SD. Os homens estão armados. Algumas palavras são ditas, em seguida o surpreso van Maaren indica com o polegar para cima os aposentos do escritório. Um segundo trabalhador, Lammert Hartog, está parado ao lado, tenso. Seu olhar revela insegurança. Imediatamente, os estranhos se apressam para o primeiro andar em direção às duas salas do escritório, apenas um deles fica para trás, de olho na saída. Ele não repara em Lammert Hartog, que logo na chegada deles havia vestido o paletó e saído de fininho sem retornar. Ou então não quer reparar.

Sem bater na porta, um dos homens, pequeno e notavelmente corpulento, entra no escritório comum de Miep Gies, Bep Voskuijl e Johannes Kleiman. Miep nem levanta os olhos. Não é estranho que alguém chegue no escritório. Quando ela ouve um ríspido "permanecer sentado e nenhuma palavra!", levanta os olhos e olha para o cano de uma arma.

— Não se mexa — ordena o holandês.

Através da porta dupla de dois batentes soam palavras de ordem rudes. O homem do SD e seus três ajudantes, todos holandeses, surpreenderam o chefe da firma, Victor Kugler, em sua escrivaninha na sala ao lado.

— A quem pertence este prédio? — o homem uniformizado se dirige a ele em tom rude, falando alemão.

Kugler pensa ter reconhecido um sotaque austríaco.

— Ao Sr. Piron — responde ele também em alemão. Ele passou a infância e a juventude na Áustria. — Nós só somos inquilinos aqui.

Kugler permanece sentado, rígido, e logo menciona o endereço do holandês a quem pertence o prédio da Prinsengracht 263, desde abril de 1943.

Impaciente, o homem do SD bufa algo como:

— Não desconverse! — seu nome, verifica-se, é Silberbauer. Karl Josef Silberbauer. — Quero saber quem é o chefe aqui.

— Sou eu — replica Kugler.

O que os sujeitos do SD estão procurando? Kugler, um homem tranqüilo e extremamente severo, que por muitas pessoas é visto como intratável, tenta pôr ordem em seus pensamentos. Terão ido buscá-lo? Será que sabem por acaso que... se ao menos eles não forem aos fundos da casa... e se alguém os traiu? Durante dois anos e um mês tudo correu bem. Impossível que justo agora... agora que a ofensiva dos Aliados também começa enfim a tomar o norte da França. Agora que só pode ser uma questão de algumas semanas. Agora que tudo vai ficar bem.

Segundos de auto-sugestão. Então, sua esperança dá lugar à certeza fatal: os homens têm conhecimento. Negar só servirá para piorar tudo.

— Há judeus escondidos em sua casa — as palavras de Silberbauer soam como uma sentença em última instância. Sem saída.

Silberbauer tem pressa, está em serviço. E, para ele, aquilo ali é rotina. Ele ordena que Kugler vá na frente.

Kugler obedece. Que outra coisa lhe resta? Os homens o seguem com armas na mão. Os olhos azuis e duros de Kugler brilham — mais do que de costume — como uma parede impenetrável. No entanto, a postura particular de seu corpo, correta ao extremo e sempre parecendo controlada, ilude: a sensação de impotência paralisa seus pensamentos. Em sua cabeça: nada, apenas ramas de algodão infladas como nuvens negras. Aquilo que lhe é familiar em seu ambiente desaparece com a falta de clareza. Os últimos minutos antes de uma tormenta, abafados, sufocantes, ameaçadores. Perguntas torturantes o assaltam: Quem traiu seus protegidos? Um vizinho? Um trabalhador? Por que justamente hoje?

Ele percorre, com aparente indiferença, o corredor que liga a parte da frente da casa aos fundos. Sobe degrau por degrau a estreita escada que em cima se enrosca para a direita numa escada em caracol. Os desconhecidos seguem logo atrás dele. Silberbauer ainda não se acostumou com as escadas inclinadas e perigosas de Amsterdã. Catorze, quinze, dezesseis. Agora, eles se encontram num vestíbulo que o papel de parede com flores enormes em bege e vermelho faz parecer mais apertado. Atrás deles, a porta de ligação com o depósito de condimentos; bem diante deles uma estante de livros da altura de um homem, com três gavetas cheias de pastas cinzentas e surradas. Em cima da estante está pendurado um mapa grande, desses que são vistos em repartições e escolas. Bélgica na escala de 1:500.000.

Abrir! Claro que eles estão informados. Um empurrão. Como um portão pesado, a estante de livros é afastada da parede. Atrás dela.

— quase meio metro acima do chão — aparece uma porta branca cuja extremidade superior desaparece atrás de uma parede fina e do mapa. O canto superior do marco da porta está acolchoado com um pano cheio de serragem. Do contrário, as pessoas podiam bater a cabeça.

Será que os Frank já escutaram os passos barulhentos, as vozes desconhecidas? À hesitação de Victor Kugler, os sujeitos do SD reagem com mais insistência. Postura! Bem na frente deles, uma outra escada, larga o suficiente para uma pessoa, leva ao andar de cima dos fundos da casa. Kugler passa pelo estreito corredor à esquerda e abre a porta de ligação.

A primeira pessoa que Kugler vê é Edith Frank, a mãe de Anne, que está sentada à mesa.

— Gestapo — ele ouve a própria voz sussurrar.

Não saem outras palavras de seus lábios secos. Ela vai entrar em pânico, ele receia. No entanto, Edith permanece sentada, como que paralisada. Ela olha de longe para Kugler e os desconhecidos. Indiferente.

— Mãos ao alto — ordena-lhe um dos holandeses com a arma apontada.

Num gesto mecânico, ela levanta os braços. Um outro conduz Anne e sua irmã Margot para fora do quarto contíguo. Elas são obrigadas a se colocar ao lado da mãe, com as mãos sobre a cabeça.

Nesse meio tempo, dois policiais holandeses correram para o andar de cima.

— Mãos ao alto! — enquanto um deles mantém em xeque com a pistola o Sr. e a Sra. van Pels, o outro invade a pequena câmara ao lado. — Mãos ao alto!

Como se fossem dois criminosos que pudessem lutar pela liberdade, ele revista Otto Frank e Peter van Pels à procura de armas. Em seguida, ele os conduz para fora, onde estão os pais de Peter, em silêncio, as mãos sobre a cabeça, o olhar perdido no vazio.

— Você pode descer. Rápido.

O último a aparecer é Fritz Pfeffer, com uma arma nas costas.

Os sujeitos do SD parecem satisfeitos. Oito judeus num só golpe. Uma boa manhã.

— Onde está o dinheiro de vocês? Onde estão as coisas de valor? — Silberbauer pergunta em tom de ordem ameaçador. Rápido, rápido, não se pode perder tempo. Os oito prisioneiros parecem incrivelmente serenos. Só nas faces de Margot correm lágrimas. Em silêncio.

Otto Frank sente que nesse momento eles têm de mostrar que estão colaborando. Então, tudo vai ficar bem. Os próprios alemães estão com medo. Aliás, eles também sabem que a ofensiva dos Aliados... que só pode ser uma questão de semanas. Otto aponta para o armário afundado na parede, no qual guarda as coisas de valor da família. Silberbauer ordena a seus ajudantes que façam uma revista no resto dos aposentos da casa dos fundos em busca de jóias e dinheiro, e também no sótão. Ele próprio vai pegar o volumoso cofre dos Frank no armário. Seu olhar percorre o quarto. Agora, ele encontrou o que precisa. A pasta de documentos de couro de Otto. Na verdade, a pasta de Anne; pois Otto cedeu-a para a filha como lugar seguro para seus documentos pessoais. Silberbauer abre a pasta, a vira de cabeça para baixo e, sem nenhum cuidado, deixa que os diários, os cadernos e as folhas soltas caiam no chão. "... meu diário não, meu diário só junto comigo!", Anne anotara quatro meses antes. Agora, ela não demonstra qualquer reação.

Silberbauer, a quem irrita a aparente falta de surpresa de sua prisioneira, deixa o conteúdo do cofre cair na pasta e grita:

— Vamos, preparem-se! Depressa! Em cinco minutos quero que todos tenham partido!

Como num transe, os prisioneiros pegam suas bolsas de fuga, no quarto ao lado. Mochilas que estão prontas e penduradas há dois anos, preparadas para o caso de começar um incêndio, e eles tivessem de abandonar os fundos da casa. Eles fingem que não vêem a grande desordem que acabaram de fazer os nazistas holandeses em sua busca.

Silberbauer, segundo-sargento da SS, não pode ficar parado. Com suas botas pesadas, anda de um lado para outro no quarto estreito. De um lado para outro. Isto tem um efeito intimidador, disseram a ele. Também ajuda a passar o tempo até a partida. Ele tem 33 anos de idade, o cabelo louro-cinza cortado à maneira militar sobre as enormes orelhas carnudas, os lábios claros e finos, os olhos apertados em fendas. Um sujeito do tipo faz-tudo, obediente, que ouve a autoridade. Seu uniforme lhe dá força, dá para ver. Agora, faz parte dos mais fortes, pensa ele. Não pensa muito mais coisas. Ele cumpre ordens. Evacuar os fundos da casa é uma ordem bem corriqueira. Em 1939, o policial formado se alistou nas SS; em outubro de 1943, foi transferido de sua cidade natal, Viena, para o posto externo em Amsterdã, seção IV B4 da Gestapo, o chamado relatório judeu da central da Segurança do Reich em Berlim, que está encarregada da eficiente "solução da questão judaica" e é subordinada a Adolf Eichmann. Enquanto isso, a mulher de Silberbauer vive em Viena.

De repente, ele estanca e olha fixo para a enorme caixa cinzenta que está no chão entre a cama de Edith Frank e a janela.

— A quem pertence essa arca? — Silberbauer quer saber.

— A mim — responde Otto, dizendo a verdade. "Tenente d. Res. Otto Frank" está escrito em letras bem legíveis na tampa da caixa guarnecida com ferro. — Fui oficial na Primeira Guerra Mundial.

— Mas... — é evidente que Karl Silberbauer se sente incomodado. Aquela caixa não tem de estar ali. Ela perturba a rotina dele. — Mas então por que você não se apresentou?

Otto Frank é seu superior na hierarquia militar. Frank, um judeu.

— Você teria ido para Theresienstadt — ele acentua como se o campo de concentração de Theresienstadt fosse uma estação de águas para quem precisasse de cura.

Intranqüilo, o homem das SS olha pelo quarto, evita o contato de olho com Otto Frank, que está tranqüilo. Ao contrário dos outros, ele não quer mais fazer as malas.

— Há quanto tempo está escondido aqui?

— Dois anos — responde Otto Frank — e um mês.

Quando vê o incrédulo sacudir de cabeça de Silberbauer, aponta para a parede ao lado da porta do quarto de Anne. Finos traços de lápis marcam no papel de parede o quanto Anne e Margot cresceram desde 6 de julho de 1942. O olhar de Silberbauer fica parado num pequeno mapa da Normandia pendurado bem à direita dos traços, no qual Otto assinalou o avanço dos Aliados. Numerosos alfinetes com cabeças coloridas em vermelho, laranja e azul, que Edith deu de presente de sua caixa de costura, marcam os sucessos dos Aliados.

Silberbauer esforçou-se para dizer num pigarro:

— Pode ir com calma.

Está desconcertado? Está perplexo? Enquanto dois de seus ajudantes vigiam os prisioneiros, ele prefere ir ver o que está acontecendo lá embaixo.

Entra no escritório comum através do escritório menor do chefe, no qual Victor Kugler havia trabalhado e onde agora seu colega Johannes Kleiman está sendo interrogado, e através do corredor sem janelas. Pelas janelas quase da altura do aposento, se vêem raios de sol dançando nas águas do canal, como pequenas estrelas cadentes.

— E então — Miep Gies, que ficou sozinha no escritório, ouve Silberbauer dizer em alemão. Ela conseguiu passar furtivamente, sem ser notada, os cartões de alimentos para seu marido Jan. Kleiman mandou Bep Voskuijl, a colega de escritório de Miep que chorava tanto que não enxergava mais nada através dos óculos, procurar sua mulher, levando a carteira de dinheiro. Miep também poderia ter ido embora, mas quis ficar.

— Agora é sua vez — ameaça Silberbauer. Seu dialeto de Viena soa familiar. Ela mesma nasceu em Viena e viveu naquela cidade até completar o décimo primeiro aniversário.

— Eu também sou de Viena — responde ela com voz firme.

Uma compatriota, com isto o nazista não contava. Mas era só não sair da rotina. Documentos. Perguntas-padrão. Silberbauer está pressionado.

— Não tem vergonha de ajudar esse bando de judeus, sua traidora? — ele berra como se as palavras agressivas pudessem devolver-lhe o moral que está ameaçado de perder. Na prática, desde o desembarque dos Aliados em 6 de junho, as ações contra os judeus foram suspensas. O Serviço de Inteligência tem agora outras preocupações; precisa preparar-se para a defesa da Holanda. Nesta manhã, a repartição de Silberbauer abriu uma exceção — a deixa que o holandês dera pelo telefone não podia ficar sem resposta. Portanto, Silberbauer foi despachado. A coisa foi dita de maneira simples. Ir lá. Prender oito judeus. Estava claro que eles não tinham qualquer possibilidade de fuga. E agora todas essas complicações. Se ele soubesse disso...

Miep junta toda sua força e olha dentro dos olhos de Silberbauer. Por fim, ele se acalma, murmura algo sobre simpatia pessoal, diz que não sabe o que deve fazer com ela e deixa o cômodo com a ameaça de que vai voltar amanhã para examiná-la. Ele quer deixar aquilo para trás, sair daquela casa opressiva.

O caminhão pedido pelo telefone, um furgão sem janelas laterais, enfim chega. Bem vigiados pelos policiais nazistas, os oito traídos e Victor Kugler descem a escada dos fundos da casa, passos hesitantes, um após outro, passando no corredor pelos escritórios, mais uma escada inclinada, depois chegam ao ar livre. A primeira vez desde dois anos e um mês. De novo na rua. A luz do sol os cega. Dentro do carro está escuro de novo.

Miep fica na casa com o gerente do armazém, van Maaren. Johannes Kleiman, tal como Kugler, foi transportado com os clandestinos. Está sentada diante da escrivaninha, desconsolada, esgotada e vazia. Poderia sair, mas continua na casa. Há alguma maneira de ajudar seus amigos? Ainda há alguma salvação? Os policiais vão retornar?

Passam-se minutos, ou horas, ela não sabe. Depois enfim chega seu marido Jan para vê-la. No final, sua colega Bep também retorna.

Junto com van Maaren, eles ousam ir aos fundos da casa. Silberbauer trancou a porta atrás da estante de livros e levou a chave. No entanto, Miep possui uma segunda chave. Ficam horrorizados diante do caos que a polícia deixou. Sem escrúpulos, eles arrancaram tudo dos armários, desarrumaram camas. O chão do quarto dos Frank está coberto com cadernos e folhas soltas. No meio de tudo, um livrinho quadriculado que parece um álbum de poesia. As anotações no diário de Anne! Rapidamente, Miep recolhe os papéis. Bep a ajuda. As duas pegam dois livros da biblioteca, que haviam tomado emprestado para Anne e Margot. Ali, a mala da máquina de escrever de Otto. O robe leve de Anne. Não encontram coisas valiosas que tivessem de guardar para os presos. Os policiais já roubaram.

Ficou tarde. Lá fora, o sol continua brilhando, mergulhando fachada e aposentos internos da Prinsengracht 263 na clara luz da tarde, naquela coloração amarelo dourada que se conhece dos quadros de Vermeer. Miep empilha os diários de Anne e as muitas folhas soltas, sem ler uma palavras deles sequer. Na ausência de Bep, arruma tudo na gaveta de sua escrivaninha. Deve trancá-la? Não, isso só serviria para despertar a curiosidade daqueles que a sacudissem. Ela quer devolver logo as anotações para Anne, quando ela retornar da guerra.


O Livro de Ouro da Mitologia — Histórias de Deuses e Heróis
Autor: Thomas Bulfinch

O Livro de Ouro da Mitologia — Histórias de Deuses e Heróis, de Thomas Bulfinch, é considerado o melhor livro de referência e divulgação da mitologia, indicado em universidades de todo o mundo; corresponde ao volume A Idade da Fábula. Sua versão para as histórias de deuses e heróis ficou conhecida como A Mitologia Bulfinch.

A guerra de Tróia, Hércules, Minerva, Midas, as divindades rurais, a mitologia oriental e nórdica, os druidas são alguns dos temas tratados nos 42 capítulos da obra.


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