C
LEÓPATRA
é geralmente lembrada como uma mulher fatal egípcia, uma sedutora libertina
que se matou por amor ao general romano Marco
Antônio. Há pouca verdade nisso. Embora Cleópatra fosse
rainha daquele antigo reino, não corria nas suas veias uma
só gota de sangue egípcio. Ela era grega da Macedônia; sua
capital egípcia, Alexandria, era uma cidade grega, e o
idioma da sua corte era o grego. Sua dinastia fora fundada
por Ptolomeu, general macedônio de Alexandre, o Grande, que
depois da morte deste se fizera rei do Egito.
Quanto à sua devassidão, não há o menor
indício de ligações amorosas de Cleópatra, a
não ser com Júlio César e, três anos depois
da morte de César, com Marco Antônio. E estas não foram
ligações ao acaso e sim uniões públicas, aprovadas pelos
sacerdotes de então e reconhecidas no Egito como casamentos.
É absurda a versão de que ela era uma mulher sensual, que
usou de todos os ardis para seduzir esses homens. Júlio
César, uns 30 anos mais velho do que ela, já tivera quatro
esposas e inúmeras amantes. Seus soldados o chamavam de
"adúltero careca" e cantavam um dístico
advertindo os maridos que mantivessem as mulheres fechadas à
chave quando ele andasse por perto. Marco Antônio, 14 anos
mais velho do que a jovem rainha, era também um conquistador
conhecido. E, no fim, não foi por amor a ele que Cleópatra
se matou, e sim pelo desejo de escapar à degradação nas
mãos de outro conquistador.
Mas a lenda persiste há mais de 2000 anos, principalmente porque poetas e
dramaturgos, inclusive Shakespeare, têm dado maior ênfase
aos encantos físicos e às paixões do que à inteligência
e à coragem dessa rainha. Seus feitos, porém, revelam que
ela foi uma mulher brilhante, engenhosa, que passou a vida
lutando para impedir que seu país fosse aniquilado pelos romanos.
Nascida em 68 ou 69 A.C., Cleópatra
cresceu entre as intrigas e as violências
palacianas. Seu pai, Ptolomeu XIII, era um bêbado, um
devasso cujo divertimento era tocar flauta. Morreu quando
Cleópatra tinha 18 anos, e ela então se tornou rainha,
governando juntamente com seu irmão de dez anos, Ptolomeu
XIV. Dois anos depois, o jovem Ptolomeu, dominado por um trio
de intrigantes palacianos, obrigou Cleópatra a exilar-se na
Síria. Mostrando desde então a bravura que caracterizou sua
vida, ela imediatamente organizou um exército e teve início
a marcha através do deserto para lutar por seu trono.
Foi essa a Cleópatra que César conheceu no outono de 48 A.C. Ele fora ao Egito em
perseguição ao general romano Pompeu, seu adversário numa
luta pelo domínio político, gênero de contenda que
manteria Roma convulsionada durante quase um século.
Qual o aspecto físico de Cleópatra? As únicas
indicações são algumas moedas
cunhadas com o seu perfil e um busto desenterrado de ruínas
romanas cerca de 1800 anos depois da sua morte. Mostram um
nariz aquilino, boca bem traçada, com lábios finamente
cinzelados. Vários historiadores antigos escreveram sobre
sua "beleza arrebatadora", mas não foram homens
que a tivessem visto pessoalmente. A descrição mais precisa
parece ser a de Plutarco, cujo avô ouviu falar em Cleópatra
por um médico conhecido de uma das cozinheiras da rainha.
Plutarco escreveu que na realidade a sua beleza "não
era propriamente tão extraordinária que ninguém pudesse
comparar-se a ela".
Todos os escritores antigos
concordavam, porém, em reconhecer a sua conversa
"fascinante", a sua bonita voz, "a habilidade
e a sutileza de sua linguagem". Ela falava seis idiomas,
conhecia bem a história, a literatura e a filosofia gregas,
era uma negociadora astuta e, ao que parece, uma estrategista
militar de primeira ordem. Tinha também uma grande
habilidade para cercar-se de uma atmosfera teatral. Quando
intimada por César a deixar suas tropas e a comparecer ao
palácio que ele conquistara em Alexandria, Cleópatra
introduziu-se na cidade ao escurecer, fez-se amarrar num rolo
de roupas de cama, e assim escondida foi carregada nas costas
de um servo através dos portões e até aos aposentos de César.
Quer o estratagema se
destinasse a evitar os assassinos a soldo do irmão, quer se
destinasse a impressionar César, o fato é que a sua entrada
na cidade foi uma das mais sensacionais de todos os tempos.
Sua coragem e seu encanto concorreram para convencer César
de que seria de boa política restituir-lhe o trono. E, pouco
tempo depois desse primeiro encontro, ela estava grávida.
Talvez para impressionar César com a
riqueza do Egito, Cleópatra organizou na primavera seguinte uma expedição
para subir o Nilo. Durante semanas, ela e César navegaram pelo rio num luxuoso
barco-residência, acompanhados por 400 embarcações levando
tropas e provisões. Em junho, Cleópatra deu à luz um
filho, Cesarion ou Pequeno César, em grego. O
recém-nascido, filho único de Júlio César, parece ter
sido a origem de um plano ambicioso de César e Cleópatra
para fundirem Roma e o Egito num vasto império sob o
domínio deles e dos de sua estirpe. Logo depois do
nascimento do menino, César partiu de Alexandria e começou
operações militares na Ásia Menor e na África do Norte,
eliminando todos os focos de oposição restantes. Um ano
depois, voltava triunfalmente a Roma, como ditador
incontestado. Cleópatra já estava lá com Cesarion,
instalada por César numa vila imponente.
Como rainha, com uma corte real, Cleópatra começou a exercer
influência na vida romana. Levou de Alexandria cunhadores de moedas para
melhorarem a cunhagem romana, especialistas em finanças para
organizarem o programa tributário de César. Seus
astrônomos reformaram o calendário romano, criando o
calendário no qual se baseia o nosso atual sistema. César
mandou colocar uma estátua de Cleópatra num novo templo
construído em honra de Vênus, e emitiu uma moeda em que
Vênus e Eros se identificavam com a figura de Cleópatra
carregando Cesarion nos braços. Seu poder parecia absoluto.
De repente, 20 meses depois de Cleópatra chegar a Roma,
Júlio César foi assassinado.
Ninguém sabe se Cleópatra
foi tomada de desespero. Ao cabo de um mês, voltou para o
Egito. Os historiadores não dispõem de dados sobre os três
anos seguintes de seu reinado. Só se sabe que, na luta pelo
poder, que mergulhou Roma numa guerra civil, os contendores
procuravam seu auxílio. Ao que parece, sua política foi de
cautelosa espera, para ver quem se tornaria o sucessor de César.
Quando Marco Antônio surgiu como
homem forte do Oriente, pediu a Cleópatra que
fosse ao seu encontro em Tarso. Durante algum tempo ela não
tomou conhecimento do convite; depois, levantou vela com uma
frota magnífica, levando ouro, escravos, cavalos e jóias.
Em Tarso, em vez de ir à terra como suplicante, Cleópatra
esperou calmamente, ancorada ao largo. Depois de haver
manobrado habilmente para que Marco Antônio se tornasse seu
convidado, ela o confrontou com um espetáculo ofuscante: os
remos da galera, com pontas de prata, marcando o compasso da
música das flautas e harpas, as cordas manobradas por belos
escravos vestidos como ninfas e graças, enquanto outros
espargiam o incenso de perfumes exóticos. Reclinada sob um
toldo de ouro, Cleópatra se apresentava como Vênus, abanada
por meninos que pareciam cupidos.
Ao terminar o banquete, Cleópatra deu de presente a Marco Antônio o prato de ouro,
as formosas taças, os suntuosos canapés e bordados que
tinham sido utilizados para servi-lo. Na noite seguinte
ofereceu nova festa a Marco Antônio e seus oficiais, e,
quando eles partiram, todos os convidados receberam
idênticos presentes. Seu propósito não era conquistar a
afeição de Marco Antônio, mas impressioná-lo com a
riqueza ilimitada do Egito e, portanto, com as suas
potencialidades como aliado.
Três meses depois, Marco Antônio foi a Alexandria, e
lá passou o inverno. Partiu na
primavera, seis meses antes de Cleópatra dar à luz os seus
filhos gêmeos, e passou quase quatro anos sem tornar a
vê-la. Nesse intervalo, Cleópatra fortaleceu as defesas de
seu país, organizou sua esquadra, acumulou ouro e
provisões. Quando Marco Antônio, na esperança de expandir
seu poder no Oriente, a convidou a ir ao seu encontro na
Síria, ela foi, mas resolvida a impor condições. Conseguiu
obter um acordo pelo qual seriam dadas ao Egito todas as
vastas áreas que haviam sido propriedade dos Faraós 1400
anos antes, mas que eram então províncias romanas. Marco
Antônio concordou também com um casamento legítimo, e,
para comemorar o acontecimento, foram cunhadas moedas com as
efígies dos dois. Nessa ocasião, Cleópatra começou uma
nova etapa de seu reinado.
Então com 33 anos, partiu com Marco Antônio
para fazer guerra aos persas, mas no Eufrates teve de desistir da campanha. Estava novamente
grávida. A criança nasceu no outono, e naquele inverno
chegaram apelos desesperados de Marco Antônio: seu exército
fora destroçado, e os únicos remanescentes das tropas mal
tinham conseguido escapar para a costa da Síria. Com
dinheiro, provisões e armas, Cleópatra foi em seu socorro.
No ano seguinte, 35 A.C.,
ela teve de usar de todo seu engenho para evitar que Marco
Antônio ---
com o
espírito anuviado pela continuidade da bebida
---
tentasse outra invasão da Pérsia.
Compreendendo que o verdadeiro inimigo era Otávio, sobrinho
e herdeiro legítimo de César, que de Roma dominava o
Ocidente, ela insistiu com Marco Antônio para que
concentrasse todos os esforços em derrubá-lo. Em 32 A.C.,
Cleópatra precipitou a guerra com Otávio, persuadindo Marco
Antônio a tomar duas providências: baixar um édito pelo
qual se divorciava de sua outra esposa, Otávia (a bela irmã
de Otávio), e determinar que suas tropas atravessassem o Mar
Egeu e entrassem na Grécia. Cleópatra estava então no
apogeu. Reis vassalos do Oriente Médio prestavam-lhe
homenagem, os atenienses cobriram-na de honrarias, saudando-a
como Afrodite e levantando sua estátua na Acrópole.
De repente, em Actium, na
costa ocidental da Grécia, ao cair da tarde de 2 de setembro
do ano 31 A.C., tudo se desmoronou. Os historiadores nunca
chegaram a um acordo sobre essa batalha decisiva: não se
sabe o motivo por que Marco Antônio, com um exército
superior, deixou que ela se transformasse numa batalha naval;
nem por que, em plena batalha naval, com o resultado ainda
indeciso, Cleópatra levantou vela e partiu a todo pano para
o Egito, com os seus 60 navios de guerra; ou por que Marco
Antônio deixou abandonado seu imenso exército para embarcar
no navio de Cleópatra e partir com ela.
Ao voltar para o Egito, quando se espalhou a notícia do desastre, Cleópatra tentou
fortalecer os laços com os países vizinhos. E começou
também a transferir navios de guerra do Mediterrâneo para o
Mar Vermelho ---
projeto fabuloso, que importava em
arrastar os navios através de muitos quilômetros de deserto.
Quando chegaram as tropas de Otávio e tomaram os
fortes da fronteira do Egito, Cleópatra permaneceu em Alexandria, pronta a negociar com
Otávio, ou a combatê-lo. Mas, à aproximação do exército
invasor, a esquadra e a cavalaria da rainha desertaram e
Marco Antônio suicidou-se. Capturada viva, Cleópatra foi
posta sob guarda e advertida de que, caso se matasse, seus
filhos seriam executados.
Embora Otávio prometesse clemência, Cleópatra presumiu
que seu destino seria semelhante ao de centenas de outros reis cativos, que haviam
sido levados em cortejo pelas ruas de Roma, acorrentados,
para serem depois executados. Audaciosa até o fim, fingiu
abandonar qualquer idéia de suicídio. Obtendo permissão
para visitar o túmulo de Marco Antônio, parece que
conseguiu comunicar-se com partidários fiéis quando a sua
liteira era carregada pelas ruas. Voltou aos seus aposentos,
tomou banho, jantou e mandou que suas servas a vestissem como
Vênus. Sobre o que aconteceu depois só sabemos o seguinte:
oficiais romanos que arrombaram seus aposentos encontraram
Cleópatra morta. Segundo a lenda, a rainha se deixara morder
por uma víbora que lhe fora mandada como contrabando numa cesta de figos.
Quando se comemorou em Roma a conquista do Egito por Otávio,
foi arrastada pelas ruas uma estátua de Cleópatra com uma víbora agarrada a um dos
braços. Os seus três filhos com Marco Antônio
--- Cesarion já fora executado ---
foram
obrigados a marchar na degradante procissão. Foi então que os poetas
romanos, para caírem nas boas graças do vencedor,
começaram a espalhar o mito de uma perversa e libertina
rainha egípcia ---
mito que dura até o dia de hoje.
__________
Bibliografia: Arnaldo Poesia, Estudos Sobre o Egito Antigo - Reedição do Autor, Niterói, 1995.
Imagens: Banco de Dados Starnews 2001.



Interesse Permanente

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estudiosos.

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Imagens Antigas de Cleópatra
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