O Império do Oriente no Século VI
Teodora: retrato de uma
imperatriz

No exercício do poder supremo, o primeiro ato de
Justiniano foi o de dividi-lo com a mulher a quem amava, a famosa
Teodora, cuja singular elevação ao trono não pode ser aplaudida
como o triunfo do merecimento feminino. No reinado de Atanásio,
ficou incumbido de cuidar dos animais selvagens mantidos pela
facção verde em Constantinopla um certo Acácio, natural da ilha de
Chipre, que dessa ocupação tirou o apelido de mestre dos ursos. Com
a sua morte, o honroso ofício foi passado a outro candidato, não
obstante o empenho de sua viúva, a qual já tinha cuidado de arranjar
outro marido e sucessor. Acácio deixara três filhas, Comito, Teodora
e Anastácia, a mais velha das quais não tinha mais do que sete anos
de idade. Em meio a uma festa solene, essas três órfãs desamparadas
foram enviadas pela sua aflita e indignada mãe, vestidas de suplicantes,
ao teatro; a facção verde as recebeu com desdém, a azul, com compaixão,
e tal diferença, que calou fundo no espírito de Teodora, fez-se sentir
subseqüentemente na administração do império.
À medida que cresciam em idade e beleza, as três irmãs devotaram-se
sucessivamente aos prazeres públicos e privados do povo bizantino; Teodora,
após secundar Comito no palco, vestida de escrava, com um mocho sobre a cabeça,
pôde finalmente mostrar seus talentos de maneira independente. Ela não dançava
nem cantava nem tocava flauta; suas habilidades se confinavam à arte da
pantomima; e toda vez que a comediante estufava as bochechas e se queixava, com
voz e gestos ridículos, das pancadas que lhe eram infligidas, o teatro inteiro
de Constantinopla vinha abaixo com risos e aplausos. A beleza de Teodora era
tema do louvor mais lisonjeiro e fonte de refinado deleite. Tinha ela traços
delicados e regulares; sua tez, conquanto um pouco pálida, tingia-se de rubor
natural; a vivacidade dos seus olhos exprimia de imediato todas as sensações;
seus gestos desembaraçados punham-lhe à mostra as graças da figura pequena
porém elegante; e o amor e a adulação cuidavam de proclamar que a pintura e a
poesia eram incapazes de representar a incomparável distinção de suas formas.
Estas se sobressaíam contudo pela facilidade com que se expunham aos públicos e
se prostituíam a desejos licenciosos. Seus encantos venais eram prodigalizados
a uma turba promíscua de cidadãos e forasteiros de toda classe e profissão; o
afortunado amante a quem fora prometida uma noite de gozo era amiúde expulso do
leito dela por um favorito mais forte ou mais rico; quando ela passava pelas
ruas, fugiam-lhe à presença todos que desejavam furtar-se ao escândalo ou à
tentação. O historiador satírico não corou de descrever as cenas de nu que
Teodora exibia sem vergonha no teatro. Após exaurir as artes do prazer sensual,¹
ela resmungava ingratamente contra a parcimônia da Natureza,² mas seus
resmungos, seus prazeres e suas artes têm de ser encobertos pela obscuridade de
uma linguagem culta.
Após governar durante algum tempo o deleite e o desdém da capital, ela se
dignou a acompanhar Ecébolo, um natural de Tiro que obtivera o governo da
Pentápolis africana. Essa união se revelou porém frágil e transitória; Ecébolo
não tardou a rejeitar a dispendiosa ou infiel concubina, a qual se viu reduzida,
em Alexandria, à extrema miséria; e durante o seu laborioso retorno a
Constantinopla, todas as cidades do Oriente admiraram e desfrutaram a bela
cipriota cujo mérito parecia justificar o seu nascimento na ilha de Vênus. O
incerto comércio de Teodora, e precauções das mais detestáveis, preservavam-na
do perigo que ela temia; no entanto, uma vez, e uma somente, ela se tornou mãe.
A criança foi salva e educada na Arábia por seu pai, que lhe revelou, no leito
de morte, ser filho de uma imperatriz. Repleto de esperanças ambiciosas, o
insuspeito jovem correu imediatamente para o palácio de Constantinopla e foi
admitido à presença de sua mãe. Como nunca foi visto, mesmo após a morte de
Teodora, esta faz jus à hedionda acusação de, com tirar-lhe a vida, ter calado
um segredo danoso à sua imperial virtude.
No ponto mais objetivo da trajetória de sua fortuna e reputação, uma visão,
ou de sonho ou de fantasia, murmurava ao ouvido de Teodora a deleitosa promessa
de que ela estava destinada a tornar-se a esposa de um poderoso monarca. Cônscia
da sua iminente grandeza, ela deixou a Paflagônia* e voltou para
Constantinopla; ali, atriz experimentada, assumiu um caráter mais decoroso,
aliviando sua pobreza com a louvável indústria de fiandeira e fingindo viver de
castidade e solidão numa casinha que mais tarde converteria num templo
magnífico. Sua beleza, ajudada pela arte ou pelo acaso, logo atraiu, cativou e
prendeu o patrício Justiniano, que já reinava com poderes absolutos em nome do
tio. Talvez ela tivesse logrado realçar o valor de um dom que prodigalizara com
tanta freqüência aos homens mais insignificantes; talvez tivesse inflamado, a
princípio com adiamentos pudicos e por fim com encantos sensuais, os desejos de
um amante que, por natureza ou devoção, se habituara a longas vigílias e dieta
abstêmia. Após haverem extinguido os primeiros transportes dele, ela continuou
a manter o mesmo ascendente sobre o seu espírito pela virtude mais sólida da
índole e do entendimento.
Justiniano se deleitava em enobrecer e enriquecer o objeto de seus afetos;
pôs-lhe aos pés os tesouros do Oriente; estava decidido, o sobrinho de Justino,
a, talvez por escrúpulos religiosos, conferir à sua concubina o caráter sagrado
e legal de esposa. Mas as leis de Roma proibiam expressamente o casamento de um
senador com qualquer mulher que tivesse sido desonrada por uma origem servil ou
pela profissão teatral; a imperatriz Lupicínia ou Eufêmia, bárbara de maneiras
rústicas mas de impecável virtude, recusou-se a aceitar uma prostituta como
sobrinha, e mesmo Vigilância, a supersticiosa mãe de Justiniano, embora
reconhecesse o tino e beleza de Teodora, tinha sérios receios de que a
leviandade e arrogância daquela ardilosa amante pudessem corromper a piedade e
ventura do seu filho. A inflexível constância de Justiniano removeu tais
obstáculos. Aguardou pacientemente a morte da imperatriz; desprezou as lágrimas
da mãe, que não tardou a sucumbir sob o peso da aflição; e em nome do imperador
Justino fez promulgar uma lei que abolia a rígida jurisprudência da
Antiguidade. Um glorioso arrependimento (palavra do édito) era facultado às
desditosas mulheres que houvessem prostituído suas pessoas no teatro,
sendo-lhes permitido contrair uma união legal com os romanos mais ilustres. A
essa indulgência se seguiram imediatamente as solenes núpcias de Justiniano e
Teodora; a dignidade dela foi-se gradualmente exaltando com a do seu amante;
tão logo Justino investiu o sobrinho na púrpura, o patriarca de Constantinopla
colocou o diadema na cabeça do imperador e da imperatriz do Oriente. Mas as
honras costumeiras que a severidade dos costumes romanos consentira às esposas
dos príncipes não podiam satisfazer nem a ambição de Teodora nem a afeição de
Justiniano. Ele a elevou ao trono como colega igual e independente na soberania
do império, tendo sido imposto um juramento de fidelidade aos governadores das
províncias nos nomes conjuntos de Justiniano e Teodora. O mundo oriental se
prosternou perante o gênio e a fortuna da filha de Acácio. A prostituta que, na
presença de inúmeros espectadores, tinha corrompido o teatro de Constantinopla,
foi adorada como rainha na mesma cidade por graves magistrados, bispos,
ortodoxos, generais vitoriosos e monarcas cativos.
Os que acreditam que à mente feminina seja totalmente depravada pela perda de
castidade darão prontamente ouvidos a todas as invectivas da inveja particular
ou do ressentimento público, que dissimularam as virtudes de Teodora,
exageraram-lhe os vícios e condenaram com rigor os pecados venais ou
voluntários da jovem prostituta. Por uma questão de vergonha ou desprezo, ela
declinava amiúde a homenagem servil da multidão, fugia da luz odiosa da
capital, e passava a maior parte do ano nos palácios e jardins aprazivelmente
situados no litoral da Propôntida e do Bósforo. Suas horas de privacidade eram
devotadas ao grato e prudente cuidado de sua beleza, aos deleites do banho e da
mesa, a ao sono longo da tarde e da manhã. Seus apartamentos íntimos eram
ocupados pelas mulheres e eunucos favoritos, cujos interesses e paixões ela
satisfazia em detrimento da justiça; as personalidades mais ilustres do Estado
se apinhavam numa escura e abafada antecâmara; e quando finalmente, após uma
tediosa espera, eram admitidas a beijar os pés de Teodora, experimentavam,
conforme o humor dela lhe sugerisse, a silenciosa arrogância da imperatriz ou a
caprichosa frivolidade de uma comediante. A avareza com que ela se empenhava em
acumular um imenso tesouro talvez se possa justificar pelo receio de a morte do
marido não deixar nenhuma alternativa entre a ruína e o trono; e o temor, tanto
quanto a ambição, podiam acirrar Teodora contra dois generais que, durante uma
enfermidade do imperador, tinham temerariamente declarado que não estavam
dispostos a concordar com a escolha da capital.
Mas a censura de crueldade, tão incomparável mesmo com os seus vícios mais
brandos, pôs uma mancha indelével mesmo na memória de Teodora. Seus numerosos
espiões observavam e zelosamente relatavam qualquer ação, palavra ou expressão
injuriosa a sua real senhora. Quem quer que acusassem era atirado às prisões
privativas da imperatriz inacessíveis aos inquéritos de justiça; e corria o
boato de que a tortura do cavalete ou do açoite fora aplicada em presença de
uma mulher tirana insensível à voz do rogo ou da piedade. Algumas dessas
vítimas desditosas pereciam em profundos e insalubres calabouços, enquanto as
outras se consentia, após perderem os membros, a razão ou a fortuna, reaparecer
no mundo como monumentos vivos da vingança dela, que habitualmente se estendia
aos filhos daqueles de quem suspeitasse ou a quem lesasse. O senador ou bispo
cuja morte ou exílio Teodora decretava era entregue a um mensageiro de
confiança, e uma ameaça da boca da própria imperatriz lhe apressava a
diligência: “Se falhares na execução de minhas ordens, juro por Aquele que vive
para todo o sempre que tua pele te será arrancada do corpo”.
Se o credo de Teodora não se tivesse inquinado de heresia, sua exemplar
devoção poderia ter-lhe expiado, na opinião dos seus contemporâneos, a soberba,
a avareza e a crueldade; se ela utilizou sua influência para atenuar a fúria
intolerante do imperador, a época atual lhe concederá algum mérito à religião e
verá com bastante indulgência seus erros especulativos. O nome de Teodora
figura com igual distinção em todas as iniciativas piedosas e caritativas de
Justiniano; as instituições mais benevolentes do seu reinado podem ser
atribuídas à simpatia da imperatriz por suas irmã menos afortunadas que haviam
sido seduzidas ou compelidas a dedicar-se ao ramo da prostituição. Um palácio
no lado asiático do Bósforo foi convertido num espaçoso e imponente mosteiro, e
um generoso sustento, garantido a quinhentas mulheres recolhidas das ruas e
bordéis de Constantinopla. Nesse retiro sacro e seguro, elas se devotavam a um
perpétuo confinamento, e o desespero de algumas, que se precipitaram ao mar,
foi calado pela gratidão das penitentes libertadas do pecado e da miséria por
sua generosa benfeitora.
A prudência de Teodora é celebrada pelo próprio Justiniano, cujas leis são
atribuídas aos sábios conselhos de sua idolatrada esposa, por ele recebido como
uma dádiva da Divindade. A coragem dela se demonstrava em meio ao tumulto da
populaça e os terrores da corte. Sua castidade, desde o momento de sua união
com Justiniano, funda-se no silêncio dos seus implacáveis inimigos; e embora a
filha de Acácio pudesse estar farta de amor, merece certo aplauso a firmeza de
um espírito capaz de sacrificar o prazer e o hábito ao senso mais forte do
dever ou do interesse. Os desejos e preces de Teodora jamais conseguiram obter
a benção de um filho legítimo, e ela teve de sepultar uma filha recém-nascida,
único fruto do seu casamento. Malgrado esse desapontamento, seu domínio era
permanente e absoluto; ele preservou, pela astúcia ou pelo mérito, o afeto de
Justiniano, e as aparentes dissensões entre ambos eram sempre fatais aos
cortesãos que as acreditassem sinceras.
Talvez a saúde de Teodora tivesse sido prejudicada pela licenciosidade de sua
juventude; era, contudo, sempre delicada, e seus médicos lhes prescreveram os
banhos termais pitianos. Nessa viagem, acompanharam a imperatriz o prefeito
pretoriano, o tesoureiro-mor, vários condes e patrícios, e um esplendido
séqüito de quatro mil servidores. As estradas reais iam sendo consertadas à
medida que ela se aproximava; construiu-se um palácio para recebê-la; e
enquanto atravessava a Bitínia, Teodora distribuía generosas esmolas às
igrejas, mosteiros e hospitais, para que rogassem aos céus pela restauração de
sua saúde. Por fim, no vigésimo quarto ano de casamento e no vigésimo segundo
de reinado, um câncer a consumiu, e a perda irreparável foi deplorada pelo
marido que, no quarto de uma prostituta de teatro, talvez tivesse escolhido a
mais pura e mais nobre virgem do Oriente.


Teodora (manto marrom) e sua corte
Mosaico, século VI d.C. Igreja de San Vitale, Ravena, Itália

Justiniano (centro) e sua
corte
Mosaico, século VI d.C. Igreja de San Vitale,
Ravena, Itália

¹ Numa ceia memorável,
trinta escravos atendiam à mesa; dez jovens se banqueteavam com Teodora, cuja caridade era
universal.
² Desejava ela um quarto altar onde
pudesse derramar libações ao deus do amor.
* Antigo país da Ásia Menor, ao sul do Ponto Euxino (mar Negro). (N. do T)
__________
Bibliografia: Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano – 1980 Viking Penguin,
Inc. – Tradução de Arnaldo Poesia.
__________
© Arnaldo Poesia, Le Monde de Paris, Quinzaine Littéraire, 1996/2009.
Tous droits de traduction et d’adaptation réservés pour tous pays.

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