A Queda de Constantinopla (1453 d.C)
E a Derrocada Final do Império do Oriente

Maomé II, um enérgico soberano dos turcos otomanos no século
XV, estava destinado a completar a extinção do império do Oriente. Pouco restava
dele além de uma delgada fatia de território na margem européia do Bósforo,
principalmente os subúrbios de Constantinopla; mesmo essa cidade diminuía tanto,
em tamanho e espírito público, que Franza, camarista da corte e secretário do
último imperador, Constantino Paleólogo, só conseguiu, por meio de um censo
diligente, quatro mil, novecentos e setenta cidadãos dispostos e aptos a pegar em
armas pela defesa da cidade. Contando as tropas auxiliares estrangeiras, uma
guarnição de talvez sete ou oito mil soldados defendia os muros de Constantinopla
em seu último cerco por aproximadamente duzentos e cinqüenta mil muçulmanos. A
descrição desse cerco é uma das passagens mais memoráveis de Edward Gibbon.

Do triângulo formado por Constantinopla, os dois lados ao longo
do mar se tornaram inacessíveis ao inimigo — o mar de Mármara por natureza e a
baía por astúcia. Entre as duas águas, a base do triângulo, a terra, estava
protegida por uma dupla muralha e um fosso de quase cem metros de profundidade.
Contra essa linha de fortificação, que se prolongava por dez quilômetros, os
otomanos dirigiram seu principal ataque; e o imperador, após distribuir a
guarnição e o comando dos postos mais perigosos, empreendeu a defesa da muralha
externa. Nos primeiros dias do cerco, os soldados gregos desceram para o fosso
oi fizeram investidas em campo aberto; não tardaram, porém a descobrir que,
proporcionalmente ao seu número, um cristão tinha mais valor do que vinte
turcos; depois dessas preliminares audazes, contentaram-se prudentemente manter
a defesa com suas armas mísseis. A nação era de fato sem fibra, mas o último
Constantino merece o título de herói; seu nobre grupo de voluntários estava
inspirado de valor romano e as tropas auxiliares estrangeiras amparavam a honra
da cavalaria ocidental. As incessantes rajadas de lanças e flechas eram
acompanhadas da fumaça, do ruído e do fogo de seus mosquetes e canhões. Suas
armas de fogo portáteis descarregavam ao mesmo tempo de cinco a dez balas de
chumbo do tamanho de uma noz, e segundo a proximidade das fileiras e a força da
pólvora, várias couraças e corpos eram trespassados pelo mesmo tiro.
Mas as trincheiras dos turcos eram destruídas ou se cobriam de
escombros. A cada dia aumentava a tática dos cristãos, mas seu suprimento
inadequado de pólvora se consumia nas operações cotidianas. O material bélico de
que dispunham não era numeroso nem potente, e se possuíam alguns canhões
pesados, temiam assentá-los na muralha cuja frágil estrutura poderia ser abalada
pela explosão e desabar. O mesmo segredo destrutivo fora revelado aos
muçulmanos, que o empregavam com a superior potência da garra, do despotismo. O
grande canhão de Maomé chamara a atenção por si só, peça importante e visível na
história da época, todavia, esse engenho enorme era flanqueado por dois
companheiros de quase igual tamanho. A longa linha da artilharia turca estava
apontada contra as muralhas; quatorze baterias estrondavam ao mesmo tempo nos
lugares mais acessíveis; e de uma delas diz-se ambiguamente que se compunha de
cento e trinta canhões ou que descarregava cento e trinta balas. Entretanto, no
poderio e na atividade do sultão podemos enxergar o começo de uma nova ciência.
Sob o comando de um oficial que contava os instantes; o grande canhão podia ser
carregado e disparado não mais do que sete vezes por dia. O metal aquecido
infelizmente estourou; vários artífices morreram na explosão, e suscitou
admiração a perícia de um deles que teve a idéia de evitar o perigo e o acidente
derramando óleo, depois de cada tiro, dentro da boca do canhão.
Os primeiros disparos ao acaso fizeram mais barulho do que
efeito; e foi por recomendação de um cristão que os técnicos aprenderam a visar
os dois lados opostos dos ângulos salientes de um bastão. Ainda que imperfeito,
a intensidade e a repetição do fogo de artilharia causou certa impressão nas
muralhas, e os turcos, levando suas barricadas até a beira do fosso, tentaram
franquear a enorme brecha e abrir caminho para o assalto. Empilhavam inúmeros
galhos, barris e troncos de árvores, e foi tal a impetuosidade da turba que os
mais fracos e os da frente tombaram de ponta-cabeça fosso abaixo, sepultados
imediatamente sob a massa amontoada. Encher o fosso era o empenho dos sitiantes,
retirar o entulho, a segurança dos sitiados, ao fim de uma longa e sanguinária
batalha, a teia tecida de dia se desenredou à noite. O recurso seguinte de que
lançou mão Maomé foram as galerias subterrâneas; mas o solo era rochoso e cada
tentativa era interrompida e solapada pelos técnicos cristãos; ainda não tinha
sido inventada a arte de encher tais passagens de pólvora para lançar pelos ares
torres e cidades inteiras.
Uma circunstância que distingue o sítio de Constantinopla é a
reunião da artilharia antiga com a moderna. O canhão se misturava a engenhos
mecânicos que lançavam pedras e dardos; tanto a bala quanto o aríete se voltava
contra as mesmas muralhas; tampouco havia a descoberta da pólvora eliminado o
uso do fogo líquido e inextinguível. Um torreão de madeira de tamanho
considerável avançava sobre rolos; esse depósito portátil de munição e
barricadas tinha a protegê-lo uma tríplice couraça de couro de boi; incessantes
rajadas eram disparadas com segurança das suas flecheiras; na parte fronteira,
três portas possibilitavam entrada e retirada alternadas de soldados e
artífices. Eles subiam por uma escada até a plataforma superior, a cuja altura
outra escada de assalto podia ser içada com polias a fim de formar uma ponte que
se agarrava ao muro inimigo.
Por meio desses estratagemas incomodativos, alguns tão novos
quão perigosos para os gregos, a torre de São Romano foi por fim derrubada; após
luta acirrada, os sitiados repeliram os turcos e a noite veio interrompê-los;
confiavam eles porém que, à luz do dia, pudessem renovar o ataque com maior
vigor e sucesso decisivo. Cada momento nessa pausa na ação, desse intervalo de
esperança, foi aproveitado pela atividade do imperador e de Justiniano os quais
passaram a noite no local aproveitando, foi aproveitado pela atividade do
imperador e de Justiniano os quais passaram a noite no local aproveitando os
trabalhos de que dependia a segurança da igreja e da cidade. Ao raiar do dia, o
sultão impaciente percebeu com surpresa e pesar que seu torreão de madeira havia
sido reduzido a cinzas, o fosso fora limpo e restaurado, e a torre de São Romano
estava novamente inteira e firme. Deplorou ele o malogro do seu intento e soltou
uma exclamação profana, de que a palavra dos trinta e sete mil profetas não o
teriam convencido a acreditar que, com tão pouco tempo, uma obra que tal pudesse
ter sido levada a cabo pelos infiéis.
A generosidade dos princípios cristãos era pouca e tardia;
entretanto, aos primeiros receios de um cerco, Constantinopla havia adquirido,
nas ilhas do Arquipélago, na Moréia e na Sicília, os suprimentos mais
necessários. Já no começo de abril cinco grandes barcos equipados para o
comércio e a guerra teriam partido da baía de Quios se o vento não soprasse
obstinadamente do norte. Um desses barcos trazia a bandeira imperial; os outros
quatro pertenciam a genoveses e estavam carregados de trigo e cevada, de vinho,
óleo e legumes e, acima de tudo, de soldados e marinheiros para o serviço
militar da capital. Após uma tediosa espera, uma brisa suave, e no segundo dia,
um vento norte vindo do sul os levou através do Helesponto e da Propôntida;
contudo, a cidade já fora assediada por mar e por terra, e a frota turca, na
entrada do Bósforo, se alinhava de praia a praia em forma de crescente a fim de
interceptar, ou pelo menos repelir, essas audazes tropas auxiliares.
O leitor que tenha presente no espírito a situação geográfica de
Constantinopla poderá conceber e admirar a grandeza do espetáculo. Os cinco
barcos cristãos continuavam a avançar com gritos alegres, e todo ímpeto de velas
e remos contra a frota inimiga de trezentas naves: o reparo, o acampamento, as
costas da Europa e da Ásia estavam repletos de espectadores que aguardavam com
ansiedade o desfecho desse momentoso socorro. À primeira vista, parecia não
haver dúvida a respeito; a superioridade dos muçulmanos ultrapassava toda medida
ou cálculo, e numa situação de calma seu maior número e sua bravura teriam
inevitavelmente prevalecido.Entretanto, apressada e imperfeita, sua marinha fora
criada não pelo gênio do povo, mas pela vontade do sultão: no auge de sua
prosperidade, os turcos reconheceram que, se Deus lhes tinha dado a terra,
deixara o mar aos infiéis; uma série de derrotas, um rápido progresso do
declínio comprovou a verdade dessa confissão de modéstia. À exceção de dezoito
galés de algum poder, o restante da frota turca consistia em barcos abertos,
toscamente construídos e desajeitadamente manejados, repletos de tropas e
destituídos de canhões; e como a coragem advém, numa grande medida, da
consciência da força, o mais bravo dos janízaros só podia tremer sobre um novo
elemento.
Na esquadra cristã, quatro robustos e altaneiros barcos eram
governados por pilotos competentes e sua equipagem se compunha de veteranos da
Itália e da Grécia, longamente adestrados nas artes e perigos do mar. Esses
barcos pesados podiam afundar ou dispersar os débeis obstáculos que lhes
impedissem a passagem; sua artilharia varria as águas; seu fogo líquido se
derramava sobre a cabeça dos adversários que, com a pretensão de abordá-los, se
atrevessem a aproximar-se; outrossim, os ventos e as vagas estão sempre a favor
dos navegantes mais hábeis. Nesse conflito, a nave imperial, que quase fora
subjugada, foi socorrida pela genovesa; os turcos, porém, num ataque a distância
e noutro de perto, sofreram perdas consideráveis ao serem duas vezes repelidos.
O próprio Maomé, montado a cavalo, encorajava da praia, com sua voz e presença,
a bravura de seus comandados com a promessa de recompensas e com um temor mais
poderoso que o temor do inimigo. As paixões de sua alma e mesmo os gestos do seu
corpo pareciam imitar as ações dos combatentes; como se fora o senhor da
natureza, esporeou o cavalo num destemido e impotente esforço de entrar mar
adentro. Suas censuras ruidosas e os clamores do acampamento incitaram os
otomanos a um terceiro ataque, mais fatal e sangrento que os dois anteriores; e
cumpre-me repetir, embora não lhe possa dar crédito, o testemunho de Franza, que
afirma terem eles perdido mais de doze mil homens na matança daquele dia.
Fugiram em desordem para as praias da Europa e da Ásia, enquanto o esquadrão dos
cristãos, triunfante e ileso, rumou ao longo do Bósforo para ancorar com
segurança na baía.
Na ousadia da vitória, jactaram-se eles de que todo o poderio
turco tivera de ceder às suas armas; todavia, o almirante, ou capitão-paxá,
consolou-se em parte de um doloroso ferimento no olho apresentando tal acidente
como a causa de sua derrota. Balta Ogli era um regenerado da raça dos príncipes
búlgaros; maculava-lhe o renome militar o vício malquisto da avareza; e sob o
despotismo do príncipe e do povo, o infortúnio é prova suficiente de culpa. Seu
posto e serviços foram abolidos pelo desagravo de Maomé. Na presença real, o
capitão-paxá foi estendido no chão por quatro escravos e recebeu uma centena de
golpes dados com uma vara de ouro; sua morte havia sido decretada, e ele
implorou a clemência do sultão, que se satisfaz com a punição mias branda da
confiscação e do exílio.
A chegada desse suprimento reascendeu as esperanças dos gregos e
pôs à mostra a indiferença de seus aliados ocidentais. Em meio aos desertos da
Anatólia e às rochas da Palestina, os milhões de cruzados haviam sepultado a si
próprios num voluntário e inevitável túmulo; a situação da cidade imperial,
todavia, era tão inacessível aos seus inimigos quanto acessível aos amigos, e o
armamento moderno e racional dos Estados marítimos poderia ter salvado os
remanescentes do nome romano e mantido uma fortaleza cristã no coração do
império otomano. No entanto, esse foi o único e débil esforço em prol da
libertação de Constantinopla; as potências mais distantes eram insensíveis ao
perigo dela; e o embaixador da Hungria, ou pelo menos dos huníadas, residia no
acampamento turco para desfazer os temores e dirigir as operações do sultão.
Era difícil para os gregos penetrar o segredo do divã; estavam
não obstante convencidos de que uma resistência tão obstinada e surpreendente
havia fatigado a perseverança de Maomé. Este começou a pensar numa retirada; o
cerco teria sido prontamente erguido se a ambição e o ciúme de Kahlil Paxá, que
ainda mantinha uma correspondência secreta com a corte bizantina. A conquista da
cidade parecia irrealizável a menos a baía era inacessível; uma impenetrável
cadeia tinha então a defendê-la oito barcos grandes, mais de vinte de menor
tamanho, e diversas galés e corvetas; em vez de forçar essa barreira, os turcos
poderiam conceber uma surtida naval e um segundo encontro em mar aberto.
Nessa hora de perplexidade, o gênio de Maomé ideou e executou um
plano audaz e admirável, de transportar por terra seus barcos mais leves e seus
suprimentos militares, do Bósforo até a parte mais elevada da baía. A distância
é de cerca de quinze quilômetros, o terreno, desigual estava coberto de mato
cerrado, e como a estrada tinha de ser aberta além do subúrbio da Gálata, a
livre passagem ou a total destruição dos turcos iria depender da opção dos
genoveses. Mas esses mercadores interesseiros ambicionavam o privilégio de serem
os últimos devorados, e a deficiência de arte foi suprimida pela força de
miríades obedientes. Cobriu-se uma estrada plana com uma larga plataforma de
tábuas fortes e sólidas, untadas de sebo de carneiro e boi para ficarem macias e
escorregadias. Oitenta galés leves e patachos de cinqüenta e trinta remos foram
desembarcados no litoral do Bósforo, colocados um por um sobre roletes e
arrastados pela força de homens e polés. Dois guias ou pilotos postavam-se ao
leme e na proa de cada barco, as velas foram desferradas ao vento, e o trabalho,
saudado por cantos e aclamações. No decorrer de uma única noite, essa armada
turca galgou penosamente a colina, seguiu pelo platino, e foi pelo declive nas
águas rasas da baía, muito acima da perseguição das naves dos gregos, de maior
calado.
A verdadeira importância dessa operação aumentaram-na a
consternação e confiança que inspirou; contudo, o fato notório, inquestionável,
ficou à vista e foi registrado pelas penas das suas nações. Um estratagema
semelhante havia sido praticado repetidas vezes pelos antigos; as galés otomanas
(é importante repetir) deviam ser consideradas antes como botes grandes; e se
compararmos a magnitude e a distância, os obstáculos e os meios, o gabado
milagre talvez tenha sido igualado pela indústria de nossa própria época. Tão
logo Maomé ocupara a baía superior com uma frota e um exército, construiu ele,
na parte mais estreita, uma ponte, ou melhor, um molhe, de cinqüenta cúbitos de
largura e cem de comprimento; era formada de cascos e barris ligados por
caibros, presos por ferros, e coberta com um soalho firme. Nesse molhe flutuante
assentou um dos seus maiores canhões, do mesmo passo em que oitenta galés, com
tropas e escadas de assalto, se aproximaram do lado mais acessível, o qual havia
sido outrora escalado pelos conquistadores latinos.
A indolência dos cristãos tem sido responsabilizada por não
destruir essas obras inacabadas; seu fogo de artilharia, porém foi dominado e
silenciado por um poder superior; tampouco deixaram eles de, numa sortida
noturna, tentar queimar os navios e a ponte do sultão. A vigilância deste
evitou-lhes o avizinhamento; as suas galeotas de frente foram afundadas ou
apresadas; por ordem do sultão, chacinaram-se desumanamente quarenta jovens, os
mais bravos da Itália e da Grécia; o desgosto do sultão tampouco poderia ter
sido minorado pela justa, conquanto tão cruel retaliação de expor, penduradas às
muralhas, as cabeças de duzentos e cinqüenta cativos muçulmanos.
Após um cerco de quarenta dias, a sina de Constantinopla não
pôde ser mais evitada. A diminuta guarnição estava exaurida por um duplo ataque;
as fortificações, que haviam agüentado por tanto tempo a violência hostil, foram
desmanteladas de todos os lados pelo canhão otomano; abriram-se muitas brechas,
e perto da porta de São Romano quatro torres foram arrasadas. Para pagamento de
suas debilitadas e amotinadas tropas, Constantino se viu obrigado a esbulhar as
igrejas com a promessa de uma quadruplicada devolução, e o seu sacrilégio
propiciou um novo motivo de censura aos inimigos da união. Um espírito de
discórdia debilitou o que restava do vigor cristão; as tropas auxiliares
genovesas e venezianas sustentaram a primazia dos seus respectivos serviços; e
Justiniano e o grão-duque, cuja ambição não se extinguira ante o perigo comum,
acusaram-se mutuamente de traição e covardia.
Durante o cerco de Constantinopla, as palavras “paz” e
“capitulação” haviam sido por vezes pronunciadas, e várias embaixadas
transitaram entre o acampamento e a cidade. O imperador grego fora humilhado
pela adversidade e teria cedido a quaisquer termos compatíveis com a religião e
a realeza. O sultão turco estava desejoso de poupar o sangue de seus soldados, e
ainda mais de resguardar para seu próprio uso os tesouros bizantinos; e cumpriu
um dever sagrado ao apresentar aos gabours a escolha entre circuncisão,
tributo ou morte. A avareza de Maomé poderia ter sido satisfeita com uma soma
anual de cem mil ducados, mas sua ambição se apossou da capital do Oriente; ao
príncipe ofereceu um rico equivalente, ao povo uma livre tolerância ou uma
partida segura; todavia, após algumas negociações infrutíferas, ele anunciou sua
decisão de encontrar ou um trono ou um túmulo sob as muralhas de Constantinopla.
O senso de honra e o temor da censura universal impediram Paleólogo de entregar
a cidade às mãos dos otomanos, pelo que decidiu arrostar os últimos extremos da
guerra.
Vários dias foram gastos pelo sultão nos preparativos do
assalto; deu-lhe uma pausa sua ciência favorita, a astrologia, que fixava o 29
de maio como dia fatal do afortunado. Na tarde de 27, ele deu suas ordens
finais, reuniu em sua presença os chefes militares e enviou seus arautos pelo
acampamento para proclamarem o dever e os motivos da perigosa empresa. O temor é
o primeiro princípio de um governo despótico; as ameaças do sultão foram
expressas no estilo oriental, advertindo os fugitivos e desertores de que, ainda
que tivessem asas de pássaro, jamais conseguiriam escapar-lhe da justiça. A
maior parte de seus paxás e janízaros era constituída de filhos de pais
cristãos, mas as glórias do nome turco se perpetuaram por adoção consecutiva; na
mudança gradual de indivíduos, o espírito de uma legião, de um regimento ou uma
horda se mantém vivo pela disciplina. Nessa guerra santa, os muçulmanos eram
exortados a purificar a mente com preces, o corpo com sete abluções, se abster
de alimento até o fim do dia seguinte. Uma turba de dervixes visitava as tendas
com o fito de instilar o desejo de martírio e a confiança de desfrutar uma
perene juventude entre os rios e jardins do paraíso, nos braços de virgens de
olhos negros. No entanto, Maomé confiava principalmente na eficácia de
recompensas visíveis e materiais. Duplo soldo era prometido às tropas
vitoriosas. “A cidade e os edifícios”, disse Maomé, “são meus; mais renuncio, em
favor de vossa bravura, os cativos e o espólio, os tesouros de ouro e de beleza;
sede ricos e felizes. São muitas as províncias do meu império; o primeiro
soldado que galgar as muralhas de Constantinopla será recompensado com o governo
da mais bela e mais rica; e minha gratidão o cumulará de honras e riquezas acima
da medida de suas próprias esperanças”. Esses diversos e poderosos incitamentos
difundiram entre os turcos generalizado ardor, descuidoso da vida e ávido de
ação; o acampamento ressoava aos gritos muçulmanos de “Deus é Deus; só existe um
Deus, e Maomé é seu apóstolo”, e o mar e a terra, de Gálata até as sete torres,
se iluminava com o clarão de suas fogueiras noturnas.
Bem diversa era a situação dos cristãos, os quais, com brados
de impotência, deploravam a culpa ou a punição de seus pecados. A imagem celeste
da Virgem fora exposta em posição solene, mas a divina protetora deles estava
surda às súplicas. Eles exprobravam a obstinação do imperador em recusar uma
rendição a tempo, anteviam os horrores de sua sina, e suspiravam pela
tranqüilidade e segurança da servidão turca. Os gregos mais nobres e os aliados
mais bravos foram chamados ao palácio para se prepararem, na tarde do vigésimo
oitavo dia, para os encargos e perigos do assalto geral. A derradeira fala de
Paleólogo se constitui na oração fúnebre do império romano; prometeu, exortou e
tentou em vão infundir a esperança que já se lhe extinguira no espírito. Neste
mundo, era tudo desconsolo e desalento, e nem o Evangelho nem a Igreja propunham
qualquer recompensa de vulto aos heróis tombados no serviço de sua pátria. Mas o
exemplo do soberano e o confinamento de um cerco tinham armado aqueles
guerreiros da coragem do desespero; a cena patética é descrita com emoção pelo
historiador Franza, que estava presente à lutuosa assembléia. Eles choraram,
abraçaram-se sem pensar nas suas famílias ou nas suas fortunas, dispuseram-se a
oferecer a própria vida; e cada comandante, rumando para o seu setor, passou a
noite toda em ansiosa vigília na muralha. O imperador, acompanhado de alguns
leais companheiros, entrou na Catedral de Santa Sofia, que em poucas horas se
iria converter numa mesquita, e recebeu devotamente, entre lágrimas e preces, os
sacramentos da comunhão. Repousou por alguns momentos no palácio, onde ecoavam
os gritos e as lamentações; rogou o perdão a todos quantos pudesse ter ofendido;
e partiu a cavalo para visitar os guardas e acompanhar a movimentação do
inimigo. A aflição e a queda do último Constantino se revestem de mais glória do
que a longa prosperidade dos Césares bizantinos.
Na confusão das trevas, um assaltante pode às vezes ter êxito;
mas naquele grande ataque geral, o discernimento militar e a informação
astrológica de Maomé o aconselharam a esperar o amanhecer do memorável dia 29 de
maio, no milésimo quadricentésimo qüinquagésimo terceiro ano da era cristã. A
noite anterior havia sido de afanosa atividade; as tropas, o canhão e as faxinas
avançaram até a beira do fosso, que em muitas partes oferecia livre e lisa
passagem até a brecha; oitenta galés quase tocavam, com suas proas e suas
escadas de assalto, os muros menos defensíveis da baía. Sob pena de morte,
exigiu-se silêncio, mas as leis físicas do movimento e do som não obedecem nem à
disciplina nem ao temor; cada indivíduo pode abafar sua voz e medir seus passos,
mas a marcha e a atividade de milhares deve inevitavelmente produzir uma
estranha confusão de clamores dissonantes, que chegavam aos ouvidos dos vigias
nas torres.
Ao romper do dia, sem o costumeiro sinal do canhão matinal, os
turcos assaltaram a cidade por mar e por terra; o símile de um fio torcido ou
retorcido tem sido usado para figurar a compacidade e continuidade de sua linha
de ataque. As fileiras de vanguarda consistiam refugo de exército, uma turba de
voluntários que combatiam sem ordem nem comando: velhos ou crianças sem força,
campônios e vagabundos, e todos quantos se haviam incorporado ao acampamento na
cega esperança da pilhagem e do martírio. O impulso comum os impeliu até a
muralha; os mais audaciosos no escalá-la foram imediatamente derrubados; os
cristãos não gastaram em vão nenhum dardo, nenhuma bala na turba amontoada. Mas
o vigor e munição deles se exauriram nessa laboriosa defesa; o fosso encheu-se
de cadáveres que serviram de degrau aos companheiros; dessa devotada vanguarda,
a morte se demonstrou mais prestável que a vida. Sob o comando de seus
respectivos paxás e sanjacos, as tropas da Anatólia e da România foram
sucessivamente à carga; seu avanço foi variado e duvidoso, mas após um conflito
de duas horas os gregos ainda mantinham e aumentavam sua vantagem; ouviu-se a
voz do imperador encorajando os soldados a buscarem, num último esforço, a
libertação de seu país.
Nesse momento fatal, os janízaros surgiram, frescos vigorosos e
invencíveis. O próprio sultão, a cavalo, com uma maça de ferro na mão, era o
espectador e juiz da bravura deles; estava cercado por dez mil soldados de suas
tropas nacionais, que reservara para a hora decisiva; sua voz e seus olhos
orientavam e impeliam a vaga da batalha. Seus numerosos ministros de justiça
postavam-se atrás das linhas para incitar, conter e punir; se o perigo estava na
frente de batalha, a vergonha e a morte inevitável aguardavam, na retaguarda, os
fugitivos. Os brados de medo e de dor eram afogados pela música marcial dos
tambores, trombetas e timbales; a experiência demonstrara que a ação mecânica
dos sons, com acelerar a circulação do sangue e dos espíritos, age sobre a
máquina humana mais vigorosamente do que a eloqüência da razão e da honra. Das
linhas, das galeras e da ponte, a artilharia otomana estrondava por toda parte;
e o acampamento e a cidade, e os gregos e turcos, se envolviam numa nuvem de
fumaça que só poderia ser dispersada pela libertação ou destruição final do
império romano. Os combates singulares dos heróis da Antiguidade ou da fábula
entretêm nossa fantasia e aliciam nossos sentimentos; as hábeis manobras de
guerra podem esclarecer a mente e aperfeiçoar uma ciência necessária, conquanto
perniciosa. Mas os quadros invariáveis e odiosos de um assalto geral são só
sangue e horror e confusão; não diligenciarei, a uma distância de três séculos e
de um milhar de quilômetros, delinear uma cena para a qual não pode haver
espectadores e da qual os próprios atores eram incapazes de formar qualquer
idéia justa ou adequada.
A perda imediata da Constantinopla pode ser atribuída à bala ou
seta que perfurou a manopla de João Justiniano. A visão do próprio sangue e a
dor intensa abateram a coragem do chefe cujas armas e conselhos eram a mais
firme muralha da cidade. Quando ele se retirou do seu posto em busca de um
cirurgião, sua fuga foi percebida e interrompida pelo infatigável imperador.
“Teu ferimento”, exclama Paleólogo, “é leve, o perigo premente e tua presença
necessária, para onde queres retirar-te?” “Pela mesma estrada”, respondeu o
trêmulo genovês, “que Deus abriu aos turcos”; e com tais palavras apressou-se em
transpor uma das brechas da muralha interna. Por semelhante ato de
pusilanimidade, inquinou-se ele a reputação de uma vida militar; os poucos dias
que conseguiu sobreviver em Gálata, ou na ilha de Quios, foram amargurados pelas
suas próprias censuras e pelas censuras públicas. A maior parte das tropas
auxiliares lhe imitou o exemplo, e a defesa começou a afrouxar quando o ataque
redobrou de vigor. O número de otomanos era cinqüenta, quiçá cem vezes superior
ao de cristãos; as duplas muralhas foram reduzidas pelo canhão a um monte de
escombros; num circuito de várias milhas, alguns lugares devem por força
apresentar-se menos bem guardados ou de mais fácil acesso; e se os sitiantes
pudessem penetrar por um só ponto, a cidade toda estaria irremediavelmente
perdida.
O primeiro a merecer a recompensa do sultão foi Hassan, o
Janízaro, de estatura e força gigantesca. Com a cimitarra numa das mãos e o
escudo na outra, ele galgou a fortificação externa; dos trinta janízaros que
lhes emularam a bravura, dezoito pereceram na audaciosa aventura. Hassan e seus
doze companheiros tinham alcançado o topo; o gigante foi precipitado muralha
abaixo; ergue-se sobre um joelho e foi novamente atacado com uma rajada de
dardos e pedras. Mas seu êxito provou que a façanha era possível; as muralhas e
torres se cobriam imediatamente de um enxame de turcos; e os gregos, expulsos
então da posição vantajosa, foram sobrepujados por turbas cada vez maiores.
Entre elas, o imperador, que cumpria todos os deveres de um general e de um
soldado, pôde ser visto por longo tempo, até que finalmente sumiu. Os nobres que
pelejavam à sua volta defenderam até o último alento os nomes honrosos de
Paleólogo e Cantacuzeno; fez-se ouvir a dolorida exclamação de Constantino, “Não
haverá um cristão que me corte a cabeça?”, e seu último receio foi o de cair
vivo nas mãos dos infiéis. O discreto desespero do imperador repeliu a púrpura;
em meio ao tumulto, ele caiu vitimado por mão desconhecida, e seu corpo ficou
sepultado sob uma montanha de outros cadáveres.
Após sua morte, a resistência e a ordem deixaram de existir: os
gregos fugiram de volta à cidade, e muitos ficaram comprimidos e sufocaram na
estreita passagem da Porta de São Romano. Os turcos vitoriosos irromperam pelas
brechas da muralha interna, e à medida que iam avançando pelas ruas vinham
engrossar-lhes as fileiras compatriotas seus que haviam forçado a Porta do
Fanar, do lado da baía. No ardor da perseguição de dois mil cristãos foram
passados pela espada; mas a avareza não tardou a prevalecer sobre a crueldade, e
os vencedores reconheceram que teriam imediatamente dado quartel se a bravura do
imperador e de seus grupos de elite não os houvesse preparado para uma oposição
semelhante nas várias partes da capital. Foi assim que, ao cabo de um cerco de
cinqüenta e três dias, Constantinopla, que desafiara o poderio de Cosroés, do
Chagan e dos califas, foi irreparavelmente dominada pelas armas de Maomé II. Seu
império só havia sido subvertido pelos latinos; sua religião foi calcada aos pés
pelos conquistadores muçulmanos.
As novas de infortúnio viajam com asas rápidas; tamanha era, no
entanto, a extensão de Constantinopla que os bairros mais distantes puderam
prolongar por mais alguns momentos a feliz ignorância de sua ruína. Mas na
generalizada consternação, nos sentimentos de ansiedade egoísta ou gregária, no
tumulto e estrondo do assalto, uma noite e manhã insones devem ter decorrido;
não posso crê, tampouco, que muitas damas gregas houvessem sido despertadas
pelos janízaros de um sono profundo e tranqüilo. A certeza da calamidade pública
fez com que as casas e os conventos imediatamente se esvaziassem; os trêmulos
habitantes se apinharam nas ruas, feito um bando de animais assustadiços, como
se a fraqueza acumulada pudesse gerar força, ou na vã esperança de que, no meio
da multidão, cada indivíduo pudesse tornar-se seguro e invisível.
Vindos de todas as partes da capital, eles afluíram para a
Catedral de Santa Sofia; no espaço de uma hora, o santuário, o coro, a nave, as
galerias superior e inferior se encheram de multidões de pais e maridos, de
mulheres e crianças, de padres, monges e virgens religiosas; as portas foram
trancadas por dentro e todos buscaram a proteção do domo sagrado que tão
recentemente haviam execrado como um edifício profano e poluído. A confiança
deles se alicerçava na profecia de um entusiasta ou impostor de que os turcos
entrariam em Constantinopla e perseguiriam os romanos até a coluna de
Constantino, na praça fronteira a Santa Sofia; esse seria, porém, o termo de
suas calamidades, pois um anjo desceria do céu com uma espada na mão e
entregaria o império, com essa arma celeste, a um pobre homem sentado ao pé da
coluna. “Toma essa espada”, diria, “e vinga o povo do Senhor.” A essas palavras
animadoras, os turcos fugiriam instantaneamente e os romanos vitoriosos os
expulsariam do Ocidente e de toda a Anatólia, até as fronteiras da Pérsia. É
nessa ocasião que Ducas, com alguma dose de imaginação e muita de verdade,
censura a discórdia e obstinação dos gregos. “Tivesse tal anjo aparecido”,
exclama o historiador, “tivesse ele se oferecido para exterminar vossos inimigos
se consentísseis na unificação da Igreja, mesmo então, nesse momento fatal,
haveríeis de rejeitar vossa segurança ou enganar vosso Deus.”
Enquanto aguardavam a descida desse anjo moroso, as portas foram
arrebentadas a machado, e como os turcos não encontraram resistência, suas mãos
sem sangue se ocuparam em selecionar e atar a multidão de seus prisioneiros.
Juventude, beleza e aparência de riqueza lhes guiavam a escolha, e o direito de
prosperidade se decidia entre eles pela primazia de apresamento, pela força
pessoal e pela autoridade de comando. No espaço de uma hora, os cativos homens
foram atados com cordas, as mulheres com véus e cintos. Encadearam-se os
senadores a seus escravos, os paralelos aos porteiros da igreja, e os jovens de
classe plebéia a nobres donzelas cujo rosto era até então invisível ao sol e aos
seus parentes mais próximos. No cativeiro comum, confundiam-se as classes
sociais, os vínculos da natureza foram rompidos, a ao soldado inexoravelmente
pouco importavam os gemidos do pai, as lágrimas da mãe e os lamentos dos filhos.
Os gemidos mais altos vinham das freiras, que foram arrancadas do altar com
peitos à mostra, mãos estendidas e cabelos desgrenhados; cumpre-nos piedosamente
acreditar que poucas delas estariam tentadas a preferir as vigílias do harém às
do mosteiro. Longas fieiras desses gregos infortunados, desses animais
domésticos, foram rudemente arrastadas pelas ruas; como os conquistadores
ansiavam por voltar em busca de mais presas, os passos incertos dos cativos eram
apressados com ameaças e golpes.
Na mesma hora, rapina semelhante ocorria em todas as igrejas e
mosteiros, em todos os palácios e habitações da capital; não havia lugar, por
mais sagrado ou apartado que fosse, capaz de proteger as pessoas ou as
propriedades dos gregos. Mais de sessenta mil cidadãos desse povo dedicado foram
levados da cidade para o campo e para a marinha, trocados ou vendidos conforme o
capricho ou interesse de seus donos, e distribuídos, em remota servidão, pelas
províncias do império otomano. Entre eles, podemos assinalar algumas
personalidades notáveis. O historiador Franza, primeiro camarista da corte e seu
principal secretário, viu-se envolvido, com sua família, nisso tudo. Após
padecer durante quatro meses as provações da escravidão, recuperou a liberdade;
no inverno seguinte, arriscou-se a ir até Adrianópolis para resgatar sua mulher
ao mir bashi ou dono da casa; seus dois filhos, porém, na flor da
juventude e da beleza, tinham sido apresados para o uso do próprio Maomé. A
filha de Franza morreu no serralho, talvez virgem; seu filho aos quinze anos de
idade, preferiu a morte à infâmia e foi apunhalado pela mão de seu real amante.
Ato assim desumano não poderá certamente ser expiado pelo discernimento e
liberalidade com que ele libertou uma matrona grega e suas duas filhas ao
receber uma ode latina de Filedelfo, que escolhera esposa naquela nobre família.
O orgulho ou crueldade de Maomé teria sido sumamente obsequiado com a captura de
um anúncio romano, mas a destreza do cardeal Isidoro evitou a busca, e o núncio
fugiu de Gálata em trajes de plebeu.
A ponte pênsil e a entrada da baía externa ainda estavam
ocupadas por navios italianos, mercantes e de guerra. Haviam-se destacado,
durante o cerco, por sua bravura; aproveitaram para a retirada a ocasião em que
marinheiros turcos estavam entregues à pilhagem da cidade. Quando içavam vela, a
praia se cobria de uma multidão suplicante e deplorável; todavia, os meios de
transporte eram escassos; os venezianos e genoveses escolheram seus compatriota,
e não obstante as tranqüilizadoras promessas do sultão, os habitantes de Gálata
evacuaram suas casas e embarcaram com seus pertences de maior valor.
Na queda e saque de grandes cidades, o historiador está
condenado a repetir o relato de invariável calamidade; os mesmos efeitos têm de
ser produzidos pelas mesmas paixões; e quando tais paixões podem ser alimentadas
sem freio, pequena, ai de nós! É a diferença entre o homem civilizado e o
selvagem. Inquinados, por vagas exclamações, de fanatismo e rancor, os turcos
não são acusados de um brutal e imoderado derramamento de sangue cristão;
entretanto, de acordo com suas máximas (as máximas da Antigüidade), a vida dos
vencidos foi confiscada, e a recompensa legítima do conquistador adveio do
serviço, venda ou resgate de seus cativos de ambos os sexos. A riqueza de
Constantinopla fora concedida pelo sultão às suas tropas vitoriosas, e a rapina
de uma hora rende mais do que a labuta de anos. Mas como não se intentou uma
divisão regular do espólio, os respectivos quinhões não foram determinados pelo
mérito; e as recompensas do valor surrupiaram-nas os sequazes do acampamento,
que declinaram a lida e o perigo da batalha. A narrativa de suas depredações não
iria propiciar nem entretenimento nem instrução; a soma total, dada a pobreza
final do império foi avaliada em quatro milhões de ducados; e dessa soma uma
pequena parte era propriedade dos venezianos, dos genoveses e dos mercadores de
Ancona. O cabedal desses estrangeiros aumentara por via da célebre e constante
circulação, mas as riquezas dos gregos se ostentavam na ociosa dissipação de
palácios e guarda-roupas ou estavam escondidas em tesouros de lingotes e moedas
antigas, de modo que lhes fossem tiradas das mãos para defesa do país.
A profanação e a pilhagem dos mosteiros e igrejas suscitaram as
queixas mais trágicas. O domo da própria Santa Sofia, o céu terreno, o segundo
firmamento, o veículo do querubim, o trono da glória de Deus, foi esbulhado das
oblações de séculos; e o ouro e a prata, as pérolas e jóias, os vasos e
ornamentos sacerdotais foram perversamente postos a serviço do homem. Depois de
as imagens divinas terem sido despojadas de tudo quanto pudesse ser valioso a um
olho profano, a tela ou a madeira foi rasgada, ou quebrada, ou queimada, ou
espezinhada, ou utilizada nos estábulos e nas cozinhas pra os fins mais vis. O
exemplo de sacrilégio fora imitado, contudo, dos conquistadores latinos de
Constantinopla, e o tratamento que o Cristo, a Virgem e os santos tiveram de
suportar do católico culposo bem podia ter sido infligido pelo muçulmano
fanático aos monumentos da idolatria.
Talvez, em vez de juntar-se ao clamor púbico, um filósofo
observe que, no declínio das artes, a artesiana não pode ser mais valiosa do que
a própria obra, e que um novo suprimento de visões e de milagres seria
prontamente fornecido pela perícia dos monges e pela credulidade do povo.
Deploraria ele com mais razão, portanto, a perda das bibliotecas bizantinas, que
foram destruídas ou se dispensaram na confusão geral; consta que cento e vinte
mil manuscritos desapareceram então; dez volumes podiam ser comprados por um
único ducado, e o mesmo preço ignominioso, talvez excessivo demais para uma
estante de teologia, incluía as obras completas de Aristóteles e de Homero, as
mais nobres produções da ciência e da literatura da antiga Grécia. É com prazer
que meditamos na circunstância de ter sido uma inestimável porção de nossos
tesouros clássicos guardada em segurança na Itália, e de os artífices de uma
cidade alemã terem inventado uma arte que zomba das devastações do tempo e da
barbárie.
Desde a primeira hora do memorável 29 de maio, a desordem e a
rapina reinaram em Constantinopla até as oito horas do mesmo dia, quando o
próprio sultão atravessou em triunfo a Porta de São Romano. Fazia-se acompanhar
de seus vizires , paxás e guardas, cada um dos quais (diz um historiador
bizantino) era robusto como Hércules, destro como Apolo, e igualava em batalha
dez mortais comuns, quaisquer que fossem. O conquistador observou com satisfação
e espanto a estranha, conquanto esplêndida, vista de domos e palácios de estilo
tão diferente da arquitetura oriental. No Hipódromo, ou atmeidan, seu
olhar foi traído pela coluna retorcida de três serpentes; e para pôr à prova sua
força, ele arrebentou com a maça de ferro ou a acha de guerra a mandíbula
inferior de um desses monstros que, aos olhos dos turcos, eram os ídolos ou
talismãs da cidade. Na porta principal de Santa Sofia, o sultão apeou o cavalo e
adentrou o domo; era tal a sua ciumenta preocupação com esse monumento de sua
glória que, ao observar um muçulmano fanático a pique quebrar o pavimento de
mármore, advertiu-o com sua cimitarra que o espólio e os cativos tinham sido
concedidos aos soldados, mas que os edifícios públicos e privados estavam
reservados para o príncipe.
Por sua ordem, a metrópole da igreja oriental se transformou
numa mesquita; os ricos instrumentos portáteis da superstição foram removidos
dali; derrubou-se a cruz, e as paredes cobertas de imagens e mosaicos, depois de
limpas e purificadas, voltaram ao estado de nua simplicidade. No mesmo dia, ou
na sexta-feira seguinte, o muezim ou arauto subiu à torre mais elevada e fez o
ezan, ou chamamento público, em nome do seu profeta; o iman pregou; e
Maomé II entoou o namaz de prece e ação de graças no grande altar onde os
mistérios cristãos tão pouco tempo antes tinham sido celebrados perante o último
dos Césares. De Santa Sofia ele se dirigiu até a augusta e desolada mansão de
uma centena de sucessores do grande Constantino, que em poucas horas fora
despida da pompa da realeza. Uma reflexão melancólica acerca das vicissitudes da
grandeza humana se insinuou em sua mente, e ele repetiu um elegante dístico da
poesia persa: “A aranha teceu a sua teia no palácio imperial, e o mocho cantou
sua canção de vigia nas torres de Afrasiab.”

Bibliografia: Edward Gibbon, Declínio e queda do
Império Romano – 1980 Viking Penguin, Inc. – Tradução de Arnaldo Poesia.
__________
© Arnaldo Poesia, Le Monde de Paris, Quinzaine Littéraire,
1996/2009.
Tous droits de traduction et d’adaptation réservés pour tous pays.

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