Hellenic Ministry of Culture


Cultura e Civilização Bizantinas

A cultura bizantina do século IV
até à primeira metade do século IX

Bizâncio manteve-se até o final do século XII o país da Europa medieval em que a cultura atingira mais elevado grau. Não houve um corte tão profundo com a tradição cultural, como no Ocidente. O Estado e as cidades tinham sobrevivido a diversas agitações, o que supunha a manutenção de um certo nível de instrução e de cultura. Uma ligação muito estreita com toda a herança antiga caracterizou a vida espiritual de Bizâncio no princípio da sua existência.

O volumoso aparelho administrativo herdado do Império Romano exigia homens políticos, juristas, diplomatas instruídos, matemáticos, arquitetos para construírem palácios, igrejas e fortificações, assim como uma imensidade de funcionários para fazerem as contas do tesouro e fixarem o valor dos impostos e das taxas; também eram necessários artistas, retóricos e escritores para glorificar o poderio e a sabedoria dos imperadores nos seus mosaicos, discursos lisonjeiros e panegíricos. Lá também os destinos da cultura dependiam estreitamente da evolução socioeconômica: a cultura bizantina conheceu também o seu período sombrio. Aqui, como em outros lados, a Igreja tentou acomodar a filosofia antiga às suas necessidades, castrando-a de tudo o que ela tinha de racional.

Finalmente, todos os que contribuíram para a grandeza da cultura bizantina souberam salvaguardar as obras inestimáveis dos grandes pensadores, poetas, sábios e escritores gregos da Antiguidade.

Nos primeiros tempos do Império Bizantino não houve, a bem dizer, unidade na cultura. Uma infinita variedade de motivos, formas, coloridos, testemunhava uma prodigiosa miscelânea étnica: quadros egípcios, ornamentos sírios, mosaicos de Constantinopla, afrescos de Tessalônica, por todo o lado a marca profunda das tradições seculares. Placa giratória entre a Europa e a Ásia, Bizâncio sofreu a vigorosa influência das civilizações orientais. A arte antiga e a cultura persa e árabe marcaram muitas obras-primas da arte bizantina com um toque inigualável. Durante séculos, Bizâncio foi um enorme cadinho onde se fundiram as correntes culturais de toda a Bacia mediterrânica e do Oriente Médio, mas que, por seu lado, exerceu a sua influência no desenvolvimento da cultura e da arte em diversos povos da Europa e da Ásia.

A evolução da cultura bizantina decorreu do século IV ao século VII, numa luta encarniçada entre o cristianismo e a herança antiga. A Igreja tinha a iniciativa de ofensiva: as bibliotecas eram queimadas, fechavam-se universidades e escolas onde se ensinava a filosofia, as ciências e a literatura antiga. Em Alexandria, no início do século V, os monges massacraram Hypatia, uma mulher filósofa e sábia. A Igreja afirmava a sua dominação espiritual. Os seus dogmas tomavam forma. Dirigiu as suas primeiras fúrias contra a filosofia antiga. Todas as tradições de racionalismo foram jogadas pela borda fora. Apenas alguns pensamentos místicos de Platão, inicialmente desenvolvidos pelos neoplatônicos, depois modificados no espírito cristão, foram adaptados para servir a religião oficial. Os ataques da teologia golpearam pesadamente o pensamento profano. Toda a crítica aos cânones da Igreja, mesmo teológica, era proscrita. O poder secular dava todo o seu apoio à Igreja para extirpar a heresia.

No século VI, a vitória da teologia parecia completa. Mas a oposição estava longe de ter terminado. A implantação do cristianismo pela força continha em si um perigo: a teologia era impotente face à crítica. Em breve se verificou que o cristianismo não podia vencer sem a ajuda dos sistemas idealistas dos Antigos e a sua lógica formal. A luta que tiveram de travar contra os hereges e os controversos iconoclastas obrigou os teólogos a elaborar os dogmas cristãos. João Damasceno, o fundador da escolástica bizantina, apoiando-se em Aristóteles, sistematizou no século VIII a doutrina cristã. Proclamou: “a filosofia é serva da teologia”. Os teóricos do cristianismo aplicaram-se no estudo dos pensadores antigos, esforçando-se por salvaguardar, no interesse do cristianismo, as parcelas de conhecimentos tirados do passado. Durante a iconoclastia e o paulicianismo, o papel das massas populares cresceu bruscamente no que respeita à formação do pensamento social, à evolução das ideias hostis às doutrinas oficiais da Igreja. Esta tinha de lançar mão a todos os meios para tentar reforçar a sua influência espiritual. O clero tinha de se instruir. Em meados do século IX, a Escola de Magnaura abriu as suas portas em Constantinopla: ali o ensino era ministrado seguindo o mesmo sistema que na Antiguidade.

A reação cristã atingiu em menor medida, nos séculos IV-IX, as ciências exatas e naturais. Encontram-se até nas obras teológicas notações relativas à esfericidade da Terra, às condições naturais dos sismos e dos eclipses. Os estudos da matemática e da mecânica não foram interrompidos. Profundos conhecimentos em química permitiram obter cores estáveis, perfumes procurados na época e o fogo grego.

Convém notar a grande diversidade de gêneros cultivados nas letras: discursos, diálogos, poemas, epigramas, obras epistolares eram largamente conhecidos nos séculos IV-VI. Constata-se um real declínio da literatura nos séculos VII e VIII, respondendo ao entorpecimento geral da vida urbana em Bizâncio. A influência da teologia traduzia-se na literatura pelo aparecimento de um novo gênero, a hagiografia, chamada a desempenhar um importante papel ideológico devido à sua acessibilidade. As descrições da vida dos santos exaltavam o desapego de si próprio, o ascetismo e uma paciência infinita que Deus devia recompensar após a morte.

No século VI e princípio do século VII surgiram importantes obras históricas. Procópio de Cesareia, contemporâneo de Justiniano I, traçou um pormenorizado quadro da sua época. Na sua História Secreta, ao contrário do que fizera nas suas outras obras, em que fazia o elogio do Imperador, Procópio relata os sofrimentos do povo e denuncia a venalidade dos funcionários e o deboche da corte.

Inúmeras obras de tradição oral cultivadas pelo povo não chegaram infelizmente até nós, mas os numerosos monumentos da arte bizantina que podemos admirar testemunha o gosto e mestria dos seus autores. Toda a riqueza da arte popular está revelada nos artigos de artesanato. As sedas eram ornadas com motivos de cores vivas; os artesãos trabalhavam a madeira, o osso, a prata, a cerâmica ou o mármore, tirando a sua inspiração do mundo vegetal ou animal. As paredes das igrejas estavam cobertas de afrescos de cores vivas, ainda livres de estilização. Os mosaicos do palácio imperial, por exemplo, reproduziam com muita verdade e calor certas cenas da vida campestre. A iconoclastia deu um rude golpe na pintura religiosa acentuando ao mesmo tempo os assuntos profanos. Iluminuras cheias de dinamismo e de expressão ornavam as folhas dos livros.

Nos seus primórdios, os monumentos da arquitetura bizantina revelam uma forte influência da arte antiga. A maravilhosa igreja de Santa Sofia em Constantinopla é disso o mais perfeito exemplo. Foi construída no reinado de Justiniano, por Isidoro de Millet e Antêmio de Tralles e dedicada à Sabedoria Divina (Hagia Sophia). Esta basílica imensa é inundada pela luz que penetra pelas quarenta janelas abertas no contorno da alta cúpula. A sua abóbada coroa o edifício à semelhança do céu. Simbolizava o poderio e unidade do império cristão. No interior, Santa Sofia está suntuosamente decorada com mármores policromos, mosaicos, afrescos resplandecentes e magníficas colunatas.

_________
* Fogo grego -- composto químico utilizado pelos gregos, na Idade Média, que tinha a propriedade de arder, mesmo na água, pelo que era utilizado nas batalhas navais. (Nota)
** Hagiografia -- descrição da vida dos santos. (Nota)

A cultura bizantina, da segunda metade do século IX ao século XII

A partir do século IX e até o século XII, a cultura de Bizâncio foi grega por excelência. A luta contra os Árabes, em que o campesinato livre desempenhava o principal papel, encontrou a sua expressão nos cantos populares impregnados de nobres ideais de patriotismo. Foi um ciclo de cantos consagrados às guerras contra os Árabes que esteve na origem da epopéia Dhighenis Akritas. A literatura fez-se também eco das tendências democráticas manifestadas pelos meios urbanos, descontentes com a denominação dos grandes magistrados. O autor de Timarion, uma obra satírica do século XII, toma como pretexto uma viagem ao inferno e os maravilhosos encontros com os mortos para vilipendiar a beatice e a hipocrisia, a estupidez e a vaidade.

Os apócrifos, ou livros secretos, estavam muito divulgados. Estas obras, em que a lenda se combinava com a heresia, encerravam uma acerba crítica aos dogmas e aos princípios de organização da Igreja católica.

Os letrados voltaram-se cada vez mais para a Antiguidade. Mesmo os membros do alto clero tentaram brilhar, na sua correspondência particular, com uma citação, uma imagem, uma alegoria, trazidas dos autores pagãos. Dedicaram-se à sistematização dos conhecimentos adquiridos na Antiguidade. Surgiram enciclopédias de medicina e agricultura, obras de compilação. Ao contrário das obras da época precedente, em que todos os acontecimentos pareciam depender da vontade divina, os historiógrafos procuraram explicar o encadeamento de causa e efeito.

O mais belo exemplo de historiografia é a Chronographia de Miguel Psellos, filósofo e historiador do século XI, que foi retórico e brilhante escritor e senhor de vasta erudição. Nesta obra proliferam descrições de grande vivacidade, os retratos esboçados pelo autor são bem definidos, com uma real sutileza psicológica, mas a Chronographia revela, ao mesmo tempo, um desprezo total pela vida do povo e pelos principais acontecimentos da época: as intrigas da corte e os segredos de alcova retém toda a atenção do escritor.

Uma universidade fundada no século XI, sucedeu à Escola de Magnaura. Incluía duas faculdades: direito e filosofia. Miguel Psellos, que dirigiu o estudo de filosofia, tentou conciliar o estudo da filosofia antiga e da teologia. O filósofo João Ítalos concedeu a sua preferência, em certas questões, aos conhecimentos antigos e foi anatematizado.

Durante este período, observa-se na arquitetura uma tendência para a construção de edifícios de tamanho médio. A vasta basílica sucedeu a igreja de abóbada em plano quadrado. Os interiores tomaram um caráter mais íntimo. Os volumes foram encerrados em inúmeros pequenos espaços. A igreja lembrava uma capela familiar. A pintura do século X atingiu uma estilização extrema. As figuras ascéticas representadas nos ícones e afrescos eram alegorias despidas de vida onde se deveria ver uma representação das virtudes cristãs e não pessoas reais. Estas imagens incorporais traduziam perfeitamente a idéia da abnegação para glorificar Deus e impressionavam profundamente os fiéis. A iluminura também se ascetizou; exprimia não uma idéia ou uma ação, mas um estado de espírito.

A cultura bizantina da última época

A questão das idéias, das tendências e gêneros em filosofia e literatura tomou formas particularmente agudas no Baixo-Império. Tendo-se constituído definitivamente as classes e estados feudais, delimitaram-se os interesses de cada um. Os oprimidos acentuaram a sua crítica à ordem estabelecida, por intermédio da arte. Autores anônimos compunham fábulas cheias de crítica sarcástica e de mordacidade contra os grandes. Uma delas mostrava o imperador e os senhores feudais com o aspecto de aves de rapina “impuras” e os trabalhadores como “puros”, animais pacíficos. A eterna oposição entre “puros” e “impuros” é uma lei absoluta da vida: as aves de rapina são incapazes de viver em paz, pois alimentam-se de sangue. No entanto, são vencidas no combate decisivo.

No que respeita ao pensamento filosófico houve, por um lado, o nascimento do humanismo e do racionalismo e, por outro, o aparecimento da doutrina mística de Gregório Palamas, no século XIV. Esta doutrina do hesichasmo, adotada oficialmente pela Igreja, declarava que só a contemplação e o êxtase místico seriam capazes de assegurar a salvação.

Novas ideias foram expressas no século XV pelo filósofo Gemiste Pléthon (1452). Propunha a abolição da propriedade privada da terra, preconizou como indispensável o protecionismo para fazer aumentar a produção artesanal nacional e predisse a queda do cristianismo, o que lhe valeu uma sentença de excomunhão. Admirador da literatura e da filosofia antigas, que dominava perfeitamente, Pléthon dedicou-se à sua divulgação; exerceu considerável influência sobre os humanistas do Ocidente europeu.

No princípio do século XIII, no seguimento do declínio das cidades, a arte bizantina decresceu em relação aos séculos X e XI. Atenas era apenas uma aldeia cujos habitantes, miseráveis, não estavam em condições de apreciar as elegâncias de estilo e as citações tiradas dos grandes atenienses. As novas tendências não se fizeram sentir antes do início do século XIV. Os mosaicos do mosteiro de Chora (hoje Kahriye Camii), em Constantinopla, constituem uma arte nova. As figuras policromas espantam pelo seu dinamismo e individualidade, estão cheias de lirismo e de pureza humana. Todas estas inovações em filosofia, nas letras e nas artes não chegaram a uma verdadeira eclosão, foram interrompidas pela invasão turca.

Bibliografia: Edward Gibbon, Declínio e queda do Império Romano – 1980 Viking Penguin, Inc. – Tradução de Arnaldo Poesia.

__________
© Arnaldo Poesia, Le Monde de Paris, Quinzaine Littéraire, 1996/2012.
Tous droits de traduction et d’adaptation réservés pour tous pays.


Igreja de Santa Sofia

Teodora: retrato de uma imperatriz
As Facções do Hipódromo
A Queda de Constantinopla
Galeria de Imagens Bizantinas
Byzantine Museum (Athens)


Portal Starnews 2001