Ajude a preservar Ouro Preto: Patrimônio da Humanidade

TRAÇOS BIOGRÁFICOS RELATIVO AO FINADO
ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA
DISTINTO ESCULTOR MINEIRO MAIS CONHECIDO
PELO APELIDO DE
ALEIJADINHO

Antônio Francisco Lisboa nasceu a 29 de agosto de 1730 no arrabalde desta cidade que se denomina o Bom Sucesso, pertencente à Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Filho natural de Manuel Francisco da Costa Lisboa, distinto arquiteto português, teve por mãe uma africana, ou crioula, de nome Isabel, e escrava do mesmo Lisboa, que o libertou por ocasião de fazê-lo batizar.

Antônio Francisco era pardo-escuro, tinha voz forte, a fala arrebatada, e o gênio agastado: a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes, e o pescoço curto. Sabia ler e escrever, e não consta que tivesse freqüentado alguma outra aula além da de primeiras letras, embora alguém julgue provável que tivesse freqüentado a de Latim.

O conhecimento que tinha de desenho, de arquitetura e escultura fora obtido na escola prática de seu pai e talvez na do desenhista pintor João Gomes Batista, que na corte do Rio de Janeiro recebera as lições do acreditado artista Vieira e era empregado como abridor de cunhos na casa da fundição de ouro desta capital.

Depois de muitos anos de trabalho, tanto nesta cidade, como fora dela, sob as vistas e risco de seu pai, que então era tido na província como o primeiro arquiteto, encetou Antônio Francisco a sua carreira de mestre de arquitetura e escultura, e nesta qualidade excedeu a todos os artistas deste gênero, que existiram em seu tempo. Até a idade de 47 anos, em que teve um filho natural, ao qual deu o mesmo nome de seu pai, passou a vida no exercício de sua arte, cuidando sempre em ter boa mesa, e no gozo de perfeita saúde; e tanto que era visto muitas vezes tomando parte nas danças vulgares. De 1777 em diante, as moléstias, provindas talvez em grande parte de excessos venéreos, começaram a atacá-lo fortemente. Pretendem uns que ele sofrera o mal epidêmico, que, sob o nome de zamparina, pouco antes havia grassado nesta província, cujos resíduos, quando o doente não sucumbia, eram quase infalíveis deformidades e paralisias; e outros que nele se havia complicado o humor gálico com o escorbútico. O certo é que, ou por ter negligenciado a cura do mal no seu começo, ou pela força invencível do mesmo, Antônio Francisco perdeu todos os dedos dos pés, do que resultou não poder andar senão de joelhos; os das mãos atrofiaram-se e curvaram, e mesmo chegaram a cair, restando-lhe somente, e ainda assim quase sem movimento, os polegares e os índices. As fortíssimas dores que de contínuo sofria nos dedos, e a acrimônia do seu humor colérico o levaram por vezes ao excesso de cortá-los ele próprio, servindo-se do formão, com que trabalhava! As pálpebras inflamaram-se, e permanecendo nesse estado, ofereciam à vista sua parte interior; perdeu quase todos os dentes, e a boca entortou-se, como sucede freqüentemente ao estuporado; o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco; assim, o olhar do infeliz adquiriu certa expressão sinistra e de ferocidade, que chegava mesmo a assustar a quem quer que o encarasse inopinadamente. Esta circunstância, e a tortura da boca, o tornavam de um aspecto asqueroso e medonho.

Quando em Antônio Francisco se manifestaram os efeitos de tão terrível enfermidade, consta que certa mulher de nome Helena, moradora na Rua do Areião ou Carrapicho, desta cidade, dissera que ele havia tomado uma grande dose de cardina (assim denominou a substância a que se referia) com o fim de aperfeiçoar seus conhecimentos artísticos, e que daí lhe havia provindo tão grande mal.

A consciência que tinha Antônio Francisco da desagradável impressão que causava sua fisionomia o tornava intolerante, e mesmo iroso para com os que lhe parecia observarem-no de propósito; entretanto, era ele alegre e jovial entre as pessoas de sua intimidade.

Sua prevenção contra todos era tal, que, ainda com as maneiras agradáveis de tratá-lo e com os próprios louvores tributados à sua perícia de artista, ele se molestava, julgando irônicas e expressivas de mofa e escárnio todas as palavras que neste sentido lhe eram dirigidas. Nestas circunstâncias costumava trabalhar às ocultas debaixo de uma tolda, ainda mesmo que houvesse de fazê-lo dentro dos templos. Conta-se que um general (talvez D. Bernardo José de Lorena), achando-se em certo dia a presenciar de perto o seu trabalho, fora obrigado a retirar-se pelo incômodo que lhe causavam os granitos de pedra em que escultava o nosso artista e que este deliberadamente fazia cair sobre o importuno espectador.

Possuía um escravo africano de nome Maurício, que trabalhava como entalhador, e o acompanhava por toda a parte; era este quem adaptava os ferros e o macete às mãos imperfeitas do grande escultor, que desde esse tempo ficou sendo geralmente conhecido pelo apelido de Aleijadinho. Tinha um certo aparelho de couro, ou madeira, continuamente aplicado aos joelhos, e neste estado admirava-se a coragem e agilidade com que ousava subir pelas mais altas escadas de carpinteiro.

Maurício era sempre meeiro com o Aleijadinho nos salários que este recebia por seu trabalho. Era notável neste escravo tanta fidelidade a seus deveres, sendo que entretanto tinha por senhor um indivíduo até certo ponto fraco e que muitas vezes o castigava rigorosamente com o mesmo macete que lhe havia atado às mãos. Além de Maurício, tinha ainda o Aleijadinho dois escravos de nomes Agostinho e Januário; aquele era também entalhador, e este quem lhe guiava o burro em que andava e nele o colocava.

Ia à missa sentado em uma cadeira tirada de um modo particular por dois escravos, mas quando tinha de ir à matriz de Antônio Dias, a que estava contígua a casa em que residia, era levado às costas de Januário. Depois da fatal enfermidade que o acometeu, trajava uma sobrecasaca de pano grosso azul que lhe descia até abaixo dos joelhos, calça e colete de qualquer fazenda, calçava sapatos pretos de forma análoga aos pés, e trazia, quando a cavalo, um capote também de pano preto com mangas, golas em pé e cabeção, e um chapéu de lã parda braguês, cujas largas abas estavam presas à copa por dois colchetes.

O cuidado de furtar-se às vistas de pessoas estranhas dera-lhe o hábito de ir de madrugada para o lugar em que tinha de trabalhar e voltar à casa depois de fechada a noite; e, quando devia fazê-lo antes, notava-se lhe algum esforço para que a marcha do animal fosse apressada e assim se frustrasse o empenho de alguém que sobre ele quisesse demorar suas vistas.

Entrando-se agora na apreciação do mérito do Aleijadinho como escultor e entalhador, tanto quanto pode fazê-lo quem não é profissional na matéria, e somente à vista das obras que deixou na capela de São Francisco de Assis, desta cidade, cuja planta é sua, reconhece-se que ele mereceu a nomeada de que gozou, atendendo-se principalmente ao estado das artes no seu tempo, à falta que sentiu de mestres científicos e dos princípios indispensáveis a quem aspira à máxima perfeição nos referidos gêneros, e sobretudo às desvantagens contra as quais ultimamente lutava em conseqüência da perda de membros necessários à execução de seus trabalhos.

São obras do Aleijadinho a talha e escultura praticada no frontispício da referida capela, os dois púlpitos, o chafariz da sacristia, as imagens das Três Pessoas da Santíssima Trindade e dos Anjos que se vêem no cimo do altar-mor, a talha deste e bem assim a escultura alusiva à ressurreição de Cristo, que se vê na frente da urna do altar-mor, a figura do Cordeiro que se acha sobre o Sacrário, e finalmente toda a escultura do teto da capela-mor.

Apenas atenta-se para estes trabalhos, depara-se logo com o gênio incontestável do artista, mas não se deixa de reconhecer também que ele foi melhor inspirado do que ensinado e advertido; portanto o seu desenho ressente às vezes de alguma imperfeição.

No relevo que representa São Francisco de Assis recebendo as chagas vê-se que ele tem no corpo e no semblante a atitude e a expressão próprias de uma situação tão importante. Junto do Santo vê-se esculpida uma açucena, cujas hastes caem tão lânguidas e pois tão naturalmente que por isso não se pode deixar de vitoriar o artista.

Na frente do púlpito que fica ao lado esquerdo do templo para quem nele entra pela porta principal, vê-se Jesus Cristo sobre uma barca pregando às turbas no mar de Tiberíade. Os vultos que representam o povo têm o ar de quem presta séria atenção, mas o Salvador não tem aí a majestade que se divisava sempre no seu rosto.

Na frente do púlpito do lado oposto acha-se representado um outro assunto tirado do Velho Testamento. É o Profeta Jonas no ato de ser lançado ao mar, e prestes a ser engolido por uma baleia, que faminta o aguarda.

Eis o resumo da respectiva legenda:

Jonas achava-se embarcado quando sobreveio uma tempestade que ameaçava submergir o navio, e tendo alguém pensando que era castigo do Senhor, infligido a algum pecador que nele se achasse, o Profeta denunciou o delito que havia cometido, deixando de ir pregar na cidade de Nínive, como o mesmo Senhor lhe havia ordenado, e pediu que o lançassem ao mar, a fim de serenar a tempestade.

Este grupo parece bem desempenhado.

Aos lados de cada um dos púlpitos vêem-se dois dos quatro Apóstolos Evangelistas, cujos nomes são indicados, pelas figuras alegóricas da visão do Profeta Ezequiel, a saber, o Anjo junto a São Mateus, o leão a São Marcos, o boi a São Lucas, a águia a São João.

Todos eles têm o ar de quem recebe as divinas inspirações.

No chafariz vê-se bem esculpida a imagem da Fé, a qual, com a expressão vaga da cegueira que lhe é própria, apresenta num retábulo o seguinte pentâmetro:

Hoec est ad Coelum quae via ducit oves.

Abaixo, e aproximadamente à pia, vêem-se, de um e outro lados, mãos, pescoço e rosto de um Cervo, cuja boca deve correr a água. O retábulo que os encobre oferece à vista o seguinte hexâmetro:

Ad Dominum curro, sitiens, ut cervus ad undas.

Juízo igualmente favorável se deve fazer da execução das demais imagens e esculturas, em vulto ou em relevo, que saíram das mãos do mesmo artista, e acham-se na referida capela.

Também é obra do Aleijadinho a imagem de São Jorge, que anualmente costuma sair a cavalo na procissão de Corpus Christi, nesta cidade.

A respeito da encomenda desta obra deu-se o seguinte fato:

O General D. Bernardo José de Lorena, atendendo a que era mui pequena a imagem do dito Santo, que então havia, deu ordem a que viesse à sua presença o Aleijadinho, que devia ser encarregado de construir uma outra. O estatuário compareceu em palácio depois de muitas instâncias para o fazer. Logo que viu o Coronel José Romão, ajudante-de-ordens do general, exclamou ele, recuando: feio homem! Ao que disse em tom áspero Antônio Francisco, ameaçando retirar-se: é para isso que S. Ex.ª ordenou-me que aqui viesse?

O general, que logo apareceu, tranqüilizou o artista e pôde entrar com ele em detalhes relativos à imagem de São Jorge, que declarou ser de grande vulto, e sendo tomado para exemplo o do dito ajudante de ordens, que se achava presente, o Aleijadinho, voltando-se para este e retribuindo a ofensa dele, disse duas vezes, meneando a cabeça e com ar displicente: forte arganaz! forte arganaz!

Pretende-se que quando o artista deu por acabada a imagem, não houve quem nela deixasse de reconhecer uma cópia fiel do dito José Romão, que formando o mesmo juízo, em vão opôs-se a que ela saísse nas procissões.

Acrescentam a isto que o talento do retratista era nele mui pronunciado, e que várias outras imagens construiu de propósito, representando exatamente vulto e feições de certas pessoas.

Nas esculturas do Aleijadinho observa-se sempre mais ou menos bem-sucedida a intenção de um verdadeiro artista, cuja tendência é para a expressão de um sentimento ou de uma idéia, alvo comum de todas as artes. Faltou-lhe, como já disse, o parceiro da arte, mas sobrou-lhe a inspiração do gênio e do espírito religioso.

No ano de 1790 era este artista julgado como se verá do seguinte trecho de um artigo escrito pelo Capitão Joaquim José da Silva, 2.º vereador do Senado da Câmara da Cidade de Mariana no dito ano, e que se lê no respectivo Livro de Fatos Notáveis, estabelecido pela Ordem Régia de 20 de julho de 1782:

"A matriz de Ouro Preto, arrematada por José Francisco de Oliveira pelos anos de 1720, passa por um dos edifícios mais belos, regulares e antigos da comarca. Este templo, talvez desenhado pelo Sargento-mor Engenheiro Pedro Gomes, foi construído e adornado interiormente por Antônio Francisco Pombal com grandes colunas da ordem coríntia, que se elevam sobre nobres pedestais a receber a cimalha real com seus capitéis e ressaltos ao gênio de Scamozzi. Com a maior grandeza e soberba arquitetura traçou Manuel Francisco Lisboa, irmão daquele Pombal, de 1727 por diante, a igreja matriz da Conceição, da mesma vila, com 12 ou 13 altares e arcos majestosos, debaixo dos preceitos de Vignola. Nem é inferior à catedral matriz do Ribeirão do Carmo, arrematada em 1734 por Antônio Coelho da Fonseca, cujo prospecto e fachada correspondem à galeria, torres e mais decorações de arte. Quem entra pelo seu pórtico e observa a distribuição dos corredores e naves, arcos da ordem compósita, janela, óculos e barretes da capela-mor, que descansam sobre quatro quartões ornados de talha, capitéis e cimalha lavrada, não pode desconhecer a beleza e exação de um desenho tão bem pensado. Tais são os primeiros modelos em que a arte excedeu a matéria.

Pelos anos de 1715 ou 1719 foi proibido o uso do cinzel para se não dilapidarem os quintos de Sua Majestade, e por Ordem Régia de 20 de agosto de 1738 se empregou o escopo de Alexandre Alves Moreira e seu sócio na cantaria do palácio do governo, alinhado toscamente pelo Engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim com baluartes, guaritas, calabouço, saguão e outras prevenções militares. Nesta casa-forte e hospital de misericórdia, ideada por Manuel Francisco Lisboa com ar jônico, continuou este grande mestre as suas lições práticas de arquitetura que interessam a muita gente. Quanto, porém excedeu a todos no desenho o mais doce e mimoso João Gomes Batista, abridor da fundição, que se educou na Corte com o nosso imortal Vieira; tanto promoveu a cantaria José Ferreira dos Santos na igreja do Rosário dos Pretos de Mariana, por ele riscada; e nas igrejas de São Pedro dos Clérigos e Rosário de Ouro Preto, delineadas por Antônio Pereira de Souza Calheiros ao gosto da rotunda de Roma. Com este José Pereira se ilustraram outro José Pereira Arouca, continuador do seu desenho e obra da ordem 3.ª desta cidade, cuja esbelta cadeia se deve à sua direção, e Francisco de Lima, hábil artista de outra igreja Franciscana do Rio das Mortes. O aumento da arte se afigura de sorte que a matriz de Caeté, feita por Antônio Gonçalves Barbacena, debaixo do risco do sobredito Lisboa, cede nas decorações e medidas à matriz de Morro Grande, delineada por seu filho Antônio Francisco Lisboa, quanto este homem se excede mesmo no desenho da indicada igreja do Rio das Mortes, em que se reúnem as maiores esperanças.

Este [templo] e a suntuosa cadeia de Vila Rica, começada por um novo Manuel Francisco, em 1785, com igual segurança e majestade, me levariam mais longe se os grandes estudos e modelos de escultura feitos pelo filho e discípulo do antigo Manuel Francisco Lisboa e João Gomes Batista não prevenissem a minha pena.

Com efeito, Antônio Francisco, o novo Praxíteles, é quem honra igualmente a arquitetura e escultura . O gosto gótico de alguns retábulos transferidos dos primeiros alpendres e nichos da Piedade já tinha sido emendado pelo escultor José Coelho de Noronha, e estatuário Francisco Xavier, e Felipe Vieira, nas matrizes desta cidade e Vila Rica.

Os arrogantes altares da catedral, cujas quartelas, colunas atlantes, festões e tarjas respiram o gosto de Frederico; a distribuição e talha do coro do Ouro Preto revelada em partes, as pilastras, figuras e ornamentos da capela-mor, tudo confirma o melhor gosto do século passado.

Jerônimo Felix e Felipe Vieira, êmulos de Noronha e Xavier, excederam na exação do retábulo principal da matriz de Antônio Dias da mesma Vila o confuso desenho do Doutor Antônio de Souza Calheiros; Francisco Vieira Selval e Manuel Gomes, louvados da obra, pouco diferem de Luís Pinheiro e Antônio Martins, que hão feito as talhas e imagens dos novos templos.

Superior a tudo e singular nas esculturas de pedra em todo o vulto ou meio relevado e no debuxo e ornatos irregulares do melhor gosto francês é o sobredito Antônio Francisco. Em qualquer peça sua que serve de realce aos edifícios mais elegantes, admira-se a invenção, o equilíbrio natural, ou composto, a justeza das dimensões, a energia dos usos e costumes e a escolha e disposição dos acessórios com os grupos verossímeis que inspira a bela natureza.

Tanta preciosidade se acha depositada em um corpo enfermo que precisa ser conduzido a qualquer parte a atarem-se-lhe os ferros para poder obrar.

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Na época a que se refere o trecho acima transcrito, algumas artes liberais estavam talvez em maior florescência do que hoje nesta província.

Ou porque, à falta de liberdade política, como sucede ainda na Itália, a tendência dos espíritos, ou a sua atividade não podia ter outro alvo, ou porque o espírito religioso dos colonos, favorecido pela riqueza de então, um dos mais poderosos meios de realizar grandes coisas, dava ocasião ou incentivo eficaz para semelhantes estudos, o certo é que os nossos antepassados deixaram-nos em escultura, música e arquitetura monumentos dignos de uma civilização assaz adiantada.

Sabe-se que o Cristianismo é eminentemente civilizador; a ele se deveu na Europa a restauração das letras e das ciências, que a invasão dos bárbaros parecia ter por uma vez aniquilado; não é menos certo que o entusiasmo religioso, como todas as paixões nobres e elevadas, é inspirador de grandiosas coisas; e, pois, muito natural era que a escultura e pintura sacras tivessem entre nós o desenvolvimento que lhes reconhecemos. O fervor piedoso dos referidos tempos tem o seu tipo na grandeza e magnificência quase fabulosas (bem que entremeadas de cenas ou alegoria profanas) da trasladação do Santíssimo Sacramento da igreja do Rosário para a nova matriz de Ouro Preto, e que se intitulou TRIUNFO EUCARÍSTICO.

O Aleijadinho exerceu sua arte nas capelas de São Francisco de Assis, de Nossa Senhora do Carmo, e nas das Almas, desta cidade; na matriz e capela de São Francisco da cidade de São João del Rei; nas matrizes de São João do Morro Grande e da cidade de Sabará; na capela de São Francisco, da de Mariana; em ermidas das fazendas da Serra Negra, Tabocas e Jaguará, do dito termo de Sabará, e nos templos de Congonhas, deste último termo, e de Santa Luzia.

Há quem afirme que é em Congonhas do Campo e em São João del Rei que se devem procurar suas obras-primas, fazendo especial menção da magnífica planta da capela de São Francisco, daquela cidade, e do bem-acabado da escultura e talha do respectivo frontispício.

Desde que um indivíduo qualquer se torna célebre e admirável em qualquer gênero, há quem, amante do maravilhoso, exagere indefinidamente o que nele há de extraordinário, e das exagerações que se vão sucedendo e acumulando chega-se a compor finalmente uma entidade verdadeiramente ideal. É isso o que, pode-se dizê-lo, até certo ponto aconteceu a Antônio Francisco, de quem se conta o seguinte caso:

Tendo ido à corte do Rio de Janeiro, pediu que se lhe confiasse a construção da porta principal de certo templo que se concluía; foi isto julgado muita ousadia da parte de um desconhecido, e contra o qual depunham as aparências. Entretanto, foi-lhe encarregada a obra. Concluída uma das metades da porta, o artista, em certa noite, e furtivamente, a colocou no competente lugar. No dia seguinte foi o seu trabalho julgado acima de todos os outros do mesmo gênero, e não havendo artista que se animasse a completá-la, em vista do extraordinário mérito de sua execução, foi mister que para o fazer se procurasse por toda a cidade o desconhecido gênio, que afinal e depois de muitos esforços foi encontrado.

Com o mesmo fim de demonstrar a perícia deste escultor, conta-se que algumas mulheres, tendo ido a Matosinhos de Congonhas do Campo, na ocasião em que passavam por junto do Passo da Ceia, cumprimentaram as figuras que aí representam Cristo com os Apóstolos, o que, a ser devido somente ao bem acabado da escultura, nos induziria a comparar as obras do nosso patrício com os cachos de uvas de Zêuxis (famoso pintor da antiguidade), que os pássaros feriam com o bico crendo serem frutos reais.

O Aleijadinho não ajuntou fortuna alguma pelo exercício de sua arte; além de que partilhava igualmente o que ganhava com o escravo Maurício, era descuidado na guarda de seu dinheiro, que de contínuo roubavam-lhe, e muito despendia em esmolas aos pobres.

Tendo passado cartas de liberdade aos escravos acima declarados, e bem assim a uma escrava de nome Ana, as quais tinha fechado em uma caixa, os interessados lhas roubaram para talvez as lançarem no livro de notas. É certo, entretanto, que estes libertos não entraram no gozo da liberdade durante a vida do seu benfeitor.

Antônio Francisco trabalhava a jornal de meia oitava de ouro por dia. Quando concluiu as obras da capela do Carmo, das quais se havia primeiramente encarregado, queixou-se de ter recebido o seu salário em ouro falso. Posteriormente, pelos anos de 1811 a 1812, um seu discípulo de talha, de nome Justino, tendo-se encarregado da construção dos altares na dita capela pôde obter, depois de muitas instâncias, que ele fosse inspecionar e dirigir os trabalhos, e foi residir na casa que então existia contígua e pertencente àquele Santuário. Por ocasião de Dias Santos do Natal, Justino retira-se para a Rua do Alto da Cruz, onde tinha família, deixando ali seu mestre, que durante muitos dias por descuido do discípulo não teve aquele tratamento e cuidados a que estava acostumado. Com este fato coincidiu o de perder quase inteiramente a vista o nosso famoso escultor.

Neste estado, recolheu-se à sua casa, sita na Rua Detrás de Antônio Dias, da qual depois de algum tempo mudou-se definitivamente para a de sua nora de nome Joana, que dele tratou caridosamente até o seu falecimento, o qual teve lugar dois anos depois de seus últimos trabalhos de inspeção na capela do Carmo, a 18 de novembro de 1814, tendo de idade 84 anos, 2 meses e 21 dias.

Justino só tinha pago a seu mestre uma mui pequena parte do salário de um ano, que lhe pertencia, e pois desde então até o fim de sua vida a mofina do mestre nos seus solilóquios era exigir do discípulo o que lhe era devido. Durante o tempo em que esteve entrevado, freqüentes vezes apostrofava à Imagem do Senhor que tinha em seu aposento; e tantas vezes havia esculpido, pedindo-lhe que sobre ele pusesse seus Divinos Pés.

É natural que então a vida de sua inteligência em grande parte consistisse em recordação de seu brilhante passado de artista, ele se transportaria muitas vezes em espírito ao Santuário de Matosinhos, para ler profecias no semblante dos inspirados do Velho Testamento, cujas figuras tinham sido ali obradas por seu escopo, memorar, nos Três Passos da Paixão, que escultara, a bondade e a resignação do Salvador, quando preso e osculado pelo Apóstolo traidor, a mais solene das Ceias, ou a Instituição do Sacramento da Eucaristia, e a angústia da Vítima Celestial contrastando o sono profundo e tranqüilo dos três Apóstolos no horto de Getsêmani!

Vive ainda a nora do Aleijadinho, e bem que em mau estado existe também a casa em que este faleceu; num dos pequenos departamentos interiores dela vê-se o lugar em que, deitado sobre um estrado (três tábuas sobre dois toros ou cepos de pau pouco ressaltados do pavimento térreo), jazeu por quase dois anos, tendo um dos lados horrivelmente chagado, aquele que por suas obras de artista distinto tanto havia honrado a sua Pátria!

Tanta miséria ousando aliar-se a tanta poesia!

Antônio Francisco acha-se sepultado na matriz de Antônio Dias, desta cidade. Descansa em uma sepultura contígua e fronteira ao altar da Senhora da Boa Morte, de cuja festa pouco antes tinha sido juiz.

(Rodrigo José Ferreira Bretas - Biógrafo de Aleijadinho)


Bibliografia: Aleijadinho, 1730-1814. Arte Barroca - Brasil. Passos da Paixão - O Aleijadinho. Fotos de Claus Meyer - Bretas, Rodrigo José Ferreira, 1814-1866. Oliveira, Myriam Andrade Ribeiro de, 1943. - Rio de Janeiro: Edições Alumbramento/Livroarte Editora, 1984.

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