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Guardamos dele a imagem de um homem triste, angustiado, solitário, mas
essa imagem não é inteiramente verdadeira. É evidente que ele era um homem contraditório, temperamental —
tirânico e cortês. No entanto, deixou-nos grandes obras sinfônicas que são a culminância da música.
Quando foi executada a sua Primeira Sinfonia, em
1800, Beethoven ainda não havia completado 30 anos de idade.
Cheio de ambições, e com certa dose de vaidade,
tentava conquistar os meios musicais de Viena como virtuose do
piano. Sentia em si mesmo um enorme poder, mas ainda se adaptava às convenções sociais, compondo
alegres músicas de câmara e andando pelas ruas impecavelmente vestido.
Atraía assim admiradores das altas rodas. A música era para Beethoven alguma coisa como o mar. Dava-lhe
uma impressão esmagadora, enchia-o de admiração, inspirava-lhe entusiasmo e
também medo, um medo terrível do infinito. Mas ele se atirava, de cabeça, nas
ondas ameaçadoras.
As suas sinfonias estão numa categoria à parte — num valor tão alto
como as peças de Shakespeare. Como acontecia
com Shakespeare, o campo de Beethoven era amplo. Então, que é
que coloca essas sinfonias em lugar de destaque? Contêm árias
bonitas, melodias notáveis? Sim, todavia não é esse o motivo.
Beethoven tirou a música de um pedestal de beleza formal, onde
Mozart e Haydn (cuja influência sobre Beethoven foi marcante) a
tinham deixado, e sacudiu-a e revolveu-a até produzir o efeito
que ele esperava que produzisse — evocar emoções.
Nas suas sinfonias, Beethoven pôs em música a
angústia e a alegria de todo o mundo. A música,
disse Beethoven, é "uma revelação mais alta do que a
filosofia". Dentro em pouco,
porém,
começaram a aparecer os primeiros sintomas de
surdez. A princípio Beethoven tentou esconder.
Começou a evitar reuniões sociais. Quando não lhe
foi mais possível ocultar a situação retirou-se para
Heiligenstadt, subúrbio de Viena. Beethoven, sempre
extremado em suas reações, quer de alegria, quer de
desespero, desabafou então o seu infortúnio num
longo documento conhecido como o seu "Testamento".
"Era-me impossível dizer às pessoas: Fale
mais alto, grite, porque sou surdo. Como podia confessar uma
deficiência do sentido que em mim devia
ser mais perfeito do que nos outros, um sentido que eu antes
possuía na mais alta perfeição? Que humilhação quando
alguém ao meu lado ouvia uma flauta à distância e eu não
ouvia nada. Esses incidentes levaram-me ao limiar do desespero...
e faltou pouco para que eu pusesse fim à vida."
Entretanto, nessa época, ele compôs a Segunda Sinfonia, e muitas de suas obras
— como a Sonata Moonlight ou Au Claire de Lune, dedicada a Giulietta Guicciardi.
A surdez de Beethoven revelou-se talvez uma felicidade para a
música. Ouvindo sons apenas no cérebro, isolado do mundo exterior, ele
intensificou e aprofundou incessantemente o seu pensamento musical. Compôs a
Quinta Sinfonia, simplesmente bela! A Sinfonia N.º 9, uma inspiração divina.
Mas à medida que se retraía, seu comportamento tornava-se cada vez mais incoerente. Não deixava que
ninguém entrasse no seu quarto, sempre numa desordem incrível; papéis jogados
por todo lado, tinta derramada no piano. Era tão distraído que esquecia de
comer. Entrava às vezes num restaurante, sentava-se e ficava pensativo,
esquecia-se de encomendar o que queria e, por fim, pedia a conta.
Beethoven tinha um gênio violento: numa ocasião, em 1806, enquanto passava uns
dias no Castelo do Príncipe Lichnowski, seu antigo protetor,
este lhe pediu para que tocasse para uns oficiais de Napoleão,
que estavam no castelo. Beethoven recusou-se a tocar. O
príncipe, brincando, ameaçou-o de prendê-lo. Beethoven saiu
furioso, foi até a cidade mais próxima e lá tomou uma
carruagem para Viena. Chegando em casa, pegou um busto de
Lichnowski e espatifou-o. 
Contudo, sabia também ser atencioso e discretamente
sentimental: quando uma de suas amigas, a baronesa
Ertmann, perdeu um filho, Beethoven foi visitá-la;
não disse uma só palavra, sentou-se ao piano e tocou
durante muito tempo.
Lia muitos clássicos, mas Shakespeare e Plutarco
eram os seus autores preferidos. Tinha um amor
autêntico à liberdade; quando dos debates na
Inglaterra sobre a escravatura em 1823, ele
acompanhava com interesse os discursos pronunciados
no Parlamento. Mas era um verdadeiro tirano em casa,
principalmente para o filho de seu irmão, Karl.
Beethoven detestava a mulher com quem o irmão se
casara, acusando-a de imoral, e conseguiu tomar-lhe o filho.
O caso foi objeto de disputa em juízo, da primeira à última instância. Beethoven, pouco versado nas
coisas práticas da vida, sufocava Karl com o seu amor, entupindo-o de preceitos
morais. Atormentado pela luta entre tio e mãe, Karl tentou suicidar-se e
finalmente desapareceu no anonimato do Exército austríaco. Apesar de seus
imprevisíveis estados de espírito, os amigos de Beethoven nunca lhe faltaram com
uma dedicação incondicional.
Sua doença foi agravada pelo descuido
e pelo desprezo pelos médicos. Num mês
ele tomou 75 vidros de remédio. Até o último instante quis compor, planejando desenvolver umas anotações que tinha para
uma décima sinfonia, mas morreu durante uma tempestade, no dia
26 de março de 1827, aos 57 anos. Quem poderá compreendê-lo?
~ Arnaldo Poesia ~


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