Arte e Mythologyitologia

A Idade da Fábula ou A História de Deuses e Heróis

Ilustração de Joe Mugnaini, A Idade da Fábula, 1958

~ As Divindades Rurais ~

Pã, o deus dos bosques e dos campos, dos rebanhos e dos pastores, morava em grutas, vagava pelas montanhas e pelos vales e divertia-se caçando ou dirigindo as danças das ninfas. Era amante da música, foi o inventor da avena, ou flauta, e que tocava magistralmente. Pã, como os outros deuses que habitavam as florestas, era temido por aqueles cujas ocupações os obrigavam a atravessar as matas durante a noite, pois as trevas e a solidão que reinavam em tais lugares predispunham os espíritos aos temores supersticiosos. Por isso, os pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa aparente, eram atribuídos a Pã e chamados de terror pânico ou simplesmente de pânico.

Como o nome do deus significa tudo, Pã passou a ser considerado símbolo do universo e personificação da natureza, e mais tarde, enfim, foi olhado como representante de todos os deuses e do próprio paganismo.

Silvano e Fauno eram divindades latinas, cujas características são a tal ponto semelhantes às de Pã, que podem ser consideradas como a mesma personagem, sob nomes diferentes.

As ninfas dos bosques, companheiras de Pã nas danças, constituíam apenas uma das classes das ninfas. Havia, além delas, as Náiades, que governavam os regatos e as fontes; as Oréades, ninfas das montanhas e grutas, e as Nereidas, ninfas do mar. As três últimas eram imortais, mas as ninfas dos bosques, chamadas Dríades ou Hamadríades, morriam, segundo se acreditava, com as árvores que lhes serviam de morada e juntamente com as quais nasciam. Constituía, portanto, uma impiedade destruir uma árvore e, em alguns casos graves, tal ato era severamente punido, como se deu no caso de Erisíchton, que veremos daqui a pouco.

Milton, em sua bela descrição dos primórdios da criação, assim se refere a Pã, como personificação da natureza:

                                 ... o Pã universal,
Dançando junto às Graças e às Horas,
Comanda a sempiterna primavera.

E descrevendo a morada de Eva:

Em mais sombreado e protegido abrigo
Pã ou Silvano não dormiram, e as ninfas
E os faunos outro igual não visitaram.

                                     (Paraíso Perdido, Livro IV)

  
Afrodite (Vênus), Pã e Cupido

Um aspecto sedutor do paganismo era o de creditar à iniciativa de uma divindade cada fenômeno da natureza. A imaginação dos gregos povoava todas as regiões da terra e do mar de divindades, a cuja diligência atribuíam os fenômenos que nossa filosofia considera como conseqüência das leis naturais. Às vezes, em nossos momentos de poesia, sentimo-nos inclinados a lamentar a mudança ocorrida, e a achar que, com a substituição, o coração perdeu tanto quanto o cérebro ganhou. O poeta Wordsworth manifesta, de maneira bem enérgica, tal sentimento.

Quisera um pagão ainda eu fosse,
Por antigas ilusões acalentado.
A paisagem seria bem mais doce
E o mundo muito menos desolado.

Schiller, no poema "Die Götter Griechenlands", manifesta seu pesar pelo desaparecimento da bela mitologia dos velhos tempos, o que provocou uma resposta da poetisa cristã E. Barrett Browning, no poema "Pã é Morto", do qual fazem parte as duas seguintes estrofes:

Pela tua beleza que se curva
Ante maior beleza que te vence,
Pelo nosso valor adivinhando
Entre tuas mentiras a Verdade,
Não te choramos! Nos dará o mundo,
Depois do antigo reino, outro reinado.
                                 Pã é morto!

O mundo deixa além as fantasias
Que, em sua juventude, o embalaram
E as fábulas mais belas e mais vivas
Tolas parecem em face da verdade.
De Febo o carro terminou o curso!
Olhai de frente o sol, olhai, poetas!
                                E Pã, e Pã é morto.

Estes versos baseiam-se numa antiga tradição cristã, segundo a qual, quando o anjo avisou os pastores de Belém do nascimento de Cristo, um gemido profundo, ouvido através de toda a Grécia, anunciou que o grande Pã morrera e toda a realeza do Olimpo fora destronada, passando as divindades a vagar no frio e na escuridão. É o que Milton conta no "Hino à Natividade":

Pelas praias, além, pelas montanhas,
Triste como um gemido, ecoa um grito.
Por vales verdejantes, entre as folhas,
O gênio antigo suspirando foge,
Choram as ninfas nos bosques desoladas.

~ Erisíchton ~

Erisíchton era um homem grosseiro, que desprezava os deuses. Certa ocasião, resolveu profanar com o machado um bosque consagrado a Ceres. Ali erguia-se um venerável carvalho, tão grande que ele sozinho dava a impressão de uma floresta inteira. Em seu velho tronco, que dominava as outras árvores, freqüentemente eram colocadas guirlandas votivas e entalhadas inscrições manifestando gratidão à ninfa da árvore. Muitas vezes tinham as Dríades dançado de mãos dadas em torno do carvalho. Seu tronco media sessenta e seis centímetros de circunferência e sobrepujava as outras árvores como estas sobrepujavam os arbustos. Erisíchton, contudo, não viu motivos para poupá-lo e ordenou a seus servos que o cortassem. Ao vê-los hesitantes, tomou o machado das mãos de um deles e exclamou, impiedosamente:

           – Não quero saber se esta árvore é ou não amada pela deusa. Fosse ela própria uma deusa e eu a abateria se se interpusesse em meu caminho.

Assim dizendo, ergueu o machado e o carvalho pareceu estremecer e dar um gemido. Quando a primeira machadada o atingiu, o tronco começou a sair sangue pela ferida. Todos os circunstantes ficaram horrorizados e um deles reagiu e segurou o machado fatal. Com olhar de desprezo Erisíchton disse-lhe:

           – Recebe a recompensa de tua piedade!

E voltou contra ele o machado que afastara da árvore, crivou-lhe o corpo de ferimentos e cortou-lhe a cabeça.

Do meio do carvalho, veio então uma voz:

           – Eu que moro nesta árvore sou uma ninfa amada de Ceres e, morrendo por tuas mãos, predigo que o castigo te aguarda.

Erisíchton não desistiu de seu intento e afinal a árvore, atingida por repetidos golpes e puxadas por cordas, caiu com estrondo e esmagou sob o seu peso grande parte do bosque.

As Dríades, muito tristes com a morte de sua companheira e sentindo ultrajado o orgulho da floresta, dirigiram-se a Ceres, vestidas de luto e pediram que Erisíchton fosse castigado. A deusa acedeu ao pedido e, ao curvar a cabeça, também se inclinaram todas as espigas maduras para a colheita. Imaginou um castigo tão cruel que despertaria piedade, se acaso tal malvado merecesse piedade: entregá-lo à Fome. Como a própria Ceres não podia aproximar-se da Fome, pois as Parcas haviam ordenado que essas duas deusas jamais se encontrassem, chamou uma Oréade da montanha e assim lhe falou:

           – Há, na parte mais longínqua da gelada Cítia, uma região triste e estéril, sem árvores e sem campos cultivados. Ali moram o Frio, o Medo, o Tremor e a Fome. Vai àquela região e diga à última para tomar posse das entranhas de Erisíchton. Que a fartura não a vença, nem o poder de meus dons a afaste. Não te assustes com a distância – (pois a Fome mora muito longe de Ceres) –, mas toma meu carro; os dragões estão atrelados e são obedientes, e levar-te-ão através dos ares, em pouco tempo.

Assim, a ninfa partiu e em breve atingiu a Cítia. Chegando ao Monte Cáucaso, parou os dragões e encontrou a Fome num campo pedregoso, arrancando a escassa erva com os dentes e as garras. Tinha os cabelos hirsutos, os olhos fundos, as faces pálidas, os lábios descorados, a boca coberta de poeira e a pele distendida, mostrando todos os ossos. Olhando-a de longe (pois não se atrevia a aproximar-se), a Oréade transmitiu as ordens de Ceres. E embora se tivesse demorado o menor tempo possível e se mantido à maior distância que pôde, começou a sentir fome, e voltou à Tessália.

A Fome obedeceu às ordens de Ceres e, avançando velozmente pelos ares até à morada de Erisíchton, entrou no quarto do criminoso, que encontrou adormecido. Envolveu-o com suas asas e penetrou ela própria pela sua respiração, destilando veneno por suas veias. Tendo executado sua missão, apressou-se em deixar a terra da fartura e voltou à sua costumeira desolação. Erisíchton ainda dormia, e em seus sonhos, ansiava por alimentos e movia a boca, como se estivesse comendo. Ao acordar, a fome o devorava. A todo momento queria ter diante de si iguarias de qualquer espécie que produzissem a terra, o mar ou o ar, e queixava-se de fome, mesmo enquanto comia. Não lhe era suficiente o que teria sido bastante para uma cidade ou nação. Quanto mais comia, maior era sua fome. Era uma fome semelhante ao mar, que recebe todos os rios e, no entanto, não se enche, ou como o fogo que consome todo o combustível que tem junto de si e continua pronto a destruir outros. Seus bens diminuíram rapidamente em face das incessantes exigências de seu apetite, mas a fome continuava insaciada. Afinal gastou tudo o que tinha e restou-lhe apenas uma filha, uma filha que merecia um pai melhor. Vendeu-a também. Desesperada de ser escrava do comprador, a jovem, de pé junto ao mar, ergueu os braços, numa prece a Netuno. O deus ouviu suas súplicas e embora seu novo senhor não estivesse longe e a visse um momento antes, Netuno mudou-lhe a forma e fez com que ela assumisse a de um pescador entregue à sua ocupação. Procurando-a, e vendo-a sob aquela nova forma, seu dono perguntou-lhe:

           – Bom pescador, aonde foi a donzela que vi agora mesmo, com os cabelos despenteados e pobremente vestida, de pé junto deste lugar onde estás? Diga-me a verdade e tua sorte será boa e nenhum peixe morderá hoje a isca e fugirá.

A jovem percebeu que sua prece fora atendida e regozijou-se, intimamente, ao ver-se interrogada a respeito de si mesma.

           – Perdoa-me estrangeiro – respondeu –, mas estava tão ocupado com meu caniço e minha linha que nada vi. Possa eu contudo jamais pescar outro peixe se acredito que esteve por aqui, ainda há pouco, alguma mulher ou outra pessoa qualquer.

O homem acreditou e continuou seu caminho, pensando que sua escrava fugira. Ela, então, reassumiu a forma. Seu pai ficou alegre ao vê-la ainda consigo, juntamente com o dinheiro resultante de sua venda; e tratou de vendê-la outra vez. A jovem, contudo, graças a Netuno, transformou-se tantas vezes quanto as que fora vendida; ora em um cavalo, ora em uma ave, ora em um boi, ora em um cervo. Assim, livrava-se dos compradores e voltava para casa. Por esse meio, o faminto pai conseguia alimento, mas não o suficiente para as suas necessidades, e, afinal, a fome o obrigou a devorar seus próprios membros e procurou destruir o corpo para alimentar esse mesmo corpo, até que a morte o libertou da vingança de Ceres.

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