© 2009, Sanctuaire Sainte Thérèse de Lisieux

~ A Profissão de Fé ~

(1890)

Thérèse preparou-se para sua profissão de fé com um retiro de dez dias, que começou em 28 de agosto. Ela esperava tudo deste retiro, mas nada recebera:

"Meu retiro de profissão foi, pois, como todos os subseqüentes, um retiro de grande aridez. Contudo, sem que eu o percebesse, o Bom Deus me indicava claramente o meio de Lhe agradar e praticar as mais sublimes virtudes. Observei, amiúde, que Jesus não me quer fornecer provisões. Nutre-me, a cada instante, com alimento sempre novo. Encontro-o em mim, sem saber como foi ali parar... Creio, com toda a simplicidade, que é o próprio Jesus, oculto no fundo do meu pobre coração, quem me concede a graça de atuar em mim, levando-me a pensar em tudo quanto quer que eu faça no momento presente.

Dias antes de minha profissão, tive a ventura de receber a benção do Soberano Pontífice. Tinha-a solicitado, por intermédio do bom Frei Simeão, para Papai e para mim. E muito me consolou poder retribuir ao meu querido Pai a graça que me proporcionara, quando me levou a Roma.

Chegou, finalmente, o belo dia de minhas núpcias (8 de setembro, uma segunda-feira. Nota). Passou sem nuvens. Na véspera, porém, tinha-se encastelado em minha alma uma tempestade, como nunca vira igual... Até então, jamais me viera à cabeça nenhuma dúvida em torno de minha vocação. Era-me necessário conhecer tal provação. À noite, quando fazia minha Via-Sacra depois de Matinas, minha vocação afigurou-se-me um devaneio, um sonho... Achava muito linda a vida do Carmelo, mas o Demônio insuflava-me a certeza de que não era feita para mim; que iludiria as superioras, caso prosseguisse num caminho, para o qual não era chamada... Tão grandes eram minhas trevas, que não via nem compreendia senão uma coisa: Não tinha vocação...

Oh! como descrever a angústia de minha alma?... Parecia-me (coisa absurda, mostrando ser o Demônio a tentação) que, se falasse de meus temores à minha Mestra, impedir-me-ia de fazer meus Sagrados Votos. Contudo, queria antes fazer a vontade de Deus e retornar ao século, do que, fazendo a minha, permanecer no Carmelo. Chamei, pois, minha Mestra para fora, e cheia de confusão lhe expus o estado de minha alma... Ela, felizmente, viu mais claro do que eu, e tranqüilizou-me por completo. Aliás, o ato de humildade que eu acabava de praticar, afugentava o Demônio, que talvez me julgasse com ânimo de confessar minha tentação. Tão logo acabei de falar, dissiparam-se minhas dúvidas. Todavia, para tornar mais cabal meu ato de humildade, quis ainda comunicar minha estranha tentação à nossa Madre, mas ela contentou-se em rir-se de mim.

Na manhã de oito de setembro, senti-me inundada por um rio de paz, e foi numa paz "a ultrapassar todo sentimento" (Filip. 4,7.) que proferi meus Sagrados Votos... Minha união com Jesus não se efetuou entre trovões e relâmpagos, isto é, entre graças extraordinárias, mas no halo de um brando zéfiro, semelhante ao que Nosso Pai Santo Elias ouviu na montanha... (Cfr. 1 Reis 19,12-13.) Quantas graças não pedi naquele dia!... Senti-me, realmente, como RAINHA. Por esta razão, valia-me do meu título para libertar os cativos, impetrar do Rei favores para os ingratos súditos. Queria, afinal libertar, todas as almas do purgatório e converter os pecadores... Rezei muito por minha Mãe, por minhas queridas irmãs... por toda a família, sobretudo pelo meu Pai, tão sofrido e tão santo... Ofereci-me a Jesus, para que torne perfeita sua vontade em mim, sem que jamais as criaturas ponham obstáculo... Passou o belo dia, à semelhança dos mais tristes, pois que aos mais radiosos sobrevém um amanhã. Não obstante, foi sem tristeza que depus minha grinalda aos pés da Santíssima Virgem. Sentia que o tempo não me arrebataria a felicidade... Como é bela a festa da Natividade de Maria pra nos tornarmos esposa de Jesus! Era a Santíssima Virgem, pequenina de um dia, que apresentava sua florzinha a Jesus... Nesse dia, tudo era pequeno, exceto as graças e a paz que recebi, exceto a tranqüila alegria que senti à noite, quando contemplava as estrelas que brilhavam no firmamento, enquanto imaginava que em breve o formoso Céu se abriria aos meus olhos extasiados, e poderia unir-me ao meu Esposo na amplidão de uma alegria eterna..."

Em 24 de setembro, a tomada do véu completou a profissão de fé. O véu negro que Thérèse recebeu e com o qual se cobriria seria um véu de lágrimas. As decepções se acumularam para a jovem esposa: esperava uma melhora, mesmo que passageira, de seu pai, para que ele pudesse assistir à tomada de véu; mas seu tio Isidore se opôs, temendo o choque que esta vinda poderia acarretar. Monsenhor Hugonin, que havia prometido estar presente, caiu doente, enviando em seu lugar seu irmão, frei Jean-Baptiste Hugonin.

Thérèse não agüentou mais. Caiu em prantos e chorou como não chorava havia muito tempo. A assistência perdeu-se em conjecturas e pôs seus soluços na conta da incrível excentricidade das meninas Martin. Apenas sua prima Marie Guérin pôde compreender e resolveu também ser carmelita, para beber do mesmo cálice até o fim.

Apenas oito dias depois Thérèse pôde se divertir um pouco, apenas uma vez. Quando recebeu a participação de casamento de sua prima Jeanne, irmã de Marie Guérin, com o doutor Francis La Néele, ela resolveu fazer uma participação semelhante para seu casamento com Jesus: Carta-convite para as núpcias de irmã Teresa do Menino Jesus e da Santa Face. Divertimento bastante pueril. Foram de fato as núpcias do Menino Jesus e da menina Thérèse...

Teresa: autora teatral

Aconteceu no Carmelo uma oportunidade das irmãs Martin recuperarem a intimidade de outrora. foi em fins de 1894 que madre Agnes de Jesus, irmã Maria do Sagrado Coração, irmã Teresa do Menino Jesus e Céline, que tomara o nome de irmã Genoveva da Santa Face, reuniram-se na única sala aquecida do Carmelo, além, da enfermaria. Era a recreação, e as carmelitas tinham licença para falar. Thérèse recordou lembranças da infância, Irmã Maria disse à madre Agnes: "Será possível ter você permitido e encomendado poesias para festejar umas e outras, sem que Thérèse nos tenha escrito algo sobre suas lembranças da infância?" Madre Agnes hesitou, e em seguida encomendou à Thérèse um relato para sua festa, de Santa Agnes, que seria comemorada no dia 21 de janeiro seguinte.

Mas o relato não ficaria pronto a tempo, pois Thérèse escrevia como e quando podia. Levou um ano, entre janeiro de 1895 e janeiro de 1896, redigindo o texto em que consistira a primeira parte de História de uma alma.

Mas no final de 1894 Thérèse estava às voltas com o espetáculo de Natal. Prevenida, desde outubro havia escrito uma peça intitulada "Os anjos no presépio", que traduzia seu constante deslumbramento diante do Menino Jesus.

Ela teria um dos principais papéis, o de anjo do Menino Jesus, cercada de anjos da Santa Face, da Ressurreição, da Eucaristia e do Juízo Final. Todos celebrariam a beleza de seu Mestre, a grandeza de sua misericórdia e a razão das razões para o anjo exterminador punir os ingratos e os omissos. Mas o extermínio final não acontecia. Deus, na sua misericórdia infinita, perdoava. Eis as últimas frases de Jesus que fazem o anjo exterminador curvar-se:

"Também na santa Pátria
Meus eleitos serão gloriosos
Comunicando-lhes minha vida
Os farei como deuses!"

O amor divino pode tudo, mesmo transformar um homem em deus. Não se sabe se, naquela noite de Natal de 1894, as carmelitas de Lisieux entenderam a audácia e a novidade da mensagem que Thérèse transmitiu através dessas estrofes e do final do coro dos anjos que queriam virar crianças!

A serva de Deus abalou as crises mais cristalizadas de sua época, demoliu o Juízo Final, aboliu a punição dos maus sem que no Carmelo ninguém se desse conta. As carmelitas ouviram voar os anjos e não foram exatamente os que Thérèse tinha colocado em cena. Bem-aventurada incompreensão que pode ser considerada como um milagre de Natal. Caso as carmelitas formadas no temor de Deus tivessem compreendido a mensagem de amor e de liberação, o escândalo teria sido maior do que o que causara no Vaticano... "O pecado só existe na medida em que o criamos.", já dizia Gibran Kahlil Gibran.

Em 21 de junho de 1896, tiveram lugar o solstício de verão e a festa de madre Maria de Gonzaga. Esta quisera sua comemoração solene, para mostrar que votara a ser a rainha do Carmelo. Madre Maria de Gonzaga tinha então sessenta e dois anos. Vivera na ilusão de ser priora para o resto da vida. A tomada de poder por madre Agnes de Jesus não passara de um aborrecido intervalo que se encerraria com o seu retorno triunfal. Infelizmente, as eleições de 21 de março não acarretaram o triunfo esperado: sete turnos para se chegar ao resultado. Ela acreditava tanto ser a "amada de seu rebanho" e teve de render-se à evidência... em quem confiar? A superiora não escondia sua amargura e sua saúde ficara abalada.

Thérèse tentou persuadir madre Maria de Gonzaga de que ela não havia sido traída. Seu poder de persuasão se exprimiu em um conto, Lenda de um carneirinho, obra-prima de diplomacia carmelita que a priora adoraria.

A festa de São Luís Gonzaga, em 21 de junho, chegou a servir para desarmar os espíritos. Thérèse escreveu uma peça intitulada O triunfo da humildade, que seguia a linha cômica. A comunidade precisava rir um pouco depois das peripécias eleitorais... O título já era motivo de risos, por ser escrita em homenagem a madre Maria de Gonzaga, para quem a humildade não era a primeira virtude.

Deve-se à Santa Teresa d'Ávila a introdução de recreações, divertimentos destinados a romper a monotonia da vida carmelita. Festejava-se com peças de temas exclusivamente religiosos as datas do Natal, Páscoa, grandes acontecimentos da liturgia. No Carmelo de Lisieux celebrava-se ainda com brilho especial a festa da priora. No passado fora, todos os anos, o dia de glória de madre Maria de Gonzaga. Se Molière reconhecia que era difícil fazer rir as pessoas de bem, mais difícil ainda era distrair as carmelitas!

Aos risos sucederam-se gargalhadas, começadas logo ao levantar do pano. Três irmãs ocupavam a cena: a própria autora, irmã Maria Madalena e irmã Maria do Espírito Santo. Cada uma interpretava a si mesma, no convento. Coube a Thérèse dar a primeira deixa, perguntando, não sem malícia, à irmã Maria do Espírito Santo: "O que pensa da festa de nossa madre? Já viu algo mais encantador do que essa união de corações, do que esta doce alegria?", ao que a outra respondeu exaltando o "encanto especial" das festas do Carmelo e sublinhando "o espírito de família" que reinava ali. Aparentemente estavam, naquele dia 21 de junho, tão unidas quando estariam com os Astrides...

Nunca devemos nos levar a sério, mesmo às portas da morte: eis um dos ensinamentos de Thérèse e, talvez, um dos segredos de ter encontrado suas últimas forças...

(Nota) A primeira peça que Teresa compôs, cujo personagem, interpretada por ela mesma, foi: "A missão de Joana d'Arc", que tinha o subtítulo: "A pastora de Domrémy escutando suas Vozes". Essa peça foi escrita para a festa de sua irmã e superiora Agnes de Jesus, em 21 de Janeiro de 1894.

(Próxima página) Uma Vida de Amor

Bibliografia: Thérèse de Lisieux — Une vie d'amour; Sainte Thérèse de l'Enfant Jésus et de la Sainte Face. Histoire d'une Ame. Manuscrits autobiographiques. Tradução de Arnaldo Poesia.

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