Imagens de Anne Frank

Anne Frank - 1929/1945


Amsterdã, 1942: o começo do drama...

Anne Frank (Anneliese Marie Frank) nasce em 12 de junho de 1929 em Frankfurt, Alemanha. Em 1933 chega ao poder nesse país o partido nacional-socialista e anti-semita de Hitler. Edith e Otto Frank, os pais judeus de Anne, compreendem que seu próprio futuro e o de suas filhas está fora da Alemanha. Fogem para a Holanda nesse mesmo ano; Anne tem então quatro anos. Durante sete anos leva uma vida despreocupada na relativamente segura Holanda. A Alemanha ocupa o país em 1940, pondo fim à segurança que oferecia. As medidas anti-semitas vão limitando cada vez mais a vida de Anne Frank. Em 1942 começam as deportações para os supostos campos de trabalho. Os pais de Anne conseguem esconder-se na casa de trás do edifício onde funciona a empresa de Otto Frank. Ali permanecerão mais de dois anos. Em agosto de 1944, são presos e deportados para o campo de trânsito de Westerbork (Holanda)...

~ A citação ~

"Fiquei muito assustada. Uma citação! Todo mundo sabe o que isso significa.
Em minha mente apareceram campos de concentração e celas solitárias."

                                                                                                                          (Anne Frank, em 1942)

Os rumores de que os judeus seriam mandados para a Alemanha são confirmados. No dia 5 de julho de 1942, Margot Frank e outros mil judeus de Amsterdã recebem uma citação. Os nazistas pretendem enviá-los para um campo de trabalhos forçados. Se Margot não se apresentar, deterão toda a família.


– O Escritório Central de Imigração Judaica
entrega aos judeus citados este formulário,
no que vem indicado detalhadamente o que
podem levar e a data de partida.

~ O refúgio (A casa de trás) ~

“Não sair nunca”

“O que mais me angustia é o fato de nunca podermos sair da casa,
e tenho muito medo de que nos descubram e nos fuzilem.”

                                                                                      (Anne Frank )

Os que estão refugiados na casa não podem sair: seria demasiado perigoso. Durante o dia, as cortinas da casa de trás devem permanecer fechadas, para que os vizinhos não possam vê-los. A única possibilidade de respirar algo de ar puro é através de uma pequena passagem do teto. Durante a noite, as janelas ficam às vezes entreabertas.

Horários fixos

Otto e Edith Frank têm levado em conta a possibilidade de que sua permanência no refúgio se estenda por muito tempo e têm trazidos para suas filhas vários livros de texto escolares. No dia 21 de setembro de 1942, Anne escreve que começou a estudar. Em suas memórias, Otto Frank fala a respeito: “Estabelecendo desde o princípio uns horários fixos e uma série de tarefas para cada refugiado, podíamos esperar que nos adaptássemos a situação. Sobretudo as meninas deviam ter livros suficientes para ler e estudar. Não queríamos pensar no quanto iria durar aquele refúgio voluntário”.

A vida na casa de trás


– Em primeiro plano, a famosa castanheira (à direita).

Os refugiados cumprem horários muito restritos. Hermann van Pels se levanta diariamente às 6.45; seguido pelos demais. Das 8.30 às 9.00, todos têm que guardar absoluto silêncio, pois a essa hora começa a trabalhar o pessoal do armazém. Os que trabalham nas oficinas, ou seja, os nossos protetores, não chegaram ainda: seu horário começa por volta das 9.00. A essa hora, os refugiados fazem um lanche na casa de Hermann e Auguste van Pels. Miep Gies sobe rapidamente ao refúgio para colocar o pessoal a par da situação e receber a lista das compras. Também durante o resto do dia, os protetores só passam alguns momentos na casa de trás, por exemplo, para fazer alguma consulta de negócios ou para levai coisas.

Hora do almoço

Às 12.30, o pessoal do armazém vão para casa comer e os refugiados respiram aliviados. Preparam o almoço e às 13.00 escutam o noticiário da BBC de Londres. Às 13.15 é servido o almoço. Bep Voskuijl está sempre presente à mesa, Jan Gies na maioria das vezes, e só de vez em quando Victor Kugler ou Johannes Kleiman. Às 13. 45 todos começam de novo a trabalhar. Limpam a mesa, lavam os pratos e logo chega a hora do “cochilo”. Anne prefere não dormir, mas aproveita o tempo para escrever em seu diário.

A “folga vespertina”

Às 17.30, Bep concede aos refugiados a “folga vespertina”, segundo relata Anne em seu diário. O restante do pessoal de Opekta já foi embora. Bep pergunta se tem algum recado para mandar e também sai, às 17.45. Os refugiados se dispersam pelas oficinas, até que Auguste van Pels e Edith Frank tenham preparado o jantar.

Insônia

Chega a hora do jantar, acompanhado das notícias que escutam pelo rádio. Lá pelas 21.00, preparar as camas, o que significa mudar muitas coisas de lugar. A partir das 22.00, já não se ouvem ruídos se na casa de trás, considerando que muitas vezes custam a pegar no sono, sobretudo quando a defesa antiaérea revida os ataques da aviação aliada.

Ler e estudar

Durante o dia, os refugiados procuram passar o tempo comendo, dormindo, lendo e estudando. Anne escreve em seu diário, no dia 16 de maio de 1944, um longo texto sobre o que lêem e estudam cada um:

O senhor van Pels: não estuda nada nada; consulta muito a enciclopédia Knaur; lê novelas de detetives, livros de medicina e histórias de intriga e de amor sem importância.
A senhora van Pels: estuda inglês por correspondência; gosta de ler biografias noveladas e algumas novelas.
O senhor Frank: estuda inglês (Dickens!) e alguma coisa de latim; nunca lê novelas, mas gosta de saber sobre pessoas e países.
A senhora Frank: estuda inglês por correspondência; lê de tudo, menos as histórias de detetives.
O senhor Pfeffer: estuda inglês, espanhol e holandês sem resultado aparente; lê de tudo; sua opinião se ajusta a da maioria.
Peter van Pels: estuda inglês, francês (por correspondência), taquigrafia holandesa, inglesa e alemã, correspondência comercial em inglês, entalhes em madeira, economia política e, às vezes, matemáticas; lê pouco, às vezes livros sobre geografia.
Margot Frank: estuda inglês, francês, latim por correspondência, taquigrafia inglesa, alemã e holandesa, mecânica, trigonometria, geometria, geometria do espaço, física, química, álgebra, literatura inglesa, francesa, alemã e holandesa, contabilidade, geografia, história moderna, biologia, economia; lê de tudo, de preferência livros sobre religião e medicina.
Anne Frank: estuda francês, inglês, alemão, taquigrafia holandesa, geometria, álgebra, história, geografia, história da arte, mitologia, biologia, história bíblica, literatura holandesa; adora ler biografias, livros de história (às vezes novelas e livros de variedades).

Desejos

Às vezes, os ocupantes do refúgio comentam detalhadamente seus desejos acerca de quando voltarem à liberdade. Anne anota tudo no dia 23 de julho de 1943: “O que mais desejam Margot e o senhor Van Pels é um banho de água quente de corpo inteiro, durante pelo menos meia hora. A senhora Van Pels queria em seguida comer pastéis, a única coisa que Pfeffe pensa é em sua Charlotte, e mamãe ir a algum lugar tomar café. Papai iria visitar o senhor Voskuijl, Peter iria ao centro da cidade e ao cinema, e eu de tanta alegria não saberia por onde começar. O que mais desejo é uma casa própria, poder movimentar-me livremente e que alguém me ajude a fazer os deveres, ou seja, voltar ao colégio!”.

~ Quem denunciou Anne Frank e a seus amigos?... ~

“Hoje não quero saber quem nos delatou em Amsterdã.”
                                                                                                   (Otto Frank)

Alguém chamou a polícia alemã para informar de que na Prinsengracht 263 havia judeus escondidos. Nunca se conheceu sua identidade. Esta pergunta continua intrigando a muita gente. Houve algumas suspeitas, e em 1948 aconteceu a primeira investigação. Quatorze anos depois se fez nova tentativa de reconstruir os fatos. Ambas as investigações resultaram infrutíferas, sem que se chegasse ao autor da denúncia. Em 1998, Melissa Müller afirmou em sua biografia de Anne Frank que poderia ser Lena Hartog-van Bladeren. Dois anos depois, em sua biografia de Otto Frank, Carol Ann Lee lançou outra teoria: segundo ela, o delator talvez fosse Tonny Ahlers, conhecido de Otto Frank.


– A estante giratória

Suspeitas

“Quem denunciou Anne Frank e aos outros ocupantes do refúgio? Quem chamou naquela manhã a Sicherheitsdienst, a polícia alemã?” Esta pergunta, tem sido motivo de numerosas conjecturas até o dia de hoje, porque nunca se chegou à verdade. Tudo não passa de suspeitas e probabilidades. Muita gente devia saber da existência do grupo de judeus escondidos na Prinsengracht; por exemplo, vários fornecedores, pois para o sustento diário dos refugiados teriam que ser entregues muitas coisas: verduras, pão, carne, etc. Também alguns vizinhos deviam suspeitar de algo: é praticamente impossível que oito pessoas vivam dois anos em uma casa e passem despercebidas.

Pessoal do armazém

Contudo, o mais lógico é buscar o delator entre os membros do pessoal da firma Opekta. Naturalmente, os quatros protetores — que trabalham nas oficinas — estavam cientes de tudo, mas quem trabalhava no armazém do andar de baixo não estavam bem informados. Portanto, constituíam para os que estavam escondidos uma fonte contínua de preocupação: “Não se dariam conta de nada?”, “Seriam de confiança?”.

Um personagem muito curioso

Anne escreve em 4 de março de 1943: “O pessoal do armazém, todavia nos deixam bastante preocupados”. Os ocupantes do refúgio temem principalmente Willem van Maaren, um indivíduo muito curioso ao parecer, que suspeita que durante a noite tenha gente no armazém. Anne: “No armazém deixa livros e papeizinhos nos cantos das mesas, para que, com só passar perto deles ou tocá-los, sejamos descobertos. Quanto a Kleiman, Kugler e os dois homens foi considerada a possibilidade de mandá-los embora. Parece um pouco arriscado, mas não é muito mais arriscado continuar assim?”. Todos consideram que Van Maaren não é muito confiável. Também se lhe atribuem vários furtos de mercadorias da empresa.

Primeiras investigações

Nos primeiros anos do pós-guerra, a pergunta de quem havia denunciado os Frank preocupa cada vez mais a Kleiman e aos outros protetores. Imediatamente depois da libertação, Kleiman escreve uma carta ao escritório de investigação política (POD), encarregada de localizar as pessoas que haviam colaborado com os alemães. Em sua carta, Kleiman expressa suas suspeitas sobre Van Maaren e solicita ao POD que verifiquem. Sem dúvida, durante dois anos o POD não fez nada com a carta. Só em 1948 se realizam as primeiras investigações, provavelmente motivadas por algumas declarações de Otto Frank ante o departamento de investigação política (PRA) da polícia de Amsterdã.


– Recortes de jornais sobre a denúncia.

Superficial

A polícia interroga os protetores Miep Gies, Johannes Kleiman e Victor Kugler, bem como Willem van Maaren e Lammert Hartog, outro empregado do armazém. Hartog confessa que quinze dias antes da invasão da casa de trás, Van Maaren lhe havia dito que ali havia judeus escondidos. Também se supõe que a mulher de Hartog o sabia. Retrospectivamente, podemos dizer que a investigação deixou muito a desejar. Não foram feitas muitas perguntas e só foram interrogadas algumas pessoas. Tudo foi relativamente superficial. A investigação foi suspensa devido ao fato de não provar nada. Passariam quatorze anos até que se se inicia una nova investigação.

A localização de Silberbauer

Nos anos cinqüenta, o diário de Anne Frank adquire fama mundial. Realiza-se uma adaptação teatral e outra cinematográfica. O fato de que nunca se pôde descobrir o delator é motivo de uma insatisfação cada vez maior. Em 1963, Simon Wiesenthal localiza em Viena (Áustria) Karl Silberbauer, o suboficial da SS encarregado de comandar o procedimento de detenção na casa de trás. O que dá lugar a uma nova investigação. Silberbauer, que trabalha em Viena como policial, recorda muitos detalhes da detenção, mas declara desconhecer a identidade do delator. Julius Dettmann, que no momento atendera ao telefone, se suicida pouco depois da guerra. Enquanto se leva a cabo a investigação, Silberbauer foi suspenso do seu trabalho, mas quando disse que só havia cumprido ordens e que seu procedimento durante a detenção tinha sido correto, é restituído ao antigo cargo. Morre em 1972.

Outra vez Willem van Maaren

A investigação realizada em 1963 é muito mais exaustiva que a de 1948, e se concentra outra vez em Willem van Maaren. Já que são interrogadas novas testemunhas, outras testemunhas importantes já haviam falecido. Kleiman morre em1959. Também o empregado do armazém Hartog e sua esposa estão mortos. Conheceram-se muitos mais fatos acerca de Van Maaren, por exemplo, que, efetivamente, ele cometeu os roubos que se lhe atribuíam, mas de novo não foi possível comprovar que ele havia sido o autor da denúncia. Em 1964 é concluída a investigação, sem resultado concreto. Van Maaren morre em 1971.

Outra presumível delatora: Lena Hartog-van Bladeren

Em1998 é publicada uma biografia de Anne Frank escrita por Melissa Müller. Nela, a autora afirma que o segundo empregado do armazém, Lammert Hartog, certamente também sabia da existência dos judeus escondidos, inclusive Lena Hartog-van Bladeren, sua mulher. Ela não só trabalhava na Prinsengracht 263, mas também na casa de Petrus Genot, empregado do irmão de Kleiman. Quando Lena Hartog é interrogada pela polícia em 1948, não menciona o fato de que havia trabalhado na Prinsengracht 263. Segundo declarações de Anna Genot, esposa de Petrus, em 1948, Lena lhe confessou em julho de 1944 que estava muito preocupada com a segurança de seu marido, posto que na Prinsengracht havia judeus escondidos. Também Bep lhe havia dito que as vidas de todos eles corriam perigo se esse fato fosse descoberto. Melissa Müller sugere em seu livro que os refugiados foram denunciados muito provavelmente por Lena Hartog-van Bladeren. Contudo, não existe nenhuma prova. O certo é que as investigações realizadas em 1948 e 1963/64 se concentraram em Willem van Maaren e que o papel desempenhado por Lena Hartog-van Bladeren e seu marido nunca foi investigado seriamente.


– Trecho da carta de delação.

Outro suspeito: Tonny Ahlers

Otto Frank e Tonny Ahlers se conhecem em abril de 1941, quer dizer, antes do passo para a clandestinidade dos Frank. Em uma ocasião, ao conversar com um conhecido seu, Otto Frank manifestou-lhe suas dúvidas a respeito de uma vitória do exército alemão. Seguidamente, o conhecido o denuncia enviando uma carta a Gestapo. Tonny Ahlers, que freqüentara círculos do partido nazista holandês NSB e da SD, intercepta a carta e exige dinheiro a Otto Frank em troca de seu silêncio. Na opinião de Carol Ann Lee, essa não seria a única vez que Tonny Ahlers chantageia Otto Frank. Ahlers afirmará depois da guerra que sabia da existência da casa de trás. Por isso, segundo Lee, ele é o autor da denúncia.

Investigação do NIOD

Em 2003, o Instituto de Documentação de Guerra dos Países Baixos (NIOD) examina as teorias em torno de Lena Hartog-van Bladeren e Tonny Ahlers. Ambas acabam sendo descartadas. A conclusão definitiva recolhida no informe do NIOD diz: “Lamentavelmente, teremos que ater-nos ao que já comprovamos em 1986. Os fatos reais já não poderão ser reconstruídos. Sem duvida, custa aceitá-los, porque está claro que gostaríamos de revelar a identidade do delator ou dos delatores, para poder colocar um ponto final nesta página da história de Anne Frank. Mas este não é o caso. Todavia, não se exclui a possibilidade de que no futuro apareçam novas hipóteses em torno da denúncia. Haverá de se ver se estas se baseiam em fontes fidedignas”.

Na página da internet do NIOD pode ser lido o resultado da nova investigação (em holandês e em inglês).

~ O dia em que Anne e seus amigos foram presos ~

“Há muitas coisas das quais agora me custa falar. E outras das que já não quero
falar. Por exemplo, do que senti quando nos tiraram de nosso refúgio.”
                                                                                                                                          (Otto Frank, 1979)

No dia 4 de agosto de 1944, um dia quente e ensolarado. No quartel general do Serviço de Segurança Alemão (SD), de Amsterdã, chega pela manhã uma denúncia telefônica. Atende ao telefone Julius Dettman, que dá ao suboficial de turno Karl Silberbauer a ordem de dirigir-se a Prinsengracht. Ele leva quatro soldados nazistas holandeses. Silberbauer e seus acompanhantes entram no andar térreo do prédio e se dirigem ao empregado do armazém Willem van Maaren, que, sem pronunciar uma palavra, aponta para o teto.


– Quartel general do Serviço de Segurança Alemão (SD)

“Fique sentada”

O pessoal da firma está trabalhando no primeiro andar quando, de repente, a porta se abre. Miep Gies explicaria mais tarde: “Entrou um homem de baixa estatura empunhando uma pistola. Enquanto me apontava, me disse: Fique sentada e não se mova”. Victor Kugler ouve ruídos na oficina contígua e sai para ver o que está acontecendo: “Vi quatro agentes de polícia, um dos quais vestia o uniforme da Gestapo”. Um dos policiais lhe aponta uma pistola e ordena que o acompanhe. Dirigem-se a estante giratória e abrem-na. Com as pistolas engatilhadas, os policiais entram na casa de trás.

Um homem com uma pistola

A ação toma totalmente de surpresa os que estavam escondidos na casa. Levam mais de dois anos convivendo com o temor permanente de serem descobertos. O momento fatídico havia chegado. Otto Frank relata após a guerra: “Eram por volta das dez e meia. Eu estava com os filhos de Van Pels, no quartinho de Peter, ajudando-lhes a fazer os deveres. De repente, ouço alguém subindo as escadas, abre a porta e aparece diante de nós com uma pistola na mão. Lá em baixo todos já estavam reunidos. Minha mulher, as meninas e os Van Pels estavam ali com as mãos para o alto”. Em seguida, levam também Fritz Pfeffer a casa.

Objetos de valor

Os refugiados devem entregar seus objetos de valor. Silberbauer pega a maleta onde Anne guarda as páginas de seu diário, abre-a e sacode-a para esvaziá-la e colocar as coisas que levará. As páginas do diário de Anne caem no chão. Otto Frank lembra: “Então nos ordenou: Preparem-se em cinco minutos!". Conta Miep Gies: “Os ouvi descer lentamente as escadas”. Junto com Victor Kugler e Johannes Kleiman, seus protetores igualmente detidos, são levados em um furgão os ocupantes do refúgio.

Para o cárcere

Os oito refugiados são levados para a prisão da SD situada na Rua Euterpestraat. Os encerram em um grande recinto junto com outros detidos e logo os interrogam um a um. Os policiais procuram averiguar se os ocupantes da casa de trás e seus protetores sabem de outros locais onde possa haver gente escondida. Johannes Kleiman e Victor Kugler não falam. Otto Frank responde a pergunta dizendo que os 25 meses que estiveram encerrados no refúgio lhes tinha feito perder todo contato com seus amigos e conhecidos e que, portanto, não sabem de nada. Logo separam os refugiados de seus protetores. Estes são mandados para a cadeia da Rua Amstelveenseweg, enquanto que aqueles vão para a prisão de Weteringschans, ambas de Amsterdã.


– Karl Josef Silberbauer comandou a operação
que deteve Anne e a seus amigos.

~ Para o campo de Westerbork ~

“Viajamos em um trem de passageiros. As portas do vagão foram trancadas desde a saída da estação, mas isso não nos importava. (...) Anne não se afast ou da janela em nenhum momento. Era verão. Do lado de fora víamos paisagens e campos de cereais em plena colheita. Os povoados passavam voando. Os cabos telefônicos descreviam linhas sinuosas ascendentes e descendentes ao longo da janela. Para nós, tudo isso significava a liberdade.”

(Otto Frank)

À primeira hora da manhã de 8 de agosto de 1944, os oito refugiados e os outros prisioneiros foram transportados de caminhão para a estação ferroviária central, onde já os esperava um trem de passageiros. Janny Brilleslijper era uma das outras prisioneiras. Na plataforma estava a família Frank: “Me chamaram a atenção o material esportivo e as mochilas das meninas, como se fossem para as férias de inverno.”, lembrou Janny. O trem levou os prisioneros para Westerbork.

Após algumas horas, o trem chegou a Westerbork, a noroeste da Holanda. Os prisioneiros foram registrados e levados para os barracões, destinados aos judeus que, em lugar de se apresentarem voluntariamente para a deportação, preferiram se esconder. Haviam barracões separados para homens e mulheres.

Durante o dia, os prisioneiros tinham que trabalhar pesado. As mulheres executavam tarefas insalubres que não tinham a ver com a sua condição: “A única vantagem era que podíamos conversar umas com as outras.”, disse uma das prisioneiras.


– Campo de Westerbork

Deportação

De Westerbork partiam muitos trens rumo aos campos de concentração no Leste. No sábado 2 de setembro foi publicada a lista dos prisioneiros que deveriam partir no dia seguinte. Entre os 1019 nomes figuravam os dos oitos ocupantes da casa de trás.

(Otto Frank)

Mortos de cansaço

No dia seguinte, de madrugada, um grande trem de carga estava à espera da partida. Cada vagão transportava uns 70 prisioneiros amontoados: homens, mulheres e crianças, sadios e enfermos. A maioria viajava em pé. Os Frank conseguiram viajar juntos. Lenie de Jong-van Naarden, outra das passageiras do trem, lembra: “Muitas crianças dormiam apoiadas em seus pais, entre elas as imãs Frank; todos estavam mortos de cansaço”.

Exaustos

A viagem de trem durou três dias. Em cada vagão havia um balde que às vezes era usado como vaso sanitário. Em pouco tempo, o cheiro se tornava insuportável. Não dava vontade de comer nada. Janny Brilleslijper: “Viajamos todos espremidos uns aos outros. Nos vagões haviam passagens laterais revestidas com grossas telas metálicas, por onde entrava ar». Às vezes o trem andava rápido, em outras devagar. Rosa de Winter-Levy: “Em dois dias de viagem estávamos exaustos. Num lado do vagão um homem morreu, no outro uma mulher desmaiou, as crianças choravam, era quase impossível agüentar”.

O olhar de Margot

Na terceira noite, o trem pára de repente. São por volta das duas da madrugada. As portas dos vagões se abrem. “Saiam! Rápido, mais rápido!”, gritam uns homens vestidos com roupas listradas, que nos obrigam a deixar nossos equipamentos no trem. Eram prisioneiros de Auschwitz, cuja tarefa consistia em tirar dos trens os prisioneiros a medida que iam chegando. A plataforma era patrulhada por soldados da SS com cães. Traziam chicotes nas mãos. Potentes refletores iluminavam a área. Os homens tinham que ficar de um lado, as mulheres do outro. Foi a última vez que Otto Frank viu sua mulher e suas filhas. “Nunca em minha vida esquecerei o olhar de Margot”, revelaria anos depois referindo-se àquele momento.

Para a direita

Médicos da SS examinavam a cada um dos prisioneiros. As crianças, os velhos e os doentes iam para um lado, os demais prisioneiros para o outro. Rosa de Winter-Levy descreve aquele momento: “O oficial os observa com um olhar inquiridor. Sem dizer nada, manda que sigam para a direita. (...) Para o outro lado, os maiores e as crianças pequenas com suas mães ou acompanhantes... Nunca mais seriam vistos. Foram levados diretamente para as câmaras de gás”. Também aos oito ocupantes da casa de trás lhes indicam que sigam para a direita...

O final dramático, todos já conhecem...

~ Arnaldo Poesia ~

_________
Bibliografia: Anne Frank – Uma biografia, Melissa Müller, 1998. – O Diário de Anne Frank. – Anotações sobre uma menina chamada Anne, Arnaldo Poesia, Edição do autor, Niterói, 1991. – Memórias de Miep Gies, 1987. – Memórias de Anne Frank – As lembranças de uma amiga de infância, Alison Leslie Gold, 1997.

_________
© Arnaldo Poesia, Quinzaine Litteraire, Paris – Le Monde, Paris, 1991/2009.

  • Anne Frank, escritora
  • Achado cartão de Anne Frank
  • O Diário de Anne Frank

  • Exposição Anne Frank
  • Não deixe de ver:

  • Anne Frank


  • Para comprar livros sobre Anne Frank,
    clique no banner abaixo:


    Portal Starnews 2001

    © Starnews 2001. All rights reserved.