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Amsterdã, 1942: o começo do drama...

Anne Frank (Anneliese Marie Frank) nasce em 12 de junho de 1929 em Frankfurt,
Alemanha. Em 1933 chega ao poder nesse país o partido nacional-socialista e
anti-semita de Hitler. Edith e Otto Frank, os pais judeus de Anne, compreendem
que seu próprio futuro e o de suas filhas está fora da Alemanha. Fogem para a
Holanda nesse mesmo ano; Anne tem então quatro anos. Durante sete anos leva uma
vida despreocupada na relativamente segura Holanda. A Alemanha ocupa o país em
1940, pondo fim à segurança que oferecia. As medidas anti-semitas vão limitando
cada vez mais a vida de Anne Frank. Em 1942 começam as deportações para os
supostos campos de trabalho. Os pais de Anne conseguem esconder-se na casa de
trás do edifício onde funciona a empresa de Otto Frank. Ali permanecerão mais de
dois anos. Em agosto de 1944, são presos e deportados para o campo de trânsito
de Westerbork (Holanda)...

~ A citação ~
"Fiquei muito assustada. Uma citação! Todo
mundo sabe o que isso significa.
Em minha mente apareceram campos de concentração e celas
solitárias."
(Anne Frank, em 1942)
Os rumores de que os judeus seriam mandados para a Alemanha
são confirmados. No dia 5 de julho de 1942, Margot Frank e outros mil judeus
de Amsterdã recebem uma citação. Os nazistas pretendem enviá-los para um campo
de trabalhos forçados. Se Margot não se apresentar, deterão toda a
família.

– O Escritório Central de Imigração Judaica
entrega aos judeus citados este formulário,
no que vem indicado detalhadamente o que
podem levar e a data de partida.

~ O refúgio (A casa de trás) ~
“Não sair nunca”
“O que mais me angustia é o fato de nunca
podermos sair da casa,
e tenho muito medo de que nos descubram e nos fuzilem.”
(Anne Frank )
Os que estão refugiados na casa não podem sair: seria demasiado
perigoso. Durante o dia, as cortinas da casa de trás devem permanecer fechadas,
para que os vizinhos não possam vê-los. A única possibilidade de respirar algo de
ar puro é através de uma pequena passagem do teto. Durante a noite, as janelas
ficam às vezes entreabertas.
Horários fixos
Otto e Edith Frank têm levado em conta a possibilidade de que sua permanência
no refúgio se estenda por muito tempo e têm trazidos para suas filhas vários
livros de texto escolares. No dia 21 de setembro de 1942, Anne escreve que
começou a estudar. Em suas memórias, Otto Frank fala a respeito: “Estabelecendo
desde o princípio uns horários fixos e uma série de tarefas para cada refugiado,
podíamos esperar que nos adaptássemos a situação. Sobretudo as meninas deviam
ter livros suficientes para ler e estudar. Não queríamos pensar no quanto iria
durar aquele refúgio voluntário”.
A vida na casa de trás

– Em primeiro plano, a famosa castanheira (à direita). |
Os refugiados cumprem horários muito restritos. Hermann van
Pels se levanta diariamente às 6.45; seguido pelos demais. Das 8.30 às 9.00,
todos têm que guardar absoluto silêncio, pois a essa hora começa a trabalhar o
pessoal do armazém. Os que trabalham nas oficinas, ou seja, os nossos protetores,
não chegaram ainda: seu horário começa por volta das 9.00. A essa hora, os
refugiados fazem um lanche na casa de Hermann e Auguste van Pels. Miep Gies sobe
rapidamente ao refúgio para colocar o pessoal a par da situação e receber a
lista das compras. Também durante o resto do dia, os protetores só passam alguns
momentos na casa de trás, por exemplo, para fazer alguma consulta de negócios ou
para levai coisas.
Hora do almoço
Às 12.30, o pessoal do armazém vão para casa comer e os refugiados respiram
aliviados. Preparam o almoço e às 13.00 escutam o noticiário da BBC de Londres.
Às 13.15 é servido o almoço. Bep Voskuijl está sempre presente à mesa, Jan Gies
na maioria das vezes, e só de vez em quando Victor Kugler ou Johannes Kleiman.
Às 13. 45 todos começam de novo a trabalhar. Limpam a mesa, lavam os pratos e
logo chega a hora do “cochilo”. Anne prefere não dormir, mas aproveita o tempo
para escrever em seu diário.
A “folga vespertina”
Às 17.30, Bep concede aos refugiados a “folga vespertina”, segundo relata
Anne em seu diário. O restante do pessoal de Opekta já foi embora. Bep pergunta
se tem algum recado para mandar e também sai, às 17.45. Os refugiados se
dispersam pelas oficinas, até que Auguste van Pels e Edith Frank tenham
preparado o jantar.
Insônia
Chega a hora do jantar, acompanhado das notícias que escutam pelo rádio. Lá
pelas 21.00, preparar as camas, o que significa mudar muitas coisas de lugar. A
partir das 22.00, já não se ouvem ruídos se na casa de trás, considerando que
muitas vezes custam a pegar no sono, sobretudo quando a defesa antiaérea revida
os ataques da aviação aliada.
Ler e estudar
Durante o dia, os refugiados procuram passar o tempo comendo, dormindo, lendo
e estudando. Anne escreve em seu diário, no dia 16 de maio de 1944, um longo
texto sobre o que lêem e estudam cada um:
O senhor van Pels: não estuda nada nada; consulta muito a
enciclopédia Knaur; lê novelas de detetives, livros de medicina e histórias de
intriga e de amor sem importância.
A senhora van Pels: estuda inglês por correspondência; gosta de
ler biografias noveladas e algumas novelas.
O senhor Frank: estuda inglês (Dickens!) e alguma coisa de latim;
nunca lê novelas, mas gosta de saber sobre pessoas e países.
A senhora Frank: estuda inglês por correspondência; lê de tudo,
menos as histórias de detetives.
O senhor Pfeffer: estuda inglês, espanhol e holandês sem resultado
aparente; lê de tudo; sua opinião se ajusta a da maioria.
Peter van Pels: estuda inglês, francês (por correspondência),
taquigrafia holandesa, inglesa e alemã, correspondência comercial em inglês,
entalhes em madeira, economia política e, às vezes, matemáticas; lê pouco, às
vezes livros sobre geografia.
Margot Frank: estuda inglês, francês, latim por correspondência,
taquigrafia inglesa, alemã e holandesa, mecânica, trigonometria, geometria,
geometria do espaço, física, química, álgebra, literatura inglesa, francesa,
alemã e holandesa, contabilidade, geografia, história moderna, biologia,
economia; lê de tudo, de preferência livros sobre religião e medicina.
Anne Frank: estuda francês, inglês, alemão, taquigrafia holandesa,
geometria, álgebra, história, geografia, história da arte, mitologia, biologia,
história bíblica, literatura holandesa; adora ler biografias, livros de história
(às vezes novelas e livros de variedades).
Desejos
Às vezes, os ocupantes do refúgio comentam detalhadamente seus desejos acerca
de quando voltarem à liberdade. Anne anota tudo no dia 23 de julho de 1943: “O
que mais desejam Margot e o senhor Van Pels é um banho de água quente de corpo
inteiro, durante pelo menos meia hora. A senhora Van Pels queria em seguida
comer pastéis, a única coisa que Pfeffe pensa é em sua Charlotte, e mamãe ir a
algum lugar tomar café. Papai iria visitar o senhor Voskuijl, Peter iria ao
centro da cidade e ao cinema, e eu de tanta alegria não saberia por onde
começar. O que mais desejo é uma casa própria, poder movimentar-me livremente e
que alguém me ajude a fazer os deveres, ou seja, voltar ao
colégio!”.

~ Quem denunciou Anne Frank e a seus
amigos?... ~
“Hoje não quero saber quem nos delatou em Amsterdã.”
(Otto Frank)
Alguém chamou a polícia alemã para informar de que na Prinsengracht 263 havia
judeus escondidos. Nunca se conheceu sua identidade. Esta pergunta continua
intrigando a muita gente. Houve algumas suspeitas, e em 1948 aconteceu a
primeira investigação. Quatorze anos depois se fez nova tentativa de reconstruir
os fatos. Ambas as investigações resultaram infrutíferas, sem que se chegasse ao
autor da denúncia. Em 1998, Melissa Müller afirmou em sua biografia de Anne
Frank que poderia ser Lena Hartog-van Bladeren. Dois anos depois, em sua
biografia de Otto Frank, Carol Ann Lee lançou outra teoria: segundo ela, o
delator talvez fosse Tonny Ahlers, conhecido de Otto Frank.

– A estante giratória
Suspeitas
“Quem denunciou Anne Frank e aos outros ocupantes do refúgio?
Quem chamou naquela manhã a Sicherheitsdienst, a polícia alemã?” Esta pergunta,
tem sido motivo de numerosas conjecturas até o dia de hoje, porque nunca se
chegou à verdade. Tudo não passa de suspeitas e probabilidades. Muita gente
devia saber da existência do grupo de judeus escondidos na Prinsengracht; por
exemplo, vários fornecedores, pois para o sustento diário dos refugiados teriam
que ser entregues muitas coisas: verduras, pão, carne, etc. Também alguns
vizinhos deviam suspeitar de algo: é praticamente impossível que oito pessoas
vivam dois anos em uma casa e passem despercebidas.
Pessoal do armazém
Contudo, o mais lógico é buscar o delator entre os membros do pessoal da
firma Opekta. Naturalmente, os quatros protetores — que trabalham nas oficinas —
estavam cientes de tudo, mas quem trabalhava no armazém do andar de baixo não
estavam bem informados. Portanto, constituíam para os que estavam escondidos uma
fonte contínua de preocupação: “Não se dariam conta de nada?”, “Seriam de
confiança?”.
Um personagem muito curioso
Anne escreve em 4 de março de 1943: “O pessoal do armazém, todavia nos deixam
bastante preocupados”. Os ocupantes do refúgio temem principalmente Willem
van Maaren, um indivíduo muito curioso ao parecer, que suspeita que durante a
noite tenha gente no armazém. Anne: “No armazém deixa livros e papeizinhos nos
cantos das mesas, para que, com só passar perto deles ou tocá-los, sejamos
descobertos. Quanto a Kleiman, Kugler e os dois homens foi considerada a
possibilidade de mandá-los embora. Parece um pouco arriscado, mas não é muito
mais arriscado continuar assim?”. Todos consideram que Van Maaren não é muito
confiável. Também se lhe atribuem vários furtos de mercadorias da empresa.
Primeiras investigações
Nos primeiros anos do pós-guerra, a pergunta de quem havia denunciado os
Frank preocupa cada vez mais a Kleiman e aos outros protetores. Imediatamente
depois da libertação, Kleiman escreve uma carta ao escritório de investigação
política (POD), encarregada de localizar as pessoas que haviam colaborado com os
alemães. Em sua carta, Kleiman expressa suas suspeitas sobre Van Maaren e
solicita ao POD que verifiquem. Sem dúvida, durante dois anos o POD não fez nada
com a carta. Só em 1948 se realizam as primeiras investigações, provavelmente
motivadas por algumas declarações de Otto Frank ante o departamento de
investigação política (PRA) da polícia de Amsterdã.

– Recortes de jornais sobre a denúncia.
Superficial
A polícia interroga os protetores Miep Gies, Johannes Kleiman
e Victor Kugler, bem como Willem van Maaren e Lammert Hartog, outro empregado do
armazém. Hartog confessa que quinze dias antes da invasão da casa de trás, Van
Maaren lhe havia dito que ali havia judeus escondidos. Também se supõe que a
mulher de Hartog o sabia. Retrospectivamente, podemos dizer que a investigação
deixou muito a desejar. Não foram feitas muitas perguntas e só foram interrogadas
algumas pessoas. Tudo foi relativamente superficial. A investigação foi suspensa
devido ao fato de não provar nada. Passariam quatorze anos até que se se inicia
una nova investigação.
A localização de Silberbauer
Nos anos cinqüenta, o diário de Anne Frank adquire fama mundial. Realiza-se
uma adaptação teatral e outra cinematográfica. O fato de que nunca se pôde
descobrir o delator é motivo de uma insatisfação cada vez maior. Em 1963, Simon
Wiesenthal localiza em Viena (Áustria) Karl Silberbauer, o suboficial da SS
encarregado de comandar o procedimento de detenção na casa de trás. O que dá
lugar a uma nova investigação. Silberbauer, que trabalha em Viena como policial,
recorda muitos detalhes da detenção, mas declara desconhecer a identidade do
delator. Julius Dettmann, que no momento atendera ao telefone, se suicida pouco
depois da guerra. Enquanto se leva a cabo a investigação, Silberbauer foi
suspenso do seu trabalho, mas quando disse que só havia cumprido ordens e que
seu procedimento durante a detenção tinha sido correto, é restituído ao antigo
cargo. Morre em 1972.
Outra vez Willem van Maaren
A investigação realizada em 1963 é muito mais exaustiva que a de 1948, e se
concentra outra vez em Willem van Maaren. Já que são interrogadas novas
testemunhas, outras testemunhas importantes já haviam falecido. Kleiman morre
em1959. Também o empregado do armazém Hartog e sua esposa estão mortos.
Conheceram-se muitos mais fatos acerca de Van Maaren, por exemplo, que,
efetivamente, ele cometeu os roubos que se lhe atribuíam, mas de novo não foi
possível comprovar que ele havia sido o autor da denúncia. Em 1964 é concluída a
investigação, sem resultado concreto. Van Maaren morre em 1971.
Outra presumível delatora: Lena Hartog-van
Bladeren
Em1998 é publicada uma biografia de Anne Frank escrita por Melissa Müller.
Nela, a autora afirma que o segundo empregado do armazém, Lammert Hartog,
certamente também sabia da existência dos judeus escondidos, inclusive Lena
Hartog-van Bladeren, sua mulher. Ela não só trabalhava na Prinsengracht 263, mas
também na casa de Petrus Genot, empregado do irmão de Kleiman. Quando Lena
Hartog é interrogada pela polícia em 1948, não menciona o fato de que havia
trabalhado na Prinsengracht 263. Segundo declarações de Anna Genot, esposa de
Petrus, em 1948, Lena lhe confessou em julho de 1944 que estava muito preocupada
com a segurança de seu marido, posto que na Prinsengracht havia judeus
escondidos. Também Bep lhe havia dito que as vidas de todos eles corriam perigo
se esse fato fosse descoberto. Melissa Müller sugere em seu livro que os
refugiados foram denunciados muito provavelmente por Lena Hartog-van Bladeren.
Contudo, não existe nenhuma prova. O certo é que as investigações realizadas em
1948 e 1963/64 se concentraram em Willem van Maaren e que o papel desempenhado
por Lena Hartog-van Bladeren e seu marido nunca foi investigado
seriamente.

– Trecho da carta de delação.
Outro suspeito: Tonny Ahlers
Otto Frank e Tonny Ahlers se conhecem em abril de 1941, quer
dizer, antes do passo para a clandestinidade dos Frank. Em uma ocasião, ao
conversar com um conhecido seu, Otto Frank manifestou-lhe suas dúvidas a
respeito de uma vitória do exército alemão. Seguidamente, o conhecido o
denuncia enviando uma carta a Gestapo. Tonny Ahlers, que freqüentara círculos
do partido nazista holandês NSB e da SD, intercepta a carta e exige dinheiro a
Otto Frank em troca de seu silêncio. Na opinião de Carol Ann Lee, essa não
seria a única vez que Tonny Ahlers chantageia Otto Frank. Ahlers afirmará depois
da guerra que sabia da existência da casa de trás. Por isso, segundo Lee, ele é
o autor da denúncia.
Investigação do NIOD
Em 2003, o Instituto de Documentação de Guerra dos Países Baixos (NIOD)
examina as teorias em torno de Lena Hartog-van Bladeren e Tonny Ahlers. Ambas
acabam sendo descartadas. A conclusão definitiva recolhida no informe do NIOD
diz: “Lamentavelmente, teremos que ater-nos ao que já comprovamos em 1986. Os
fatos reais já não poderão ser reconstruídos. Sem duvida, custa aceitá-los,
porque está claro que gostaríamos de revelar a identidade do delator ou dos
delatores, para poder colocar um ponto final nesta página da história de Anne
Frank. Mas este não é o caso. Todavia, não se exclui a possibilidade de que no
futuro apareçam novas hipóteses em torno da denúncia. Haverá de se ver se estas
se baseiam em fontes fidedignas”.
Na página da internet do NIOD pode ser lido o resultado da nova
investigação (em holandês e em
inglês).

~ O dia em que Anne e seus amigos foram
presos ~
“Há muitas coisas das quais agora me custa falar. E outras das que já não
quero
falar. Por exemplo, do que senti quando nos tiraram de nosso
refúgio.”
(Otto Frank, 1979)
No dia 4 de agosto de 1944, um dia quente e ensolarado. No
quartel general do Serviço de Segurança Alemão (SD), de Amsterdã, chega pela
manhã uma denúncia telefônica. Atende ao telefone Julius Dettman, que dá ao
suboficial de turno Karl Silberbauer a ordem de dirigir-se a Prinsengracht. Ele
leva quatro soldados nazistas holandeses. Silberbauer e seus acompanhantes
entram no andar térreo do prédio e se dirigem ao empregado do armazém Willem van
Maaren, que, sem pronunciar uma palavra, aponta para o teto.

– Quartel general do Serviço de Segurança Alemão (SD) |
“Fique sentada”
O pessoal da firma está trabalhando no primeiro andar quando, de repente, a
porta se abre. Miep Gies explicaria mais tarde: “Entrou um homem de baixa
estatura empunhando uma pistola. Enquanto me apontava, me disse: Fique sentada e
não se mova”. Victor Kugler ouve ruídos na oficina contígua e sai para ver o que
está acontecendo: “Vi quatro agentes de polícia, um dos quais vestia o uniforme
da Gestapo”. Um dos policiais lhe aponta uma pistola e ordena que o acompanhe.
Dirigem-se a estante giratória e abrem-na. Com as pistolas engatilhadas, os
policiais entram na casa de trás.
Um homem com uma pistola
A ação toma totalmente de surpresa os que estavam escondidos na casa. Levam
mais de dois anos convivendo com o temor permanente de serem descobertos. O
momento fatídico havia chegado. Otto Frank relata após a guerra: “Eram por volta
das dez e meia. Eu estava com os filhos de Van Pels, no quartinho de Peter,
ajudando-lhes a fazer os deveres. De repente, ouço alguém subindo as escadas,
abre a porta e aparece diante de nós com uma pistola na mão. Lá em baixo todos
já estavam reunidos. Minha mulher, as meninas e os Van Pels estavam ali com as
mãos para o alto”. Em seguida, levam também Fritz Pfeffer a casa.
Objetos de valor
Os refugiados devem entregar seus objetos de valor. Silberbauer pega a maleta
onde Anne guarda as páginas de seu diário, abre-a e sacode-a para esvaziá-la e
colocar as coisas que levará. As páginas do diário de Anne caem no chão. Otto
Frank lembra: “Então nos ordenou: Preparem-se em cinco minutos!". Conta Miep
Gies: “Os ouvi descer lentamente as escadas”. Junto com Victor Kugler e Johannes
Kleiman, seus protetores igualmente detidos, são levados em um furgão os
ocupantes do refúgio.
Para o cárcere
Os oito refugiados são levados para a prisão da SD situada na
Rua Euterpestraat. Os encerram em um grande recinto junto com outros detidos e
logo os interrogam um a um. Os policiais procuram averiguar se os ocupantes da
casa de trás e seus protetores sabem de outros locais onde possa haver gente
escondida. Johannes Kleiman e Victor Kugler não falam. Otto Frank responde a
pergunta dizendo que os 25 meses que estiveram encerrados no refúgio lhes tinha
feito perder todo contato com seus amigos e conhecidos e que, portanto, não
sabem de nada. Logo separam os refugiados de seus protetores. Estes são mandados
para a cadeia da Rua Amstelveenseweg, enquanto que aqueles vão para a prisão de
Weteringschans, ambas de Amsterdã.

– Karl Josef Silberbauer comandou a operação
que deteve Anne e a seus amigos.

~ Para o campo de Westerbork ~
“Viajamos em um trem de passageiros. As portas do vagão
foram trancadas desde a saída da estação, mas isso não nos importava. (...)
Anne não se afast ou da janela em nenhum momento. Era verão. Do lado de fora
víamos paisagens e campos de cereais em plena colheita. Os povoados passavam
voando. Os cabos telefônicos descreviam linhas sinuosas ascendentes e
descendentes ao longo da janela. Para nós, tudo isso significava a
liberdade.”
(Otto Frank)
À primeira hora da manhã de 8 de agosto de 1944, os oito refugiados e os outros
prisioneiros foram transportados de caminhão para a estação ferroviária central,
onde já os esperava um trem de passageiros. Janny Brilleslijper era uma das outras
prisioneiras. Na plataforma estava a família Frank: “Me chamaram a atenção o material
esportivo e as mochilas das meninas, como se fossem para as férias de inverno.”,
lembrou Janny. O trem levou os prisioneros para Westerbork.
Após algumas horas, o trem chegou a Westerbork, a noroeste da Holanda. Os
prisioneiros foram registrados e levados para os barracões, destinados aos
judeus que, em lugar de se apresentarem voluntariamente para a deportação,
preferiram se esconder. Haviam barracões separados para homens e mulheres.
Durante o dia, os prisioneiros tinham que trabalhar pesado. As mulheres
executavam tarefas insalubres que não tinham a ver com a sua condição: “A
única vantagem era que podíamos conversar umas com as outras.”, disse
uma das prisioneiras.

– Campo de Westerbork
Deportação
De Westerbork partiam muitos trens rumo aos campos de concentração
no Leste. No sábado 2 de setembro foi publicada a lista dos prisioneiros que deveriam
partir no dia seguinte. Entre os 1019 nomes figuravam os dos oitos ocupantes da
casa de trás. (Otto Frank)
Mortos de cansaço
No dia seguinte, de madrugada, um grande trem de carga estava à espera da
partida. Cada vagão transportava uns 70 prisioneiros amontoados: homens,
mulheres e crianças, sadios e enfermos. A maioria viajava em pé. Os Frank
conseguiram viajar juntos. Lenie de Jong-van Naarden, outra das passageiras do
trem, lembra: “Muitas crianças dormiam apoiadas em seus pais, entre elas as imãs
Frank; todos estavam mortos de cansaço”.
Exaustos
A viagem de trem durou três dias. Em cada vagão havia um balde que às vezes
era usado como vaso sanitário. Em pouco tempo, o cheiro se tornava insuportável.
Não dava vontade de comer nada. Janny Brilleslijper: “Viajamos todos espremidos
uns aos outros. Nos vagões haviam passagens laterais revestidas com grossas
telas metálicas, por onde entrava ar». Às vezes o trem andava rápido, em outras
devagar. Rosa de Winter-Levy: “Em dois dias de viagem estávamos exaustos. Num
lado do vagão um homem morreu, no outro uma mulher desmaiou, as crianças
choravam, era quase impossível agüentar”.
O olhar de Margot
Na terceira noite, o trem pára de repente. São por volta das duas da
madrugada. As portas dos vagões se abrem. “Saiam! Rápido, mais rápido!”, gritam
uns homens vestidos com roupas listradas, que nos obrigam a deixar nossos
equipamentos no trem. Eram prisioneiros de Auschwitz, cuja tarefa consistia em
tirar dos trens os prisioneiros a medida que iam chegando. A plataforma era
patrulhada por soldados da SS com cães. Traziam chicotes nas mãos. Potentes
refletores iluminavam a área. Os homens tinham que ficar de um lado, as mulheres
do outro. Foi a última vez que Otto Frank viu sua mulher e suas filhas. “Nunca
em minha vida esquecerei o olhar de Margot”, revelaria anos depois referindo-se
àquele momento.
Para a direita
Médicos da SS examinavam a cada um dos prisioneiros. As crianças, os velhos e
os doentes iam para um lado, os demais prisioneiros para o outro. Rosa de
Winter-Levy descreve aquele momento: “O oficial os observa com um olhar
inquiridor. Sem dizer nada, manda que sigam para a direita. (...) Para o outro
lado, os maiores e as crianças pequenas com suas mães ou acompanhantes... Nunca
mais seriam vistos. Foram levados diretamente para as câmaras de gás”. Também
aos oito ocupantes da casa de trás lhes indicam que sigam para a direita...
O final dramático, todos já conhecem...
~ Arnaldo Poesia ~
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Bibliografia: Anne Frank – Uma biografia, Melissa Müller, 1998.
– O Diário de Anne Frank. – Anotações sobre uma menina chamada Anne, Arnaldo
Poesia, Edição do autor, Niterói, 1991. – Memórias de Miep Gies, 1987. – Memórias
de Anne Frank – As lembranças de uma amiga de infância, Alison Leslie Gold,
1997.
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© Arnaldo Poesia, Quinzaine Litteraire, Paris – Le Monde, Paris, 1991/2009.
Anne Frank, escritora
Achado cartão de Anne Frank
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