Imagens de Anne Frank

Anne Frank - 1929/1945


~ Anne Frank: sua vida em cartas ~


Anne Frank: sua vida em cartas trata de Anne Frank como escritora de cartas. É sabido que Anne Frank escreveu seu diário em forma de cartas, mas nem todos sabem que já antes se dedicou com entusiasmo a escrever. Entre 1935 e 1942, ano em que passa a clandestinidade, Anne envia múltiplas mensagens e cartas, entre outros a seus parentes na Suíça. As primeiras notícias em Alemão se convertem com o tempo em autênticas "cartas adultas" escritas em holandês, um recurso estilístico que usará em seu diário a partir de junho de 1942.

Anne não havia completado sete anos quando ela enviou o primeiro cartão-postal à sua avó. Ela a parabenizava pelo aniversário. Anne Frank vem de uma família onde se escrevia muito, em que era comum enviar cartas, cartões de agradecimentos e cartões-postais.

– Origem das cartas

A maioria das cartas e cartões provém do arquivo pessoal de Buddy Elias, primo de segundo grau de Anne. Várias destas cartas foram enviadas a ele. De acordo com o curador da Casa da Anne Frank, Wouter van der Sluis, parte das cartas foram encontradas durante uma arrumação de um sótão pela família que mora na Suíça. Depois da morte da segunda mulher de Otto Frank, o pai de Anne decidiu publicá-las.

Graças ao achado, novas informações sobre a vida de Anne Frank tornaram-se conhecidas. A partir das cartas, é possível ver que ela frequentava uma comunidade judaica liberal que era bastante frequentada pelos alemães judeus que imigraram nos anos 30 e se mudaram para o Sul de Amsterdã.

– Conteúdo

1929 - Nasce Anne Frank

1933 - A Família Frank se muda para Amsterdã, para a Merwedeplein, 37

1939 - Início da 2ª Guerra Mundial

1942 - Anne se esconde, entre outros, com sua família nos fundos da casa que fica na Prinsengracht, 263, onde atualmente se encontra o museu em memória da família Frank.

Nestes anos, a família Frank separou-se dos demais parentes. A partir do momento que a guerra começou, Anne contava para a família na Suíça a situação na escola, sobre viagens curtas e coisas da vida diária. Cheia de entusiasmo, ela escrevia sobre os planos de se tornar esquiadora. Nas entrelinhas é possível ler que a guerra começou, mas isso não está detalhado nas cartas, o que torna mais bizarro os escritos de Anne Frank.

Quando, em 1942, a família Frank resolveu se esconder para não ser deportada, Anne só podia escrever cartas em um diário, para Kitty, a amiga imaginária dela. De escritora de cartas, Anne Frank passa a ser uma séria escritora de diário. Van der Sluis conta que ela começa descrevendo a si mesma e o ambiente em que vive. Ela descreve com precisão os diversos acontecimentos, quase como um filme.

Interessante é uma carta de Anne ao pai dela. Ainda que uma pequena versão possa ser lida no diário, o conteúdo integral da carta nunca tinha sido revelada ao público. Otto Frank sempre guardou esta carta, embora tenha dito a Anne que iria queimá-la. Na carta, escrita de maneira bastante adulta, Anne diz que devido às dificuldades pelas quais passaram naquele período, ela amadureceu e não precisava mais dos pais, o que, segundo Van der Sluis, mostra que durante a guerra ela se transformou em uma escritora de verdade.


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Tradução das cartas e cartões:

Primeira carta de Anne para a sua avó Alice Frank-Stern
na Basiléia, na Suíça, 18 de novembro de 1936

Querida vovó

Te desejo muitas felicidades pelo teu aniversário. Como estão Stefan e Berd? Agradeço Tia Leni pelo bonito boneco esquiador. Você recebeu bons presentes?
Me escreva.

beijos,
Anne
______
Obs.: A irmã de Anne, Margot, provavelmente traduziu esta carta para o alemão e, em seguida, Anne copiou com sua própria letra. Anne pergunta por seus primos, Stephan (14 anos) e Bernd Elias (11) que também moravam na Basiléia. Ela também agradece à tia Leni pelo 'schimannchen', um boneco com esquis nos pés, que pode ter recebido como presente pelo Chanucá, a festa das luzes judaica nas quais se comemoram as festividades do fim do ano.

Cartão-Postal de Anne para a avó dela na Suíça, 7 de novembro de 1940


Querida vovó

Espero que você esteja bem. Hoje é Domingo e estou um pouco chateada. Eu estava brincando com meus cartões-postais e então pensei que poderia te escrever. Esta manhã, papai e mamãe saíram e Margot e eu temos que arrumar os quartos. Não tem muita coisa para escrever neste cartão, mas eu vou enviar uma carta em breve.

Abraços para todo mundo e muitos beijos.
Sua Anne.
______
Obs.: Anne Frank tinha uma grande coleção de cartões-postais. Ela escolheu um com uma foto da Igreja Luterana no Singel, em Amsterdã, para enviar à sua avó...

Carta de Anne para a avó dela e para a família Elias na Suíça, junho 1941


Querida vovozinha, e queridos todo mundo,

Agradeço a todos vocês pela amável carta de aniversário. Eu a li pela primeira vez no dia 20 porque meu aniversário atrasou, porque a vovó foi levada ao hospital no dia 11.

Eu ganhei muitos presentes da vovó; também um Atlas. Do papai e da mamãe eu ganhei uma bicicleta, uma nova mochila escolar, um maiô e ainda outras coisinhas. Margot me deu estes papéis de carta porque eu não tenho outros e eu também ganhei um monte de doces e outros presentinhos.

Aqui está muito quente, aí também? Eu gostei muito do poema do Stephan, também ganhei um do papai, que falava sobre como é fazer aniversário. Nós teremos férias curtas, eu  viajarei por 14 dias com a família de Sanne Ledermann (talvez vovó a conheça), depois eu vou para uma casa de crianças, também com Sanne, o que não é nada mal.

Ontem, (domingo) eu estava com Sanne, Hanneli, e um garoto. Foi muito legal, não me faltam crianças para fazer companhia. Eu não tenho tido muitas oportunidades de me bronzear porque não é permitido usar a piscina, o que é uma pena. Mas, nada se pode fazer.

Na escola não estudamos muito, durante as manhãs desenhamos um pouco e a tarde brincamos no jardim, caçamos borboletas ou colhemos flores. Agora preciso terminar porque está ficando quente para continuar escrevendo.

Muitos abraços e beijos a todos vocês
Anne

______
Obs.: Anne Frank raramente escreve explicitamente sobre a guerra e sobre os regulamentos que fazem restrições à comunidade judaica, mas nesta carta ela se refere à introdução, em junho de 1941, da proibição aos judeus em entrar nas piscinas.

Cartão-Postal da família Frank (Otto, Edith e Anne Frank, Sanne
Ledermann e Hanneli Goslar) para a avó na Suíça, julho 1941


Querida Vovó,

Hoje nos fizemos uma viagem e o tempo estava maravilhoso. Como encontramos este bonito cartão-postal, pensamos em vocês.

Muitos abraços,
                                                     Anne.

Desejando a vocês um pouco de paz, Edith, Muitos abraços, Otto, Sanne e Hanneli.

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Nota: No verão de 1941, Anne Frank e seus pais fizeram um passeio na cidade de Huizen, próximo a Amsterdã. Anne levou suas amigas Sanne Ledermann e Hanneli Goslar. Eles enviaram um cartão para Alice Frank-Stern, que naquele momento estava hospedada na casa de familiares em Sils-Maria (Suíça). O cartão foi lido minuciosamente pela censura dos alemães.

Carta de Anne para o pai dela, Otto Frank, 5 de maio de 1944

Querido papai,

Porque eu acredito que você espera um esclarecimento da minha parte e porque eu me expresso melhor escrevendo do que falando, utilizo o papel. Acredito que você está decepcionado comigo, que você esperava mais reservas da minha parte e por isso você está preocupado com coisas que não merecem preocupação.

Desde que nós estamos aqui, de julho de 1942 até a algumas semanas, eu não tive muito tempo. Se você sabe o quando eu choro a noite, o quanto eu me sinto só, então pode entender o quanto eu quero ir lá pra cima. Não foi de um dia para o outro outro que eu cheguei a ponto de viver sem o apoio da mamãe ou de quem quer que seja.

Conquistei a minha independência ao custo de muita luta e lágrimas. A mamãe pode rir e você pode até não acreditar em mim, o que não me importo. Eu sei que eu sou uma pessoa independente e não devo satisfações a vocês.

Eu estou contando isso apenas porque eu penso que você pode estar me achando cheia de segredos. Mas você não precisa pensar que com isso, vou me isentar da minha responsabilidade.

Eu devo satisfações das minhas ações somente a mim mesma; isso é algo que nem pai, nem mãe têm direito! Quando eu estava com dificuldades, vocês também fecharam os olhos e ouvidos, você não me ajudou, pelo contrário, tudo o que eu ganhei foram repreensões por fazer tanto escândalo. Eu fui escandalosa somente para não ficar triste o tempo todo, eu estava com medo por não continuar a ouvir a minha voz interior.

Eu representei, por mais de um ano e meio, não tirei minha máscara, não reclamei e nunca houve ninguém que notou isso, nada de ninguém! Ainda assim eu venci, e a batalha acabou! Sou independente, de corpo e de mente, eu não preciso mais de mãe, agora eu sei que lutei, agora quero continuar sozinha, o caminho que eu escolher.

Você não deve nem pode me considerar com 14 anos, porque depois de todas estas dificuldades eu amadureci. Não me arrependo do que fiz, me comportei do jeito que imaginei que poderia me comportar, e sei muito bem do que sou capaz. Você não pode me manter longe da doçura do sótão, ou mesmo me proibir de subir, isso não vai me manter longe lá de cima. Você precisa acreditar em mim. E um último pedido, ainda que você talvez não queira atender, apenas me deixe em paz, se você não quer acreditar em mim e me perder para sempre!

Sua Anne


Obs.: Durante o período em que viveram escondidos, Anne Frank e Peter van Pels se apaixonaram. Eles se apoiavam emocionalmente, se beijavam e se acariciavam no sótão do esconderijo. Anne decidiu ser honesta com o pai e contar. Otto a repreendeu e a advertiu para que ela não fosse mais todas as noites até onde Peter dormia, mas ela continuou fazendo. O pai não gostou e proibiu o relacionamento.

Anne ficou furiosa e decidiu escrever esta carta ao pai. Primeiro, ela escreveu uma versão rascunho no diário e depois a versão definitiva, que colocou na bolsa do pai. Esta carta é a declaração de independência de Anne. Segundo a irmã de Anne, Margot, Otto passou a noite desconcertado e na manhã seguinte teve uma longa conversa com a filha. Otto disse a Anne que iria jogar a carta no fogo, mas após a morte dele, descobriu-se que ele havia guardado a carta.


Otto Frank


Bibliografia: Anne Frank – Uma biografia, Melissa Müller, 1998. – O Diário de Anne Frank. – Anotações sobre uma menina chamada Anne, Arnaldo Poesia, Edição do autor, Niterói, 1991. – Memórias de Miep Gies, 1987. – Memórias de Anne Frank – As lembranças de uma amiga de infância, Alison Leslie Gold, 1997.

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© Arnaldo Poesia, Quinzaine Litteraire, Paris – Le Monde, Paris, 1991/2010.

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