Anne Frank: sua vida em cartas trata de
Anne Frank como escritora de cartas. É sabido que Anne Frank escreveu seu
diário em forma de cartas, mas nem todos sabem que já antes se dedicou com
entusiasmo a escrever. Entre 1935 e 1942, ano em que passa a clandestinidade,
Anne envia múltiplas mensagens e cartas, entre outros a seus parentes na
Suíça. As primeiras notícias em Alemão se convertem com o o tempo em
autênticas "cartas adultas" escritas em holandês, um recurso
estilístico que usará em seu diário a partir de junho de 1942.
As cartas originais, nunca antes expostas e em parte inéditas,
constituiu o fio condutor da mostra. O público conheceu uma Anne todavia
despreocupada, que vai a escola e joga na praça Merwedeplein com sua amigas. A
vida cotidiana em Amsterdã a que se refere em suas cartas está visualizada por
meio de fotos, filmes, objetos e reconstruções históricas. Na exposição também
foi passado em revista o período transcorrido no esconderijo. Anne Frank:
sua vida em cartas contou a história de uma menina que, com a
Segunda Guerra Mundial como telão de fundo, começa escrevendo cartas em um
bairro residencial de Amsterdã e acaba se convertendo em uma autora de fama
mundial.
Nota: Anne não havia completado sete anos quando ela enviou o
primeiro cartão postal à sua avó. Ela a parabenizava pelo aniversário. Anne
Frank vem de uma família onde se escrevia muito, em que era comum enviar cartas,
cartões de agradecimentos e cartões postais.
Co-produção
Anne Frank: sua vida em cartas foi uma co-produção
do Museu Histórico de Amsterdã e a Casa de Anne Frank. A mostra esteve aberta ao
público de 12 de abril a 3 de setembro de 2006.
Origem das cartas
A maioria das cartas e cartões provém do arquivo pessoal de Buddy Elias,
primo de segundo grau de Anne. Várias destas cartas foram enviadas a ele. De
acordo com o curador da Casa da Anne Frank, Wouter van der Sluis, parte das
cartas foram encontradas durante uma arrumação de um sótão pela família que
mora na Suíça, depois da morte da segunda mulher de Otto Frank, o pai de Anne.
Graças ao achado, novas informações sobre a vida de Anne Frank tornaram-se
conhecidas. A partir das cartas, é possível ver que ela freqüentava uma
comunidade judaica liberal que era bastante freqüentada pelos alemães judeus
que imigraram nos anos 30 e se mudaram para o Sul de Amsterdã.
Conteúdo
1929 - Nasce Anne Frank
1933 - Família Frank se muda para Amsterdam, para a
Merwedeplein, 37
1939 - Início da 2ª Guerra Mundial
1942 - Anne mergulha, entre outros, com sua família nos fundos da
casa que fica na Prinsengracht, 263, onde atualmente se encontra o museu
em memória da família Frank.
Nestes anos, a família Frank separou-se dos demais parentes. A partir do
momento que a guerra começou, Anne contava para a família na Suíça a situação
na escola, sobre viagens curtas e coisas do dia-a-dia. Na opinião do curador,
as cartas dão um alívio à situação. Cheia de entusiasmo, ela escrevia sobre os
planos de se tornar esquiadora. Nas entrelinhas é possível ler que a guerra
começou, mas isso não está detalhado nas cartas, o que torna mais bizarro os
escritos de Anne Frank.
Quando, em 1942, a família Frank "mergulhou", ou seja, resolveu se esconder
para não ser deportada, Anne só podia escrever cartas em um diário, para
Kitty, a amiga imaginária dela. De escritora de cartas, Anne Frank passa a ser
uma séria escritora de diário. Van der Sluis conta que ela começa descrevendo
a si mesma e o ambiente em que vive. Ela descreve com precisão os diversos
acontecimentos, quase como um filme.
Interessante é uma carta de Anne ao pai dela. Ainda que uma
pequena versão possa ser lida no diário, o conteúdo integral da carta nunca
tinha sido revelada ao público. Otto Frank sempre guardou esta carta, embora
tenha dito a Anne que iria queimá-la. Na carta, escrita de maneira
bastante adulta, Anne diz que devido às dificuldades pelas quais passaram
naquele período, ela amadureceu e não precisava mais dos pais, o que, segundo
Van der Sluis, mostra que durante a guerra ela se transformou em uma
escritora de verdade.
– Clique no auto-falante para ouvir os textos –
Tradução das cartas e cartões:
Primeira carta de Anne para a
sua avó Alice Frank-Stern na Basiléia, na Suíça, 18 de
novembro de 1936
Querida
vovó
Te desejo muitas felicidades pelo teu aniversário. Como estão Stefan e
Berd? Agradeço Tia Leni pelo bonito boneco esquiador. Você recebeu bons
presentes?
Me escreva.
beijos,
Anne
______ Obs.: A irmã de Anne, Margot, provavelmente traduziu
esta carta para o alemão e, em seguida, Anne copiou com sua própria letra.
Anne pergunta por seus primos, Stephan (14 anos) e Bernd Elias (11) que
também moravam na Basiléia. Ela também agradece à tia Leni pelo 'schimannchen',
um boneco com esquis nos pés, que pode ter recebido como presente pelo
Chanucá, a festa das luzes judaica nas quais se comemoram as festividades
do fim do ano.
Cartão Postal de Anne para a avó dela na Suíça, 7 de
novembro de 1940
Querida vovó
Espero que você esteja bem. Hoje é Domingo e estou um pouco chateada. Eu
estava brincando com meus cartões postais e então pensei que poderia te
escrever. Esta manhã, papai e mamãe saíram e Margot e eu temos que arrumar
os quartos. Não tem muita coisa para escrever neste cartão, mas eu vou
enviar uma carta em breve.
Abraços para todo mundo e muitos beijos.
Sua Anne.
______ Obs.: Anne Frank tinha uma grande coleção de cartões
postais. Ela escolheu um com uma foto da Igreja Luterana no Singel, em
Amsterdã, para enviar à sua avó...
Carta de Anne para a avó dela e para a família Elias
na Suíça, junho 1941
Querida vovozinha, e queridos todo mundo,
Agradeço a todos vocês pela amável carta de aniversário. Eu a li pela
primeira vez no dia 20 porque meu aniversário atrasou, porque a vovó foi
levada ao hospital no dia 11.
Eu ganhei muitos presentes da vovó; também um Atlas. Do papai e da
mamãe eu ganhei uma bicicleta, uma nova mochila escolar, um vestido de
praia e ainda outras coisinhas. Margot me deu estes papéis de carta porque
eu não tenho outros e eu também ganhei um monte de doces e outros
presentinhos.
Aqui está muito quente, aí também? Eu gostei muito do poema do Stephan,
também ganhei um do papai, que falava sobre como é ter um aniversário. Nós
teremos férias curtas, eu vou viajar por 14 dias com a família de Sanne
Ledermann (talvez vovó a conheça), depois eu vou para uma casa de
crianças, também com Sanne, o que não é nada mal.
Ontem, (domingo) eu estava com Sanne, Hanneli, e um garoto, foi muito
legal, não me faltam crianças para fazer companhia. Eu não tenho tido
muitas oportunidades de me bronzear porque não nos é permitido usar a
piscina, o que é uma pena. Mas, nada se pode fazer.
Na escola não fazemos muito, durante as manhãs desenhamos um pouco e a
tarde sentamos no jardim, caçamos moscas ou colhemos flores. Agora preciso
terminar porque está ficando quente para continuar escrevendo.
Muitos abraços e beijos a todos vocês
Anne
______ Obs.: Anne Frank raramente escreve explicitamente
sobre a guerra e sobre os regulamentos que fazem restrições à comunidade
judaica, mas nesta carta ela se refere à introdução, em junho de 1941, da
proibição aos judeus em entrar nas piscinas.
Cartão Postal da família Frank (Otto, Edith e Anne
Frank, Sanne Ledermann e Hanneli Goslar) para a avó na Suíça, julho 1941
Querida Vovó,
Hoje nos fizemos uma viagem e o tempo estava maravilhoso. Como encontramos
este bonito cartão postal, pensamos em vocês.
Muitos abraços,
Anne.
Desejando a vocês um pouco de paz,
Edith,
Muitos abraços, Otto, Sanne e Hanneli.
________ Nota: No verão de 1941, Anne Frank e seus pais
fizeram um passeio na cidade de Huizen, próximo a Amsterdã. Anne levou
suas amigas Sanne Ledermann e Hanneli Goslar. Eles enviaram um cartão para
Alice Frank-Stern, que naquele momento estava hospedada na casa de
familiares em Sils-Maria (Suíça). O cartão foi lido minuciosamente pela
censura dos alemães.
Carta de Anne para o pai dela, Otto Frank, 5 de maio
de 1944
Querido papai,
Porque eu acredito que você espera um esclarecimento da minha parte e
porque eu me expresso melhor escrevendo do que falando, utilizo o papel.
Acredito que você está decepcionado comigo, que você esperava mais
reservas da minha parte e por isso você está preocupado com coisas que não
merecem preocupação.
Desde que nós estamos aqui, de julho de 1942 até a algumas semanas, eu não
tive um tempo fácil. Se você sabe o quando eu choro a noite, o quanto eu
me sinto só, então pode entender o quanto eu quero ir lá pra cima. Não foi
de um dia pro outro que eu cheguei a ponto de viver sem o apoio da mamãe
ou de quem quer que seja.
Conquistei a minha independência ao custo de muita luta e lágrimas. A mãe
pode rir e você pode até não acreditar em mim, o que não me importo. Eu
sei que eu sou uma pessoa independente e não devo satisfações a vocês.
Eu estou contando isso apenas porque eu penso que você pode estar me
achando cheia de segredos. Mas você não precisa pensar que com isso, vou
me isentar da minha responsabilidade.
Eu devo satisfações das minhas ações somente a mim mesma; isso é algo que
nem pai, nem mãe têm direito! Quando eu estava com dificuldades, vocês
também fecharam os olhos e ouvidos, você não me ajudou, pelo contrário,
tudo o que eu ganhei foram repreensões por fazer tanto escândalo. Eu fui
escandalosa somente para não ficar triste o tempo todo, eu estava com medo
por não continuar a ouvir a minha voz interior.
Eu representei, por mais de um ano e meio, não tirei minha máscara, não
reclamei e nunca houve ninguém que notou isso, nada de ninguém! Ainda
assim eu venci, e a batalha acabou! Sou independente, de corpo e de mente,
eu não preciso mais de mãe, agora eu sei que lutei, agora quero continuar
sozinha, o caminho que eu escolher.
Você não deve nem pode me considerar com 14 anos, porque depois de todas
estas dificuldades eu amadureci. Não me arrependo do que fiz, me comportei
do jeito que imaginei que poderia me comportar, e sei muito bem do que sou
capaz. Você não pode me manter longe da doçura do sótão, ou mesmo me
proibir de subir, isso não vai me manter longe de lá de cima. Você precisa
acreditar em mim. E um último pedido, ainda que você talvez não queira
atender, apenas me deixe em paz, se você não quer acreditar em mim e me
perder para sempre!
Sua Anne
Obs.: Durante o período em que viveram escondidos,
Anne Frank e Peter van Pels se apaixonaram. Eles se apoiavam
emocionalmente, se beijavam e se acariciavam no sótão da casa-esconderijo.
Anne decidiu ser honesta com o pai e contar. Otto a repreendeu e a
advertiu para que ela não fosse mais todas as noites até onde Peter
dormia, mas ela continuou fazendo. O pai não gostou e proibiu o
relacionamento.
Anne ficou furiosa e decidiu escrever esta carta ao pai. Primeiro, ela
escreveu uma versão rascunho no diário e depois a versão definitiva, que
colocou na bolsa do pai. Esta carta é a declaração de independência de
Anne. Segundo a irmã de Anne, Margot, Otto passou a noite desconcertado e
na manhã seguinte teve uma longa conversa com a filha. Otto disse a Anne
que iria jogar a carta no fogo, mas após a morte dele, descobriu-se que
ele havia guardado a carta.
Otto Frank
Bibliografia: Anne Frank – Uma biografia, Melissa Müller, 1998.
– O Diário de Anne Frank. – Anotações sobre uma menina chamada Anne, Arnaldo
Poesia, Edição do autor, Niterói, 1991. – Memórias de Miep Gies, 1987. – Memórias
de Anne Frank – As lembranças de uma amiga de infância, Alison Leslie Gold,
1997.