Anjos do Senhor
Nossos Guardiões Celestiais



Salmo 90, 11-12
Porque aos seus anjos Ele mandou que te guardem
em todos os teus caminhos, eles te sustentarão
em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.

~ Anjos da Guarda ~
Para saber mais

No verão de 1992, numa das audiências gerais que concede aos fiéis todas as quintas- feiras, o Papa abordou um assunto que causou muita surpresa: ele falou dos anjos. O papa João Paulo II voltou-se para os fiéis que enchiam a Sala Nervi do Vaticano e disse: "Os anjos existem, são enviados pela Divina Providência para que nos ajudem a alcançar a santidade da vida".

Falou dos anjos, ou seja, dos espíritos bons que têm a tarefa de ajudar as pessoas a alcançar o seu fim último, a vida eterna na luz de Deus. "A fé na existência dos anjos", disse o Papa, "nos eleva até as realidades sobrenaturais, e orar a eles nos ajuda a percorres o caminho da salvação."

O discurso do Papa foi longo e prático. O Pontífice desceu a considerações concretas. Citou as passagens mais importantes do Evangelho que falam da existência dos anjos, citou a doutrina dos Padres da Igreja, dos grandes teólogos e deteve-se em ilustrar a figura e as funções dos anjo da guarda; daquele ser de luz que cada um de nós, ao nascer, recebe de Deus como companheiro, protetor, guia. Ele está sempre perto de nós e pode fazer coisas maravilhosas por nós.

As palavras do Pontífice causaram muita surpresa. Muitos jornais deram-lhes bastante destaque. O assunto diz respeito a uma realidade espiritual tão maravilhosa que muitas pessoas de fé chegam a considerá-la impossível e vêem nela apenas uma belíssima fábula. Mas o Papa disse que esta é uma realidade cristã que faz parte da história da humanidade.

O discurso do Papa, tão preciso e detalhado, suscitou inúmeros questionamentos e muita curiosidade. Mil perguntas surgiram na cabeça de quem o acompanhou: quem são os anjos? Qual é a sua natureza, a sua personalidade? Como vivem? Como interferem na vida das pessoas? Que tarefas devem desempenhar? Quais são as suas relações com o mundo material? Qual o papel do anjo da guarda? O que pode fazer pelas pessoas que Deus pôs sob sua guarda? É possível falar com o anjo da guarda? São perguntas derivadas de uma curiosidade legítima, e para Ter uma resposta adequada e séria foi consultado um prelado da Lombardia de muito prestígio: monsenhor Ernesto Pisoni, um sacerdote que dedicou sua vida à "Pro Juventude", a maravilhosa obra de D. Gnocchi em favor de crianças deficientes (obra que preside há muitos anos), e que é também literato, jornalista e grande teólogo.¹

– Monsenhor Pisoni, quem são os anjos?

São seres espirituais. São, por assim dizer, a "periferia' espiritual criada por Deus. Com efeito, segundo a Bíblia, eles "o circundam". O termo "anjo" deriva do grego angelos, que significa "mensageiro". Sua tarefa principal é ser mensageiros de Deus, estabelecer relações entre o invisível e o visível, entre o mistério de Deus infinito e nossa realidade física.

– Para a Igreja, a existência dos anjos é uma verdade de fé ou uma tradição devocional?

É uma verdade de fé. O Antigo e o Novo Testamentos estão cheios de anjos. Os Santos Padres, os teólogos sempre ensinaram que a existência dos anjos está indissoluvelmente ligada à história do universo e ao mistério da Redenção. A Bíblia diz que Deus, no Princípio, criou os puros espíritos, os anjos, os quais num momento não determinado dos séculos, foram submetidos a uma grande prova. Talvez tenham tomado conhecimento do projeto que Deus tinha para a humanidade. Alguns daqueles puros espíritos, comandados por Lúcifer, o anjo mais próximo de Deus, recusaram-se a aceitar aquele desígnio de Deus. Houve uma rebelião nos céus. Os anjos rebeldes foram expulsos e se tornaram demônios; os anjos fiéis continuaram a ser mensageiros de Deus.

– Os anjos são semelhantes aos humanos?

Sempre se discutiu muito sobre a natureza dos anjos. A tese predominante é que eles são "criaturas espirituais". Portanto, são semelhantes aos espírito humano. Como as pessoas, têm inteligência e vontade, mas estão livres das limitações impostas pela matéria. São uma concentração absoluta de inteligência, vontade, energia espiritual. Como uma pessoa, cada anjo tem uma personalidade distinta. Não há um anjo igual a outro. Cada um é um universo em si.

– Eles têm forma?

Quando se manifestam a nós, assumem semblantes humanos muito belos e luminosos, aqueles que o corpo humano deverá ter depois da Ressurreição. Mas estes semblantes podem ser apenas um símbolo para nos levar a conhecer a sua perfeição. De acordo com alguns teólogos, os anjos são "espíritos puríssimos"; se têm uma forma, nós não a conhecemos. Segundo outros, ao contrário, eles devem ter uma "corporeidade", mesmo que espiritual.

– Quantos anjos existem?

A Bíblia fala de "milhões". Jacó, no seu misterioso sonho da escada que, apoiada na terra, tocava o céu, viu uma "multidão de anjos que subiam e desciam". Daniel, na sua "teofania", diz que "milhares e milhares o serviam e miríades de miríades diante dEle". Jesus no início de sua paixão, diz a Pedro que, se quisesse, o Pai poria à sua disposição doze legiões de anjos. Todas essas frases levam a entender que os anjos são inumeráveis.

– Eles Têm nomes?

A Bíblia revela apenas o nome de três anjos: Miguel, o anjo guerreiro que guiou os anjos bons contra os maus, comandados por Lúcifer, na famosa rebelião ocorrida no céu no início da vida do universo; Gabriel, o arcanjo que anunciou a Maria o mistério da Encarnação; Rafael, o anjo que apareceu a Tobias e procurou os remédios para curar o seu pai. Mas certamente cada anjo tem um nome específico e nós o conheceremos quando morrermos.

– Os anjos podem comunicar-se uns com os outros?

Se se entende por "comunicar" o ato de transmitir notícias, informações, então a resposta é afirmativa. Só Deus, que é onisciente, não precisa ser iluminado por outros. Como não têm plena consciência das coisas e precisam receber informações para saber o que devem fazer, os anjos se comunicam, trocam informações. Os anjos comunicam-se com Deus, com outros anjos e também com as pessoas. Têm o máximo poder de comunicação.

Não sabemos como fazem para se comunicar. Diógenes de Atenas, chamado de o Areopagita, um grande estudioso dos anjos convertido por São Paulo, explica o modo de comunicar-se dos anjos com estas palavras: "Quando um puro espírito mais elevado quer que um espírito inferior e menos provido de ciência tome conhecimento de algo, apresenta-se a ele de acordo com a sua natureza. Esse contato suscita idéias que despertam consciências inatas no outro. Então se diz que eles falam entre si e o discurso se desenrola numa troca coloquial de luzes intelectuais, plena de amor". São expressões que procuram explicar um fato que, como eu disse, não conhecemos, mas que deve ser maravilhoso e fascinante.

– Qual é a atividade específica desses puros espíritos?

Como todas as personalidades que habitam no reino eterno, sua atividade principal é a de viver a beatitude que provém da presença e do conhecimento de Deus. O conhecimento gera amor e felicidade: e esta é a beatitude eterna.

Mas os anjos também têm a tarefa de entrar em contato com o mundo, com o universo criado. São os "mensageiros" de Deus, os que executam projetos. Portanto, cada anjo tem tarefas bem determinadas.

Há anjos encarregados de proteger os povos e nações. A maioria dos estudiosos dessa matéria considera que esses seres de luz protegem todas as atividades humanas, para que estas recebam as luzes apropriadas para poderem ser úteis aos seres humanos e conformes aos desígnios de Deus.

– No seu pronunciamento sobre os anjos, o Papa também falou do anjo da guarda, que Deus teria dado a cada pessoa.

Esta é uma das verdades mais belas e reconfortantes da fé cristã. É uma realidade maravilhosa. Ao nascer, cada pessoa recebe de Deus um presente admirável: um anjo amigo que tem a tarefa específica de tomar conta dele. Depois de tudo o que dissemos sobre os anjos, é fácil entender a grandiosidade e a incrível importância prática desse presente.

Com seus poderes, suas faculdades, sua força, sua inteligência, seus conhecimentos, o anjo é um ser excepcional. É nosso amigo e nos ama. Para o cristão, esta não é uma tradição devocional, uma ilusão piedosa. Por mais que possa parecer inacreditável, é uma verdade de fé, uma realidade absoluta, sancionada pela palavra de Deus, da qual não se pode duvidar.

– Quais são as tarefas do anjo da guarda?

Salvar o seu protegido. O fim último da pessoa é, por meio da experiência terrena, alcançar o reino dos céus. Mas, no decorrer dessa experiência terrena, ele é continuamente tentado pelos espíritos do mal que querem impedi-lo de chegar a Deus. Devemos escolher entre o bem e o mal. O anjo da guarda é o amigo bom, iluminado, sábio, que o aconselha e o ajuda a fazer as escolhas acertadas.

Há uma oração muito antiga, que remonta ao século III, e que se chama "Anjo de Deus". Ela resume perfeitamente as tarefas do anjo da guarda. De acordo com essa oração, o anjo deve "iluminar", "proteger" e "guardar" as pessoas que Deus lhe confiou. "Iluminar" significa ajudar as pessoas a "ver" a verdade, a saber avaliar as coisas, as situações, a desfazer dúvidas, a tomar as decisões certas. "Proteger" significa defender dos perigos morais e físicos, salvar o seu protegido de situações difíceis, sugerir-lhe intuições para evitar doenças, acidentes, ferimentos, sofrimentos. E, por fim, "guardar". Este é um termo que demonstra todo o amor de Deus. O termo "guardar" é usado para as coisas preciosas. Pois bem, o anjo da guarda deve "guardar" as pessoas, porque, para Deus, as pessoas são os seres mais preciosos da criação. Por isso, ele encarrega os seus anjos de "guardar", com a máxima diligência e o maior amor, cada ser humano existente.

– Portanto, o anjo da guarda se empenha em ajudar a cada um de nós.

O anjo da guarda é o nosso amigo mais fiel, mais afeiçoado, mais sincero. Desempenhando as tarefas que Deus lhe confiou, ele realiza a si próprio. Portanto, ele as desempenha à perfeição.

– Em termos concretos, o que o anjo da guarda pode fazer por nós?

Pode fazer tudo. Naturalmente, sua ação em nosso favor é iluminada e guiada pelos desígnios de Deus. O anjo não pode, por exemplo, agir contra a nossa vontade. Se resolvemos fazer uma coisa, o anjo não pode nos deter, mesmo quando sabe que corremos perigo, que essa coisa pode ser fatal até para a nossa vida. O livre-arbítrio das pessoas é um bem concedido por Deus, que nem mesmo o próprio Deus viola. A pessoa escolhe a sua salvação ou a sua condenação. O anjo ajuda a pessoa a caminhar para a salvação, mas jamais "limita" a sua liberdade.

Portanto, Deus concede a todos esta ajuda grandiosa e belíssima, mas cabe a cada um de nós decidir se deve utilizá-la ou não. O anjo está sempre ao nosso lado, pronto a intervir, mas pouco pode fazer sem a nossa colaboração. Aqueles que o ignoram, que nunca falam com ele, que não o procuram, que não lhe pedem, não podem contar com uma grande ajuda. Pesaroso, o anjo se limitará a fazer o pouco que pode, respeitando a escolha de indiferença e agnosticismo de seu protegido. Mas aqueles que acreditam nesta verdade, que rezam a seu anjo da guarda, que falam com ele, que o invocam, que o utilizam, podem ter vantagens inacreditáveis.

Os santos tinham uma confiança total no anjo da guarda. Mas todas as pessoas que acreditam nesta realidade têm episódios extraordinários a relatar porque as intervenções do anjo são inumeráveis e clamorosas. O anjo da guarda está ao nosso lado como uma mãe dedicada. O Papa Pio XII dizia: "A familiaridade com os anjos dá um sentimento de segurança. Nossos companheiros invisíveis informam-nos sobre qualquer coisa da qual são informados diretamente por Deus".

A teologia relativa aos anjos — conclui monsenhor Ernesto Pisoni — é pouco conhecida e pouco estudada pelos cristãos. E é uma pena, porque trata-se de uma realidade espiritual grandiosa que poderia nos ajudar a enfrentar com mais serenidade, coragem e confiança os sofrimentos, as dores e provações que a vida nos impões todos os dias. E, ao mesmo tempo, nos ajudaria a "perceber" a maravilhosa beleza da vida que nos aguarda após a morte.

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¹ Mons. Ernesto Pisoni faleceu poucos meses depois de conceder esta entrevista, em 19 de novembro de 1992.

Os anjos, além de levar a Deus nossas notícias, trazem os auxílios de Deus a nossas almas e nos acalmam como bons pastores, com comunicações doces e inspirações divinas. Deus se vale deles para comunicar-se conosco. Os anjos nos defendem de todos os males e nos amparam.

(São João da Cruz, Cânticos Espirituais, 2,3)

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