Galeria Barroco - Arnaldo Poesia

 

 



~ O Barroco como estilo cultural ~

O historiador de arte Hans Haufe especializado em urbanismo histórico pleiteia uma nova leitura do patrimônio cultural brasileiro, pois a preservação dos monumentos ressalta: na formação de uma identidade nacional o barroco é um elemento constitutivo nesse cadinho de culturas.

Em 2004 a chegada dos modernistas, 80 anos antes, foi comemorada em Minas Gerais com um grande festival de cultura nas cidades barrocas. Os modernistas, um grupo de artistas e intelectuais, vinham de metrópoles nas quais reinavam modas européias. Mas não era Belo Horizonte, a cidade da prancheta em 1900, que os fascinava, e sim os lugares históricos da mineração. Mário de Andrade, Tarsila de Amaral e Oswald de Andrade — cujos livros programáticos Viagem da Descoberta do Brasil (1924) e Viagem Etnográfica ao Brasil (1928) tiveram um papel pioneiro — tentaram entender o Brasil como um todo e reavaliar suas culturas regionais. O retorno às próprias raízes então propagado não perdeu nada em atualidade até hoje, levando-se em consideração a dialética entre o orientar-se pelos outros e o encontrar-se a si mesmo.

Em Minas Gerais teve início uma redescoberta sistemática do barroco. O Guia de Ouro Preto (1938), de Manuel Bandeira, tornou-se legendário. Alberto da Veiga Guignard, ao qual se dedicou um museu, fundou uma escola de arte. Suas telas Fantasias de Minas são visões de um paraíso barroco. Ouro Preto, a capital histórica de Minas, virou símbolo de uma nova consciência cultural.

Enquanto o Brasil passava por uma fase de industrialização que ameaçava a substância arquitetônica histórica, no patamar oficial o debate sobre herança cultural e identidade levou em 1937 à fundação do IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Suas publicações, tais como Mocambos do Nordeste (1937), do famoso sociólogo Gilberto Freire, tinham por fim fomentar a ‘’consciência histórica’’, num ‘’trabalho de proteção como uma atividade técnica, baseado num profundo conhecimento da realidade sobre a qual se iria intervir, muitas vezes contrariando interesses poderosos”, como expressou Francisco Weffort em 1937.

O IPHAN realiza pesquisa básica e cataloga o patrimônio arquitetônico e artístico, tendo iniciado sua atividade em lugares de importância central. Sucessos consideráveis refletem-se na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco, em que o Brasil está representado com 17 sítios (entre os quais, em Minas Gerais: Ouro Preto, Diamantina e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos). Sete áreas de proteção da natureza dão testemunho de uma nova conscientização ecológica. Os lugares incluídos nessa lista — poucos, levando-se em consideração a extensão do país — marcam a diversidade cultural entre as Missões dos Jesuítas no sul e São Luiz do Maranhão no Nordeste, com as mais diferentes tradições arquitetônicas.

Precondição para a inclusão na lista do Patrimônio Mundial é a Realização de uma série de intervenções. Em Salvador, as atividades de preservação do patrimônio tiveram início já em 1938. A antiga capital do Brasil, nesse meio tempo um grande aglomerado urbano, demonstra plasticamente os problemas de um conjunto histórico preservado como uma ilha em meio a um enorme oceano de concreto, e que vive primordialmente do turismo. Inúmeros prédios de hotel sem caráter despontam ao longo da vulnerável orla litorânea. Os contrastes visuais brutais apontam para uma situação social dramática.

A Bahia dispõe de um excelente inventário atualizado de seu patrimônio cultural, que inclui um grande número de lugarejos com arquitetura dos séculos XVII e XVIII. A tarefa é preservar povoados surgidos de missões, como Cairu, Camamu e Belmonte, como modelos de integração perfeita na paisagem costeira. Eles têm um grande potencial para se tornar centros de um turismo individual orientado pelo interesse pela cultura e pelo meio ambiente.

Cabem nesse perfil ainda alguns lugarejos situados no Recôncavo Baiano, como Cachoeira, fundada entre Salvador e Minas e protótipo de cidade barroca à margem de um rio, um conjunto de efeito cenográfico sugestivo. A relação intacta com a serra e com a orla garante um microclima muito agradável. A simbiose entre arquitetura e topografia foi concluída no barroco. Seu encanto foi reconhecido também pelo artista hamburguês Hansen-Bahia, que fundou ali um museu. O avanço da degradação do centro histórico, sinal da decadência econômica, deverá ser detido por meio de investimentos vultosos da Caixa Econômica Federal.

Planeja-se, por meio do programa de Revitalização de Sítios Históricos, não apenas preservar centros culturais, como também deter a degradação, que já se encontra em estágio adiantado. Uma tarefa de âmbito nacional. A vinculação entre preservação do patrimônio e proteção da natureza é cada vez mais reconhecida. Na região baiana da Chapada Diamantina, atividades do IPHAN e de um parque natural concatenam-se numa bem bem-sucedida concepção com vistas à preservação de uma paisagem cultural ímpar.

A chegada a um lugar como Rio das Contas é uma experiência de grande intensidade, baseada na simbiose com o serrado, formas barrocas simples de grande encanto estético e praças amplas e irregulares destinadas a diferentes funções. Uma arquitetura sem arquitetos, nascida do genius loci.

O último sítio incluído no Patrimônio Cultural da Humanidade demonstra uma concepção bem mais ampla: Vila Velha de Goiás perdeu em importância, com a transferência da capital do Estado de Goiás — tendo se preservado justamente por isso. Em 1959, foram tombados alguns monumentos; só em 1979, o centro inteiro. Em 1988, toda a peculiar região do entorno, a Serra Dourada, foi transformada em zona de proteção da natureza. Em 1996, deliberou-se um Plano Diretor, importante condição para a inclusão na lista do Patrimônio Mundial. A cidade é, além do mais, exemplo de integração da arquitetura do século XIX num conjunto barroco. Situada entre Brasília e Goiânia, ela é hoje uma jóia preciosa, lembrando a primeira fase da colonização do interior.

A importância de cidades menores como alternativa para o barulho das metrópoles cresce também no Brasil. Em Paraty e Tiradentes, conseguiu-se preservar as estruturas históricas apesar da invasão das massas de turistas. A comercialização intensiva traz também perigos: em Ouro Preto, a frágil arquitetura sofre danos em função dos pesados veículos que avançam em direção ao centro da cidade.

Nesse meio tempo, a maioria das metrópoles assemelhavam-se a tristes desertos de concreto armado. Seus graves problemas, no entanto, levaram a valorização do patrimônio cultural: o Brasil não pode renunciar a seus sítios históricos. Eles possibilitam vivenciar a história. As cidades históricas são o mais importante instrumento da identificação compreendida como práxis cultural, indispensável para o “ brasileiramento do brasileiro ”, nas palavras de Luiz Sérgio da Silva (1997).

Por motivos estéticos, ecológicos, climáticos e higiênicos, a recuperação das orlas das metrópoles é uma tarefa existencial. O Rio de Janeiro, Vitória e Porto Alegre mostram como a degradação do litoral levou a uma catastrófica perda de qualidade de vida. No Rio, Burle Marx recuperou em parte a relação vital com a água, outros lugares estão revitalizando suas águas urbanas.

Também em Olinda, a antiga capital de Pernambuco, a relação estrutural com o Atlântico é decisiva para a coerência da imagem do lugar. Esse contato harmonioso foi destruído em grande parte no Recife. O porto, até então insignificante, tornou-se em 1637 base de um experimento cultural único, segundo o exemplo de uma cidade marítima holandesa. Maurício de Nassau criou um conjunto de ordenação geométrica que se diferenciava claramente dos modelos portugueses. Seus monumentais eixos perspectivos anteciparam idéias barrocas de planejamento urbano.

Ainda hoje, alguns elementos da planta correspondem a sua cidade ideal. Sua residência e seu parque — únicos na América — deram impulsos, após seu retorno à Europa, à construção de inúmeros parques barrocos, por exemplo, Potsdam e Berlim. No Recife, os projetos de preservação do patrimônio concentram-se no bairro portuário histórico e em lugares centrais, tais como o Convento e a Igreja de Nossa Senhora do Carmo ou a Igreja de São Pedro dos Clérigos, do século XVIII.

No decorrer das relações entre Brasil e a Europa, o barroco tornou-se uma época de contatos culturais intensos. Graças aos cientistas e artistas arregimentados por Maurício de Nassau para a investigação e documentação do país, bem como para moldar sua residência, o Recife tornou-se um lugar a partir do qual temas e motivos brasileiros penetraram em muitos lugares do barroco europeu. Os efeitos dessa época chegam até o século XVIII: as exposições e conferências concebidas por Gerhard Brunn, de Siegen, e por pesquisadores brasileiros e holandeses e realizadas em 2004 são prova de quanto os projetos de Maurício de Nassau influenciaram a imagem que os europeus têm do Brasil e a imagem que os brasileiros têm de si mesmos. Os quadros pintados numa fase inicial do barroco e que mostram um paraíso tropical, bem como as obras cartográficas surgidas na disputa pelo poder com o império espanhol, o tráfico de escravos e a produção açucareira, tiveram um efeito que ultrapassou em muito a apropriação colonial.

O Recife surgiu como urbs atlântica no campo de tensão entre a Europa e a África, incorporando de maneira especial as coordenadas de uma trágica confrontação entre a África, a Europa e o Brasil. Um desafio para a pesquisa internacional e a cooperação intercultural que teve pouco eco até agora.

No Nordeste do Brasil, o barroco surgiu como num contexto econômico diferente do de Minas, tendo sido no entanto investigado desde cedo.Também neste caso, impuseram-se na preservação do patrimônio conceitos inovadores. A cidadezinha de Igarussu, em cujo centro se encontra uma praça monumental em forma de triângulo de grande efeito cenográfico, que abre amplas perspectivas sobre o mar, foi declarada em 1955 cidade-monumento. Nesse meio tempo, passou a ser definida como conjunto paisagístico e urbanístico, cumprindo assim uma função modelar.

A descentralização do IPHAN gerou impulsos decisivos. Alguns lugares se mantiveram intactos até agora por se situarem relativamente longe das aglomerações urbanas, por exemplo, Serro, em Minas, e Marechal Deodoro, a antiga capital de Alagoas, não atingida pelo impacto do turismo em massa no litoral próximo. Atualmente o programa Monumenta do IPHAN dedica-se à revitalização desses lugares. Os perigos que ameaçam uma cidadezinha histórica abandonada à própria sorte durante muito tempo são comprovados por Penedo, outrora uma fortaleza dos holandeses no Estado de Alagoas. Intervenções infelizes por parte do comércio e um hotel enorme, um bocado feio, num lugar de destaque quebram o padrão histórico da cidade.

São Luiz do Maranhão, impar na América Latina, dispõe de um centro histórico amplo (cerca de mil edifícios históricos em 222 hectares). As primeiras intervenções contra a degradação realizaram-se em 1955. Elas foram intensificadas em 1980 e levaram em 1977 à inclusão na lista do Patrimônio Cultural da Humanidade. Na cidade pode-se admirar o desenho barroco das ruas, as fachadas ricamente decoradas com azulejos, a luz e as cores do Atlântico, talvez influências do urbanismo espanhol, os motivos bioclimáticos que geram um máximo de ventilação no interior das casas. Mesmo que se façam comparações acadêmicas — sem o conhecimento das culturas regionais, elas seriam incompletas. A cidade vibra no ritmo de suas cores, gestos e festas. Ela é uma lição de arquitetura paisagística barroca de importância internacional. A Unesco acentua expressamente o caráter inconfundível de suas formas arquitetônicas, que correspondem às características do Brasil equatorial.

Os temas do barroco são especialmente apropriados para a discussão de questões complexas sobre identidade cultural. No contexto histórico-geográfico concreto, as influências indígenas e afro-brasileiras merecem atenção especial. As culturas autóctones sobrevivem nos topônimos, nos nomes de plantas, cidades e rios (como Niterói, Curitiba, Itacolomy, mandioca) e nas áreas em que elas estão hoje assentadas. Elas impregnaram de diferentes maneiras os motivos e as formas regionais do barroco.

Em torno de 1740, as formas arquitetônicas barrocas haviam-se imposto por toda parte. Na soma de suas manifestações culturais, barroco demonstra ser “uma ideologia global, um estilo de crença”, como afirmou Maurice Pianzola em 1992. Isso explica sua multiplicação no cosmo católico, que marcou duradouramente a paisagem cultural em seu todo. Incluem-se aí lugares de peregrinação, conventos, capelas, cruzeiros, fazendas e as tradições das culturas populares, entre as quais a música. No setor profano, mencionem-se as fortalezas, surgidas até o século XVIII no âmbito da consolidação do território. O barroco como sistema aberto, espaço de identificação com as próprias raízes. Com variantes criativas entre o Amapá e o Rio Grande do Sul. As pesquisas do urbanista Nestor Goulart Reis Filho dão testemunho da força que os planejamentos barrocos tiveram na moldagem da paisagem.

Os efeitos desse estilo persistem na cultura do presente. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, que tomaram parte na elaboração da base jurídica da preservação do patrimônio, eram profundos conhecedores do barroco e da riqueza das paisagens brasileiras. Sua obra dificilmente pode ser compreendida sem seu pano de fundo sociocultural. Na morfologia orgânica de seus trabalhos, na relação com a água como elemento da criação, Niemeyer desenvolveu uma arquitetura conceitual do diálogo com a paisagem do Brasil, originando com isso uma inovação da estética, “numa refinada combinação entre volumetrias puristas do estilo internacional modernista, formas curvilíneas livres e elementos reminiscentes do barroco brasileiro”, segundo análise de Eliane De Simone (2003).

Lúcio Costa, assessor do IPHAN entre 1936 e 1946, esteve envolvido na recuperação das Missões no Rio Grande do Sul e realizou trabalhos próprios acerca da arquitetura dos jesuítas. Hoje as obras-primas dos dois grandes arquitetos parecem perdidas entre as construções baratas das megalópoles. Com seu Museu de Arte Contemporânea em Niterói, uma de suas obras mais recentes, Oscar Niemeyer projetou mais uma vez um farol de reconciliação com a paisagem brasileira, sua resposta aos “fazedores de desertos” (Euclides da Cunha, 1866-1909).

Ao mesmo tempo, a pesquisa sobre o barroco brasileiro avançou consideravelmente. Autores como Walter Zanini, Suzy de Mello, Lourival Gomes Machado, e outros mais jovens como Percival Tirapelli e Claudia R. Vial Ribeiro, criaram as condições para a preservação do patrimônio arquitetônico. Incluem-se nesse contexto estudos inovadores sobre o significado simbólico da cor e influência da luz sobre a arquitetura (Rosa Alice França, 2003), os caminhos de procissão no conjunto urbano (Lara Mancuso, 2005) e O Conceito do Espaço do Barroco Tardio na Europa e no Brasil, de Wolfgang Pfeiffer (1989).

Nesse meio tempo, a fragmentação das metrópoles brasileiras atingiu proporções insuportáveis. Diante dos perigos de uma “sociedade de risco” globalizada (Ulrich Beck, 1986), a pesquisa internacional ganha em importância: “precisamos da memória histórica como meio de abertura e de enriquecimento mútuo”, afirmou Guilherme de Oliveira Martins em 2004.

As possibilidades de cooperação no setor da preservação do patrimônio por enquanto vêm sendo pouco aproveitadas. O barroco como práxis cultural remete à responsabilidade da história da arte e à imagem que esta tem de si própria. Ao lado de autores clássicos como Germain Bazin e R. C. Smith, contribuíram para uma aproximação intercultural projeto do tipo Simpósio Internacional do Barroco Latino-Americano (Roma, 1982), as magníficas exposições de esculturas brasileiras barrocas em Paris e Brasilien, Entdeckung und Selbsentdeckung (Brasil, Descobrimento e Autodescobrimento), em Zurique (1992). O Território Barroco, um congresso em Belo Horizonte em 2000, e as atividades internacionais que tiveram lugar em 2004, por ocasião do quarto centenário de nascimento de Maurício de Nassau, deveriam ser especialmente analisadas, bem como o simpósio A Invenção do Barroco, em São Paulo (2005).

Estudos sobre o barroco nos confrontam também com os mais sombrios temas de nossa história conjunta. Eles nos remetem ao reconhecimento de quanto as culturas da Europa e das Américas repousam uma sobre as outras e de como elas se completam mutuamente. O ensaio O Barroco e o Real Maravilhoso, de Alejo Carpentier, é um convite à descoberta de novos horizontes para o diálogo. Para a história da arte, resulta uma perspectiva cultural fascinante como tarefa prioritária. Diante da alienação atestada por Laurent Fabius à Europa dos tecnocratas, um organismo “humanamente sem substância, politicamente sem identidade e geograficamente sem limites” (2005), a competência intercultural é, para a ciência, uma questão de credibilidade.

Dificilmente alguém negará que a imagem eurocêntrica do mundo é obsoleta. No entanto, em universidades alemães procura-se em vão pela pesquisa da história da arte latino-americana que seja institucionalizada e sistemática. Enquanto Tonio Hölscher reivindicava “uma base cientifica construtiva para o desenvolvimento de uma ordem global fundamentada no entendimento competente de culturas estranhas” (2005), a Universidade de Heildelberg fechava o Departamento de Cultura Ibérica fundado por Walter Palm. Será que a coação à auto-reprodução acadêmica obstrui o olhar sobre outras culturas? Exclusão e falta paradigmática de compreensão como princípio básico de preconceitos ultrapassados?

~ Arnaldo Poesia ~

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Bibliografia: Estudos Sobre o Barroco, Arnaldo Poesia, Edição do Autor, Niterói, 1984. – Revista Humboldt, número 91, Goethe Institut, Munique, 2005.

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