Galleria Borghese

Galeria Barroco - Arnaldo Poesia

 

 



~ Barroco Mineiro ~

  Francisco Xavier de Brito, Maria Madalena, século XVIII. Madeira policromada, 61 x 44 x 34 cm. Museu de Arte Sacra de São Paulo.

O barroco chega à América Latina, especialmente ao Brasil, com os missionários jesuítas, que trazem o novo estilo como instrumento de doutrinação cristã. Os primeiros templos surgem como uma transplantação cultural, que se utiliza de modelos arquitetônicos e de peças construtivas e decorativas trazidas diretamente de Portugal. Com a descoberta do ouro, estende-se por todo o país o gosto pelo barroco. Durante o século XVIII, quando a Europa experimenta as concepções artísticas do Neoclassicismo, a arte colonial mineira resiste às inovações, mantendo um barroco tardio mas singular.

A distância do litoral e as dificuldades de importação de materiais e técnicas construtivas vão dar ao barroco de Minas Gerais um caráter peculiar, que possibilita a criação de uma arte diferenciada, marcada pelo regionalismo. A conformação urbana das vilas mineiras e a fé intimista, em que cada fiel se relaciona com seu santo protetor, viabilizam uma forma de expressão única, que se define como um gosto artístico e, mais do que isso, como um estilo de vida — um modo de ver, sentir e vivenciar a arte e a fé.

Nesse contexto, surgem artistas que trabalham a partir das condições materiais da região, adaptando os ideais artísticos à sua vivência cotidiana. Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Manoel da Costa Athayde são os expoentes máximos dessa arte adaptada ao ambiente tropical e ligada aos recursos e valores regionais. Aleijadinho introduz a pedra-sabão em seus trabalhos escultóricos para substituir o mármore, e Athayde cria pinturas similares aos apreciadíssimos azulejos portugueses, quando trabalham juntos na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto. É nesse sentido que o barroco desenvolvido em Minas Gerais ganha expressão particular no contexto brasileiro, firmando-se como Barroco Mineiro.

 

~ Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho ~
Barroco e Elegância Rococó na Arte

Antônio Francisco Lisboa não foi apenas o mais inspirado escultor religioso do mundo luso-brasileiro e um dos últimos da tradição ocidental. Foi também o arquiteto e ornamentista de gênio, responsável pelo projeto e decoração escultórica de algumas das igrejas de maior originalidade e requinte da arquitetura luso-brasileira. As já citadas igrejas das Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco de Assis nas cidades de Ouro Preto, São João del Rei, Sabará e Congonhas do Campo (Santuário de Bom Jesus de Matosinhos), são as que revelam seu estilo de forma mais abrangente, pois além da execução de obras escultóricas em madeira ou pedra-sabão, que eram a sua especialidade, teve ampla participação nos respectivos projetos arquitetônicos e ornamentais.


Aleijadinho, profeta Oséias, pedra-sabão, adro do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais.

Nestas igrejas e em outras da região mineira onde realizou obras diversas seu estilo pessoal pode ser reconhecido no elegante movimento ondulatório das fachadas notadamente no Carmo e São Francisco de Ouro Preto, na complexidade e delicadeza dos relevos escultóricos das portadas em pedra-sabão e nas requintadas decorações internas em talha dourada, com seus vigorosos ornatos dourados de desenho sinuoso destacando-se contra fundos claros ou em leves marmorizados azuis. A inspiração vem agora do rococó, assimilado por intermédio de gravuras ornamentais de origem francesa e germânica, importadas em larga escala em Portugal, a partir de cerca de 1750, de onde passaram às colônias de Além-mar.

Sua obra-prima no gênero é a decoração da capela-mor da igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto, comandada pelo monumental retábulo dourado ocupando toda a parede do fundo e interligado de forma harmoniosa aos demais elementos ornamentais que culminam na graciosa figura de um Anjo portador de flores na parte central da abóbada. A referência mais próxima são igrejas do rococó germânico como as de Steinhausen, na Suábia, ou a de Wies, na Baviera, que produzem a mesma sensação de requinte e leveza, induzindo à oração na alegria, símbolo de um novo mundo religioso regido pela "epifania da graça", como o definiu Philippe Minguet em Esthétique du Rococo.

A utilização simultânea de recursos formais e expressivos do barroco italiano, já aclimatado em Portugal, e do rococó francês e germânico, assimilado em grande parte através de gravuras ornamentais, nada tem de extraordinária, tendo-se em vista o contexto periférico colonial que gerou a obra do Aleijadinho. O que impressiona é a adequação das escolhas de modelos relativamente aos temas tratados, a sintonia com os movimentos artísticos internacionais da época, e a profunda originalidade dessa obra, ao mesmo tempo universal e plenamente inserida na cultura regional e local. Qualidades estas que identificam de imediato a produção de todo artista maior.

~ Nossa Senhora do Carmo (Museu da Inconfidência), Ouro Preto ~


N. Sra. do Carmo

A imagem de Nossa Senhora do Carmo localiza-se no centro do altar, em lugar de destaque — onde anteriormente ficava um crucifixo, de acordo com as regras do decoro.

Referências à pequena imagem de Nossa Senhora do Carmo do Museu da Inconfidência parecem ser obrigatórias nas publicações sobre a produção de Aleijadinho.

"Serve como parâmetro na atribuição de outras obras do mestre, tal sua monumentalidade" (BAZIN, 1971, p. 239).

Bazin referia-se a ela como “a única imagem certa da Virgem que dele possuímos”, e mais: “Apesar das pequenas dimensões, essa obra tem caráter verdadeiramente monumental” (BAZIN, 1971, p. 239).

Na fase da pesquisa bibliográfica, foram localizadas publicações que dão sua autoria ao Aleijadinho e como procedência a Fazenda Serra Negra (MEC/ FUNARTE, 1984, p.93 e 154) e outra onde o status de autoria é substituído pelo de atribuição e sua procedência é omitida (SAFRA, 1995, p. 106).

Na ficha catalográfica do Museu da Inconfidência — nº. de inventário 352, catalogada em 1º de março de 1999 e revisada em 5 de outubro de 2001, pela museóloga Celina Santos Barboza, elaborada com a colaboração de Janine Ojeda — consta da seleção dos objetos que entraram no Museu da Inconfidência o item 36, p.19: como “proveniente do Museu Arquidiocesano de Mariana”, segundo texto manuscrito pelo museólogo Orlandino Seitas Fernandes.

No Guia do Visitante, de 1965, Orlandino Seitas Fernandes informa ser a imagem também de autoria de Antônio Francisco Lisboa, assim como o altar, e datada de 1795.

A imagem consta do Arrolamento de Bens Móveis do IPHAN/SPHAN/FNPM, realizado por Maria José Cunha, entre 1979 e 1981, como origem/procedência: Santa Quitéria, Minas Gerais.

— Medidas da imagem de Nossa Senhora do Carmo: 0,436m x 0,196m x 0,092m

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Bibliografia: Estudos Sobre o Barroco, Arnaldo Poesia – Niterói – Edição do Autor, 1984.

© Arnaldo Poesia, Le Monde, de Paris, Quinzaine Littéraire, 1997/2010.
Tous droits de traduction et d’adaptation réservés pour tous pays.



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