Antônio Francisco Lisboa não foi apenas o mais inspirado
escultor religioso do mundo luso-brasileiro e um dos últimos da tradição
ocidental. Foi também o arquiteto e ornamentista de gênio, responsável pelo
projeto e decoração escultórica de algumas das igrejas de maior originalidade e
requinte da arquitetura luso-brasileira. As já citadas igrejas das Ordens
Terceiras do Carmo e São Francisco de Assis nas cidades de Ouro Preto,
São João del Rei, Sabará e Congonhas do Campo (Santuário de Bom Jesus de
Matosinhos), são as que revelam seu estilo de forma mais abrangente, pois além
da execução de obras escultóricas em madeira ou pedra-sabão, que eram a sua
especialidade, teve ampla participação nos respectivos projetos arquitetônicos
e ornamentais.
 Aleijadinho, profeta Oséias, pedra-sabão, adro do Santuário de
Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, Minas Gerais. |
Nestas igrejas e em outras da região mineira onde
realizou obras diversas seu estilo pessoal pode ser reconhecido no elegante
movimento ondulatório das fachadas notadamente no Carmo e São Francisco de
Ouro Preto, na complexidade e delicadeza dos relevos escultóricos das portadas
em pedra-sabão e nas requintadas decorações internas em talha dourada, com
seus vigorosos ornatos dourados de desenho sinuoso destacando-se contra fundos
claros ou em leves marmorizados azuis. A inspiração vem agora do rococó,
assimilado por intermédio de gravuras ornamentais de origem francesa e
germânica, importadas em larga escala em Portugal, a partir de cerca de 1750,
de onde passaram às colônias de Além-mar.
Sua obra-prima no gênero é a decoração da
capela-mor da igreja de São Francisco de Assis
de Ouro Preto, comandada pelo monumental retábulo dourado ocupando toda a
parede do fundo e interligado de forma harmoniosa aos demais elementos
ornamentais que culminam na graciosa figura de um Anjo portador de flores na
parte central da abóbada. A referência mais próxima são igrejas do rococó
germânico como as de Steinhausen, na Suábia, ou a de Wies, na Baviera, que
produzem a mesma sensação de requinte e leveza, induzindo à oração na alegria,
símbolo de um novo mundo religioso regido pela "epifania da graça", como o
definiu Philippe Minguet em Esthétique du Rococo.
A utilização simultânea de recursos formais e
expressivos do barroco italiano, já aclimatado em Portugal, e do rococó
francês e germânico, assimilado em grande parte através de gravuras
ornamentais, nada tem de extraordinária, tendo-se em vista o contexto
periférico colonial que gerou a obra do Aleijadinho. O que impressiona é a
adequação das escolhas de modelos relativamente aos temas tratados, a sintonia
com os movimentos artísticos internacionais da época, e a profunda
originalidade dessa obra, ao mesmo tempo universal e plenamente inserida na
cultura regional e local. Qualidades estas que identificam de imediato a
produção de todo artista maior.

~ Nossa Senhora do Carmo (Museu da Inconfidência), Ouro Preto ~

N. Sra. do Carmo
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A imagem de Nossa Senhora do Carmo localiza-se no centro do altar, em lugar
de destaque — onde anteriormente ficava um crucifixo, de acordo com as regras do
decoro.
Referências à pequena imagem de Nossa Senhora do Carmo do Museu da
Inconfidência parecem ser obrigatórias nas publicações sobre a produção de
Aleijadinho.
“Serve como parâmetro na atribuição de outras obras do mestre, tal sua
monumentalidade” (BAZIN, 1971, p. 239).
Bazin referia-se a ela como “a única imagem certa da Virgem que dele
possuímos”, e mais: “Apesar das pequenas dimensões, essa obra tem caráter
verdadeiramente monumental” (BAZIN, 1971, p. 239).
Na fase da pesquisa bibliográfica, foram localizadas publicações que dão sua
autoria ao Aleijadinho e como procedência a Fazenda Serra Negra (MEC/ FUNARTE,
1984, p.93 e 154) e outra onde o status de autoria é substituído pelo de
atribuição e sua procedência é omitida (SAFRA, 1995, p. 106).
Na ficha catalográfica do Museu da Inconfidência — nº. de inventário 352,
catalogada em 1º de março de 1999 e revisada em 5 de outubro de 2001, pela
museóloga Celina Santos Barboza, elaborada com a colaboração de Janine Ojeda —
consta da seleção dos objetos que entraram no Museu da Inconfidência o item 36,
p.19: como “proveniente do Museu Arquidiocesano de Mariana”, segundo texto
manuscrito pelo museólogo Orlandino Seitas Fernandes.
No Guia do Visitante, de 1965, Orlandino Seitas Fernandes informa ser a
imagem também de autoria de Antônio Francisco Lisboa, assim como o altar, e
datada de 1795.
A imagem consta do Arrolamento de Bens Móveis do IPHAN/SPHAN/FNPM, realizado
por Maria José Cunha, entre 1979 e 1981, como origem/procedência: Santa
Quitéria, Minas Gerais.
— Medidas da imagem de Nossa Senhora do Carmo: 0,436m x 0,196m x 0,092m

~ Arte Sacra Barroca dos Séculos XVII, XVIII e XIX ~

Sant´Ana e Nossa Senhora
Menina
Madeira policromada, alt. 0,86m. Séc. XVIII
Museu de Arte Sacra da Bahia
Sant'Ana, mãe da Santíssima Virgem Maria e esposa de São
Joaquim, vem sempre acompanhada de sua filha. Nesta representação, as duas
caminham de mãos dadas e Nossa Senhora segura seu
livro.


~ Museu de Arte Sacra da Bahia ~
A coleção exposta no Museu de Arte Sacra da Bahia é composta de peças do seu próprio acervo,
adquiridas ao longo do tempo, desde a sua inauguração, como também de obras a ele confiadas,
por igrejas, irmandades, conventos e colecionadores particulares.