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~ A Entrada de Teresa Para o Carmelo ~ Escrito por ela mesma (Primavera de 1888) Jesus + Escolheu-se para minha entrada uma segunda-feira, 9 de abril, data em que o Carmelo celebrava a festa da Anunciação, transferida por causa da Quaresma. Na véspera, toda a família estava reunida em torno da mesa, onde me assentaria pela última vez. Ah! como são pungentes reuniões assim, na intimidade!... Na ocasião que não queremos ser alvo de atenções, prodigam-se carinhos, palavras extremamente afetuosas, que fazem sentir o sacrifício da separação... Papai não falava quase nada, mas seu olhar fixava-se em mim com amor... Titia chorava de vez em quando, e Titio dava-me mil demonstrações de afeto. Joana e Maria também se desdobravam em delicadezas para comigo; sobretudo Maria que, tomando-me à parte, pediu perdão das mágoas que julgava ter-me causado. Por fim, minha querida Leoniazinha que voltara há alguns meses da Visitação, cobria-me de beijos e carícias. Só resta Celina (após a morte da mãe, Teresa passou a considerar Celina, sua irmã, como mãe. Nota) , de quem não falei, mas adivinhais, minha querida Mãe, como se terá passado a última noite que dormimos no mesmo quarto... Na manhã do grande dia, depois de lançar um derradeiro olhar nos Buissonnets, gracioso ninho de minha infância, que já não tornaria a ver, saí ao braço de meu querido Rei para subir à montanha do Carmelo... Como no dia anterior, toda a família se reunira para ouvir a Santa Missa e comungar. Assim que Jesus desceu nos corações dos meus queridos parentes, não ouvi em redor de mim senão soluços. E era só eu que não derramava lágrimas, mas sentia o coração bater com tal violência, que me parecia impossível dar um passo, quando vieram dar sinal para que chegássemos à porta de clausura. Ainda assim, fui andando, e perguntava a mim mesma, se não iria morrer pela força das batidas do coração... Ah! que momento aquele! Para poder avaliá-lo, é preciso ter passado por ele... Minha emoção não se manifestou por fora. Depois de haver abraçado todos os membros de minha querida família, pus-me de joelhos diante do meu incomparável Pai para lhe pedir a benção; ele mesmo se pôs de joelhos e abençoou-me a chorar... Devia fazer sorrir os anjos, esse espetáculo em que um pai apresenta ao Senhor sua filha ainda na primavera da vida!... Alguns instantes depois, as portas da Santa Arca se fechavam atrás de mim, e lá dentro recebi os abraços das queridas manas que me haviam servido de mães, e que dali por diante tomaria como modelos de minhas ações... Enfim, meus desejos estavam satisfeitos. Minha alma experimentava uma PAZ tão doce e tão profunda, que não poderia externá-la com palavras, e faz sete anos e meio que essa paz íntima se conserva como minha partilha, e não me abandonou no meio das maiores provações. Como todas as postulantes, fui levada ao coro imediatamente depois de minha entrada. Estava escuro, por causa da exposição do Santíssimo Sacramento (conforme o costume de então, o coro era conservado em penumbra, para as Carmelitas não serem vistas da capela, quando os postigos da grade ficavam abertos. Nota), e o que em primeiro lugar surpreendeu minha vista foram os olhos de nossa santa Madre Genoveva, que se concentrava sobre mim. Demorei um instante de joelhos aos seus pés, e agradeci ao Bom Deus a graça que me concedia de ficar conhecendo uma santa. E depois acompanhei Madre Maria de Gonzaga a vários recintos da comunidade. Tudo me parecia fascinante. Imaginava-me transportada a um ermo; era principalmente minha celinha que me encantava, mas a alegria que sentia, era tranquila. Nem a mais leve brisa fazia ondular as águas remansosas, nas quais navegava meu pequeno barco. Nenhuma nuvem toldava meu céu azulado... ah! estava plenamente ressarcida de todas as provações... Com que profunda alegria repetia as palavras: "Aqui estou para sempre, é para sempre..." Esta felicidade não era efêmera, não se dissiparia com "as ilusões dos primeiros dias". Quanto a ilusões, o Bom Deus concedeu-me a graça de não ter NENHUMA, quando entrei para o Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal qual a imaginara. Nenhum sacrifício me espantou. No entanto vós o sabeis, meus primeiros passos toparam mais em espinhos do que em rosas!... Sim, o sofrimento estendeu-me os braços, e lancei-me neles com amor... O que vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus-Hóstia no exame que precedeu minha profissão: "Vim para salvar as almas, e principalmente para rezar pelos sacerdotes". Quando se quer atingir um fim, é preciso aplicar os respectivos meios. Jesus deu-me a entender que pela cruz queria dar-me almas, e meu atrativo pelo sofrimento crescia na proporção que o sofrimento se avolumava. Durante cinco anos, meu sofrimento, tanto mais doloroso, quanto unicamente conhecido, por mim. Oh! se tivermos lido a história das almas, qual não será nossa surpresa no fim do mundo!... Quantas pessoas não ficarão admiradas ao verem por qual caminho foi levada a minha... Isto é tão verdadeiro que, dois meses após minha entrada, vindo para a profissão da Irmã Maria do Sagrado Coração, Padre Pichon ficou surpreso ao verificar o que o Bom Deus operava em minha alma. Disse-me que, na véspera, me observou a rezar no coro, e achava meu fervor muito próprio de criança, e meu caminho muito suave. A conversa com o bom Padre foi para mim um consolo muito grande, embora anuviado de lágrimas, por causa da dificuldade que sentia em abrir minha alma. Sem embargo, fiz confissão geral, como nunca fizera anteriormente. Ao cabo, disse-me o Padre estas palavras, as mais consoladoras que me vibraram aos ouvidos da alma: "Na presença do Bom Deus, da Santíssima Virgem e de todos os Santos, DECLARO QUE JAMAIS COMETESTES UM SÓ PECADO MORTAL". Acrescentou em seguida: "Agradecei ao Bom Deus o que fez por vós, pois se vos tivesse abandonado, em lugar de ser um anjinho, tornar-vos-íeis um demoninho". Oh! não tive dúvida em admiti-lo. Sentia quanto era frágil e imperfeita, mas a gratidão inundava minha alma, que a declaração, saída da boca de um diretor, como os que nossa Santa Madre Teresa desejava, isto é, os que unissem a ciência à virtude (Caminho da Perfeição, VI.) , me parecia proferida pela boca do próprio Jesus... Disse-me ainda o bom Padre as seguintes palavras, que ficaram carinhosamente gravadas em meu coração: "Minha filha, Nosso Senhor seja sempre vosso Superior e vosso Mestre de noviciado". De fato, Ele o foi, e foi também "meu diretor". Não quero dizer que minha alma se tenha fechado às minhas Superioras. Ah! longe disso, sempre me esforcei por lhes ser um livro aberto. (...) Disse que Jesus fora "meu diretor". Ao entrar para o Carmelo, travei conhecimento com alguém que me serviria como tal, mas ele partiu para o desterro (o Padre Pichon foi enviado ao Canadá, na qualidade de pregador. Embarcou a 3 de novembro de 1888. Nota), logo depois de me admitir ao número de suas dirigidas... Assim, foi só conhecê-lo, para logo me privar dele... Limitada a receber uma carta sua por ano sobre as doze que lhe escrevia, meu coração de pronto se voltou ao Diretor dos diretores, e foi com quem me instruiu nessa ciência oculta aos sábios e entendidos, dignando-se comunicá-la aos pequeninos... (Cfr. Mt. 11,25.) Transplantada para a montanha do Carmelo, a florzinha iria desabrochar à sombra da Cruz. As lágrimas, o Sangue de Jesus tornaram-se seu orvalho, e seu Sol era a sua adorável Face, velada de pranto... Até então não tinha sondado, ainda, a profundeza dos tesouros ocultos na Sagrada (a devoção da Sagrada Face desenvolveu-se no século XIX, em conseqüência das revelações de Nosso Senhor à Irmã Maria de São Pedro, do Carmelo de Tours. Desde o início de sua vida religiosa, Teresa foi iniciada nessa devoção pela Irmã Inês de Jesus. Nota) , e foi por vosso intermédio, minha querida Mãe, que aprendi a conhecê-los. Como há tempos a nós todas precedestes no Carmelo, assim também fostes a primeira a penetrar os mistérios de amor, escondidos na Face de nosso Esposo. Chamastes-me então, e compreendi... Compreendi o que vinha a ser a verdadeira glória. Aquele, cujo Reino não é deste mundo (Cfr. Jo. 18,36.) , mostrou-me que a verdadeira sabedoria consiste em "querer ser ignorada e tida por nada" (Imit. de Cristo I 2,3.) , — "em fazer constar a alegria no desprezo de si mesmo"... (Imit. de Cristo III 49,7.) Oh! como o de Jesus, queria que "meu rosto ficasse realmente velado, e que na terra ninguém me reconhecesse" (Cfr. Is. 53,3.) . Tinha sede de sofrer e de ser esquecida... Quão misericordioso é o caminho, pelo qual o Bom Deus sempre me guiou! Nunca me levou a desejar alguma coisa, sem que me desse. Por esta razão, seu amargo cálice pareceu-me delicioso... (...)
~ A Tomada de Hábito ~ Em 5 de janeiro de 1889, à tarde, Thérèse, que completava dezesseis anos, entrou para o retiro que precede a tomada de hábito. Durante quatro dias ela ficaria só consigo mesma, só com as imensidões que trazemos dentro de nós e que não exploramos jamais com medo de nos perdermos nelas. Imensidões que faziam temer os sábios mais reconhecidos ou os mais valorosos guerreiros de Deus! Durante quatro dias ela percorreu sem descanso nem pausa os desertos interiores com a incansável impetuosidade de sua juventude. Não podia falar senão com a priora ou com a mestra das noviças. Tinha direito de se corresponder com suas duas irmãs, irmã Agnes de Jesus e irmã Maria do Sagrado Coração. E disso ela não se privou. Em 6 de janeiro, primeiro dia de retiro e também dia de Reis, escreveu a Marie: Nada perto de Jesus, solidão!... Sono!... Mas ao menos o silêncio!... o silêncio faz bem à alma... Mas as criaturas, oh! as criaturas! (...) As que estão a meu lado são bastante boas, mas há algo que me afasta!(...) Meu único desejo é fazer a vontade de Jesus. (...) Oh! eu não quero que Jesus sofra no dia de meu noivado, gostaria de converter todos os pecadores da terra e salvar todas as almas do purgatório. Solidão, sono e silêncio foram as companhias de Thérèse durante este retiro que ela tanto esperara. solidão da alma na espera do Salvador que não vinha, sono do corpo esgotado pelos rigores da vida do Carmelo, silêncio recebido como uma beatitude. O silêncio sucedeu às falações de suas companheiras durante recreios. Pois, se por um lado ela havia aceito os rigores da vida conventual, por outro não conseguira suportar suas companheiras que, iludidas por seu sorriso permanente, pareciam persuadidas do contrário. Apenas irmã Maria de Gonzaga, irmã Genoveva de Santa Teresa, irmã Febrônia, irmã Agnes de Jesus e irmã Maria do Sagrado Coração viam graça em seus olhos e lugar em seu coração, o mesmo coração que estendia seu amor a todos os pecadores da terra e às almas do purgatório. Thérèse poderia até mesmo recusar o paraíso caso soubesse que alguém sofria no purgatório ou no inferno. No dia 8 de janeiro, e sempre à irmã Agnes de Jesus, ela confessou: "Creio que o trabalho de Jesus durante esse retiro foi o de me separar de tudo o que não fosse Ele..." Neste mesmo dia, mostrou também à irmã Maria do Sagrado Coração toda a sua impaciência: "Mais um dia e serei a noiva de Jesus, que graça!" Sustentada pela esperança desta graça, esperou a saída do deserto, o fim do túnel. Os quatro dias de retiro foram uma prova da qual ela deveria sair vitoriosa. Foi então que irmã Agnes de Jesus fez saber a Thérèse dos tesouros dissimulados pela Santa Face de Cristo: os mistérios do amor escondidos na face do nosso Esposo (...). Compreendi que era a verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo me mostrará que a verdadeira sabedoria consiste em querer ser ignorada e considerada como um nada. Thérèse decidiu acrescentar a seu nome de religiosa essa menção suplementar: "e da Santa Face". Portanto, em 10 de janeiro de 1889, Thérèse Martin passou a ser irmã Teresa de Jesus e da Santa Face. Para celebrar o acontecimento, seu pai mandou para o convento vinho Champagne e um balão-surpresa que, quando aceso, explode numa chuva de bombons. Nesse dia 10 de janeiro, no Carmelo, a cerimônia de tomada de hábito foi presidida pelo bispo de Bayeux, Monsenhor Hugonin. Os Guérin e os Martin estavam lá, mal contendo a emoção que redobrou quando Thérèse saiu da clausura. Vestia, oferecido por seu pai, um vestido de veludo branco ornado com plumas e renda de Alençon, o mesmo tipo de renda sobre o qual sua mãe passara tantos dias e noites... Coroada de lírios brancos, com a auréola de seus cachos louros, tinha a aparência, segundo os presentes, de uma madona flutuando sobre nuvens. Louis Martin acolheu a filha com um "Ah! Eis minha pequena rainha!" A pequena rainha tomou o braço do seu rei e ambos entraram na capela, seguidos pelos membros da família que seguiam dois a dois, como para um casamento. Assistiu-se à missa e em seguida o cortejo voltou a ser formado para chegar à sacristia, onde Thérèse despediu-se dos seus. Trocou intermináveis abraços e depois cruzou o claustro onde as religiosas a esperavam, cada uma portando uma vela acesa. A superiora conduziu Thérèse até o coro, onde aconteceu a tomada de hábito, que os Guérin e os Martin acompanharam através das grades. Monsenhor Hugonin pronunciou as fórmulas sacramentais, enquanto irmã Maria de Gonzaga revestia Thérèse com seu hábito de lã rústica e com o manto branco. A partir daquele momento, Thérèse Martin passou a ser irmã Teresa de Jesus e da Santa Face. Estava tão esplendorosa que Monsenhor Hugonin entoou o Te Deum, contrariando o ritual, pois esse hino só deveria ser cantado por ocasião da profissão de votos. O que se apresentou como um momento de atordoamento não passou, na verdade, de uma ironia do bispo dirigida a seu representante, o padre Delatroëtte, que havia obrigado as religiosas a cantar o mesmo Te Deum em 9 de abril de 1888, na ocasião da entrada de Thérèse no Carmelo. Um ano depois as carmelitas, guiadas por Monsenhor Hugonin, entoaram novamente o Te Deum, que deve ter ressoado bem desagradavelmente nos ouvidos do padre. No final da cerimônia, Monsenhor Hugonin confirmou mais uma vez sua predileção por essa tão jovem carmelita: ele foi de uma bondade paternal para comigo. Posso acreditar que estava orgulhoso por eu ter vencido. Dizia a todos que eu era sua neta. Thérèse não deixara também de ser a filhinha de seu pai, com quem se encontrou no parlatório. Momento de perfeita felicidade. Como símbolo dessa perfeição, nevou sobre Lisieux, como ela havia desejado. A neve, que ninguém poderia ter previsto, surpreendeu a todos, exceto Thérèse: Que delicadeza de Jesus! Prevendo os desejos de sua noiva, lhe ofereceu essa neve... Neve... que mortal, por mais poderoso que fosse, poderia fazer cair neve dos céus para encantar sua bem-amada? Talvez as pessoas se fizessem esta pergunta, mas o certo é que a neve de minha tomada de hábito lhes pareceu um pequeno milagre que espantou toda a cidade. Acharam que eu tinha um gosto bem estranho por gostar da neve! Thérèse amava a neve como um espelho em que podia se encontrar, imaculada.
(Próxima página) A Profissão de Fé Bibliografia: Thérèse de Lisieux — Une vie d'amour; Sainte Thérèse de l'Enfant Jésus et de la Sainte Face. Histoire d'une Ame. Manuscrits autobiographiques. Tradução de Arnaldo Poesia. Imagem do início da página (Image du début de la page) © 2009, Sanctuaire Sainte Thérèse de Lisieux.
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