~ Arte, Literatura e Música Barrocas ~
Num sentido amplo, o barroco pode ser visto como uma
tendência constante do espírito humano e, conseqüentemente, da cultura, presente
em todas as manifestações de nossa civilização, sobretudo na história da arte.
Representa o apelo ao emocional, ou dramático, em oposição à tendência do intelecto
a estabilizar e fixar autoritariamente princípios rígidos. Assim pode-se falar
em barroco helenístico, barroco do período medieval tardio, etc.: momentos de
libertação de formas, em oposição a estruturas artísticas anteriormente
disciplinadas, comedidas, “clássicas”. Em sentido estrito, o Barroco é um
fenômeno artístico e literário estreitamente vinculado à Contra Reforma, o que
parece reforçado pelo fato de que seu maior desenvolvimento se observou nos
países católicos (embora tivesse também acontecido em países protestantes).
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~ O Êxtase de Santa Teresa ~ |
Seria, assim, uma reação espiritualista ao
espírito renascentista imbuído de racionalismo. Ainda que, antes da Contra
Reforma, já tivessem aparecidos traços de estilo barroco, não há duvida de que
a religiosidade constitui um dos traços predominantes desse movimento, mas uma
religiosidade ligada a uma visão do mundo aberta, combinando misticismo e
sensualidade. A designação “barroca” para a arte só lhe foi atribuída muito
mais tarde e tinha, a principio, sentido pejorativo. O Neoclassicismo do séc.
XVIII rejeitava o Barroco como algo sem regras, caprichoso, carente de lógica,
um estilo extravagante. Muitos chegaram mesmo a considerar o Barroco um estilo
patológico, uma onda de monstruosidade e mau gosto. A revalorização ocorreu no
séc. XIX, por via da rejeição dos cânones neoclássicos.
O Barroco renovou completamente a
iconografia e as formas da arte sacra, mas foi também uma arte da Corte,
refletindo o absolutismo dos príncipes no fausto da decoração. Ao contrário do
Renascimento, o Barroco caracteriza-se pela assimetria, pela noção do espaço
infinito e do movimento contínuo, pelo desejo de tocar os sentidos e despertar
emoções. Isso é obtido por meio de efeitos de luz e movimento, de formas em
expansão que se manifestam: em arquitetura, pelo emprego da ordem colossal,
das curvas e contracurvas, pelas súbitas interrupções, pelos esquemas formais
repetidos; em escultura, pelo gosto da torção, das figuras aladas,
planejamentos tumultuados e sobretudo pela dramaticidade; em pintura, por
composições em diagonal, jogos de perspectiva e de encurtamento, pela
obsessiva transmissão de sensações de movimento e instabilidade. Mas,
principalmente, as diferentes artes tendem a se fundir na unidade de uma
espécie de espetáculo, cujo dinamismo e colorido brilho se traduzem em
exaltação.
O Barroco encontrou sua primeira expressão em Roma, entre os arquitetos
encarregados de terminar a obra de Michelangelo: Maderno, depois Bernini,
seguidos por Borromini; são criações de Bernini, o baldaquino da basílica de São
Pedro, o Êxtase de Santa Teresa (considerado por muitos a expressão
máxima da escultura barroca), a fonte dos Quatro Rios; Lanfranco, Pietro da
Cortona e P. Pozzo cobriram os tetos de vôos celestes em trompe-l`oeil. Esse
estilo espalhou-se pela Itália: Piemonte (Guarini, Juvarra); Nápoles (L.
Giordano); Gênova, Lecce, Sicília (séc. XVIII) e Veneza (Longhena e Tiepolo).
Da Itália alcançou a Boêmia, Áustria, Alemanha, Paises Baixos do sul, a
península Ibérica e suas colônias na América. As capitais germânicas desse
estilo foram: Praga (com os Dientzenhofer); Viena (Fischer von Erlach, L von
Hildebrandt); Munique (com os Asam e os Cuvilliés). A Bélgica construiu no
séc. XVII igrejas que lembram a estrutura e o élan vertical do gótico.
Escultores como H. F. Verbruggen aí instalaram seus grandiosos púlpitos, e
Rubens, o pintor barroco por excelência, ali colocou seu universo de formas
cheias de energia.

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Baldaquino de Bernini
– O Altar-mor assenta diretamente sobre o túmulo de São Pedro. Tradicionalmente,
apenas o Papa celebra missa nesse altar, abrigado por um baldaquino de bronze com
29 metros de altura, obra de Gian Lorenzo Bernini. |

Na Espanha, triunfou o barroco churrigueresco
(criado pelo arquiteto José Churriguera), com as suas grinaldas, frutos, flores,
medalhões e volutas que decoravam profusamente as fachadas. A escultura espanhola
do Barroco foi inteiramente consagrada à produção de imagens religiosas, em geral
de madeira, pintadas em cores naturais muitas vezes articuladas, vestidas com trajes
suntuosos e ornamentadas de jóias. A exuberância do Barroco espanhol
implantou-se no México, Peru, Equador, Bolívia e outros paises da América Latina
com mais ou menos vigor. Em Portugal, entre os mais belos exemplos do Barroco
estão a igreja de São Pedro dos Clérigos (iniciada em 1723) o palácio de Queluz
(1758-1790) e a basílica da Estrela (1779-!790); o convento de Mafra, construído
na época de D. João V (1706-1750), embora com planta inspirada no Escorial,
apresenta-se bastante barroco na sobrecarga arquitetural. Na França, o Barroco
penetrou por volta de 1630 (Vouet, Le Vau) e triunfou nas artes decorativas, um
século mais tarde, com o rocaille (embrechado) e rococó, estilos derivados do Barroco.
No Brasil, o Barroco expressou o período
mais efervescente da colônia; teve seu apogeu no século XVIII, perdurando, no
século seguinte, até a chegada da Missão Francesa (1816). Ricamente
representado nas igrejas da Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco e, sobretudo, de
Minas, o Barroco brasileiro impôs seu próprio ritmo de difusão, alterando e
misturando na arquitetura os estilos maneirista, barroco e rococó. A produção
mais importante é a da escola mineira, cujo florescimento é favorecido pelo
ciclo do ouro. Mais original do que a produção litorânea, diretamente
vinculada aos modelos europeus (em Salvador, a igreja de Nossa Senhora da
Conceição da Praia, 1736, em pedra de lioz trazida de Portugal, e o mosteiro
de São Bento, inspirado na igreja de Gesú, de Roma), o barroco mineiro inovou
na estrutura e na forma. Sem romper com a temática religiosa, a escultura de
Aleijadinho expressa uma forte alusão popular e emprega materiais brasileiros,
como a pedra-sabão. Manoel da Costa Athayde pintou no teto da igreja de São
Francisco de Assis, em Ouro Preto, uma madona mulata cercada de anjinhos
igualmente pardos.
Mestres de obra, artífices e artesãos
negros, índios e mulatos enriquecem de mitologias naturalistas e símbolos
pagãos os meios expressivos importados da Europa. Manifestando-se menos nas
fachadas e muito mais nos interiores cobertos de ouro, o Barroco brasileiro
corresponde às primeiras afirmações da nacionalidade e, pelo menos durante
algum tempo, exprime tanto os interesses das camadas dominantes quanto a
criatividade popular. As igrejas das Ordens Terceiras (São Francisco de Assis,
Nossa Senhora do Carmo) reúnem os brancos das classes dirigentes; as
irmandades (de Nossa Senhora do Rosário, das Mercês, da Redenção dos Cativos)
congregam os pretos escravos ou agrupam os mulatos que exercem ofícios
mecânicos (irmandade de São José, do Cordão de São Francisco). Assim, se a
monumentalidade dos templos reforça o poder da Igreja e o fausto da Coroa, as
imagens que o povo venera evocam secretas relações com os orixás africanos
cultuados pelos artífices entalhadores.
Além de Aleijadinho e de Manoel da Costa
Athayde, outros artistas importantes do período são os pintores Caetano da
Costa Coelho, no Rio de Janeiro, e José Joaquim da Rocha, na Bahia; o pintor e
arquiteto Frei Jesuíno do Monte Carmelo, em São Paulo; Mestre Valentim,
escultor, entalhador e arquiteto ativo, no Rio de Janeiro, etc.


Assunção da Virgem Maria
(1723)
Obra de Egid Quirin Asam
Mosteiro de Rohr, Alemanha


~ Literatura Barroca ~
Durante muito tempo o Barroco definiu
apenas as artes plásticas. O conceito aplicado à literatura surgiu apenas no
final do séc. XIX com os trabalhos dos teóricos alemães Jakob Burkardt e,
sobretudo, Heinrich Wöfflin. O termo “barroco” abrange em literatura uma serie
de denominações. Em Portugal e Espanha, seiscentismo, conceptismo (ou
conceitismo), cultismo (ou culteranismo); na Itália, marinismo e seiscentismo;
na França, preciosismo; na Inglaterra, enfuísmo; e, na Alemanha,
silesianismo.
São características do Barroco literário:
linguagem pomposa, imagens sutis e freqüentemente obscuras; musicalidade,
descritivismo, exploração das possibilidades fonéticas da língua, objetivando
salientar os contrastes conceituais; utilização do paradoxo, criando um estilo
rebuscado, onde predominam os jogos de palavras, oposições e idéias abstratas;
procura de imagens e sugestões fora da realidade; virtuosismo; amplo uso de
alegorias, hipérboles, paralelismos, repetições, anáforas e antíteses;
exacerbação dos sentimentos e gosto do requinte; estilo sentencioso e
preocupação moralizante; ritmo sincopado e metáforas sinuosas, espiraladas,
ligando imagens complexas, tais como as volutas que caracterizam o estilo
barroco na arquitetura.
Principais representantes: Góngora,
Quevedo, Cervantes, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Tirso de Molina
(Espanha); Tasso, Marino, Guarini, Della Porta (Itália); Montaigne, Pascal,
Corneille, Racine, Boileau (França); Lily, Donne, Bacon (Inglaterra);
Silesius, Gryphius, Opitz (Alemanha); Sóror Mariana de la Cruz, Hojeda,
Balbuena, Caviedas (América espanhola).
Em Portugal, o Barroco desenvolveu-se entre
1580 e 1680, cobrindo portanto todo o período em que o país esteve sob a
dominação espanhola (1580 e 1640). Fortemente marcado pelo cultismo e
conceptismo, teve como principais representantes: Rodrigues Lobo, Manuel de
Melo, Tomás de Noronha, Sóror Violante do Céu (poesia); Frei Luís de Souza,
Padre Bernardes, Padre Bartolomeu do Quental e Frei Antônio das Chagas
(ficção).
No Brasil, o Barroco literário
manifestou-se na prosa laudatória, na poesia e na oratória sacra e teve como
principais representantes: Gregório de Mattos Guerra (poeta), Manuel Botelho
de Oliveira, Rocha Pita e padre Antônio Vieira (orador sacro).
Assim como a reabilitação do Barroco foi um acontecimento tardio, graças, sobretudo, ao
trabalho de Heinrich Wosfflin (Renascimento e Barroco, 1888; Conceitos Fundamentais
da História da Arte, 1915), a poesia de Gregório de Matos também esteve muito tempo relegada
ao esquecimento. O soneto "A Conceição Imaculada de Maria Santíssima", mostra o estilo inconfundível deste poeta.
A Conceição Imaculada de Maria Santíssima
Soneto
Como na cova tenebrosa, e escura,
A quem abriu o Original pecado,
Se o próprio Deus a mão vos tinha dado;
Podeis
vós cair, ó virgem pura?
Nem Deus, que o bem das almas só procura,
De todo vendo o mundo arruinado,
Permitiria a desgraça haver entrado,
Donde
havia sair nossa ventura.
Nasce a rosa de espinhos coroada
Mas se é pelos espinhos assistida,
Não
é pelos espinhos magoada.
Bela Rosa, ó virgem esclarecida!
Se entre a culpa se vê, fostes criada,
Pela
culpa não fostes ofendida.


~ Música Barroca ~
O período barroco corresponde à criação de gêneros novos (oratório, cantata,
concerto) e à utilização de uma escrita baseada no diálogo (estilo concertante
com baixo contínuo) e ornamentação e marcada pelo gosto pela improvisação e pelo
preciosismo. Os concertos de Vivaldi e numerosas obras de J.S. Bach são típicos
desse período.
A primeira notícia de conjunto de músicos profissionais no Brasil é de 1717,
formado para a chegada do conde de Assumar à vila de São João del Rei. Desde
então, a música sempre foi uma atividade remunerada por todo o ciclo
do ouro.
O seminário de Mariana foi o núcleo formador de músicos, seminaristas e leigos,
instruídos por padres da região. Ecos dessa produção só ocorreram pelos idos de
1770, com José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, que alcançou grande sucesso com
sua vasta obra marcada pelas influências de Mozart e Pergolesi. Os compositores
procuravam estar informados sobre a música européia e graças ao trabalho dos
copistas, a divulgação da música se deu por toda a região de
Minas Gerais.
Pode-se afirmar que em Minas Gerais, no século XVIII, existiu um profissionalismo
musical maior que no resto do continente americano. Essa produção artística,
no entanto, sempre dependeu da vitalidade e das condições econômicas das agremiações
religiosas e seus mantenedores. Portanto, quando se esgotou o ouro das minas e dos rios
esgotou-se também o ciclo cultural artístico barroco.
Todavia, no Brasil, não se justifica o uso da expressão barroco mineiro
para designar a música do fim do século XVIII, que pode ser chamada de
pré-clássica, pois revela influência decisiva de compositores como Mozart,
Haydn e Pergolesi.
~ Arnaldo Poesia ~



Exposição: Luz e Sombra
na Pintura Italiana entre o
Renascimento e o Barroco
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Bibliografia: Estudos Sobre o Barroco, Arnaldo Poesia – Niterói – Edição do
Autor, 1984.
© Arnaldo Poesia, Le Monde de Paris, Quinzaine Littéraire, 1997/2008.
Tous droits de traduction et d’adaptation réservés pour tous pays.