Antônio Francisco Lisboa e sua obra são expressões naturais do
processo de aculturação verificado em Minas durante o século XVIII. O caráter
urbano do povoamento promovido pelas minerações, a intensa miscigenação, a alta
distribuição da riqueza local, o relativo isolamento da área e a debilidade das
elites locais, tanto civis como religiosas, ensejaram, na região,
uma sociedade aberta, progressista e liberal. Distinta das rurais, fortemente
setorizadas e conservadoras, estabelecidas na América colonial, teria,
necessariamente, de objetivar sua singularidade em peculiares
manifestações culturais.
Estas se estimularam e se multiplicaram pelo fato
de terem sido, em grande parte, fruto de iniciativa popular, concentrada em
restrito tempo e espaço.
Antônio Francisco Lisboa não se
constituiu, pois, em fenômeno por acaso acontecido. Embora talvez o maior, foi
apenas um artesão, dentre inúmeros outros de similar talento, cujas obras
refletem o ambiente em que viveram.
O mestre passou a infância e adolescência relativamente sem problemas,
dispondo do apoio e prestígio de seu pai. Mais inclinado às atividades artísticas
do que às técnicas, desenvolveu sua habilidade manual do entalhe da madeira em
retábulos, nos quais se concentrava a arte de seu tempo. Devem tê-lo sensibilizado,
como aprendiz, os das Matrizes de Catas Altas do Mato Dentro, de Mariana e de Vila
Rica, cujos desenhos introduziram, na região, o espírito e detalhes rococós.
Os retábulos que executou e, mais tarde, concebeu, tanto no princípio
como no fim de sua vida, conformaram-se bastante aos esquemas normativamente usados
na região. É nos trabalhos em pedra que seu “estilo” desenvolveu-se e
particularizou-se. Contudo, é nos elementos antropomórficos, e principalmente
nas fisionomias de suas figuras, que se fixaram os traços inconfundíveis de sua
caligrafia escultórica, com os quais se tornam facilmente identificáveis suas
obras não documentadas.
Considerando o reduzido salário que percebia, em
função direta do trabalho diariamente produzido, e tendo em vista a contribuição
de seus auxiliares, o número das obras conhecidas de Antônio Francisco antes se
apresenta escasso do que excessivo.
A documentação já encontrada, referente a algumas
das tarefas nas quais interferiu, revela que estas consumiram anos para se
concluírem. Em várias atuou apenas como perito, autor do risco ou de detalhes.
São muito poucas as peças que esculpiu pessoalmente e por inteiro, e muitas das
imagens que, modernamente, lhe foram atribuídas se classificariam melhor como
de sua “escola”, antes que de sua lavra.
Parece certo haver Antônio Francisco modelado suas obras,
principalmente as figurativas, por gravuras européias, todavia ainda não
identificadas completamente. Isto porque cumpriam específica função de significar
contextos religiosos, não imediatamente captáveis pelos fiéis, senão visualizados,
repetitivamente, de maneira já tradicionalmente consagrada.
Contudo jamais se sujeitou ao modelo escolhido, ajustando-o sempre
a seu gosto pessoal e fértil imaginação. Ademais, não é o tema ou sua composição
que definem a qualidade de obras de arte, dependendo ela, exclusivamente, do
tratamento formal com que estas se objetivam.
O valor dos trabalhos de Antônio Francisco lhes é, pois, inerente
e independe das fontes de inspiração de que se valeu o artista.
Antônio Francisco produziu na juventude mais do que lhe tem sido
atribuído. Sua precocidade comprovada e o prestígio que justificou sua intervenção
nas capelas terciárias da região não deixam dúvidas a respeito.
O nível uniforme de perfeição de todas as suas obras dificulta a
iniciativa de situar no tempo as não documentadas, e a circunstância tem levado à
alternativa de relacioná-las, de preferência, à maturidade do artista. Deve-se ter
em vista, entretanto, que artesãos de categoria normalmente personalizam muito
cedo a maneira pela qual se expressam, a ela mantendo-se indefinidamente fiéis
mesmo quando diversificam a produção.
Devem, pois, ser aceitas como da juventude do mestre pelo menos
algumas das obras que lhe são atribuídas, de data incerta. Por exemplo, o Chafariz
da Samaritana e a decoração de sobreporta da Matriz de Congonhas do Campo.
Antônio Francisco só começa a assumir responsabilidade direta pelos
seus trabalhos aos 28 anos de idade, à época da morte do pai, de cuja tutela se
liberta para herdar-lhe o prestígio. Deixa, então, de ser mero executor de
concepções alheias para ser chamado a também projetá-las.
Suas composições tornam-se mais monumentais e voltadas para a
arquitetura. Todavia, não são conclusivos os argumentos que o apontam como arquiteto,
no sentido modernamente aplicado ao termo. Na época, construções eram delineadas por
engenheiros militares, profissionais de formação escolar, ou condutores de obras com
experiência técnica. Por sinal não se designavam estes como arquitetos,
reservando-se o título aos que acrescentavam, às construções, seu acabamento
artístico.
Como nenhum documento até hoje encontrado — salvo o correspondente a
uma inespecífica e rasurada referência, de São João Del Rei — o confirma como autor
de projetos de construção, sua contribuição a respeito deve ser havida como
limitada a fachadas.
Na arquitetura religiosa de Minas conviveram duas orientações distintas:
uma de conotação erudita, transplantada do litoral brasileiro e de Portugal por
profissionais recém-chegados à região. Define a organização das fachadas em
ordem monumental; torres de cobertura piramidal ou bulbosa integradas e
superpostas ao corpo do templo; nave de planta em cruz latina, subdividida em
arcadas, e nártex. Pertencem a esta orientação as Matrizes de Mariana e Sabará,
embora de construção precária, a Matriz de Catas Altas do Mato Dentro e as
capelas de N. S. do Rosário dos pretos de Vila Rica e São Pedro dos Clérigos de
Mariana.
A segunda orientação, bem mais difundida, resultou da adaptação da
primeira às condições ambientais, desenvolvendo-se a partir do esquema
arquitetônico adotado pelas primitivas ermidas locais. Caracterizam-na fachadas
lisas apenas marcadas pelas duas janelas do coro e porta de entrada; torres
justapostas e naves retangulares.
A capela franciscana de Vila Rica tentou conciliar as duas
orientações mencionadas, mantendo-se fiel ao traçado retangular e aos
frontispícios lisos, mas deixando-se fortemente influenciar pelas curvaturas
regulares que a capela de N. S. do Rosário dos pretos adotara.
Uma das mais importantes características da arquitetura
religiosa mineira da segunda metade do século XVIII é a correspondente ao
ligeiro recuo das torres em relação ao frontispício da nave.
Este recuo, talvez proposto por Antônio Francisco primeiramente
na Matriz de Morro Grande, incorporou-se a todas as capelas cujas fachadas
decorou, com exceção da carmelita de Sabará.
A solução, embora de secundária significação quando analisada
a posteriori, é de extraordinário valor porque com ela alterou-se
fundamentalmente a morfologia anterior dos templos. Com ela autonomizam-se e
verticalizam-se os volumes da construção, ganhando prioritária proeminência a
frontaria da nave e sua decoração.
Frontões e portadas foram as concepções atribuídas a Antônio
Francisco que mais evoluíram no tempo.
O primeiro frontão que, na área, abandonou o partido triangular
para altear-se em ondulação parece ter sido o da Matriz de Catas Altas do Mato
Dentro. O da Matriz de Morro Grande, supostamente proposto por Antônio
Francisco e de orientação idêntica. acrescenta-se, nas laterais inferiores, de
arranques dos catetos e. no coroamento, de cornija apoiada em socos, que
sustenta a cruz entre pináculos. Rebaixa-se o óculo para deixar-se sobrepassar
pela cimalha real.
O segundo frontão atribuído ao mestre, da capela carmelita de Vila
Rica, mantém o mesmo esquema do anterior, mas se faz mais elaborado. Os socos
dos pináculos prolongam-se até a cimalha real e o óculo adota desenho curvilíneo
em “olho-de-boi”. O terceiro, da capela franciscana de Vila Rica, elimina-se dos
apoios da cornija superior, resolve em volutas serpentínicas as curvaturas
laterais, aceita pelouros flamejantes em lugar dos pináculos de coroamento e
completa-se com óculo ampliado, preenchido por relevo figurativo.
O quarto frontão da série, indubitavelmente de Antônio Francisco,
introduziu-se, com desenho quase igual, nas capelas de São Francisco de São João
Del Rei e de N. S. do Carmo de Sabará. Embora fiel ao mesmo esquema dos
precedentes, objetiva-se em complexo perfil de tratamento escultórico.
O quinto, finalmente, da Matriz de São José dei Rei, por precária
execução talvez, volta ao desenho do frontão de Morro Grande
com mínimas alterações.
Nota-se, na evolução da peça considerada, tendência crescente a
desrelacioná-la, função de arremate da cobertura, e o intuito de dar-lhe caráter
puramente decorativo, tanto de coroamento do frontispício
como de sustentáculo da cruz.
As portadas nas quais Antônio Francisco interferiu
desenvolvem-se, como os frontões, em reconhecível seqüência.
A primeira delas, da Matriz de Morro Grande,
define-se em nicho de moldura arquitetônica que se enriquece de detalhes rococós
e de relevo figurativo na segunda, da capela de Bom Jesus de Vila Rica.
Na terceira, da Matriz de Congonhas do Campo, Antônio Francisco
substitui o nicho por cartela, acrescida de conchóides e coroa da Virgem. Se o
nicho podia corresponder à tribuna de retábulos com sua imagem, o novo desenho
inclinou-se preferentemente pelo arremate superior destes, fazendo da própria
porta o vazio do trono.
Na portada da capela carmelita de Sabará a decoração expande-se,
agregando-se de querubins, principiando a cartela a elevar-se da verga por
intermédio de base própria e deixando toda a porta como base do ornato. Igual
solução adota a portada da capela de N. S. do Carmo de Vila Rica, onde arranques
de cornija aberta, sobre as ombreiras e conchóides à feição de asas na emolduração
da cartela, acentuam o caráter de pedestal conferido à porta e o sentido
ascensional da decoração superior.
Na sexta portada da seqüência, da capela carmelita de São João dei
Rei, a cartela substitui-se por medalhão figurativo e os querubins deixam de
flutuar ao alto para se assentarem sobre os arranques que cobrem as ombreiras.
Nas capelas franciscanas de Vila Rica e São João a
seqüência das portadas se conclui, multiplicando detalhes e complexidades. A
ornamentação integra-se à porta; os arranques sobre as ombreiras terminam em
volutas; o medalhão se acrescenta de fita falante esvoaçante e se eleva sobre
duas cartelas relevadas; plumas e elementos fitomórficos, de um barroco mais
avançado, ganham prioridade sobre os conchóides. A composição se estende do
solo ao frontão, em elegante continuidade.
A portada da Matriz de São José Del
Rei, que teria sido a última concebida por Antônio Francisco. exclui-se da
seqüência considerada porque sua execução seguramente não correspondeu ao
desenho proposto.
A gravidade da moléstia que atingiu Antônio Francisco afigura-se
eivada de exageros, principalmente quando referidos a seu aspecto mutilante.
Inúmeros argumentos convincentes conduzem à conclusão de se ter tratado de
achaque comum, provavelmente de fundo infeccioso e reumático.
O envolvimento de suas mãos em panos explica-se perfeitamente
como medida de proteção a ferimentos resultantes de suas atividades e não indica,
necessariamente, que precisasse o mestre de se lhe amarrar instrumentos aos
membros, por mutilados.
O próprio Bretas, em cujo texto se basearam as demais biografias
do mestre, adverte sobre as “exagerações que se vão sucedendo e acumulando...
desde que um indivíduo qualquer se torna célebre”. O retrato que traçou do artista
e alguns episódios de sua vida que contou padecem de evidente sabor ficcional.
Curiosamente, à crescente exuberância e monumentalidade das obras
decorativas de Antônio Francisco corresponde, paralelamente, crescente gravidade
nas expressões fisionômicas de suas figuras. Estas são, a princípio, tranqüilas e
doces, tornando-se, com o tempo, perplexas e, finalmente, trágicas.
Devem ter contribuído para tanto a própria maturidade do mestre,
problemas pessoais e a enfermidade que o atacou. Contudo, não se pode deixar de
observar que as expressões aflitivas dos rostos que esculpiu na última fase de
sua vida coincidem, no tempo, com a decadência regional e com a violenta
repressão desencadeada contra os envolvidos na
conspiração pela independência da colônia.
A iniciativa que tomou de recolher-se a um arraial
isolado e de reduzida importância pode ter resultado do desejo de eximir-se do
clima úmido e frio de Vila Rica, mas pode ter decorrido, também, do propósito
de alhear-se das apreensões vigorantes na sede do governo da capitania.
A significação que conferiu aos profetas de Congonhas do Campo,
enfatizada pelas inscrições que portam, mostram, além de dúvidas, condenação
aos poderosos e esperanças de libertação que se ajustam perfeitamente ao
espírito da Inconfidência Mineira.
O aspecto caricatural de algumas das figuras dos
Passos da Paixão de Congonhas do Campo, naturalmente relegadas à execução de
seus auxiliares, é intencional. Visa identificar o mal com a ridícula feiúra
dos pecadores, dela destacando-se, em crescente perfeição formal, os justos,
cuja beleza culmina em Cristo.
Observa-se, tanto nas imagens de Cristo que esculpiu em
Congonhas do Campo, como nas demais anteriores, a admirável anatomia e o porte
atlético, enérgico e viril que se distancia imensamente das lânguidas e quase
femininas representações tradicionais do Senhor.
Com Antônio Francisco Lisboa culmina e acaba o extraordinário
surto de manifestações culturais que se produziu em Minas durante o século
XVIII.
Ensirnesmados e exauridos, o artista e sua terra
então adormeceram na História, mas apenas para se elevarem em seguida no esplendor
da própria grandeza.
~ Arnaldo Poesia ~
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Bibliografia: Vida e Obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho – Sylvio de
Vasconcelos
São Paulo – Ed. Nacional – Brasília – INL, 1979.
© Arnaldo Poesia, Le Monde de Paris, Quinzaine Littéraire, 1997/2008.
Tous droits de traduction et d’adaptation réservés pour tous pays.

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